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"Em cada situação uma nova reflexão". Bertolt Brecht |
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LITERATURA
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ESPINOSA E ESPINOSA
Eu, nove anos, atenta à chamada. Isabel Bande Espinosa. Presente. Espinosa é espinhosa em espanhol, disse a professora da terceira série da Divina Providência, escola de freiras em que eu estudava.
Risos. Eu, aterrada: Não, é Espinosa, um protesto na voz sumida. Mas quer dizer espinhosa, respondeu a professora.
Não me lembro se chorei quando cheguei em casa, disposta e fazer algo que me assustava e exigia de mim coragem e determinação. Eu não era capaz de aguentar aquilo.
Procurei na gaveta de nosso guarda-comidas, pintado de um verde descorado, um documento. Com mãos trêmulas, consegui transformar aquele A que me condenava a uma coroa de espinhos por um O. Eu era uma menina, então os espinhos nunca mais seriam meus. Isabel, substantivo feminino. Espinoso, adjetivo masculino. Estava salva.
Minha mãe, com pena, aceitou meu feito, já feito. Espinosa era o nome dela e sua vida tinha sido, e era, espinosa, espinhosa, espinhosa. Mas cantava, cantava sempre, se conectando teimosamente, sempre que podia, com a alegria. Ela não sabia que era espinosana.
Bande era de meu pai e não tinha tradução. Não provocara as risadas dos alunos, que, talvez, se sentissem vingados por não terem, e desejarem, os constantes elogios da professora ao meu desempenho. Que era o que me salvava.
Claro, houve conseqüências. Uma confusão, às vezes dolorosa, dentro de mim. Eu tinha negado a minha identidade, algo impossível de avaliar. Não me sentira no direito de ser inteiramente eu, os espinhos doíam muito. Problemas, também, com a documentação em várias situações de insegurança e medo. Eu adulterara um documento.
Espinosa? Espinosa é nome de filósofo. Um dos maiores filósofos da humanidade. A expressão do moço bonito, estudioso, mostrando rebeldia em seus cabelos e em suas roupas, era de agrado e interesse.
Não me lembro com exatidão quando eu fui capaz de recuperar meu nome, mas sei que já tinha vencido essa prova quando tive aquela notícia, que me causou uma imensa alegria, a alegria da potência de perseverar em meu ser tão fragmentado. A alegria de Espinosa, que estudei há tão pouco tempo, mas que estava em mim, que sempre esteve.
Meu filho era pequeno quando o Universo me colocou nas mãos aquele suplemento do jornal O Estado de São Paulo, que meu pai pedia todos os domingos.
Até aquele momento, eu não tinha certeza de que o nome do grande filósofo fosse igual ao meu. Mas estava lá: Spinoza era Espinosa. Ia lendo a matéria e não acreditava no que lia. A família Espinosa era muito próxima da região de minha mãe. Precisara fugir para a Holanda por motivos religiosos e por isso mudara seu nome, de Espinosa para Spinoza.
Mostrei a matéria a minha mãe e me lembro de seu rosto se iluminando. Também a meu filhinho e a todas as pessoas de que gostava, agora muito orgulhosa. As risadas na sala de aula de minha meninice perderam definitivamente o poder. Pena que minha professora, uma senhora que não pudera calcular as consequências de sua atitude, não conhecesse Espinosa e suas libertadoras descobertas sobre Deus, a Natureza e seus conceitos dos três gêneros de conhecimento.
Pena que eu também não as conhecesse e tivesse que sofrer tanto por não conhecê-las, embora o terceiro gênero, o da Intuição, me despertasse muitas vezes durante os anos de minha vida, aparecendo, pude ver depois, no meu trabalho como escritora.
Pena nossa sociedade não ter passado ainda do primeiro gênero do conhecimento e acreditar no livre arbítrio, acreditar que podemos ser o que quisermos, que todos os infinitos corpos da Natureza não nos afetam e que existe o bem e o mal.
Espinosa está sendo o maravilhoso terapeuta de Espinosa, esta mulher em busca do caminho da liberdade, me ajudando a encontrar a sabedoria e a paz. Nietzsche o chamou de precursor; Henri Bergson inspirou-se nele e se iluminou ainda mais com sua luz; Deleuze disse que ele estava em seu coração.
E eu? Que o digam as lágrimas que rolam pelo meu sorriso.
- Do livro "Caminhos para mim Mesma".
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* * *
Humildade

Disseram-me
Que devia
Ser humilde.
Não me disseram a quem devia,
Nem deixaram claro
O que era aquilo,
Na verdade:
Ter humildade.
Acreditei,
Como se acredita
Nos dogmas,
(Não sem revoltar-me, claro,)
Mas eles,
Os dogmas,
Estão instalados
Em antiquíssimos esconderijos,
Dentro de esconderijos,
A salvo
Da Ciência
E até
Da adolescência.
Restava-me o ensaio,
Já que não havia
Claros caminhos.
Então,
Primeiro a dificuldade:
Qual é a exata fronteira
Entre humilhação
E humildade?
E os jeitos de corpo...
As frases, cheias de obscuros
Mais e menos, pior e melhor entre parênteses.
A quem serviriam
Tantos desconfortos?
Foi aí que me veio
Que mais fácil,
Confortável e feliz,
Era perceber nossa beleza,
A beleza em cada ser,
E que humildade era isso:
Era saber-se tão maravilhoso
Como todos os maravilhosos seres
Da Natureza.
- Do livro "Versos de Viver".
* * *
Genevieve

Seu jeito de mocinha elegante, charmosa, lembrou-me uma francesinha e por isso seu nome me veio assim, ao primeiro olhar: Geneviève.
Foi a segunda galinha garnisé a morar em nosso incipiente pomar, em um cercadinho coberto, antes da construção do galinheiro.
Maricota, que ganhou esse nome por me parecer uma matrona, dona-de-sua-casa, arrepiou-se toda, subitamente furiosa. E foi aí que tive a oportunidade de entender aquele jeito de falar que sempre me pareceu uma força de expressão: Frederico estava literalmente arrastando a asa no chão por causa de Genevieve.
Lembro-me de que isso me impressionou muito, aliás como tudo que eu percebia ser uma característica que eu aprendera a considerar como humana, e que via num animal.
O que acabou fazendo com que eu “corrigisse” as pessoas quando diziam de um bicho:
– Parece gente, esse gato... olha como ele tem ciúme de você!
– E eu:
_Nossa, parece um bichinho, essa menina... um bichinho ciumento...
Meus alunos adoravam quando lhes contava minhas descobertas sobre bichos e gente, e lhes propunha reflexões e redações sobre isso.
Genevieve, recém-chegada, ainda sem ter o tempo de se refazer do trauma de ser retirada, sem sua anuência, do lugar onde vivia, foi se encolhendo, procurando um lugar por onde escapar ao ataque iminente de Maricota, a “dona do pedaço”, que nunca, durante todos os anos em que durou o galinheiro, permitiria que outra galinha se colocasse ao lado de Frederico no poleiro, na hora de dormir.
Mas não havia para onde fugir e então, seguindo seu instinto de sobrevivência, ficou encolhidinha contra a cerca do espaço exíguo, procurando manter uma expressão corporal que demonstrasse submissão, para não ser atacada, ainda que conservando sua dignidade.
As coisas, entendi, estavam definidas naquele momento: Maricota era a “esposa”, que aceitaria a “outra”, a “concubina”, desde que ela obedecesse às regras: quem mandava era ela, Maricota.
O jogo do poder, que, muitos acreditam, seria uma característica própria de seres humanos e não coisa herdada dos animais.
O que me fazia pensar que uma coisa que atrapalhava muito nossa evolução era acharmos que somos absolutamente diferentes dos animais.
– Seu animal! – a “ofensa” terrível que mostra o quanto os seres humanos se acham completamente diferentes dos animais, absolutamente “melhores”. Enfim, não sabermos e não assumirmos que em nós vivem os animais, as plantas, todos os seres desde o Big Bang. Ou antes?
E foi assim, até onde pude presenciar aquela comunidade que foi se formando durante os anos que precederam à nossa catástrofe, que foi a doença irreversível de minha mãe, quando muita coisa desmoronou e todos os animais da casa tiveram que recomeçar a vida em outros lugares, para nossa profunda tristeza, e nosso medo, impotente, de que não fossem tratados com o mesmo cuidado, o mesmo carinho.
Talvez, se Genevieve tivesse tido mais espaço naquele momento do arrastar de asas de Frederico, se pudesse e tivesse para onde fugir, se sua condição lhe oferecesse escolha, sua atitude tivesse sido outra, não sei. Mas naquela situação, era a única que a salvaria (a não ser que houvesse uma interferência de fora, e isso seria outra história, uma improbabilidade, fora daquilo que ela havia aprendido no seu mundo de galos e galinhas garnisés).
Mais tarde, com a chácara de mil metros quadrados cercada, ela já teria a oportunidade de andar por ali, em semi-liberdade, ainda que limitada (mas também protegida) por uma cerca.
E eu ficava pensando nos bichos e nos seres humanos, por exemplo nos porcos, de que tiraram o nome para ofender aqueles que não observam hábitos de higiene, ou por, simplesmente, sujarem as mãos.
E que ficavam cercados num espaço muito menor do que o das nossas moradoras, levando-se em conta seu tamanho.
Nunca vi banheiros para porcos e dizem que o jeito de xingar – seu porco! – é adequado porque “são animais sujos, que fazem suas necessidades no mesmo lugar em que comem”.
Num livro que adotava nas aulas de Inglês que dei durante um ano em Holambra, na época ligada à cidade de Jaguariúna, com uma forte comunidade holandesa conhecida pela beleza de suas flores, tivemos a informação de que os porcos eram os mais inteligentes animais, dos que tinham cascos, segundo um estudo científico.
E isso me lembra de meu questionamento a respeito dos palavrões, das ofensas, quase sempre, senão sempre, baseadas em pré-conceitos.
A “ofensa” – porco! – então lembrando animais inteligentes, condenados a “viver” fora de seu habitat, entulhados de lavagem, a caminho do futuro absolutamente provável do lamber de beiços dos seres humanos carnívoros.
Onde faríamos nossas próprias “necessidades”, se fôssemos obrigados a ficar num espaço como o que ficam os porcos, sem licença para sair, para andar pela natureza, escolher os lugares mais apropriados para cada situação de suas vidas, de seu quotidiano?
O que teria feito Genevieve, se fosse livre?
Como seriam os galos e as galinhas garnisés em liberdade, na Natureza?
Lembro-me de um filme em que havia cavalos selvagens.
E que me emocionaram poderosamente com sua beleza livre, o que tornou mais chocante a comparação com os pobres cavalos domesticados, que ficaram com a postura de todos os prejudicados do mundo, bichos e gentes.
Como seríamos nós, em liberdade?
- Do livro "Crônicas, Histórias de Vida, Poesia e Cia.".
* * *
MAS EU NÃO PRECISO DE UM PAI...

Eu tinha medo, muito medo de que ele sofresse. Eu sabia como eram as crianças na escola. Conhecia suas disputas, umas fazendo o que pudessem para se mostrar melhores que as outras. E valia tudo: a agressão física, verbal. Inclusive procurar, “de propósito”, as fraquezas das outras para humilhá-las.
Nós dois éramos vulneráveis, considerados inferiores socialmente. Seus colegas poderiam usar o fato de ele ter sido abandonado pelo pai, de ter uma mãe rejeitada, poderiam também usar seu lado oriental para fazer zombarias.
Meus cuidados tinham sido suficientes até aquele momento, éramos felizes, mas tinha medo de que a escola mudasse as coisas.
Estava chegando o momento que eu mais temia: ele teria que começar seus estudos e, além dos nossos problemas, havia mais uma preocupação: como é que meu filho se sentiria dentro daquele mundo cheio de regras, tão diferentes das nossas?
Como lidaria com matérias dadas de forma separada, sem ligações umas com as outras, o que limitava o desenvolvimento da inteligência, da intuição, da criatividade das crianças?
Pensei bastante antes de pedir ajuda ao meu namorado. Nossa relação já era sólida, ele e meu filho se davam super bem. Isso era o mais importante. Sentia que ele nos apoiaria. Aceitou. Então, o próximo passo, o mais difícil, seria convencer meu garoto.
Foi todo um ritual. Convidei-o para comer uma pizza em um lugar muito agradável a que íamos algumas vezes. Disse a ele que nossa conversa seria importante e ele se mostrou interessado e atento. Tirei da bolsa sua certidão de nascimento, de capa azul com uma estrelinha dourada que ele havia colado nela e a abri.
- Olha, filhinho. Aqui está escrito: nome da mãe, Isabel Bande Espinosa; nome do pai: nenhum nome. Você não gostaria de ter aqui o nome do Cláudio?
- Ah, mãe, mas eu não preciso de pai. Pra que pai?
Dei-lhe alguns motivos, que não o convenceram. Então, fiz algo que não estava em meus planos, que não gostaria de fazer, mas não via outra opção. Parti para uma chantagem emocional.
- Mas, coitadinho do Claudio, ele não tem nenhum filhinho. E ele gosta tanto de você...
Ele não respondeu logo, era como se estivesse olhando para bem dentro de si mesmo, uma expressão que jamais esquecerei. Então disse:
- Bom, se é assim, então tá bom.
Fiquei muito feliz. Pedimos a pizza, dois sucos de frutas e comemoramos nosso momento.
- Do livro "Desafios e Reflexões de Uma Mãe Solo".
* * *
FAZENDO AMOR
Abaixo
A péssima qualidade
De nossas relações sexuais!
Eu quero fazer amor...
Eu quero ficar parada
Num momento eterno
Em cada tornozelo, em cada pulso...
Eu quero não querer.
Eu quero
Seguir a ordem natural das coisas
Seguir todos os caminhos
Por onde flui a vida.
Não deixemos que o nosso amor
Entre na era do jato
Corte caminhos
Perca seu sentido
Na urgência de chegar logo e ultimar um bom negócio.
Não deixemos
Que com a industrialização
A divisão do trabalho
Perca a inteligência dos sentidos
Os olhos, os ouvidos,
O tato da língua, a linguagem do tato.
Abaixo
Essa sensação de impotência
Pra viver inteira o momento
Antes de curtir cada passo do caminho
Cada flor, cada pedra, cada riacho
Vale, montanha, mistério
Cheiro, vibração...
Brisa, tempestade
Reeedemoinho...
Entrega.
Isabel Bande Espinosa
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