HOME | ZINESFERA| BLOG ZINE| EDITORIAL| ESPORTES| ENTREVISTAS| ITAÚNA| J.A. FONSECA| PEPE MUSIC| UFOVIA| AEROVIA| ASTROVIA

 

 Isaac Bigio

 

* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres.

Lecionou política latino-americana na London School of Economics,

é autor de artigos veiculados em comunidades latinas de todo o mundo.

Seus artigos exclusivos são publicados em português por Via Fanzine.

ACESSE O ARQUIVO BIGIO/2012

ACESSE O ARQUIVO BIGIO/2011

Leia também outros textos de Bigio:

www.viafanzine.jor.br/mundo_politico.htm

 

   

Combate ao terrorismo:

O chefe do "Estado islâmico" está morto?

Rússia afirma ter matado o "Califa Ibrahim" e vários de seus principais tenentes.

 

Por Isaac Bigio*

De Londres

Para Via Fanzine

Tradução: Pepe Chaves

21/06/2017

 

Bakr al-Baghdadi, o califa Ibrahim.

Leia também:

Últimos destaques de Via Fanzine

 

Nos últimos três meses, foram promovidos quatro ataques terroristas no Reino Unido. O primeiro foi reivindicado pelo "Estado Islâmico do Iraque e da Síria", grupo assim auto-intitulado (também conhecido na sua região como Daesh ou ISIS), sendo que o último ocorreu na madrugada da segunda-feira 19/06, contra muçulmanos por um racista da extrema direita.

 

Entre as mortes que ocorreram durante o processo eleitoral britânico (Manchester em 22/05 e Londres em 03/06), a Rússia argumenta que desencadeou uma ação mais eficaz contra a cúpula do Estado Islâmico.

 

Moscou e Damasco afirmam que foi executado em 28/05 um bombardeio no sul de Raqqa (a capital síria do Daesh) contra uma suposta conclave do Califado, que teria matado cerca de 30 comandantes e 300 combatentes do Daesh. Um deles seria Abu Bakr al-Baghdadi que, em 2014, foi proclamado como califa Ibrahim para libertar todos os "cruzados" do mundo muçulmano.

 

A Rússia também argumenta que alguns dias depois, em 06 e 08/06 matou outros 180 soldados do Daesh, incluindo dois comandantes importantes nos bombardeios em Deir ez-Zor.

 

Se forem verdadeiros esses relatórios, Putin teria dizimado cerca de cinco centenas de combatentes do Daesh, contendo a maior parte de sua liderança e seu líder supremo, a quem os EUA colocam como o número um em sua lista de "terroristas mais procurados do mundo". Ao contrário de seu mestre Bin Laden, Abu Bakr al-Baghdadi tem sido capaz de proclamar um Estado independente, com milhões de pessoas, detendo muitos bilhões de dólares em reservas e ordenando mais de 100 mil combatentes.

 

Significado

 

Na sua maior expansão, o "Estado islâmico" reivindicou o terço ocidental do Iraque e o terço oriental da Síria, parte do centro da Líbia e territórios no Afeganistão e na Nigéria - até mesmo para controlar as cidades natais dos ditadores mortos na Líbia (Kadafi) e Iraque (Sadan).

 

No entanto, o Daesh sofreu golpes pesados, enquanto suas duas capitais (Raka na Síria e Mosul no Iraque) estão sendo cercadas por diversas forças que variam desde tropas curdas e pró-EUA até xiitas pró-Irã, além de soldados de Assad, apoiados por logística e bombardeios russos.

 

O Daesh representa a terceira onda de jihadismo (partidários da guerra santa contra os sunitas, o judaico-cristianismo e os hereges xiitas). Primeiramente, para derrotar a invasão soviética do Afeganistão, na qual os EUA, Paquistão e a Arábia financiaram e treinaram a Al Qaeda. Depois Bin Laden rompeu com seus parceiros americanos, que atacaram, promovendo a invasão da OTAN no Afeganistão. E por fim, a maioria das forças ligadas à Al Qaeda no Iraque e na Síria rompeu com esta organização e se proclamou como um "Estado" (islâmico) que deveria, então, controlar um território tão grande quanto à Inglaterra.

 

Quando Bin Laden morreu naquele afetado, mas não destruído jihadismo, a Al Qaeda deixou de crescer, dando lugar a setores mais radicalizados, como o Daesh, que cresceu rapidamente. Uma eventual morte do "Califa Ibrahim" e sua política abateria muito o Daesh, mas isso não envolveria a morte de jihadismo, que ainda está se espalhando a outras partes do mundo e poderá dar lugar a novos hierarcas.

 

Base social

 

É um equívoco simplista pensar que o jihadismo é apenas um movimento terrorista. Terror é apenas um método  usado, mas sua tendência traz raízes ainda mais fortes. É verdade que os jihadistas em certos momentos se aproveitaram da OTAN, atacaram seus inimigos "socialistas" dentro do Islã, assim como os governos pró-soviéticos no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, e receberam apoio financeiro ou várias fortunas militares da península Arábica, sobretudo, porque o movimento expressa profundo descontentamento contra o Ocidente.

 

O fato de o Estado Islâmico  conquistar (em 2014) tão rapidamente um terço da Síria e outro do Iraque tem mantido ali o eixo de seus territórios (incluindo Mosul, a segunda maior cidade do Iraque) e mostra que eles têm um apoio social significativo.

 

Se durante os movimentos armados da Guerra Fria que confrontaram as potências ocidentais havia uma tendência a ter uma ideologia socialista secular, do sexo feminino pró-libertação, republicana; quando Moscou rompeu com o "comunismo" e reintroduziu o capitalismo, todos esses movimentos de confronto foram à procura de um compromisso com o Ocidente e suas democracias pró-mercado.

 

Em seguida, o descontentamento contra Israel e as antigas potências que ocuparam o Oriente Médio (como Reino Unido anteriormente dominando o Egito, Sudão, Israel-Palestina, Jordânia, Iraque e Kuwait; e a França, que dominou a Síria e o Líbano) e o fato de os EUA constantemente se aventurar naquela região, começou a canalizar tais descontentamentos anti-ocidente até os movimentos clericais que postulam economias autárquicas e o retorno ao conservadorismo social.

 

O Estado Islâmico expressa de uma forma distorcida que esse descontentamento contra o Ocidente e contra a forma como Paris e Londres distribuíram o Oriente Médio, criaram uma fronteira artificial entre as repúblicas atuais da Síria e do Iraque, que são desafiadas a ser unificadas sob o seu controle em áreas contíguas de ambos os países.

 

- Texto traduzido e editado por Pepe Chaves para Via Fanzine.

 

* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres e colaborador de Via Fanzine.

 

- Imagem : Divulgação.

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2017, Pepe Arte Viva Ltda.

 

*  *  *

 

Atentados:

Como ataques podem influenciar às eleições?

Nunca houve tantos ataques de maneira tão rápida e indiscriminadamente

contra civis britânicos após a Segunda Guerra Mundial.

 

Por Isaac Bigio*

De Londres

Para Via Fanzine

Tradução: Pepe Chaves

07/06/2017

 

Corbyn e May: disputa pelo poder no Reino Unido.

Leia também:

Últimos destaques de Via Fanzine

 

No espaço de dois meses e meio houve três ataques à Inglaterra perpetuados por "combatentes" do Estado Islâmico, grupo também conhecido como Daesh, por sua sigla em árabe.

 

Nunca houve tantos ataques de maneira tão rápida e indiscriminadamente contra civis britânicos após a Segunda Guerra Mundial. O Estado Islâmico pretende tornar-se um novo partido a atuar nas eleições do Reino Unido, não através das urnas, mas com suas armas.

 

A resposta do governo é dizer que apenas os conservadores são capazes de aferir mais controle sobre as redes sociais e a Internet, além de medidas para interrogar suspeitos por mais tempo. Estas questões são geralmente contestadas por organizações de Defesa e dos Direitos Humanos.

 

Os conservadores também argumentam que Corbyn não deseja investir em armas nucleares e está desarmando o país, diante a possíveis ataques, assinalando que, se necessário, estariam dispostos a lançar essas mesmas bombas contra milhares de civis. Os conservadores acusam seu adversário por seu histórico de conversações com o IRA irlandês e o Hamas palestino, lembrando que, anteriormente, Thatcher o acusara, juntamente com Livingstone, de ser um aliado do "Mandela terrorista".

 

Corbyn

 

Corbyn retrucou afirmando que armas nucleares não criam paz, senão massacres. Disse que tratou das negociações de paz sem fomentar a violência junto a esses grupos. Afirmou que May é que viajou à Arábia Saudita para vender um lote de armas, enquanto vários relatórios apontam que esta teocracia - como outras monarquias absolutistas da península Arábica - está investindo fortunas na promoção do extremismo muçulmano. Isso tem ocorrido desde a década de 1970, quando um membro de uma das mais ricas famílias sauditas (Bin Laden) foi insuflado a criar a Al Qaeda.

 

Corbyn argumenta que agora os ataques têm sido ajudados por guerras ocorridas no mundo muçulmano, as quais geraram um vazio no poder, além de ressentimentos, bem como os cortes de milhares de policiais e no orçamento da polícia.

 

Debate

 

Nos últimos dias, a discussão sobre a questão da segurança tem sido largamente debatida. Enquanto os conservadores tentam retratar seus oponentes como fracos ou amigos dos terroristas, o Partido Laborista (Trabalhista) aponta os cortes do governo que privaram a polícia de mais profissionais e de melhorias nos serviços de inteligência.

 

As questões de segurança normalmente ajudam a fortalecer, ao propor uma direita mais dura, como antes da luta contra o terrorismo, algo que incentivou o surgimento de Fujimori no Peru, Uribe na Colômbia, Bush nos EUA e Netanyahu em Israel.

 

No entanto, também foi capaz de gerar um efeito inverso. Foi o que aconteceu na Espanha, em 11 de março de 2004, quando houve uma chacina da Al Qaeda em Madrid. Uma semana e meia, depois, o eleitorado, que inicialmente havia apoiado o Partido Popular (governista conservador) acabou por eleger os socialistas, que acusavam os governistas de ter causado tal ataque, ao intervir militarmente no Oriente Médio, propondo ainda a retirada das suas tropas de lá, para restaurar a segurança interna.

 

Quem se beneficiaria?

 

Até o momento, May vem sendo questionada até mesmo por alguns dos principais ex-funcionários da Polícia, uma vez que os cortes feitos na Inteligência privaram esse órgão de obter dados e ações em prol do policiamento local.

 

Corbyn exigiu a renúncia da primeira-ministra May, a quem ele diz ter enfraquecido a força policial em seus seis anos no Ministério do Interior. Os prefeitos trabalhistas de Londres e Manchester ganharam destaque, exigindo calma e fornecendo segurança às suas populações.

 

Os ataques não reduziram a tendência eleitoral no sentido de diminuir gradualmente a diferença entre conservadores e trabalhistas. A campanha eleitoral começou com uma primeira-ministra muito popular e dobrando as intenções de voto ante a liderança de uma oposição fragmentada, elevando a diferença entre 20 a 25 pontos percentuais. Agora, essa diferença diminuiu (em algumas pesquisas, caíram para até menos de 10 pontos). Uma pesquisa no diário “Independent” diz que, se os eleitores jovens (que geralmente não são obrigados a votar) votassem em massa nos trabalhistas, este partido poderia vencer por até três pontos de vantagem.

 

Estabilidade e segurança

 

Esse tem sido o tema central da campanha de May. A resposta do Estado Islâmico é a sua participação neste processo eleitoral, mostrando que May não pode trazer estabilidade ou segurança, pois a qualquer momento a organização terrorista se mostra capaz de produzir sérios ataques, como o ocorrido em 22 de março passado, lançado contra o mesmo Parlamento Britânico, no qual a primeira-ministra se encontrava no seu gabinete.

 

May, por sua vez, vai querer mostrar que veste o manto de Thatcher, que demonstrou alta capacidade para controlar e derrotar o IRA que havia invadido as Malvinas.

 

A autoridade de May tem sido amplamente enfraquecida por esses ataques e isso deverá refletir nas urnas nessa quinta-feira, 08/06. Se ela conseguir superar o número de parlamentares conservadores irá garantir uma vitória, porém, se este número baixar, ela perderá a maioria absoluta e seu novo governo começaria com o pé esquerdo. Além disso, existe ainda a possibilidade de surgir um parlamento dividido, fazendo com que o Partido Trabalhista possa ser o mais viável a formar um novo governo.

 

* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres e colaborador de Via Fanzine.

 

- Imagem : Divulgação.

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2017, Pepe Arte Viva Ltda.

 

*  *  *

 

Urnas eleitorais:

Eleições polarizadas na Grã-Bretanha

Desde 1930 existem dois partidos alternativos no governo, o dos conservadores e dos trabalhistas. No entanto, em 1983 este bipartidarismo tradicional começou a ser questionado quando a direita do Partido Trabalhista firmou parceria com o liberalismo da minoria para formar o que hoje seria o Partido Liberal Democrático,

 

Por Isaac Bigio*

De Londres

Para Via Fanzine

Tradução: Pepe Chaves

13/05/2017

 

Esta tendência para o crescimento de uma terceira força parece ter sido contida

e revertida nas próximas eleições a serem realizadas no dia 8 de junho.

Leia também:

Últimos destaques de Via Fanzine

 

O sistema britânico é projetado somente para ter duas partes principais: o governo e a oposição. Como os 650 parlamentares não são eleitos na proporção dos votos recebidos nacionalmente, mas refletindo cada um dos 650 distritos eleitorais no Reino Unido, o vencedor costuma ficar com ele.

 

Isso se reflete na natureza da Câmara dos Comuns, que não é um semicírculo, onde seus membros refletem mais ou menos a percentagem dos votos, mas são duas bancadas e uma é a oficial, que geralmente controla um adversário pela maioria absoluta e domina com um único líder e seu gabinete.

 

Desde 1930 existem dois partidos alternativos no governo, o dos conservadores e dos trabalhistas. No entanto, em 1983 este bipartidarismo tradicional começou a ser questionado quando a direita do Partido Trabalhista firmou parceria com o liberalismo da minoria para formar o que hoje seria o Partido Liberal Democrático, que nessas eleições gerais obteve 25,4%.

 

Então, em 2010, Nick Clegg fez essa formação e quase voltou a repetir esse número, chegando a obter 9% do parlamento, tornando-se a força que acabou escolhendo entre o trabalhista Gordon Brown e o conservador David Cameron na disputa para é o primeiro-ministro, vencendo este último.

 

A questão da Brexit também lançou a formação de um novo partido, o UKIP, que passou a ganhar as últimas eleições europeias no Reino Unido por três anos e exceder quatro milhões de votos nas eleições gerais de 2015.

 

Esta tendência para o crescimento de uma terceira força parece ter sido contida e revertida nas próximas eleições a serem realizadas no dia 8 de junho.

 

O liberalismo arrebatou mais de um quinto dos votos na eleição geral, tendo os Tories cooptados em seu governo e, portanto, desacreditando-os. A UKIP, em seguida, acabou perdendo a grande maioria dos seus eleitores quando Theresa May adotou as posições pró-Brexit deste partido nas eleições locais de maio, perdendo todos os seus mais de 140 conselheiros em todo o país.

 

Para esta eleição, nas pesquisas, a UKIP perfaz apenas 5% (em comparação com cerca dos 30% obtidos pelos deputados em 2014) e o liberalismo geralmente não atingiria os 10%, sendo que o primeiro não obteria qualquer parlamentar e o segundo poderia apenas chegar a 3% do número de parlamentares.

 

O que estamos vendo é um novo processo de polarização entre conservadores e trabalhistas, que também promovem May e Corbyn. A primeira diz que a alternativa está entre a cabeça de um "governo estável e forte", e a segunda diz que há apenas duas possibilidades: ou continuar com o governo dos poucos, ou estar com ele para defender muitos.

 

Neste cenário não é fácil prever um avanço dos Liberais e os Verdes que, poderiam talvez, obter apenas dois assentos.

 

Mas a situação é diferente fora da Inglaterra. Na Irlanda do Norte, nenhum dos principais partidos britânicos tem presença e polarização pode ocorrer entre unionistas e nacionalistas.

 

No País de Gales a grande surpresa é que o Partido de Gales, que ficou em segundo lugar nas eleições locais e poderia relegar os Tories ao terceiro lugar, o PES e pesquisas eleitorais haviam previsto que os conservadores venceriam naquele país em uma eleição geral pela primeira vez em um século e meio.

 

O Partido Nacional Escocês governa o país, geralmente recebe mais de 40% dos votos e em 2015 obteve 56 de seus 59 assentos em Westminster. A questão agora é que poderá ser o segundo partido mais votado Unionista. Tanto o SNP e os conservadores que procuram uma polarização à custa do trabalhismo - que há uma década estava lá o partido da maioria e berço de seus dois últimos primeiros-ministros (Blair e Brown). Os conservadores dizem que estão melhor posicionados para enfrentar a tentativa de a SNP para pedir um segundo referendo, já que a SNP pró-independência diz que eles são os únicos que podem defender a Escócia contra os ajustes.

 

O trabalhismo é a primeira força no País de Gales, a segunda na Inglaterra e a terceira na Escócia. Os conservadores são a primeira força na Inglaterra, a segunda na Escócia e a terceira no País de Gales. Se o trabalho se move da segunda para a primeira força na Inglaterra vai ganhar as eleições e se os Tories impedirem de remover o segundo na Escócia continuará a ser uma força significativa. Os conservadores, no entanto, vão avançar para vencer, mas um sintoma de sua força seria terminar em segundo na Escócia e no País de Gales.

 

May chama para uma polarização entre eles e o Partido Trabalhista na Inglaterra e no País de Gales, que também promove Corbyn por lá. Entretanto, no caso da Escócia ambos buscam uma polarização diferente.

 

Se os franceses votarem em sua primeira escolha no primeiro turno isso deverá causar um mal menor no segundo, pois no Reino Unido muitos tenderão ao voto único.

 

Isso deve afetar os liberais e pode enterrar a UKIP. Com esta tentativa de polarizar o Reino Unido entre ela e Corbyn, ambos procuram eliminar o centro. May deverá chefiar e Corbyn aspira surpreendê-lo e, se não vencer, ficará na liderança do trabalhismo por um período de cinco anos.

 

* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres e colaborador de Via Fanzine.

 

- Imagem : Divulgação.

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2017, Pepe Arte Viva Ltda.

 

*  *  *

 

Catolicismo:

Reflexões históricas sobre a Páscoa

O continente natal do Catolicismo é a Ásia, e também o único onde os cristãos não são a maioria religiosa,

mas a quarta religião. Atualmente, menos de 10% da população das terras bíblicas comemoram Páscoa.

 

Por Isaac Bigio*

De Londres

Para Via Fanzine

Tradução: Pepe Chaves

16/04/2017

 

Nem Jesus ou qualquer pessoa - de milhares de pessoas narradas pela Bíblia - sabia

que existiria as Américas, seus povos e civilizações.

Leia também:

Últimos destaques de Via Fanzine

 

O continente que mais comemora a Semana Santa é o americano, o último a ter conhecido o cristianismo, mas onde hoje estão cerca de 95% das 900 milhões de pessoas educadas nesse credo. Paradoxalmente, o continente com o menor percentual de pessoas que celebram este feriado é justamente aquele em que Jesus viveu e morreu e onde foram escritos os dois Testamentos.

 

O continente natal do Catolicismo é a Ásia, e também o único onde os cristãos não são a maioria religiosa, mas a quarta religião (após o islamismo, hinduísmo e budismo). Atualmente, menos de 10% da população das terras bíblicas comemoram a Páscoa.

 

Nem Jesus ou qualquer pessoa - entre as milhares de pessoas narradas pela Bíblia - sabia que existia as Américas, seus povos e civilizações, sua fauna ou seus produtos nativos como, milho, batata, tomate, chocolate, baunilha e outros.

 

Os primeiros cristãos chegaram ao continente em torno do primeiro milênio d.C., quando os Vikings ancoraram na Groenlândia. No entanto, somente mais de cinco séculos depois é que os cristãos descobriram as grandes culturas ameríndias, com suas pirâmides, templos, perus, lhamas, pontes suspensas e outras coisas tão típicas.

 

A maneira pela qual as terras bíblicas se descristianizaram e como as Américas foram evangelizadas foi muito diferente.

 

De acordo com Alberto Houroni, em seu livro “História dos Povos Árabes”, os muçulmanos conquistaram rapidamente o Oriente Médio nos séculos VII e VIII, em parte, devido ao apoio de várias congregações cristãs que desejavam escapar do domínio de outra igreja. Além disso, a igreja nestoriana se tornou a maior do mundo (desde o Mediterrâneo até a China) graças à proteção dos califas. Em seus dois primeiros séculos, o Islam somava 10% da população do Oriente Médio. Mas, a fé muçulmana cresceu rapidamente pregando Jesus como profeta (mas não como Deus) e oferecendo dízimos mais baixos aos convertidos.

 

Durante as Cruzadas muitos cristãos foram massacrados tanto pelos muçulmanos como pelos próprios cruzados.

 

Por sua vez, o Cristianismo prevaleceu nas Américas com muita violência. A chegada dos europeus ao Novo Mundo trouxe epidemias que dizimaram os nativos americanos e, em seguida, a inquisição perseguiu outras religiões e igrejas construídas em templos indígenas. No entanto, vários ritos pré-colombianos, sobreviveram sob a forma de santidades, procissões e festas.

 

Do México, vieram os missionários que transformaram as Filipinas na maior nação católica no Velho Mundo, onde muitos fiéis se auto crucificam durante a Semana Santa.

 

Na América Latina, o Catolicismo se safou de ser ceifado pelas religiões nativas, pelo Islã ou o socialismo ateu, mas não pelo seu principal concorrente: as centenas de novas igrejas cristãs evangélicas, que comemoram suas próprias festividades pascoais e, em alguns cultos, até mesmo sem venerar a santa cruz.

 

I.N.R.I. - Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus

 

A cada "Semana Santa" recorda-se o martírio de Jesus em uma cruz com a inscrição "Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum" (Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus). Esta é uma frase no idioma romano mostrando que Jesus foi executado por esse império, acusado de querer ser o soberano do povo e das religiões judaicas.

 

Hoje um terço da humanidade considera Jesus como divino (os cristãos) e entre um quinto e um quarto como um profeta (os muçulmanos), mas em muitas das vezes confunde-se as ideias que ele pregava com as ideias de seus próprios atuais seguidores.

 

Tal como a sigla INRI confirma, Jesus morreu como judeu, credo em que nasceu, cresceu e do qual nunca se afastou. Como tal, seus costumes foram muito diferentes aos da esmagadora maioria dos milhares de milhões de crentes que o veneram atualmente.

 

O celibato sacerdotal, o natal, as missas, a Santíssima Trindade, os santos, o purgatório, o papado, a adoração de imagens, o calendário cristão, as cruzadas e outros estímulos ao catolicismo são coisas que Jesus desconheceu e que foram sendo incorporadas à maior religião ocidental, mas somente vários séculos após a sua crucificação.

 

As imagens que o representa com rosto europeu é algo que não se apega à realidade. Uma pesquisa da BBC mostrou que o mais provável é que Jesus teria a face parecida com a de outros semitas da Palestina há dois milênios, sob uma pele obscurecida pelo calor do deserto.

 

A Bíblia fala do nascimento de Jesus e de períodos anteriores à sua morte, mas não narra sobre a sua infância e juventude junto aos seus irmãos. No entanto, em nenhum momento menciona que ele tivesse se afastado do culto judaico.

 

Consequentemente, ele deve ter sido circuncidado e realizado as diversas festividades e jejuns hebreus (coisa que hoje 99% dos seus seguidores não mais praticam); considerando-se que os dias tinham início com o começo da escuridão noturna (e não à meia-noite) e que o dia guardado para o descanso era o sábado (onde não se podia cozinhar ou montar) e não o domingo.

 

Eram regidos pelo calendário lunar israelita, cujo ano novo ocorre entre setembro e outubro e é celebrado com orações e depois com um jejum seco de 24 horas. Nas suas refeições só podiam ingerir carne com sangue as autoridades religiosas seguindo os rituais judaicos. Era proibido combinar tais alimentos com leite ou ingerir carne de porco ou frutos do mar. Na última ceia, provavelmente teriam comido o pão-biscoito sem fermento (matzá) com o qual os israelitas lembram-se da travessia de Moisés.

 

Os discípulos de Jesus têm livros sagrados em idiomas distintos como o latim, grego, hebraico, árabe, copta, armênio, etíope, além de várias linguagens modernas, embora poucos milhares atualmente rezem em algum dialeto da língua original que ele pregou os seus sermões: o aramaico.

 

* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres e colaborador de Via Fanzine.

 

- Imagem : Divulgação.

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2017, Pepe Arte Viva Ltda.

 

 *  *  *

 

Eleições:

O Peru seguirá o exemplo da Áustria?

Em ambas as nações da valsa, a extrema direita cresceu graças ao desgaste de governantes que

 chegaram ao poder com os votos da esquerda e alienaram suas configurações de base social.

 

Por Isaac Bigio*

De Londres

Para Via Fanzine

Tradução: Pepe Chaves

24/05/2016

 

Enquanto na Áustria, Norbert avançou pedindo dureza com os imigrantes,

no Peru, Fujimori disse que fará o mesmo com a criminalidade.

Leia também:

Últimos destaques de Via Fanzine

 

Áustria e Peru são os únicos países do mundo que vieram a ter o primeiro e segundo turno das eleições quase ao mesmo tempo. As duas repúblicas com bandeiras branca e vermelha também têm compartilhado vários fenômenos comuns.

 

Nas eleições peruanas de 10 de Abril a filha do ex-autocrata, Keyko Fujimori venceu com 32,64% dos votos expressos, quando todos os partidos que governaram o período pós-ditatorial foram minimizados, após o terceiro governo. Os social-democratas e socialistas cristãos juntos com Alan tiveram somente 4,77%.

 

Nas eleições austríacas em 24 de Abril, os dois partidos que se alternavam no poder desde o fim do nazismo (social-democratas e social-cristãos) caíram após obter o terceiro lugar e a primeira volta foi vencida com 35% de Norbert Hofer do FPO (um partido fundado em 1956 por comandantes da SS de Hitler que estiveram na prisão por seus massacres).

 

Em ambas as nações da valsa, a extrema direita cresceu graças ao desgaste de governantes que chegaram ao poder com os votos da esquerda e alienaram suas configurações de base social. Enquanto na Áustria, Norbert avançou pedindo dureza com os imigrantes, no Peru, Fujimori disse que fará o mesmo com a criminalidade.

 

No entanto, entre as duas repúblicas que antes foram governadas pela monarquia dos Habsburgo existem três diferenças:

 

1) Se na Áustria os votos brancos e nulos foram poucos, no Peru venceu nas eleições para o Congresso e Parlamento e terminaram em segundo para a presidência.

 

2) Se na Áustria o parlamento bicameral está dominado por partidos democratas eleitos proporcionalmente, no Peru, o Congresso unicameral tem menos poder que o executivo e um partido com menos de 25% dos votos deverá controlar mais de 56% de suas cadeiras.

 

3) Se no primeiro turno peruano de 10 de Abril a direita liberal (PPK) ficou em segundo lugar com 17,23%, no primeiro turno austríaco de 24 de Abril o segundo lugar trouxe o centro-Alexander Van der Bellen, com  21%.

 

Em ambos os países a candidatura de extrema direita venceu por 14-15 pontos com um economista septuagenário.

 

No turno final austríaco, em 22 de Maio, Alexander cresceu 30 pontos vencendo com uma vantagem de apenas 0,7%, tornando-se o primeiro presidente verde do mundo.

 

O que aconteceu na Áustria mostra que é possível transpor a vitória inicial da direita dura.

 

O PPK poderia repetir o mesmo no segundo turno peruano, em 5 de junho. Mas, enquanto Alexander nunca se envolveu com os pós-nazista da FPO, ele depende dos setores desfavorecidos e transpõe sua desvantagem inicial, prometendo reformas sociais, enquanto o PPK apoiou Keiko Fujimori na presidência passada (2011), cujo programa econômico é semelhante ao pilar social dos mais ricos.

 

* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres e colaborador de Via Fanzine.

 

- Imagem : Divulgação.

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2017, Pepe Arte Viva Ltda.

 

*  *  *

 

Guinadas da esquerda:

Sadiq triunfa em Londres e Dilma cai no Brasil

No Brasil e em Londres a esquerda assinala caminhos diferentes.

 

Por Isaac Bigio*

De Londres

Para Via Fanzine

Tradução: Pepe Chaves

16/05/2016

 

Simultaneamente, a sorte foi revertida no caso dos dois mais importantes

partidos trabalhistas no mundo: o dos britânicos e o dos brasileiros.

Leia também:

Últimos destaques de Via Fanzine

 

Em agosto, a tocha olímpica será passada de Londres para o Rio. E, de forma interessante, em ambas as cidades, políticos caminharam para lados opostos da mesma semana.

 

Na segunda semana de maio a esquerda se sobrepôs à direita na Prefeitura de Londres, enquanto na República do Brasil aconteceu o oposto.

 

Nas eleições britânicas da quinta-feira, 05/05, o partido Laborista liderado por Jeremy Corbyn ganhou um ponto percentual sobre o conservadorismo, recebendo a maior vitória que um partido jamais arrebatara em uma eleição à prefeitura. Os laboristas arrancaram 14 pontos de diferença sobre os conservadores e na Assembleia de Londres deteve 50% a mais de parlamentares sobre eles.

 

Zac Goldsmith, o golfinho Boris Johnson, foi derrotado pelos conservadores perderam a Câmara Municipal, após oito anos de controle.

 

Em contraste, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, foi temporariamente suspensa do cargo durante os próximos seis meses, quando uma investigação deverá determinar se ela estará apta para reassumir o poder.

 

Simultaneamente, a sorte foi revertida no caso dos dois mais importantes partidos trabalhistas no mundo: o dos britânicos e o dos brasileiros.

 

Enquanto os vermelhos venceram amplamente as eleições de Londres, no Brasil foram removidos do poder sem a intervenção de eleições. No maior país da América Latina foram as assembleias de deputados e senadores que decretaram o impedimento de Dilma, no que ela descreveu como um "golpe parlamentar". Seria algo que a esquerda denunciou como a mesma modalidade que teria sido usada bem antes, em Honduras e no Paraguai para destituir governos constitucionais eleitos pelo voto popular.

 

No entanto, quem assumiu a presidência e que vai comandar o país durante os Jogos Olímpicos será Michel Temer, um homem que chegou à vice-presidência graças ao agora deposto Partido dos Trabalhadores (PT).

 

O Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) de Temer é um dos dois criados na ditadura militar (1964-1985). O PMDB somente uma vez assumiu a presidência por mandato popular (1985-1990). Posteriormente, o partido participou na maior parte dos governos federais posteriores. O PMDB esteve junto com a maioria dos presidentes, enquanto o PT era oposição, mas, em seguida, o PT chegou ao poder. Demonstrando capacidade para atuar junto ao poder, mas recebeu alegações de corrupção.

 

Enquanto a maioria dos parlamentares suspendeu Dilma da presidência, ela que se tornou a mulher mais votada da história do mundo, não sustenta nenhuma acusação de fraude.

 

Os governos de esquerda latino-americanos estavam divididos entre aqueles que seguiram o modelo chavista e formaram a Aliança Bolivariana (Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e quatro antilhanos Unidos) e aqueles que seguiram o exemplo lulista (Brasil, Uruguai, Chile, El Salvador). Enquanto o primeiro procurou concentrar o poder em um partido para falar de socialismo e anti-imperialismo, o segundo foi moderado e co-governado com frações do centro para a direita.

 

O PT brasileiro não fez muitas mudanças em suas sociedades, a população começou a culpa-lo pela corrupção e a mais recente recessão dessa nação, e o PMDB terminou como um corvo que tirou-lhe os olhos. E o PT finalmente permitiu remover sua mandatária, sem buscar um movimento de massas, uma greve geral ou uma revolução.

 

Hoje, o novo governo brasileiro busca receitas atrás de incentivos ao investimento privado e restringindo salários e pensões. O PT, por sua vez, se limitou a dizer que respeitará a lei, esperando que o novo governo se "queime" ao implementar medidas políticas duras.

 

No caso britânico, Corbyn representa a liderança da esquerda através do Partido Laborista desde os anos de 1980. Sua estratégia é radicalizar o partido e colocá-lo em posição de confronto com os Tories. Só então ele vai empolgar os trabalhadores que teriam o abandonado para apoiar o nacionalismo inglês (UKIP) ou à esquerda dos escoceses e galeses.

 

O que aconteceu no Brasil e em Londres dariam duas leituras conflitantes sobre a esquerda. Para obter suportes e se aproximar de uma orientação, Blair receita tipo a seguir será a Sadiq e para aqueles que acreditam que dar muitas concessões para o centro leva a sucessos como no Brasil, que se aprofundou no modelo defendido Jeremy.

 

E se o Trabalhismo é bater entre duas almas, o conservadorismo está em uma crise pior, aquele em que seus dois principais líderes estão nos extremos, Cameron comandando o lado do Sim no referendo europeu e Johnson o lado do Não.

 

* O professor Isaac Bigio é analista internacional em Londres e colaborador de Via Fanzine.

 

- Imagem : Divulgação.

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2017, Pepe Arte Viva Ltda.

 

 

 

ACESSE O ARQUIVO BIGIO/2012

ACESSE O ARQUIVO BIGIO/2011

 

Leia também outros textos de Bigio:

www.viafanzine.jor.br/mundo_politico.htm

     
PÁGINA INICIAL HOME
 

 

 

 

 HOME | ZINESFERA| BLOG ZINE| EDITORIAL| ESPORTES| ENTREVISTAS| ITAÚNA| J.A. FONSECA| PEPE MUSIC| UFOVIA| AEROVIA| ASTROVIA

© Copyright 2004-2017, Pepe Arte Viva Ltda.

Motigo Webstats - Free web site statistics Personal homepage website counter