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Quando o samba é a saída:
O Brasil entrou na guerra
Muita coisa no mundo não se resolve com a rigidez da lógica, sim, com astúcia, criatividade ou até mesmo com um pouco de samba.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
18/01/2026

E os inimigos saíram sambados...
A título de recordação, na Primeira Guerra Mundial, o Brasil tornou-se inimigo oficial da Alemanha, em 1917, após a neutralidade inicial ser rompida pelo afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães.
No âmbito desse conflito, a informação era considerada a mais letal das armas. E quem se destacava nesse quesito era a Alemanha. Eles criaram um sistema de códigos, que era uma fortaleza de lógica. Acreditavam que não haveria um quebra-cabeças no mundo que eles não pudessem resolver. Quanto ao sistema brasileiro, havia quem nele enxergasse vulnerabilidades.
Pois é. E se fosse possível então criar uma fechadura, que o inimigo nem reconhecesse como fechadura? Essa pergunta intrigava o Tenente Flávio Mendes. Este oficial tinha apelido de Sabiá, por sua capacidade de assobiar qualquer melodia. Era um carioca da gema, criado no bairro boêmio da Lapa. Antes da guerra, sua vida era o violão, os cafés e as rodas de samba, que varavam a noite.
Para ele, o mundo não era feito de linhas retas e ângulos de 90º. Era feito de síncopes e improvisações. Excelente operador de rádio, mas detestava o código Morse padrão: rígido, previsível, sem alma. Um dia então, ele começou a batucar um samba que estava na sua cabeça e pensou: “E se a própria estrutura do samba fosse o código?...”
Isso! O Tenente imaginou que poderia usar a codificação em duas camadas: a primeira consistiria no próprio ritmo sincopado do samba; a segunda, nas metáforas que compunham o universo lírico brasileiro. Por exemplo: um navio de carga seria “a baiana cheia de balaios”; um ataque, “a roda de samba vai esquentar”; um submarino avistado, “o boto cinzento tá rondando a baiana”. (Boto, lembrando “boat” – barco, navio.)
Para um alemão, aquilo tudo não faria o mínimo sentido. Para um brasileiro, seria uma mensagem clara como o dia. Mesmo assim, o Tenente Mendes criou um dicionário de metáforas e selecionou os sambas.
Todavia, o que disse o capitão, quando conheceu o sistema? “Tenente Mendes, eu estou tentando comandar um navio de guerra, não um bloco de carnaval.” Considerou mera excentricidade de um oficial boêmio.
Só que chegou o momento! Um nosso comboio de suprimentos foi sistematicamente dizimado em 48 horas. Os inimigos decodificaram todo o sistema, que era brasileiro, britânico e estadunidense.
O Capitão, desesperado, foi procurar o Tenente Mendes. Perguntou se os nossos decifradores iriam realmente entender aquele seu sistema. Mendes respondeu: “Sim, eles são brasileiros” (e brasileiro entende de samba).
Pois bem, uma troca de mensagens entre brasileiros anunciou a aproximação de um navio inimigo. Já os decifradores do Reich, tentando decodificar as nossas mensagens, haviam apenas captado: “Frases ilógicas, sem sentido, provavelmente transmitidas por um operador inexperiente ou bêbado.” Desta forma, os nossos combatentes chegaram, imperceptivelmente, ao navio alemão, atacaram-no e venceram esta batalha.
Num outro momento, a munição das nossas metralhadoras havia acabado. Como continuar o combate??? Um soldado teve uma ideia, que não deixou de ser também musical: arranjou uma matraca e ficou batendo-a incessantemente. Resultado: não ficou um inimigo por perto, impressionado com “tanta rajada de metralhadora”, que eles não sabiam de onde vinha.
E o caso daquele soldado que se perdeu do pelotão? Com muita dificuldade, chegou a um destacamento do Exército. Pediu abrigo. A sentinela bradou: "Identidade!". E o combatente: "Eu a perdi no combate." "Então não pode entrar!” “Mas eu sou brasileiro. Não vê que estou falando Português?” “Bem, mas portugueses, angolanos, também falam. E se você for espião?”
Quando o combatente já estava quase chorando, a sentinela propôs: "Se você é brasileiro mesmo, então cante um samba!" Batucando em sua própria perna, o combatente cantou: "Covarde sei que me podem chamar/Porque não calo no peito esta dor/Atire a primeira pedra, ai, ai, ai/Aquele que não sofreu por amor..." A sentinela concluiu: "Pode entrar! Você é brasileiro mesmo." (Mas isso, já na Segunda Guerra, porque este samba é de 1944.)
Enfim, muita coisa no mundo não se resolve com a rigidez da lógica, sim, com astúcia, criatividade ou até mesmo com um pouco de samba.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Operação Tatu:
Trump no subsolo
Trump vive na terra, no ar, no mar, na TV - mas também no subsolo. Suas ações têm denotado, em última análise, atitudes de decadência e de desespero. Explicáveis, como veremos a seguir.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
07/01/2026

A economia nos EUA vai mal. Há inflação. “Salário Mínimo Federal Congelado: O valor de US$ 7,25 por hora é mantido há mais de 16 anos, o maior período sem reajustes na história do país.”
“Estou falando sério: com certeza, eu saberia, até nisso, encontrar meu tipo de prazer, o prazer do desespero, é claro, mas é nesse desespero que estão os prazeres mais ardentes, sobretudo quando se adquire uma consciência muito forte de que a situação não tem saída.” (Dostoiévski, Memórias do subsolo.)
Trump vive na terra, no ar, no mar, na TV - mas também no subsolo. Suas ações têm denotado, em última análise, atitudes de decadência e de desespero. Explicáveis, como veremos a seguir.
A economia nos EUA vai mal. Há inflação. “Salário Mínimo Federal Congelado: O valor de US$ 7,25 por hora é mantido há mais de 16 anos, o maior período sem reajustes na história do país.” (Fonte: Gemini.)
No governo Trump, vários cortes foram feitos no social, nas verbas para pesquisas... A consequência dessa má administração tem sido o aumento de moradores de rua; de gente morrendo por não poderem pagar tratamentos, já que lá não existe um sistema público de saúde.
O próprio Mearshimer, professor da Universidade de Chicago, apresenta a sua crítica ao governo estadunidense: “Você não pode gastar mais do que produz indefinidamente. Você não pode manter 750 bases militares em 80 países, com um déficit comercial de 1,1 trilhão de dólares anuais. Você não pode ameaçar simultaneamente China, Rússia, Irã e Venezuela, quando a China financia o seu déficit, a Rússia produz 11% do petróleo global, o Irã controla o Estreito de Ormuz e a Venezuela tem as maiores reservas petrolíferas do Planeta.”
Outro fator que tem tirado o sono de Trump são as acusações de que ele esteve envolvido com garotas (de maior ou de menor), na ilha do seu amigo Epstein, que foi preso, tendo se suicidado na prisão. (Há boatos até de que ele foi assassinado visando-se à queima de arquivos.) Bem, só depois de tudo apurado e julgado é que o mundo conhecerá a verdade. Trump – homem de mídia - sabe desviar as atenções de seu povo. A invasão à Venezuela serve a mais este propósito.
A questão de afirmar que Maduro chefiava um esquema de tráfico de drogas para os Estados Unidos, sem se preocupar com as provas, não passa da atitude do lobo perante o cordeiro, tentando arranjar um pretexto para engoli-lo.
O que já está mais evidente é a sua cobiça pelo petróleo e riquezas naturais venezuelanas. E o apoderamento do petróleo assistiria o povo estadunidense? Claro que não. Isso beneficiaria diretamente os magnatas, principalmente os do petróleo. O próprio Trump já declarou sua intenção: que a indústria petrolífera venezuelana seja administrada por esses megaempresários. E por quê?
Esses magnatas injetaram bilhões de dólares na campanha presidencial de Trump, e este se vê, por conseguinte, na obrigação de recompensá-los. Num sistema neoliberal, em última análise, capitalistas é que governam o país. O presidente se afigura apenas como um fantoche na mão desses poderosos.
O governo de Maduro não vinha sendo o ideal para a Venezuela. A prova mais cabal foi a miséria instalada e a consequente emigração de grande parte de seu povo para o Brasil e outros países. Contudo, isso não autoriza, de forma alguma, uma invasão a um Estado estrangeiro e o sequestro de seu presidente e sua esposa. É um desrespeito a uma soberania e a leis internacionais. Trump deverá ser julgado pelo ocorrido.
A invasão poderá acarretar uma repulsa tão grande aos estadunidenses que – não desejamos - eles podem ser perseguidos em outros países pelo mundo afora. Outra reação, que deve ser intensificada, será a união de nações formando blocos mais sólidos de resistência.
A Rússia e, principalmente a China, têm marcado forte presença nas Américas. Portos, pontes, ferrovias são constantemente inaugurados, bancados pela terra de Xi Jinping. E circulam notícias de que a Rússia já começou a instalar bases para lançamentos de mísseis na Venezuela, e que ela tem um míssil que pode atingir Miami em apenas 4,5 minutos. (Verdades? Especulações? Um dia vamos saber.) Mas nessa invasão ao nosso país vizinho, suspeita-se de que tenha havido traidores, os quais não acionaram (ou desligaram) os sistemas de defesa. A ver.
Finalmente, seria ingênuo pensar que, em nosso tempo, só se faz guerra com armamentos. Existe a guerra econômica, a verbal (das propagandas), a científica, a tecnológica. (Aqui se incluem as batalhas dos chips e das terras raras.) E então? Uma invasão pode ser respondida sem empunhar uma arma. Apenas com uma palavra.
Vamos assistir atentos aos novos episódios. Trump tem falado em invadir a Colômbia, e voltou a cobiçar a Groenlândia. Parece que ele faz guerras, como se fosse uma criança operando um simples joguinho.
“Será que os senhores não perceberam que os sanguinários mais refinados foram, quase sem exceção, os cavalheiros mais civilizados?” (Dostoiévski, Memórias do subsolo.)
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Clone de celulose:
Bolsonaro de papelão
Mas afinal, o que vem a ser isso? Segundo notícia circulada, o PL (Partido Liberal), ao qual pertencia, até há pouco tempo, o ex-presidente, teve uma ideia inusitada. Eles pretendem confeccionar, em papelão, milhares de imagens de Bolsonaro.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
17/12/2025

Tais retratos estarão presentes em todos os eventos que tiverem por fim fazer a propaganda de candidatos da extrema direita, alinhados a esse homem público.
Então está decidido: Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência da República em 2026, representando a extrema direita. (Bom pro Lula.)
Flávio já declarou que não está à venda. Que só existe uma condição para que ele desista desta candidatura: a soltura de seu pai, o qual chegaria (em sonho, é claro) coberto de honra e de glória, para ocupar novamente a cadeira presidencial. Traduzindo: não desiste!
Até o mais ingênuo cidadão perceberá que Flávio não tem projeto algum para o Brasil, como aliás nunca teve. Seu único objetivo – caso fosse eleito – seria conceder indulto a seu pai.
Já é público e notório que o Flávio tem processos abafados por forças poderosas. O mais gritante de todos é o famoso esquema das rachadinhas. Com essa renda ilícita, esse parlamentar teria comprado até mesmo a mansão em que vive. Uns dizem que vale 6 milhões, outros afirmam que seu valor é 14. Essas cifras, como qualquer um pode concluir, são incompatíveis com seu salário lá no Congresso. E tem ainda a enigmática loja de chocolates. Durante a campanha, os adversários irão colocá-lo contra a parede para explicar tudo isso.
Bolsonaro de papelão. Mas afinal, o que vem a ser isso? Segundo notícia circulada, o PL (Partido Liberal), ao qual pertencia, até há pouco tempo, o ex-presidente, teve uma ideia inusitada. Eles pretendem confeccionar, em papelão, milhares de imagens de Bolsonaro. Terão o máximo cuidado em produzi-las, obedecendo às características físicas desse personagem: altura, busto, cintura... (Diminuindo a barriguinha, é claro.)
E tais retratos estarão presentes em todos os eventos que tiverem por fim fazer a propaganda de candidatos da extrema direita, alinhados a esse homem público. Todos nós nos lembramos de que, na campanha de 2018, uma série de candidatos foram eleitos na esteira desse líder. Por isso, diversos atuais candidatos devem acreditar que a experiência pode dar certo outra vez.
Bolsonaro de papelão. Psicologicamente, é uma forma de passar aos simpatizantes a ideia de que o “mito” ainda vive; o “mito” ainda está entre eles. Em outros termos, é uma tentativa de eternizar a figura desse prócer.
Paralelamente, a exposição dessa grande foto tem ainda o propósito de causar em seu público compaixão por esse condenado, saudade e também revolta contra aqueles que o condenaram – e que, aliás, agiram corretamente, dentro da Lei. Isso não deixa de ser um apelo velado para causar hostilidades contra ministros.
O ser humano, ao longo da História, cria heróis, mitos, amuletos, talismãs... Tudo, com o intuito de obter mais sorte ou proteção. Buscar arrimo nesses objetos pode ser sinal de insegurança e falta de confiança em si mesmo.
Eu sei é que esse “Bolsonaro de Papelão” vai comover muita gente, vai fazer gente chorar. Consciente ou inconscientemente, muitos associarão a trajetória desse “mito” aos passos da Paixão de Cristo até o Calvário. Nesse momento, ele se tornará um santo, um mártir. Seus fiéis atribuirão a ele milagres. Erguer-se-ão altares para devoção e adoração.
E essa fabulosa peça publicitária tornar-se-á, cumulativamente, novo objeto de desejo. Tê-la em casa, no comércio, no escritório... Exaltá-la, como se exalta a bandeira da Pátria ou do time do coração. Se preciso for, pagarão caro por ela. Choverão pixes. Será mais um filão de renda para o Partido e para os inescrupulosos de sempre.
Todavia, tem o outro lado da moeda. Milhares, até mesmo milhões de pessoas, já não terão a mesma confiança nesse, que passou a ideia de um herói inabalável, invulnerável.
O 8 de janeiro deixou uma série de sequelas. Bolsonaro atiçou fogo em milhares de apoiadores. Aquela turba depositou inteira confiança nele e em seus discursos. E eles, até certa data, foram os únicos a pagar o pato. E, quando a bomba estourou, onde estava o “Chapolin Colorado” para os defender? Bem longe dali. (Ele próprio, posteriormente, sucumbiu.)
Bolsonaro de Papelão. Qual a novidade? Ele toda vida foi. Um herói frágil, quebradiço, apenas uma sombra do herói que ele ostentava ser. “Marcha, soldado, cabeça de papel!...”
Vamos ver, caso essa campanha venha mesmo a ser lançada, seu efetivo resultado. Quantos aparecerão para ajoelhar-se diante dessa imagem e adorar esse ídolo de papelão – coisa que o Cristianismo, que eles próprios praticam, tanto reprova!
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Terra, 2025:
Peste, fome, guerra
Os Estados Unidos são um país da propaganda, do espetáculo. Sempre souberam construir a imagem de um país glamoroso, ocultando, no entanto, suas adversidades. Aliás, é uma terra gigante mesmo. Porém, toda nação tem seus desafios, seus pontos fortes e seus pontos fracos.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
06/12/2025

Em 1935, os compositores George Gershwin e Ira Gershwin lançaram a ópera Porgy and Bess, abrindo as cortinas para mostrar ao mundo as vulnerabilidades dos Estados Unidos.
A tese de alguns líderes religiosos de que o fim do mundo está próximo, porque testemunhamos muita peste, fome e guerra não se sustenta. Eles citam a Covid, a guerra entre Rússia e Ucrânia e a fome existente no mundo.
Só que esses pregadores destacam apenas um recorte da História. Conflitos armados, de longa data, já acompanham a humanidade. Só para citar alguns: Conquistas Mongóis (século XIII); Rebelião Taiping (China, 1850–1864); Guerra do Vietnã (1955–1975). (Fonte: Gemini). E as duas Grandes Guerras Mundiais. Todas essas conflagrações, por demais, sangrentas.
Sobre as pandemias, podemos mencionar a Peste Bubônica (várias ondas.) A Varíola. Embora tenha existido por milênios, essa enfermidade causou surtos devastadores em todo o mundo, desde o século XVI. A Cólera, várias pandemias, desde o século XIX.
Intensas ocorrências de fome podem ser citadas: a Grande Fome Europeia (1315–1317). As duas Fomes de Bengala (a de 1770 e a de 1943). A Grande Fome da China (1959-1961). (Fonte: Gemini).
Vamos agora focalizar o momento em que vivemos. O Brasil – com tantos desafios na área social – acaba de sair do mapa da fome. E os EUA entram. Todos nós sabemos que os EEUU constituem a maior economia do Planeta. Um país de bilionários. Na outra extremidade, situam-se os moradores de rua, as pessoas que morrem por doenças, porque não podem pagar um tratamento. E lá não existe um SUS, como temos no Brasil.
Os Estados Unidos são um país da propaganda, do espetáculo. Sempre souberam construir a imagem de um país glamoroso, ocultando, no entanto, suas adversidades. Aliás, é uma terra gigante mesmo. Porém, toda nação tem seus desafios, seus pontos fortes e seus pontos fracos.
Em 1935, os compositores George Gershwin e Ira Gershwin lançaram a ópera Porgy and Bess, abrindo as cortinas para mostrar ao mundo as vulnerabilidades dos Estados Unidos. O começo já diz muito:
“Summertime/An' the livin’ is easy/Fish are jumpin’/An’ the cotton is high/Oh your daddy’s rich/And your ma’is good-lookin’/So hush, little baby/Dont you cry.”
Em tradução livre, poderia ser: “Verão e a vida é fácil. Os peixes estão pulando e o algodão está alto. Oh, seu pai é rico. E sua mãe é bonita. Então, criancinha, não chore”.
Ou seja: tudo ali (nos EUA) indica riqueza, opulência, beleza. Todavia, à margem desse mundo de fantasia, existe gente chorando.
Trump parece pouco preocupado com os indicadores sociais. Ele cortou uma série de benefícios nesta área. Seu caráter xenofóbico manifestou-se, por exemplo, na expulsão de trabalhadores estrangeiros em massa. Bem, poderia aumentar as vagas de trabalho para os nativos. Entretanto, quem está disposto a enfrentar enxadas, picaretas, carregar latas de concreto nas costas? Muita empresa quebrou por falta de mão de obra. Em consequência, aumentou o desemprego – também para os nativos.
E estas absurdas tarifações? Os preços acabam subindo para os estadunidenses, porque os produtos ficam mais raros e caros. E o shutdown (a paralisação dos serviços do governo federal), que chegou a durar 41 dias? Provocou o afastamento de funcionários públicos, interrompeu o pagamento de salários, afetou a distribuição de ajuda alimentar, além de causar transtornos no tráfego aéreo. E essa compulsão por guerrear?...
Enfim, não estou aqui defendendo que o Brasil é o País das Maravilhas. Temos desafios, e muitos! Contudo, o IBGE apontou que, presentemente, o Brasil vem exibindo os melhores indicadores sociais da última década. Pelo menos, estamos no caminho certo.
A recente isenção total do pagamento de imposto de renda para quem ganha até 5000 reais, e a redução, para quem recebe, de 5000,01 a até 7350, ajuda mais ainda o trabalhador; e aquece a roda da economia.
Enfim, se esses trilhões de dólares desperdiçados em guerras fossem destinados ao combate à fome e a projetos sociais (na saúde, educação, moradia...), a vida dos cidadãos estaria bem melhor. Bastaria que os governantes tivessem menos orgulho, menos egoísmo e se sentassem à mesa para conversar. Vale para qualquer país, em qualquer época.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Gerada por IA / via VF.
- Produção: Pepe Chaves.
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Dia da Consciência Negra:
Preconceito destruidor
O que se sabe é que o ambiente hostil fez o mestre desaparecer. Quase implorando, a direção da Faculdade foi atrás do professor de antes, querendo que ele retornasse para concluir o ano. E ele atendeu.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
20/11/2025

Quem se exalta será humilhado; quem se humilha será exaltado. E nós, alunos, entendemos como um preconceito é capaz de diluir sonhos, tendo também afastado de nós um magnífico Artista.
Tudo aconteceu numa faculdade de música em São Paulo, na qual estudávamos.
A coordenadora, Cristina C. B., aparentava ter uns sessenta anos. Era também a nossa professora de Teoria e Solfejo. A aula dela costumava fluir normalmente. Isso, quando ela não chegava tonta. Ela costumava dizer: “Eu bebia muito antigamente. Eu era viciada, principalmente em vinho. Agora, eu não bebo mais não...”
“Vamos à lição de hoje. Abram o livro de solfejo na página dezoito.” A gente abria. Ela falava de uma outra coisa, depois perguntava: “Todo mundo abriu o livro na página vinte e sete?” E nós: “A senhora pediu foi página dezoito.” E ela: “Não, eu pedi cinquenta e sete, mas eu queria dizer vinte e oito...” Nesse dia, aquela aula virava mais um programa de humor.
Ela se gabava muito de ser filha de francês com italiana. Falava isto, como quem quisesse dizer que era descendente de europeus, “raça nobre”, “raça pura”, no entender dela.
Pois bem. Agora, que vocês já sabem quem era a Cristina C. B., vamos mostrar o que um dia ela fez. Lamentável!
Às quintas-feiras, tínhamos aula de canto. Integrávamos o coral da Faculdade, que por sinal estava bom.
Um dia, o regente anunciou sua saída da Escola. Chegou para substituí-lo outro professor e regente. Era um senhor de uns quarenta anos, forte, elegante, bem trajado. Parecia ser bastante inteligente. Era negro. E foi iniciando a sua fascinante lição.
Imediatamente, a Cristina, que não tinha aula com a gente naquele dia, foi para a sua sala habitual e começou a mandar recados para nós, alegando que precisava conversar com a gente. Bem, ela não tinha nada que dizer. Na verdade, o que ela estava tentando era sabotar o trabalho daquele professor – por ele ser negro. Que lástima! Logo num meio artístico...
Esse regente entendeu tudo. Ficou bastante triste e descontrolado. Andava de um lado para o outro da sala. Contou que estudava francês... Passava a mão sobre a cabeça... Realmente, o que a Cristina havia falado com a gente foi o seguinte: “Não voltem para a sala desse cara não. Fiquem por aqui mesmo.” Eu não obedeci. Voltei para a sala dele.
O que se sabe é que o ambiente hostil fez o mestre desaparecer. Quase implorando, a direção da Faculdade foi atrás do professor de antes, querendo que ele retornasse para concluir o ano. (Já estávamos em outubro.) E ele atendeu.
Visando a celebrar as solenidades de Natal, a Faculdade resolveu criar um Festival de Corais, aberto não só ao Brasil, a toda a América do Sul. Um patrocinador ofereceu os troféus e valiosos prêmios em dinheiro. O corpo de jurados era constituído por maestros e professores das melhores faculdades de São Paulo e de outros países latino-americanos.
Chega o grande dia. Os corais vão se apresentando um a um, todos expressando o seu encanto.
Anunciaram o último concorrente da noite. O regente chegou, cumprimentou solenemente a plateia. Anunciou que iam apresentar um spiritual. Para quem não se lembra, os spirituals surgiram no sul dos Estados Unidos. Eram cantados por negros escravos. Evoluíram de canções de trabalho e religião. Cantava-se para amenizar os sofrimentos e as condições desumanas a que os negros eram submetidos.
A apresentação foi impecável. E sublime. Parecia estar transportando a todos para o Céu. Esse grupo vocal foi aplaudido calorosamente e de pé. Até mesmo os jurados se levantaram para aplaudir. Nem precisava dizer que foi o vencedor do Festival.
O coral era formado apenas por cantores negros. E quem era o regente? O regente era exatamente aquele professor, que havia sido humilhado naquela faculdade.
É bíblico: quem se exalta será humilhado; quem se humilha será exaltado. E nós, alunos, entendemos como um preconceito é capaz de diluir sonhos, tendo também afastado de nós um magnífico Artista.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Gerada por IA / via VF.
- Produção: Pepe Chaves.
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No transporte urbano:
O cachorro que pega lotações
E vocês acreditam que esse nosso herói pega a lotação sempre no mesmo ponto, e desce sempre em outro, a uns dois quilômetros dali? Às vezes, ele está lá do outro lado. Quando o ônibus para, ele atravessa a rua correndo na frente dos carros, mas nunca perde a condução.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
14/11/2025

Muita gente fotografa, brinca com ele. Ele não ataca ninguém. As crianças veem nele um amiguinho divertido e feliz.
Aqui em Ibirité (cidade com alguns bairros já conurbados com Belo Horizonte), acontecem coisas que estão pondo os motoristas endoidados.
Uma delas tem ocorrido nos últimos dias. Um cachorro preto, grande – a quem deram o nome de Negão - parece que se cansou dessa vida de cachorro, de só ter de andar a pé. Quando passageiros vão entrando no ônibus, ele, com a maior convicção do mundo, pula dentro também.
E vocês acreditam que esse nosso herói pega a lotação sempre no mesmo ponto, e desce sempre em outro, a uns dois quilômetros dali? Às vezes, ele está lá do outro lado. Quando o ônibus para, ele atravessa a rua correndo na frente dos carros, mas nunca perde a condução.
Será o que ele procura? Seu dono, sua dona? Um grande amor que ele perdeu? Ou quer apenas dar um passeio? Alguns passageiros vão emitindo as suas opiniões: “Isso é sinal do fim do mundo.” “Acho é que ele é alguma pessoa que já morreu e voltou no corpo de um animal.” “Ah, para mim, ele é um espírito maligno disfarçado de cachorro. É preciso orar muito!”
E tem também aquelas pessoas pragmáticas. Uma senhora reclamou que estava muito errado deixar um animal viajar no ônibus. Argumentou que ele podia atacar uma criança, um idoso...
Muita gente fotografa, brinca com ele. (Eu inclusive.) Ele não ataca ninguém. As crianças veem nele um amiguinho divertido e feliz.
Ah, mas tem pessoas carrancudas! Um moço não olhou só para aquele cão com cara de malvado. Olhou pra mim também, quando me viu brincando com ele. Ele quase avançou em mim – o moço, não, o cão.
Um senhor sério falou comigo que eu não deveria pôr a mão em animais não. Que eles transmitem muitas doenças. Sem querer prolongar a discussão, apenas o fiz lembrar que nós, humanos, também transmitimos.
Enfim, a lotação acabou virando um local de debates, tendo como figura central o canzarrão. Uma adolescente foi quem falou mais bonito: “Devemos viver em harmonia com os animais, as plantas, as águas, a terra, o ar, o sol, a lua, as estrelas, com Deus e todo o Universo.”
Lamentei que minha colega Nina Soalheiro não estivesse presente. Naquela hora, ela devia estar em seu consultório ou debruçada sobre suas pesquisas. É uma psicanalista por demais sensível e dedicada. Pelos incessantes papos que tivemos, aprendi um mundo de coisas com ela.
Pensamento viaja, foi o mesmo que ver ali a estimada Nina analisando toda a situação e o comportamento das pessoas. Vamos destacar aquela senhora, temendo que o cachorro pudesse atacar passageiros. Ela estava externando medos, inseguranças que ela já trazia consigo e que deveriam estar emergindo em diversas outras situações. Essa mulher deve estar, enfim, insegura para enfrentar a própria vida. Deve ter tido traumas.
Quem falou de espírito maligno, de sinal do fim dos tempos mostra-se um tanto paranoico. Também está inseguro, precisando de tratamento.
Quem só enxerga os animais como transmissores de doenças está vendo o mundo através das lentes da desgraça. Bem, não tiro totalmente sua razão. Em certos casos, é bom mesmo ter cuidado. Todavia, deve-se considerar que o nosso organismo também produz anticorpos e, na maior parte das vezes, não somos afetados por esses temíveis micróbios. Mas... E o lado bom dos animais?
Então, por que não olhar as coisas pela lente do otimismo, levando uma vida mais leve? O animal pode ser companheiro, protetor e até mesmo terapeuta. Já viram que as pessoas ficam mais calmas quando têm a seu lado um cachorro, um gato ou outro animal de estimação?
E a equoterapia (a terapia com cavalos)? Ela já tem curado sérios casos de traumatismos, disfunções sensório-motoras e até distúrbios de linguagem.
Que cada um tire as suas próprias conclusões. Au, au! Na linguagem dos cães, quer dizer Muito Obrigado!
Fiquem agora com a música “Nós, irracionais”, de Juca Chaves.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Gerada por IA / via VF.
- Produção: Pepe Chaves.
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Gravadoras:
Como eram os sistemas de gravação
Os discos de 78 rotações eram pesados, quebravam à toa, chiavam muito. Já os de vinil surgiram como o sucesso de uma nova tecnologia para a época. Além de comportarem mais músicas, eram mais leves e inquebráveis.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
03/11/2025

“Abra a sua janela
Deixe entrar o luar
[...]
Ligue
a sua eletrola
Vista o seu negligê
Deite-se e acabe o cigarro
Que eu no cinzeiro deixei
Quero
sentir que você
Na maciez do seu ninho
Dormiu ouvindo, bem baixinho
O meu triste long-play.”
(Meu triste long-play, de Adelino Moreira, interpretação de Nélson Gonçalves, ano 1959).
Se um jovem ouvisse hoje esta canção, com certeza iria ficar sem entender uma porção de coisas. Precisaríamos, por exemplo, explicar para ele que negligê (palavra de origem francesa, “négligé”) era um roupão transparente feminino, sensual, mais próprio para o quarto.
Deveríamos esclarecer-lhe ainda que eletrola era um aparelho de som usado para rodar discos daquela época, como o LP (long-play), também citado na música, conhecido como disco de vinil.
E por que se chamava long-play? Bem, long significa longo, comprido, de longa duração. Play, dentre outros sentidos, quer dizer tocar. Portanto, um disco que toca por mais tempo. Isto porque, antes, o que havia eram os “discos de cera”, de 78 rotações por segundo. De regra, vinha uma música de um lado e outra do outro. Tínhamos de virar o disco para ouvir a segunda música. O long-play surgiu no Brasil em 1951 (um ano após a inauguração do primeiro canal de TV em nosso país, a TV Tupi, São Paulo).
Outra coisa: os discos de 78 rotações eram pesados, quebravam à toa, chiavam muito. Já os de vinil surgiram como o sucesso de uma nova tecnologia (para a época). Além de comportarem mais músicas, eram mais leves e inquebráveis.
Todavia, tanto um quanto o outro deram uma bela contribuição à arte das Musas e à cultura. Tiveram o grande mérito de registrar, de documentar belíssimas composições, importantes intérpretes, destacáveis orquestras.
Com o auxílio da IA, vamos apresentar um histórico das gravações. Thomas Edison inventou o fonógrafo em 1877. Este aparelho gravava músicas em cilindros de cera. Estes eram usados para gravar som através de vibrações mecânicas. Sua gravação durava cerca de 2 minutos.
Dez anos depois, Emil Berliner criou o gramofone, que utilizava discos planos de cera e outros materiais. Essa invenção foi um sucesso e logo superou os cilindros, tendo sido a base para os discos de 78 rotações que se popularizaram mundialmente.
E no Brasil? Quando chegou o disco de 78 rotações? Em 1902, pelo empresário tcheco Fred Figner, da Casa Edison, no Rio de Janeiro. O Brasil se tornou um dos primeiros países a ter gravações lançadas regularmente e uma indústria fonográfica própria. Na verdade, Figner começou a gravar e vender cilindros de música brasileira.
A importância da Casa Edison. Ela foi a primeira gravadora do país. Funcionava ainda como ponto de encontro dos artistas. Foi ali, por exemplo, que apresentaram ao Vadico - que era pianista e compositor paulista - um talentoso poeta carioca que estava se despontando: Noel Rosa. Estabeleceu-se ali uma célebre parceria, que deu muito orgulho ao Brasil e à nossa música.
Pois bem, e antes de 1902? Ah, era difícil! O registro e difusão das obras tinha de ser através de partituras. A própria Chiquinha Gonzaga (pianista, compositora e primeira maestrina brasileira) compunha uma música, escrevia sua partitura e saía vendendo-a pelas ruas. Não havia xerox. Para vender, devia-se então escrever a partitura várias vezes.
Não podemos nos esquecer da época das fitas gravadas, as fitas K7. Rodavam em um aparelho próprio, o toca-fitas. Os aparelhos 3 em 1 fizeram o maior sucesso. Rodavam fitas, LPs e podia-se gravar a própria voz. Alguns tinham ainda uma quarta função: eram também rádio. Presente lindo para dar a uma jovem que estivesse comemorando o seu aniversário de quinze anos e preparando a sua festa de debutante! Bons tempos!...
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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