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Isaac Bigio
* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres.
Ele é autor de artigos veiculados em comunidades latinas de todo o mundo.
Seus artigos são enviados com exclusividade ao jornal Via Fanzine.
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Racismo anti-cigano
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
União Européia: política desumana contra paupérrimos.
Cerca de 300 acampamentos ciganos têm sido arrasados na França. No ano passado cerca de 10 mil ciganos foram expulsos da Bulgária ou da Romênia. Vários relatórios mostram que tratores demoliram suas casas e crianças são deportadas.
Os ataques contra imigrantes têm crescido recentemente na União Europeia, mas o que chama a atenção neste caso é que os ciganos são cidadãos originários da Romênia ou da Bulgária, países membros deste bloco.
O presidente Sarkozy alega aos que não detêm nível econômico ou emprego mínimo, mesmo sendo cidadãos da União Europeia (em particular desses dois últimos países que ingressaram à aliança), que eles devem escolher entre uma subvenção “optativa” ou ser removidos aos Bálcãs. A Itália aplaude essa iniciativa que deseja estender aos outros setores imigrantes.
Villepin, rival de Sarkozy na ala direita, sustenta que estas são medidas para captar os votos que desacreditados em sua corrente. O papa Bento XVI tem feito críticas sutis a respeito. Setores católicos da coalizão governista não descartam uma possível incisão do oficialismo, enquanto o nível de aceitação de Sarkozy dentro da população católica praticante (a metade da França) tem baixado de 60% a menos de 50%.
O governo retruca que, para combater à delinquência há que se erradicarem muitos nômades ciganos. Diversos conselhos replicam que o crime deve ser confrontado reduzindo à pobreza e não os pobres.
Os ataques contra os ciganos são resultados de uma política que tem golpeado milhões de imigrantes latinos e do Terceiro Mundo na “Fortaleza Europeia”.
Também soa como um alarme dentro de uma Europa que, desde 1945 busca romper com o passado nazista. Durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler ordenou o holocausto através de massacres e câmeras de gás, contra seis milhões de judeus e entre meio milhão a um milhão e meio de ciganos.
Na Europa medieval, enquanto o povo judeu foi assentado nos negócios urbanos, os ciganos foram nômades especializados em atividades recreativas. Depois da Segunda Guerra Mundial, os judeus impulsionaram a criação do estado de Israel, enquanto conseguiram um consenso internacional, na contramão de qualquer perseguição contra o seu povo.
Ao contrário, os ciganos carecem de um Estado ou de uma representação internacional forte que os defenda. Na Europa é normal ver diários que em seus quadros têm titulares anti-ciganos.
Dez, dos 12 milhões de ciganos que existem no mundo vivem na Europa (a maior parte na UE), sobretudo, nas duas penínsulas extremas do sul (na Ibéria, onde teria até 1,5 milhão deles, e nos Bálcãs), ainda que muitos argumentam que existem entre dois a cinco milhões deles na Turquia.
Acusar aos ciganos de ser sinônimo de “ladrões” (tal como em outras latitudes se faz em relação aos negros) é uma demagogia que permite atrair certa popularidade mas que danifica a coesão social de todo um país e permite que em toda sociedade cresça o câncer do racismo, sobre os ombros dos direitos humanos e a democracia.
"É uma política vergonhosa. É uma estratégia eleitoral. Isto não contribuirá em nada à segurança dos franceses". "Seu objetivo é colocar pressão entre a direita e a esquerda e eu protesto porque a direita francesa não é assim", argumenta Dominique de Villepin.
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Explosão em Bogotá
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Santos, que detém "as chaves" do diálogo.
Na quinta-feira, 12/08, às 5h27, um carro explodiu nas imediações da Caracol, a principal rádio colombiana. O atentado ocorreu cinco dias depois da posse do novo presidente, Santos, e dois dias após o restabelecimento das relações com Caracas.
Fazia muito tempo que a capital colombiana não conhecia carros-bomba. A explosão de um deles próxima a estas datas, soa como uma clara advertência ao novo governo empossado.
A questão é saber de onde vem tal sinal. Para Felipe Muñoz, diretor do Departamento Administrativo de Segurança (DAS), ele teria vindo das FARC.
No entanto, Santos sustenta que há uma investigação e negou acusações diretas à guerrilha, da qual mostra distanciamento da prática de Uribe (ou de outros duros como o espanhol Aznar) de geralmente acusar à esquerda armada de estar por detrás das ações terroristas.
Sugerir que as FARC sejam os autores seria, no mais, contradizer àquilo que o oficialismo reclama: que tais forças estão em retrocesso e que suas frentes militares em torno da capital têm sido desarticuladas a ponto de se tornam impossíveis ataques como esse.
A explosão não buscou matar nenhum militar. Ela ocorreu na madrugada e para chamar a atenção da imprensa. Causou 36 feridos (todos já cadastrados) e afetou mais de 400 moradias.
Por essas razões e pela tática que vinham empregando as FARC com relação ao novo governo, não é tão factível creditar à guerrilha a autoria do atentado.
Meios unidos às FARC têm acusado os paramilitares pelo atentado. Antes de Santos assumir a presidência, o chefe das FARC, Alfonso Cano, enviou a ele um vídeo contendo uma mensagem em que propunha “conversar”, a qual o novo mandatário respondeu que não descartava um diálogo. Por outro lado, Caracas conseguiu se reaproximar de Bogotá, enquanto propõe que a guerrilha colombiana caminhe para uma negociação.
O carro-bomba pode ter sido implantado por algum grupo menos vigiado pelas forças de segurança. Por isso é que a senadora liberal Piedade Córdova acredita que o ato foi articulado por setores paramilitares ou pelo oficialismo, que estão interessados em advertir a Santos a não se distanciar da linha de seu antecessor.
A senadora vincula esse ato terrorista às ameaças que um esquadrão da morte fez contra a vida do congressista Iván Cepeda (do Pólo Democrático), de Rigoberto Jiménez (diretor da Coordenação Nacional de Deslocados) e do advogado Alfonso Castillo.
Enquanto isso, a explosão conseguiu um objetivo. Santos, que inicialmente aceitou a possibilidade de negociar com as FARC, agora modifica o seu discurso, assinalando que, até o momento, as portas estão fechadas para tanto.
Até então, o atentado foi utilizado pela linha dura, para exigir mais firmeza frente à guerrilha; pela oposição, para pedir que o governo também enfrente a sua ala intransigente; e por Santos para informar às FARC sobre uma série de requisitos, se é que eles querem mesmo abrir um diálogo.
Declarações de Santos sobre as FARC
Antes do atentado:
“(...) aos grupos armados ilegais que invocam razões políticas e hoje falam outra vez em diálogo e negociação, digo a eles que meu governo estará aberto a qualquer conversa que busque a erradicação da violência, a construção de uma sociedade mais próspera, equitativa e justa. (...)”.
Após o atentado:
“(...) Nós não guardamos a chave do diálogo no fundo do mar, mas a porta está fechada e se manterá fechada, até que queiram dialogar sobre a paz e demonstrem de forma clara e definitiva a sua verdadeira vontade. (...)”.
“Até haver uma demonstração muito clara das verdadeiras intenções de dialogar para se buscar a paz, com fatos concretos como os que temos mencionado, que libertem aos sequestrados, que deixem o terrorismo, que libertem aos meninos que têm recrutado pela força, que deixem a extorsão, que deixem de atuar como terroristas, até que não vejamos isso, essa chave se manterá muito bem guardada”.
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Guerra e paz entre Colômbia e Venezuela Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Durante 20 dias as relações diplomáticas entre Colômbia e Venezuela ficaram rompidas. A quebra se deu no dia 22 de junho, aos 22 dias da vitória de Juan Manuel Santos no segundo turno presidencial, e a recomposição destas se deu a três dias de seu juramento como o novo mandatário de seu país.
Nos oito anos que durou o governo de Alvaro Uribe (2002-1010) as tensões com seus únicos vizinhos com quem compartilha a mesma bandeira amarelo-azul-vermelho foi aumentando, particularmente na reta final. Depois de março 2008, quando as tropas colombianas capitaneadas pelo então ministro de defesa Santos exterminassem um acampamento das FARC em solo equatoriano, Quito rompeu relações com Bogotá e os exércitos de Equador e Venezuela se mobilizaram.
Gradualmente, os vínculos entre Uribe e Correa foram se recompondo, enquanto a Justiça equatoriana denuncia Santos por ter violado o seu território. Enquanto isso, as pugnas entre Uribe e Chávez - os dois presidentes latino-americanos que mais têm governado simultaneamente -, constantemente chegavam aos planos pessoais.
Depois que Equador decidiu pelo fim da base militar norte-americana em Manta, os EUA chegam a um acordo com Colômbia para estabelecer unidades militares suas dentro de sete bases colombianas. Tudo isso, gera uma série de ataques partindo de Caracas, sustentando que se busca preparar uma invasão contra seu território.
Durante as eleições colombianas Chávez lançou duros ataques contra Santos, o candidato de Uribe, os mesmos foram capitalizados por estes últimos para aparecer como defensores da bandeira do anti-terrorismo. Depois das eleições de 30 de junho, Uribe decidiu que um de seus últimos atos antes de deixar a presidência em 07/08 seria demonstrar a presença de ao menos 1.500 guerrilheiros colombianos em solo venezuelano.
Em resposta a isso, Caracas rompeu oficialmente as relações com Bogotá em 22 de julho, alegando que as provas da presença das FARC e o ELN em seu território são fragmentadas. Enquanto isso, Uribe acentuou suas denúncias e, antes de deixar o poder, ele apresentou uma ação contra Chávez na Corte Penal Internacional e contra a sua república, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Em todo momento, Santos se mostrou reticente a pronunciar, até que assumisse a presidência, enquanto diversos governos buscaram mediação entre ele e Chávez.
Santos decidiu dar um giro nas relações, aceitando restabelecer com Chávez. Isto tem sido interpretado por alguns, como um distanciamento entre ele e seu mentor Uribe e para outros, soa como uma jogada dupla calculada, na qual o ex-presidente atua como a isca e seu sucessor como o pescador.
Colômbia e Venezuela
Quando Caracas rompeu com Bogotá era claro que isso ia ser uma medida circunstancial, a mesma que seria usada por ambas as partes para buscar uma renegociação. Para Chávez, isso implicava chegar no ponto mais baixo possível para, a partir dali, reiniciar uma aproximação. Para Santos, implica em mostrar que ele é diferente de seu mentor, pois ele implantará ao uribismo uma nova fase na qual o prioritário não é tanto o confronto, senão buscar estender as mãos para a oposição (através de um governo de unidade nacional e com a possibilidade de ir para um diálogo com a insurgência) e para seus três vizinhos da ALVA (Venezuela, Equador e Nicarágua).
Se em sua primeira etapa o uribismo mostrou dureza ante a subversão e os “bolivarianos”, na segunda etapa, encabeçada por Santos, este deve buscar consolidar o modelo tratando de esfriar o aquecimento produzido por tanta belicosidade. Agora Uribe, como conselheiro do governo e como possível novo prefeito de Bogotá, deva limitar ao papel de ser a ala dura do regime.
Para Chávez, a recomposição das relações com Bogotá mostra um isolamento ou uma debilitação de Uribe e das forças que, tanto na Colômbia como nos EUA e em seu país, abrigam por um choque militar.
Em verdade, nas atuais condições da retirada norte-americano do Iraque, Washington não está interessado em abrir uma nova frente de guerra no outro lado do mar caribenho e lhe dá as costas. Claro, uma nova guerra, como contra Irã, poderia mudar as coisas.
Por outro lado, Santos é o mais interessado em buscar consolidar o modelo uribista, mas de uma nova maneira. A diferença de 2002 onde o eixo de seu movimento consistia em frear e derrotar à ascendente guerrilha, agora, quando as FARC e o ELN têm sofrido os piores golpes de sua história e quando o eixo do paramilitarismo tem sido desmobilizado ou reabsorvido, sua prioridade consiste em ganhar o maior consenso possível tanto a nível interno como internacional, visando um programa que desenvolva as anteriores políticas econômicas e contra a subversão, mas dando peso a conseguir uma unidade nacional.
O mais provável é que Chávez e Santos mantenham uma relação distante, na qual, ambos tratem de não buscar fortes confrontos pessoais. O novo ocupante do palácio Nariño aproveitará isso para melhorar as relações de sua república com uma América do Sul tomada pela esquerda e para buscar melhorar sua imagem deteriorada internacionalmente com a incursão militar no Equador no 2008.
Enquanto ambos os países buscarão relançar seu comércio bilateral (que chegou aos US$ 6 mil milhões anuais que teve até pouco), ainda que novas tensões não sejam descartadas.
Santos agora deseja que Chávez o ajude a convencer à guerrilha colombiana para que deponha as armas e se insira no processo legal ou eleitoral, para o qual ele tem oferecido poder para se iniciar os diálogos.
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A Bolívia e os seus 185 anos Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
No dia 6 de agosto de 1825 foi proclamada a república de Bolívar, que seria conhecida como Bolívia. Depois de 185 anos faremos uma homenagem a esse país, ao qual este autor considera como uma de suas pátrias, reflexionando sobre suas particularidades.
A Bolívia é um país especial em muitos sentidos. Dos 192 membros das Nações Unidas é a única nação que leva o nome de quem a fundou em vida (o general Simón Bolívar).
Quando nasceu, a Bolívia detinha mais de dois milhões de quilômetros quadrados. Se tivesse mantido seu atual território, este seria comparado ao da Argentina ou seria o maior Estado hispânico. Quatro anos antes de sua fundação, o general Santa Cruz se iniciou no poder (entre 1936-39), quando conseguiu cooptar o Peru para fundar uma confederação, a mesma que deteve 3,5 milhões de quilômetros quadrados: um território maior do que então detinham os EUA ou qualquer outra república do mundo.
Depois do colapso da confederação com o Peru, a Bolívia entrou num processo de desintegração que a converteria na única nação americana que perderia a maioria de sua área para todos os seus cinco vizinhos.
A guerra mais sangrenta entre países no último século foi a do Chaco (1932-35) e envolve a Bolívia (também a América do Sul). Apesar de padecerem 100 mil pessoas nessa guerra, para a idiossincrasia boliviana, não há tanto ressentimento contra quem lhe derrotou nesse conflito (o Paraguai), mas sim, contra o Chile que, em 1879-83 e sem muitas baixas, arrebatou o seu litoral. Desde então, se tornou o maior país sem mar fora da Ásia Central; e hoje as únicas possibilidades para uma saída direta ao oceano é seguir a rota dos austríacos, tchecos ou húngaros, seja, criando uma união política e econômica continental.
A Bolívia é o país com maior percentagem de população ameríndia, não obstante, as duas línguas nativas mais faladas não são oriundas desta etnia. Foram importados o quechua e o aimara, do centro e sul do Peru. Em contrapartida, os bolivianos exportaram ao Peru, os incas, que depois criariam, a partir de Cuzco, o maior império surgido no hemisfério sul. O idioma inicial dos incas e talvez da civilização Tiawanaco foi o puquina, uma língua extinta, talvez, unida à família arawak, que ainda sobrevive na Amazônia e no Caribe.
Enquanto na América hispânica o usual é que a capital seja a sua maior metrópole, onde vive grande parte da população nacional, a Bolívia segue como uma exceção à regra. Sua capital, Sucre, é a quinta cidade em população e as duas maiores urbes, La Paz e Santa Cruz, são quase do mesmo tamanho, fazendo com que ambas rivalizem e criem blocos (ocidente contra oriente). O movimento “camba” é o maior regionalista da América Latina.
De todas as nações americanas, a Bolívia é a única que pode (ainda que não o tenha feito) seguir à senda da Polônia do Século XIX, ou seja, ser repartida entre todos de sua comunidade; ou à da Iugoslávia do Século XX, fragmentar-se.
A Bolívia é o único país americano em que o presidente usa mais de uma bandeira (a nacional, a do Collasuyo e, em alguns casos, de diferentes regiões) e celebra duas festas de ano novo: a cristã, em 1º de janeiro e a andina ou Machaq Mara,no dia 21 de junho.
A Bolívia foi o primeiro país latino sulamericano onde foram criadas juntas separatistas e, paradoxalmente, o último a se constituir. Se em 2010, Venezuela, Argentina, Colômbia, México e Chile celebram seus bicentenários, é porque, em parte, a faísca foi acesa primeiramente no dia 25 de maio de 1809, em Chuquisaca (atual Sucre) e no dia 16 de julho daquele ano, em La Paz.
Apesar de ser a única nação do planeta com o nome de um revolucionário, político ou militar, a Bolívia tem sido aquela a que mais revolucionários, dirigentes, greves gerais e golpes têm sofrido.
A Bolívia afirma ter eliminado o analfabetismo, mas continua sendo o país mais pobre da América do Sul. Apesar disso, do cerro de Potosí fora retirada tanta prata que, dizem, poderia se fazer uma corrente do metal extraído naquele local que ligaria nosso planeta à Lua.
Em 1952 a Bolívia teve a revolução mais radical ocorrida na América do Sul. O partido que tomou o poder (o MNR) levantava consignas marxistas e trotskistas, mesmo tendo sido fundado uma década antes, sob auspicio, simbologia e influências nazistas.
O Movimento de Esquerda Revolucionária da Bolívia foi o único da América Latina que governou com e depois de um ex-ditador anticomunista, Bánzer. Este fora o único “gorila”, tipo Pinochet, ao qual foi permitido retornar eleitoralmente ao poder e, diga-se de passagem, com o apoio da maioria dos partidos.
A Bolívia tem sido o país mais camponês da América do Sul, mas, ao mesmo tempo, o que tem o movimento operário mais militante e radicalizado. Através das greves, mais governos e golpes têm surgido. O movimento operário é o único na região que se propôs como um poder paralelo.
A Bolívia tem sido o arquiteto dos mais diversos ensaios sócio-econômicos. Paz Estenssoro (quem mais governou essa nação) debutou em 1952 na presidência, criando o modelo mais estatizante que, até então, teve a América Latina. Ele iniciou seu último mandato em 1985, quando gerou um dos mais ousados programas monetaristas e privatizantes da região. Hoje, com Evo Morales, esta nação propugna um sistema inspirado no chavismo, mas com maior influência indigenista.
A Bolívia se encontra no coração da América do Sul. Muitas vezes, suas ocorrências influenciam toda a região. De seu socialismo militar e do nacionalismo revolucionário (1936-39, 1943-46 e 1952-64) inspiraram-se depois, desde o peronismo argentino ao velasquismo peruano. O golpe anticomunista de 1971 serviu de exemplo para todas as ditaduras que depois inundariam o cone sul. O monetarismo lançado por Paz e Goni em 1985 seria uma sala de espera para programas de ajustes que Fujimori, Menem e outros aplicariam.
Hoje a Bolívia é o principal promotor da Alva [bloco comercial] no hemisfério sul, enquanto o “autonomismo” da Meia Lua é o principal exemplo de um regionalismo pró-EUA na região.
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Peruanos, colombianos, bolivianos e equatorianos
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Francisco de Miranda
De 20 de julho a 10 de agosto as quatro repúblicas da Comunidade Andina de Nações celebram seus dias de independência. Nesta ocasião, vale frisar, todos os andinos, sem importar em qual lugar tenhamos nascido, são simultaneamente peruanos, colombianos, bolivianos e equatorianos.
Quito, em 10 de agosto de 1809 - depois Chuquisaca (hoje Sucre) e La Paz - foi uma das primeiras cidades hispânico-americanas a declarar sua própria junta governamental autônoma.
Em 20 de julho de 1810, Bogotá seguiu esta tendência e logo após, se inicia um processo que culmina no dia 7 de agosto de 1819, quando as tropas do venezuelano Simón Bolívar libertaram finalmente àquela capital. Na primeira comemoração de 2010, a Colômbia celebrou seu bicentenário de emancipação e na segunda, assumirá o poder no país, seu novo presidente eleito, Juan Manuel Santos.
Em 28 de julho de 1821 o general argentino José de San Martín proclama a independência peruana em Lima. A emancipação, no entanto, só seria consumada quando milhares de patriotas provenientes de todo o continente derrotam os realistas, em 9 de dezembro de 1824, na batalha de Ayacucho. O Alto Peru, depois de ter sido a faísca que em 1809 desencadeou a rebelião emancipadora, se converte, em 6 de Agosto de 1825, no último país latino sulamericano constituído como república (a de Bolívar): Bolívia.
Apesar de estes quatro países possuírem hoje nomes diferentes, podemos dizer que em algum momento essas mesmas denominações uniram todos eles.
Desde meados do século XV, até o século XVII, quase toda a América do Sul e parte da América Central formavam parte do vireinado do Peru, o mesmo que chegou a ter a maior administração colonial europeia da história. Ao leste ocorreu dois grandes desmembramentos: quando Bogotá se converteu na sede do novo vireinado de Nova Granada (entre 1717 e 1739) e quando Buenos Aires se tornou na capital do novo vireinado do Rio da Prata (1776-77), quando esta, e não Lima, passou a reger o Alto Peru.
“Colômbia” foi a palavra criada por Francisco de Miranda para unir o continente de Colombo (especialmente os territórios luso-hispânicos que iam desde a Califórnia até a Patagônia). No entanto, o que era para ser a República da Colômbia se reduziu apenas ao primeiro, que foi um dos quatro vireinados espanhóis (o de Nova Granada) e depois cada uma das quatro repúblicas também se retiraram.
A Colômbia foi originalmente o nome com o qual se buscava expressar os países de fala hispânica e portuguesa nas Américas, o que mais tarde seria conhecido como Ibero-América. Enquanto a Colômbia atual “diminuiria” até se tornar uma das tantas repúblicas do continente de Colombo, o termo Ibero-América se expandiria até se integrar à península ibérica. E está em vias de agrupar todos os países da Ásia e da África, cuja língua, história e cultura, se forjaram em torno da interação entre a Península Ibérica e as Américas.
Bolívar foi o libertador de todas as repúblicas que hoje compõem a Comunidade Andina de Nações, além das do Panamá, Venezuela e partes de Guiana, Chile e Brasil. Por isso é que até agora a todos esses países se designam “bolivarianos”.
O Equador é a linha geográfica que divide o globo ao meio e que passa pelo território de Colômbia, Peru e Equador, e não distante, da de Bolívia. A primeira república a usar a palavra “Equador” não foi aquela criada em 1830 na cidade de Quito, mas a fundada brevemente na orla oposta sulamericana (capitaneada por Recife, em 1824), atualmente a única república hispânica do velho mundo também a usa, Guiné Equatorial.
Todos os que levamos a cidadania ou o passaporte da Comunidade Andina de Nações fomos parte do antigo Peru e do projeto da grande Colômbia de Miranda, e somos parte dos países bolivarianos que ficam geograficamente em torno do Equador.
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Reflexões sobre o bicentenário colombiano
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Mapa original da Grande Colômbia (a parte em laranja foi disputada com o novo estado peruano pós1821).
Desde meados de 2009 a América espanhola vem celebrando vários bicentenários. O dia 20 de julho é a data oficial em que a Colômbia comemora seus 200 anos.
Este fato de por si nos traz várias reflexões:
1) A luta inicial pela separação de Espanha não se deu inicialmente através de líderes e ideologias republicanas e independentistas. Mais sim, foi a própria coroa espanhola que depois da invasão de Napoleão Bonaparte ao seu reino, clamou pela criação de resistências por todos os lados. Este exemplo foi seguido por várias cidades americanas, que, declararam sua fidelidade ao monarca deposto (Fernando VII), mas mantendo-se autônomas ante as juntas de resistência de Andaluzia.
2) Não existiu uma luta total entre europeus contra os americanos. Bem como a conquista espanhola se deu, graças à aliança entre peninsulares e numerosas nações ameríndias, quando as guerras pós-1808 dividiram os americanos (e também europeus), pois muitos espanhóis apoiaram às colônias. Com isso, vários povos com mais influências indígenas se aliaram com Madri contra os separatistas. A luta pela autonomia surgiu de um movimento independentista que dividiu os próprios americanos. No caso colombiano, inicialmente, criou uma guerra civil entre federalistas e centralistas que foi aproveitada pela coroa para reconquistar o país (1815-19).
3) Nesse então, todos os povos desde a Patagônia até a atual Califórnia, com exceção do Brasil (sede mundial do império português) e de alguns territórios do Caribe, se diziam “espanhóis americanos”. As novas juntas americanas originaram uma nova constituição - a de Cádiz (1812) - no império 'panhispânico', que aceitava a igualdade entre espanhóis americanos e europeus.
4) O termo América Latina não existia. Este se imporia meio século depois como justificativo do império francês para se anexar México e aos países que falavam uma língua latina. Este conceito hoje é inadequado, pois não inclui o Canadá (onde se concentra mais de 90% da população americana que fala o francês como língua materna), separa aos países sul e centro americanos entre aqueles que falam um idioma romance. E os que falam inglês ou holandês chegam aos 50 milhões de hispanos nos Estados Unidos da “América Latina”, criando uma suposta identidade latina: a dos povos com origem ibérica, ameríndia ou africana, nenhum dos quais fala o latim, nem provém do berço latino (centro da Itália).
5) Trinidad e Tobago e dois terços da Guiana fizeram parte da Nova Granada. A primeira passou às mãos britânicas no início das guerras napoleônicas e a segunda em conflito com a nova república venezuelana (a mesma que em sua bandeira oficial a reclama como sua oitava estrela). Trinitários e guianeses são hoje os únicos povos americanos, cuja etnia principal provém do subcontinente da Índia. Também por seus laços com a Grande Colômbia, outros países não os consideram parte da América Latina, bem como o Carnaval maior do velho mundo (o de Notting Hill em Londres, o qual se baseia no de Trinidad) não é visto como sulamericano, mas como afro-caribenho.
6) A palavra Colômbia foi criada por Francisco de Miranda (em seu exílio em Londres ou em sua viagem de barco para libertar a Venezuela) para se referir a todo o continente de Colombo. Em 1819 foi designado o vireinado de Nova Granada que se incluía aos atuais, Equador, Colômbia, Venezuela e Panamá, à maior parte da Guiana e outras partes dos atuais Brasil, Peru e Costa Rica.
7) Em 1830 a “Grande Colômbia” se dividiu em três repúblicas que até hoje são as únicas do mundo a compartilhar uma mesma bandeira: Equador, Venezuela e Nova Granada. Esta última depois mudou seu nome duas vezes até que, em 1886, seria criada a atual República da Colômbia, surgida depois da vitória militar conservadora sobre os federalistas.
8) Em 1903, a Colômbia sofreu sua última rescisão quando os EUA promoveram a separação do Panamá para criar uma república que lhe permitisse manter o canal (marítimo) sobre o seu controle.
9) A Colômbia, que foi originalmente a palavra que criaram os libertadores para batizar a todo o continente, se reduziu ao que seria um dos quatro vireinados continentais espanhóis americanos e depois, nos quatro componentes da inicial “Grande Colômbia”. Assim, com o termo “americano” se passou ao oposto. Ou seja, de ser o gentílico do grande continente para designar só um Estado (os EUA) que compõe menos da quarta parte do território total da América.
10) Hoje, todos falam de Colômbia se referindo somente àquela república que Colombo nunca conheceu e que na América compõe somente um dos muitos países, qual está subdividido esse hemisfério. Hoje todos os hispano-americanos são partes do ideal unificador de Bolivar e Miranda que, ao se criar a grande Colômbia, são sim, todos americanos, são sul e centro americanos (quando querem diferenciar-se EUA, ao norte) e são ibero-americanos (quando se enlaçam com todos os países de fala espanhola e portuguesa).
- Imagem: Arquivo:Grande Colômbia 1824 showing disputed territory by Peru.PNG
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Autocrítica trabalhista ao Iraque
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
David Milliband
David Milliband foi o último secretário de relações externas do saliente governo de Brown. Hoje é o favorito para vencer as internas dos trabalhistas e se converter em seu novo dirigente. Suas declarações, portanto, podem ter muita importância.
Ele acaba de dizer que se em 2003 tivesse tido a mesma informação que hoje tem, de que o Iraque não possuía armas de destruição em massa, a guerra não teria ocorrido. Isso implica num giro radical para o trabalhismo, pois Blair se justifica, dizendo que a invasão sempre seria válida como a melhor via para se desfazer de Saddam.
Com suas novas declarações, David Milliband busca dissipar a imagem de subordinado a Blair, enquanto pretende por fim à virada de seu principal rival na eleição pela liderança de seu partido que é, paradoxalmente, seu próprio irmão Ed, que se ateve mais unido à ala de Brown.
David quer se alinhar à grande parte da militância e do eleitorado trabalhista que pensa que o maior erro do governo anterior foi a ocupação do Iraque.
Com essa nova guinada no leme, ele também busca investir no jogo do liberalismo.
Faz dois meses, os liberais se apresentavam como o partido que questionava os trabalhistas a partir da esquerda e de uma ótica crítica às guerras. Agora, David quer reverter isso e pretende minar pela esquerda o liberalismo, que acusa de sacrificar seus princípios para desfrutar de cargos no primeiro governo em que figuram como sócios minoritários desde a Segunda Guerra Mundial.
Se o trabalhismo adota uma forma de autocrítica (ainda que parcial) sobre a guerra do Iraque, isso terá um impacto fora de suas fronteiras.
Essa guerra, que hoje é a principal a se configurar na política mundial, se deu com base na aliança entre a direita republicana dos EUA (Bush) e a centro-esquerda social-democrata britânica (Blair).
O Partido Trabalhista não somente enviou o segundo maior destacamento militar, mas deu ampla cobertura à invasão, pois atraiu ou neutralizou muitos europeus e “socialistas”.
Esta foi a quarta guerra promovida por Blair (recorde na história do trabalhismo no poder) e foi parte da estratégia que alguns descreviam, como a de ser um “cão de guarda” de Washington , buscando assim, a melhor maneira de utilizar a sua ex-colônia na tentativa de reconstruir o poder em suas antigas dependências ou zonas de influência.
Com seu novo posicionamento, o trabalhismo poderia querer se reinventar como um partido supostamente pró-paz na Palestina, Iraque, Afeganistão e Irã.
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Aquecendo uma nova guerra fria?
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Vicky Peláez
Após Medvevev visitar os EUA e manter boa relação com Obama, no domingo (27/06), o FBI capturou uma dezena de cidadãos acusados de serem espiões russos. A guerra fria, que havia se congelado após o desmoronamento do bloco soviético, parece querer sair da geladeira.
A Rússia de 2010 é muito diferente daquela de 20 anos, quando o Kremlin dominava uma coalizão mundial de economias planificadas estatizadas e regidas por partidos comunistas únicos. Em 1991, a União Soviética se desintegrou em 15 repúblicas que promoviam o capitalismo (cuja maior parte é formada por democracias pró-EUA). Três delas (as do Báltico), igualmente aos seis antigos componentes do leste europeu do Pacto de Varsovia, passaram a integrar à OTAN e à União Européia.
O Partido Comunista na Rússia se encontra quase duas décadas na oposição, onde se reciclou como nacionalista pró-democracia multipartidária do mercado.
Washington deixou de se referir a Moscou e ao comunismo como seu inimigo principal e passou a considerar que sua estratégia global passava pelo enfrentamento ao terrorismo islâmico e os estados paralelos. A nova Rússia foi se fazendo um aliado inicial na luta contra a Al Qaeda e os talibãs.
No entanto, novas tensões foram surgindo, à medida que Rússia tem saído de sua derrocada econômica e os EUA vêm perdendo autoridade mundial. Medvevev que deseja deter a instalação de novos mísseis na Europa oriental, trava sanções drásticas que Washington impõe ao Conselho de Segurança da ONU, contra o Irã, além de executar manobras militares navais com a Venezuela e invadir a Georgia.
Com a ascensão de Obama à Casa Branca, os EUA têm buscado se desligar da antiga gerência de Bush e tendido a estabelecer pontes com a Rússia, China, Europa e América Latina. Não obstante, essas aproximações não serão sempre lineares, pois poderá haver choques.
A captura dos espiões russos nos EUA é uma mostra disso e dá continuidade a um recente choque entre Londres e Moscou, que culminou na morte de um desertor russo. Segundo versões russas, o ocorrido mostra a mão forte da ala conservadora norte-americana, que mantém fortes laços com o FBI e busca evitar aproximações entre Obama e Medvevev.
Vicky Peláez
Entre os detidos como espiões da Rússia nos EUA está Vicky Peláez, uma conhecida jornalista nascida em 1955, na cidade de Cuzco (Peru) e seu esposo Juan Lázaro, catedrático uruguaio-peruano.
Peláez trabalhou como repórter da TV Freqüência Latina em Lima e foi viver em Nova York após sofrer um breve sequestro pelo MRTA. Na cidade sede da ONU, ela se converteu em uma das escritoras mais conhecidas do maior diário hispano local, ‘A Imprensa’. Suas colunas semanais mantinham muitas críticas ao sistema. Apesar de suas divergências, este veículo de comunicação a mantinha em seu elenco devido à grande popularidade de seus artigos em determinadas abordagens.
Podiam não concordar com seu radicalismo de esquerda, mas reconheciam muitos dos seus méritos. Em 1995, ela recebeu a condecoração da Associação da Imprensa Hispana dos EUA (influente sociedade de imprensa em castelhano) pela abordagem de um de seus editoriais.
O FBI sustenta que o segmento tinha durado duas décadas e que os suspeitos teriam recebido dinheiro de Moscou, o que poderia custar até 20 anos de cárcere. Peláez diz que os serviços de inteligência interceptaram suas conversas privadas, destroçaram sua casa, onde implantaram microfones e que confiscaram todos seus pertences.
A acusação de que Peláez seria uma agente secreta russa não é fácil de digerir. Ela é uma figura pública, alinhada abertamente com o socialismo cubano, venezuelano e boliviano. Isto, por si, a faz incompatível com o atual governo russo, o mesmo que, desde 1991, faz o possível por desbaratar o velho modelo “leninista” e por reintroduzir o mercado, tendo como o seu principal adversário, o partido comunista russo.
Fontes russas negam a espionagem e alegam que tais capturas obedecem a uma ala conservadora forte no FBI que deseja minar os crescentes laços entre Obama e Medvevev.
Judith Torrea, prêmio Ortega e Gasset de jornalismo, escreveu no ‘El País’, da Espanha, que essas acusações lhes parecem inverossímeis e que a acusada não tem dinheiro para pagar advogados.
O ocorrido é algo que também deveria preocupar às oposições anti-ALVA, pois deverá ser utilizado por Chávez e Castro para demonstrar que a prática pró-democracia dos EUA é inconsistente, pois ela não é aplicada no próprio país.
À margem de as acusações serem ou não verdadeiras, o dever da SIP e de toda entidade jornalística, seria o de garantir que Peláez tenha acesso a uma boa defesa e que sua detenção não seja parte de uma “caça de bruxas”.
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Choque britânico
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Na terça-feira (22/06) o novo governo conservador-liberal britânico anunciou o maior ajuste econômico em uma geração. O choque busca reestruturar o modelo social, no qual, o Estado se retira cada vez mais da economia, enquanto o eixo do crescimento se alicerça no setor privado e em suas exportações.
Para o governo, de todo o grupo das 20 potências, o Reino Unido é a que tem o maior déficit. Enquanto a anterior administração trabalhista falava em corte de £73 milhões (US$ 110 milhões), a coalizão Cameron-Clegg pede um corte 50% maior (de £113 mil milhões ou US$ 170 milhões).
O novo secretário da economia George Osborne propõe “sanear” a economia buscando £3,5 milhões (US$ 5 milhões) através do congelamento de salários públicos, além do corte de £5.5 milhões (US$ 8 milhões) em benefícios aos doentes, desempregados e crianças, gerando £13 milhões extras com reajuste de impostos ao consumo, subindo de 17.5% para 20%, acumulando uma grande soma e eliminando 25% das despesas de todos os ministérios (com exceção de Saúde e Cooperação Internacional).
Antes das eleições de 06/05, os conservadores prometeram que não subiriam o imposto sobre as vendas e os liberais desejavam a manobra. Hoje, estes dois partidos têm lembrado que até janeiro elevarão este imposto a 20%, o que implica em um curto lapso de tempo, no qual o contribuinte vai experimentar o imposto com acréscimo de um terço (com Brown, subiu de 15% para 17.5% e com Cameron, de 17.5% a 20%).
O governo sustenta que se trata de um ajuste duro, mas igualitário, pois afetará a todos. Aceitando o postulado liberal de proteger os mais necessitados, não impõe impostos aos que recebem menos de £10,000 (US$ 15,000) anuais. No entanto, sindicatos sustentam que este reajuste promove uma “guerra de classes”, pois serão os pobres que devem sofrer mais com o imposto ao consumo, vez que, o congelamento de salários e benefícios infantis, deve gerar uma onda de demissões em massa no setor público. Por isso, os atuais e os futuros desempregados terão menos benefícios.
As previsões sustentam que a economia só crescerá 1.2% em 2010 e 2.3% em 2011 (o que implica numa taxa muito inferior à da África) e que a taxa de desemprego será de 8%. A oposição alerta que estas medidas paralisam a recuperação econômica, aumentam o desemprego em números muito superiores aos indicados e geram o risco de o país ter uma inflação de dois dígitos.
Os mercados, ao contrário, têm reagido positivamente, acreditando que tais medidas devem estabilizar a economia. O setor privado é, precisamente, quem fará o teste para ver se o novo modelo vai funcionar e, por isso, tem recebido incentivos, como isenções tributárias. Terá que experimentar, na prática, o que ocorrerá ao Reino Unido e se esta nação conseguirá se transpor rapidamente para um modelo do tipo China ou Alemanha, baseado nas exportações privadas.
Um fantasma que ameaça ao Reino Unido é uma nova onda de protestos sociais e sindicais, enquanto os trabalhistas querem aproveitar o choque para se potenciar a partir da oposição, rompendo com liberais e seus aliados conservadores.
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Nick Clegg: primeiro vice-premier hispano do Reino Unido
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Miriam e Clegg
Nick Clegg converteu-se no novo vice-premiê do Reino Unido. Ele se torna a primeira pessoa que ocupa tal cargo com apenas 44 anos. Militante do partido liberal, fala perfeitamente o castelhano e tem fortes vínculos com as comunidades hispana e iberoamericana.
Ele se casou na Espanha com a espanhola Miriam González Durántez, que se nega a adotar o apelido ou a nacionalidade britânica de seu marido. O casal tem três filhos espanhóis, Antonio, Alberto e Miguel. Durante a campanha eleitoral seus garotos estiveram na casa da avó, na Espanha, país ao qual ele visita regularmente, pelo menos uma vez a cada ano.
Três dias antes das eleições de 06 de maio me encontrei com sua esposa Miriam e perguntei como se sentiria se fosse a única primeira dama espanhola da história do Reino Unido. Ela se esquivou à pergunta, porque acreditava que isso não seria possível, já que os liberais não tinham nenhuma chance de vencer as eleições com a maioria absoluta. Entretanto, Miriam não conseguiu realmente se tornar a primeira espanhola, mas se converteu na primeira vice-primeira dama espanhola do país.
Expectativas
A imprensa espanhola espera que com a designação de Clegg possa haver progressos na resolução do crítico tema de Gibraltar, o ponto estratégico que se situa ao extremo sul da Espanha e que Madri deseja que Londres o retome.
O casal Nick-Miriam também levanta certas inquietudes em toda iberoamérica. Os conservadores prometeram em seu manifesto eleitoral que eles colocariam a América Latina como uma de suas três novas prioridades na política exterior. Charles Tannock, o europarlamentar tory mais votado em Londres e fluente em espanhol e português, sustentou em uma assembléia com os latinos de Londres que reabririam embaixadas ou instituições que o trabalhismo fechou em dita região.
Em especial interesse, Nick e Miriam geram dentro da comunidade de fala hispana e portuguesa no Reino Unido. Os Clegg não são os primeiros hispanos a chegarem ao poder em Reino Unido, mas sim, a subir a Downing Street quando, pela primeira vez na história, o número de iberoamericanos neste país já supera um milhão de pessoas.
Conforme provou fidedignamente o professor Pablo Mateos da University College of London no 2001-2006, havia um quarto de milhão de pessoas com todos os pontos e vírgulas completos hispano-portugueses. Este número implica em mais eleitores que todos os votos registrados em 2005 na terceira cidade mais povoada do país. Ademais, deve ampliar e agregar os novos inscritos ou de que, pese a ser ibero-falantes, têm nomes ou apelidos ingleses ou de outra origem.
A comunidade iberoamericana tem adquirido especial papel nos últimos anos no país. Esta tem sido capaz de promover foros eleitorais em massa, atraindo candidatos a prefeito ou ao governo, bem como assembleias com as autoridades de Londres. Também conformou o maior contingente na maior marcha pró-imigrante da história britânica (em 04 de maio de 2009). Hoje todos os grandes festivais do sul de Londres são em castelhano ou português.
Miriam não é uma pessoa alheia à comunidade iberoamericana. Ela, muito bem, tem desempenhado um papel ativo. É uma das diretoras da Canning House, a principal casa cultural iberoamericana do país.
Uma vice-primeira dama hispana frente à situação dos hispanos
Miriam González é também a primeira vice-primeira dama que não pôde votar em seu esposo. Ela, igualmente aos espanhóis e portugueses, pode votar nas eleições locais ou europeias, mas não nas gerais. Ao contrário, os nacionais da Irlanda, igualmente aos 53 países da Commonwealth, ainda que não sejam residentes permanentes, podem votar nas eleições gerais.
Esta diferença no poder do voto explica como as minorias indígenas, paquistanesa, bangladechiana, serraleonesa, nigeriana, ganesa, entre outras nacionalidades da Commonwealth, possam ampliar sua presença no parlamento e nas esferas do poder. Nestas eleições o número de parlamentares que provém dessas minorias se duplicou (de 14 a 27). Aocontrário, de um a dois milhões de pessoas que residem no Reino Unido e que têm raízes nos países de fala oficial hispana e portuguesa, não tem um membro no Parlamento e também não conseguiram colocar um único vereador em Londres.
A nomeação de Nick e Miriam se dá ao mesmo tempo em que um “conselho de sábios” da União Europeia recomendou o direito ao voto a todos os residentes europeus nas eleições gerais da cada país, com o intuito de incentivar os laços e a interrelação.
De todos os três grandes partidos, os liberais é o partido mais aberto à reforma eleitoral e à União Europeia. Isso poderia fazer com que eles viessem a pressionar pela concessão de direito ao voto nas eleições gerais aos espanhóis, portugueses e a um amplo número de residentes, o qual tem passaportes europeus (bem como, cidadania britânica).
Outra questão a destacar é que Clegg foi o único dos três líderes a propor uma forma de anistia ao quase um milhão de imigrantes irregulares do Reino Unido. Esta só se daria a quem vivesse mais de uma década e que tivesse um bom domínio do idioma inglês e uma ficha criminosa limpa, algo que só beneficiaria a uma minoria dos irregulares.
Não obstante, estas propostas fizeram com que Clegg ganhasse muitos adeptos nas minorias e os liberais se tornaram o único partido que nestas eleições apresentou candidatos iberoamericanos.
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Brown 'Com-Dem-nado'
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
No Reino Unido usa-se a sílaba “Cons” para se referir aos conservadores e “Dems” para se referir aos democratas liberais. Hoje, pela primeira vez na história, estes dois partidos cujos antepassados têm mais de três séculos de existência, firmaram uma coalizão para jogar os “labs” (laboristas ou trabalhistas) do governo nacional.
Tal como o advertia a manchete do principal diário pró-laborista (‘Mirror’), o trabalhista Gordon Brown podia terminar com-dem-nado. Buscando por todos os meios se manter no cargo, Brown anunciou que ele permaneceria como premiê somente por mais três a quatro meses e que seu governo baixaria uma nova lei para reformular o sistema eleitoral.
No entanto, apesar de todas as suas tentativas para se perpetuar no poder, ele acaba de deixar as chaves do número 10 da Downing Street (residência do premiê de sua majestade) ao seu oponente David Cameron.
Durante as eleições os conservadores diziam que quem votasse aos liberal-democratas estaria ajudando para que os trabalhistas mantivessem alguém que lhes permitiria continuar retendo o poder. No entanto, os fatos ocorreram em ordem inversa. São os liberais que têm levado os conservadores a encabeçar seu primeiro governo sem maioria parlamentar, após várias gerações.
A partir do ponto de vista inerente às distâncias que os liberal-democratas mantêm em relação aos conservadores, sabe-se que estas são maiores em relação aos trabalhistas. Enquanto os "lib-dems" são favoráveis à União Europeia (UE), à anistia aos imigrantes irregulares e a eliminar os caros submarinos nucleares, os "cons" querem conceder peso à UE, pedem mais dureza frente aos imigrantes e propõem mais gastos com a defesa.
No entanto, os “lib-dems” só tomaram os coquetéis com os “labs” ara que os “cons” abram mais concessões. Graças aos coquetéis, um outro Nick Clegg se converteu no primeiro vice-premiê liberal-democrata da história. Os “lib-dems” têm conseguido se impor ao partido que mais se opôs à reforma eleitoral, fazendo com que o mesmo aceite se submeter a um referendo, uma leve reforma do sistema eleitoral uninominal.Assim, seria permitido a cada eleitor indicar as suas preferências e o vencedor se sagraria com mais de 50% da votação.
Os “lib-dems” não decidiram formar uma “aliança progressista” com os “labs” por várias razões. Primeiro, porque seria vista como uma coalizão que joga entre os dois derrotados, colocando pela segunda vez consecutiva, um premiê que não liderou uma vitória eleitoral (Brown e seu sucessor). Segundo, porque isso poderia agigantar os conservadores na oposição e agora, decerto, deverão “suavizar”. Terceiro, porque ideologicamente falando, Clegg está na direita de seu partido - e sua esposa Miriam é filha de um senador da direita espanhola.
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Brown se vai; fica o poder do ‘rei Clegg’
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
O premiê Gordon Brown acaba de anunciar que em setembro próximo, quando seu partido promover a conferência anual, os trabalhistas devem designar um novo líder. Isto implica que, atualmente, ele aspira a seguir no governo por não mais que quatro meses.
Tal anúncio é algo que facilitará amplamente as conversas entre liberais e trabalhistas. Nick Clegg, o líder dos liberais, afirmou durante toda a campanha que ele não achava correto que seu partido integrasse o gabinete de um premiê que perdesse as eleições.
Brown, ao se “auto-sacrificar”, busca salvar seu partido e abrir uma ponte para a única opção que resta aos “vermelhos” para seguir regendo o país: uma aliança com os “amarelos”.
Ao se sucumbir, Brown, também, tenta evitar que seu arqui-rival David Cameron seja o seu substituto no poder.
Os liberais, apesar de não ter conseguido nem 9% do parlamento, se converteram no “grande eleitor” do novo governo. Clegg sabe que não pode ser o novo premiê, mas deseja utilizar o trunfo que tem em mãos: de ser quem tem a balança do poder, permitindo jogar entre os conservadores e os trabalhistas.
Primeiramente, ele se aproximou dos conservadores e os pressionou para que adotassem uma série de reformas que lhe convinham, inclusive, o compromisso de estudar a possibilidade de reforma do arcaico sistema eleitoral britânico, incluindo dois turnos e evitando assim, que partidos minoritários praticamente fiquem de fora do parlamento.
Quando a imprensa anunciava a iminência de um pacto conservador-liberal, Brown, desesperado, faz uma nova concessão: o seu cargo.
Desta forma, os liberais sentem que estão envolvendo os seus dois rivais, fazendo com que eles aceitem uma reforma no atual sistema eleitoral - que se não for feita, eles nunca mais poderão voltar ao poder.
Clegg é hoje o "rei" da política britânica. O partido que sempre questionou um sistema tão antidemocrático e monárquico de eleição - no qual, nem o chefe de estado, nem a câmera alta são eleitos e a câmera baixa é nomeada sem nenhuma forma de representação proporcional - acabou sendo a minoria que dirige a maioria.
Hoje, os liberais podem se gabar que, eles, apesar de terem ficado em terceiro nas eleições, estarão presentes no novo governo. Uma das possibilidades seria ao lado dos conservadores, a quem têm desafiado. E a outra seria juntos de um trabalhismo "descabeçado".
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Resultados britânicos: vence a incerteza
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Tradicionalmente, no Reino Unido, aos poucos minutos do encerramento das eleições poderíamos predizer qual seria o novo governo e ao dia seguinte prosseguiria (no cargo) o atual premiê.
No entanto, depois das eleições da quinta-feira (06/05) ainda não se pode assegurar quem vai reger este país. O sistema britânico está desenhado para assegurar que um partido ganhe e governe com a maioria parlamentar absoluta. Agora, pela primeira vez depois de 1929 e 1974, nenhuma sigla chega aos 50% da casa dos comuns (câmara britânica).
Segundo a norma, o premiê deve renunciar, se o principal partido opositor arrebatar mais da metade do parlamento. De acordo com as primeiras sondagens pós-eleitorais, os conservadores venceram nas urnas, mas obtiveram somente 45% da câmera. Isto implica que o atual premiê detenha prioridade para organizar o novo governo.
Gordon Brown agora deve buscar chegar a um acordo com a terceira força (os liberal-democratas) e para isso, vem negociando com a principal reforma que urge a esse partido: a introdução de formas de representação proporcional. Sem estas, os partidários de Clegg nunca poderão aspirar a deixar de ser a eterna promessa de todas as eleições.
Os trabalhistas dizem-lhes aos liberais que ambos são próximos em temas econômicos e por querer também mudar a maneira que funciona o parlamento e, que juntos são os únicos capazes de fazer um governo estável e forte.
Enquanto os “tories” dirão que o público pediu mudança e recusou Brown, o premiê pode retrucar que os conservadores só agruparam a pouco, mais de um terço do eleitorado e que ele poderia se manter no poder baseado por uma aliança de dois partidos que juntos superam o 60% dos votos.
Teoricamente, a indecisão poderia demorar quase duas semanas, mas a baixa da bolsa de Nova York e os protestos gregos podem pôr nervosos aos mercados a ponto de pressionar uma rápida solução.
Os liberais sempre se queixaram de que este sistema eleitoral dá plenos poderes a um partido que possa obter até menos de 40% dos votos, mas desta vez eles, eles ficaram em terceiro, mas são quem retêm o poder de decidir se Brown segue no poder ou se Cameron o substituirá.
Clegg não conseguiu que seu partido avançasse muito em votos ou em cadeiras, mas ele conseguiu se converter no grande eleitor. Antes que a rainha escolha qual será o novo premiê, Clegg se converge com uma sorte de rei, qual terá em suas mãos o poder decidir o nome do novo governante.
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Eleições: revolução britânica
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
A palavra “revolução” é algo muito popular na volátil América Latina, mas é algo que parece como intangível no Reino Unido, onde desde quase três séculos e meio não se conheceu nenhum levante armado e detém estabilidade parlamentar.
Neste país, as mudanças costumam ocorrer gradualmente. No Reino Unido, a administração do Estado é vitalícia e hereditária, os membros da Alta Câmara estarão em seus cargos até falecerem e os parlamentares eleitos, geralmente, se mantêm por décadas em seus cargos.
No entanto, está se produzindo uma revolução lenta no sistema eleitoral. Nesta nação, cada um dos 650 parlamentares é eleito pelos respectivos 650 distritos eleitorais, onde quem costuma vencer com uma mínima percentagem eleitoral acaba vencendo na maioria absoluta dessas comarcas, pelo acumulo superior a 50% da Câmara dos Comuns.
Segundo as pesquisas, o laborismo segue em terceiro, mas mesmo assim, devido a este partido deter seu peso em uma série de regiões, reteria o poder.
Este obsoleto sistema tem começado a ser progressivamente desafiado com a introdução de sistemas de representação proporcional para a eleição dos representantes britânicos ao Parlamento Europeu, para a Assembleia e prefeitura de Londres e para os governos da Escócia, Gales e Irlanda do Norte.
Contudo, o laborismo sabe que o sistema uninominal o permitiria, talvez, se perpetuar no governo. Hoje, acredita que a melhor maneira de atrair votos e arrolar os liberais como aliados, seria oferecer uma nova reforma, implicando que a Alta Câmara seja 100% eleita e que se introduza, de uma forma, um segundo turno na eleição de cada um dos parlamentares.
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Eleições britânicas: Reino Unido próximo de mudança histórica
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Eleições muito disputadas
Na quinta-feira 06/05 serão realizadas as eleições mais decisivas e disputadas do último terço de século na história do Reino Unido.
Desde 1979 este país tem tido só dois governos. Um deles é o conservador (1979-1997: que teve quatro mandatários e dois premiês, Margaret Thatcher e John Maior). O outro é o laborista (1997-2010: que elegeu três mandatários e também dois premiês, Tony Blair e Gordon Brown).
Nestas eleições, segundo todas as pesquisas, na ponta estão os conservadores, o que poderia indicar a produção de uma terceira mudança de partido no poder em mais de três décadas. No entanto, cada vez mais cresce a possibilidade de que os “tories”, ainda vencendo nas urnas, não consigam mais de 50% da câmara dos comuns ou que, inclusive, tenham menos parlamentares que os laboristas. Tudo isso abriria as portas para uma situação de instabilidade, indicando que o próximo premiê dure pouco no cargo.
Uma democracia restringida
Para se entender melhor o processo britânico e suas implicâncias se fazem necessárias explicar as particularidades do sistema da Grã-Bretanha, que declara ser a potência com a democracia ininterrupta mais antiga do mundo. Durante mais de três séculos não houve nenhuma guerra civil, golpe ou ocupação estrangeira. A estabilidade de seu parlamento se deu, em parte, devido ao fato de se tratar de uma democracia que restringe a democracia.
Enquanto em outras repúblicas o chefe de Estado é eleito por um prazo prefixado, no Reino Unido este é hereditário e vitalício. A monarquia constitucional britânica também carece de uma carta constitucional e é a única potência na qual sua alta câmara não é eleita (mas designada e muitos de seus componentes têm herdado a cadeira).
Se em qualquer república das Américas a população vota em seu presidente, no Reino Unido os eleitores só votam por seu Membro do Parlamento (MP). E cada um destes representa à cada um dos 650 distritos eleitorais, que dividem o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. Na cada uma destas circunscrições votam geralmente menos de 50.000 pessoas.
Graças a este mecanismo o usual é que o vencedor fique com tudo. O sistema britânico está desenhado de tal forma que se garanta que só tenham dois grandes partidos e que, o triunfante possa ter uma absoluta maioria parlamentar e, portanto, um governo unipartidário.
O atual partido com o monopólio do governo (laborismo) venceu as eleições gerais em 2005 com apenas 35% dos votos, mas detém 55% do parlamento.
Diferentemente das repúblicas americanas, não há um cronograma prefixado. No Reino Unido não há primárias nem datas exatas para as eleições. Quando o premiê assim decide, ele pode convocar as eleições, que devem ocorrer um mês após o prazo que ele escolher de maneira unilateral (que nunca podem ocorrer após um quinquênio).
Em 06/05, além das eleições gerais em todo o Reino Unido, vão ocorrer em vários distritos (incluindo os 32 da Grande Londres), eleições para vereadores.
Em cada bairro são escolhidos os três candidatos mais votados individualmente, que não necessariamente correspondem ao mesmo partido, que deve se juntar à assembleia de vereadores para decidir quem tem de ser o líder do município a ser governado. Este mandato dura quatro anos e também inclui o prefeito (cargo rotativo anual que tem um papel mais de representação cerimonial).
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Mudanças à vista: Eleições gerais no Reino Unido
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves David Cameron
Na terça-feira (06/04) Brown convocou eleições gerais no Reino Unido, que ocorrem dentro de um mês, na quinta-feira 06/05. Com estas, não somente pode mudar o destino deste país, mas também virem a influenciar o resto do mundo.
Nos últimos 13 anos o laborismo se manteve no poder durante três mandatos consecutivos. No entanto, em pouco mais de um ano, todas as pesquisas consistentes mostravam que o laborismo vem sendo amplamente ultrapassado pelos conservadores, que podem assumir o poder, como fez há dois anos, ao conquistar a prefeitura de Londres.
Quando, em 1997, Tony Blair levou o “novo laborismo” ao premierato britânico, ele propôs uma via intermediária entre o privatismo, os neoliberais e o forte estatismo dos velhos laboristas. Assim, se criou a doutrina da “terceira via”, que seria seguida inicialmente por gente tão distinta como Chávez na Venezuela, Toledo no Peru ou Fernando Henrique Cardoso no Brasil.
Sua ideia de empurrar à socialdemocracia para o centro e para cooperar mais com os EUA tem influenciado outros partidos da Internacional Socialista na Europa, bem como a muitos dos esquerdistas que recentemente têm governado na América Central e do Sul. Entre eles, PS do Chile, APRA do Peru, PLN da Costa Rica, o PT do Brasil, ou FA do Uruguai.
Em 1997 Blair substituiu 18 anos de administrações conservadoras. Esse longo período teve início quando Thatcher decidiu restringir o poder sindical e a forte intervenção estatal na economia, ao lançar o modelo monetarista que criaria o vocábulo “privatização”, que acabaria tendo seguidores em todo mundo.
O modelo de Thatcher pós-1979 e o de Blair pós-1997 alteraram radicalmente a política mundial. Graças ao primeiro, os EUA conseguiram desintegrar a União Soviética e reestruturou a economia global em torno das receitas de livre mercado. Graças ao segundo, os EUA promoveram o unilateralismo, mas também teve início uma corrida, a partir da direita, rumo às políticas “moderadas” em muitas partes do globo.
Tanto Thatcher, como Blair, foram substituídos por premiês de seus próprios partidos, que serviram de transição para uma nova era dominada pela oposição.
Faz mais de um ano, o conservador David Cameron lidera todas as pesquisas. Um eventual governo seu iniciaria uma mudança histórica no Reino Unido para uma forma de “conservadorismo compassivo”. No entanto, existe uma grande possibilidade de que, em vez de surgir um claro vencedor, pela primeira vez desde 1974, se forme um parlamento onde ninguém tenha maioria absoluta. E assim, se daria o início, não de uma nova era dominada por um partido, mas de um interlúdio da crise.
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Olimpíadas de Londres: Uma visita às construções da Vila Olímpica de 2012
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Para assistir como estão sendo construídos os super edifícios que abrigarão as próximas Olimpíadas, uma delegação de dirigentes da Aliança Iberoamericana e das comunidades espanhola e portuguesa do Reino Unido foi convidada com exclusividade a percorrer as instalações. A visita ao novo parque esportivo do Leste de Londres se fez com grandes medidas de segurança, todos os presentes deviam portar passaportes ou outros cartões de identidade.
Os jogos devem ser assistidos por dois em cada três seres humanos (quatro bilhões de pessoas em todo o planeta) e sua sala de imprensa, horizontal, é maior em metros quadrados que o maior arranha-céu do Reino Unido. As obras buscam regenerar a abandonada zona Leste de Londres e preservar a flora e fauna do Lê, um dos afluentes do Thames, que está sendo despoluído e alargado. Cerca de 300 mil árvores estão sendo plantadas e espera-se que as zonas verdes da Vila acabem sendo maiores que aquelas dos grandes parques da região central de Londres.
Milhares de moradias foram edificadas para albergar as delegações esportivas e depois serão vendidas aos londrinos (possivelmente, metade delas seja concedida às instituições e departamentos sociais). Ao finalizar os jogos, deve-se evitar que a Vila se converta em um elefante branco. Alguns prédios serão movidos e instalados noutras partes e o estádio poderá diminuir suas dimensões.
Junto às construções de dezenas de novas instalações desportivas está o projeto para construção, em 2012, do maior mega-shopping de Londres, que estará situado entre o metro de Stratford e a adjacente Vila.
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Premiação do Oscar: Guerra do Iraque derrota Avatar
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Os EUA não só têm o maior arsenal militar da história, mas também o maior maquinário propagandístico e cultural gerado pela humanidade: Hollywood. Este bairro está localizado em Los Angeles, uma cidade criada pelos conquistadores espanhóis, que depois foi arrebatada pelos mexicanos e conquistadores estadunidenses. Hoje serve para conquistar almas e corações de toda a humanidade.
Os livros mais lidos de todos os tempos (como a Bíblia ou o Alcorão) têm menos leitores que os espectadores desses filmes norte-americanos, credenciados a assegurar os valores que esta mega-potência impõe ao resto do globo.
Para desintegrar o bloco soviético, os EUA não lançaram nenhuma bomba atômica, pois, em parte, Hollywood ajudou a vencer a guerra propagandística que minou o ‘comunismo’. Hollywood pode transformar alguém em demônio ou em anjo. O Dalai Lama, por exemplo, ainda que seja um ocultista, teocrata e autoritário, educado por um nazista, tem sido elevado por Hollywood à categoria de um semideus pacificador e democrata.
O acontecimento mais importante no calendário anual de Hollywood é a entrega dos troféus do Oscar, que sempre se centra em produções, diretores e atores norte-americanos. Somente na 82ª versão do evento, pela primeira vez, uma mulher apareceu como vencedora da “melhor direção”. No entanto, essa vitória se fez sobre o filme mais caro e de maior bilheteria da história: Avatar.
‘Guerra ao Terror’, que recebeu o prêmio de “melhor filme”, faz um tributo aos conquistadores norte-americanos que desativam bombas plantadas pela resistência iraquiana (qualificada como ‘terrorista’). Avatar, ao contrário, relata uma relação incômoda junto a estas corporações norte-americanas.
Em parte, deseja desencorajar os inimigos norte-americanos (que defendem à ecologia, os povos nativos e à igualdade social e entre os sexos) ao mostrar que a sociedade perfeita não poderá ser encontrada neste mundo. Enquanto isso, Avatar mostra que a perfeição pode ser obtida graças ao retorno do culto mais primitivo de todos - o da mãe natureza.
No entanto, Avatar incomoda porque tem feito com que muita gente que se opõe à exploração de diversas transações minerais ou petrolíferas em suas respectivas terras, se fantasie com trajes de “avatares” ou busquem inspiração e apoio no enredo desse filme.
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O terremoto do Chile
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
A América Latina foi testemunha de dois grandes sismos em um lapso de poucas semanas. O extremo norte da região (Haiti) foi sacudido em janeiro e Concepção, na região central do Chile, em fevereiro. A intensidade do primeiro terremoto equivaleu a 32 milhões de toneladas de TNT, mas a do segundo equivaleu a 158 bilhões de toneladas deste mesmo explosivo.
Enquanto o sismo chileno foi bem mais poderoso se comparado ao haitiano, produziu menos vítimas que os 250 mil haitianos que padeceram em seu cataclismo. Isto é porque o sismo haitiano ocorreu mais próximo da capital e num país sem muita infra-estrutura anti terremotos.
No entanto, os efeitos do cataclismo chileno geraram dois milhões de desalojados e danos em lugares tão importantes como o aeroporto ou vários museus e edifícios importantes de Santiago, a capital.
O terremoto da madrugada de 27 de fevereiro se deu na costa da região do Bío Bío, o rio mais largo de Chile, que separava aos reinos mapuche dos incas e depois dos espanhóis e da nova republica pós-colonial.
Esse foi o sétimo sismo mais forte já registrado na história, sendo superior ao ocorrido nesse mesmo país, faz exatamente meio século (Valdivia 1960).
Após o sismo chileno, mais de um quarto dos países do mundo decretaram alerta por causa de um possível tsunami, que, felizmente, não teve um caráter global.
Os sismos são produzidos pelo choque entre placas tectônicas subterrâneas. Estes movimentos, durante milhões de anos, estão criando os Andes, os Alpes e o Himalaya e, por vez, têm gerado terras férteis ou com muitos minerais.
O ocorrido em dois pólos da América Latina mostra que outras catástrofes naturais podem ocorrer em meio a esta região ou em qualquer continente. Catástrofes naturais têm produzido todas as extinções em massa de espécies (incluindo à dos dinossauros).
Explosões vulcânicas (sejam por elas mesmas ou produzindo tsunamis) destruíram à maior civilização humana faz 3.600 anos (Creta, que muitos acreditam ter sido a verdadeira Atlântida). Pensa-se que uma destas eliminou à grande fauna (e a quase todos os habitantes) da América do Norte faz 12 a 13 mil anos. E outra ocorrida faz dezenas de milhares de anos no arquipélago em que ocorreu o tsunami indonésio do quinquênio passado quase extermina a toda a humanidade.
O que se passou no Haiti em 12 de janeiro mostrou que, em poucos segundos a Terra pode assassinar mais gente em apenas um local, do que todos os mortos por todas as bombas nucleares ou atentados terroristas juntos da história. No entanto, o eixo da defesa de todos os países se preocupa com despesas militares.
Não há uma única potência que destine a maioria de seus recursos de defesa a proteger a sua população do pior terrorismo de todos (o da natureza). E nem existe uma organização mundial destinada a coordenar a prevenção e imediata resposta de ajuda ante as catástrofes naturais, as mesmas que sempre costumam afetar a mais de um país simultaneamente.
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C.E.L.A.C. deixa EUA e Canadá de fora
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
No dia 23 de fevereiro foi criada a Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribenhos (CELAC). O grupo une os 35 países americanos independentes, exceto às duas potências com maior área e economia (EUA e Canadá) e Honduras (que pode integrar a CELAC desde que esta pequena nação tenha um presidente que seja reconhecido por eles).
Pela primeira vez todos os Estados da América do Sul e Central se unem em torno de um organismo comum. Até hoje os países de dita região tinham tido blocos sub regionais (como as comunidades andina, centroamericana ou caribenha, o Mercosul e a ALVA) e em conjunto só tinham se associado às potências do hemisfério norte.
Quando o mundo ficou polarizado entre Washington e Moscou, a América Latina co-fundou em 1948 (com o apoio de Washington) a Organização de Estados Americanos (OEA), entidade que sempre marchou sob a hegemonia norte-americana a ponto de nunca questionar nenhuma intervenção militar que a Casa Branca realizasse, além de respaldar a suspensão de Cuba.
Quando os EUA venceram a guerra fria, permitiu que os países americanos de idioma espanhol e português desenvolvessem desde 1991 reuniões de cúpula anuais com chefes de estado de suas ex potências coloniais (Espanha e Portugal). A Comunidade Iberoamericana pôde adotar certa independência ante a Casa Branca (como se integrar a Cuba, cujo mandatário, Fidel Castro, figurou junto ao rei espanhol como o seu mais assíduo participante) mas no geral aceitava o modelo do novo liberalismo do Consenso de Washington.
Quando a unipolaridade norte-americana começava a ser questionada pela emergência de novas forças (China, Rússia, Índia, Irã ou Europa), a América Latina criou mais pontes com a União Européia, buscando melhores laços comerciais com a Europa e utilizou isso para renegociar sua tradicional e aguda dependência de Washington. Em 1999 desenvolveu-se a primeira de cinco reuniões de cúpula com a União Européia, na qual, também se integraram os países de língua inglesa e holandesa do Caribe.
Sob o argumento de que os EUA estavam se dedicando às guerras antiterrorismo, e com isso, a China ameaçava lhe tirar o posto de maior potência econômica ou industrial, e dado ao fato de que América Latina foi se dotando de novos governos esquerdistas em um nível nunca antes visto, foram criadas as condições para a criação desta nova Comunidade que une às Américas, mas sem EUA e Canadá.
A CELAC estará sujeita a duas pressões polares. Uma exercida pelo México, Colômbia, Peru, Chile, Panamá, Costa Rica e outros países pró-EUA (que desejam colaborar com Washington e não questionar os TLC com este país). Outra é a que segue a ALVA (quem desejam que este organismo sepulte e substitua à OEA).
O maior país do novo bloco (Brasil) deve servir como ponte entre ambos. Chavez tem proposto que Lula, quando deixar a presidência brasileira, assuma a chefia da CELAC.
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Brasil: ex-guerrilheira na presidência?
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Dilma Roussef e Lula, em lançamento de sua pré-candidatura.
Na hora de eleger seus dirigentes, há duas novidades na América Latina desse Século XXI. Uma é que cresce o número de presidentas; e outra, é que cada vez mais ex-prisioneiros que foram considerados ‘terroristas’ chegam ao poder.
Hoje, Lula decidiu adotar essas duas modas. Em uma, tem conseguido que a candidata oficial de seu ‘Partido dos Trabalhadores’ (PT) para substituí-lo no cargo seja Dilma Rousseff. Ela ocupa o cargo de ministra-chefe da Casa Civil do governo brasileiro (o segundo posto mais importante do gabinete). Quando jovem, Dilma foi uma dirigente da guerrilha urbana ‘Vanguarda Armada Revolucionária Palmares’ (motivo pelo qual foi encarcerada e torturada entre 1970 e 1972).
Apesar da enorme popularidade de Lula não é certo que ela vença a eleição presidencial do dia 03 de outubro. Dilma segue na segunda posição, de acordo com as pesquisas.
No entanto, se Dilma conseguir se eleger, o Brasil se converteria no primeiro país do mundo com mais de 50 milhões de habitantes que tenha uma presidenta. Eleita, ela seria a décima governanta na história americana. E a América Latina pela primeira vez teria simultaneamente três presidentas (ela, Cristina Kirchner da Argentina e Laura Chinchilla de Costa Rica).
Rousseff compartilha com os atuais presidentes do Uruguai (Pepe Mujica) e da Nicarágua (Daniel Ortega), além dos vice-presidentes da Bolívia (Alvaro García) e de El Salvador (Salvador Sánchez), o status de ter evoluído a partir da ‘ala armada do socialismo’, até se tornarem servidores públicos da ‘ala eleitoral capitalista’.
Um eventual governo seu não mudaria muito o Brasil ou à região. E, se ocorrer o contrário e Lula for substituído por um candidato centrodireitista - depois do recente triunfo da direita no Chile -, isso poderia debilitar ou até mesmo reverter à ‘maré vermelha’ que tem inundando a América Latina.
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Costa Rica elege Chinchilla à presidência
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Laura Chinchilla, presidenta da Costa Rica.
Laura Chinchilla será a primeira presidenta da Costa Rica. Ela ganhou amplamente as eleições com quase 47% dos votos válidos.
Muito se fala que Costa Rica acaba e entrar para o clube dos países americanos que têm sido ou são governados por mulheres, incluindo, Chile, Argentina, Bolívia, Panamá, Nicarágua e Jamaica. Paradoxalmente só a Argentina teve duas chefes de estado (enquanto os demais só tiveram uma) e os três países mais povoados do hemisfério (EUA, Brasil e México) só foram regidos por homens.
No entanto, as feministas ou os “progressistas” não devem estar contentes com ela. Chinchilla condena as uniões sexuais gays, o aborto, a pílula do dia seguinte e a separação entre a igreja e o Estado. Isto pode fazer que alguns a rotulem como uma versão latina e católica do conservadorismo social anglo-protestante que encarna Sarah Palin.
Apesar de ser membro da Internacional Socialista, Chinchilla e Arias representam ao setor da socialdemocracia que mais promove as privatizações, o livre mercado e a aliança com os EUA.
Sua eleição deve estar criando mal-estar dentro da ALVA e na esquerda latinoamericana. Se a primeira década do século XXI viu a emergência de novos governos ‘progressistas’ no hemisfério, algo diferente ocorre na virada da nova década. Os quatro países que recentemente elegeram novos chefes de estado na região (Panamá, Honduras, Chile e Costa Rica) escolheram candidatos que se encontram à direita de seus antecessores (como nos três primeiros casos) ou que mantém o mesmo rumo pró-EUA.
Costa Rica é o país mais influenciado pela socialdemocracia na América Latina. No entanto, o peso da ala direita socialdemocrata tem crescido em detrimento à esquerda. Nas eleições presidenciais passadas (2006) o líder da ala pró-TLC da socialdemocracia (Arias) quase empatou em 40% com a sua ala anti-TLC (Solís). Desta vez Chinchilla – que fora então sua vice – aproximou-se de 50% enquanto Solís perdeu a metade de seu eleitorado (caiu 25%) e a força que mais despontou foi a dos “libertários” que pedem dolarização plena (21%).
Obama se valerá da eleição de Chinchilla e de que suas tropas têm conseguido ser aceitas para ocupar Haiti para buscar à readmitir Honduras junto à OEA e para isolar a ALVA (pressionando para que El Salvador não passe a integrar este bloco pró-Chávez).
Blair no banco de réus
Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
No Reino Unido há uma comissão liderada por Sir John Chilcot para inquirir sobre a guerra de Iraque. Depois que vários ministros foram entrevistados, na sexta-feira (29/01) foi a vez do ex-premier Blair comparecer durante seis horas ante as inquisições do painel. Fora do recinto, centenas de manifestantes pediam que ele fosse julgado como criminoso de guerra.
Em março de 2003, Londres e Washington atacaram o Iraque, tendo por base um relatório do Serviço Secreto Britânico, o qual assegurava que o então presidente Saddam Hussein possuía mísseis com bombas químicas e bacteriológicas que podiam ser lançadas em 45 minutos. No entanto, os fatos demonstraram que o Iraque, já fazia tempo, eliminara todas as suas armas de destruição em massa, fato que - segundo o parlamentar ex-laborista Galloway – tornava incorreta a invasão.
Blair disse que, à margem desse erro, o ataque se justificava porque, se não ocorresse, hoje Hussein seria um risco, pois o petróleo teria atingido os US$100 o barril e o Iraque estaria fortemente armado, proporcionando bombas a grupos terroristas.
Uma das coisas que já tinha vindo à luz nas ditas investigações foi que, um ano antes da invasão, Blair oferecera seu apoio a Bush, caso os EUA desejassem optar pela saída militar. Blair lembrou disso e afirmou que ele quis esgotar a via diplomática e que esta foi abortada porque França e Rússia foram se distanciando de qualquer possibilidade de adesão à guerra.
Blair aceitou que a intervenção no Iraque quase fracassou devido a dois fatores: 1) a destruição do serviço público no Iraque; 2) não era prevista a incidência da Al Qaeda e do Irã para desestabilizar o processo. Isto, considerando que a invasão, segundo os EUA, se deu por causa do argumento de que havia conexões entre Saddam e Osama. Para Blair, tal laço não existia, mas toda guerra pode ser justificada contra qualquer Estado "revoltado" e armado (como foi o caso de Iraque e hoje pode ser o do Irã).
Blair não demonstrou remorso algum perante os mais de 100 mil civis iraquianos mortos naquela guerra, nem diante às centenas de baixas britânicas. Por outro lado, ele sugere que depois das guerras no Afeganistão e do Iraque, agora deveria se preparar uma ofensiva contra o Irã, que hoje possui o mesmo risco de possuir armas letais e conexões terroristas.
Blair, ainda se gabou de ter convencido Clinton a atacar os sérvios no Kosovo em 1999. Quem tem sido acusado de ser o 'seguidor incondicional' do militarismo norte-americano tem mostrado ser, talvez, o inverso. Ao querer ajudar ou estimular os EUA a promover guerras, o que ele aponta é que Londres use sua ex-colônia (EUA) para reconstruir as áreas de influência que antes seu império ultramarino dominava.
Eleições presidenciais: Triunfo da direita no Chile Por Isaac Bigio* De Londres Para Via Fanzine Tradução: Pepe Chaves
Piñera venceu o segundo turno das eleições chilenas com 51.61%, contra 48.38%, considerando que no primeiro turno 56% dos chilenos votaram em candidatos que estavam à sua esquerda e a que a saliente presidenta socialista Bachelet acabou considerada muito popular.
A direita chilena acaba de conseguir três grandes proezas. Pela primeira vez venceu uma eleição presidencial em meio século (com maioria absoluta dos votos); derrotou a coalizão cristão-social-democrata (que tem governou o país ininterruptamente por duas décadas e quatro mandatos); e tem feito que neste século os conservadores sulamericanos deponham constitucionalmente os governos que navegavam com a onda esquerdista continental em seu favor.
Até agora somente os países centroamericanos do Panamá (que tinha um desgastado mandatário social-democrata) e Honduras (onde se produziu um golpe apoiado pelo parlamento e o judiciário) tinham desafiado uma regra na América Latina do século XXI, a qual os conservadores seriam incapazes de substituir eleitoralmente os mandatários ‘progressistas’.
Entre Piñera e Frei não há muitas diferenças, mas seu triunfo tende a alentar aos opositores de Morales, Ortega, Correa, Lula, Kirchner e Chávez.
Trata-se da pior derrota sofrida recentemente pela Internacional Socialista nas Américas, a mesma que pode pressagiar sua pior grande derrota na Europa, quando em maio ou junho os tories de Cameron podem vir a substituir os laboristas britânicos.
* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres. Seus artigos são enviados com exclusividade ao jornal Via Fanzine. |
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