Mato Grosso

 

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Novas incursões ao interior do Mato Grosso

Qualquer pessoa que passe por estas paragens não pode deixar de notar o colossal

conjunto de montanhas do Paredão que se eleva de forma exuberante no meio da

campina verde e se estende para o norte com seus recortes fantásticos.

 

  Por J. A. FONSECA*

De Barra do Garças-MT

Junho/2013

  

Curiosos amontoados de rochas se erguem entre as campinas.

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O Paredão

 

No interior do Mato Grosso costumamos vislumbrar extensas planícies, após termos percorrido muitos quilômetros pela estrada e nos surpreendemos com o surgimento de montes abruptos, não muito grandes, mas de elevações consideráveis. Em nossas andanças por este estado brasileiro, no trajeto que liga a cidade de Barra do Garças a Primavera do Leste, a 170 quilômetros de distância da primeira, chegamos a um conjunto destas elevações numa região de grande extensão plana, que desde há muito tempo passou a ser chamada de Paredão.

 

A vegetação típica de serrado medra em toda a parte e sua tonalidade verde faz com que sejam destacados estes montes avermelhados em arenito, semelhantes a castelos em ruínas, atribuindo assim, mistério à sua volta e permitindo que a imaginação lhes acrescente elementos espetaculares e de profunda estranheza. Desde que passei por eles pela primeira vez, nos idos de 2007, os seus maciços de cor vermelha chamaram-me a atenção e pensei desde então parar por ali um dia para dar uma olhada mais de perto no seu conjunto extraordinário e conversar com as pessoas da vila que existe no sopé destas montanhas ao longo da estrada. Já que ela se acha no coração do Brasil é bem provável que tenha também histórias para contar e segredos para revelar sobre estas terras de muitos mistérios e muitas surpresas.

 

Qualquer pessoa que passe por estas paragens não pode deixar de notar o colossal conjunto de montanhas do Paredão que se eleva de forma exuberante no meio da campina verde e se estende para o norte com seus recortes fantásticos. Além das muralhas em arenito de grandes proporções e beleza, talhadas em prumo excessivamente vertical em muitos pontos e inacessíveis em muitos de seus contrafortes. Como já o dissemos e repetimos, dada a sua opulência e grande expressividade, a sua cor avermelhada faz com que estes se destaquem bruscamente no meio da vegetação em torno, exibindo minaretes e muralhas inacessíveis, próximo à estrada que segue para Cuiabá, passando por Primavera do Leste e Campo Verde.

 

Se nos arriscarmos a subir por seus acidentados arredores com valas colossais e subidas íngremes, como o fizemos anteriormente, acompanhado do amigo e pesquisador Sávio Egger (que já conhece a região) podemos, a muito custo, alcançar os seus pontos mais altos. Subimos até certa altitude, de onde pudemos ver lindas paisagens em todas as direções, numa extensão verde que se segue indefinidamente por toda a parte. É magnífico.

 

Já no final do século XIX, o general Couto de Magalhães teria passado por estas regiões centrais do Brasil, numa época em que sequer havia estradas razoáveis, senão trilhas e picadas na selva. Assim, ele falou sobre este maciço rochoso em seu livro “O Selvagem”, publicado em 1876: “A montanha denominada Paredão eleva-se como um castelo colossal, no meio daquelas campinas. Seus lados são talhados a prumo, altíssimos e inacessíveis, exceto pelo lado do nascente. A cor vermelha daquele colosso destaca-o grandiosamente das verdíssimas e úmidas campinas que lhe velam os topes e os contrafortes. No meio da esplanada superior, que é chata e coberta de musgos e de gramíneas mui pequenas ou de pequenos arbustos entortilhados, eleva-se um cabeço, que, como atalaia, completa a ilusão, figurando-o a um castelo em ruínas”.  

 

Decidimo-nos (eu e o Sávio) ir até lá para ver se encontrávamos o muro de pedra que ele havia descoberto e fotografado num de seus contrafortes, e que ficava numa elevação do primeiro conjunto de montanha de quem vem do norte, pela estrada que chega de Primavera do Leste. Desta cidade até o Paredão são cerca de 110 km e partimos logo de manhã. Na região, conversamos com algumas pessoas sobre a existência de cavernas, grutas e inscrições rupestres nos arredores da montanha ou em locais próximos, mas havia desencontro nas informações.

 

Alguns diziam que havia grutas com inscrições e outros que não havia nada disto no local. Finalmente, indicaram-nos que procurássemos um senhor de nome Leonardo, conhecido como Chapéu, pois ele é quem tomava conta da fazenda próxima ao primeiro paredão rochoso, onde deveria estar a muralha de pedra, e quem poderia informar-nos melhor sobre algumas destas coisas por lá.

 

Fomos até o sítio dele, próximo dali, e o encontramos em sua casa. Era um homem forte, com 64 anos e muito agradável, conversando conosco com muita alegria e disposição. Convidou-nos para tomar um café em sua casinha simples e fomos até lá.  Disse-nos que dali tirava o seu sustento e que não se precisava de muita coisa para se viver. Dissemos para ele que queríamos ir até o paredão de pedra da fazenda e ele prontificou-se em ajudar-nos, indo até a porteira, a uns dois quilômetros dali para abrir-nos o cadeado.

 

Formações rochosas desconcertantes num solo íngreme e encapelado.

 

Entramos por ela com o jipe e seguimos pelo campo até um lugar onde havia uma grande árvore, ali estacionamos à sua sombra. Dali, juntamos algumas coisas nas mochilas e seguimos a pé no meio da mata, sob um sol de 35 graus. Chegando ao sopé da montanha pétrea, começamos a subir por sua encosta acidentada, tentando encontrar o caminho percorrido anteriormente pelo Sávio, quando este descobriu o muro que estávamos procurando. Encontramos subidas bem íngremes, num solo rochoso e encapelado, como se este tivesse sido removido de forma ondulada por um grande movimento em passado distante. No entremeio às pedras, arbustos se elevavam firmes e algumas árvores cresciam no meio de valas que surgiam abruptamente e nas quais tínhamos que descer para subirmos pela outra encosta e seguirmos adiante em nossa busca. Em trajetos como estes, tínhamos que descer quase que assentados sobre o solo pétreo, segurando nas ramagens e troncos de arbustos próximos, ao passo que na subida do outro lado engatinhávamos junto às pedras, também tomando como auxilio os arbustos em torno, quando estes ali estavam para ajudar-nos.

 

Detalhe do muro de pedra fotografado pelo pesquisador Sávio Egger em sua incursão anterior.

 

O sol forte do Centro-Oeste estava queimando a pele. Andamos por ali durante um bom tempo, sem que pudéssemos encontrar o muro avistado anteriormente pelo Sávio. A extensão que tínhamos de percorrer em torno da montanha de pedra era muito grande e precisávamos ter um ponto certo para a escalarmos e alcançarmos o nosso objetivo. Paramos sobre um pequeno morro e tirei algumas fotografias da redondeza. O local era também muito agradável de se ver. Ao longe podíamos divisar o horizonte se perdendo na planície e por todos os lados, com exceção de nossa dianteira, onde estava a montanha de pedra, podíamos ver o campo verde seguindo adiante.

 

Sávio disse que o muro deveria estar numa encosta mais à direita de onde havíamos subido e isto custaria um doloroso trajeto no meio de pequenas valas, subidas e descidas cansativas, sob um sol escaldante e tempo para fazer o trajeto. Como estávamos em dúvida sobre a sua possível localização, decidimos retornar e que faríamos uma pesquisa para voltarmos ao local numa outra ocasião. Tomamos a direção em que tínhamos vindo e seguimos até onde ficara estacionado o jipe, debaixo da árvore, onde paramos para lanchar e descansar um pouco, pois havíamos andado cerca de 5000 km na ida e na volta desta empreitada.

 

A água que pula

 

Após isto, retornamos à pequena vila no sopé do Paredão que tem este mesmo nome e, segundo havíamos ouvido anteriormente de alguns moradores, havia não muito distante dali, a uns 30 km, um lago formado por um riacho. Em um trecho do seu curso, a água se agitava com a presença de pessoas e saltava com os barulhos emitidos pelas mesmas, vozes, passos e palmas. Este local estava situado numa fazenda de nome Cachoeira, para a qual nos dirigimos. Pegamos a estrada e depois de 9 km entramos à esquerda e percorremos por cerca de mais 20 km em estrada de terra até esta tal fazenda. Entretanto, o capataz era novato na região e não sabia do assunto, mas disse-nos que o senhor José Marques, da fazenda ao lado deveria saber, pois era morador daquele lugar há muito tempo. Indicou-nos o caminho e fomos para lá.

 

O senhor José Marques recebeu-nos muito bem e convidou-nos para entrar em sua casa simples, o que aceitamos, porque queríamos também tomar um pouco d’água. Conversamos com ele por bastante tempo. Disse-nos que conheceu este lugar que estávamos procurando. Falou que era uma coisa muito estranha aquilo e ele mesmo havia constatado isto por diversas vezes.  Disse que, quando ele chegava no lugar, a água estava toda calma e corria em direção à lagoa, mais à frente. Ao se aproximar fazendo algum barulho, conversando, dando gritos ou batendo palmas, a água do córrego começava a movimentar-se e pulava, segundo ele, a uma altura de até uns 60 cm. Era uma coisa muito esquisita, disse. Se a pessoa ficasse calada e quieta, a água ia-se acalmando e logo ficava tranquila novamente.

 

O local ficou famoso na região por causa deste fenômeno e todos dali sabiam disto e muitos já o tinham presenciado. Disse, porém, que apesar deste lugar existir ainda hoje, este fato já não acontece mais na região há pelo menos de uns dois anos para cá. Segundo ele, o desmatamento até à beira do córrego e do lago, acabou por assorear o curso d’água e o fenômeno deixou de existir. Disse ainda que o local não era distante dali e se quiséssemos poderíamos ir até lá, mas não tinha mais nada acontecendo ali. Decidimos então que não faríamos este trajeto e que retornaríamos para Primavera do Leste. Despedimo-nos do senhor José Marques e agradecemos a sua grande receptividade, sensibilizados com este relato e com o fato de estarmos perdendo muitos locais como este em diversas partes do Brasil, por causa do despreparo e desinteresse das pessoas locais e das autoridades.  

 

O ‘menir’ de Poxoréo

 

No dia seguinte, nossos anfitriões Sávio Egger e Givanildo Brunetta convidaram-nos para irmos (eu e minha esposa) a Poxoréo, para visitarmos o sr. Marinho, já nosso conhecido, colecionador de pedras e fósseis, de belas fotografias da região e de outras antiguidades. Disseram-nos os amigos que haviam tomado conhecimento de que havia um monumento próximo dali, uma es-pécie de ‘menir’ à margem da estrada que segue para Rondonópolis, ainda na cidade de Poxo-réo. Foi muito bom revermos o nosso amigo sr. Marinho e sua coleção de pedras, excepcional-mente rica e variada, além dos muitos fósseis de grande valor histórico que ele tem guardado em sua casa, num pequeno museu.

 

 

A pedra do marco ou ‘menir’ em Poxoréo.

 

Dirigimo-nos em seguida para a estrada em busca da ‘pedra do marco’, como era chamada. Ela fica ao lado da estrada, não muito longe da cidade de Poxoréo, numa elevação que tem ao fundo um paredão de pedra avermelhada e muita vegetação em torno. Subimos até onde ela estava e vimos que se tratava mesmo de um grande maciço colocado ali deliberadamente. Sua base era mais larga e se afunilava no topo, estava calçada com pedras de tamanhos bem significativos, o que indicava o seu provável levantamento em um tempo remoto. Não havia nada em torno que fizesse par com esta pedra ‘menir’.

 

Estava isolada no sopé da montanha pétrea que lhe guardava há uns poucos metros atrás e nada poderia explicar a sua posição verticalizada naquele local. Além disto, em uma das pedras que lhe calçava a base, podiam-se ver traços profundamente riscados na pedra, formando uma espécie de rosto. Eram dois pontos profundos justapostos, à semelhança de olhos, um vê invertido, no lugar de um nariz, e um traço em curva ascendente, como uma boca. Formavam um conjunto harmônico que se assemelhava a um ‘rosto humano’, mas poderiam também tratar-se de signos representativos de uma linguagem não conhecida.

 

Uma das pedras que escora a base do ‘menir’ e a figura gravada.

 

Um detalhe da mesma pedra.

 

Levantamos uma hipótese como esta, não por querermos atribuir algo fantasioso a uma questão simples, mas porque não é raro encontrar-se no interior do Brasil traços riscados nas pedras em baixo relevo ou pintados, que poderiam estar relacionados a algo que lhes pudessem dar maior significância e não simplesmente representar caricaturas isoladas ou figuras conhecidas que, à primeira vista, impõem-nos uma interpretação.

 

Neste caso, queríamos demonstrar que os traços ali ajustados poderiam ser também reproduzidos conforme na figura abaixo, de forma linear, modificando assim o seu próprio conteúdo e a percepção de seu significado. É certo que nem tudo o que nós vemos pode estar relacionado ao que pretendamos que seja, segundo os valores que possuímos e os conhecimentos que temos hoje. Porém, é preciso considerar que os tempos mudam e os valores também.

 

 

 

De qualquer forma, fica mais este relato sobre as coisas estranhas que existem em muitos recantos deste vasto país, cuja história, acreditamos, remonta a um tempo bem anterior àquele que lhe é regularmente concedido pelos historiadores e estudiosos, a despeito dos muitos questionamentos que surgem a cada descoberta, exigindo uma explicação.       

 

* J.A. Fonseca é economista, aposentado, espiritualista, conferencista, pesquisador e escritor, e tem-se aprofundado no estudo da arqueologia brasileira e  realizado incursões em diversas regiões do Brasil  com o intuito de melhor compreender seus mistérios milenares. É articulista do jornal eletrônico Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br) e membro do Conselho Editorial do portal UFOVIA.

 

- Fotografias e ilustrações: J.A. Fonseca.

 

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