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Burrofagia:
Argentinos se tornam burrofágicos
Soberania nacional é coisa que não existe para Milei. Esse governante aceita cabisbaixo ser uma colônia dos Estados Unidos. Trump é seu ídolo, seu arrimo. O homem da serra elétrica já ofereceu até os soldados argentinos para lutarem nas guerras que Trump inventa.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
24/04/2026

Milei não retirou dos nossos hermanos apenas a carne de boi. Retirou empregos. Retirou renda. Retirou soberania. Retirou dignidade. O povo argentino é um povo honrado. Não merece humilhação.
Na história do samba, consta uma música de 1949, composta por Ari dos Santos e Gentil Leal, gravada por Jorge Veiga, denominada Carne de gato. Muito espirituosa. O personagem é convidado para ir a um samba na casa de um tal de Malaquia. Após o jantar é que se descobre que a carne servida, com tanta fartura, era carne de gato. O personagem promete que vai convidar o Malaquia para uma peixada (que será carne de cobra: surucucu, cascavel). Clique aqui para ouvir a divertida música. https://www.youtube.com/watch?v=3r2CF_pSxJQ.
A gente vê isso como um absurdo, daí, o humor. Todavia, com Javier Milei, na Argentina, a situação não é humorística, sim, dramática - para não dizer trágica.
“Argentinos estão consumindo carne de burro devido à grave crise econômica e à disparada inflacionária no preço da carne bovina, que aumentou cerca de 55%, tornando a carne de burro uma alternativa mais acessível. Com cortes bovinos ultrapassando 25.000 pesos, a carne de burro, vendida a cerca de 7.500 pesos por kg, surge como opção de proteína.” (Gemini.)
Convertendo em reais, podemos avaliar também que um kg de carne de burro vale pouco mais de 27, ao passo que a carne de boi pode ser encontrada até a 90. A alta inflação e o ajuste fiscal reduziram demasiadamente o poder de compra dos argentinos. E esse projeto “burrocarnal” ganhou até um nome do governo: projeto Burros Patagones.
Há no entanto uma boa resistência naquele país por esse tipo de consumo. É que nosso vizinho tem um histórico de forte exportador mundial de carne bovina, sendo ainda um grande consumidor. No início do século XX, a Argentina era o maior exportador mundial, respondendo por mais da metade das exportações globais. Daí o país ter sido conhecido como o Rei da Carne. A alta qualidade era também reconhecida no mercado mundial.
Soberania nacional é coisa que não existe para Milei. Esse governante aceita cabisbaixo ser uma colônia dos Estados Unidos. Trump é seu ídolo, seu arrimo. O homem da serra elétrica já ofereceu até os soldados argentinos para lutarem nas guerras que Trump inventa.
E o Trump, o que ele tem feito em retribuição a esse servilismo? Ah, injetou uma boa quantidade de dólares no caixa do país platino, que está quebrando! Mas será que ele o fez por bondade ou compaixão? Claro que não! Não é de hoje que Trump tem estado de olho no lítio argentino - elemento crucial na produção de baterias de íons de lítio (veículos elétricos), vidros, cerâmicas e até medicamentos.
E esses dólares investidos por Trump na Argentina escondem adicionalmente uma jogada geopolítica: a competição com a China. É que o país asiático já tem investido na terra de Maradona, bem como em outras nações americanas. A China tem instalado empresas e até bases militares nas Américas. Tem, igualmente, um leque de interesses, inclusive no lítio. Todos sabemos de sua fábrica de veículos elétricos. (Bem, e a China, à moda estadunidense, também tem tentado expandir o seu império.)
Trump tem ainda a preocupação de manter a esquerda argentina longe do poder. Ele inclusive já declarou, taxativamente, que, se a esquerda vencer as próximas eleições, ele deixa de ajudar a Argentina.
Dentre outros fatores, a crise econômica no país vizinho se explica pela "terapia de choque", instituída por Milei, com cortes drásticos no funcionalismo e na produção agrícola (erva-mate, por exemplo).
Em consequência, argentinos têm corrido para o Brasil, uns para comprar, outros para trabalhar. Especialmente na Serra Gaúcha, esses imigrantes têm encontrado empregos na colheita de uva e de erva-mate. E eles se mostram satisfeitos com o salário (bem maior que em seu país) e as condições de trabalho.
Milei não retirou dos nossos hermanos apenas a carne de boi. Retirou empregos. Retirou renda. Retirou soberania. Retirou dignidade. O povo argentino é um povo honrado. Não merece humilhação.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Editoria VF/IA.
- Produção: Pepe Chaves.
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19 de abril:
Todo dia era dia de índio
Era. “Mas agora ele só tem o dia 19 de abril.” Esta ânsia por subjugar os indígenas, expulsá-los de seus lares, apoderar-se dos recursos de suas terras e das florestas, mutilar a Natureza, tudo com o fim de ampliar ostentações, permanece. Madeireiros, grandes pecuaristas e agricultores não se condoem, vendo nossas matas ardendo ao fogo e transformadas em carvão.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
19/04/2026

No Brasil, esta data foi oficializada através do decreto-lei nº 5.540, de 2 de junho de 1943, com assinatura do então presidente Getúlio Vargas.
Essa data foi escolhida para comemorar a cultura indígena, no Primeiro Congresso Indigenista Interamericano. O evento ocorreu na cidade de Pátzcuaro, localizada no estado de Michoacán, no México, em 19 de abril de 1940. O objetivo era reunir os líderes silvícolas das diferentes regiões do continente americano, visando a zelar pelos seus direitos.
No Brasil, esta data foi oficializada através do decreto-lei nº 5.540, de 2 de junho de 1943, com assinatura do então presidente Getúlio Vargas.
A Organização das Nações Unidas (ONU) também criou o Dia Internacional dos Povos Indígenas (9 de agosto) para conscientizar os governos e população mundial sobre a importância de preservar e reconhecer os seus direitos.
Tudo muito bonito. Todavia, a realidade é que, do século XV para o XVI, portugueses e espanhóis invadiram a América e, por consequência, Pindorama (a que deram o nome de Brasil). Saquearam as terras de aqui, mataram índios, escravizaram negros. Tudo em nome da expansão de poder e de riquezas. (E por que não dizer, em nome até da Fé.)
Acontece isto até hoje. Temos o caso recente de Trump, o qual, seguindo a rota de antecessores, invade países para roubar o petróleo, se possível, as terras raras, dominar povos, aumentar seu poder político, sua riqueza pessoal e de sua nação. Só que aquilo que ele roubou da Venezuela (navios de petróleo apreendidos) não paga os prejuízos que ele tem tomado na guerra que ele e Netanyahu promoveram contra o Irã.
No próprio Brasil, esta ânsia por subjugar os indígenas, expulsá-los de seus lares, apoderar-se dos recursos de suas terras e das florestas, mutilar a Natureza, tudo com o fim de ampliar ostentações, permanece. Madeireiros, grandes pecuaristas e agricultores não se condoem, vendo nossas matas ardendo ao fogo e transformadas em carvão.
Permitam-nos uma breve digressão. Sigamos para a África do Sul. O Apartheid foi um Regime institucionalizado, que durou de 1948 a 1994, já quando o grande Mandela tomou posse como presidente. Esse vergonhoso sistema excluía negros e outras minorias de espaços públicos, educação de qualidade, direitos políticos e locais de moradia. Brancos e negros não compartilhavam os mesmos locais de convivência.
No Brasil, na África ou na América (incluindo os EUA), o pano de fundo das mais variadas atrocidades se resume em Supremacia Branca. Era Hitler, era seu Império. Eram judeus esmagados pela imposição da raça ariana. Tanta vaidade! Tanta vanidade!
Passaram os Reis Católicos (de Portugal e Espanha); passou a Rainha Vitória (com seu moralismo exagerado); passou Hitler; passarão Trump e Netanyahu; passarão outros algozes que passam por aqui. Bom ou ruim, útil ou maléfico, um legado sempre fica, de cada governante.
Roubaram de nossos índios suas terras, suas madeiras, seu ouro, suas pedras preciosas, sua língua, sua cultura, sua religião. Nossos silvícolas não precisavam de uma fé importada da Europa. Eles tinham a deles. E como tinham! Vejamos como alguns nativos se conectavam com a sua Divindade. (Texto, evidentemente, traduzido.)
Oração do Grande Espírito
Oh, Grande Espírito,/cuja voz eu ouço nos ventos,/e cujo alento doa vida a todo o mundo,/ouve a minha súplica./[...]// Faz com que as minhas mãos respeitem as coisas que criaste/e que os meus ouvidos se agucem/para que eu possa ouvir a tua voz./Faz-me sábio para que eu possa entender/as coisas que ensinaste aos meus antepassados.//
Permite-me aprender as lições que escondeste/em cada pedra/e em cada folha./Eu procuro força,/não para ser maior que os meus irmãos e irmãs,/mas para lutar contra o meu maior inimigo – eu mesmo.//
Faz-me sempre pronto para chegar até a ti/com as mãos limpas/e com os olhos
firmes./Para que, quando a minha vida desaparecer/como um pôr do sol,/o meu
espírito possa ir até a ti...
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Editoria VF/IA.
- Produção: Pepe Chaves.
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Hamlet:
Os espíritos não morrem,
e eles atuam sobre nós
Chico Xavier viveu rodeado de espíritos. Desde a infância. Conta-se em Pedro Leopoldo, sua terra natal, que, quando ele trabalhava numa fábrica de tecidos, ali naquela cidade, ele ia conversando com pessoas que ninguém via.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
13/04/2026

Numa crise existencialista, ele profere a sua famosa frase: “Ser ou não ser, eis a questão.”
Certamente, você já leu Hamlet, a obra-prima de Shakespeare, ou viu o filme. Só para recordar, a peça é uma tragédia sobre Hamlet, o príncipe da Dinamarca, que busca vingar a morte de seu pai, o Rei Hamlet.
Quem teria assassinado seu pai? O espírito do seu próprio pai teria aparecido para o filho e revelado que o assassino havia sido seu tio Cláudio, que usurpou o trono e casou-se com a rainha Gertrudes. Ordena vingança. Contudo, o protagonista fica indeciso e bastante transtornado. Paira a dúvida: se ele devia confiar naquele vulto ou não. Numa crise existencialista, ele profere a sua famosa frase: “Ser ou não ser, eis a questão.” Ainda nesse solilóquio, Hamlet cogita, se será mais nobre ao nosso espírito aceitar vergonhosos ultrajes ou pegar em armas e lutar.
Chico Xavier viveu rodeado de espíritos. Desde a infância. Conta-se em Pedro Leopoldo, sua terra natal, que, quando ele trabalhava numa fábrica de tecidos, ali naquela cidade, ele ia conversando com pessoas que ninguém via. Passaram a julgá-lo como doido. E isso teria custado a sua demissão. Daí, ele foi para Uberaba, onde encontrou o ambiente certo para viver e atuar. Deixou uma vasta obra, a maioria – senão ela toda – psicografada, segundo o autor.
E ainda tem os espíritos do mar. Chico Xavier os teria visto na praia de Copacabana. Em seguida, uma religiosa (“encarnada”) veio, fincou uma vela na areia e depositou ali a sua oferenda. Imediatamente, o médium viu uma multidão de espíritos, vindos do mar até o local, e pegando tal oferenda.
Permitam-me agora deslocar-me, pelo menos por uns instantes, do puro misticismo, para a realidade atual.
Uma das pautas é ainda a questão do Banco Master. Escândalos já foram expostos. Contudo, surgirão outros, como irão sendo apontados, um a um, os responsáveis.
Desse esquema criminoso, que deu ao nosso povo um prejuízo bilionário, emerge um espírito: o do Sicário. A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, revelou que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, utilizava um grupo de inteligência e coerção para proteger seus interesses. Era liderado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "Sicário".
Por que este apelido? “Sicário” define um assassino de aluguel, matador profissional, ou alguém que mata de forma cruel e premeditada. Do latim, sicarius, derivado de sica (adaga curta), referindo-se aos zelotas judeus, que escondiam adagas sob as vestes para assassinar romanos na Antiguidade. Deu para perceber quem era o Sicário dessa história?
E então? Ele foi preso e, segundo relatos, tentou suicídio na prisão, morrendo depois no hospital. A principal dúvida que fica é esta: suicídio, ou queima de arquivos? Ele sabia demais. Poderia fazer uma delação-bomba e explodir muita gente. Enfim, as investigações continuam, e o espírito de Sicário ainda paira no ar, tirando o sossego de diversos engravatados.
Outro personagem que não sai das manchetes é Flávio Bolsonaro, “o filho 01”. Para incomodá-lo, ressurge o espírito de Adriano da Nóbrega, conhecido como Capitão Adriano. Era policial militar e miliciano. Foi morto em uma operação policial na Bahia, em fevereiro de 2020. Era apontado como chefe do grupo "Escritório do Crime", e tinha ligações com o ex-assessor Fabrício Queiroz, além de ter parentes empregados no gabinete de Flávio Bolsonaro. Tal fato sugere ligações de Flávio com milícias.
Tudo isso está voltando à tona. E deverá ser bem mais debatido durante as campanhas eleitorais, assim como aflorarão ainda vários espíritos: o das “rachadinhas”, o da “loja de chocolates”, o da “compra de imóveis caríssimos”, incompatível com o salário que ganhava. Flávio não tem nem nunca teve projetos para o país. Pelo que deixou transparecer, ele pretende é entregar o Brasil para os Estados Unidos (nosso petróleo, nossas terras raras...)
O principal espírito, que não sai da cabeça dele, é o do seu próprio pai, Jair Bolsonaro. Flávio, tal qual Hamlet, quer vingar a morte (política) do “rei”, seu genitor. E a vingança seria contra quem? Alexandre de Moraes?...
Flávio (embora não seja um príncipe) vive mesmo um drama parecido com o de Hamlet. “Ser ou não ser (presidente), eis a questão.” “Estar ou não estar livre da Garra Pesada da Justiça, eis outra questão.”
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Exploração lunar:
Viagem à face oculta da Lua
A Embrapa está estudando a possibilidade de cultivar batata-doce na Lua. Isto, a fim de produzir alimentos para futuras missões espaciais e a colonização do espaço. Essa iniciativa visa a promover a agricultura espacial, com vistas a garantir a segurança alimentar de astronautas em bases permanentes.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
06/04/2026

Comecei a devanear sobre um futuro, quando nesse satélite já houver uma agricultura mais diversificada. Uma lua com abacaxis, açaís, mandiocas, coqueiros, laranjeiras, bananeiras... Uma lua bastante abrasileirada.
“Meu foguete sobe queimando espaççççoooo...”
Acaba de partir a Artemis II, da NASA. Foi lançada em 1º de abril de 2026, saindo do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Viagem prevista para dez dias. Esta missão é histórica por ser a primeira a levar seres humanos à órbita da Lua. A última ocasião em que ocorreu um projeto parecido foi na vigência do programa Apollo, há mais de 50 anos. E desta vez foi uma mulher. Ótimo que isso tenha acontecido!
A nave deverá sobrevoar o Satélite e preparar futuros pousos para outros humanos. Terá ainda a missão de explorar, pela primeira vez, “a face oculta da Lua”, tão envolta em mistérios, delírios e elucubrações...
E, é claro, os Estados Unidos estão na expectativa de que no solo lunar existam as chamadas “terras raras”, a riqueza do momento, indispensáveis à fabricação de chips e outros artefatos, para os mais diversos fins.
Tudo isso é magnífico. Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi um detalhe: tem brasileiro querendo plantar batata na Lua. A seguir, vamos melhor explicar.
A Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária está estudando a possibilidade de cultivar batata-doce na Lua. Isto, a fim de produzir alimentos para futuras missões espaciais e a colonização do espaço. Essa iniciativa visa a promover a agricultura espacial, com vistas a garantir a segurança alimentar de astronautas em bases permanentes. Optou-se pela batata-doce, por ser uma cultura promissora, devido à sua resistência e valor nutricional.
E não podemos subestimar a capacidade agrícola brasileira. Afinal, somos o maior produtor de alimentos do mundo.
No entanto, surge ainda uma curiosidade: e quem vai cuidar dessa plantação? Quem vai aguar? Como seria a produção? Batatas pequeninas ou enormes? Batatas redondas, quadradas ou triangulares? Qual seria o sabor? Ah, já imagino: sabor lunar. E se lá tiver habitantes e eles próprios colherem as batatas? E se terráqueos que comerem esses tubérculos passarem a viver com a cabeça na lua, dificilmente acordando para a realidade terrestre?...
Comecei a devanear sobre um futuro, quando nesse satélite já houver uma agricultura mais diversificada. Uma lua com abacaxis, açaís, mandiocas, coqueiros, laranjeiras, bananeiras... Uma lua bastante abrasileirada.
Projetos espaciais miram sempre ampliações de poder, de exibir ao mundo uma superioridade. Pensa-se em explorar as riquezas minerais daquele outro mudo para fins pacíficos, mas para fins bélicos também. Isso pode ser um alerta a outros povos: “Cuidado! Temos agora ainda mais capacidade de matar.”.
Nós, deste País Tropical, pensamos diferente. Queremos que a Lua se metamorfoseie numa extensão do nosso Brasil. Mas só porque brasileiros vão para lá plantar e cuidar? Claro que não. A “lanterna branca do espaço” - como dizia o seresteiro - terá outras fantásticas atrações. Levaremos para lá o nosso samba; nosso carnaval; nossas rodas de capoeira; nosso frevo; nosso forró; nosso futebol...
E, para mostrar que não somos da guerra, que somos mesmo é da alegria e do bom humor, levaremos para lá nossos palhaços, os filmes de Mazzaropi e de outros grandes comediantes do teatro e da televisão.
A nós, brasileiros, uma simples coisa basta: a paz. Paz na Lua, paz na Terra, paz em todos os cantos do Universo...
E que bonito, se pudermos convencer as outras nações de que viver assim é bem mais edificante! E se elas amansarem os seus corações e aderirem às nossas sublimes propostas para um mundo melhor? E se os nossos projetos de pacificidade um dia influenciarem todo o nosso planeta? Assistiremos a todas as pessoas dando as mãos e se abraçando, na mais perfeita harmonia.
As estrelas exibir-se-ão mais belas e fulgurantes. As rosas revelar-se-ão mais coloridas. Isto porque nossos olhos tornar-se-ão mais nítidos, mais cristalinos e mais puros. Enxergaremos mistérios bem mais fascinantes que a face oculta da Lua. É que perceberemos a face oculta de nós mesmos.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Editoria VF/IA.
- Produção: Pepe Chaves.
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Brasil:
A Ditadura Militar: o que eu vi
Sabemos, capitalismo se opõe a comunismo (regime em que o Estado é mais forte). Isso incomodava sobremaneira os ricaços da terra do Tio Sam. Eis a causa da famosa Guerra Fria, entre Estados Unidos e a antiga União Soviética.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
31/03/2026

Foi crescendo a revolta. Determinados músicos se opuseram ao Regime através do seu canto.
Hoje estou com dois livros em cima da mesa: Recordação da Casa dos Mortos e Crime e Castigo, ambos de Dostoievski – literatura russa. Se fosse no tempo da Ditadura Militar, eu pensaria duas vezes antes de adquiri-los. Caso descobertos, isso poderia gerar prisão ou no mínimo muita explicação. Matricular-se então num curso de russo seria quase um suicídio.
Por que essa birra tão grande do (des)governo contra a Rússia? Seria porque lá nasceu o comunismo? Alguém, numa análise mais superficial, iria pensar exatamente assim. E um dos motes da Ditadura Militar era que eles tomaram o poder para evitar que o comunismo invadisse o Brasil. Conversa velha! Foi a principal desculpa que Getúlio Vargas arranjou para também tomar o poder.
Por que então essa birra, esse medo? Simples. Os Estados Unidos são o país mais capitalista do mundo. Quem em última análise governa a nação não é exatamente o presidente. São os bilionários, a maior parte, constituída por judeus. (Daí a servidão de Trump e outros mais ao governo de Israel.)
Sabemos, capitalismo se opõe a comunismo (regime em que o Estado é mais forte). Isso incomodava sobremaneira os ricaços da terra do Tio Sam. Eis a causa da famosa Guerra Fria, entre Estados Unidos e a antiga União Soviética. Era, principalmente, a guerra entre Capitalismo e Comunismo.
Pois bem, como é do conhecimento de todos, houve em nosso país, no dia 31 de março de 1964, um golpe militar, daí surgindo um regime ditatorial, que durou 21 anos. Como dissemos, esse regime veio com a desculpa de salvar o Brasil das garras do comunismo. Balela pura! Na verdade, foi ânsia de poder e decisão de entregar o Brasil aos EUA.
O que os EUA pretendiam (e até hoje pretendem) é mais e mais poder; dominar cada vez mais países para esses atuarem em seu benefício. Aliás, a Rússia também era expansionista. Prova é que anexou vários países ao seu território, formando assim a União Soviética. E o Brasil figurava como uma mera colônia dos States. A Ditadura Militar veio obrigar os brasileiros a serem soldadinhos contra a Rússia e a favor dos Estados Unidos (mesmo que a maioria do nosso povo nem tenha percebido).
E o que vi? Eu fazia faculdade. Uma noite, apareceu lá um rapaz de voz alta e retumbante, alegando que havia sido transferido para a nossa escola. Ficou lá um mês, depois, desapareceu. Aí é que ficamos sabendo: era espião. Tenente do Exército, queria saber se estávamos tramando alguma coisa contra o governo, ou se pelo menos estávamos falando mal desse Regime.
Caso constatasse alguma coisa, quem estivesse agindo assim, iria para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Lá, seria interrogado, muitas vezes, torturado, para contar mais alguma coisa que soubesse. Em certos casos, o “subversivo” (como eles chamavam) poderia ser banido do País ou até mesmo executado. Contudo, nossa turma era tranquila. Ali não tinha subversivo não.
Havia um rigoroso controle. Programas de TV, antes de serem exibidos, eram obrigados a passar pelo Departamento de Censura. O programa poderia ser vetado em parte, no todo, ou também liberado. Da mesma forma, as músicas. Antes de gravar, elas eram submetidas a uma rígida comissão de censores. O mais divertido era que alguns compositores utilizavam-se de metáforas ou linguagem indireta para driblar a censura. E muitas vezes conseguiam. O sucesso popular era ainda maior.
O músico e humorista Juca Chaves também aprontava as suas. Num de seus shows, ele perguntou à plateia: “Como se avalia o tamanho de um burro? Resposta: mede-se da cabeça aos pés.” (Era uma cutucada que ele dava no presidente Médici.)
Minha vizinha, pouco mais que adolescente, bonita, engajada, resolveu infiltrar-se em alguns desses movimentos. Foi pega. Ficou três meses em poder do DOPS. O irmão dela era tenente do Exército, e nada pôde fazer. Caso agisse, perderia o emprego e poderia ser rigorosamente punido como traidor.
Ao voltar do DOPS, a moça contou que, dentre as torturas sofridas, uma delas foi que introduziram cabo de vassoura no seu ânus e na sua vagina. A menina sofreu!
Foi crescendo a revolta. Determinados músicos se opuseram ao Regime através do seu canto. Como exemplo, podemos citar alguns desses artistas e uma de suas canções: Chico Buarque (Apesar de você); Caetano Veloso (É proibido proibir); Sérgio Ricardo (Zelão e Calabouço); Marcos Vale (Viola enluarada); Gilberto Gil e Chico Buarque (Cálice). Surgia a chamada Música de Protesto.
Fortíssima também foi a música Opinião, de Zé Kéti: “Podem me prender/ podem me bater/Podem até deixar-me sem comer/Que eu não mudo de opinião...” Daí surgiram o show e o Teatro Opinião, em dezembro de 1964, no Rio de Janeiro. Dirigido por Augusto Boal, ficou na História do Brasil, constituindo um marco de resistência cultural e política. Além de Zé Kéti, participavam Nara Leão e João do Vale.
Uma noite, liguei a TV para assistir ao Festival da Canção, da antiga Record. Aparece o Geraldo Vandré com Pra não dizer que não falei de flores: “Caminhando e cantando/ [...] Há soldados armados, amados ou não./Quase todos perdidos de armas na mão./Nos quartéis lhes ensinam antigas lições./De morrer pela Pátria e viver sem razão...” Eu disse alto: Nossa, esse homem é corajoso demais! Só que isso não saiu de graça para o Vandré não. Ele sofreu muito na mão desses verdugos.
Hoje, a ditadura que enfrentamos é a da Televisão.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: IA/Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Inteligência:
A Fantástica Escola para Burros
A experiência começou com apenas dois deles. Valendo-se do melhor estímulo para seduzi-los, balançou um monte de capim bem verdinho. Os animais vieram esperançosos. Só que o homem lhes deu apenas uma minguada porção. Começou a incutir na cabeça deles os primeiros ensinamentos.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
22/03/2026

A escolinha acabou se transformando na Fantástica Escola para Burros, que se alastrou pelo país e por outras partes do mundo.
Num país muito distante..., residia o avarento senhor Cléver, homem de marketing e televisão. Ao aposentar-se, comprou uma fazenda e foi divertir-se com seus animais.
Tal senhor tinha experiência em adestrar cães. Mas logo veio uma ideia genial: e se eu me dedicasse a adestrar burros!? Oh, seria fantástico! Eles trabalhariam cem vezes mais para mim, e transbordantes de alegria. Minha renda em breve se tornaria exorbitante.
A experiência começou com apenas dois deles. Valendo-se do melhor estímulo para seduzi-los, balançou um monte de capim bem verdinho. Os animais vieram esperançosos. Só que o homem lhes deu apenas uma minguada porção. Começou a incutir na cabeça deles os primeiros ensinamentos. Só depois de bem executados é que ele lhes entregava a recompensa – uma mísera recompensa.
Aqueles irracionais – entusiasmados com a simpatia daquele senhor – foram contando para outros irracionais e convidando-os a também participar do treinamento.
No outro dia, quando o senhor Cléver pensou em chamar de novo os aprendizes, surpresa: um monte de interessados já estava lá, ansiosos por começar. Alguns deles dormiram por ali mesmo, para garantirem um melhor lugar. O treinamento naquele dia foi pleno de sucesso e satisfação. (Depois é que o senhor Cléver se lembrou de que havia se esquecido de alimentar aqueles aprendizes. Contudo, eles nem sentiram falta.)
Não posso saber como, a notícia correu entre os muares da cidade. Próximo dia, a entrada da fazenda já estava tomada por uma multidão de novos matriculados. Ótimo! Com um sorriso de asneira, o senhor Cléver mandou-os entrar. O espaço reservado ao adestramento agora era enorme. O senhor Cléver, usando um microfone, ordenava que eles zurrassem, eles zurravam; que levantassem as patinhas, eles levantavam; que balançassem a bundinha, eles balançavam. E todos os que viam se deleitavam com aquilo.
A escolinha acabou se transformando na Fantástica Escola para Burros, que se alastrou pelo país e por outras partes do mundo. O proprietário e seus franqueados foram em breve acumulando uma riqueza inimaginável. Os burros não só trabalhavam para eles, como faziam tudo o que eles ordenassem.
De cidade para cidade, poderia variar a modalidade de adestramento. O princípio, contudo, era o mesmo: condicionar os otários; fazê-los acreditar piamente nas palavras que ali forem ditas; obrigá-los a trabalhar sem cessar em benefício do mestre; sempre prometer: “Quanto mais vocês se sacrificarem, mais capim ganharão, e da melhor qualidade.” Só que o capim nem existia.
Um adestrador apresentava-se como líder religioso. Ensinava os burros a adorar incondicionalmente (no caso, ao próprio líder). Em seguida, os burros cantavam hinos de louvor ao seu herói. Dízimos e ofertas eram o próprio suor. Tais fiéis saíam de lá suados, fatigados, extenuados... Entretanto, tinham a consciência do dever cumprido, e de que, depois de morrerem, iriam para o Céu dos Burros.
Outro líder era político. Forçava os quadrúpedes a trabalharem para ele, a até doarem a própria vida, se preciso fosse. Tudo em troca apenas de ocas palavras. Usava-se o nome de Deus; prometia-se acabar com a corrupção; asseguravam que os valores familiares e cristãos iriam ser respeitados; juravam que o comunismo jamais entraria naquele país. Por fim, convencia-os de que Deus estava com eles – não, com os seus oponentes. Os burros ajoelhavam-se extasiados.
Numa bonita árvore florida ali da fazenda, era costumeiro aparecerem sabiás, rouxinóis, com cantos tão melodiosos, que pareciam sobrenaturais. O fazendeiro, no entanto, tentava evitar que os burros os ouvissem. Caso os quatro-patas evoluíssem, relutariam em ser martirizados; exigiriam melhores salários e condições de trabalho.
Por isso, o senhor Cléver os conduzia imediatamente a shows, onde quem cantava eram os cabritos. E os burros – como não conheciam outra coisa – ficavam deslumbrados quando ouviam os cabritos berrando. Queriam autógrafos desses caprinos; tinham ânsias de abraçá-los e de tirar selfies com eles...
Às vezes, o senhor Cléver colocava um telão com programas de TV. O que mais passava eram novamente aqueles shows de cabritos cantores. Mas havia algum espaço para programas de quinta categoria. Todavia, os burros adoravam!
Muita palavra, pouco capim. Assim era na Fantástica Escola para Burros. Ali, os ensinamentos eram maliciosos como vírus de computador. No entanto, os asnos se mostravam felicíssimos. Na verdade, uma felicidade produzida por quem tinha interesse e poder em escravizá-los. Eles então se tornaram assim: escravos, porém, felizes; felizes, porém, escravos.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: IA/Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Coisa de humanos:
Por que as pessoas fazem guerras?
Estudos sugerem que homens podem ser biologicamente mais propensos a participar de agressões, em parte devido a níveis mais elevados de testosterona. Da mesma forma, baixos níveis de serotonina podem estar associados a maior agressividade. Esta é uma perspectiva biológica.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
15/03/2026

Em Guerra e Paz, Tolstói retrata a guerra não como um palco de glória para grandes líderes, mas como um caos irracional.
Guerras até de crianças, entre casais, por heranças, entre vizinhos, no trabalho, nas escolas, na política, no futebol, entre religiões... Não falta quem pregue a paz. E todo mundo sabe que, num conflito armado, todos saem perdendo. No entanto, por que as pessoas fazem guerras?
Estudos sugerem que homens podem ser biologicamente mais propensos a participar de agressões, em parte devido a níveis mais elevados de testosterona. Da mesma forma, baixos níveis de serotonina podem estar associados a maior agressividade. Esta é uma perspectiva biológica.
Isso somado à perspectiva psicológica, mostra que a guerra não é apenas um evento político ou econômico. Trata-se de uma manifestação extrema de processos mentais coletivos e individuais. Os psicólogos consideram que a guerra acontece devido a uma combinação de fatores: biológicos, cognitivos e sociais.
Nessa abordagem, devem-se destacar alguns pontos relevantes: Identidade de Grupo e Dinâmica: "Nós versus Eles". A tendência humana de se agrupar e definir sua identidade em oposição a outro grupo é forte. Isso cria uma predisposição para conflitos, onde o "inimigo" é visto como uma ameaça à sobrevivência ou valores do próprio grupo. Acontece demais, por exemplo, no meio futebolístico.
Para cometer atos de violência extrema, a mente humana utiliza o mecanismo de "desumanização", retirando as qualidades humanas do outro. Isso torna o inimigo um "monstro" ou ser inferior, permitindo que indivíduos que normalmente não seriam violentos cometam atos brutais. Aliás, já é dito que o maior inimigo do homem é o próprio homem.
Manipulação por parte de líderes. Líderes podem criar a sensação de estar sob ameaça, alimentada pelo medo e desconfiança. Isso pode fazer com que uma nação inicie contra outra uma "guerra preventiva". (Está acontecendo o tempo todo com Trump, por exemplo.)
Sabemos que o interesse real para uma guerra pode ser a tomada do petróleo, as terras raras, o desvio das atenções, a venda de armas – já que a indústria bélica costuma patrocinar os candidatos. Trump, no entanto, cria o pretexto de que a outra nação constitui uma forte ameaça, devendo ser atacada, destruída – não importa quantas vidas sejam perdidas.
Deve-se destacar ainda a guerra psicológica e midiática (a da propaganda), para alterar a percepção da realidade pela população. Isso acaba gerando ódio, medo, e unificando o grupo contra um inimigo comum, o que facilita o suporte a essa guerra.
E Freud, o que pensa ele a respeito deste tema? Não poderíamos deixar de evocá-lo. Vamos aproveitar e convidar também Einstein. Einstein queria saber o que se poderia fazer para evitar as guerras. Ele e Freud passaram a trocar correspondências. Dessa interatividade, surgiu a indagação: “Por que a guerra?”
Freud argumentou que o ser humano possui uma tendência inata para a destruição, agressão e autodestruição, que ele denominou pulsão de morte. A guerra seria uma manifestação coletiva dessa pulsão destrutiva que não consegue ser totalmente canalizada ou reprimida pela civilização.
Tensões e conflitos. O psicanalista explica que, para vivermos em sociedade, reprimimos nossos instintos agressivos. No entanto, essa repressão gera tensão e conflito psíquico, e quando a civilização falha em mediar esses impulsos, a violência explode na forma de guerra.
Agora, outro ponto evidenciado por Freud, que enquadra bem Trump, Netanyahu e mais alguns de semelhante temperamento. Freud argumenta que os conflitos de interesse entre os homens são, originalmente, resolvidos pela violência (força bruta). Embora a lei e o direito tenham tentado substituir a força, Freud via que, na prática, o direito ainda depende da violência para ser imposto.
Em Guerra e Paz, Tolstói retrata a guerra não como um palco de glória para grandes líderes, mas como um caos irracional.
Vários psicólogos se convergem, para aceitarem que existe uma guerra mental, antes que esta se torne física. Ela se sustenta na demonização do inimigo e na simplificação cognitiva de situações complexas.
Julgamos oportuno então terminar esta nossa reflexão, ouvindo a voz de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor.”
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Dia Internacional da Mulher:
Quem é essa mulher?
Maria Lúcia Godoy já havia experimentado todo tipo de sucesso aqui na Terra. Faltava agora cantar com um coral de anjos lá no Céu. Partindo de Belo Horizonte, no dia 16 de maio de 2025, ela voou para lá.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
08/03/2026

Venceu diversos concursos e se tornou a principal solista do Madrigal Renascentista, cujo maestro era Isaac Karabtchevsky, com quem ela se casou. A Cantora ensinou um dia que “cantar é fazer a alma voar”.
Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, queria fazer uma homenagem a alguma figura feminina que fosse marcante para mim. Pensei naquelas que lutam pelos direitos humanos. Em escritoras, atrizes do cinema ou da TV. Poderia destacar mulheres que quebraram as estruturas sociais, enfrentaram ordens preestabelecidas centenárias, que já não valiam mais.
Ou quem sabe galardoar as minhas professoras? Como devo a elas! Lembrei-me, outrossim, da Dona Carmelita, minha ex-vizinha, e que dava risadas tão altas e felizes, que contaminavam todo o bairro. Devaneei-me sobre minhas tias, as quais apresentavam seus momentos de loucura (quem não os tem?), contudo eram receptivas e amorosas.
Imaginei as donas de casa, que se desgastam na educação dos filhos e na rotina da vida diária. Não me esqueci daquelas, que são pais e mães ao mesmo tempo. Vieram-me à mente as madalenas da vida, que sofrem, dos companheiros e da sociedade, as mais terríveis agressões.
Não conseguia decidir. Vi que todas essas guerreiras merecem as mais festivas condecorações. Todavia, tomei a liberdade de eleger uma representante, para hoje homenagear. Queria que as tantas outras também se sentissem condecoradas. Quem será essa mulher?
Ela nasceu em Mesquita, Minas Gerais, no dia 2 de setembro de 1924. Ainda criança, mudou-se para Belo Horizonte. Graduou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tornou-se escritora para o público infantil. Foi colunista de jornais, escrevendo para O Estado de Minas por onze anos. Teve participação nos seguintes filmes: Os Senhores da Terra, Navalha na Carne, Poeta de Sete Faces.
Tudo isso já bastaria para enxergar nesta nossa homenageada uma figura de excepcional valor, orgulho de Minas e do Brasil. No entanto, o principal vem agora. Ela, como cantora! Uma intérprete, que ganhou o Brasil e o mundo com seu extraordinário talento. Carlos Drummond de Andrade é quem vai revelar para nós quem é essa mulher:
“Lembrar as
serras de Minas,
Demolidas, como dói!
Mas me consolo se escuto
Maria Lúcia Godoy.
Foi-se o ferro
de Itabira?
Ouro não se destrói!
Está na voz da mineira
Maria Lúcia Godoy.”
Maria Lúcia Godoy estudou canto em Belo Horizonte, depois, no Rio de Janeiro. Como era visível o seu talento, ela ganhou uma bolsa de estudos para aprimorar-se, mais ainda, na Alemanha.
Venceu diversos concursos e se tornou a principal solista do Madrigal Renascentista, cujo maestro era Isaac Karabtchevsky, com quem ela se casou. A Cantora ensinou um dia que “cantar é fazer a alma voar”.
Foi considerada a maior intérprete do nosso grande Villa-Lobos. E foi ela que inspirou Tom Jobim a compor Sabiá, com letra de Chico Buarque.
Contudo, ela voou ainda mais alto. Fez uma turnê pelos EUA. Exibiu-se no Carnegie Hall. Apresentou-se no Lincoln Center de New York, com a Philadelphia Orchestra, grande sucesso de público e crítica.
Conquistou rapidamente reconhecimento internacional como solista de orquestras, como American Simphony, English Chamber Orchestra, Orchestre National de Montecarlo, Houston Symphony, Contrapunctri Music Orchestra, Detroit Simphony, Tulsa Philarmonic e Pro Musik Orchester de Colônia, além de orquestras brasileiras.
“Maria Lucia interpretou, também, importantes papéis do repertório operístico, como Lola (Cavalleria Rusticana), Liú (Turandot), Mimi (La Bohème), Rosina (O Barbeiro de Sevilha), Siebel (Fausto), Pamina (Orfeu), Querubino (Bodas de Fígaro), Dorabella (Cosi Fan Tutte), etc. Canta, ainda, obras de grande complexidade, como as canções sinfônicas “Shehérazade", de Maurice Ravel, com a Orquestra Sinfônica de Houston.” (Wikipédia.)
Maria Lúcia Godoy já havia experimentado todo tipo de sucesso aqui na Terra. Faltava agora cantar com um coral de anjos lá no Céu. Partindo de Belo Horizonte, no dia 16 de maio de 2025 (portanto, com 100 anos), ela voou para lá. (Aqui no nosso planeta, ela continuará para sempre imortal.)
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Vida real:
O Candinho da novela e seus ancestrais
Chega de metafísica! Devemos ser mais práticos. Não somos capazes de consertar o mundo. Melhor então cuidar do nosso pequeno espaço, da nossa comunidade e da nossa própria mente.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
02/03/2026

Candinho mostra-se um tipo simples, humilde, honesto, ingênuo, puro. Esse protagonista passa pelas mais diversas provações. Contudo, nunca perde o otimismo, acreditando sempre que “tudo acontece para melhorar”.
Eta mundo melhor!, telenovela das seis, escrita por Walcyr Carrasco e Mauro Wilson, protagonizada por Sérgio Guizé, no papel de Candinho.
O folhetim, ainda que contenha algumas passagens dramáticas, tem caráter leve, fazendo oposição às tantas tragédias exibidas pela TV.
Eta mundo melhor!, embora se prefira dizer que é uma continuação de Eta mundo bom! (exibida pela Globo em 2016), é na verdade uma reedição (um remake) daquela obra de dramaturgia.
E, já que estamos traçando uma linha do tempo, permitam-nos retroagir ainda mais. Seja Eta mundo bom!, seja Eta mundo melhor!, ambas se apresentam como uma releitura do filme Candinho, protagonizado por Mazzaropi, com roteiro e direção de Abílio Pereira de Almeida. Até o burro Policarpo é o mesmo.
Candinho mostra-se um tipo simples, humilde, honesto, ingênuo, puro. Esse protagonista passa pelas mais diversas provações. Contudo, nunca perde o otimismo, acreditando sempre que “tudo acontece para melhorar”.
A relação entre Candinho e o Jó bíblico reside principalmente no sofrimento do inocente e na tentativa de justificar a existência do mal no mundo.
E já que estamos fazendo uma verdadeira árvore genealógica do Candinho da novela, vamos ver o que veio antes do Candinho de Mazzaropi.
Pode parecer estranho, mas quem ofereceu a ideia para esse filme foi o filósofo Voltaire. É que este havia escrito Cândido ou O otimismo. O conto começa assim: “Havia em Vestfália, no castelo do Sr. Barão de Thunder-ten-tronckh, um jovem a quem a natureza dotara de índole mais suave. Sua fisionomia lhe anunciava a alma. Era reto de juízo e simples de espírito, razão pela qual, creio eu, chamavam-no de Cândido.”
Portanto, Cândido vivia num castelo. Não tinha certeza da verdadeira mãe. Suspeitava-se de que ele fosse filho da irmã do barão. Como uma das provações por que tinha de passar, um dia, ele foi expulso do castelo.
O Candinho de Mazzaropi foi encontrado, ainda recém-nascido, numa fazenda. (O castelo foi substituído pela fazenda.) Já adulto, o fazendeiro o vê um dia beijando sua filha e o expulsa da fazenda (analogia à expulsão do castelo). “Mas tudo o que acontece é para melhorar.” Candinho já havia falado com a moça que aquele banco em que estavam era o melhor banco do mundo, porque ela estava sentada nele.
Mas... E Voltaire? Teria se inspirado em alguém? Eis outra questão: essa doutrina do Melhorismo (que tudo, aparentemente negativo, vem para melhorar) originara-se da "Teodiceia" de Leibniz. Este filósofo argumentava que, como Deus é onisciente, onipotente e benevolente, Ele teria escolhido a melhor combinação possível de eventos para criar o universo. Logo, vivemos no melhor dos mundos possíveis.
Voltaire de início não refutou. Contudo, houve um fato histórico marcante que determinou a sua reação. Foi o terremoto de Lisboa. A ele, seguiram-se ainda um tsunami e incêndios que duraram dias. O saldo foi a morte de milhares de pessoas. Voltaire se revoltou: por que isto ocorreu em Lisboa, uma das cidades mais católicas, e justamente no Dia de Todos os Santos?...
Isso destruía a lógica de Leibniz. Foi o que pensou Voltaire. Ele parou de tentar defender a providência divina, passando a concentrar-se na filantropia e na justiça humana. O conto Cândido vem como uma furiosa reação ao Terremoto de Lisboa e lança uma sátira a Leibniz.
No conto, Pangloss figura como um guru de Cândido, claramente uma projeção de Leibniz. No filme Candinho, esse guru aparece como Pancrácio, vivido por Adoniran Barbosa.
Voltaire, após mencionadas reflexões, conclusões sobre a vida, e relembrando as provações pelas quais Cândido havia passado, termina o conto assim: “Todos os acontecimentos – dizia às vezes Pangloss a Cândido – estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis...” E a resposta que vem é esta:
- Tudo isso está muito bem dito – respondeu Cândido – mas devemos cultivar nosso jardim.
Interpretando: Chega de metafísica! Devemos ser mais práticos. Não somos capazes de consertar o mundo. Melhor então cuidar do nosso pequeno espaço, da nossa comunidade e da nossa própria mente.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Povo meu:
Nunca vi mulher como ela
Ela mora numa fazenda, em um distrito de apenas mil e cem habitantes, neste sertão de Minas – onde coisas inacreditáveis acontecem. A Leninha é famosa na zona, digo, na região.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
23/02/2026

O Zeca gosta de perguntar: “Qual a cobra que tem dois c*s?” Vendo que ninguém responde, ele explica: “É a surucucu, gente.”
Tudo acontece na terra da Leninha, uma prima minha, melhor dizendo, uma minha prima (oh, eu só troquei a maminha de lugar).
Ela mora numa fazenda, em um distrito de apenas mil e cem habitantes, neste sertão de Minas – onde coisas inacreditáveis acontecem. A Leninha é famosa na zona, digo, na região.
O Zeca, irmão dela, é tido como meio retardado. Mas é “caboco bão”, como dizem os amigos dele. Boiadeiro, trabalhador! Tá sempre com a vara de tocá gado na cacunda. Quando uma vaca escapole, ele fica nervoso e grita: “Ih, vacaiô tudo!”
O Zeca gosta de perguntar: “Qual a cobra que tem dois c*s?” Vendo que ninguém responde, ele explica: “É a surucucu, gente.”
Conheci, há muitos anos, um vizinho deles, que era Tenor. Mas não cantava ópera não. Era só agricultor mesmo. É que o nome dele é Antenor, e o chamam de Tenor, ou Tenore, afetivamente. Filhas bonitas, aquele homem tem! Tem duas. Uma se chama Berta, e a outra, Maria.
Reencontrando um dia o Tenor, perguntei como ele estava, a família... “Tudo bem, obrigado.” – respondeu. Daí, eu quis saber: e que notícias o senhor me dá de suas filhas? Ele respondeu: “A Maria casô; ficou a Berta.”
O irmão dele, o Saraiva era muito sem paciência. O padre que fizera o casamento da Maria estava um dia na casa dele. O sacerdote reclamou que a secretária lá da igreja falava demais, era muito fofoqueira; que ele não aguentava mais.
O Saraiva falou, com a sua costumeira má dicção: “Manda ela tomá nabo seco!” O padre se assustou com aquilo! Arregalou os olhos e reagiu com firmeza: “Mas não fica bem a um sacerdote falar um palavrão como esse!” E o Saraiva: “Que palavrão? Tô falano é de um vegetal. ‘Tomá nabo seco’, ou seja, tomá chá de nabo seco. Que mal tem nisso?” (Para todos os efeitos, o padre preferiu ir embora.)
O Jacomino Pires, parente longe do Matta Eça Barata, era outro fazendeiro, e se gabava do seu rebanho bovino. Dizia a todos com entusiasmo: “Isso aqui é que é um extra gado!” Mas, e o cavalo dele? Já estava um pangaré todo feridento, debilitado, mais morto do que vivo. As pessoas perguntavam: “Sô Jacomino, por que o senhor não trata deste animal?” E ele, indignado, respondia: “Fica caro. Eu tenho que tratar é de mim. Cês têm que compreender que eu cá valo mais que esse cavalo.”
A Dona Laura, muito amiga da Leninha, fez uma festinha em sua casa. O problema foi que os convidados exageraram na bebida e danaram a falar palavrões e a tomarem liberdade demais com ela.
Não suportando, ela gritou com todos: “Não dá mais! Agora, vocês vão ter que evacuar!” Uns entenderam uma coisa, outros, outra. O fato é que, pela cara da velha, todos compreenderam que era hora de partir.
Um namorado que a Leninha arranjou era mesmo um poeta. No aniversário dela, ele deu a ela um presente, acompanhado de um lindo cartão, o qual dizia: “Você sempre será meu amor. Meu coração por ti gela.” Ela ficou emocionadíssima!
Mais bonito ainda foi o que ele lhe disse no Natal: “Você é meu doce deleite!...” Aí, ela ficou na dúvida. Alguém já tinha falado com ela: “Você é meu doce de coco.” “Doce de leite”, ela ainda não tinha ouvido falar não. Ela apenas sorriu.
O Anastácio, um filho de criação da família, ao ver na televisão uma notícia sobre o papa, falou na maior seriedade do mundo: “Leão 14? Mas o número desse papa tá errado.” ”Errado como?!” - reagiu sua tia. E ele: “Tinha de ser Leão 16, porque 16 é que é o número do leão no jogo de bicho. O 14 é o gato. Deveria ficar então, ou Papa Leão 16, ou Papa Gato 14. Pela conversa, dava para notar que ele era viciadinho em jogo de bicho e que estava tontinho!...
Casal interessante lá da terra da prima minha é o formado pelo Sô Januário e pela Sá Genoveva. Já fizeram bodas de ouro. Ela revelou que ele é sincero, e ela nunca gosta de falsidade. E ele, em retribuição, declarou: “Nesses meus mais de oitenta anos, nunca vi mulher como ela!” (A esposa chorou emocionada!)
O Sô Januário contou que, quando solteiros, eles iam demais ao cinema. A atriz predileta dele era a Ava Gardner. E a dela, Gina Lolobrígida. Quando nasceu a primeira filha, eles não hesitaram em arranjar um nome para ela, juntando o nome das duas atrizes. Ficou então: Avagina.
Com essa, eu me despedi de todos e vim-me embora. Apesar da insistência, não esperei nem o cafezinho. Saberia eu o que ainda poderia acontecer num lugar maluco como essa terra da prima minha?
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: IA/Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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'Carnaval' argentino:
Brasil, Argentina e relações de trabalho
O ideal é que tenhamos em vista a produção, mas também o lado humano. O empregado não pode trabalhar alienado, ansioso por um feriado, pelas férias, contando o tempo que falta para a sua aposentadoria.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
15/02/2026

No país vizinho, Milei, batalha por uma jornada de trabalho de 12 horas.
No Brasil, as pessoas estão saindo às ruas para brincar carnaval. Na Argentina, uma multidão sai de casa para manifestar-se contra as políticas sociais opressoras de Milei.
Aqui, o governo luta pelo fim da escala 6 por 1. No país vizinho, Milei, batalha por uma jornada de trabalho de 12 horas. Façamos um cálculo: 12 horas para trabalhar; 8 para dormir; 2 no trânsito (ida e volta). Sobram 2 para banho e refeições. Em resumo: o trabalhador será completamente sugado. Não terá lazer nem tempo para ficar com a família.
O que alega Milei é que, assim, empresários do mundo se tornam incentivados a instalarem empresas na Argentina. Este é o típico pensamento da extrema direita: fazer com que os ricos fiquem cada vez mais ricos; e os pobres, cada vez mais pobres e explorados. E o tempo para estudar, qualificar-se? O empregado não o terá mais. E não se qualificando, ele continua no mesmo lugar, como uma máquina num canto da fábrica. Torna-se assim manipulável. Isso é trabalho escravo.
Sobre este tema, vamos recordar um pouco do pensamento de Karl Marx?
O século XIX foi de uma importância fenomenal na cultura, especialmente na literatura. Século de Tolstói, Dostoiévski, Vítor Hugo, Machado de Assis. Isto, para citar poucos.
Também é no século XIX, em 1867, que se publica a primeira edição de O capital, de Karl Marx, obra que muito impactou a literatura, o direito, a economia, a política. E exigiu atenção para o lado humano das pessoas.
Para Karl Marx, a relação de trabalho no capitalismo é marcada pela exploração e pelo conflito entre a burguesia (donos dos meios de produção) e o proletariado (trabalhadores). O trabalhador, por não possuir ferramentas ou terras, é forçado a vender sua força de trabalho como uma mercadoria em troca de um salário.
Mas aí é que está. Marx salienta que o valor gerado pelo operário é muito superior ao que ele recebe. E essa diferença, apropriada pelo patrão, é o que ele chama de mais-valia, a base do lucro capitalista.
A ganância de uma série de empregadores pode resultar nos mais variados tipos de explorações ou até mesmo no trabalho escravo. Podem ocorrer, por exemplo, o aumento da jornada, a exigência de horas extras, a extinção do descanso semanal, tudo, sem o acréscimo proporcional do salário. É em suma o que Milei pretende adotar na Argentina. E eis o motivo de tanto motim, tanta quebradeira, populares enfrentando militares, como tem ocorrido naquele país.
Getúlio Vargas, apesar de ditador, deixou algum legado no trabalhismo brasileiro. Dentre as proteções ocorridas estão o salário-mínimo, o descanso semanal remunerado, as férias. A jornada de trabalho foi fixada em 8 horas diárias (48 horas semanais), extensa, para os tempos de hoje. Entretanto, antes era mais explorado.
A reforma de Vargas constituiu um grande marco. Daí é que surgiu, em 1º de maio de 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho, que vem vigorando até os nossos dias (com alterações). A crítica que se pode fazer a essa reforma é que ela contemplou somente os trabalhadores urbanos. E os rurais, diga-se de passagem, eram a maioria naquela ocasião.
Pois bem. Um assunto que preocupou Marx no século XIX ainda é pauta. Na atualidade, a tecnologia tem avançado a passos quilométricos, principalmente com a Inteligência Artificial e a Robótica. Tudo isso, por si, já acelera sobremodo a produção, servindo de argumento para uma jornada 5 por 2, como quer o governo brasileiro. Aliás, um bom número de empregados já trabalha até de casa mesmo, em regime de home-office.
O ideal é que tenhamos em vista a produção, mas também o lado humano. O empregado não pode trabalhar alienado, ansioso por um feriado, pelas férias, contando o tempo que falta para a sua aposentadoria. O ideal é que o trabalhador se sinta um agente dentro da empresa, não um objeto manipulável, como acontece com os robôs.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
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- Produção: Pepe Chaves.
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Fronteira:
Bellavista Callarú será anexada ao Brasil?
Enquanto o lado peruano sofre com desabastecimento, serviços públicos deficientes e narcotráfico, o lado brasileiro (que aliás também enfrenta seus desafios) já se afigura como um oásis para esses irmãos esquecidos. Eles têm vindo para cá a toda hora e em quantidade considerável.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
10/02/2026

Bellavista Callarú: o impasse tem de ser resolvido o mais breve possível, pois existem vidas em jogo, e até em perigo.
A discussão agora é esta: se o Brasil vai ou não anexar parte do Peru ao nosso território. Seria mais um estado brasileiro? Ou, efetivamente, isso jamais acontecerá? Pelo sim, pelo não, tem havido um movimento, que está deixando os nossos diplomatas e do país circunvizinho com o cabelo em pé.
O Brasil vive um bom momento. A inflação está sob controle; o desemprego é o menor desde 2012 (conforme IBGE); o salário mínimo (embora ainda baixo) tem tido aumentos acima da inflação; a fome está sendo combatida.
Além disso, a distribuição de renda (em que pese estar ainda bastante injusta) já tem melhorado. O imposto de renda acaba de ser reduzido para trabalhadores de baixos rendimentos e aumentado pra os ricaços.
Adicionalmente, o País firmou importantes tratados comerciais. Merece destaque o acordo entre Mercosul e União Europeia, o que deve aquecer as transações bilaterais e baixar os preços para nós. A realidade é que o Brasil vem ganhando respeito mundial e se impondo como potência do Hemisfério Sul. A caminhada é longa, mas estamos no rumo certo.
Os países adjacentes enxergam esse desenvolvimento. Argentinos e outros vizinhos rompem suas fronteiras e vêm comprar no nosso país. Venezuelanos têm arranjado emprego aqui no Brasil, e se dizem felizes.
Retomemos o tema da anexação. Na Amazônia peruana, situa-se uma comunidade denominada Bellavista Callarú. Essa população vive em total isolamento dentro do seu país. Para chegar a Lima, a capital federal, a jornada é uma odisseia. São dias, navegando de barco por rios sinuosos. Depois, uma viagem de avião, com passagem caríssima para esse povo. É muito mais fácil eles virem para Tabatinga, no Amazonas. É praticamente só atravessar um rio. Tabatinga tornou-se o coração da Tríplice Fronteira.
Enquanto o lado peruano sofre com desabastecimento, serviços públicos deficientes e narcotráfico, o lado brasileiro (que aliás também enfrenta seus desafios) já se afigura como um oásis para esses irmãos esquecidos. Eles têm vindo para cá a toda hora e em quantidade considerável.
Já existe na prática uma anexação socioeconômica, como se diz na linguagem da geopolítica. O real circula com muito mais força do que o sol peruano. Os produtos que aparecem nos pequenos comércios de lá originam-se do nosso território. As antenas de TV captam os sinais de emissoras do Brasil. As crianças crescem ouvindo músicas brasileiras e assistindo a conteúdos aqui produzidos. Em suma, o cotidiano dessas pessoas já foi brasilianizado.
Entretanto, não é só o lado cultural que aqui interessa. Existe, por exemplo, a questão da saúde. A mulher que vai ter um filho sabe que a sobrevivência dele dependerá do SUS, situado em Tabatinga ou Benjamin Constant, nesta nossa terra. O recurso lá é precário.
A pergunta agora é: “Por que o Brasil não reconhece essa comunidade como sendo brasileira e não a anexa de vez ao nosso território?”
Porque isso abriria uma caixa de pandora, que ninguém saberia como fechar. Se o Brasil aceitasse essa anexação, estaria desobedecendo a tratados internacionais. E o Peru, com toda a certeza, não desejaria ceder território ao Brasil. Isso iria abalar a sua soberania. Ademais, a decisão abriria um precedente. Em breve, comunidades de países próximos poderiam, do mesmo modo, pleitear a anexação de territórios ao Brasil.
Merece destacar o lado humano. Toda pessoa tem direito a alimentação, educação, saúde e moradia. A propósito, líderes comunitários de Bellavista Callarú têm gravado vídeos suplicando a atenção das nossas autoridades. E nós, brasileiros, já somos reconhecidos pelo nosso jeito receptivo e humanitário. Mas e as despesas? O governo do Brasil teria de acrescentar todo esse custo às nossas dotações orçamentárias.
Para concluir, o que os governantes devem fazer? Respeitar tratados já assinados há décadas, ou negligenciá-los em benefício desses aflitos cidadãos? Deve-se ter em mente é que a realidade humana é muito mais forte que qualquer linha traçada num mapa. O impasse tem de ser resolvido o mais breve possível, pois existem vidas em jogo, e até em perigo.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Estilo de vida:
Sertajocracia
O marketing vem em toneladas, cuidando da divulgação e fixação desse gênero. Também o agro – grande interessado – investe pesado no setor. E ainda foram criados alguns programas televisivos, que impõem mais ainda o gostar dessa modalidade musical.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
03/02/2026

Eu queria que a música sertaneja exaltasse a roça, o sertão. Garanto que Guimarães Rosa também quereria.
Vou começar citando a música Azulão, com versos de Manuel Bandeira e melodia de Jayme Ovalle (violonista e pianista paraense): “Vai, azulão, azulão, companheiro/Vai/Vai ver minha ingrata./Diz que sem ela o sertão/Não é mais sertão...”
Esta é uma música sertaneja? Sim. Genuinamente. E Viola quebrada, de Mário de Andrade? Também. E O trenzinho caipira, de Villa-Lobos? O título já diz que é sertaneja; até mais que isso: caipira. Assim também Luar do sertão, do poeta Catulo da Paixão Cearense, apelidado O poeta do sertão. Dá para notar que o sertão serviu de tema até para a alta cúpula da nossa música, poesia, cultura enfim.
E, quanto àqueles que também fizeram grande sucesso no rádio e depois TV, podemos mencionar: Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, João Pacífico, Raul Torres, Ted Vieira e Lusinho (autores de O menino da porteira), dentre tantos outros. E jamais se pode esquecer a grande contribuição de Inezita Barrozo, já como cantora, violonista e violeira, já como apresentadora de programa de televisão, o qual levava o que havia de mais autêntico no gênero.
Todavia, a estrada mudou de mão. Hoje, o gênero – apelidado de sertanejo, mas sem vínculo com o sertão – é que governa o Brasil. O ECAD já declarava que 70% dos direitos autorais que ele vinha arrecadando referiam-se a esse tipo de música (melhor dizendo, manifestação sonora). Há informações não oficiais (mas bastante prováveis) de que hoje esse pseudossertanejo já domina 80% do nosso mercado. Instalou-se o que inventei chamar de sertanejocracia.
O marketing vem em toneladas, cuidando da divulgação e fixação desse gênero. Também o agro – grande interessado – investe pesado no setor. E ainda foram criados alguns programas televisivos, que impõem mais ainda o gostar dessa modalidade musical e, numa simbiose, é beneficiado, porque aqueles que já estão doutrinados tornam-se fiéis espectadores desses entretenimentos.
Nesse aspecto, temos o Viver sertanejo, apresentado pelo Daniel, na Globo, aos domingos. Há de se considerar, no entanto, que lá comparecem músicas de raiz. O programa – o qual ocorre na fazenda do próprio Daniel – é bem apresentado, bem dirigido e muito bem produzido enfim.
Já diariamente, às 19 horas, temos Coração Acelerado. A novela, ambientada em Goiás, é focada no universo sertanejo e na trajetória de Agrado Garcia (Isadora Cruz) para fazer sucesso com sua música. Escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, a trama aborda apostas, romances e conta com 14 cantores sertanejos.
Eu queria que a música sertaneja exaltasse a roça, o sertão. Garanto que Guimarães Rosa também quereria.
Contudo, o sertão também está mudado!... Os animais estão fugindo das queimadas. A ambição dos latifundiários devasta as florestas (às vezes com a conivência de políticos criminosos, como tivemos no governo anterior). Garimpeiros querem mais: destruir a mata, invadir terras indígenas, apoderar-se delas, expulsar os silvícolas, contaminar suas águas, exterminá-los.
A cachaça da roça hoje tem selo de qualidade, é produzida em larga escala e exportada. O mesmo acontece com os queijos. Dificilmente se vê o lavrador inclinado sobre sua gleba, arando a terra. A lavoura está mecanizada. Tratores até de milhão de reais instalam-se ali.
Nas paredes dos quartos da fazenda, exibem-se retratos dos ídolos das novelas. Os jovens ouvem funk. O fogão de lenha jaz em um canto esquecido da cozinha. Ele, que servia para unir a família, em dias de inverno, hoje é substituído pelo fogão a gás, que a civilização impôs. Ainda se ouvem (raramente) toques saudosos de violas. O poder midiático dos Estados Unidos influiu, mudou hábitos. Em vez de viola se ouve guitarra eletrônica. O caipira tradicional se transformou em caubói. A canção sertaneja se converteu em pop-rock.
Sim, eu queria que a música sertaneja cantasse o sertão. Todavia, agora já é tarde. Como disse Manuel Bandeira, o sertão não é mais sertão. E o azulão já voou para bem longe de nós.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Tempestade:
Peregrinação com Zé Trovão e raios
Essa turba caminhou desordenadamente pela movimentada estrada que leva a Brasília. As autoridades, como a PRF, não foram avisadas, para que oferecessem melhores condições, evitando-se assim riscos – para os pedestres e para os motoristas.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
27/01/2026

O parlamentar foi avisado dos riscos de tempestade, com descargas elétricas. Mesmo assim, sua avareza falou mais alto: ele quis seguir em frente.
Fanatismo da extrema direita ou ato premeditado?
Sai Nikolas Ferreira numa caminhada “patriótica” de Paracatu – MG. a Brasília. Uma peregrinação que foi ganhando adeptos. Nikolas, fazendo imaginar-se um novo Messias, ou fazendo lembrar o Antônio Conselheiro da Guerra de Canudos? (Ele não é nem uma coisa nem outra.)
A maior parte dos acompanhantes age pelo comportamento de manada. Ouve que é para soltar Bolsonaro e os outros golpistas do 08 de janeiro. Vê que muitos seguem um certo caminho, entram na procissão, sem saberem ao certo por quê nem onde mesmo chegar.
Quem sabia perfeitamente onde queria chegar eram o Nikolas, o Magno Malta e outras figuras negativas da extrema direita. O Nikolas queria tudo, menos soltar Bolsonaro. Essa conversa era puro engodo, porque o motivo real os ingênuos acompanhantes não deveriam saber.
Nikolas tinha no mínimo duas outras fortes pretensões. A primeira era assumir a liderança da extrema direita no lugar do Bolsonaro (por isso não seria interessante que o ex-presidente fosse solto). Assim, iria montando a sua estrutura para um jogo mais ousado: apresentar-se como candidato a presidente em 2030.
A outra pretensão com essa caminhada traria um efeito mais iminente: desviar a atenção das pessoas para o roubo bilionário envolvendo o Banco Master. Por que pretende esse deputado tentar ocultar esse roubo? Porque o André Valadão e sua Igreja da Lagoinha estão sendo acusados de participarem do esquema. Sabemos que o Nikolas é bastante ligado a ele e a essa Igreja. E já foi encontrado o nome desse deputado no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O Nikolas está tremendo, mas vai ter de se explicar.
Essa turba caminhou desordenadamente pela movimentada estrada que leva a Brasília. As autoridades, como a PRF, não foram avisadas, para que oferecessem melhores condições, evitando-se assim riscos – para os pedestres e para os motoristas.
Assim é a vida de Nikolas. Sem planejamentos. Sem a mínima responsabilidade com o seu cargo de parlamentar. O que ele já fez de positivo para a população? Nada. Ele se esforça tanto em marcha como esta! Por que não se empenha como deputado, para melhorar a vida do povo?
Aliás, o que ele planeja – e muito – é o seu marketing nas redes sociais. Uma peregrinação assim lhe rende mais visualizações, mais likes, mais comentários nas redes. Portanto, mais fama e dinheiro. E esta era, pois, uma das propostas dessa caminhada – e que a maior parte dos participantes nem imaginaria.
Consequências desagradáveis foram aparecendo ao longo do trajeto: bolhas nos pés, dores nos joelhos e tornozelos; arritmias cardíacas; roubos de celulares. Um “patriota” roubando do outro. Que patriotismo, hein!?...
Outros aventureiros vão lá pela festa. Músicas, comidas de graça, paqueras e muita gente com quem conversar. Para esses, tanto faz se a ideologia é de direita, de esquerda, para cima, para baixo, inclinada... Importante é a farra.
Mas eis que vem o raio!!! Piadistas andaram dizendo que é porque levaram o Zé Trovão. Outros acham que quem mandou esse raio foi o Xandão. Houve até quem concluísse que São Pedro é comunista. E, talvez a maior parte, atribui essa descarga elétrica a um castigo divino. É que esses líderes de extrema direita, para ganharem a simpatia dos eleitores, usam por demais o nome de Deus em seus discursos.
Contudo, não é hora de brincar. Tenho compaixão dos acidentados – o que o próprio Nikolas não teve. Tenho dó também dessa gente ingênua, a qual acredita em líderes hipócritas e irresponsáveis como este.
O parlamentar foi avisado dos riscos de tempestade, com descargas elétricas. Mesmo assim, sua avareza falou mais alto: ele quis seguir em frente. E afinal foi ele quem convocou, arrebanhou e persuadiu os adeptos com a sua ideologia e falsidade. Portanto, ele terá de responder criminalmente pelos acidentes ocorridos. E seus financiadores também. A prisão dele até já foi pedida.
Nikolas já foi condenado por crimes de preconceito. Esse acúmulo de delitos torna a sua situação insustentável. A sua prisão é só questão de tempo.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Quando o samba é a saída:
O Brasil entrou na guerra
Muita coisa no mundo não se resolve com a rigidez da lógica, sim, com astúcia, criatividade ou até mesmo com um pouco de samba.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
18/01/2026

E os inimigos saíram sambados...
A título de recordação, na Primeira Guerra Mundial, o Brasil tornou-se inimigo oficial da Alemanha, em 1917, após a neutralidade inicial ser rompida pelo afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães.
No âmbito desse conflito, a informação era considerada a mais letal das armas. E quem se destacava nesse quesito era a Alemanha. Eles criaram um sistema de códigos, que era uma fortaleza de lógica. Acreditavam que não haveria um quebra-cabeças no mundo que eles não pudessem resolver. Quanto ao sistema brasileiro, havia quem nele enxergasse vulnerabilidades.
Pois é. E se fosse possível então criar uma fechadura, que o inimigo nem reconhecesse como fechadura? Essa pergunta intrigava o Tenente Flávio Mendes. Este oficial tinha apelido de Sabiá, por sua capacidade de assobiar qualquer melodia. Era um carioca da gema, criado no bairro boêmio da Lapa. Antes da guerra, sua vida era o violão, os cafés e as rodas de samba, que varavam a noite.
Para ele, o mundo não era feito de linhas retas e ângulos de 90º. Era feito de síncopes e improvisações. Excelente operador de rádio, mas detestava o código Morse padrão: rígido, previsível, sem alma. Um dia então, ele começou a batucar um samba que estava na sua cabeça e pensou: “E se a própria estrutura do samba fosse o código?...”
Isso! O Tenente imaginou que poderia usar a codificação em duas camadas: a primeira consistiria no próprio ritmo sincopado do samba; a segunda, nas metáforas que compunham o universo lírico brasileiro. Por exemplo: um navio de carga seria “a baiana cheia de balaios”; um ataque, “a roda de samba vai esquentar”; um submarino avistado, “o boto cinzento tá rondando a baiana”. (Boto, lembrando “boat” – barco, navio.)
Para um alemão, aquilo tudo não faria o mínimo sentido. Para um brasileiro, seria uma mensagem clara como o dia. Mesmo assim, o Tenente Mendes criou um dicionário de metáforas e selecionou os sambas.
Todavia, o que disse o capitão, quando conheceu o sistema? “Tenente Mendes, eu estou tentando comandar um navio de guerra, não um bloco de carnaval.” Considerou mera excentricidade de um oficial boêmio.
Só que chegou o momento! Um nosso comboio de suprimentos foi sistematicamente dizimado em 48 horas. Os inimigos decodificaram todo o sistema, que era brasileiro, britânico e estadunidense.
O Capitão, desesperado, foi procurar o Tenente Mendes. Perguntou se os nossos decifradores iriam realmente entender aquele seu sistema. Mendes respondeu: “Sim, eles são brasileiros” (e brasileiro entende de samba).
Pois bem, uma troca de mensagens entre brasileiros anunciou a aproximação de um navio inimigo. Já os decifradores do Reich, tentando decodificar as nossas mensagens, haviam apenas captado: “Frases ilógicas, sem sentido, provavelmente transmitidas por um operador inexperiente ou bêbado.” Desta forma, os nossos combatentes chegaram, imperceptivelmente, ao navio alemão, atacaram-no e venceram esta batalha.
Num outro momento, a munição das nossas metralhadoras havia acabado. Como continuar o combate??? Um soldado teve uma ideia, que não deixou de ser também musical: arranjou uma matraca e ficou batendo-a incessantemente. Resultado: não ficou um inimigo por perto, impressionado com “tanta rajada de metralhadora”, que eles não sabiam de onde vinha.
E o caso daquele soldado que se perdeu do pelotão? Com muita dificuldade, chegou a um destacamento do Exército. Pediu abrigo. A sentinela bradou: "Identidade!". E o combatente: "Eu a perdi no combate." "Então não pode entrar!” “Mas eu sou brasileiro. Não vê que estou falando Português?” “Bem, mas portugueses, angolanos, também falam. E se você for espião?”
Quando o combatente já estava quase chorando, a sentinela propôs: "Se você é brasileiro mesmo, então cante um samba!" Batucando em sua própria perna, o combatente cantou: "Covarde sei que me podem chamar/Porque não calo no peito esta dor/Atire a primeira pedra, ai, ai, ai/Aquele que não sofreu por amor..." A sentinela concluiu: "Pode entrar! Você é brasileiro mesmo." (Mas isso, já na Segunda Guerra, porque este samba é de 1944.)
Enfim, muita coisa no mundo não se resolve com a rigidez da lógica, sim, com astúcia, criatividade ou até mesmo com um pouco de samba.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Operação Tatu:
Trump no subsolo
Trump vive na terra, no ar, no mar, na TV - mas também no subsolo. Suas ações têm denotado, em última análise, atitudes de decadência e de desespero. Explicáveis, como veremos a seguir.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
07/01/2026

A economia nos EUA vai mal. Há inflação. “Salário Mínimo Federal Congelado: O valor de US$ 7,25 por hora é mantido há mais de 16 anos, o maior período sem reajustes na história do país.”
“Estou falando sério: com certeza, eu saberia, até nisso, encontrar meu tipo de prazer, o prazer do desespero, é claro, mas é nesse desespero que estão os prazeres mais ardentes, sobretudo quando se adquire uma consciência muito forte de que a situação não tem saída.” (Dostoiévski, Memórias do subsolo.)
Trump vive na terra, no ar, no mar, na TV - mas também no subsolo. Suas ações têm denotado, em última análise, atitudes de decadência e de desespero. Explicáveis, como veremos a seguir.
A economia nos EUA vai mal. Há inflação. “Salário Mínimo Federal Congelado: O valor de US$ 7,25 por hora é mantido há mais de 16 anos, o maior período sem reajustes na história do país.” (Fonte: Gemini.)
No governo Trump, vários cortes foram feitos no social, nas verbas para pesquisas... A consequência dessa má administração tem sido o aumento de moradores de rua; de gente morrendo por não poderem pagar tratamentos, já que lá não existe um sistema público de saúde.
O próprio Mearshimer, professor da Universidade de Chicago, apresenta a sua crítica ao governo estadunidense: “Você não pode gastar mais do que produz indefinidamente. Você não pode manter 750 bases militares em 80 países, com um déficit comercial de 1,1 trilhão de dólares anuais. Você não pode ameaçar simultaneamente China, Rússia, Irã e Venezuela, quando a China financia o seu déficit, a Rússia produz 11% do petróleo global, o Irã controla o Estreito de Ormuz e a Venezuela tem as maiores reservas petrolíferas do Planeta.”
Outro fator que tem tirado o sono de Trump são as acusações de que ele esteve envolvido com garotas (de maior ou de menor), na ilha do seu amigo Epstein, que foi preso, tendo se suicidado na prisão. (Há boatos até de que ele foi assassinado visando-se à queima de arquivos.) Bem, só depois de tudo apurado e julgado é que o mundo conhecerá a verdade. Trump – homem de mídia - sabe desviar as atenções de seu povo. A invasão à Venezuela serve a mais este propósito.
A questão de afirmar que Maduro chefiava um esquema de tráfico de drogas para os Estados Unidos, sem se preocupar com as provas, não passa da atitude do lobo perante o cordeiro, tentando arranjar um pretexto para engoli-lo.
O que já está mais evidente é a sua cobiça pelo petróleo e riquezas naturais venezuelanas. E o apoderamento do petróleo assistiria o povo estadunidense? Claro que não. Isso beneficiaria diretamente os magnatas, principalmente os do petróleo. O próprio Trump já declarou sua intenção: que a indústria petrolífera venezuelana seja administrada por esses megaempresários. E por quê?
Esses magnatas injetaram bilhões de dólares na campanha presidencial de Trump, e este se vê, por conseguinte, na obrigação de recompensá-los. Num sistema neoliberal, em última análise, capitalistas é que governam o país. O presidente se afigura apenas como um fantoche na mão desses poderosos.
O governo de Maduro não vinha sendo o ideal para a Venezuela. A prova mais cabal foi a miséria instalada e a consequente emigração de grande parte de seu povo para o Brasil e outros países. Contudo, isso não autoriza, de forma alguma, uma invasão a um Estado estrangeiro e o sequestro de seu presidente e sua esposa. É um desrespeito a uma soberania e a leis internacionais. Trump deverá ser julgado pelo ocorrido.
A invasão poderá acarretar uma repulsa tão grande aos estadunidenses que – não desejamos - eles podem ser perseguidos em outros países pelo mundo afora. Outra reação, que deve ser intensificada, será a união de nações formando blocos mais sólidos de resistência.
A Rússia e, principalmente a China, têm marcado forte presença nas Américas. Portos, pontes, ferrovias são constantemente inaugurados, bancados pela terra de Xi Jinping. E circulam notícias de que a Rússia já começou a instalar bases para lançamentos de mísseis na Venezuela, e que ela tem um míssil que pode atingir Miami em apenas 4,5 minutos. (Verdades? Especulações? Um dia vamos saber.) Mas nessa invasão ao nosso país vizinho, suspeita-se de que tenha havido traidores, os quais não acionaram (ou desligaram) os sistemas de defesa. A ver.
Finalmente, seria ingênuo pensar que, em nosso tempo, só se faz guerra com armamentos. Existe a guerra econômica, a verbal (das propagandas), a científica, a tecnológica. (Aqui se incluem as batalhas dos chips e das terras raras.) E então? Uma invasão pode ser respondida sem empunhar uma arma. Apenas com uma palavra.
Vamos assistir atentos aos novos episódios. Trump tem falado em invadir a Colômbia, e voltou a cobiçar a Groenlândia. Parece que ele faz guerras, como se fosse uma criança operando um simples joguinho.
“Será que os senhores não perceberam que os sanguinários mais refinados foram, quase sem exceção, os cavalheiros mais civilizados?” (Dostoiévski, Memórias do subsolo.)
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Clone de celulose:
Bolsonaro de papelão
Mas afinal, o que vem a ser isso? Segundo notícia circulada, o PL (Partido Liberal), ao qual pertencia, até há pouco tempo, o ex-presidente, teve uma ideia inusitada. Eles pretendem confeccionar, em papelão, milhares de imagens de Bolsonaro.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
17/12/2025

Tais retratos estarão presentes em todos os eventos que tiverem por fim fazer a propaganda de candidatos da extrema direita, alinhados a esse homem público.
Então está decidido: Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência da República em 2026, representando a extrema direita. (Bom pro Lula.)
Flávio já declarou que não está à venda. Que só existe uma condição para que ele desista desta candidatura: a soltura de seu pai, o qual chegaria (em sonho, é claro) coberto de honra e de glória, para ocupar novamente a cadeira presidencial. Traduzindo: não desiste!
Até o mais ingênuo cidadão perceberá que Flávio não tem projeto algum para o Brasil, como aliás nunca teve. Seu único objetivo – caso fosse eleito – seria conceder indulto a seu pai.
Já é público e notório que o Flávio tem processos abafados por forças poderosas. O mais gritante de todos é o famoso esquema das rachadinhas. Com essa renda ilícita, esse parlamentar teria comprado até mesmo a mansão em que vive. Uns dizem que vale 6 milhões, outros afirmam que seu valor é 14. Essas cifras, como qualquer um pode concluir, são incompatíveis com seu salário lá no Congresso. E tem ainda a enigmática loja de chocolates. Durante a campanha, os adversários irão colocá-lo contra a parede para explicar tudo isso.
Bolsonaro de papelão. Mas afinal, o que vem a ser isso? Segundo notícia circulada, o PL (Partido Liberal), ao qual pertencia, até há pouco tempo, o ex-presidente, teve uma ideia inusitada. Eles pretendem confeccionar, em papelão, milhares de imagens de Bolsonaro. Terão o máximo cuidado em produzi-las, obedecendo às características físicas desse personagem: altura, busto, cintura... (Diminuindo a barriguinha, é claro.)
E tais retratos estarão presentes em todos os eventos que tiverem por fim fazer a propaganda de candidatos da extrema direita, alinhados a esse homem público. Todos nós nos lembramos de que, na campanha de 2018, uma série de candidatos foram eleitos na esteira desse líder. Por isso, diversos atuais candidatos devem acreditar que a experiência pode dar certo outra vez.
Bolsonaro de papelão. Psicologicamente, é uma forma de passar aos simpatizantes a ideia de que o “mito” ainda vive; o “mito” ainda está entre eles. Em outros termos, é uma tentativa de eternizar a figura desse prócer.
Paralelamente, a exposição dessa grande foto tem ainda o propósito de causar em seu público compaixão por esse condenado, saudade e também revolta contra aqueles que o condenaram – e que, aliás, agiram corretamente, dentro da Lei. Isso não deixa de ser um apelo velado para causar hostilidades contra ministros.
O ser humano, ao longo da História, cria heróis, mitos, amuletos, talismãs... Tudo, com o intuito de obter mais sorte ou proteção. Buscar arrimo nesses objetos pode ser sinal de insegurança e falta de confiança em si mesmo.
Eu sei é que esse “Bolsonaro de Papelão” vai comover muita gente, vai fazer gente chorar. Consciente ou inconscientemente, muitos associarão a trajetória desse “mito” aos passos da Paixão de Cristo até o Calvário. Nesse momento, ele se tornará um santo, um mártir. Seus fiéis atribuirão a ele milagres. Erguer-se-ão altares para devoção e adoração.
E essa fabulosa peça publicitária tornar-se-á, cumulativamente, novo objeto de desejo. Tê-la em casa, no comércio, no escritório... Exaltá-la, como se exalta a bandeira da Pátria ou do time do coração. Se preciso for, pagarão caro por ela. Choverão pixes. Será mais um filão de renda para o Partido e para os inescrupulosos de sempre.
Todavia, tem o outro lado da moeda. Milhares, até mesmo milhões de pessoas, já não terão a mesma confiança nesse, que passou a ideia de um herói inabalável, invulnerável.
O 8 de janeiro deixou uma série de sequelas. Bolsonaro atiçou fogo em milhares de apoiadores. Aquela turba depositou inteira confiança nele e em seus discursos. E eles, até certa data, foram os únicos a pagar o pato. E, quando a bomba estourou, onde estava o “Chapolin Colorado” para os defender? Bem longe dali. (Ele próprio, posteriormente, sucumbiu.)
Bolsonaro de Papelão. Qual a novidade? Ele toda vida foi. Um herói frágil, quebradiço, apenas uma sombra do herói que ele ostentava ser. “Marcha, soldado, cabeça de papel!...”
Vamos ver, caso essa campanha venha mesmo a ser lançada, seu efetivo resultado. Quantos aparecerão para ajoelhar-se diante dessa imagem e adorar esse ídolo de papelão – coisa que o Cristianismo, que eles próprios praticam, tanto reprova!
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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Terra, 2025:
Peste, fome, guerra
Os Estados Unidos são um país da propaganda, do espetáculo. Sempre souberam construir a imagem de um país glamoroso, ocultando, no entanto, suas adversidades. Aliás, é uma terra gigante mesmo. Porém, toda nação tem seus desafios, seus pontos fortes e seus pontos fracos.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
06/12/2025

Em 1935, os compositores George Gershwin e Ira Gershwin lançaram a ópera Porgy and Bess, abrindo as cortinas para mostrar ao mundo as vulnerabilidades dos Estados Unidos.
A tese de alguns líderes religiosos de que o fim do mundo está próximo, porque testemunhamos muita peste, fome e guerra não se sustenta. Eles citam a Covid, a guerra entre Rússia e Ucrânia e a fome existente no mundo.
Só que esses pregadores destacam apenas um recorte da História. Conflitos armados, de longa data, já acompanham a humanidade. Só para citar alguns: Conquistas Mongóis (século XIII); Rebelião Taiping (China, 1850–1864); Guerra do Vietnã (1955–1975). (Fonte: Gemini). E as duas Grandes Guerras Mundiais. Todas essas conflagrações, por demais, sangrentas.
Sobre as pandemias, podemos mencionar a Peste Bubônica (várias ondas.) A Varíola. Embora tenha existido por milênios, essa enfermidade causou surtos devastadores em todo o mundo, desde o século XVI. A Cólera, várias pandemias, desde o século XIX.
Intensas ocorrências de fome podem ser citadas: a Grande Fome Europeia (1315–1317). As duas Fomes de Bengala (a de 1770 e a de 1943). A Grande Fome da China (1959-1961). (Fonte: Gemini).
Vamos agora focalizar o momento em que vivemos. O Brasil – com tantos desafios na área social – acaba de sair do mapa da fome. E os EUA entram. Todos nós sabemos que os EEUU constituem a maior economia do Planeta. Um país de bilionários. Na outra extremidade, situam-se os moradores de rua, as pessoas que morrem por doenças, porque não podem pagar um tratamento. E lá não existe um SUS, como temos no Brasil.
Os Estados Unidos são um país da propaganda, do espetáculo. Sempre souberam construir a imagem de um país glamoroso, ocultando, no entanto, suas adversidades. Aliás, é uma terra gigante mesmo. Porém, toda nação tem seus desafios, seus pontos fortes e seus pontos fracos.
Em 1935, os compositores George Gershwin e Ira Gershwin lançaram a ópera Porgy and Bess, abrindo as cortinas para mostrar ao mundo as vulnerabilidades dos Estados Unidos. O começo já diz muito:
“Summertime/An' the livin’ is easy/Fish are jumpin’/An’ the cotton is high/Oh your daddy’s rich/And your ma’is good-lookin’/So hush, little baby/Dont you cry.”
Em tradução livre, poderia ser: “Verão e a vida é fácil. Os peixes estão pulando e o algodão está alto. Oh, seu pai é rico. E sua mãe é bonita. Então, criancinha, não chore”.
Ou seja: tudo ali (nos EUA) indica riqueza, opulência, beleza. Todavia, à margem desse mundo de fantasia, existe gente chorando.
Trump parece pouco preocupado com os indicadores sociais. Ele cortou uma série de benefícios nesta área. Seu caráter xenofóbico manifestou-se, por exemplo, na expulsão de trabalhadores estrangeiros em massa. Bem, poderia aumentar as vagas de trabalho para os nativos. Entretanto, quem está disposto a enfrentar enxadas, picaretas, carregar latas de concreto nas costas? Muita empresa quebrou por falta de mão de obra. Em consequência, aumentou o desemprego – também para os nativos.
E estas absurdas tarifações? Os preços acabam subindo para os estadunidenses, porque os produtos ficam mais raros e caros. E o shutdown (a paralisação dos serviços do governo federal), que chegou a durar 41 dias? Provocou o afastamento de funcionários públicos, interrompeu o pagamento de salários, afetou a distribuição de ajuda alimentar, além de causar transtornos no tráfego aéreo. E essa compulsão por guerrear?...
Enfim, não estou aqui defendendo que o Brasil é o País das Maravilhas. Temos desafios, e muitos! Contudo, o IBGE apontou que, presentemente, o Brasil vem exibindo os melhores indicadores sociais da última década. Pelo menos, estamos no caminho certo.
A recente isenção total do pagamento de imposto de renda para quem ganha até 5000 reais, e a redução, para quem recebe, de 5000,01 a até 7350, ajuda mais ainda o trabalhador; e aquece a roda da economia.
Enfim, se esses trilhões de dólares desperdiçados em guerras fossem destinados ao combate à fome e a projetos sociais (na saúde, educação, moradia...), a vida dos cidadãos estaria bem melhor. Bastaria que os governantes tivessem menos orgulho, menos egoísmo e se sentassem à mesa para conversar. Vale para qualquer país, em qualquer época.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Gerada por IA / via VF.
- Produção: Pepe Chaves.
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Dia da Consciência Negra:
Preconceito destruidor
O que se sabe é que o ambiente hostil fez o mestre desaparecer. Quase implorando, a direção da Faculdade foi atrás do professor de antes, querendo que ele retornasse para concluir o ano. E ele atendeu.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
20/11/2025

Quem se exalta será humilhado; quem se humilha será exaltado. E nós, alunos, entendemos como um preconceito é capaz de diluir sonhos, tendo também afastado de nós um magnífico Artista.
Tudo aconteceu numa faculdade de música em São Paulo, na qual estudávamos.
A coordenadora, Cristina C. B., aparentava ter uns sessenta anos. Era também a nossa professora de Teoria e Solfejo. A aula dela costumava fluir normalmente. Isso, quando ela não chegava tonta. Ela costumava dizer: “Eu bebia muito antigamente. Eu era viciada, principalmente em vinho. Agora, eu não bebo mais não...”
“Vamos à lição de hoje. Abram o livro de solfejo na página dezoito.” A gente abria. Ela falava de uma outra coisa, depois perguntava: “Todo mundo abriu o livro na página vinte e sete?” E nós: “A senhora pediu foi página dezoito.” E ela: “Não, eu pedi cinquenta e sete, mas eu queria dizer vinte e oito...” Nesse dia, aquela aula virava mais um programa de humor.
Ela se gabava muito de ser filha de francês com italiana. Falava isto, como quem quisesse dizer que era descendente de europeus, “raça nobre”, “raça pura”, no entender dela.
Pois bem. Agora, que vocês já sabem quem era a Cristina C. B., vamos mostrar o que um dia ela fez. Lamentável!
Às quintas-feiras, tínhamos aula de canto. Integrávamos o coral da Faculdade, que por sinal estava bom.
Um dia, o regente anunciou sua saída da Escola. Chegou para substituí-lo outro professor e regente. Era um senhor de uns quarenta anos, forte, elegante, bem trajado. Parecia ser bastante inteligente. Era negro. E foi iniciando a sua fascinante lição.
Imediatamente, a Cristina, que não tinha aula com a gente naquele dia, foi para a sua sala habitual e começou a mandar recados para nós, alegando que precisava conversar com a gente. Bem, ela não tinha nada que dizer. Na verdade, o que ela estava tentando era sabotar o trabalho daquele professor – por ele ser negro. Que lástima! Logo num meio artístico...
Esse regente entendeu tudo. Ficou bastante triste e descontrolado. Andava de um lado para o outro da sala. Contou que estudava francês... Passava a mão sobre a cabeça... Realmente, o que a Cristina havia falado com a gente foi o seguinte: “Não voltem para a sala desse cara não. Fiquem por aqui mesmo.” Eu não obedeci. Voltei para a sala dele.
O que se sabe é que o ambiente hostil fez o mestre desaparecer. Quase implorando, a direção da Faculdade foi atrás do professor de antes, querendo que ele retornasse para concluir o ano. (Já estávamos em outubro.) E ele atendeu.
Visando a celebrar as solenidades de Natal, a Faculdade resolveu criar um Festival de Corais, aberto não só ao Brasil, a toda a América do Sul. Um patrocinador ofereceu os troféus e valiosos prêmios em dinheiro. O corpo de jurados era constituído por maestros e professores das melhores faculdades de São Paulo e de outros países latino-americanos.
Chega o grande dia. Os corais vão se apresentando um a um, todos expressando o seu encanto.
Anunciaram o último concorrente da noite. O regente chegou, cumprimentou solenemente a plateia. Anunciou que iam apresentar um spiritual. Para quem não se lembra, os spirituals surgiram no sul dos Estados Unidos. Eram cantados por negros escravos. Evoluíram de canções de trabalho e religião. Cantava-se para amenizar os sofrimentos e as condições desumanas a que os negros eram submetidos.
A apresentação foi impecável. E sublime. Parecia estar transportando a todos para o Céu. Esse grupo vocal foi aplaudido calorosamente e de pé. Até mesmo os jurados se levantaram para aplaudir. Nem precisava dizer que foi o vencedor do Festival.
O coral era formado apenas por cantores negros. E quem era o regente? O regente era exatamente aquele professor, que havia sido humilhado naquela faculdade.
É bíblico: quem se exalta será humilhado; quem se humilha será exaltado. E nós, alunos, entendemos como um preconceito é capaz de diluir sonhos, tendo também afastado de nós um magnífico Artista.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Gerada por IA / via VF.
- Produção: Pepe Chaves.
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No transporte urbano:
O cachorro que pega lotações
E vocês acreditam que esse nosso herói pega a lotação sempre no mesmo ponto, e desce sempre em outro, a uns dois quilômetros dali? Às vezes, ele está lá do outro lado. Quando o ônibus para, ele atravessa a rua correndo na frente dos carros, mas nunca perde a condução.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
14/11/2025

Muita gente fotografa, brinca com ele. Ele não ataca ninguém. As crianças veem nele um amiguinho divertido e feliz.
Aqui em Ibirité (cidade com alguns bairros já conurbados com Belo Horizonte), acontecem coisas que estão pondo os motoristas endoidados.
Uma delas tem ocorrido nos últimos dias. Um cachorro preto, grande – a quem deram o nome de Negão - parece que se cansou dessa vida de cachorro, de só ter de andar a pé. Quando passageiros vão entrando no ônibus, ele, com a maior convicção do mundo, pula dentro também.
E vocês acreditam que esse nosso herói pega a lotação sempre no mesmo ponto, e desce sempre em outro, a uns dois quilômetros dali? Às vezes, ele está lá do outro lado. Quando o ônibus para, ele atravessa a rua correndo na frente dos carros, mas nunca perde a condução.
Será o que ele procura? Seu dono, sua dona? Um grande amor que ele perdeu? Ou quer apenas dar um passeio? Alguns passageiros vão emitindo as suas opiniões: “Isso é sinal do fim do mundo.” “Acho é que ele é alguma pessoa que já morreu e voltou no corpo de um animal.” “Ah, para mim, ele é um espírito maligno disfarçado de cachorro. É preciso orar muito!”
E tem também aquelas pessoas pragmáticas. Uma senhora reclamou que estava muito errado deixar um animal viajar no ônibus. Argumentou que ele podia atacar uma criança, um idoso...
Muita gente fotografa, brinca com ele. (Eu inclusive.) Ele não ataca ninguém. As crianças veem nele um amiguinho divertido e feliz.
Ah, mas tem pessoas carrancudas! Um moço não olhou só para aquele cão com cara de malvado. Olhou pra mim também, quando me viu brincando com ele. Ele quase avançou em mim – o moço, não, o cão.
Um senhor sério falou comigo que eu não deveria pôr a mão em animais não. Que eles transmitem muitas doenças. Sem querer prolongar a discussão, apenas o fiz lembrar que nós, humanos, também transmitimos.
Enfim, a lotação acabou virando um local de debates, tendo como figura central o canzarrão. Uma adolescente foi quem falou mais bonito: “Devemos viver em harmonia com os animais, as plantas, as águas, a terra, o ar, o sol, a lua, as estrelas, com Deus e todo o Universo.”
Lamentei que minha colega Nina Soalheiro não estivesse presente. Naquela hora, ela devia estar em seu consultório ou debruçada sobre suas pesquisas. É uma psicanalista por demais sensível e dedicada. Pelos incessantes papos que tivemos, aprendi um mundo de coisas com ela.
Pensamento viaja, foi o mesmo que ver ali a estimada Nina analisando toda a situação e o comportamento das pessoas. Vamos destacar aquela senhora, temendo que o cachorro pudesse atacar passageiros. Ela estava externando medos, inseguranças que ela já trazia consigo e que deveriam estar emergindo em diversas outras situações. Essa mulher deve estar, enfim, insegura para enfrentar a própria vida. Deve ter tido traumas.
Quem falou de espírito maligno, de sinal do fim dos tempos mostra-se um tanto paranoico. Também está inseguro, precisando de tratamento.
Quem só enxerga os animais como transmissores de doenças está vendo o mundo através das lentes da desgraça. Bem, não tiro totalmente sua razão. Em certos casos, é bom mesmo ter cuidado. Todavia, deve-se considerar que o nosso organismo também produz anticorpos e, na maior parte das vezes, não somos afetados por esses temíveis micróbios. Mas... E o lado bom dos animais?
Então, por que não olhar as coisas pela lente do otimismo, levando uma vida mais leve? O animal pode ser companheiro, protetor e até mesmo terapeuta. Já viram que as pessoas ficam mais calmas quando têm a seu lado um cachorro, um gato ou outro animal de estimação?
E a equoterapia (a terapia com cavalos)? Ela já tem curado sérios casos de traumatismos, disfunções sensório-motoras e até distúrbios de linguagem.
Que cada um tire as suas próprias conclusões. Au, au! Na linguagem dos cães, quer dizer Muito Obrigado!
Fiquem agora com a música “Nós, irracionais”, de Juca Chaves.
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Gerada por IA / via VF.
- Produção: Pepe Chaves.
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Gravadoras:
Como eram os sistemas de gravação
Os discos de 78 rotações eram pesados, quebravam à toa, chiavam muito. Já os de vinil surgiram como o sucesso de uma nova tecnologia para a época. Além de comportarem mais músicas, eram mais leves e inquebráveis.
Por Sérgio Souza*
De Ibirité-MG
Para Via Fanzine
03/11/2025

“Abra a sua janela
Deixe entrar o luar
[...]
Ligue
a sua eletrola
Vista o seu negligê
Deite-se e acabe o cigarro
Que eu no cinzeiro deixei
Quero
sentir que você
Na maciez do seu ninho
Dormiu ouvindo, bem baixinho
O meu triste long-play.”
(Meu triste long-play, de Adelino Moreira, interpretação de Nélson Gonçalves, ano 1959).
Se um jovem ouvisse hoje esta canção, com certeza iria ficar sem entender uma porção de coisas. Precisaríamos, por exemplo, explicar para ele que negligê (palavra de origem francesa, “négligé”) era um roupão transparente feminino, sensual, mais próprio para o quarto.
Deveríamos esclarecer-lhe ainda que eletrola era um aparelho de som usado para rodar discos daquela época, como o LP (long-play), também citado na música, conhecido como disco de vinil.
E por que se chamava long-play? Bem, long significa longo, comprido, de longa duração. Play, dentre outros sentidos, quer dizer tocar. Portanto, um disco que toca por mais tempo. Isto porque, antes, o que havia eram os “discos de cera”, de 78 rotações por segundo. De regra, vinha uma música de um lado e outra do outro. Tínhamos de virar o disco para ouvir a segunda música. O long-play surgiu no Brasil em 1951 (um ano após a inauguração do primeiro canal de TV em nosso país, a TV Tupi, São Paulo).
Outra coisa: os discos de 78 rotações eram pesados, quebravam à toa, chiavam muito. Já os de vinil surgiram como o sucesso de uma nova tecnologia (para a época). Além de comportarem mais músicas, eram mais leves e inquebráveis.
Todavia, tanto um quanto o outro deram uma bela contribuição à arte das Musas e à cultura. Tiveram o grande mérito de registrar, de documentar belíssimas composições, importantes intérpretes, destacáveis orquestras.
Com o auxílio da IA, vamos apresentar um histórico das gravações. Thomas Edison inventou o fonógrafo em 1877. Este aparelho gravava músicas em cilindros de cera. Estes eram usados para gravar som através de vibrações mecânicas. Sua gravação durava cerca de 2 minutos.
Dez anos depois, Emil Berliner criou o gramofone, que utilizava discos planos de cera e outros materiais. Essa invenção foi um sucesso e logo superou os cilindros, tendo sido a base para os discos de 78 rotações que se popularizaram mundialmente.
E no Brasil? Quando chegou o disco de 78 rotações? Em 1902, pelo empresário tcheco Fred Figner, da Casa Edison, no Rio de Janeiro. O Brasil se tornou um dos primeiros países a ter gravações lançadas regularmente e uma indústria fonográfica própria. Na verdade, Figner começou a gravar e vender cilindros de música brasileira.
A importância da Casa Edison. Ela foi a primeira gravadora do país. Funcionava ainda como ponto de encontro dos artistas. Foi ali, por exemplo, que apresentaram ao Vadico - que era pianista e compositor paulista - um talentoso poeta carioca que estava se despontando: Noel Rosa. Estabeleceu-se ali uma célebre parceria, que deu muito orgulho ao Brasil e à nossa música.
Pois bem, e antes de 1902? Ah, era difícil! O registro e difusão das obras tinha de ser através de partituras. A própria Chiquinha Gonzaga (pianista, compositora e primeira maestrina brasileira) compunha uma música, escrevia sua partitura e saía vendendo-a pelas ruas. Não havia xerox. Para vender, devia-se então escrever a partitura várias vezes.
Não podemos nos esquecer da época das fitas gravadas, as fitas K7. Rodavam em um aparelho próprio, o toca-fitas. Os aparelhos 3 em 1 fizeram o maior sucesso. Rodavam fitas, LPs e podia-se gravar a própria voz. Alguns tinham ainda uma quarta função: eram também rádio. Presente lindo para dar a uma jovem que estivesse comemorando o seu aniversário de quinze anos e preparando a sua festa de debutante! Bons tempos!...
* Sérgio de Souza é professor, músico e articulista. É colaborador de Via Fanzine.
- Imagem: Divulgação.
- Produção: Pepe Chaves.
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