Escritas Antigas

Ecos de um passado distante:

Sobre a possível escrita cosmogônica e teogônica do Brasil

Observando as pesquisas feitas no Mato Grosso do Sul por arqueólogos, vimos que este estado possui uma grande diversidade de inscrições e que a estranha simbologia do Pantanal pode também ser encontrada dispersamente gravada em muitas outras regiões deste estado.

 

Por J. A. FONSECA*

De Itaúna/MG

Maio-ago/2026

jafonseca1@hotmail.com

 

 

Inscrições inexplicáveis no Lajedo Jk – estado de Goiás.

 

Temos abordado em diversos artigos a questão da ‘escrita’ Cosmogônica e também Teogônica no Brasil, em referência à grande quantidade de símbolos que podem ser encontrados na sua inexplicável ‘arte’ rupestre e presente em toda a parte. A grande maioria dos casos registrados referem-se a símbolos esparsos, mas em muitos outros podem-se ver agrupamentos, interligados ou não, em muitos lugares que nos remetem a pensar que a estes foram atribuídas maior grau de importância do que aos demais. Este fator chama a atenção e impede-nos que façamos deles uma análise apenas superficial, ou que venhamos admitir que possam tratar-se de obras casuais ou espontâneas.

 

Temos alguns sítios no Brasil que mostram verdadeiros painéis líticos constituídos de uma extensa representação de símbolos pouco comuns e em sua maioria agrupados, que os aproximam muito mais de uma espécie de ‘escrita’ simbólica e desconhecida do que apenas de uma espécie de arte primitiva sem maiores pretensões.

 

Assim não nos causa constrangimento afirmar que existe verdadeiramente algo muito forte e semelhante a um tipo de linguagem simbólica de difícil compreensão permeando a chamada ‘arte rupestre’ brasileira. Pode-se dizer também que alguns destes registros milenares carregam um elevado grau de sofisticação em sua concepção e produção, e tal fato nos mostram que estes não poderiam tratar-se apenas de ‘trabalhos’ aleatórios de homens primitivos que teriam ‘passado por aqui’.

 

Estes aspectos não muito comuns na ‘arte’ rupestre brasileira é que nos teriam conduzido a utilizar-se dos termos Cosmogônico e Teogônico utilizado na sua abordagem, uma vez que se percebe que estes parecem envolver um conjunto de ideias, mitos ou narrativas que teriam pretendido explicar os fenômenos e o surgimento de todas as coisas. Estes termos têm a sua origem na língua grega, sendo que o primeiro procura descrever o começo de tudo, o universo, sua evolução e seu funcionamento, considerando-se também que tudo que existe acha-se também relacionado à existência de seres de percepções conscientes atuando em toda a parte.

 

Vemos que a palavra Cosmogonia em grego significa cosmos, o mundo que percebemos e que “entra em um novo estado de ser”, ou existência, ou na realidade dos chamados seres sencientes que o teriam criado. Assim, o estudo da Cosmogonia leva-nos aos antigos filósofos gregos em suas abordagens sobre a criação do universo, especialmente Tales de Mileto, que teria abordado a formação do mundo perceptível a partir da origem de tudo, acreditando que a água teria sido a substância primordial para o surgimento de tudo quanto existe.    

  

A Teogonia, por sua vez, determinava a própria Genealogia dos Deuses que fizeram parte deste mistério cósmico e foram narrados na forma de um poema mitológico que descrevia o surgimento de todos esses seres divinos e a sua atuação no Cosmos e junto da humanidade. 

 

Para dar sentido ao universo perceptível e à vida em nosso planeta a ciência moderna adotou a teoria do Big Bang, na qual o Universo teria surgido por meio de uma grande explosão há cerca de 13 bilhões de anos, quando então as primeiras estrelas e galáxias apareceram e deram início à formação de toda a estrutura do Cosmos em evolução. Entretanto, como sabemos, questão da vida, permanece obscura e não se sabe ao certo como ela teria surgido no universo e nele evoluído.

 

Por isto, é muito provável que a simbologia Teogônica venha também estar relacionada aos aspectos religiosos desses antigos povos que produziram esta complexa simbologia, porque ela se acha registrada em muitos lugares em nosso planeta e também de norte a sul de nosso país, demonstrando preocupações com o agrupamento de certos símbolos importantes nas representações que procuram fazer. No quadro abaixo agrupamos diversos destes símbolos gravados em inúmeras regiões do Brasil, onde se podem ver semelhanças marcantes entre eles ou mesmo uma grande identidade entre estas figuras e seus prováveis significados.

 

Símbolos teogônicos diversos encontrados em várias regiões do Brasil:

 

 

Como já foi dito é importante mostrar que esta mesma simbologia acha-se também relacionada a muitas das antigas tradições de muitos outros povos em nosso planeta e queremos voltar a alguns aspectos deste assunto.

 

É importante falar então sobre a questão da Doutrina Secreta das Idades, desvelada, em parte, pela escritora espiritualista Helena P. Blavatsky, em sua obra magna publicada em 1881, “A Doutrina Secreta” onde, no primeiro volume, tratando da Cosmogênese, ela descreve os signos sagrados da antiga tradição dos mestres de outrora. Como se pode ver, esta simbologia é estranhamente semelhante, em todos os seus aspectos, àquelas que se acham gravadas em diversas regiões do Brasil, ora por meio de pinturas, ora por meio de insculturas em lajedos e paredões pétreos.

 

É também notável que uma simbologia semelhante a esta possa ser encontrada no Brasil e no Paraguai, preservada na antiga tradição dos povos indígenas Mbya-guarani, conforme esclarece o pajé Kaká Werá Jecupé em seu livro Tupã Tenonde, no qual descreve a linguagem secreta desta gente antiga, onde os anciães da tribo relatavam a criação do Universo, da Terra e do Homem.

 

Esta valorosa tradição foi pesquisada primeiramente pelo estudioso paraguaio León Kandogan que, após muitos anos vivendo na tribo, tomou conhecimento desse milenar segredo da tradição oral guarani, o Ayvu Rapyta (os fundamentos da linguagem humana), que foi publicado em 1953 pela Universidade de São Paulo.

 

Kaká Werá Jecupé seguiu os mesmos caminhos de Kandogan sendo-lhe também confiado o segredo da tradição oral, desses povos. Segundo ele o símbolo milenar que representa o Grande Mistério, Namandu, é um círculo com um ponto no centro. Na sua descrição feita da linguagem original relata: “Nãnde Ru Pa-pa Tenonde guere rã ombo-jera pytu yma gui”, que traduz-se da seguinte maneira: “Nosso Pai Primeiro criou-se por si mesmo na Vazia Noite iniciada.” A Vazia Noite iniciada poderia, por analogia, ser simbolizada pelo círculo puro, que é representado na cultura esotérica que apresentamos no quadro logo a seguir.

 

A tradição Mbyá-guarani considera que o círculo com um ponto no centro significa Namandu, o Grande Mistério; um círculo dentro de outro círculo maior significa Kuaracy, o Fogo-Mãe. O símbolo de dois círculos concêntricos e um ponto no centro, significa Tupã, o desdobramento do Todo e três círculos concêntricos com um ponto no centro significa Nande Cy, a Terra, o mundo material.

 

Vamos perceber assim que na milenar simbologia rupestre do Brasil antigo vamos encontrar tanto as representações do mundo antigo oriental, quanto da antiga tradição oral dos povos Mbya-guarani, demonstrando que estes registros milenares em nosso país têm uma origem e não poderiam ter sido casualmente gravados na pedra pelos seus desconhecidos autores.

 

No quadro abaixo mostramos os símbolos da antiga tradição do oriente e sua presença no Brasil e também os símbolos utilizados pela tradição Mbyá-guarani, também vastamente encontrados em muitas regiões de nosso grande país.

 

 

Assim, percebemos que a chamada “arte rupestre” brasileira, que encanta tanto os curiosos quanto os pesquisadores, não se trata de algo de fácil de interpretação, porque ela é excepcionalmente complexa e simbólica em significativa quantidade de suas manifestações. Mesmo que quiséssemos reunir as suas mais variadas representações em todo os lugares, para não se falar de muitas outras localizadas em diversas partes do nosso planeta, para buscar um melhor entendimento sobre o que aqueles povos de antanho pretenderam representar, não o conseguiríamos fazer no momento, dada a sua extraordinária manifestação em toda a parte.

 

Características como estas criam inúmeras dificuldades para a abordagem e análise dos pesquisadores, apesar de que existe também uma predisposição para atribuir a sua feitura a um povo único, o homem primitivo que teria morado em cavernas ou vivido de forma nômade por toda a parte. Este fator torna tal empreendimento praticamente impossível de ser consolidado nos estudos que são efetuados, porque uma simbologia desconhecida se mostra muito presente em muitos lugares e em muitas destas manifestações e isto dificulta muito uma análise que venha enfocar somente a questão de um grupo de autores primitivos que teriam produzido esta arte das pedras, sem considerar muitas daquelas outras, de caráter mais seleto e misterioso, que também se mostram presentes em muitos lugares. 

 

Discute-se também nos meios acadêmicos a possibilidade da existência de outros povos no passado antigo do Brasil e temos pronunciamentos controversos e ainda não bem esclarecidos sobre o assunto. Pedro Ignácio Schmitz, jesuíta e arqueólogo de grande importância no cenário brasileiro, ex-professor do Instituto Anchietano de Pesquisas – UNISINOS, disse que “o primeiro povoamento do território brasileiro, depois de anos de pesquisa e divulgação, continua assunto não esgotado.” Afirmou ainda que apesar de haver consenso sobre o povoamento do Brasil em cerca de 9000 anos a. C., permanece em discussão a questão dos tipos desta população. Disse o professor que “se a primeira migração vinda da Ásia tinha feições negroides, como a Luzia de Lagoa Santa, como explicar que os indígenas dos milênios posteriores e os atuais têm feições mongoloides, sem resquícios daquela que seria a primeira leva?”

 

Pode-se dizer então que existe algo a ser considerado em relação aos povos antigos do Brasil, pois há questionamentos em relação a esses antigos habitantes assim como também em relação à sua ‘arte’ rupestre, complexa em muitos dos casos registrados. Pergunta-se então: – Por que razão esta manifestação simbólica se estenderia por todo o território brasileiro, mesmo que em alguns casos específicos ela se apresente de forma mais simplificada e, em outros, mostrando-se com elevado grau de complexidade e assemelhando-se até mesmo a páginas copiadas de um livro antigo ou a uma escrita sagrada, desconhecida na atualidade?

 

Que povos teriam sido esses, sabendo-se que os indígenas naturais aqui encontrados não poderiam ter sido os seus autores, sabendo-se que até mesmo estes venham considerá-las sagradas por não saberem que povos teriam sido esses que as produziram por todo o Brasil?

Já dissemos em outros artigos que existem estudos que abordam a questão dos arquétipos como modelos que habitam o inconsciente coletivo e que se acham presentes nas mentes das pessoas, expressando-se como depositários da vivência dos homens através dos tempos. Isto leva-nos a pensar que estes ‘modelos’ podem estar relacionados a muitas destas manifestações de ‘arte’ rupestre no Brasil e também em todo o nosso planeta.

 

É importante citar que Carl G. Jung também se tenha interessado pelos símbolos e sua importância na vida das pessoas. Ele afirmou, entretanto, que o psicanalista se interessa muito mais pelos símbolos que são chamados de naturais do que os que são chamados de culturais, porque segundo acreditam os psicanalistas, os primeiros tipos de símbolos teriam se originado de conteúdos inconscientes da psique, enquanto que os símbolos do segundo grupo são sempre utilizados para expressar regularmente ‘verdades eternas’ e se acham presentes especialmente nas religiões. Segundo o psiquiatra, estes símbolos culturais conservam dentro de si uma certa magia e podem provocar reações emocionais em muitas pessoas, pois que eles “constituem-se em elementos importantes da nossa estrutura mental e forças vitais na edificação da sociedade humana”, comenta.

 

Os símbolos chamados de naturais, pelo fato de se derivarem dos conteúdos da psique, conforme Jung, costumam incorporar um grande número de variações nos elementos arquetípicos que os sustentam. Isto leva-os às suas condições mais primitivas, porque podemos ver que eles são também representados de forma mais simplória em registros bem mais antigos, apesar de que a sua sofisticação pode ser notada em muitas outras manifestações que provavelmente teriam ocorrido em épocas bem mais recentes.

 

Vemos assim que na simbologia desconhecida encontrada na ‘arte rupestre’ do Brasil podem ser identificados muitos elementos arquetípicos relativos a estes dois grupos abordados pela Psicologia, podendo ser destacados entre eles tanto os chamados de naturais, quanto os chamados de culturais.

 

Talvez, o grau de dificuldade que, às vezes, encontramos para compreender todas estas coisas escora-se na impossibilidade de possuirmos conhecimentos de aspectos importantes da vida daqueles grupos que os produziram e em que condições de vida e cultura eles viviam quando gravaram em pedra as suas múltiplas impressões cotidianas.  

 

Neste propósito, citamos novamente o pensamento de Carl G. Jung, principalmente quando ele fala do inconsciente, como se este fosse uma realidade junto do consciente no ser humano. Em seu livro “O Homem e seus Símbolos” ele escreveu: “Quem quer que negue a existência do inconsciente está, de fato, admitindo que hoje em dia temos um conhecimento total da psique. É uma suposição evidentemente falsa quanto a pretensão de que sabemos tudo a respeito do universo físico. Nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites.” Afirma ainda Jung que nem a natureza nem a psique podem ser definidas, mas apenas ser descritas naquilo que acreditamos que elas possam ser e como elas funcionam. E afirmou ainda que diante das observações já feitas neste sentido, teríamos argumentos suficientes para afirmar que o inconsciente existe e que os que o negam expressam, em verdade, o medo de encarar o novo e o desconhecido.

 

É, pois, natural que tenhamos dificuldade de identificar o conteúdo real de muitas destas figuras simbólicas, pois elas podem estar ligadas ao inconsciente de seus autores, conforme as exposições de Jung. Quando encontrarmos uma constante repetição de muitos destes símbolos, isoladamente ou agrupados, em uma grande extensão territorial como é o caso do Brasil, por exemplo, somos obrigados a pensar que nesta simbologia haverão de estar contidos importantes conteúdos quanto ao seu provável significado. Isto, porque elas deixam transparecer, pela sua multiplicidade de incidência em regiões muito distantes umas das outras, que venham tratar-se de figuras representativas de algo valioso ou de excepcional relevância na concepção de seus autores, no lugar de se tratarem de simples rabiscos como, às vezes, podemos imaginar.

 

Uma questão que precisa ser considerada é que o homem é um ser de natureza dual, ou seja, ele é dotado de uma consciência material e de uma outra espiritual. Assim sendo, quando estudamos o homem primitivo e sua ‘arte’ rupestre temos de admitir que ele imprimiu ali aspectos de sua dupla identidade, mesmo que venha representar somente elementos simples e naturais de sua vida e de sua sobrevivência. Em se tratando dos casos de manifestações mais complexas de sua ‘arte’, teremos, entretanto, de reconhecer e de admitir outros aspectos da vida e das experiências dessas pessoas, uma vez que muitas destas vêm demonstrar-nos a existência de algo maior ali presente, saltando aos nossos olhos, por intermédio das expressões extravagantes que estas costumam representar.

 

Não se pode negar que nestas manifestações de arte o homem primitivo procurou demonstrar elevado interesse pela simbologia e algo não exclusivamente material, pois destacou-a de muitas maneiras, utilizando-se de figuras de animais, de vegetais, de seres humanos, de representações geométricas e até mesmo, por meio de traços objetivos à semelhança de caracteres de uma escrita, além de figuras não compreensíveis interligadas, como já demonstrado muitas vezes em nossos trabalhos neste site.

 

Quando nos reportamos aos arquétipos de Jung vemos que estes não se limitavam em mostrar apenas uma abordagem sobre as imagens internas do indivíduo, mas que eles se estendem também pelos demais aspectos de sua vida, exercendo influências na forma como este se relacionava com os seus pensamentos, seus sentimentos e suas ações no cotidiano.

 

É importante que venhamos compreender que a questão dos arquétipos somente é identificada por meio dos símbolos que são produzidos pelo homem, uma vez que estes estão repletos de objetos de grande significação para ele e que possuem características essencialmente subjetivas. Neste sentido, não podemos negar que o problema da concepção e elaboração desses elementos sofisticados e carregados de simbologia, vêm dar ao homem primitivo condições de inteligência bem mais avançadas do que, muitas vezes, supomos quem eles teriam condições de possuir.

 

É também importante atentar para o fato de que estes arquétipos ultrapassam a condição do tempo e do espaço, pois podemos encontrar simbologias idênticas representadas em toda a parte, em locais distantes e raças muito diferentes em nosso planeta, mostrando que estes se constituem de elementos que se acham arraigados no próprio inconsciente da raça humana como um todo. Muitas destas representações simbólicas sofrem mutações com o passar das eras ou acréscimos em muitos locais, mas a sua estrutura primordial permanece sempre presente e imutável. Este é o caso que pode ser encontrado, especialmente, na simbologia Cosmogônica e Teogônica, que está sendo abordada neste trabalho por considerarmos que ela tem peso significativo nas manifestações primitivas de todos os povos que com ela se identificaram.

 

Como a incidência desta rica simbologia é muito significativa no Brasil, pode-se dizer que tal fato haverá de ter um sentido oculto sustentando a sua presença em todos estes lugares. Apesar de não poder ser ainda compreendida, ela comprova, em seu silêncio milenar, que não se trataria de um produto aleatório apenas, saído de mentes pouco hábeis e não conectadas com uma outra realidade, provavelmente de caráter místico ou religioso e talvez relacionado a um passado distante e desconhecido de nosso país. Sua forte incidência simbólica e associada a um tipo de conhecimento secreto, obrigam-nos, por meio de seus traçados enigmáticos e harmoniosa manifestação, a ver que sua estranha presença ali não poderia jamais estar associada a um tipo de acontecimento casual ou a uma espécie de ‘arte’ desconexa ou distante de um princípio fortemente espiritual ou mesmo transcendente.

 

Muitos estudos já foram feitos no Brasil em torno destes estranhos conjuntos de petroglifos, mas não foram encontrados ainda elementos seguros que possam dar um sentido claro aos seus reais significados e sobre as causas que os levaram a ser registrados. A arqueóloga Maribel Girelli da Unisinos que abordou os diversos símbolos gravados no Pantanal mato-grossense argumentou que as considerações levantadas nos estudos que foram feitos e que consideravam que estas manifestações estariam ligadas apenas à estética ou a arte pela arte simplesmente, não é mais sustentável, porque a partir das descobertas de outras figuras complexas em locais de difícil acesso na região ficou demonstrado que estes variados painéis “possuem estrutura e coerência interna” e que isto já comprova que eles não poderiam ter sido executados ao acaso.

 

Abaixo destacamos dois quadros que identificam esta estranha simbologia em dois dos mais importantes sítios arqueológicos do Brasil, o primeiro em Goiás e o segundo no Mato Grosso do Sul.

 

 

 

 

É importante observar também os dois painéis abaixo e avalia-los comparativamente, pois o que está representado pela fotografia é do Lajedo JK, em Goiás e o que está representado por parte de um grande painel de símbolos foram pesquisadas no sítio da Fazenda Moutinho, no Pantanal do Mato Grosso do Sul. Suas semelhanças são indiscutíveis e a concepção e feitura dos mesmos não parecem ter sido desenvolvidos por grupos de pessoas diferentes, culturalmente falando.

 

 

Fotografia de parte das inscrições do Lajedo JK-Goiás e parte de um painel no Pantanal em  Mato Grosso do Sul.

 

Queremos citar também o historiador e médico-militar alagoano, Alfredo Brandão, que demonstrou em seu livro “A Escrita Pré-histórica do Brasil”, publicado em 1937, a existência de caracteres diversos gravados em terras brasileiras que se parecem tratar-se mesmo de resquícios gráficos de uma escrita muito antiga. Brandão disse que estes sinais têm uma relação muito forte com os chamados caracteres Sabeanos e diversos outros que se acham ligados aos mais antigos alfabetos da Terra.

 

Segundo Brandão os caracteres Sabeanos foram estudados pelo arqueólogo, diplomata e acadêmico francês Marquez de Vogué e em seu livro, Inscriptions Semitiques, ele relata que muitos destes antigos sinais foram encontrados em grande escala no deserto da Síria Central, em monumentos denominados Ridjims. Em seus estudos feitos em Palmira, na traduções de textos nabateanos, o autor Marquez de Vogué afirmou que não conseguiu decifrar nenhuma destas antigas inscrições de origem sabeana. Disse que estas estariam relacionadas às antigas tribos dos povos Sabeanos que seriam originários da Arábia.

 

Alfredo Brandão disse que estas inscrições sabeanas acham-se relacionadas com a nossa mais remota antiguidade, uma vez que elas guardam grande identidade com os signos alfabéticos europeus. Da mesma forma também os signos brasileiros e os de Glozel, descobertos na França, ambos ainda não decifrados, guardam com estes outros, estreitas semelhanças, como se pode ver no quadro que mostramos abaixo.

 

 

Também o autor brasileiro W. W. da Matta e Silva fez referência aos signos do Brasil pré-histórico, os quais denomina de escrita Cosmogônica e Teogônica, e os relaciona com os caracteres Sabeanos e também com os do alfabeto Adâmico, Vatan ou Devanagari, considerado pelo insigne ocultista Saint Yves D’Alveydre e por outros renomados autores, como o mais primitivo silabário da humanidade.

 

Matta e Silva, certamente inspirado no trabalho incansável de Alfredo Brandão, anterior ao seu estudo, exemplifica muitos desses caracteres que foram encontrados no Brasil, falando sobre seu sentido mnemônico, que favorecem a memorização, sobre seu significado ideofráfico, por exprimir ideias, onomatopaico, porque representam sons e também Teogônico, por causa de sua simbologia sagrada.

 

Alfredo Brandão afirmou também que o homem pré-histórico representava a divindade por meio da cruz (È) e que este símbolo significava o fenômeno que era por ele chamado de ‘ara’ (a luz). Diz o autor que a divindade suprema, a luz, era assim representada pela cruz e que este símbolo queria mostrar uma espécie de imagem ou espírito daquilo que eles consideravam ser Deus.     

 

Assim, a luz teria sido, provavelmente, a divindade primitiva mais relevante de todos os povos e a sua representação gráfica se tornou fortemente manifestada em todos os lugares. Daí surgiram muitas outras divindades relacionadas com esta luz primordial como o fogo, o raio, o relâmpago, o trovão, a chuva, o sol, a lua, as estrelas, etc., e que passaram também a ter as suas representações gráficas e o respeito daqueles antigos povos, por causa das manifestações fenomênicas produzidas por estes elementos e que eram por eles observadas.

 

Parece-nos que houve uma época em que a magia teria dominado completamente as sociedades dos homens, quando se davam grande importância ao transcendental e ao desconhecido como algo divino, ao contrário de hoje, em que o peso do conhecimento intelectual acabou por afastar as pessoas do seu lado mais místico a respeito das coisas. Algumas das lendas existentes no meio dos grupos indígenas do Brasil que tratam de temas da criação, guardam ainda reminiscências misteriosas de ideias Cosmogônicas e Teogônicas transcendentais, que demonstram possuir conteúdos semelhantes aos de outros povos, como se procedessem, salvo distorções não muito relevantes, de uma mesma fonte de conhecimento.

 

Se quisermos admitir que figuras enigmáticas como estas que estamos mostrando, carregadas de conteúdos sofisticados e desconhecidos, tenham sido mesmo feitas por grupos indígenas ou homens primitivos que viveram no Brasil, teremos também de admitir que esses ‘artistas’ da antiguidade teriam feito verdadeiros milagres em sua ‘arte’, uma vez que em sua grande maioria, eles não conseguiram sequer construir uma moradia decente para se acolherem, preferindo morar dentro de cavernas e em lugares insalubres.

 

Também não resolveria o problema se quiséssemos insistir no fato de que esta estranha ‘arte rupestre’ brasileira é destituída de conteúdo ideológico, de uma ideia precisa e de elementos materiais e espirituais que as poderiam ter inspirado. O fato é que elas estão aí e continuam causando espanto e admiração nos dias de hoje por causa desta sua forte simbologia de caráter desconhecido e de suas incontáveis figuras e sinais enigmáticos nas pedras. Isto sem considerar a questão de uma técnica específica que teria sido aplicada na feitura de uma grande quantidade destas figuras, especialmente, as construídas em baixo relevo, com acabamento esmerado e de difícil realização, mostrando painéis majestosos de símbolos não compreensíveis mesmo nos dias de hoje.

     

* J. A. Fonseca é economista, aposentado, espiritualista, conferencista, pesquisador e escritor, e tem-se aprofundado no estudo da arqueologia brasileira e realizado incursões em diversas regiões do Brasil. É articulista do jornal eletrônico Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br) e membro do Conselho Editorial do portal UFOVIA. E-mail jafonseca1@hotmail.com.

 

- Fotografias e ilustrações: J. A. Fonseca

 

Itaúna (MG), dez/25-jan/26.

 

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