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Primeiro livro eletrônico de poesias de Sérgio Souza foi liberado ao público.

Para baixar gratuitamente “Um Sonho Breve”, clique aqui.

 

 

 

Vida de espera:

Temas e voltas na favela de Maria

Na favela, és amada por teus colegas de infortúnio. Todavia, eles pouco podem fazer por ti. Talvez, só velar-te, quando morreres...

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

25/09/2022

 

Maria-solidão. Maria-esquecimento. Maria-de-pouca-instrução. Maria-de-pouca-informação. Maria da Favela. Maria brasileira.

 

Maria...

 

Mas para que tanto sofrimento, se teu país é a terra em que plantando tudo dá?

 

Mas para que tanto sofrimento, se teu país é cristão e teus pais te ensinaram a rezar?

 

Mas para que tanto sofrimento, se teu país tem belas praias, tem samba e tem carnaval?

 

Maria, o que deu errado contigo? Foi ter amado precocemente e ter gerado uma porção de filhos, para preservar a vida na favela?

 

Ou foram os governantes, que fecharam os olhos aos teus problemas, ocupados que estavam com suas motos, com seus carros, com seus luxos, suas mansões, suas viagens internacionais?

 

Maria-solidão. Maria-esquecimento. Maria-de-pouca-instrução. Maria-de-pouca-informação. Maria da Favela. Maria brasileira.

 

Mas para que tanto sofrimento, se teu pastor te abençoou e garantiu que mal algum recairia mais sobre ti?

 

Mas para que tanto sofrimento, se não tens computador nem televisão, mas tens um radinho, em que podes ouvir a pregação ou alguma musiquinha, enquanto pensas no que vais dar de comer aos teus filhos?

 

Na favela, és amada por teus colegas de infortúnio. Todavia, eles pouco podem fazer por ti. Talvez, só velar-te, quando morreres...

 

Maria...

 

Conheci o teu marido. Era negro, trabalhador e honesto. Mas foi executado por policiais aí no Morro, porque o confundiram com um traficante, e ainda vestia uma camisa vermelha (a gente não pode falar...). Estás desempregada e viúva, com quatro filhos pra tratar... Choras.

 

Mas para que tanto sofrimento, Maria, se tu tens o auxílio-brasil, que dá para comprar um picolé para cada um dos teus filhos? Dois benefícios nisso: o doce e o refresco.

 

Maria, talvez tu não saibas, mas a favela é bem maior que tu podes imaginar. Tal como um rio que enche e transborda, alagando terrenos e milhares de casas, causando pobreza e maiores destroços, assim é a favela-brasil. Em cada quatro brasileiros, um passa fome. Muitos outros estão comendo muxiba ou estão roendo ossos. Povo virando rato.

 

Maria, milícias estão se expandindo pelo Brasil. Povo, cada vez mais armado. Gente, que fala “em nome de Deus”, arma a população e incentiva a matar. Todos terão que construir fortes na frente das suas casas. Mas tu, Maria, não tens verba para isso. Seguirás desprotegida.

 

Tu não sabes das notícias? Estão acabando com as nossas florestas, com os nossos índios, com o nosso ar, Maria! Estão destruindo os nossos sonhos, Maria! O Brasil, sob essa nuvem pesada em que vivemos, não é mais aquele país alegre e risonho, aquele “país tropical, abençoado por Deus”, que Ben Jor, Francisco Alves e Ary Barroso cantavam.

 

Maria...

 

Mas para que tanto sofrimento, se teu governo, durante a campanha política, está prometendo levar o progresso até aí? Instalar-se-á, nesta terra brasilis, a fertilidade, a fartura, como nunca se viu. Maria, a doação de uma marmita já está chegando a ti, mas, por Deus, não fales que vais votar em candidato diferente do apoiado pelo doador – se não, não haverá mais marmita, e tu corres o risco de ser exterminada. Ser pobre é muito perigoso.

Maria-forte. Maria-ébano. Maria-aroeira. Maria-esperança...

 

Maria, busca água na bica, vai atrás do teu casebre e toma teu banho, sem sabonete, como sempre. Repete trinta e três vezes: “As coisas vão melhorar.” Faze a tua oração e espera mais uma vez. Tu sabes esperar.

Maria...

 

Mas para que tanto sofrimento, se um anjo já vem te buscar?

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Há mais pra se viver:

Um asilo maluco  

Advertência: se você é tradicional e se deixa guiar por um pudor acentuado, então, não leia esta crônica. Ao contrário, se você tem uma mente aberta a inovações (e até mesmo permissões), então, escolheu a leitura certa.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

15/09/2022

 

Asilo bastante silencioso. Logo ao anoitecer, invade aquele espaço uma banda de rock da pesada, assustando todo mundo. Os velhinhos pulam da cama para ver o que acontecia.

 

Um asilo municipal era ocupado por 29 idosos – dentre eles, alguns com transtornos mentais. O diretor era um médico, também já velhinho. Ali trabalhavam uma cozinheira (que era também faxineira) e uma enfermeira. Lá uma vez por mês, aparecia ali um grupo, também de velhinhos, oferecendo alguma música aos asilados. Um violino, uma flauta e um violão tocavam valsas dolentes, tão lentas quanto a vida naquele limitado mundo.

 

O diretor, valendo-se do seu direito de tirar suas férias-prêmio, decidiu que ia para a Alemanha, ficar lá durante três meses. Colocou em seu lugar uma psicóloga, que ele havia conhecido em um congresso.

 

Chega a Dra. Kátia Rios. Asilo bastante silencioso. Logo ao anoitecer, invade aquele espaço uma banda de rock da pesada, assustando todo mundo. Os velhinhos pulam da cama para ver o que acontecia. Dra. Kátia havia preparado o ambiente, numa área ociosa à frente do asilo. Encheu ali de balões, e não poupou efeitos luminosos.

 

Conduziu todos ao local, incentivando-os a dançar. Um recusou: “Ah, não posso. Eu sinto dores nas pernas.” E ela: “Isso é porque você fica muito parado. Vai dançar sim.” Uma senhora confessou que sempre teve vontade de dançar, mas achava que seu tempo já tinha passado. “Não passou não. Você está nova ainda” – contestou a psicóloga.

 

Naquela noite, todos dormiram em paz. Nem se lembraram dos comprimidos para dormir. Adoraram! Queriam mais.

 

O Zé do Angá revelou que o maior sonho da vida dele era tocar sanfona, mas que agora já era tarde demais. A Dra. Kátia conversou com o dono de uma loja de artigos musicais e este presenteou o Zé com um belíssimo acordeom. De início, era até cansativo ouvir aquele nheque-nheque do Sô Zé o dia inteiro. Num instantinho, porém, o homem já estava tocando uma porção de músicas bonitas. Aprendeu sozinho.

 

E a cada dia, era uma ocupação diferente e dinâmica. A Dra. Kátia notou que alguns velhinhos tinham manias. A que mais lhe chamou a atenção foi uma idosa, cismada que era um pé de alface. O que a terapeuta fez? Levou todo mundo para a área ao ar livre e propôs: “Gente, hoje nós vamos fazer um teatro. Eu sei que todos e todas aqui têm uma veia muito forte de atores.” (Todos sorriram realizados.) “Então vamos: aqui hoje é uma horta. Cada um vai ser uma verdura diferente. Eu vou ser um pé de couve.” – E você, Dona Ção? – Alface, respondeu aquela mulher.

 

“E então? Todos nós vamos fazer gestos leves, agradecendo ao sol por essa luz e energia.” (Todos fizeram muito bem.) “Agora, estamos sentindo uma chuvinha fina, refrescante, caindo sobre nós.” (Foi bonita a cena.) De repente, a psicóloga advertiu: “Gente, um punhado de galinhas está vindo em nossa direção, e elas vão nos comer. Correm! Correm!” Todos correram, menos a Dona Ção. A doutora: “Corre, Alface! Ou você quer ser comida?” Dona Ção: “A senhora esqueceu que um pé de alface não tem como correr?”

 

A Dra. Kátia ponderou: “Essa mulher, de doida, ela não tem nada. Ela tem muito mais lógica do que nós todos aqui.” Deu-lhe alta na mesma hora. Na sequência, um a um foi sendo considerado curado ou pronto para sair.  

 

Faltava resolver o caso da Dona Cacilda. Viúva, setenta e nove anos, vivia em constante depressão. Já havia tentado vários tratamentos. A psicóloga, após conversar muito com ela, convidou-a para irem a um determinado endereço. De início, a mulher recusou. Dois dias depois, acabou aceitando.

 

O apê do Mc Leno era simples e aconchegante. E ele, um michê de vinte e cinco anos, saradão e educado. Dra. Kátia: “Cacilda, agora é com você. Te espero lá fora. Volto daqui a uma hora, OK?” Cacilda teve um deslumbrante momento. Há quase quarenta anos, aquela viúva não vivia uma noite nem parecida com essa. Adeus, depressão! O primeiro programa, a psicóloga pagou. Os próximos, também com outros gatões, a própria Cacilda pagava.

 

Volta o médico, irritadíssimo, já sabendo de tudo. Dispensa a psicóloga.

 

No dia seguinte, os ex-asilados vão à casa daquela amiga. Levam-lhe flores, bombons, cantam muito para ela. O Zé tocou acordeom. Aliás, este artista agora se apresentava numa emissora de rádio e era contratado para bailes e festas. Outros ex-asilados arranjaram empregos ou montaram o seu próprio negócio. Quanto à psicóloga, ela não precisava mais daquele emprego nem de nada. Ela sorria tranquila, porque se sentia plenamente realizada.  

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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No centro das atenções:

Tchutchuca!? o que é isto???

Centrão, como todos nós sabemos, é aquele conjunto de partidos, os quais não se situam nem na direita nem na esquerda (mas mudam de opinião facilmente, para juntar-se a quem estiver no poder). Embora possa haver ali alguns parlamentares honestos...

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

28/08/2022

 

E dizer que Bolsonaro é “Tchutchuca do Centrão” sugere que ele é submisso a esse conjunto de partidos de centro – o que tem muito de verdade.

 

Há alguns dias, muita gente presenciou um repórter, à frente do Palácio da Alvorada, insultando o Bolsonaro. O presidente reagiu. Investiu contra o rapaz, dando a entender que pretendia tomar o celular dele. Dentre os insultos proferidos por aquele repórter, um se destacou: “Tchutchuca do Centrão”. E esse deixou o presidente indignado. E apelido é assim, né gente? Quanto mais a pessoa se mostra incomodada, mais o apelido pega. Foi o que aconteceu. Pegou mesmo.

 

Bem, Centrão, como todos nós sabemos, é aquele conjunto de partidos, os quais não se situam nem na direita nem na esquerda (mas mudam de opinião facilmente, para juntar-se a quem estiver no poder). Embora possa haver ali alguns parlamentares honestos, a fama desse tal de Centrão não é tão boa. Basta lembrar que, por ocasião da campanha do bolsonaro, em 2018, o general Heleno, seu fiel apoiador, parodiou o samba, cantando: “Se gritar pega centrão/Não fica um meu irmão...” (A letra do samba era assim: “Se gritar pega ladrão/Não fica um meu irmão...”) O general Heleno trocou a palavra ladrão por centrão.

 

E, nessa campanha, Bolsonaro prometeu firmemente que não iria associar-se ao Centrão. Em outros termos, que, em seu governo, não haveria corrupção, nem o toma-lá-dá-cá (com integrantes do Centrão).

 

Bonito! Só que o Bozo fez tudo diferente. Com o tempo, não só se coligou ao Centrão, como produziu com ele esquemas bilionários e, em grande parte das vezes, sem transparência. Nascia o “orçamento secreto”; e decretou-se, pelo presidente, o “sigilo de cem anos”. Hoje, segundo os analistas, quem comanda o Brasil não é um presidente, sim, o Centrão.

 

Ora, todos nós sabemos que um dos princípios constitucionais é a transparência. Nós temos o direito de saber como está sendo aplicado o dinheiro dos nossos suados e sacrificantes impostos – entre os mais elevados do mundo. E foi exatamente ancorados nessa INtransparênia que surgiram suspeitas de corrupções bilionárias, algumas já tendo vindo à tona, outras abafadas, outras ainda sob investigações. Para ser mais claro: de honesto nesse esquema, parece não haver nada. E o povo se ferrando; gente passando fome; educação corrupta e sem projetos; saúde, um caos (basta citar os quase setecentos mil mortos pela Covid, muitos deles, por negligência do Bozo e seu “ministro”).

 

Mas... o que significa mesmo essa tal de tchutchuca? Trata-se de uma gíria popular no Rio de Janeiro. Era, inicialmente, um tratamento dado a uma menina, para chamá-la de bonita, gata. Com o tempo, passou a ser pejorativo, sendo dirigido às funkeiras, como mulheres vulgares. O termo se fixou, com o lançamento da música “Tchutchuca, vem aqui pro seu tigrão”, contida no primeiro CD do Bonde do Tigrão, de 2001.

 

E esta palavra, de forte comunicação, continuou a propagar-se entre os funkeiros. E dizer que Bolsonaro é “Tchutchuca do Centrão” sugere que ele é submisso a esse conjunto de partidos de centro – o que tem muito de verdade.

 

É oportuno lembrar que o intrigante termo tchutchuca, em 2019, já havia causado indignação. É que, numa audiência da Câmara dos Deputados, em 3 de abril, cujo tema era a reforma da Previdência, a temperatura entre os participantes se elevou, a ponto de o deputado federal Zeca Dirceu afirmar que o ministro da Economia, Paulo Guedes, era um “tigrão com os aposentados, porém, tchutchuca com os mais privilegiados”. Paulo Guedes não deixou barato, respondendo: "Tchutchuca é a mãe, é a avó!”

 

Eu sei que as tchutchucas foram aumentando, já chegando até à avó. Já dá para formar o Partido das Tchutchucas. (Só que eu não voto nele!) Aliás, o Lula já cunhou um novo apelido para o Bolsonaro: “O bobo da Corte”, exatamente insinuando que o Bozo não governa, que quem governa é o Centrão.

 

Enfim, o termo, que se tornou tão inquietador e ofensivo, é doce no falar; é afetuoso. Portanto, se você ainda não arranjou um nomezinho para a sua gatinha ou cachorrinha, Tchutchuca é uma boa sugestão. Soará bem no ouvido das fofinhas. Garanto que elas vão adorar.

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Uma canção:

Bate, bate, coração devagarinho...

Influenciamos tudo; e somos influenciados por tudo. Porque o Universo é o uno, sobre o qual todas as coisas se vertem. Vejamos esta história.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

23/08/2022

 

Aqueles cantos penetravam o ouvido de Pedrinho, ainda que a maioria deles lhe parecesse cafona, totalmente fora do seu tempo e do seu mundo.

 

Todos os atos que praticamos reverberam pelo Universo. Podemos não saber onde é nem quando a sua influência será mais intensamente notada. Da mesma forma, um ato, um fato, ocorrido na estrela mais distante, também nos afeta. Alguém plantando, outro colhendo, um menino rindo, um avarento xingando; um fogo que arde, uma enchente que vem, uma pedra que cai, uma brisa que sorri, um meteoro que passa... Influenciamos tudo; e somos influenciados por tudo. Porque o Universo é o uno, sobre o qual todas as coisas se vertem. Vejamos esta história.

 

Numa modesta casa, viviam Pedrinho: um menino de oito anos; seu pai: operário; sua mãe: dona de casa; e sua avó: aposentada, que adorava entoar canções. Aqueles cantos penetravam o ouvido de Pedrinho, ainda que a maioria deles lhe parecesse cafona, totalmente fora do seu tempo e do seu mundo. Outros, ele até ouvia com encanto. Tudo, enfim, ficava ali, armazenado no seu subconsciente.

 

Algum tempo se passou. Pedrinho agora já estava com 17 anos. Como a maioria dos adolescentes, estudava, e era bastante interessado por celular e computador, tendo uma porção de amigos, dentro e fora das mídias sociais.

 

Foi aí que ele viu, numa dessas redes, o apelo de Leonardo (Leo), suplicante pela letra de uma canção - na verdade, um chorinho. Pedrinho logo se lembrou de que era uma das músicas que sua avó mais cantava. Por isso, ele a sabia de cor.

 

Pedrinho olhou a data da postagem. Era de dois anos atrás. Resolveu entrar em contato com o internauta, perguntando se ele já havia conseguido o que buscava.

 

- Ainda não – respondeu o rapaz.

 

- E você já pesquisou no Google?

 

- Sim, mas não encontro de jeito nenhum. Na verdade, não é propriamente para mim. É para a mamãe. Ela é tão fascinada por essa música, que chega a afirmar que não pode morrer, sem antes encontrá-la. A melodia, ela tem no ouvido, e até sabe um ou outro verso. Essa música significa muito para ela. (Recordações de algum amor que se foi? ...Inútil perguntar. Isso ela não vai revelar a ninguém.)

 

Música enviada. A cidade do destinatário ficava a uns 800 km dali. Pedrinho só não podia informar o autor nem o intérprete. Só ouvia a vovó cantando. A letra era assim:

 

“Bate, bate, coração devagarinho/ Meu benzinho foi embora e me deixou/ Bate, bate de mansinho/ Ele roubou o meu carinho/ E depois me abandonou/ O meu benzinho/ Depois de tanto carinho/ Procurou um outro ninho/ Sem dizer qual é a razão/ Eu vou pedir a Deus do Céu pra botar nele/ Em lugar daquele peito/ Um enorme coração/ Eu vou pedir a Deus do Céu pra botar nele/ Em lugar daquele peito/ Um enorme coração.”

 

Cantar e se acompanhar não era problema para Leo. Eles tinham em família um regional, e até se apresentavam em alguns eventos. Leo tocava violão; sua irmã, flauta; seu tio, saxofone; sua prima, acordeom, e seu sobrinho, bandolim.

 

Leonardo agradeceu demais, e fez uma bonita revelação:

 

- Essa letra não teria vindo numa hora melhor. Depois de amanhã será o aniversário da mamãe. Vamos aprender, fazer um belo arranjo e, na hora da festa, chegaremos juntos cantando e tocando para ela. Em seguida, lhe entregaremos a tão sonhada letra, numa embalagem toda especial, que minha irmã, carinhosamente, preparou. Será um momento de grande emoção! ...

 

- Ah, por favor, aproveite e transmita a ela, os meus parabéns.  

 

- Obrigado, Pedrinho! Você é sempre muito gentil.

 

Passados uns dez dias, Pedrinho resolveu entrar em contato com o amigo.

 

- E aí, Leo? Como foi a festa? Cantaram a música para a sua mãe? Ela ficou contente?

 

- Cantamos sim. Ela ficou contentíssima. Não cabia em si, tamanha a emoção. Só que...

 

- O que aconteceu?

 

- Dois dias depois..., ali pelas sete e meia da noite, ela foi até seu quarto, deitou-se. A janela estava aberta, inundando o ambiente com a luz da lua e das estrelas. Por alguns instantes, a modesta senhora meditou. Profundamente, meditou... Depois, começou a entoar, pausadamente, aquela significativa canção: “Bate... Bate... Coração... devagarinho... Meu benzinho... foi embora... e me deixou...” E foi repetindo aquilo, cada vez mais suave e devagar, como se fosse uma prece. Seu coração parece ter assimilado o seu pedido... e foi batendo... cada vez mais... devagarinho..., até que aquela cismadora mulher mergulhasse no mais profundo dos sonos e dos sonhos... 

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Farejando você:

The Dog-Machine

Engenheiros de hard e software, tanto do Cazaquistão, quanto de países vizinhos, debruçaram-se, por quase uma década, sobre a ciência, e eis a invenção, a única no mundo: a dog-machine. Inicialmente, o equipamento foi previsto apenas para resguardar o território cazaquistanês.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

15/08/2022

 

As múltiplas câmaras já existentes seriam as extensões dos nossos olhos. Pensou-se em um novo recurso, que explorasse outro sentido: o olfato.

 

As invenções surgem, no geral, de uma necessidade humana; às vezes, para divertimento também. Quem não se lembra da “teoria da mão pensante”, atribuída a Will Durant? Quer que recorde? Em conformidade com esse princípio, as invenções (consciente ou inconscientemente) copiam a mão humana. Alguns exemplos: a faca seria a nossa mão, aberta, cortando alguma coisa; o garfo: dois ou três dedos, pegando alguma comida; a colher: a mão em concha; a flecha corresponderia a um dedo da mão, movimentando-se até o alvo. Você poderia dar asas à sua imaginação e lembrar-se do serrote, da enxada, da foice, do machado e outras coisas mais.

 

Quando vi esta teoria, fiquei o resto da semana meditando sobre o assunto. E a minha “grande descoberta” foi que um carro copia, não só a mão, mas diversas partes do corpo, a saber: o motor seria o cérebro; o volante: as mãos; as rodas: os pés; os faróis: os olhos. E o veículo se alimenta, depois queima combustível, tal qual acontece com as nossas ingestões e o seu metabolismo. Pensava eu que eu havia formulado a “teoria do corpo pensante” (logo eu, um fantasioso adolescente).

 

Invenções surgem, infelizmente, para a guerra e a espionagem também. Versaremos sobre esta última.

 

O ser humano – aqui e alhures – já vem desenvolvendo máquinas e aparelhos, desde os analógicos até os digitais, para investigar ou supervisionar os cidadãos. Mil câmaras, que vemos e que não vemos; celulares, relógios, canetas nos fotografando e nos filmando; há os detectores de mentiras. Estamos, o tempo todo, biguibrodados.

 

Em Singapura, consoante o que dizem, se alguém jogar um papelzinho de bala na rua, ou por outra, se não der descarga após usar um banheiro público, é duramente multado. E como eles ficam sabendo? Segundo se relata, todos os cidadãos são filmados o tempo todo, e suas imagens, imediatamente enviadas por computadores às autoridades competentes. Bom e ruim. Bom, que a cidade fica impecavelmente limpa; ruim, porque se extingue a privacidade.

 

É nesse contexto que surge, não em Singapura, mas no Cazaquistão, o mais novo dos inventos: a dog-machine. Esta não se inspira no corpo humano, mas sim, no cachorro. Explicando: todos nós sabemos que os sentidos dos cães são muito mais aguçados que os nossos (salvo o caso dos magos, ou daqueles que detêm a Psi-Gama ou percepção extrassensorial). Afirmam os especialistas que cães farejadores podem chegar até a 220 milhões de células olfativas, enquanto os seres humanos possuem em média 5 milhões (cães, portanto, 44 vezes mais).

 

Prosseguindo, as múltiplas câmaras já existentes seriam as extensões dos nossos olhos. Pensou-se em um novo recurso, que explorasse outro sentido: o olfato. Assim como os cães detectam e memorizam o cheiro de qualquer pessoa (incluindo os ferormônios), reconhecendo-a depois - o que até já é usado em investigações policiais -, por que então não criar uma máquina, computadorizada, que registrasse o eflúvio, ou seja, o odor exalado pelos seres humanos, armazenando-o nos seus bancos de dados?

 

Engenheiros de hard e software, tanto do Cazaquistão, quanto de países vizinhos, debruçaram-se, por quase uma década, sobre a ciência, e eis a invenção, a única no mundo: a dog-machine. Inicialmente, o equipamento foi previsto apenas para resguardar o território cazaquistanês, o qual – entendia-se – estaria sob risco. Posteriormente (e secretamente), foram ampliando mais o alcance dessa máquina.

 

Eis a questão: quem mandou a gente nascer neste século confuso, conturbado, em que o ser humano nunca esteve tão desconfiado de seu semelhante? Aliás, pelo menos em parte, há uma certa razão, pois nunca também o ser humano foi capaz de tantas traições, tantos golpes e fake news, ancoradas ainda numa imprensa marrom. E a máquina e sua rede estão aí, à disposição dos bem e dos mal-intencionados usuários.

 

Amigo, Amiga, não se surpreenda, pois, se viajando por outro país, perto ou longe do Cazaquistão, alguém o(a) cumprimente pelo nome – mesmo sem nunca o(a) ter visto -, sabendo ainda seu endereço, seu telefone, seu CPF e até a sua orientação sexual. É que seu cheiro já foi detectado.

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Numa cidade:

O garoto do circo

Manuelito tornou-se trapezista aos catorze anos. Contracenava com palhaços. Só não trabalhava ainda no globo da morte, é claro.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

02/08/2022

 

Aquilo, que era para ser uma falha, ganhou um toque afetuoso tão intenso, que acabou se tornando a maior atração. O público aplaudia; o pai e o garoto agradeciam; aplausos se repetiam... 

 

Quem é do circo tem alma cigana. Tem coração insondável. Abriga um colar de mistérios...

 

A Família Sanchez não se enriquecera fazendo espetáculos pelo Brasil. Todavia, tinha o suficiente para viver.

 

Aos seis anos, Manuelito fez a sua primeira apresentação. Malabarismos e saltos. Teria realizado uma exibição impecável, não fosse a má sorte de deixar cair dois malabares. Mesmo chorando de vergonha, deu sequência ao espetáculo. O pai invadiu o picadeiro, deu nele um pulo, um beijo e um abraço, retirando-o de cena. Aquilo, que era para ser uma falha, ganhou um toque afetuoso tão intenso, que acabou se tornando a maior atração. O público aplaudia; o pai e o garoto agradeciam; aplausos se repetiam... 

 

A notícia correu, e todo mundo queria ir ao circo a fim de ver, principalmente, o garoto.

 

Manuelito tornou-se trapezista aos catorze anos. Contracenava com palhaços. Só não trabalhava ainda no globo da morte, é claro.

 

O amor bate na porta. Manuelito fez uma bela apresentação. Estava elegante, bonito, com um uniforme que lembrava O pequeno príncipe. Madeleine, uma adolescente da plateia, ficou encantada com o artista. Nem dormiu durante a noite, só pensando nele.

 

No dia seguinte, ela não resistiu: foi até a companhia de espetáculos para ver se falava com o astro. Só que, desta vez, ele veio descalço, com uma roupa informal, bem diferente daquela da apresentação. Contudo, algo encantou ainda mais: a pureza e a simplicidade no olhar de um garoto, parecendo nem saber de seu talento e de sua graça tão singela. Iniciaram ali uma amizade. (No entender de Madeleine, era namoro.)

 

Manuelito vinha de uma família, a qual lhe ensinava a modéstia, a honestidade e a sinceridade. Todavia, não tiveram tempo para as práticas religiosas. É que todos se focavam, exclusivamente, nos quefazeres do circo, o qual significava a seiva da vida deles.

 

Já Madeleine provinha de diferente berço. Sua família era católica, moralista, tradicional. Alguns chegavam a ser fanáticos. A menina, portanto, enxergava o mundo através das lentes de sua doutrina.

 

Madeleine, num dos encontros com o principezinho, colocou na cabeça dele que ele não podia viver assim: sem ir à missa, confessar e comungar. Do contrário, iria queimar-se no fogo do inferno. Tais palavras – verdade seja dita – não penetravam fundo na alma do adolescente. O campo estava preparado apenas para a arte circense.

 

De tanto insistir, Manuelito decidiu ir assistir, com Madeleine, a uma missa. Jamais havia entrado em qualquer templo. Diferente do que Madeleine pudesse imaginar, o menino não fazia a mínima ideia do que fosse uma missa. Com isto, a toda hora, ele perguntava à amiga o que deveria fazer. Ou a observava, tentando copiar os seus gestos.

 

Chega a hora do ofertório. – E agora? O que fazer? Madeleine explicou-lhe que, naquele momento, cada um doava algum dinheiro para a glória do Senhor. Ele: Mas eu não tenho dinheiro. Ela: Ofereça qualquer coisa que puder – mas não deixe de oferecer. É muito importante para a sua salvação.

 

Sem opções, e sem conhecer “as regras do jogo”, Manuelito sai plantando bananeiras pela igreja afora. Em seguida, começa a dar belos e intrigantes saltos mortais.

 

O povo fica estupefato! “Tirem-no daqui!” “Está blasfemando contra Deus!” “Igreja não é lugar de palhaçada!” “Chamem a polícia!” Eram vozes que se ouviam, daqueles intolerantes cristãos.

 

O sacerdote desce e vai até o moleque travesso. Momentos depois, retorna ao altar e revela ao público tudo o que acontecera: “Ele é um garoto ingênuo e educado. Nunca havia entrado numa igreja. Ele não teve a intenção de tumultuar o nosso culto. Ele ofereceu o que tinha de melhor a oferecer, e o fez de boa vontade. Deus recebe e agradece.”

 

Na manhã seguinte, o menino e o circo já estavam numa estrada para o longe.

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Contrastes:

O lixo humano e o ipê

Um mendigo segue o nada, e um cachorro segue o mendigo... Isso retratava a situação econômica e política do País, não a mais confortável.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

26/07/2022

 

Dá um vento, e esse ipê – neutro a todos os acontecimentos, mas consciente de sua missão neste mundo - inunda o lixo de flores...

 

Era eu um caminhante, sem rumo, até que cheguei a uma cidade desconhecida. O percurso havia me deixado sedento e faminto. Queria encontrar um bar. Encontrei-o numa pracinha. Alguns homens debruçavam-se sobre o balcão, afogando as suas mágoas em bebidas, e dizendo qualquer coisa, a qualquer companheiro – real, ou imaginário.

 

Outros vadios jogavam sinuca. Gritavam muito. Xingavam uns aos outros, ou a si mesmos, quando perdiam. As partidas valiam dinheiro; valiam a honra, a vontade de provar que um era melhor e mais poderoso que o rival.

 

Eu não entrei. Observei só pelo lado de fora. Temi que houvesse confusões e eu fosse golpeado, ou, na menos má das hipóteses, arrolado como testemunha. (O dono do bar, sentindo minha reação, explicou que não havia nada de anormal; que esses jogadores berravam, trocavam palavrões, mas que eram amigos entre si.)

 

Saí devagar, andando pela praça, esperando que a minha ideia melhor se aclarasse, para eu me guiar melhor por aquele ambiente inóspito. Vi num canto um jovem solitário, fumando o seu baseado. Pela feição, não incomodava, nem queria ser incomodado. Segui meu caminho.

 

Numa casa ali por perto, mãe espancava filha. Choros! Gritos! Outros familiares entraram na discussão, uns a favor, outros contra a filha.

 

Aparece por ali um pastor, com obreiras e fiéis. Num instante, a pregação já estava inflamada – ainda que para um público reduzidíssimo. O tema era o apocalipse, o fim do mundo, segundo eles, já próximo.

 

Nisto, um marido envergonhado, traído pela mulher, abandona ali seu lar, para nunca mais voltar. Filhos agora sem pai – e com uma mãe infiel. Será como eles vão se comportar?

 

Um mendigo segue o nada, e um cachorro segue o mendigo... Isso retratava a situação econômica e política do País, não a mais confortável.

 

Quem chega agora é um político, rodeado pelos seus puxa-sacos, para iniciar uma campanha. Promete empregos, promete casas, promete que, se eleito for, tirará todas as subidas da cidade, deixando só as descidas. (Eis a hora em que foi mais aplaudido!) “Jamais haverá corrupções. Enfim, instalar-se-á, nesta cidade, o Paraíso.” Seus seguidores acreditavam em tudo o que ele prometia. Brigavam, até matavam – se preciso fosse – por esse seu ídolo “honesto, cristão, confiável e verdadeiro”.

 

Tiros, gritos, polícia!... Tumulto, sangue, prisão! Briga naquele bar. Os jogadores de sinuca acabaram transformando os seus tacos em armas poderosas, e partiram uns para cima dos outros, produzindo ali uma guerra feroz. Mesas foram reviradas, cadeiras foram lançadas; garrafas foram quebradas. Um valentão trocou tiros com a polícia...

 

Em frente a esse bar, um lote abandonado. A vizinhança e as pessoas que por ali passavam descarregavam nele seus detritos. Mães com meninos pobres, e moradores de rua, fuçavam ali, na esperança de encontrar um objeto quebrado – mas que ainda lhe tivesse serventia – ou mesmo um pão velho, um osso, um alimento descartado, para enganar o estômago por mais um dia.

 

Um muro bem alto separava esse desonrado lote, de uma mansão, com piscina olímpica e oito carros importados em suas respectivas garagens.

 

Esbelto, altaneiro, ergue-se ali, bem no centro daquele terreno, presumivelmente infértil, um frondoso pé de ipê. Dá um vento, e esse ipê – neutro a todos os acontecimentos, mas consciente de sua missão neste mundo - inunda o lixo de flores...

 

Meu sonho é que esses habitantes do lixão encontrem um ditoso caminho, tenham forças para lutar, até um dia florirem, como esse pé de ipê. É possível. E eu, você, todos nós, devemos firmar com eles o nobre compromisso de ajudá-los.

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Tempos atuais:

Fogos, festas e quadrilhas

Quadrilha é o que mais tem: da Saúde, do Meio Ambiente, da Economia, da Educação; quadrilha de pastores (quando se podia imaginar uma coisa desta?). Hoje, já não se contenta com milhões. O roubo agora é de bilhões. Bilhões em “emendas parlamentares”...

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

19/07/2022

 

Parece que de repente uma harpia veio roubar os nossos sonhos. Quase tudo o que era enlevo se transformou no pesadelo que é o desgoverno brasileiro.

 

Bons tempos os de outrora! Quando se falava em fogos, eram os foguetes e os busca-pés. Os foguetes de lágrimas eram sempre os mais bonitos – conquanto não houvesse lágrimas. Quando se referia a festas, eram as celebrações de Natal, de Ano Novo, as juninas. Quando se aludia a quadrilhas, eram as danças, ao som das animadas marchinhas de João de Barro, Lamartine Babo, dentre outros.

 

Parece que de repente uma harpia veio roubar os nossos sonhos. Quase tudo o que era enlevo se transformou no pesadelo que é o desgoverno brasileiro. Festas? Existem à exaustão (do presidente e seus aliados), aqui e fora do Brasil, regadas ao melhor uísque, ao melhor champanhe, comendo-se o melhor caviar, tudo custeado com o dinheiro público. Eis o desumano contraste, com os trinta e três milhões de pessoas passando fome neste país.

 

Falamos das festas. Agora vamos falar dos fogos. Hoje (estamos em 2022), quando se ouve a palavra “Fogo!”, é tiro, é assalto, é guerra entre facções; é Bruno, é Dom, é Marielle; são as milícias, são policiais matando, com ou sem razão – apoiados pelo despresidente, incansável em fazer apologia às metralhadoras (e não, aos livros, à cultura, à educação). Não mais aqueles fogos juninos, aquelas luzes que festejavam. A última luz que a vítima enxerga é aquela, saindo do cano da arma de seu agressor. E as lágrimas não são as dos foguetes, sim, as dos entes queridos chorando essa despedida.

 

Agora é a vez das quadrilhas. Quadrilha é o que mais tem: da Saúde, do Meio Ambiente, da Economia, da Educação; quadrilha de pastores (quando se podia imaginar uma coisa desta?). Hoje, já não se contenta com milhões. O roubo agora é de bilhões. Bilhões em “emendas parlamentares”, ou “orçamento paralelo”, ou “orçamento secreto” – meros eufemismos, para não dizerem assaltos aos cofres públicos. E sem o mínimo compromisso com a transparência. Até quando, minha gente?

 

No tempo da “Guerra Fria”, entre Estados Unidos e antiga União Soviética (guerra que, aliás, nunca terminou), o governo norte-americano, através de incontáveis filmes, mídia impressa, rádio e TV, empreendeu uma propaganda negativa contra os soviéticos, a qual influenciou demais o nosso ingênuo Brasil. Daí então, “comunista” passou a figurar como sinônimo de “capeta”. Prova é que, quando integrantes do Partido Comunista Brasileiro aportaram em Minas Gerais, foram recebidos pelas mães mineiras, batendo no ar seus terços contra eles, como numa sessão de exorcismo.

 

Evoquemos aqui o relato do historiador Tales Pinto: "Um dos eventos que impulsionaram o golpe militar de abril de 1964 foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, composta em sua maioria por senhoras católicas, que percorreu as ruas de São Paulo dias antes do golpe, em 19 de março de 1964, e ofereceu um argumento a favor dos militares e dos grupos políticos e econômicos conservadores para a deposição do governo de João Goulart."

 

Assistimos agora à sua reedição. “Pátria, família, religião”, tríade usada como bordão pelo despresidente bolsonaro. Que Pátria? O cercadinho. Que família? A dele. E Deus, religião? Meras palavras de efeito, em seus demagógicos palanques. Na verdade, o Deus desses políticos corruptos – e também desses falsos pastores – é o Dinheiro, o Poder. Brigam de “foice e martelo” por eles.

 

Prevalece ainda, entre os mais crédulos, esse melancólico discurso de que bolsonaro é o herói, que não deixou o comunismo entrar em nosso país. Que comunismo? Acaso a Rússia está aí, rodeando o Brasil para invadi-lo e implantar o seu regime? Ela está preocupada é com o conflito que criou lá na Ucrânia. Ou seja, para os néscios, bolsonaro se torna o herói de uma guerra imaginária. Assim fica fácil se tornar um mito.

 

Enfim, Amigas e Amigos, qualquer cidadão tem o direito de posicionar-se contra ou a favor do comunismo. Contudo, deve antes saber ao certo o que é. A grande maioria, pelo visto, nem sabe. Apenas engole um pacote de discursos tendenciosos, que, em última análise, favorece o capitalismo selvagem, desumano, onde uns poucos se tornam bilionários e uma multidão passa fome neste Brasil.

 

Espero que quem vá dançar nessas quadrilhas - de ladrões - sejam esses facínoras, malfeitores da Pátria. É justo. Há mister. Há urgência.

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Análise atual:

As diversas caras do despresidente

Papai Noel,

Como é bom ser inocente,

Ter a alma cor do céu

E acreditar no teu presente.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

30/06/2022

 

Ele brinca com sua galera, faz piadas, emite palavrões; um dia fala que não brocha, no outro dia fala que brocha. Às vezes brinca de faroeste, querendo ser o mocinho – coisa que não é. Quer seu público bem armado (e mal amado), porque lutar com ideias e argumentos ali ninguém sabe.

 

Um fenômeno que está ocorrendo no governo federal brasileiro e em uma parte da população evangélica me faz lembrar a música que eu ouvia quando criança, mas que, metaforicamente, está presente nos dias de hoje. Trata-se da canção de Vicente Celestino, Passou-se o tempo.

 

É que o ocupante da cadeira presidencial (melhor dizendo, quase nunca ocupante, ocupado que está com as suas viagens, esportes e motociatas), tem diversas caras. E uma das que ele apresenta aos seus (cada vez mais minguados) apoiadores é a face do anjo, do homem de Deus, do amante da Pátria, do defensor da família, do Papai Noel de ano inteiro, que trará sempre um brinquedo para os seus inocentes apoiadores distraírem – e não enxergarem as mazelas que assolam o País: fome, desemprego, falta de projetos, corrupção generalizada.

 

Brinquedo. Ele brinca com sua galera, faz piadas, emite palavrões; um dia fala que não brocha, no outro dia fala que brocha. Às vezes brinca de faroeste, querendo ser o mocinho – coisa que não é. Quer seu público bem armado (e mal amado), porque lutar com ideias e argumentos ali ninguém sabe. E a sua plateia adora as suas atitudes, sempre esperando que daquele Mito saia alguma coisa boa – podendo a coisa boa ser um grito de guerra, um sopapo em alguém, ou até mesmo um tiro de canhão nos adversários - o maior deles, a Democracia.

 

O fato é que o despresidente sempre atuou em favor de grupos privilegiados. Ele realmente ama a Pátria. Mas que Pátria? Os Estados Unidos. (Agora menos, depois que seu ídolo Trump, providencialmente, perdeu as eleições.) Família, ah sim. Como ele ama! A dele, é claro. O esforço, desde sua eleição, foi gigantesco, para salvar filhos e esposas de acumulados crimes – o mais lembrado: o esquema das rachadinhas. Tanto trabalho prestado neste particular: troca de servidores, apoio a parlamentares, indicação de ministros e procurador em quem ele confia (que vai salvar sua pele e a de sua família contra severas punições pelos seus crimes). E como gestor, não tem nada a contar. Saúde? Basta lembrar seus negacionismos durante o auge da pandemia. Educação? Economia? Proteção aos índios e à Amazônia? Parece que ele leu o Elogio da Loucura, de Erasmo, e constituiu a Loucura seu guia – não a Constituição.

 

Alguns o apoiam por serem aquele menino inocente da canção, aguardando o Papai Noel e o seu presente (que neste caso nunca vem). Outros se identificam com a imagem construída de um mito, do capitão, do machão, “que resolve qualquer parada” (e não resolve nada). Todavia – isto não se pode deixar de dizer – existem os apoiadores, tão inescrupulosos quanto ele, os quais se associam a essa figura, em troca de benefícios, às vezes exorbitantes. Apenas um exemplo, as emendas parlamentares: muito dinheiro e pouca transparência.

 

Primeira vez na História: o Brasil, governado pelo Centrão. Mas e as traições? Esse Centrão, que trai a Pátria, já aponta para trair Bolsonaro.

 

Outros Papais Noéis são alguns líderes evangélicos (alguns!). Esses recebem o concreto (grana, carros, imóveis como doações) e retribuem com o abstrato: falsas curas, fingidas orações, ilusionismos, epifanias, sensacionalismos e todos os recursos midiáticos e de oratória possíveis, para enganar os inocentes e conduzi-los ao caminho do anjo bom, que engorda esses falsos profetas com o nosso dinheiro: o despresidente.  

 

E esses pobres de dinheiro, de informações e muitas vezes, até de discernimento, agarram-se a esses lobos, ali figurando como ovelhas pacatas e inofensivas. (Breve serão devoradas).

 

“Eu coloco a minha cara no fogo pelo Milton Ribeiro” – afirmou Bolsonaro em vídeo que lançou e viralizou. O Milton: pastor, ex-ministro da Educação, atirador. Essa cara do despresidente deve estar agora carbonizada, porque esse Milton foi preso, acusado de uma série de corrupções. Esse fogo queimou mais ainda a imagem do despresidente. Pior é que isso queima também a imagem da comunidade evangélica, a qual, em sua maioria, é composta por gente honesta.

 

Que venha a CPI do MEC. Nós, brasileiros, temos de saber para onde estão indo os suados impostos que pagamos. E que os malfeitores sejam exemplarmente punidos. Crianças, adolescentes e adultos, todos têm direito de sonhar com uma Educação melhor, com um futuro melhor, com uma Pátria mais amada. Que cada um se responsabilize por fazer a sua parte, para passarmos a limpo e reconstruirmos este belo e querido Brasil. Avante, camaradas!

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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Eu lírico:

Ode ao amor e à solidão

“Ó solidão do boi no campo,

Ó solidão do homem na rua!

Entre carros, trens, telefones,

Entre gritos, o ermo profundo.

Ó solidão do boi no campo...”

(Carlos Drummond de Andrade, do livro José.)

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

18/06/2022

 

Ali, boi e homem são sentidos, pelo eu lírico, como solitários. Na verdade, o ser humano projeta a sua solidão no boi. No poema O boi, a voz que ouvimos (em nossa imaginação) não é propriamente a do Drummond, de carne e osso. É outra.

 

O boi, como podemos observar em sua vida no campo, não é tipicamente um animal de hábitos solitários. Com esses hábitos, poderíamos citar o urso, o rinoceronte, o leopardo, o ornitorrinco, a toupeira, a preguiça, o preguiçoso coala e o simpático lobo-guará, habitante do Caraça, e que já apareceu na nota de 200.

 

Antes de prosseguirmos, permita-nos dar uma repassada naquilo que se denomina “eu lírico”. O eu lírico, também chamado eu poético ou sujeito lírico, é a voz que o poeta cria e fala por ele. No poema O boi, a voz que ouvimos (em nossa imaginação) não é propriamente a do Drummond, de carne e osso. É outra. É como se o poeta passasse uma procuração a uma voz que falasse por ele. É certo que a personalidade do autor, direta ou indiretamente, está ali, como plano de fundo.

 

Vejamos estes exemplos de “eu lírico”: letra da música Folhetim, de Chico Buarque: “Se acaso me quiseres/ sou dessas mulheres/ que só dizem sim...” E mais um de Drummond: “Eu sou a moça-fantasma/ que espera na Rua do Chumbo/ o carro da madrugada...” (Do poema Eu sou a moça-fantasma de Belo Horizonte, contido no livro Sentimento do Mundo.) O pensamento vulgar poderia supor que Drummond ou Chico, em certo momento, se sentiram mulheres. Não é isto. É que se criou, num e noutro caso, um “eu lírico feminino”; e é este que se dirige a nós, ouvintes ou leitores.

 

Dito isso, voltemos ao poema O boi. Ali, boi e homem são sentidos, pelo eu lírico, como solitários. Na verdade, o ser humano projeta a sua solidão no boi.

 

Temas de solidão inundam as nossas músicas populares, tornando-se o tema, conforme tratado ali, mera produção comercial, em série, destituída de maior valor estético. Contudo, milhares de ouvintes se identificam com aquela situação e correm para consumir o produto. A solidão, em ditas canções, é tratada como algo que abafa o ouvinte, que o atordoa, ou até mesmo o tortura. Pobres ouvintes! Pobres sofredores!

 

Não faltam especialistas em comportamento humano assinalando que numerosos indivíduos se sentem felizes na solidão. Chegam até a dizer que pessoas inteligentes e focadas preferem estar sós, para não perderem seu foco, não se desviarem de suas metas. Já aqueles que dependem muito de viver em grupos são inseguros, ou necessitam demais da aprovação alheia – o que, ainda segundo esses analistas - não preocupa o tipo inteligente e focado.

 

Bem, isso não quer dizer que o ideal é se tornar um antissocial, um misantropo. Longe disso! Há seres humanos grandiosos, sábios, sociais, que desenvolvem um trabalho extraordinário para o bem da humanidade. Um magnífico lavor pode, porém, nascer de algum cientista solitário, mergulhado, durante anos e anos, em seu microscópio.

 

Aristóteles já dizia que “o homem é um animal social”. Sabemos que a vida gregária faz bem à saúde. Os intercâmbios enriquecem a todos os participantes e atestam que cada um está vivo, tocável, que ainda existe.

 

O que escolher então: gregarismo ou solidão? Resposta: o equilíbrio. Quando a hora for de ficar só, é tempo de meditar, de planejar, de entender-se um pouquinho mais, de corrigir os próprios erros; e, com palavras ou em silêncio, orar, conectar-se com as forças universais. Quando a hora for de encontros fraternais, que os impregnemos de significado, a fim de que eles perdurem na nossa lembrança. E quando a hora for de amar, não economizemos toques, beijos, carícias, abraços e palavras que celebrem e eternizem o verdadeiro amor.

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

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Boiada passando:

O Boi sonoro

 Comandados pelo Boi sonoro, variedades de mugidos ali apareciam. Berros de alegria, de glória, de raiva, ou de ameaças aos bois bem-intencionados, que eles consideravam seus ferozes inimigos.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

06/06/2022

 

Aos poucos, boa parte desse rebanho passou a não acreditar mais nas promessas do seu insensível senhor. Os bois estavam ficando cada vez mais magrinhos, grande parte deles não tendo nada mais para comer.

 

Na fazenda do Boi sonoro, havia os mais variados bichos: burros, porcos, cavalos, éguas e seus filhos, vira-latas sem nome e sem dono que, não se sabe como, vieram parar ali... E bois, cada qual mais chifrudo, formando o mísero gado – que dá pouca carne, que dá pouco leite.

 

Porém, o dono da manada vivia feliz (ou melhor, procurava aparentar-se feliz, porque assim mantinha o gado mais animado e sob seu controle). Aliás, os chifrudos já eram bem adestrados. “Senta!”, eles sentavam; “Deita!”, eles deitavam. E se o comandante ordenasse que eles comessem os excrementos dos porcos, estes o faziam sem cerimônia alguma e com a maior satisfação. E mugiam todos felizes, saudando e elogiando o maioral: “Mito!”, “Mito!”.

 

Comandados pelo Boi sonoro, variedades de mugidos ali apareciam. Berros de alegria, de glória, de raiva, ou de ameaças aos bois bem-intencionados, que eles consideravam seus ferozes inimigos. Também mugidos de baixo calão. Mugidos pela boca, pelo ânus. Mugidos hediondos, fedorentos, emitidos junto com fezes... E o Boi sonoro ria, como ele ria! Ria até sem razão.

 

Aos poucos, boa parte desse rebanho passou a não acreditar mais nas promessas do seu insensível senhor. Os bois estavam ficando cada vez mais magrinhos, grande parte deles não tendo nada mais para comer. Trágico, não é? Acha que o Boi sonoro se importava com isso? De forma alguma. Tentava colocar a culpa disso tudo nos rivais.

 

Houve época, quando uma pandemia de febre aftosa atingiu grande parte daquele rebanho. A Saúde Pública asseverou que todos os bovinos deveriam ser vacinados. Sabe qual a atitude do Boi sonoro? Ele riu. Falou que aquilo não passava de uma gripezinha. Não quis que o gado se vacinasse nem tomasse os cuidados de higiene prescritos pelos profissionais da saúde animal. Resultado: os bois foram morrendo, um a um. Milhares dentre eles findaram por ali. Milhares? Sim. Esqueci-me de registrar que a fazenda era grande..., grande... Do tamanho do Brasil. E vendo a ruína dos pacientes animais, o Boi sonoro ria, como ele ria! Ria até sem razão. Não tinha nada com isso. Não era urubu e nem coveiro.

 

Ele queria era andar a cavalo, de moto, de barco. Empunhava uma bandeira nacional. No círculo central desse estandarte, em vez de “Ordem e Progresso”, a frase que se via era esta: “Gado acima de tudo; Deus acima de todos.” Um monte de bichos, mesmo doentes e passando fome, ainda acreditava no Boi sonoro, como seu legítimo salvador, por ele usar sempre o nome de Deus. E o Boi sonoro sempre arrumava uma desculpa para justificar a miséria dos seus seguidores. Arranjava sempre outros animais a quem ele transferia a culpa. Pobres animais! Grande parte do gado acreditava.

 

Esqueci-me de discorrer sobre a família desse rei do gado. Eram duas esposas e quatro filhos. Um ou dois dos filhos e uma das esposas, porém comandados pelo capitão Boi sonoro, instituíram um esquema bastante lucrativo para eles. Consistia no seguinte: burros e cavalos eram contratados para ir trazendo na boca, e para aquela família, o melhor capim que roubassem de outras fazendas. Em troca, receberiam um bom salário, também em capim. Só que, na hora do acerto, tais equídeos ficavam apenas com 10% desse manjar, ficando a família do Boi sonoro com 90%. Também havia animais que nem trabalhavam. Apenas emprestavam seu nome ao esquema. Eram animais-fantasmas.  

 

Tem mais: o gado era incentivado a praticar constantes violências. O Boi sonoro promovia guerra entre os bois, só pelo prazer sádico de ver um ferir o outro até a morte.

Numa fazenda vizinha, vive um homem barbudo, de voz rouca e origem nordestina, espreitando tudo. Talvez santíssimo ele não seja, mas seria um dos poucos capazes de acabar com a farra desses corruptos bovinos. Uma multidão de pessoas está do seu lado, preparando uma grande revolução, porque ninguém suporta mais ver tanta roubalheira e tanto sofrimento daquele gado e tanta indiferença do Boi sonoro, que não passa de muito barulho e pouca humanitária ação.

 

E o Boi sonoro já chora, como ele chora! Chora e com muita razão.

 

- Imagem: Divulgação.

 

* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.

 

- Produção: Pepe Chaves. 

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Revolucionária:

A velha de catorze anos

Vendo uma mulher paupérrima, carregando duas crianças nuas – e ainda grávida de uma terceira – foi tomada de uma revolta repentina. Pronunciou um discurso enfático, fazendo duras críticas ao governo federal e municipal, alegando que eles eram inimigos de seu povo.

 

Por Sérgio Souza*

De Ibirité-MG

Para Via Fanzine

23/05/2022

  

Auxiliadora se imaginava e se comportava como uma mulher de trinta, quarenta anos, ou mais. Para cada roupa que vestia, a idade também mudava na cabeça dela.

 

Aos sessenta anos, Maria Auxiliadora entra hoje na idade adulta. É seu aniversário. Sozinha, na varanda, ela comemora. Um radinho está ligado baixo ali por perto. Mas ela quase não presta atenção, nem no rádio, nem mesmo no tricô que está fazendo. “Que chato ser adulta!”, pensa.

 

Auxiliadora se sentia bem com crianças e adolescentes. Naquele meio, ela se julgava uma menina de catorze anos. E a turma a enxergava assim. Já, quando a situação mudava, Auxiliadora se imaginava e se comportava como uma mulher de trinta, quarenta anos, ou mais. Para cada roupa que vestia, a idade também mudava na cabeça dela.

 

Houve um fato que surgiu como um tsunami na vida dessa “garota”. Vendo uma mulher paupérrima, carregando duas crianças nuas – e ainda grávida de uma terceira – foi tomada de uma revolta repentina. Pronunciou um discurso enfático, fazendo duras críticas ao governo federal e municipal, alegando que eles eram inimigos de seu povo. O assunto pegou fogo. Num instante, a garotada se inflamou, cada um acrescentando algo de errado que via, na sua rua, na sua escola, no seu bairro. Dorinha – como era conhecida por eles – pediu que cada um filmasse. Depois, juntariam as imagens, editariam e colocariam nas redes sociais. “Temos de denunciar!”

 

Sem que a turma percebesse, um vereador, cúmplice das falcatruas do prefeito, ambos candidatos à reeleição, filmou tudo e foi quente entregar o vídeo ao gestor municipal. 

 

– Não podemos permitir! Seria uma propaganda terrível para nós! Ainda mais, em época de campanha. Bolaremos um plano para massacrar essa “velha de catorze anos”, bufou o prefeito.  

 

– Já sei o que fazer! Vamos inventar que essa velha de catorze anos está vendendo entorpecentes para aquela garotada – acrescentou o vereador. 

 

- Bravo! Ótima ideia! – gritaram todos os puxa-sacos.

 

Dorinha só não foi presa, porque contou com a ajuda de uma advogada, mãe de uma das meninas, e sua grande admiradora.

 

Desiludida, Maria Auxiliadora muda-se de cidade. Logo, soube que a Prefeitura daquele lugar estava selecionando assistentes sociais para um trabalho com crianças e adolescentes de risco. Mesmo traumatizada com o que lhe havia antes sucedido, mas precisando trabalhar, foi ao órgão público. Conquanto tivesse estudado só até a sétima série, fez as provas e passou em primeiro lugar. 

 

No dia inaugural de seu trabalho, ela já chegou vestida de palhacinha. Ah! Ganhou a garotada no primeiro momento. 

 

Depois, conheceu um palhacinho. Descobriu que ele era empresário, mas ia de palhaço a hospitais amenizar o sofrimento dos enfermos.

 

Dorinha então pediu que ele apoiasse o projeto dela, desde já, solicitando-lhe uniformes para os times de futebol que ali iam se formar. Ele aceitou.

 

Já nos primeiros meses, muito movimento naquele espaço. Além do futebol, aulas de música, balé, artes marciais. Novos empresários aderiram ao programa. E os campeões começaram a aparecer. 

 

A notícia correu, chegando ao ouvido daquele prefeito e demais acusadores de Dorinha. Eles ficaram mordendo de raiva: “Aquela velha besta, de catorze anos, fazendo todo esse sucesso, tendo toda essa visibilidade! Inacreditável.” - resmungavam por ali.

 

Reunião! Queriam, a qualquer custo, aquela “menina” de volta. Oferecer-lhe-iam o dobro ou o triplo do seu salário. (Será?) E se o povo questionasse a sua fama de traficante - forjada por eles mesmos -, as novas fake news já estavam prontas: inventariam que ela, antes herege, revolucionária e comunista, agora se convertera ao cristianismo, e que fará um belo trabalho de evangelização no local. “O povo aceita tudo.” – ironiza o prefeito.

 

Mãos à obra! Tal desonesto administrador envia uma carta a Auxiliadora, no endereço da outra prefeitura. O próprio prefeito de lá foi quem a recebeu. Sem abri-la, foi ao pátio entregá-la à destinatária. 

 

Dorinha abre, lê e, com um sorriso de desprezo, mostra-a ao prefeito. Este lhe pergunta: “E aí? Vai trocar-nos pelo de lá?” Dorinha: “Nem vou responder.” E o prefeito: “Posso responder por você?” Ela autoriza. A resposta foi simples: “Vocês não poderão contratar a Dorinha – a menos que seja na condição de menor aprendiz, porque ela só tem catorze anos. E ela é cristã, mas continua revolucionária. Para vocês, não serve. Para nós, está perfeito.” 

 

Dorinha lê, dá um abraço em seu eterno apoiador, e volta correndo para formar com a criançada uma roda de ciranda. Era adolescente outra vez.

 

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