Brasil Antigo

 

 

Região Nordeste:

Um grande mistério a ser desvendado

na ‘arte’ rupestre do Brasil

Examinando figuras em painéis do nordeste brasileiro, Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba, Ceará e Bahia, reencontrei no interior baiano uma figura estranha em um grande painel de pinturas localizado próximo ao rio Correntina, cuja reprodução foi elaborada por pesquisadores da UNISINOS e Universidade Católica de Goiás.

 

Por J. A. FONSECA*

De Itaúna/MG

05/09/2020

jafonseca1@hotmail.com

 

 

Inscrição encontrada em Correntina-BA guarda características parecidas com outra, encontrada em Carnaúba dos Dantas-RN.

 

Há muitos anos venho estudando a arqueologia brasileira, focalizando minha atenção especialmente na questão da chamada ‘arte’ rupestre, ou seja, as inscrições que foram deixadas por nossos antepassados nos paredões, grutas e cavernas do Brasil.

 

Diante disto, por meio dos meus artigos tenho destacado a importância desta ‘arte’, no tocante aos seus variados conteúdos e, em decorrência, ao que se refere aos seus autores e às condições que os levaram a produzir tão variada qualidade das figuras, símbolos e representações que, em muitos casos, concorrem numa linha perceptível de explicações incoerentes, uma vez que variam desde manifestações mais simples, de riscos na parede, mãos carimbadas, animais da fauna regional, aves, tipos humanos, figuras geométricas, etc., até gigantescos painéis constituídos de inúmeros ‘objetos’ desconhecidos e sofisticação incompreensível.

 

Em nossos artigos mais recentes estamos dando seguimento a uma abordagem sobre a simbologia desconhecida encontrada nesta ‘arte’ rupestre brasileira, mostrando vários elementos estranhos inseridos nesta ‘arte’ e que são de difícil explicação, principalmente quando as vemos apenas como obra exclusiva de homens primitivos, caçadores-coletores ou moradores de cavernas insalubres.

 

Recentemente, no final deste mês de agosto, examinando figuras em painéis do nordeste brasileiro, Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba, Ceará e Bahia, reencontrei no interior baiano uma figura estranha em um grande painel de pinturas localizado próximo ao rio Correntina, cuja reprodução foi elaborada por pesquisadores da UNISINOS e Universidade Católica de Goiás, e publicado na revista Ciência Hoje nº 47 de out/1988. Esta figura enigmática seria, pois, um novo destaque que pretenderia incluir na sequência do trabalho citado, sobre a simbologia desconhecida na ‘arte’ rupestre do Brasil e a selecionei para este fim.

 

Ocorre, que ao examinar figuras não muito convencionais em estados mais ao norte da região nordeste, como os citados acima, me deparei com uma figura semelhante a esta que encontrei na Bahia, o que me causou grande surpresa. Esta segunda imagem via-a num trabalho publicado pela MNEME – Revista de Humanidades – Dossiê Arqueologias Brasileiras, vol. 6, nº 13, dez/2004-jan/2005, que dá destaque ao incompreendido pesquisador José de Azevedo Dantas, de autoria de Helder Alexandre Medeiros de Macedo, historiador e especialista em Patrimônio Histórico e Cultural e Turismo da UFRN.

 

 

Detalhe do enigmático painel de Correntina (BA).

 

Detalhe do enigmático painel de Carnaúba dos Dantas (RN).

 

O trabalho focaliza os estudos arqueológicos de José de Azevedo Dantas no período de 1924 a 1927, na região de Seridó, localizada no norte do estado da Paraíba (municípios de Parelhas e Picuí) e Rio Grande do Norte (município de Carnaúba dos Dantas), além de suas pesquisas em Xique-Xique, no Ceará. Este pesquisador, de grande importância para a arqueologia do Nordeste e do Brasil, autodidata, em verdade, iniciou seus estudos e registros na terra de seus pais e onde ele próprio residia, a cidade de Xique-Xique citada acima.

 

Relata José Dantas que foi informado de que em diferentes lugares em Carnaúba dos Dantas existiam as pinturas que ele procurava, ora gravadas com tinta vermelha, ora ‘cavadas’ na própria pedra. “Estas últimas que até então eram desconhecidas para mim fui vê-las nas pedras da ‘Grota Funda’ no riacho do ‘Olho d’Água’ e dias depois nas cachoeiras do ‘Bojo’ nas nascentes do mesmo riacho”, comenta. E assim, no calor abrasante daquela região, o pesquisador solitário, de lápis e papel na mão, galgava os penhascos desertos para registrar as inscrições que ali se encontravam.   

 

A figura mencionada e reproduzida por José Dantas é muitíssimo semelhante a que foi encontrada na Bahia, para não se dizer que se trata da uma mesma imagem percebida e produzida em locais tão distantes e por autores diferentes, algo que sob qualquer enfoque que queiramos admitir seria impossível de ocorrer. Ela foi encontrada pelo autor deste artigo em uma das ilustrações feitas em 1924, pelo autodidata nordestino, no local chamado Rochedo do Bojo, pertencente aos Sítios Arqueológicos Casa Santa, em Carnaúba dos Dantas, no Rio Grande do Norte.

 

Conforme pode o leitor ver claramente nas ilustrações deste artigo, ambas as figuras são correspondentes, para não dizer que elas são idênticas, apesar de se localizarem em locais tão distantes, sendo que uma delas está gravada no sertão do Rio Grande do Norte e a outra no sul da Bahia, próximo ao rio Correntina, afluente do rio Corrente, que é afluente do rio São Francisco. Pode-se perceber que a figura que se acha localizada no Rio Grande do Norte é menos elaborada do que a da Bahia, mas seus componentes são os mesmos.

 

 

O painel de Carnaúba dos Dantas (RN), Rochedo do Bojo, reproduzido por este autor a partir do original de José de Azevedo Dantas.

 

A figura localizada no estado da Bahia e que consta do artigo assinado por Pedro Ignácio Schmitz, professor aposentado e antigo catedrático de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e publicada na revista Ciência Hoje supra citada, discute a pesquisa arqueológica na região, foi efetuada por uma equipe interdisciplinar que reuniu ”arqueólogos, geógrafos e biólogos do Instituto Anchietano de Pesquisas-Unisinos e do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia da Universidade Católica de Goiás, sob patrocínio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da Smithsonian Instituition”.

 

Segundo relataram os pesquisadores “nos abrigos e grutas calcárias localizamos sobretudo pinturas feitas com pigmentos minerais, que cobrem os espaços aplanados ao alcance da mão e também pontos hoje quase inatingíveis.  As mais antigas são figuras geométricas ou estilizadas, raramente realistas, em ricas combinações de  colorido preto, vermelho, laranja e às vezes branco.”

 

 

Parte do painel próximo ao rio Correntina (BA) contendo as figuras do painel de Carnaúba dos Dantas (RN), reproduzido por este autor a partir do original publicado na Revista Ciência Hoje, dos pesquisadores da UNISINOS.

 

Segundo Pedro Schmitz estas pinturas estão ligadas à tradição Nordeste e foram encontradas em abrigos próximos aos rios da região pesquisada. Os municípios que foram abordados pela pesquisa no estado da Bahia foram Correntina, Coribe, Santana dos Brejos e Santa Maria da Vitória. O painel da figura em referência é extenso mostrando algo como se fossem atividades de pessoas em funções variadas, animais, aves e figuras geométricas, além de outros elementos muito extravagantes, assim como o que foi visto e desenhado por José Dantas em Carnaúba dos Dantas (RN).

Fato muito significativo em tudo isto é que estes estudos efetuados entre 1981 e 1985 não deveriam ter conhecimento do painel desenhado por José Dantas no Rio Grande do Norte, em 1924, e nem mesmo da inusitada composição de elementos que constituem estas duas figuras, uma vez que não foram mencionadas quaisquer notas a este respeito, apesar de sua pungente e inacreditável força e expressividade.  

 

Tais constatações deixam-nos sem palavras e mais do que isto obrigam-nos a buscar uma explicação razoável para um acontecimento desta monta, além de que eleva em muitos graus a questão dos mistérios, não discutidos, que envolvem muitas das inscrições rupestres brasileiras. Ignorá-las apenas não pode resolver o problema.

 

Mas, o mistério não acaba aí. Examinando o contexto que envolve todos os componentes dos dois painéis – Rio Grande do Norte e Bahia – fomos novamente impactados por uma outra grande surpresa de caráter extremamente relevante. Nossos olhos não acreditavam no que estavam vendo. As figuras do painel desenhado por José de Azevedo Dantas em Carnaúba dos Dantas, em 1924, estão todas inseridas no painel reproduzido no período de 1981-1985 pelos estudiosos dos sítios arqueológicos do sul da Bahia, sendo que este último possui uma quantidade bem maior de figuras na sua composição e sua elaboração é mais cuidadosa. Como explicar uma coisa destas? 

 

Diante de nós estavam dois registros arqueológicos idênticos de duas regiões distintas, que são denominadas pelos pesquisadores de tradição Nordeste, mas que mostram um mesmo acontecimento de caráter não muito comum e mais ainda, perfeitamente coincidentes. Se usarmos de nossa concepção intelectual apenas, fundamentada na pesquisa dos registros que mostram as manifestações dos povos mais antigos e que viviam uma outra realidade histórica, uma coisa como esta seria praticamente impossível de se conceber.

 

No entanto, os registros estão lá e foram documentados por pessoas diferentes e em épocas muito diferentes também. Em nossas muitas décadas de visitas a sítios arqueológicos de norte a sul do país e estudos realizados sobre o assunto, nunca presenciamos uma coisa como esta que demonstramos neste artigo e jamais imaginaríamos que isto pudesse ocorrer em qualquer lugar de nosso planeta.

 

Propusemo-nos, assim, apresentar neste artigo essa tão importante quanto inexplicável realidade histórica do Brasil que classificaríamos simplesmente como inusitada e única e que precisaria receber uma atenção mais refinada dos pesquisadores para, pelo menos, admitir que algo estranho teria acontecido em passado mais remoto de nossa terra. Estes registros falam bem alto na sua mudez pétrea, tanto no que se refere ao seu complexo conteúdo, quanto na sua completa integração de figuras representadas, posicionamento das mesmas e características muito próprias e que não poderiam ter sido criadas de forma tão absolutamente iguais como se apresentam.

 

Este autor reproduziu as duas figuras e anexou suas ilustrações a este artigo para que o leitor veja por si mesmo a quase impossível realidade deste acontecimento histórico gravado em terras brasileiras em épocas muito antigas.

 

 

Mapa indicando a distância das duas localidades em linha reta (cerca de 1200 km).

 

Pode-se ver nas ilustrações que as figuras dos painéis líticos se colocam nas mesmas posturas, tanto as humanoides quanto as de animais e aves, assim como o objeto estranho que parece voar no alto sobre as figuras perplexas de dois adultos e de uma criança ao centro. É perceptível e de difícil entendimento ver como as figuras próximas, mais à direita e abaixo também se mostram com a mesma intrigante expressão. Como se isto não bastasse, mais à direita aparecem animais que sugerem ser de grande e médio portes e que aparecem pintados em cores bem mais claras (o amarelo) próximas às figuras com as quais elas interagem, em ambos os painéis. Como explicar tudo isto?  

 

Este autor fundamentou sua pesquisa exclusivamente em documentos publicados em pesquisas oficiais, e se pergunta: caso estas figuras estejam realmente lá onde foram citadas (o que acredita que estejam) não teremos então um grande problema para resolver sobre o passado do Brasil, tanto no que se refere ao conteúdo enigmático dos painéis das figuras, quanto à sua existência nos dois lugares diferentes e tão distantes entre si?   

 

Sob condições normais, acadêmicas, intelectuais e objetivas não podemos atribuir quaisquer explicações convincentes para esta ‘anomalia histórica’ e muito menos ousar compreendê-la racionalmente. Resta-nos assim, uma condição subjetiva ou não convencional. Qual? 

 

* J. A. Fonseca é economista, aposentado, espiritualista, conferencista, pesquisador e escritor, e tem-se aprofundado no estudo da arqueologia brasileira e realizado incursões em diversas regiões do Brasil. É articulista do jornal eletrônico Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br) e membro do Conselho Editorial do portal UFOVIA. E-mail jafonseca1@hotmail.com

 

- Fotografias e ilustrações: J. A. Fonseca.

 

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Esta matéria foi composta com exclusividade para Via Fanzine©.

 

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