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Regina Helena de Paiva Ramos

 

 

Regina Helena de Paiva Ramos é jornalista desde 1953, escritora e autora de várias peças de teatro, artigos e livros. Começou a vida profissional no jornal “O Tempo” em 1953. Passou para “A Gazeta” em 1954. Trabalhou nas revistas “Casa e Jardim”. “Manchete”, “Fatos e Fotos”, “Jóia” e nas revistas técnicas “Construção em São Paulo” e “Construção no Rio de Janeiro”, além de diversos outros veículos de comunicação. É colaboradora de Via Fanzine.

 

 

 

Arrumação/desarrumação:

Quero mais!

É uma reforma radical. Mexendo no arquivo, jogando coisas fora, refazendo pastas, montando outras, despejando conteúdo de gavetas no chão para ver o que presta, o que deve ser arquivado, o que pode ir para o lixo.

 

Por Regina Helena de Paiva Ramos

Para Via Fanzine

06/12/2018 

 

Exemplar de A Gazeta (S. Paulo) em novembro e 1958 trazia Cecília Meireles afirmando: "Nunca se filiem a nenhuma escola literária: escola é prisão".

 

Estou arrumando o escritório. Não é uma arrumação normal, dessas de passar um pano, tirar a poeira, arrumar os livros de um jeito ou de outro. É uma reforma radical. Mexendo no arquivo, jogando coisas fora, refazendo pastas, montando outras, despejando conteúdo de gavetas no chão para ver o que presta, o que deve ser arquivado, o que pode ir para o lixo. Estou nessa faina há uma semana!

 

Já retirei lotes – talvez melhor dizer quilos – de papelada inútil, de velhos cds que não servem mais, de contas de luz, água e telefone de anos pretéritos, de documentos de bancos, de cartas velhas não significativas.

 

A Gazeta, fevereiro de 1955: Lygia Fagundes Teles foi destaque com o seu romance "Ciranda de Pedra".

 

Mas o bom da história é que têm saltado das minhas gavetas e das minhas pastas Lygia Fagundes Telles falando de seu primeiro romance, Cecília Meirelles (linda!) dizendo que “filiar-se a uma escola literária é prisão”, Fernanda Montenegro pintada de preto fazendo teatro infantil (olha só!), Cacilda Becker reformando o Teatro Leopoldo Froes, Eva Wilma pintando os bancos do Teatro de Arena na época da inauguração, um artigo meu pela morte de José Renato (fundador do Teatro de Arena, descobridor de talentos, diretor, professor, ator -  que falta faz esse homem!), Cristiane Torloni num bercinho, embalada pela mãe Monah Delacy, Maria Della Costa falando que vai inaugurar um teatro na rua Paim,  Jean Lous Barrault me dizendo, em Paris, que quer voltar – agora! – ao Brasil, a filha de Guerra Junqueiro falando comigo no Porto e me mostrando poemas que o pai fez para ela. Olha um deles: Filha, quando sorris, iluminas a casa/dum celeste esplendor. A alegria é na infância o que na ave é asa e perfume na flor. Ó, Dourada alegria! Ó, virgindade santa do sorriso infantil! Quando o teu lábio ri, filha, a minha alma canta todo o poema de abril!”

 

Manchete da inauguração do Teatro de Arena.

 

E nessa desarrumação/arrumação/bagunça/caos, vou descobrindo que não tive/tenho uma vida normal. Conheci e privei com gente talentosa; aprendi muito aqui e ali; tenho amigos loucos e nos auto intitulamos “os canalhas”; tenho amiga de ginásio que encontrei pela internet, a Fernanda Imparato Piocchi; tenho amigo de adolescência, o Zé Maria de Oliveira -  que me encontrou pelo Facebook; tenho  quatro sobrinhas-netas lindas que gostam de mim e um sobrinho bisneto – o Jairo – que é uma graça; tenho família e amigos, muitos;  publiquei livros, escrevi em jornais revistas, trabalhei em rádio e em televisão; ajudei a criar a Sociedade Amigos de Juquehy (lotes de documentos saltaram de gavetas e tenho que encaminhá-los a quem de direito) e lutei pelo bairro durante 40 anos; implantei a Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de São Sebastião, escrevi peças de teatro;  tenho um blog – ufa! – e ainda pretendo, aos 87 anos, fazer mais, conhecer mais gente, aprender mais, ler mais, viajar mais.

 

Recordações significativas pregadas nas paredes do tempo.

 

Recortes de jornais espalhados pelo chão, livros ainda não lidos, revistas que guardei – por que será? Fotos lindas de viagens – acho que antigamente eu fotografava melhor. Ou será que o equipamento, a minha Rolley, é que era melhor? E a saudade apertando ao ver fotos antigas, amigos que já não estão mais aqui, monumentos que vi e chorei – aconteceu na Acrópole – pedaços de vida, lascas de passado, belezas com as quais  meus olhos se encantaram e chaves de portas que se perderam – as portas, sei lá quais! – e nacos de dias felizes, outros nem tanto!

 

Parte da minha arrumação/desarrumação.

 

Dizem os japoneses que nos últimos dias do ano é preciso fazer limpeza na casa, jogar fora o que não presta, guardar o que tem valor.

 

É o que estou fazendo e apesar do cansaço isso tem me feito feliz. Tem me provado que a vida me deu muito!

 

Agradeço. Só agradeço. Agradeço muito! Lógico que agradeço!

 

Mas quero mais!

 

- Fotos: Arquivos de Regina Helena de Paiva Ramos.

 

*  *  *

 

Novo governo:

Muita calma nesta hora

Com calma, analisemos o momento: eleições terminadas, Bolsonaro venceu. Era o meu candidato? Não. O outro, muito menos.

 

Por Regina Helena de Paiva Ramos

Para Via Fanzine

11/11/2018 

 

O que Bolívar desejava para a América Latina está muito longe do que acontece hoje na Venezuela. Sem democracia, sem rumo, sem comida...

 

Com calma, analisemos o momento: eleições terminadas, Bolsonaro venceu. Era o meu candidato? Não. O outro, muito menos. Não servia, foi o pior prefeito que São Paulo já teve e pertence à seita petista. O PT não é um partido. É uma religião.

 

É preciso respeitar as crenças políticas, religiosas, futebolísticas. Por isso mesmo respeito alguns religiosos petistas. Mas não respeito o PT. Um partido que tinha tudo para dar certo, para levar o país para frente e para o alto mas... Foi se retorcendo, se transfigurando, se atolando na perversidade, se corrompendo e nunca, em tempo algum, teve a humildade de fazer um “mea culpa”.

 

A autocritica esteve nos fundamentos marxistas e era praticada nos partidos comunistas. Pesada, violenta, brutal, “acabava” com o indivíduo, despersonalizava quem, na visão do partido, errara. Tive a honra de conhecer e conversar algumas vezes com o grande jornalista Oswaldo Peralva, importante dentro do Partido Comunista do Brasil – o antigo Partidão - do qual se desligou em 1957, sendo execrado pelos que ficaram. Peralva foi treinado em Moscou, morou em Bucareste dirigindo o jornal oficial do Kominform. Dirigiu, também, o jornal do PCB no Rio e traça no livro “O Retrato” tudo o que viu, soube e sofreu dentro do partido. Recomendo esse livro intensamente a quem quiser conhecer melhor o comunismo. E, principalmente, os velhos comunistas brasileiros, como Prestes.

 

Em conversas com Peralva – que me foi apresentado pelo jornalista Ewaldo Dantas Ferreira – fiquei horrorizada ao saber das autocríticas exigidas pelo partido. Destroçavam o cidadão na era stalinista!

 

Depois disso os principais partidos comunistas do mundo fizeram. Também, suas autocríticas em relação a Stalin e a Mao Tsé Tung. Mas antes disso expulsaram e perseguiram Trotsky por se opor a Stalin. O velho comunista foi assassinado no México a mando de Stalin. Outro livro excelente que aconselho é “O Homem que gostava de cães”, de Leonardo Pagura, que conta a trajetória de Leon Trotski e de seu perseguidor. Melhor que qualquer livro policial!

 

Não espero do PT um “mea-culpa” stalinista, daqueles brutais. Nem seria cristão da minha parte. Mas uma autocritica sensata, verdadeira, criteriosa, isso deveriam fazer se não quiserem acabar no lixo da história.

 

Não fazem por quê? Por soberba. São os melhores. Lula é o seu Deus e está sendo sacrificado no altar do imperialismo e das “zelites”.

 

Por causa da soberba petista e pelo esquerdismo ultrapassado e caquético não poderia votar no candidato deles.

 

Bolsonaro, por sua vez, me assustava. Pouco ilustrado, limitado culturalmente e com um passado cheio de frases perigosas e ultrapassadas, arroubos insensatos e um jeito de general Figueiredo, aquele do “prendo e arrebento”.

 

Mas, agora o homem foi eleito.

 

Torço, com todas as minhas forças, para que ele acerte. Não farei e acho que ninguém deve fazer oposição tipo jogar casca de banana para que o presidente se estatele no chão. Li um excelente artigo de Fernando Gabeira em que dizia mais ou menos isto: “Bolsonaro vai nos dar muito trabalho, mas temos que levar o país adiante”. Não eram bem essas palavras, mas, o sentido era o mesmo. 

 

A expectativa do outro lado do balcão, Haddad vencendo, era muito pior: seria dada novamente a partida rumo ao socialismo bolivariano, essa falácia encontrada por Lula, Fidel, Chavez, Correa e o velhinho simpático lá no Uruguai. Fora Maduro, que saboreia lagostas na Europa enquanto os venezuelanos passam fome.

 

O venezuelano Simón Bolívar.

 

A palavra “bolivarismo” foi “criada” por políticos latinos para fazer fumegar o nacionalismo sul americano. Quer dizer o quê? Quem era Simón Bolívar? Um venezuelano de origem nobre, corajoso, idealista, guerreiro, valente, queria a América Latina livre dos colonizadores espanhóis, unida, com igualdade e fraternidade. Lutou e conseguiu a liberdade da Venezuela, da Colômbia, do Peru, do Equador, do Panamá, da Bolívia. Uma de suas frases: “Somente a democracia é suscetível de uma liberdade absoluta”. Era um liberal.

 

O que Bolívar desejava para a América Latina está muito longe do que acontece hoje na Venezuela. Sem democracia (Lula acha o contrário, diz que lá existe excesso de democracia!), sem rumo, sem comida, sem papel higiênico, sem remédios, escolas e hospitais funcionando precariamente, economia destroçada, violência nas ruas e um salário mínimo que dá apenas para comprar seis pães de forma. Liberdade? Cadê? O socialismo chamado bolivariano é adepto do pensamento único, do partido único, da polícia matando quem protesta, de cadeia para oposição.

 

Isso é bolivarianismo? Parem de insultar Simón Bolívar!

 

Comecei escrevendo sobre eleições e a vitória de Bolsonaro, refleti que temos que ajuda-lo a caminhar, passei pelas autocriticas tenebrosas que ouvi contar a Oswaldo Peralva, conclui que o PT não faz mea culpa por soberba e falta de pés no chão e acabo pedindo a Bolivar, El Libertador, que desculpe essa gente tosca e sem informação: “General, eles só  conhecem vultos históricos por ouvir falar. “D’orecchia”, como dizem os italianos. Ignoram sua história e seus feitos como desconhecem Marx e sua dialética. Muitos nunca leram um livro, quanto mais História! E usam seu nome não para libertar as nações sul-americanas da opressão, do atraso e da fome. Mas para se locupletarem no poder. São todos ricos e comedores de lagosta! Os que ainda não foram presos”.

 

- Fotos: Divulgação.

 

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Folclore:

Santa curiosidade

Ampliei meu saber folclórico e quando viajava pelo Brasil só queria saber de Reisado, Chegança de Marujo, Frevo, Boi Bumbá, Boi de Mamão, Caboclinhos, Maracatu, Cacumbi, Pastoris, Chimarrita, Dança de Tapuios. 

 

Por Regina Helena de Paiva Ramos

Para Via Fanzine

20/10/2018 

 

Tradicional Roda de Congado em Itaúna-MG, o grupo centenário comemora os festejos sempre em meados do mês de agosto.

 

Cheguei à redação de A Gazeta em 1954, depois de trabalhar um ano e alguns meses no Jornal O Tempo. Recém formada na Cásper Líbero, 24 fresquíssimos anos e muita vontade de aprender coisas novas. A redação - entre repórteres, redatores, editores (que naquele tempo se chamavam “secretários”) e colaboradores tinha cerca de uma centena de pessoas. Dentre os redatores, um que eu espiava de longe sem muita coragem de me aproximar. Era Rossini Tavares de Lima, professor de História da Música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, estudioso e pesquisador de folclore, tinha sido amigo de Mário de Andrade. Eu queria me aproximar dele e saber tudo sobre folclore e não sabia por onde começar. Um dia tive coragem, cheguei, gaguejante: “Professor, qual a melhor definição de folclore?”.

 

A frase deu início a uma amizade enorme e Rossini me adotou como pupila. Pupila de folclore. Jornalismo não era a praia dele, eu acho. Estava lá nem sei bem por que razão. Mas entendia tudo de folclore e estava montando o Museu do Folclore, no Ibirapuera – sei lá que fim levou esse museu, era fantástico! Sumiu do mapa da cidade.

 

Rossini gostava de viajar para ver manifestações folclóricas pelo interior do Estado e na periferia da cidade. E me convidava. Eu sempre arranjava algum amigo com carro – às vezes pegava emprestado o carro do meu pai – e lá nos íamos, Rossini, eu, uma porção de amigos que consegui interessar por folclore e Jamile Japur, então casada com ele. Jamile era pesquisadora, publicou um livro excelente sobre Culinária Paulista.

 

Rossini Tavares de Lima.

 

Uma jovenzinha de 24 anos estaria interessada em cinema, bailaricos, namoros e coisas adjacentes. Mas a jornalistazinha que eu era só queria saber de folclore. Geralmente às sextas e/ou sábados partíamos para aventuras em bairros cheios de lama ou poeira ou em cidades distantes. Namorados? Só se também fosse comigo aos eventos folclóricos. Teve um que topava.

 

Íamos a Piracicaba para ver cateretês. A Tietê para pesquisar batuques de umbigada. A Franca cuja Cavalhada era famosa.  À periferia da cidade para participar de rodas de samba ou assistir cerimônias em terreiros de umbanda. A Taubaté para entrevistar figureiras de presépios. A Mogi das Cruzes para assistir congadas. A Piracaia, a Pindamonhangaba, a São José dos Campos, Mogi das Cruzes, São Sebastião e Ilhabela. Andávamos atrás de moçambiques, folias de reis, danças de São Gonçalo, caçávamos manifestações folclóricas a torto e a direito e jamais faltávamos à festa de Santa Cruz na Aldeinha, perto de Carapicuíba, onde se  dançava  e cantava  a noite inteira  o que chamavam de dança de Santa Cruz (nos dias 2, 3 e 4 de maio)  que era finalizada de forma  ritmada e repetida cuja letra era só esta: “Quinze, com quinze, quinze! Quinze com quinze, quinze!”.

 

   

Livros de Rossini Tavares de Lima.

 

Em vez de cinema e de bailinhos era eu toda entusiasmada no “quinze com quinze, quinze!”. Podem nem acreditar, mas essa dancinha foi até parar num São João no Porto, Portugal, ensinada por mim a um renque de primos, primas e amigos. Fez sucesso!

 

A dancinha fez sucesso e Rossini fez a minha cabeça. Xenófoba, eu não suportava ouvir música que não fosse brasileira, de preferência folclórica. “Pulei” os Beatles, acreditam? E levei o folclore tão a sério que me matriculei num curso de extensão cultural que o Rossini deu na Escola de Sociologia e Política: “Folguedos Populares Brasileiros”. Minha monografia de final de curso foi “A mulher fazendo e preservando o folclore no Brasil”.  Falava da participação feminina nas danças, na feitura de artesanato (rendas, cerâmica utilitária e figurativa, palha, redes) conhecendo remédios caseiros, transmitindo histórias e lendas, usos e costumes.

 

Ampliei meu saber folclórico e quando viajava pelo Brasil só queria saber de Reisado, Chegança de Marujo, Frevo, Boi Bumbá, Boi de Mamão, Caboclinhos, Maracatu, Cacumbi, Pastoris, Chimarrita, Dança de Tapuios.  Eu conhecia a indumentária dos grupos que participavam de cada folguedo, eu sabia como tinham surgido as manifestações, eu batia o ritmo certo de diversas danças e de alguns eu até ensaiava os passos. Passei a ler Câmara Cascudo e Silvio Romero fiquei amiga de Renato de Almeida (grande folclorista do nordeste) “Casa Grande e Senzala” era a minha bíblia e Câmara Cascudo o meu guru, conhecia todos os folcloristas  dos Estados e os de São Paulo (lembro muito de Valentim Gentil, se não me engano de Aparecida do Norte ou de Pindamonhangaba) E por aí ia.

 

Rossini me incentivava, me badalava e me mandava fazer conferências em escolas e onde requeriam a presença de alguém da Comissão Paulista de Folclore. Na verdade me mandava quando ele não queria ir, o danado! E eu obedecia, feliz da vida. Achava que ia por merecimento. (O merecimento, acho, era menor do que a preguiça do Rossini de ir a alguns lugares...). Mas, estudava antes, me preparava, escrevia o texto. E passei a ilustrar as “conferências” com música. Naquele tempo eu tocava violão.

 

Pavão de Taubaté-SP, onde as figureiras são célebres.

 

Foi quase uma mania, como classificavam alguns amigos. Mas passou. Desse conhecimento – não classifico como mania - esqueci quase a metade. O essencial ficou. Pelo menos, acho.

 

Uma das coisas que Renato de Almeida falava, Rossini repetia e eu papagaiava era que a importância do folclore no Brasil só seria grande se as professoras o entendessem e procurassem aproveitá-lo em sala de aula. Achavam (tinham razão!) que história, geografia, ciência, português e até matemática poderiam ser ensinados aproveitando-se o folclore. Algumas professoras Brasil a fora até já faziam isso.

 

Hoje não vejo nada parecido. Talvez até haja, mas não conheço. Com a falta de interesse pela cultura no país permito-me adivinhar que tem professora por aí que nem sabe o que é folclore: Folk = povo. Lore= ciência, sabedoria. O que dá “ciência do povo”.

 

Manifestações folclóricas estão meio que acabando. Fico muito feliz em ver as que ainda se mantêm.

 

Lembrei de escrever este artigo depois de receber de Cleide Gaioto, jornalista de Tietê, pequeno vídeo sobre batuque de umbigada, ainda praticado na cidade. Que beleza! Inflei de satisfação.

 

A folclorista fanática que um dia fui ainda se emociona com manifestações populares. Felizmente, não apenas com isso. Conheci, aplaudi, gostei, estudei, mas parti, também, em outras direções. Na verdade gosto de estradas, de caminhos novos, de sendas nunca dantes percorridas. Me contem de uma novidade, de um local desconhecido, de uma descoberta, de assunto do qual não sei nada e lá vou eu atrás.

 

Santa curiosidade que não me deixou ficar apenas no folclore.

 

Mas foi uma época enriquecedora. Mesmo com meus exageros, que sempre foram e continuam sendo muitos.

 

- Fotos: Arquivo Regina H.P. Ramos e Acervo Itaúna em Décadas.

 

*  *  *

 

Televisão brasileira:

Pioneiras: uma no Rio, outra em São Paulo

Edna Savaget e Maria Tereza Gregori foram duas pioneiras da tevê brasileira, que souberam inovar o jornalismo e o entretenimento, em uma época em que sequer sonhávamos com computadores.

 

Por Regina Helena de Paiva Ramos

Para Via Fanzine

29/09/2018 

 

Concurso Feminino de Poesia: poetisas Lélia Frota e Julita Scarano, Regina Helena e Edna Savaget.

 

A Globo News fez um belo documentário sobre Edna Savaget, uma das pioneiras da televisão brasileira.

 

Edna, de 1928, faleceu em 1998. Nos anos 40 foi repórter policial de A Noite, em 1956 era a responsável por “Aqui entre nós”, programa na Rádio MEC (Ministério de Educação e Cultura). Em 1957 passou para a Rádio Tupi. Entrou na TV Globo em 1965 coordenando toda a programação vespertina e daí surgiu o programa “Sempre Mulher”, com a atriz Célia Biar. Passou para a TV Tupi em 1971, iniciando o “Programa Edna Savaget”, no qual não se limitava a quadros para a mulher dona de casa, mas entrevistava artistas de todas as áreas.

 

Conheci Edna Savaget em 1957. Eu organizava para A Gazeta concursos femininos de poesia e contos. O prêmio era um dos mais importantes da atualidade – júri composto por gente como Guilherme de Almeida, Cecília Meireles, Menotti Del Picchia, Carlos Drumond de Andrade, entre outros.) e Edna recebeu menção honrosa no concurso no qual a vencedora foi Lélia Coelho Frota,  jovem de 20 anos,  também excelente poetisa.

 

Edna era uma jovem bonita, culta, conversa boa, presença agradável. Pouco depois me enviou seu livro “Breviário de Salvador”, belo livro, bela poesia: “Negro importado de pele marcada, coroa de lata, punhos de dor/ Naus de fantasmas, de gritos e pragas procurando um porto de salvação/Passos medidos – ideia isolada – chegam à terra de tantos coqueiros/Tempo sem data, mágoas sem dono, horizontes históricos/em Rio Vermelho de Salvador”.

 

Edna Savaget foi pioneira do rádio e pioneira dos programas femininos de televisão no Rio de Janeiro, sim, e além disso uma intelectual séria, consciente.

 

Mas em São Paulo também tivemos uma pioneira: Maria Tereza Gregori estreou na TV Tupi em 1958! Foi o primeiro programa feminino no país. Ela trabalhava na Escola de Arte Dramática, com Alfredo Mesquita quando Abelardo Figueiredo a chamou para a tevê.  Ficou 13 anos na Tupi. Um dia o programa acabou.

 

Então entramos na história eu e Cláudio Petraglia. Cláudio me chamou para produzir o programa da Xênia, na Bandeirantes, da qual era diretor artístico. Não deu certo. Pedi demissão um mês depois de contratada.

 

Cláudio não aceitou a demissão e chamou Maria Tereza, que estava parada, para reativar o Revista Feminina. Agregamos ao programa Ofélia Anunciato, a culinarista – que também estava na Band – e lá fui eu dirigir o programa, fumando cinco maços de cigarro por dia, estressada com a programação ao vivo, às vezes descabelada com os problemas surgidos, mas a saga durou 10 anos. A Band tinha sofrido um incêndio, havia apenas um estúdio – se desmontava um programa e se montava outro num intervalo curto – e a imagem era gerada do caminhão de externas. Os camarins foram montados nos poços vazios do elevador. Um sufoco!

 

O que fizemos? Além dos concursos de culinária e das amenidades do “lar”, ousamos convidar um médico ginecologista – Dr. Aristóteles Mossa – para falar sobre menstruação, menopausa, gravidez, sexo (estávamos na década de 1970, percebem o arrojo?).

 

Maria Tereza com os filhos, Marcelo e Átila.

 

Convidamos o costureiro famoso Ugo Castelana para desenhar vestidos para as telespectadoras. Miguel Gianinni para conversar sobre óculos e estética. Professor Shimada para aulas de ioga. Mônica Magalhães promovia desfiles de moda.  Fizemos o primeiro curso de jardinagem na tevê, com Arno Boetcher, da Roselândia. (Repetimos e ampliamos “Jardinagem” várias vezes, íamos gravar na Roselândia, em Cotia).  

 

Ofélia Anunciato pilotava o fogão no quadro “A Cozinha Maravilhosa de Ofélia” e foi daí que surgiram seus onze livros de culinária (Eu, a ghost writer) E tínhamos uma sessão denominada “A oportunidade é sua”, na qual as espectadoras que sabiam fazer alguma coisa vinham mostrá-las: roupas de bebê, tricôs e crochês, pintura em porcelana, cerâmica, aquarelas, fotografia e diversos tipos de artesanato. Fora isso entrevistávamos quem estreava peças de teatro ou filmes, chamávamos escritores e escritoras (Zé Mauro de Vasconcelos era nosso habituê) cantoras (Elizeth Cardoso foi muitas vezes ao programa) e cantores (Agnaldo Rayol, Ronnie Von, Luiz Gonzaga, Sérgio Reis), além de artistas plásticos, o povo do balé, jornalistas.

 

Maria Tereza e o costureiro Ugo Castellana.

 

A coisa mais impressionante que fizemos – acho – foram as exposições com as mulheres da sessão “A Oportunidade é Sua”. Fomos indo, crescendo de ano a ano e, na última vez, “fechamos” com plástico a praça Roosevelt e colocamos dentro dela aproximadamente uma centena de boxes com suas expositoras. Até agora não sei bem como é que conseguia fazer isso: a equipe de produção éramos eu e uma secretária. Para rir ou para chorar? Para rir, mas agora vocês sabem por que motivo esta que vos fala fumava cinco maços de cigarros por dia. Parei há mais de 30 anos, graças a Deus!

 

Maria Tereza era um doce de pessoa. Eu, neurastênica, exigente, tentando a perfeição - que raramente acontecia, pois o programa era ao vivo e a Band, depois do incêndio era como descrevi acima. Mas formávamos uma dupla.  Profissional - nunca atrasou nem um minuto nos dez anos em que fui sua produtora – empenhada, bonita, elegante, vaidosa, Maria Tereza merecia ser lembrada com um documentário, como a Globo o fez com Edna Savaget. Tereza foi uma figura importantíssima para a história da televisão brasileira.

 

Não resisto à uma irreverência: muito vaidosa, e ao mesmo tempo com muito medo de cirurgias, Maria Tereza, um dia, iniciou uma novena à Nossa Senhora para que algumas rugas que começavam a surgir desaparecessem sem necessidade de cirurgia. Deixo no ar o resultado, isto é, se Nossa Senhora a atendeu ou não...

 

Maria Tereza e Ofélia Anunciatto.

 

O carisma que Maria Tereza Gregori passava para as telespectadoras era enorme. Um dia recebemos carta de uma senhora que nos deixou boquiabertas (Usei esse episódio para um conto, que está no meu livro “Isto é Definitivo?” e que depois foi traduzido para o alemão e está na coletânea “Erkundungen – 38 brasilianiche Erzahler”). A missivista, de certa idade, queria saber de Maria Tereza o seguinte: “Quando a senhora diz para nós ‘bom dia, minhas amigas’ e eu também respondo ‘bom dia Maria Tereza’ e quando vejo a senhora, a senhora também está me vendo?”. Isso dá bem para ilustrar como ela “penetrava” na casa das pessoas.

 

Tereza nasceu em 1926 e faleceu em 2013. Estava fora de São Paulo quando vi a notícia pelo celular. Foi um choque enorme, uma  tristeza sem tamanho. Costumávamos nos ver no Shopping Higienópolis, para um café. Ou ela vinha à minha casa para almoçar. Ou nos encontrávamos na casa da minha irmã. Sempre a mesma risada contagiante e espalhafatosa, a mesma elegância, o mesmo papo gostoso, a mesma fé em Deus, Maria Tereza foi um tipo inesquecível. Muita gente ainda se lembra dela. E a história da televisão não deve ser escrita sem ela.

 

Pioneiríssima!

 

- Fotos: Arquivo Regina H.P. Ramos.

 

*  *  *

 

Raízes:

Eu nasci há dez mil anos atrás...

Fiquei sabendo de um exame genético de saliva – pelo qual se descobre de onde viemos – em quais regiões do mundo viveram nossos antepassados e estou decidida a me submeter a ele. Exame de ancestralidade.

 

Por Regina Helena de Paiva Ramos

Para Via Fanzine

12/09/2018

 

Pesco uma coisa ali, outra aqui, me servia de pessoas mais velhas da família e fui descobrindo o nome de alguns antepassados.

Leia também:

Entrevista  com Regina Ramos

 

Tive, sempre, grande preocupação em saber como cheguei aqui. Avós, bisavós, tataravós que foram meu começo e antes deles outros e mais outros, sempre me intrigaram, sempre pensei neles e muito antes de saber que algumas filosofias e religiões orientais costumam agradecer aos antepassados, sempre fiz isso. Estou aqui por causa deles e então obrigada, senhoras e senhores que me fizeram aparecer no mundo.

 

Tenho um amigo que se dedica a descobrir sua árvore genealógica e já foi longe no mergulho ao passado. Daqui a pouco é capaz de chegar à era dos dinossauros.

 

Não sei nada disso, não sei como fazer as pesquisas, há sites que ensinam, mas, de qualquer forma, é preciso engenho e arte, tempo e paciência. Pesco uma coisa ali, outra aqui, me servia de pessoas mais velhas da família e fui descobrindo o nome de alguns antepassados. Em Portugal e no Brasil. Agora não dá mais: a pessoa mais velha da família sou eu e eu sei muito pouco.

 

Descobri algumas coisas por acaso. Corrijo: acaso não existe, o que houve foi um grande episódio de sincronicidade.

 

Olhem a história: estava no enterro de um amigo que morrera de AIDS.  Um dos primeiros. Cemitério do Araçá, uma barra pesadíssima à beira do túmulo. Decidi sair um pouco do astral de catástrofe e comecei a passear pelo cemitério. De repente vejo placas com nomes vagamente conhecidos. Era o túmulo de bisavós que conhecia de ouvir falar. Parei, estupefata! Além de ter descoberto o túmulo deles fiquei sabendo que a grafia do nome pelos quais os conhecia estava errada. Diziam na família que o sobrenome era Mosmiet e fiquei sabendo que meus antepassados franceses eram Mosnier.  

 

Fiquei tão impressionada que na mesma noite sonhei com minha bisavó Elisa Mosnier Castel de Biel Chaves, cujo túmulo descobri e, no sonho, ela tinha olhos azuis.

 

Se isso não é sincronicidade então não sei o que essa palavra significa. Acho que é!

 

Voltando à gratidão. Como não agradecer aos antepassados pela vida que nos deram? Como não pensar neles? Como não ter curiosidade pelos que vieram antes deles, onde viveram, quem eram, o que faziam, o que pensavam? Como não saber que herdamos deles não apenas fragmentos genéticos, mas ideias, filosofias, pensamentos, usos e costumes, amores e ódios?

 

Minha história deve ser produto não apenas do inconsciente coletivo de que fala Carl Jung como da herança ancestral de gente que veio vindo pelo mundo até que cheguei eu – de cordão umbilical enrolado no pescoço, roxa e mudinha. Meu pai, pediatra, me jogou em bacias de água quente e fria, alternadamente e não sossegou até que eu começasse a chorar!

 

Sim, além dos arquétipos herdados do inconsciente coletivo tenho certeza que herdei memórias genéticas de meus antepassados. Gratíssima, portanto.

 

Fiz, recentemente, uma constelação familiar, prática psicológica que está na moda. Fui “constelada” pelo psicólogo, acupunturista e astrólogo Alexandre Chut e fiquei boquiaberta. Meus companheiros de constelação se transformaram, magicamente, nos meus antepassados e curtimos perto de duas horas de convivência. Uma experiência que eu poderia classificar como comovente e perturbadora. Vivendo e aprendendo.

 

Também recentemente fiquei sabendo de um exame genético de saliva – pelo qual se descobre de onde viemos – em quais regiões do mundo viveram nossos antepassados e estou decidida a me submeter a ele. Exame de ancestralidade. Louca para fazer!

 

Sei que meus avós, portugueses, têm antepassados espanhóis. Mas quero ir mais fundo e longe! Judeus migraram para Portugal (depois tiveram que fugir de lá por causa da Inquisição). Terei algum antepassado judeu? Árabes dominaram a Península Ibérica por séculos! Serei descendente de alguma doce mulher de olhos apenas percebidos atrás de um véu? E antes deles por lá passaram godos e visigodos, fenícios, gregos e romanos, celtas, gálicos – que sei eu? - foram esses os antepassados de meus antepassados?

 

E no Brasil? Já lhes dei conta de minha bisavó francesa. Falta falar de meu bisavô paterno, médico sanitarista, nascido em São João del Rei, por sobrenome Chaves. (Serei parente do Pepe Chaves, sem saber?) Foi esse bisavô mineiro que se casou com a francesa de olhos azuis, neta de Tourain Mosnier, boticário, criador da primeira farmácia do Brasil, em Bananal, Estado do Rio. Terei parentes na França? E em Minas?

 

Pelo lado de minha mãe conta-se que tenho uma tataravó índia. A família Sampaio era de Piracicaba, de velhos fazendeiros e coronéis, meu bisavô se chamava Coronel Joaquim Fernandes de Morais Sampaio. Morreu quase aos cem anos, meses depois de eu ter nascido.

 

Acho tudo isso fascinante. Gostaria de ter ciência e técnica para pesquisar genealogia, como meu amigo Hoover Américo Sampaio, especialista no assunto, ele já descobriu avoengos de dois mil anos atrás.

 

Quero muito conhecer mais de meus antepassados, saber de onde vem esse sangue que carrego. Não apenas por curiosidade, mas também por imensa gratidão.

 

Está certa a música de Raul Seixas: “Eu nasci há dez mil anos atrás...”.

 

Interessa-me muito mais saber de onde eu vim do que para onde eu vou.

 

Para onde eu vou, já sei.

 

E espero que demore muito para ir!

 

[Nota do editor: segundo relatos de meu pai e de meu avô paterno, realmente a nossa família Chaves, tradicionalmente enraizada em Itaúna-MG, teve origens dos Chaves de São João Del Rey-MG. Portanto, pode haver parentesco entre a senhora Elisa Mosnier Castel de Biel Chaves, de São João Del Rey e os Chaves de Itaúna - Pepe Chaves].

 

- Fotos: Arquivo Regina H.P. Ramos.

 

*  *  *

 

Castas, também as temos! Ora, se!

 

Por Regina Helena de Paiva Ramos

Para Via Fanzine

15/08/2018

 

Existem castas, no Brasil, como na Índia. Lá as castas foram abolidas por lei na década de 40, mas parece que a lei não “pegou”.  A divisão de castas continua, sorrateira. O que é o sistema de castas na Índia?

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Entrevista  com Regina Ramos

 

Aqueles senhores meiguinhos, com barbas ou sem, barrigudos ou não, sorridentes ou carrancudos que usam – data vênia – capas, desculpem! que usam togas para trabalhar, agora querem aumento de 16% nos seus salários. 

 

O Brasil vai bem, parece-lhes! Não sabem que existem 13 milhões de desempregados; que a dívida pública é enorme; que o salário mínimo da plebe ignara foi aumentado em R$ 17 reais, chegando à astronômica conta de R$954,00; que o aposentado do INSS foi aumentado em fantásticos 2.07% e que não pode receber de “benefício” mais que R$5.645,80 mensais.

 

As excelências arrebanham as togas para que nelas não tropecem e marcham para seus gabinetes luxuosos ignorando, também, que empresas brasileiras se torcem para não fechar as portas enviando mais brasileiros para a rua da amargura. Ignoram que a expectativa de vida do brasileiro – graças  a médicos e cientistas que nunca usaram togas –  aumentou muito e que o INSS não demora a ficar sem dinheiro para pagar os aposentados, esses heróis que  passaram a vida mourejando, bravamente, sem escritórios nababescos, sem secretárias, sem carros blindados e motoristas, sem  auxílio moradia, sem mordomias, sem planos de saúde , sem todos os penduricalhos que suas excelências  dispõem. E antes que me esqueça: sem toga. Aliás, às vezes, até sem um simples agasalho.

 

Como é que, nessa situação aflitiva, nessa crise medonha em que nos jogaram 13 anos de desgoverno, de roubalheira, de irresponsabilidade e de incompetência, como é que passa pela cabeça dessas excelências pedir 16% de aumento?

 

Fora que isso vai desencadear aumentos a juízes, a deputados e senadores, esculhambando com qualquer tentativa de colocar as coisas nos eixos!

 

Existem castas, no Brasil, como na Índia. Lá as castas foram abolidas por lei na década de 40, mas parece que a lei não “pegou”.  A divisão de castas continua, sorrateira. O que é o sistema de castas na Índia? É um sistema que divide os indianos em categorias: os Brâmanes – que nasceram da cabeça do deus Brahma são os sacerdotes e os intelectuais. Os Xátrias nasceram dos braços do deus, são os guerreiros. Nascidos das pernas, os Vaixas são os comerciantes. Dos pés de Brahma nascem os Sudras: operários, servidores, artesãos. E por último os Párias, nascidos do pó debaixo dos pés do Brahma, são todos os que formam a população pobre e desassistida.

 

Péssimo o sistema de castas? Sim, claro! Mas também temos as nossas castas. Alguns senhores dessas castas conseguem nomeação de filhos e filhas para cargos de prestígio: desembargadores, por exemplo. As esposas trabalham em grandes escritórios de advocacia e até labutam em causas que depois serão julgadas por seus maridos.  Filhas solteiras recebem polpudas pensões até morrer de velhas! Hábito que também é comum entre os militares: morto o chefe da família, filhas e esposas recebem pensões a vida toda. E são tão suculentas que as moças não se casam – criam uma relação estável e nela permanecem até morrer. “Quando o dinheiro fala a verdade se cala”, já dizia minha avó.

 

De tudo isso se constata, ainda, que o sistema de castas no Brasil é hereditário, como na Índia. Os filhos já nascem geneticamente bem de vida e com empregões. “Herdam” dos pais e avós os currais eleitorais. Há famílias inteiras que se distribuem politicamente como governadores, deputados, senadores, vereadores, ministros.

 

O próximo presidente da República, se quiser, mesmo, endireitar o país, vai ter que cortar um doze para enfrentar as castas. Ora se! Nosso sistema é semelhante ao da Índia, mas o deus é diferente.  Aqui, os abençoados nascem da cabeça de Tupã, o deus tupiniquim: deputados, senadores,  ministros, juízes  de diversas categorias, presidentes de autarquias, diretores  e presidentes de bancos,  toda uma casta que mora bem, ganha bem, casa bem mas tem amantes, fazem empresas de construção pagarem pensões a  filhos fora do casamento, têm penduricalhos para tudo quanto é canto, juram que sítios e tríplex nunca foram deles, viajam em jatinhos, levam para a Europa um séquito de aspones e até a sogra,  dão festas milionárias, compram joias sem nota fiscal, recebem  mensalões, petrolões e toda a sorte de “ões”  e não desocupam a toca nem que a vaca tussa!

 

O resto da população é proveniente do pó abaixo dos pés de Tupã. Somos os Párias tupiniquins. 

 

Verdade que alguns da casta privilegiada foram denunciados e presos por uma turminha de juízes de Curitiba que não pertencem à casta. Mas ainda falta muita gente pra ir em cana! Gente sem escrúpulos ou ética que deveria ser expulsa de seus fantásticos empregos na Ilha da Fantasia!  Gente que só pensa em mais grana e o país que se lixe!

 

É aquela história: “Mateus, primeiro os meus!” Os Párias que se sacudam.

 

- Foto: Divulgação.

 

 

 

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