|
Passado genético:
Humanos, pré-humanos e seus parentes
Você deve estar se perguntando: E a nossa
linguagem? E a nossa cultura?
E a nossa tecnologia? Não vejo chimpanzés
construindo estações espaciais...
Por
Euder Monteiro*
De
Itaúna-MG
Para
Via
Fanzine
05/11/2011

Mesmo após milênios, o
macaco primordial continua vivo dentro de nós.
Um dos maiores cientistas do Brasil, Dr. Walter Alves Neves1,
elaborou um interessante raciocínio em um de seus livros: ele
disse que não faz sentido perguntar se viemos ou não do macaco, porque,
na verdade, todos nós somos macacos.
Esse pensamento não é uma brincadeira. Na verdade, alguns
livros importantes2 confirmam isso com muitos e fortes
argumentos e vão além, afirmam que nossas diferenças em relação aos
outros animais são apenas de grau e não de natureza. Ou seja, não existe
nada que seja um privilégio do ser humano, a não ser a maior
complexidade de suas características.
Você deve estar se perguntando: E a nossa linguagem? E a
nossa cultura? E a nossa tecnologia? Não vejo chimpanzés construindo
estações espaciais...
Os chimpanzés e vários outros animais conseguem se
comunicar. Naturalmente, não possuem uma linguagem articulada e
gramaticamente organizada como a nossa, mas comunicam-se por meio de
sons diferenciados e gestos específicos. Há um interessante relato3
que ilustra bem essa capacidade. Um jovem gorila, capturado por
traficantes de animais, foi levado para um santuário após ser resgatado.
Quando chegou lá, recebeu treinamento para se comunicar com humanos por
meio de sinais ou por meio de telas de computador sensíveis ao toque. Um
dia, o gorila acordou muito assustado e começou a “dizer”, por meio de
sinais, as palavras “cabeça” e “sumiu”. Os pesquisadores não entendiam o
que o gorila queria dizer, até que um deles se lembrou de que os
traficantes que atacaram a família daquele gorila cortaram as cabeças de
seus parentes.
Com relação à cultura, os pesquisadores já chegaram a um
consenso: os animais conseguem transmitir conhecimento a seus
descendentes. Os chimpanzés, além disso, conseguem desenvolver
tecnologias simples para uso diário, como modificar gravetos para caçar
cupins, escolher pedras para quebrar nozes, criar uma estratégia militar
para patrulhar seu território, ou elaborar um plano para cercar e
capturar animais4. Ou seja, eles conseguem construir
ou elaborar coisas. E mais: conseguem ensinar isso a seus filhotes. No
“site” “Youtube”, existe um vídeo interessante, mostrando um chimpanzé
ensinando seu filhote a usar uma pedra como bigorna e outra como
martelo, para quebrar nozes5.
Mesmo assim, muitas pessoas poderão dizer: mas nós somos os
únicos que caminham em pé, orgulhosamente olhando para o horizonte! Sim.
Mas isso não significa muita coisa, cangurus, aves e alguns dinossauros
também fazem isso. Reconheço, no entanto, que, hoje, nós somos os únicos
primatas bípedes. Mas se voltássemos uns 15.000 anos para o passado,
encontraríamos uma outra espécie de primata bípede (Homo floresienses).
Se voltássemos uns 30.000 anos, encontraríamos mais duas espécies (Homo
erectus e o Homo neanderthalensis). Enfim, se voltássemos uns
2,5 milhões de anos, encontraríamos dezenas de espécies de primatas
bípedes! Não seriam espécies do nosso gênero (Homo), mas várias
espécies de gêneros diferentes (como o Australopiteco e o Parantropo,
primatas bípedes que conviveram por milhares de anos com as primeiras
espécies humanas). Todos orgulhosamente bípedes, como nós, apesar de
serem muito semelhantes aos chimpanzés atuais.
'É
possível dizer que o nosso cérebro, sem dúvida, é um dos mais complexos,
mas a diferença está tão somente na complexidade, não na
natureza dele'
Alguns poderiam dizer ainda: mas nenhuma dessas espécies
extintas possuía um cérebro tão grande e poderoso quanto o nosso. Essa
afirmação também pode estar equivocada. Hoje, sabemos que os Neandertais
(Homo neandertalensis)6 possuíam um cérebro
maior do que o nosso, em termos absolutos. Se não tivessem sido
extintos, talvez tivessem construído uma civilização tecnológica
semelhante à nossa.
Aliás, essa questão do tamanho do cérebro é muito
controvertida. Uma baleia, por exemplo, possui um cérebro de vários
quilos, mas ele só é grande assim para conseguir controlar seu imenso
corpo. Em termos relativos, os primatas possuem um dos maiores cérebros
em relação ao corpo. É que o tamanho relativo do cérebro é mais
importante do que o tamanho absoluto. Por exemplo, o Homo erectus,
com um cérebro de 1.000 centímetros cúbicos (o Homo sapiens tem,
em média, 1.400 cm3 de volume cerebral) possuía uma
capacidade cognitiva equivalente ao Homo floresiensis, que
possuía um cérebro pequeno, de uns 400 cm3, mas este último
era baixo, com menos de 1 metro de altura, enquanto que o primeiro era
mais alto, como os primeiros sapiens. Ambos construíam
ferramentas de complexidade equivalente, porque o tamanho relativo do
cérebro era praticamente idêntico.
Porém, o tamanho relativo também não deve ser considerado
de forma isolada. Ratos, por exemplo, têm um cérebro relativamente muito
grande em relação ao corpo. Para estudarmos a real capacidade cognitiva
de uma espécie, o ideal é analisarmos a arquitetura de seu cérebro
(quantidade de neurônios, de sinapses, tamanho relativo de algumas
partes como o cerebelo, o córtex, etc.). Sabemos, por exemplo, que o
cérebro do Homo neanderthalensis era, em média maior que o nosso
(1.700 cm3), porém, também sabemos que a região frontal de
seu cérebro era um pouco menos desenvolvida7.
Por tudo isso, é possível dizer que o nosso cérebro, sem
dúvida, é um dos mais complexos, mas a diferença está tão somente na
complexidade, não na natureza dele. E, além disso, chimpanzés, bonobos,
gorilas e humanos estão classificados filogeneticamente dentro de uma
mesma família8.

Homo floresiensis, uma das
linhagens da espécie humana, ao longo de sua evolução.
Hoje, a Genética e os milhares de fósseis já encontrados e
catalogados nos permitem afirmar que o homem e o chimpanzé atual
evoluíram a partir de um ancestral comum, que viveu há mais ou menos 6
milhões de anos. Esse tempo parece muito se comparado à duração de uma
vida humana. No entanto, é quase nada se comparado à história da vida na
Terra (mais de 2 bilhões de anos), ou à própria história dos primatas
(que surgiram há 60 ou até 85 milhões de anos)9.
Porém, o que ocorreu nos últimos 6 milhões de anos é fascinante!
A partir desse ancestral comum, os pré-chimpanzés evoluíram
para um tipo de locomoção sobre os nós dos dedos (nodelismo), enquanto
que os pré-humanos (Australopitecos) adotaram um tipo de locomoção muito
singular: o bipedalismo. Para um mamífero comum, não faz sentido deixar
de ser quadrúpede, porque esse é o meio mais simples, econômico e
eficiente de andar. No entanto, para um primata, que evoluiu nas
árvores, vários outros tipos de locomoção são mais eficientes. Os
orangotangos, por exemplo, utilizam a locomoção braquial ou braquiação
(usando os braços pendurados nas árvores). Porém, os Australopitecos,
apesar de terem sido muito semelhantes aos atuais chimpanzés, caminhavam
como nós. Seria muito interessante se alguma espécie australopitecínea
ainda vivesse e tivéssemos que dividir o mundo com macacos andarilhos
bípedes.
A teoria mais aceita10 que explica a
adoção do bipedalismo por esses pré-humanos afirma que a principal
pressão evolutiva foi a necessidade de percorrer grandes distâncias em
busca de comida, debaixo de um sol escaldante, na África. Essa pressão
também levou à queda da maioria dos pêlos do corpo, para facilitar a
transpiração. Chimpanzés, por exemplo, não conseguem ficar muito tempo
debaixo do sol. O bipedalismo é mais eficiente do que o nodelismo e
reduz a incidência de luz solar nas costas, facilitando o controle da
temperatura corporal.
'A
Evolução não trabalhara no sentido de 'melhorar' as espécies,
mas de favorecer as espécies que deixam mais
descendentes, por
estarem mais bem adaptadas ao seu meio, ou por qualquer
outro motivo'
Outras pressões evolutivas (como a complexidade da vida em
sociedades itinerantes e muito hierarquizadas) levaram a uma expansão no
tamanho do cérebro, surgindo, dessa forma, as primeiras espécies de
nosso gênero (Homo habilis e Homo rudolfensis). O que
tornou possível a existência de primatas com cérebros grandes foi o fato
da carne ter sido acrescentada ao cardápio desses primeiros ancestrais
humanos. É que esse órgão consome muita energia, exigindo uma
alimentação mais calórica e protéica. Posteriormente, o controle do fogo
possibilitou cozinhar alimentos,
permitindo a última grande expansão no volume do cérebro e mais: uma
significativa redução no tamanho das mandíbulas11. É
que, além de mais macia (permitindo a redução dos músculos
mastigatórios), a carne cozida fica mais fácil de digerir, permitindo
uma absorção melhor de seus nutrientes. Isso também permitiu uma redução
no tamanho dos intestinos.
Nos últimos seis milhões de anos, primeiro nos tornamos
bípedes, depois, cérebros cada vez maiores começaram a evoluir. No meio
do caminho, muitos detalhes moldaram a nossa espécie, como a perda de
pêlos (Homo ergaster) e a projeção do nariz (Australopithecus
sediba)12, que permaneceu embutido na face nos
pré-chimpanzés, que, no entanto, ganharam músculos adicionais nos
pulsos, para facilitar sua marcha sobre os dedos.
Porém, é muito importante mantermos em mente que a Evolução
não trabalhara no sentido de “melhorar” as espécies, mas de favorecer as
espécies que deixam mais descendentes, por estarem mais bem adaptadas ao
seu meio, ou por qualquer outro motivo. Por isso, devemos enxergar a
Evolução como um processo contínuo e ainda em andamento, que modifica,
mas não necessariamente, aperfeiçoa as espécies.
*
Euder Monteiro é servidor da Justiça Eleitoral há mais de 10 anos e
professor, possui graduação em Direito e especialização em Direito
Eleitoral pelo Unibh. Estuda informalmente a Paleoantropologia desde o
final da década de 1980, já tendo participado de encontros, simpósios e
palestras sobre o assunto. Possui uma biblioteca pessoal sobre o tema, é
coadministrador do portal
www.paleoantropologia.com.br.
-
Contato:
eudermonteiro@yahoo.com.br .
- Imagens: Arquivo do autor.
- Tópico associado:
Contexto evolutivo dos primeiros
pré-humanos
- Referências:
1.
Dr. Walter Alves Neves, biólogo, arqueólogo e antropólogo, é fundador e
responsável pelo Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP, único
do gênero na América Latina. É um dos cientistas mais respeitados do
Brasil, autor de vários livros e artigos, dentre os quais “O Povo de
Luzia”, no qual consta a frase citada. Conheça mais sobre o laboratório
dele em:
http://www.ib.usp.br/leeh/.
2. Livros: “Macaco
Nu” de Desmond Morris; “Eu, Primata” de Frans de Waal; e “Genes, Povos e
Línguas” de Luigi Luca Cavalli-Sforza. Veja artigos e “sites”
relacionados em:
www.paleoantropologia.com.br.
3.
Esse relato está descrito com mais detalhes no livro “Eu, Primata” de
Frans de Waal. Assista no “Youtube” um vídeo mostrando uma gorila
comunicando-se com humanos por meio de variados e interessantes gestos:
http://www.youtube.com/watch?v=Po2JGdx9WBI&feature=related.
4.
Assista no “site” “Youtube” um filme sobre as técnicas de caça dos
chimpanzés:
http://www.youtube.com/watch?v=SoqaNaK2ODI.
Assista também um interessante trecho de um documentário no qual
chimpanzés, na natureza, são mostrados utilizando, de forma muito hábil,
algumas ferramentas:
http://www.youtube.com/watch?v=Nh9XL08Akwc.
5.
Este vídeo está disponível em:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_popout&v=jrEpfUS1wY0.
6.
Para saber mais detalhes sobre os Neandertais, recomendo o livro “O
Colar do Neandertal: em busca dos primeiros pensadores”, escrito por
Juan Luis Arsuaga, paleoantropólogo especialista nessa espécie hominina.
7.
Para mais detalhes sobre a relação entre o tamanho do cérebro e a
inteligência, recomendo o livro “Os Humanos antes da Humanidade: uma
perspectiva evolucionista”, escrito por Robert Foley.
Para saber mais sobre as características dos
cérebros, leia uma reportagem sobre a arquitetura cerebral do
Australopithecus sediba, acesse
www.paleoantropologia.com.br.
8. Para saber mais sobre as implicações filosóficas dessa
classificação, recomendo o livro “Nova História do Homem” de Pascal Picq,
paleoantropólogo francês. Esse livro foi publicado em português apenas
em Portugal, sendo necessário encomendá-lo pela internet. Para ler
trechos e comentários sobre esse livro, acesse a comunidade “Paleoantropologia”,
no Orkut:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=79846237.
Para acessar essa comunidade, é necessário estar cadastrado previamente
no Orkut.
9.
Essas informações foram retiradas dos livros “O Despertar da Cultura”,
escrito por Richard G. Klein e Edgar Blake e “The Human Career: Human
Biological and Cultural Origens”, também escrito por Klein.
10.
Para ler a teoria completa, veja o livro “Como nos Tornamos Humanos: um
estudo da evolução da espécie humana”, escrito por Craig Stanford.
11.
Para ler a teoria completa, veja o livro “Pegando Fogo: porque cozinhar
nos tornou humanos” de Richard Wrangham. Além de ler esse livro,
recomendo a leitura das críticas que os membros da comunidade
“Paleoantropologia” do Orkut redigiram:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=79846237.
Para acessar essa comunidade, é necessário estar cadastrado no Orkut.
12.
Para saber mais sobre detalhes anatômicos, como a projeção do nariz, a
perda de pêlos, a perda do polegar opositor nos pés, a redução do
tamanho dos braços, etc., recomendo o “Curso Ilustrado de
Paleoantropologia para Iniciantes”, disponível na seção “Enciclopédia”
do “site”
www.paleoantropologia.com.br.
|