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 Crônicas

 

 

Comportamento:

A Casa-grande e a Senzala estão em guerra?

O aparecimento de grupos criminosos organizados, tanto os de colarinho branco

como os 'pés-de-chinelo', já demonstra o que vem se formando no Brasil desde sua origem

 

Por Paulo Santos*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

08/01/2013

 

A violência urbana no Brasil cresce espantosamente, sendo tratada com brutalidade e truculência pelos governantes, como se não houvessem causas conhecidas por trás de tudo isso. A primeira é que os pobres não são mais dóceis como no passado, como já afirmou o professor Renato Janine Ribeiro em entrevista não muito recente. Outras causas são as enormes desigualdades (ainda), os preconceitos disfarçados ou não, a cisão agora clara entre sociedade civil e sociedade política, sendo que os primeiros formariam uma categoria de cidadãos de segunda classe, aos quais caberia o esforço produtivo, apropriado pela segunda.

 

O aparecimento de grupos criminosos organizados, tanto os de colarinho branco como os 'pés-de-chinelo', já demonstra o que vem se formando no Brasil desde sua origem, com alguns eventos marcantes que vão da militarização do poder político, com consequências desastrosas como a guerra de Canudos, do Contestado e de outros movimentos de resistência civil, até o massacre do Carandiru e da Candelária. Estes últimos sendo os que inauguram a nova fase de violência generalizada que nos atormenta o cotidiano e cada vez mais se naturaliza.

 

Para complicar mais as coisas, governantes optam pelo 'desenvolvimentismo' como forma de manter braços e mentes ocupados com o fazer do país um parque de obras, sem a atenção devida com a educação, saúde, segurança pública que priorize a segurança do cidadão, transporte público decente, arte e cultura de qualidade acessíveis etc. Será que está começando uma 'primavera brasileira', imprevisível quanto aos resultados? E vem a Copa por aí !

 

* Paulo R. Santos é professor.

 

 

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Sem energia:

Volta às cavernas

É estranha a sensação de não saber quantos morreram a cada

dia em razão de um filme estúpido de quinta categoria que ninguém viu.

 

Por Beto Canales*

De Porto Alegre-RS

Para Via Fanzine

21/09/2012

 

Choveu e ventou. O galho de um coqueiro (e coqueiro tem galho?) caiu sobre o fio da net que se rompeu deixando-me sem tv e sem internet. Isso foi há 72 hs. Como a eficiência dessa conceituada empresa é única no mundo, o fio será consertado somente amanhã, quatro dias depois do ocorrido. (Isso mesmo, 96 hs para remendar um fio). Resultado: quatro imensos dias nas trevas.

 

Após muita luta consegui sinal no meu celular e postei algumas gracinhas no feicibuque, tipo "à noite terei que participar de um ritual que os antigos chamavam de conversar" e que meu casamento com a olhos verdes estava sendo colocado à prova (Como se isso não acontecesse todo dia...).

 

Acho que esse primeiro estágio de retorno ao homem das cavernas deveria chamar-se "euforia momentânea e sem razão", pois é exatamente isso que aconteceu comigo. Achei tudo muito bom, mesmo atrasando trabalhos que precisavam da rede para serem feitos, mesmo ficando parcialmente isolado, enfim, longe inclusive de saber quem estaria matando quem mundo afora.

 

É estranha a sensação de não saber quantos morreram a cada dia em razão de um filme estúpido de quinta categoria que ninguém viu. Ou se batemos o recorde de mortes nas estradas durante o final de semana. Provavelmente batemos. E talvez hoje haja mais mortos do que ontem e menos do que amanhã. Mortes em nome de deus, seja lá qual deles for. Chega a ser lógico analisar os números assim, chega a ser evidente, mas é estranho não saber das matanças diárias através da televisão, junto com informações de que a NET tem uma locadora em minha casa ou que "fazer um 21" é mais barato. Minha locadora está fechada e meu 21 virou sete um. Mas as mortes continuam as mesmas.

 

 A vida segue, porém, e meu instinto sarcástico ordena que eu faça mais gracinhas, afinal, humor sobre tragédias é melhor. Mas, claro, prefiro não fazer isso. Prefiro me concentrar em temas para conversas. Sim, caros leitores, conversas. É isso que farei à noite, sem dúvida alguma, independente da minha atualização de status (nunca entendi bem o que isso quer dizer) no feicibuque. Talvez eu devesse reunir alguns tópicos para o debate, só para garantir. Coisas simples, como a importância da vontade sexual... Não, melhor não mexer com vespeiras. Então algo como o ônibus espacial, aquele que explodiu. Boa! Isso deve render um bom papo. Eu poderia começar dizendo "Poxa, veja só, que pena o ônibus espacial, aquele que explodiu". É uma boa frase. Quanto tempo usarei com esse tema? Cinco, seis minutos? Nossa, eu preciso de assunto para quatro ou cinco horas. Patrícia, minha Poeta, que falta você me faz.

 

 Gandhi! Perfeito. No mínimo uma hora falando sobre ele. Ou sobre o Capital, do Karl Marx. Posso perguntar, com olhar curioso, aqueles de baixo para cima: "Diz, minha querida, em detalhes: o que tu acha do Capital?" e assim que ela estivesse terminando, umas duas horas depois, engrenaria outra: "e o que você acha que aconteceria se o Gandhi ainda vivesse?" Ou, não poderia faltar, "você concorda com o Freud quando ele disse que, às vezes, um charuto é somente um charuto?" E ainda mais: "Se o Gandhi, o Marx e os Bush, pai e filho,  Bolt, o jamaicano e o Freud, com as cartas do Jung em punho, estivessem naquele ônibus espacial, você acha que viraria piada?"

 

Enfim - perdoem a rima - o que será de mim?

 

Chegou a noite. Se vocês estiverem lendo esse texto é porque sobrevivi. Ou, ao menos uma parte de mim.

 

E provavelmente tenha me tornado um "expert" em "O Capital" e jamais fumarei outro charuto.

 

* Beto Canales é editor do blog Cinema e bobagens.

 

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Orgulho de que?

Eduardo Dusek, os gays e eu

Talvez por eu ser uma pessoa que pode contar os anos de vida usando vírgula (0,5 século)

é que eu acho que esse negócio de parada gay é coisa de veado.

 

Por Beto Canales*

De Porto Alegre-RS

Para Via Fanzine

18/07/2012

 

Na época e de onde eu vim, era comum ouvir coisas como "cuide-se com os gays, os pretos e os comunistas". E o interessante nisso é que não vim de muito longe, nem na questão temporal, nem na questão geográfica: Cruz Alta, uma pequena cidade ao sul do Brasil, há 50 anos atrás.

 

Essa lamentável lembrança veio à tona por dois fatos ocorridos dias atrás. Vamos a eles: um amigo de um amigo colocou no feicibuque algo como "tenho orgulho de meus amigos gays", frase que foi prontamente recusada no "tal compartilhar", com a simples e categórica explicação de que ele não tinha orgulho somente dos seus amigos gays, mas sim de todos os amigos.

 

Quando soube do fato fiquei impressionado com a carga de preconceito nessa simples frase. Porque, afinal, ter orgulho dos amigos por sua opção sexual? Seria razoável que alguém dissesse "tenho orgulho dos meus amigos héteros? Ou dos meus amigos que não comem mondongo? Ou dos amigos que gostam de alface? Que tal ter orgulhos dos amigos negros? Ou comunistas?"

 

Claro que a intenção da lamentável publicação deve ter sido das melhores, mas, aí é que está o perigo: o preconceito mostrando as garras onde menos se espera. Algo não muito distante disso ocorre uma vez por ano e passa na televisão: a parada gay. Talvez por eu ser uma pessoa que pode contar os anos de vida usando vírgula (0,5 século) é que eu acho que esse negócio de parada gay é coisa de veado.

 

Na minha humilde e leiga opinião, essa manifestação ajuda a acobertar de forma sinistra e segura esse sentimento torpe, - aproveitando o sentido literal dessa feia palavra (torpe 1. Que ofende a decência, a moral e os bons costumes; DEPRAVADO; SÓRDIDO) para fazer uma espécie de trocadilho -, além, é claro, de dar munição aos anti-sejaláoquefor. Esse tipo de coisa, e qualquer coisa, tem que ser tratada como ela realmente é: sem aumentar, sem diminuir, sem nada. Tem que ser natural e nada além disso.

 

O outro fato que nutriu a lembrança de anos atrás foi uma declaração fantástica do Eduardo Dusek, durante um show, em que ele resume, com a ironia que lhe é peculiar e em apenas uma frase, a forma saudável de encarar a questão: "quando estou comendo alguém, não vou perguntar qual seu sexo. Seria uma indelicadeza".

 

Simples e eficiente como tudo que é genial. Definitivo. Eu prefiro encarar os comunistas, os pretos e os gays como comunistas, pretos e gays. Não tenho orgulho deles por terem uma opção política qualquer, uma cor qualquer ou um gosto sexual qualquer.

 

Enfim, e voltando ao caso específico, não condeno nenhuma passeata defendendo nada ou contra tudo. Apenas alerto que o resultado pode ser traiçoeiro. Frases infelizes como a do orgulho, por exemplo, podem causar de maneira silenciosa e sorrateira danos irreparáveis.

 

Por isso, a esses que se consideram paladinos do bem e donos das verdades absolutas sobre tudo e todos, recomendo calma, muita calma. O inimigo está onde menos se espera.

 

A propósito, não tenho orgulho de quem coloca frases estúpidas no feicibuque e estou planejando uma passeata contra eles.

 

* Beto Canales é editor do blog Cinema e bobagens.

 

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Enchentes:

As águas vão rolar

Morros despencando por todos os lados, pontes caindo, desabrigados

desassistidos perambulando por Grupos Escolares, Abrigos e Igrejas.

 

Por Manoel Amaral*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

09/01/2012

 

É muito difícil evitar as enchentes. Com obras você pode minorar essas coisas. Mas chegarmos um dia a dizer que nunca mais haverá enchente - isso é utópico. (Mário Covas)

 

É chuva sobrando em Minas e faltando no Rio Grande do Sul.

 

Excesso de chuva causa prejuízo na produção de leite, falta de chuva prejudica a lavoura.

 

É assim o nosso país continental. Uns com sofás, camas, geladeiras, mesas e outros móveis retirados às pressas de suas casas prestes à ruir. Outros cortando cana para dar o gado, que já está muito magro.

 

É Prefeito sumindo com verba que seria utilizada na reconstrução de sua cidade desde janeiro passado. É Ministro levando muita verba para seu Estado, sua cidade e deixando as outras a ver navios (o pior, no meio do mato).

 

Morros despencando por todos os lados, pontes caindo, desabrigados desassistidos perambulando por Grupos Escolares, Abrigos e Igrejas.

 

Carros, móveis, animais e pessoas sumindo rio abaixo. Algumas salvas, por milagre, dependuradas nas copas das árvores.

 

Só em Minas são 67 municípios em situação de emergência, mas de dois mil imóveis atingidos na Zona da Mata, outros tantos no Centro-Oeste de Minas, milhares de desabrigados.

 

Ruas viraram rios, moradores navegando, muitas casas debaixo d’água. Moradores ribeirinhos apreensivos podem perder tudo a qualquer momento, depende do rio, que já subira mais de 8 metros.

 

Deslizamentos de terra, provocado pelas fortes chuvas, amassam carros, matam pessoas, derrubam barracos e prejudicam rodovias.

 

O pobre não consegue comprar lote de terreno em lugar melhor e vai morar na beira do rio sabendo que mais dia, menos dia tudo será levado pelas águas.

 

Verbas federais e estaduais, prometidas, demoram anos para chegar (quando chegam...) às cidades devastadas pelas águas.

 

Na maioria das vezes são desviadas para campanhas políticas. Usam artimanhas de todos os jeitos para passar a mão neste dinheiro que poderia beneficiar milhares de famílias que tudo perderam com as chuvas.

 

Os bombeiros fazem o possível para salvar vidas, mas às vezes quando chegam já está tudo perdido. As pessoas estão soterradas metros e mais metros de terra. Nada a fazer, só lamentar.

 

Voluntários aparecem para ajudar e quase sempre conseguem salvar pessoas.

 

Aqueles se salvaram recebem roupas, água e alimentos, mas o que eles querem é casa para morar e em lugar onde possam viver sem medo.

 

Agora é só rezar e aguardar as próximas chuvas, não tem jeito, todo ano é a mesma coisa. Trabalhos de prevenção são mínimos e resolvem pouco.

 

E você que está aí no seu cantinho ou no casarão, longe da violência das águas, das encostas dos morros, porque não dá uma ligadinha, faça uma visita ou envie umas roupas, fraldas e brinquedos para as crianças. Tem alguém esperando por você!

 

* Manoel Amaral é cronista e editor do blog do Osvandir (http://osvandir.blogspot.com). 

 

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Ele voltou:

Dezembro! com ponto de exclamação

Mesmo acontecendo há mais de 2000 anos e com todos os avisos, ele ainda causa surpresa.

 

Por Beto Canales*

De Porto Alegre-RS

Para Via Fanzine

21/12/2011

 

É matemático: depois de onze meses ele aparece, há uns vinte séculos, de forma certeira e absoluta, anunciando que logo logo vamos errar os cheques. Dezembro! Este mês merece um ponto de exclamação.

 

Eu ainda fico espantado quando ele chega. Mesmo com todos os avisos de que está próximo, como um monte de velhinhos barbudos vestidos de vermelho, luzinhas piscando para todo lado e musiquinhas irritantes, não me furto de dizer:

 

- Nossa. O ano está terminando.

 

Mesmo acontecendo há mais de 2000 anos e com todos os avisos, ele ainda causa surpresa.

 

Será?

 

É mais ou menos como chegar no banheiro, ou mictório (parece que "banheiro" em alguns lugares significa o que realmente insinua a palavra, algo como quarto de banho), e fazer aquilo que fazemos várias vezes ao dia desde o nascimento, xixi, e dizer assustado:

 

- Nossa! Tá saindo um líquido amarelado do meu corpo... Será que isso é normal?

 

Às vezes tenho a impressão que mentimos para nós mesmo. Não é surpresa que o ano acabe, assim como não é surpresa urinarmos. Mas, mesmo assim, continuamos demonstrando fortuitamente nosso espanto com o que é certo (exceto, talvez, em 2012 que parece que o mundo terminará).

 

No mínimo interessante. Até porque trata do contrário do que costumeiramente fazemos, que é mostrar conhecimento mesmo sem tê-lo, na maioria das vezes. Sei o que é isso. Dia desses vi uma minhoca se retorcendo no chão e afirmei categórico:

 

- Tá sem cabeça.

 

Um amigo de meu filho contestou:

 

- Como tu sabe que é a cabeça?

 

E eu, sem titubear, respondi:

 

- Sou o maior especialista em minhocas que existe. Sei tudo sobre elas.

 

Pronto, caso encerrado.

 

Se numa conversa entre várias pessoas ninguém falar mandarim, eu falo. Fluentemente. Nome de plantas: caso não tenha nenhum botânico por perto, sei de todas. O popular e o científico. Época de floração, tipo de raiz, tudo. Em qualquer situação em que ninguém sabe nada, qualquer um pode afirmar o conhecimento sem ser desmascarado. Esse é nosso perfil.

 

Brincadeiras a parte, o natural é a pessoa  "impressionar" pelo conhecimento e não pela ignorância. Essa surpresa natalina, que demonstraria exatamente o "não saber", me causa estranheza. Ela diverge de nossas características fundamentais.

 

Existe a possibilidade de charminho, algo tipo "to nem aí", ou o desatento casual, como "me distraí pensando na grandeza do universo e nem reparei", mas, sei lá, tantas e tantas pessoas fariam por esses motivos simplórios?

 

Enfim, mais um mistério que talvez também ajude a colocar a exclamação em dezembro! Melhor nem especular sobre isso, porque tem respostas que o melhor é não saber. A ignorância, muitas vezes, é uma dádiva.

 

Falando nisso, já passamos da metade do mês e eu nem havia percebido.

As questões sobre o universo estão tomando muito meu tempo...

 

* Beto Canales é editor do blog Cinema e bobagens.

 

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