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 Crônicas

 

 

Contratempos:

Não tenho tempo!

A piada do menino que pergunta à mãe se veio ao

mundo através de um 'download' é emblemática!

 

Por Paulo Roberto Santos*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

12/08/2012

  

Vivemos tempos estranhos. Ouvir alguém dizer que não tem tempo nem para as coisas essenciais da vida torna-se cada vez mais rotineiro. Tanto faz se é mera desculpa para não assumir compromissos, não se envolver com preocupações ou problemas alheios, ou se realmente a administração do tempo se tornou um problema tão generalizado que não há mais espaço para coisas importantes para o equilíbrio emocional e espiritual do bicho homem. Diálogo, convivência, troca de ideias e opiniões, troca de impressões sobre a vida e o mundo, o estar perto, estar junto, falando ou simplesmente ouvindo. Essa maneira de levar a vida, pelo isolamento, é parte das causas do adoecimento coletivo que observamos na atualidade.

 

A piada do menino que pergunta à mãe se veio ao mundo através de um 'download' é emblemática! Não estamos somente perdendo a capacidade de administrar o tempo, como também de selecionar prioridades e relevâncias, num mundo que nos envolve com engenhocas atraentes e nem sempre tão úteis ou importantes quanto dizem. É fato que a internet ajuda - e muito! -, nesses tempos de distâncias e correrias por uma razão ou por outra. Contudo, é preciso ter em mente que a tecnologia ajuda a sermos mais eficientes, mas, não melhores!

 

Tenho para mim que dois fatores pesam nesse comportamento que se alastra cada vez mais: o medo e sua parceira, a desconfiança. Esse casal transita de braços dados por todo o planeta, entrando e saindo livremente onde quiser. Domina e predomina em quase todos os relacionamentos de um modo ou de outro. Temos medo do outro pelo simples fato de ser o 'outro', o não-eu, o diferente de mim. Assim, a sensação de violência, a xenofobia, os preconceitos e o isolamento aumentam, e a paranoia também; as distâncias idem. A sociedade se dissolve e a convivência se evapora. Jovens se reúnem em volta da mesa de um barzinho e cada um fala com alguém pelo celular, mas não com quem está ao seu lado ou diante de si.

 

Valorizar o mundo dos afetos e recuperar o espaço da convivência não é tarefa fácil por vários motivos, mas a esperança e o esforço nesse sentido se impõem, pois o preço da solidão pode ser alto demais. Estar sozinho de vez em quando, em silêncio, ouvindo os próprios pensamentos e sentimentos não é somente importante, como é também necessário. Esse contato consigo mesmo é o que permite nos situamos melhor na vida e no mundo. A alienação ou a ignorância voluntárias não nos resguardam dos perigos da vida; pelo contrário ! É no convívio e no diálogo que encontramos reconforto e segurança.

 

* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.

 

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Havia formigas no caminho:

Lauro jubitando e formigamente falando

Nunca tinha imaginado que uma pessoa poderia saber

tanto de formigas, o Lauro era PhD em formigas, sabia tudo.

 

Por Afonso Silva*

De Itaúna-MG

Para Via Fanzine

18/01/2012

 

O Lauro do Jubito (Lauro de Faria Matos) e o Aurélio Buarque de Holanda tinham alguma coisa em comum, os dois garantem que a formiga é um inseto; o Lauro na prática e o Holanda teoricamente, já o Osnofa imagina que a formiga é um bicho. Nada melhor do que discordar de quem tem razão. Um dia o Lauro do Jubito tocava bandolim no alpendre de sua casa e a música era o Trenzinho Caipira, do Heitor Villa Lobos, eu fiquei parado na porta da casa do Lauro por alguns minutos, ouvindo e curtindo a beleza deste momento. Foi tempo o suficiente para que um enxame de formigas picasse meus pés e as minhas secas canelas, a vontade era de sair correndo, mas formigamente falando, o Jubita me acudiu dizendo assim: bate os pés meu rapaz e passa as mãos nas canelas que as formigas vão embora e assim fiz. Depois disso o Trenzinho Caipira foi tocado por mais umas duas vezes e as formigas foram embora.

 

Fiquei ali proseando e ouvindo-o falar sobre as formigas, nossa, nunca tinha imaginado que uma pessoa poderia saber tanto de formigas, o Lauro era PhD em formigas, sabia tudo, o que elas costumavam alimentar, porque tinham asas e tamanho diferenciado, cabeças grandes ou pequenas e tão miúdas como a ponta de um alfinete, estilos, cores e tamanhos, etc. Diante de tanta sabedoria me desculpei e falei para o Lauro do Jubito, desconsidero o que eu pensava sobre o biótipo das formigas, pra mim elas eram bichos, mas agora sei que são insetos.  E aí chegaram os amigos do Jubito, o comerciante Francisquinho e o meu tio Geraldo do Eduardinho, dois bons violonistas de violão nas mãos. Imaginem, se estava bom o Trenzinho Caipira, ficou melhor, depois disso tive que ir embora, pois o Lauro e os amigos tinham que ensaiar algumas músicas para uma seresta que estava marcada naquele sábado. Confesso que não me esqueci das formigas, tanto pelo que o Lauro me ensinou sobre elas e pelas mordidas nos pés e nas minhas secas canelas.

 

Continuei passando ali na casa dos Jubitos e parando para ouvir o Lauro tocar suas músicas preferidas para o deleite público, um dia violão, outro dia bandolim, viola e cavaquinho, o talento musical é um dom da família Matos, coincidência ou não as formigas sempre me mordiam, eu batia os pés e passava as mãos nas minhas secas canelas e elas me deixavam em paz.

 

Espiritualmente isto poderia ser um carma, nunca fui tão mordido por formigas, um inseto que eu considerava ser um bicho, cheguei a questionar esta situação com o amigo.  O mesmo sempre foi um homem sério e comedido devido ao seu trabalho como dono de Cartório de Registro de Nascimento e Casamento. O Lauro do Jubito depois de ouvir minha queixa e meu questionamento caiu na risada, e sem saber o porquê de tanto riso, fiquei na duvida se ele estava rindo de mim ou pra mim. Discretamente perguntei o que estava se sucedendo e por que tanto riso. Depois de se recompor do excesso de riso o Lauro do Jubito me respondeu educadamente com a sabedoria de um mestre. Moço você sempre vem me ouvir tocar e toda às vezes é mordido pelas minhas formigas, hoje você não imagina o quanto está atrapalhando as coitadinhas, estão todas em filas e de malas prontas para embarcar no Trenzinho Caipira do Heitor Villa Lobos, com destino a São Petersburgo, onde vão participar de um congresso com os meu amigos cientistas Dr. Bolostroque e Dr. Lascotine e você fica aí no meio do caminho atrasando a viagem delas.

 

A sabedoria do mestre Lauro do Jubito me fez lembrar o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, de Itabira para o mundo com toda simplicidade, “No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho”... Obrigado, Jubito! Obrigado, poeta!

 

* Afonso Silva é cronista itaunense.

 

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Experiência de vida:

A Erva do Diabo 

“Não preciso me drogar para ser um gênio...”.

Charles Chaplin

 

Por Manoel Amaral*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

28/12/2011

 

Hoje ele é muito respeitado como palestrante nas rodas antidrogas; mas já foi um dos caras mais viciados que já conheci.

 

Passo a palavra para José Imaculado, mas conhecido como Zé da Merda.

 

“Já fumei, cheirei, injetei, tomei e lambi. Fiz de tudo nesta vida para poder manter o meu vício. Roubei, furtei, assaltei, só não matei. Pulei muro, rasguei o corpo em arame farpado correndo da polícia.”

 

Sempre assim que ele inicia as suas concorridas palestras para viciados e familiares. O seu bairro ficou pequeno, a cidade também. Fez palestras para todo o estado. Viajou até para o exterior, atendendo a pedidos de universidades norte americanas.

 

“Não acreditem na amiga da mente, isso é pura ficção. A erva maldita rói seu cérebro, provoca distúrbios nos seus neurônios.”

 

Ele é mesmo bom de fala, consegue manter a plateia prestando atenção às suas palavras por horas e horas.

 

“A minha intenção hoje é contar para vocês como foi que larguei o vício. Cheguei a levar a minha família a loucura, vendi tudo para comprar a Noia. Até um liquidificador que tinha dado de presente para minha mãe.”

 

Por aí ele vai tirando lágrimas e sorrisos de todos que ali estão. Zé da Merda virou mesmo um excelente orador. Preste bastante atenção a interessante história que ele vai contar:

 

“Por que tenho o apelido de Zé da Merda? Vou explicar: tinha uns viciados na cadeia e estavam sempre pedindo drogas aos visitantes, mas a portaria não deixava passar nada.  Nestes dias eu estava lá depois de ser preso tentando vender um celular roubado.”

 

Haviam encontrado uma nova maneira para traficar o Fumo brabo.

 

Engoliam várias cápsulas e arranjavam uma maneira de ser preso, uma vez dentro da cadeia era só esperar  o bagulho sair.

 

Acontece que na maioria das vezes a embalagem não era bem preparada e rompia-se no estômago e ao sair dava mais trabalho na limpeza.

 

Era muito interessante, hilário mesmo, vendo ele contar com toda simplicidade como tudo aconteceu.

 

“Os presos não queriam nem saber, ia cada um pegando o seu papel para preparar o Brow. Mas na pressa eu peguei um pedaço da maldita e fiz logo o meu Palhão. Quando comecei a tirar as primeiras baforadas percebi um odor diferente. Aí fui verificar como haviam transportado a Planta do diabo até a cadeia e fiquei sabendo que tudo aquilo tinha vindo na barriga do idiota do Lolô, um maconheiro já velho que estava à beira da morte. Vomitei três dias seguidos e nunca mais coloquei qualquer tipo da droga na boca. Fumei merda, aí a razão do meu apelido.”

 

Dá para acreditar? Podem crer, existem viciados usando coisa muito pior que isso!

 

Boas entradas de Ano.

 

Fuja das drogas, droga é uma droga!

 

* Manoel Amaral é cronista e editor do blog do Osvandir (http://osvandir.blogspot.com). 

 

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