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Entrevista com Luiz Carlos Sá (cantor, compositor e instrumentista) Por Pepe Chaves Para Via Fanzine
Sá, Rodrix & Guarabyra
Luiz Carlos Pereira de Sá fez os primeiros estudos na Escola República Argentina e no Colégio Andrews, no Rio de Janeiro, onde nasceu. Se formou bacharel pela Faculdade de Direito Cândido Mendes. Integrante da dupla de compositores e cantores Sá & Guarabyra, realiza uma média de 150 shows anuais, pelo Brasil e exterior. Trabalhou na S/A Rádio Jornal do Brasil (programador de repertório, 68/71), Correio da Manhã (editor de som e música, 67/69), Pauta Grav. e Prop. Ltda. (sócio), TV Continental (produtor, 62/64). Foi crítico de música do encarte cultural O Sol, do Jornal dos Sports (64/66). Foi diretor de Criação e Áudio da Vice Versa. Faz parte da Associação de Músicos e Regentes do Brasil AMAR e da Ordem dos Músicos do Brasil. Criador de numerosos jingles de sucesso. Foi premiado por diversas vezes: com "Olivetti Natal" ganhou o Clio 75; com "Comind Natureza", o Clio 78. Com "Vem pra Caixa você também" e com "Só tem amor quem tem amor pra dar", ganhou vários prêmios. Autor de canções de sucesso, foi gravado por alguns dos maiores intérpretes da MPB, tais como, Luhli, Pery Ribeiro, MPB4, Ney Matogrosso, Gal Costa, Erasmo Carlos, Roupa Nova, Milton Nascimento, Quarteto Em Cy, Biquini Cavadão, Zizi Possi, Marina Lima, Simone, 14 Bis, Flávio Venturini, entre outros. Atualmente Luiz Carlos Sá reside na cidade de Belo Horizonte-MG.
Via Fanzine: Sá, além de músico você trabalhou em diversas outras atividades. É bacharel em Direito, publicitário, jornalista, produtor, tendo trabalhado em jornais, rádios e tevês do Brasil. Como é que tudo isso acabou por desaguar no campo musical? Luiz Carlos Sá: A uma certa altura da vida, no final da adolescência, fiquei dividido e sem saber o que fazer de mim. Resolvi então tentar tudo. Fiz música, jornalismo, diplomacia, produção musical, propaganda, mas acabei por me fixar na carreira de cantor e compositor. Apesar de, ou por causa disso, nunca deixei de escrever que, aliás, é também uma questão de ritmo...
VF: Não me pergunte como sei disso, mas, nos “primórdios” de sua carreira, você integrou um grupo chamado Missão (com Paulo Thiago e da Soninha do Quarteto em Cy). A Missão participou de um memorável show com participação de Aracy de Almeida, Ismael Silva e o MPB-4. Juntos, vocês gravaram “Samba Pede Passagem” (Polydor/Philips), de autoria de Sidney Miller e Paulo Thiago, que protestava claramente a ditadura militar vigente, (“Olha só, meu povo, o dia te acordou, a rua é teu lugar, vem ver o sol nascer que o nosso Rio é todo uma canção, mas não, ninguém, ao acordar o sol, contente está”). Você sente saudades daquela época? Sá: O grupo na realidade se chamava Grupo Mensagem, nome dado pelo Armando Costa e pelo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. “Missão” era o nome da música de Sidney Miller e Paulo Thiago incluída no LP com a trilha sonora do espetáculo, que se chamava “Samba Pede Passagem” e acabou por ser o passaporte para minha primeira fase profissional. Éramos cinco: eu, Soninha, Sidney Miller, Thiago e Marco Antonio Menezes. Além dos que você citou participavam também Padeirinho, Bidi, Baden Powell, a velha guarda da Portela e um regional com grandes músicos como Carlos Poyares, Dino 7 Cordas e muitos outros grandes nomes do samba de raiz da época. Foi para mim uma aula completa de sensibilidade e música.
VF: Seu talento como compositor cedo se destacou e você foi justamente reconhecido por grandes nomes da música naquela época, entre eles, o respeitável Peri Ribeiro, que, gravou sua canção “Giramundo” e viria abrir a porta de suas composições a inúmeros intérpretes. Como foi para você, naquela época (e, creio, ainda hoje), ter uma música gravada por um ícone da MPB como o Peri Ribeiro? Sá: Eu era muito ingênuo e não tinha noção do que estava acontecendo. O Peri e o diretor musical da Odeon à época, Milton Miranda, foram os mentores de meu ingresso naquilo que me pareceu um universo complexo e – até certo ponto - decepcionante: o “show business”. Graças a esses dois “gurus”, pude entender que a música não era só criação, mas também significava aprender a gerenciar uma carreira. Sem o apoio desses dois amigos eu não teria entendido o significado da palavra “profissionalismo” no contexto idealista em que eu vivia.
VF: Depois disso, você tocou num grupo chamado A Charanga, com Paulo Machado, entre outros, que participou do Festival Internacional da Canção (FIC) de 1970, com uma canção meio “interplanetária” (digamos assim) chamada “Milhões de Anos Luz Além”. Você pode nos relembrar uma parte da letra dessa canção e comentar sobre a participação de A Charanga nessa versão do FIC? Sá: A música era pomposamente dedicada a Ray Bradbury, Isaac Asimov e Arthur Clarke. Eu era literalmente pirado em ficção científica. Dizia assim: “Toda a Terra espera o dia, a hora de falar, linguagens do Universo à gente que virá do espaço exterior, será ou por guerra ou por amor, gente de Sírius ou Alfa Centauro, milhões de Anos Luz além, levam os novos segredos da vida, milhões de Anos Luz Além...”. Claro que, apesar do bom arranjo vocal e instrumental, não comoveu ninguém e passou em branco no festival (risos).
'Nada se compara a sentir esse tipo de impotência diante de uma força do Mal' (Sobre torturas e mortes na ditadura brasileira)
VF: Logo depois, você ressurgiria como um inspirado autor de jingles publicitários, além de se projetar com o trio, o Sá, Rodrix & Guarabyra. Como você sintetiza a química de Luis Carlos Sá, Gutemberg Guarabyra e Zé Rodrix e como se iniciou a história musical de vocês? Sá: Antes de compormos juntos, éramos amigos. Somos amigos há quase 40 anos, entre briguinhas, implicâncias e babaquices do gênero, que nunca conseguiram superar a admiração que sentimos pelos músicos e pessoas que somos. Nossa química é essa: nós gostamos de nós, gostamos de tocar e viajar juntos.
VF: Após lançar dois álbuns, Zé Rodrix saiu para fazer carreira solo em 1973 e o antigo trio passou a se apresentar e a gravar como a dupla Sá & Guarabyra. Naqueles tempos, diversos músicos no Brasil sofreram retaliações do governo militar. Você chegou a sentir o peso da censura militarista apenas por desempenhar seu trabalho musical? Sá: Como todos nós dessa mesma tribo, dei minhas corridas da polícia. Mas, doloroso mesmo foi ter amigos mais engajados torturados, presos e às vezes mortos pela ditadura. Nada se compara a sentir esse tipo de impotência diante de uma força do Mal.
VF: O estilo da dupla Sá & Guarabyra iniciado com seu primeiro disco “Nunca”, foi rotulado de “rock rural”, pela introdução de temas do campo em suas letras, até mesmo instrumentos, mesclada aos recursos eletrônicos. Como você justifica o rock rural brasileiro? O estilo ficou limitado somente a Sá & Guarabyra ou as raízes chegaram aos frutos? Sá: Quem deu o rótulo de rock rural foi a mídia, nós nunca quisemos rótulos. Tivemos que engolir esse, dada a dificuldade das pessoas – numa época em que tudo era tribal - em compreender que não estávamos filiados a nenhuma corrente. Acabamos por virar “pais” de um monte de coisas, umas boas, outras ruins. Mas é melhor ser pai que não ter filhos (risos).
'Hoje sou um anel carioca folheado a sertão' (sobre sua relação com outros estados brasileiros)
VF: Você nasceu no Rio de Janeiro, mas criou fortes vínculos com a música de outros estados, sobretudo, com os compositores mineiros. Conte-nos um pouco de seu contato com os músicos de Minas e das felizes parcerias que deram à luz algumas das mais brilhantes canções da MPB. Sá: Apesar de carioca – nós, cariocas, somos muito ligados em nosso próprio umbigo – sempre tive uma “visão exterior” ligada ao resto do Brasil. Meus pais viajavam muito pelos interiores de Minas, São Paulo e Rio, e isso, junto com as viagens que fiz com Guarabyra ao então ignoto e isolado sertão do São Francisco, me deram o necessário banho-Brasil. Hoje sou um anel carioca folheado a sertão.
VF: Em parceria com o Sérgio Magrão, do 14 Bis, você compôs a canção “Caçador de Mim”, gravada por diversos intérpretes. Dentro da temática exposta nessa canção, você já se encontrou? Sá: Continuo me caçando com empenho e gosto.
VF: As canções “Espanhola”, (letra de Guarabyra) e “Garapuá” (letra de Sá) foram compostas em parceria com o mineiro Flávio Venturini. Você pode nos dizer quem é a espanhola e onde fica Garapuá? Sá: A “Espanhola” existe e mora na Espanha (risos). Quando Flavinho me deu a melodia de “Garapuá”, onde nunca fui, ele me descreveu pormenorizadamente o lugar, em Morro de São Paulo, litoral da Bahia. Sempre fui meio médium dessas coisas. Quando fiz “Sobradinho” e “Trem de Pirapora” jamais tinha ido a Sobradinho ou Pirapora...
VF: “A primeira canção da estrada” e “O pó da estrada”, gravada nos anos 70 pelo trio SR&G são típicas canções hippies. Você chegou realmente a vivenciar esta vida de estrada, poeira na cara, de contracultura e de caroneiro, enfatizada nestas canções? Sá: Sempre adorei dirigir e desde os 18 anos tinha carro e varava estradas. Minha posição foi mais de motorista que de caroneiro. Até hoje um dos meus maiores prazeres, senão o maior deles é cair na estrada, de preferência na direção. Hoje, meu Pajerão me leva onde quer que eu queira ir, sem grandes problemas de estrada... Mas sempre admirei a coragem dos caroneiros em sequer serem donos dos seus destinos, como nós, da direção, somos.
Beto Guedes, Guarabyra e Sá
VF: Você e Guarabyra compuseram uma “canção ufológica”, que é “Nave Louca”. Nela, é narrada a chegada de uma nave extraterrestre e o susto da população ao constatar o inusitado. Você acredita nessa possibilidade narrada em “Nave Louca”? Sá: Bem, a Nave Louca é uma piada. Já o “Milhões de Anos Luz Além” que comentamos acima, era uma certeza. Entre a piada e a certeza não fico com nenhuma das duas (risos).
VF: Já avistou alguma vez já avistou UFO ou teve alguma experiência transcendental dessa natureza? Sá: Não vi e nem acho que vá ver nenhuma dessas bacias voadoras. Não acredito que dentro de um Universo totalmente infinito possa acontecer a coincidência de duas civilizações viáveis trombarem uma com a outra.
VF: Como compositor de jingles você criou um dos jargões mais conhecidos em todos os tempos, que foi o “vem pra Caixa, você também”, para a Caixa Econômica Federal. Você trabalha com a criação de Jingles atualmente? Sá: Só em projetos especiais que sejam financeiramente compensadores. Ou excepcionalmente inteligentes.
VF: Como você vê a revolução da internet na música, bem como os lançamentos de novos formatos como o CD, o MP3, MP4, o dvd e outros recursos que a gente jamais sonharia naqueles empoeirados anos 70? Sá: Tudo isso é para o bem. Nesse tipo de coisa, só o futuro faz sentido, porque facilita a confecção e barateia o acesso. Como nos adaptamos a isso tudo, é uma questão de agilidade e tirocínio.
VF: Alguns músicos (a exemplo do Arnaldo Batista, dos Mutantes) afirmam que, apesar do refino tecnológico que temos experimentado nestas últimas décadas, ainda preferem estúdios analógicos aos digitais; amplificadores valvulados aos transistorizados; vinil que CD. Você também pensa assim? Sá: Cada coisa em seu lugar. É bobagem dizer que só o analógico funciona ou que só o digital funciona. Como sempre, o equilíbrio comanda. A profundidade do analógico combinada com a manuseabilidade do digital: esse é o meu voto.
VF: Algumas de suas letras abordam muito do íntimo humano, além de questões explicitamente existencialistas. Você tem uma religião? Sá: Não tenho religião. Não gosto de dogmas, sejam eles políticos ou religiosos. Não acredito em deus ou deuses. Acredito na força e na espiritualidade, essa sim, inerente ao ser humano. A vida é por si só, maravilhosa. Tanto o é que o Homem acha necessário criar virtualidades para justificá-la. Por isso acredito no auto-conhecimento como o melhor motor para a realização pessoal. Quem bem se conhece melhor faz ao próximo. Mas sem auto-ajuda, hein...
VF: Após cerca de 20 anos de ausência, Zé Rodrix retorna e a dupla se desfaz para voltar ao trio original. Como foi para você e Guarabyra, receber o Rodrix de volta em suas gravações e apresentações? Sá: Foi fácil... Depois de 26 anos de dupla, quem teve que se readaptar foi ele, e ele o fez com elegância e eficiência.
VF: Você já escreveu algum livro ou pretende ainda escrevê-lo? Sá: Ano que vem pretendo lançar a compilação de minhas crônicas mensais na revista “Backstage”, sob o título “Cadernos de Viagem”, o que realmente elas são.
VF: Você me falou que o trio está em estúdio em São Paulo, gravando um novo trabalho. Já tem nome? O que você pode nos adiantar a esse respeito? Sá: Nome só depois de gravado. É um disco de 12 músicas inéditas do trio, compostas nos últimos seis anos e contrariando o desejo das fábricas de regravarem ad nauseam o que já foi gravado e regravado.
VF: Sá, muito obrigado pela entrevista. Sá: Fiquem sintonizados no meu blog (www.luizcarlossa.blogspot.com) pra saber das novidades. No YouTube, escrevam “Guarabyra” (se escreverem Sá vem um monte de S/A!) pra baixar nossos vídeos recentes. Beijos a todos vocês.
* Pepe Chaves é editor do jornal eletrônico Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br).
- Imagens: Blog do Sá.
+ Luiz Carlos Sá:
- Visite o blog de Luiz Carlos Sá:
Relacionados, no YouTube: - Jingle da Pepsi, início dos anos 70: http://br.youtube.com/watch?v=iX5_ai6OKp0
- SR&G Casa no campo/Caçador de mim/Espanhola: http://br.youtube.com/watch?v=LspQ1OWRSD4&feature=related
- SR&G – Viajante http://br.youtube.com/watch?v=kgQ63aPMN_k&feature=related
- Produção: Pepe Chaves. © Copyright 2004-2008, Pepe Arte Viva Ltda.
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Entrevista com Vermelho Compositor, instrumentista e vocalista.
Por Antônio Siqueira Para Via Fanzine
Vermelho, tecladista do 14 Bis.
Um dos músicos mais talentosos de sua geração, excelente compositor, arranjador, tecladista, vocalista e co-fundador do grupo mineiro 14 Bis, ao lado dos irmãos Cláudio e Flávio Venturini e dos músicos Sérgio Magrão e Hely Rodrigues. Vermelho nasceu na cidade mineira de Capela Nova, próxima a Barbacena e desde sua infância sofreu fortes influências musicais do pai, Sr. Moreira, que é músico da banda da cidade. Antes de iniciar seu trabalho com o 14 Bis, participou de outras bandas e tocou como convidado para gravações de diversos músicos de renome nacional. Considerado um dos mais esmerados tecladistas da MPB, ele nos fala um pouco do novo dvd do 14 Bis, de seus planos para lançar seu trabalho solo, dentre outros assuntos.
Via Fanzine: Você é um dos fundadores e principais criadores do 14 Bis, ao lado de Flávio Venturini, que saiu do grupo em 1987. Como foram esses 28 anos de estrada e este DVD ao vivo que já é sucesso de público e crítica? Vermelho: A saída do Flávio foi tão amigável que até gravamos um CD ao vivo no Palácio das Artes (BH), para comemorar a saída dele, o que significava para ele, a possibilidade de realizar seu desejo de fazer carreira solo, com as idéias dele, sem estar preso ao som da banda. Eu mesmo pretendo gravar, talvez esse ano ainda, um cd solo. Agora, este dvd é um sonho antigo nosso, já que temos 27 anos de estrada, fizemos mais de 2500 shows por todo o País e exterior. Queríamos registrar nossas musicas ao vivo, com as melhores condições técnicas, para ser uma coisa bonita. Felizmente, no final de 2006, pudemos realizar o sonho: conseguimos, através da Lei Rouanet, patrocínio suficiente para podermos contratar o que havia de melhor em termos de som e iluminação, além de um teatro que tivesse acústica e toda uma estrutura para um grande espetáculo. Gravamos em duas seções, dia 26 de Dezembro de 2006, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, com um público entusiasmado e participante que nos fez tocar como nunca. Gravamos a maioria de nossos sucessos e algumas músicas do cd Outros Planos, além da 14 Bis Instrumental, Xadrez Chinês, etc. Contamos também com a participação especial de Beto Guedes (em Caçador de Mim), Marcus Vianna (violino em 14 Bis Instrumental e Mesmo de Brincadeira). Além de Rogério Flausino (voz em Planeta Sonho) e Flávio Venturini (que tocou e cantou em Uma Velha Canção Rock’n’roll e Planeta Sonho); esses dois gravaram em estúdio, pois não puderam participar da gravação ao vivo. A participação deles está no show que apresentamos no dvd. Mas nos extras do dvd, você pode ouvir estas duas canções tocadas somente com o 14 Bis, ao vivo. O dvd foi lançado no início de junho (2007) pela Sony BMG -, que nos cede todo apoio. Já fizemos shows de lançamento em Belo Horizonte, e devemos fazer o Circo Voador, no Rio de Janeiro, Nordeste e São Paulo, na semana seguinte. Depois, devemos, aos poucos, fazer todas as principais capitais. O dvd já está entre os mais vendidos e com os shows e trabalhos de divulgação, principalmente programas de tevê, agendados pelas gravadoras, espero que voltemos a ocupar o espaço que merecemos, na mídia e no mercado fonográfico da Música Popular Brasileira.
Via Fanzine: Como surgiu o nome do grupo? Vermelho: O nome do grupo, na verdade o Flávio já tinha pensado nele e 14 Bis nos parecia um bom nome. Mas, quando a EMI-Odeon nos contratou, já tínhamos feito alguns shows, mas chamávamos “Show Nascente”, que era nome de uma música conhecida do Flávio, gravada pelo Milton Nascimento no Clube da Esquina 2 e que nos abriu as portas da gravadora para nosso primeiro trabalho. Então fizemos um brain-storm, regado a tulipas de chopp, lá no Leme, no Rio. Ficamos cada um escrevendo num papel, vários nomes que vinham a cabeça. Na época, as bandas que existiam tinham nomes do tipo, Cor do Som, Boca Livre, Mutantes. Na época, o Roupa Nova ainda era Funks, tocavam em baile.
Via Fanzine: Dentre todas as releituras e sucessos atuais gravados no dvd, a canção “Caçador de Mim”, de Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá, tem tocado bastante nas principais rádios do Brasil e do Rio. Realmente o arranjo de Eduardo Souto Neto deu um brilho ainda maior a esta bela canção, mas nos fale da participação do Beto Guedes nesta faixa, seu amigo pessoal. Vermelho: Bem, o Magrão é autor da música, cuja letra é do Luiz Carlos Sá, do trio Sá, Rodrigues e Guarabyra, grande amigo e parceiro. Muita gente pensa que esta música é do Milton Nascimento, já que fez sucesso com ele, apesar de ter sido gravada antes pelo 14 Bis, em nosso segundo álbum - o disco da “da escada”. O disco tem, ainda, Planeta Sonho, Nova Manhã, Bola de Meia, Bola de Gude e outras menos conhecidas, mas ótimas, como Carrossel, Nas Ondas do Rádio, bem progressiva, que eu adoro [Letras da poetiza mineira Suzana Nunes]. Têm arranjos do grande maestro Rogério Duprat em Carrossel, Caçador de Mim e Pra te Namorar. Orquestra mesmo, não só cordas, mas também instrumentos de sopro (madeiras e metais). Sinto falta desta época, em que tínhamos orquestra à nossa disposição. O som de samplers hoje em dia, emulando (imitando) som de orquestra funciona, porém o som de uma orquestra, com arranjo bem elaborado, é um som inigualável. Bem, voltando a sua pergunta, eu acho que o Magrão canta muito bem a música, a voz dele se destaca, tem um timbre que só ele tem, e nós fazemos um vocal bem suave, como é o estilo da música. Agora, a participação do Beto foi fantástica: ele, na verdade, adora Uma Velha Canção Rock’n’roll. Essa é a música que tínhamos pensado para ele gravar, mas o tom não estava de acordo com a extensão de voz dele. Por isso, ele mesmo sugeriu cantar Caçador de Mim. E ficou aquela maravilha: a capacidade de ele cantar, de dividir as sílabas com um ritmo todo próprio, a maneira com que ele enfatiza certas palavras, faz dele um cantor incomparável e único. E o público percebe isto - o quanto ele vivencia mesmo o que canta - e se empolga e aplaude entusiasticamente, como pode-se ouvir/ver no dvd.
Via Fanzine: A ausência de Flávio Venturini no palco (apesar da participação em estúdio) foi bastante sentida e criticada por fãs e internautas que acompanham vocês desde o início. O que aconteceu de fato? Vermelho: Eu, não sei direito o que houve, já que, quem ficou de ver sobre a participação dele no dvd foi o Cláudio, irmão dele, ou o Magrão. Eu falei com o Marcus Vianna e o Beto Guedes e acertei com eles, tanto que participaram da gravação ao vivo. Por isso, não sei o que aconteceu para que ele não comparecesse no Palácio das Artes no dia dos shows da gravação do DVD. Pode ter sido viagem ou porque estava cansado - ou outro motivo qualquer... Mas, conhecendo o Flávio como conheço, sei que ele deve ter tido mesmo um motivo forte que o impediu de participar da gravação. Ele é uma pessoa muito leal comigo, amigo, irmão e, acima de tudo, 14 Bis é uma banda que é dele também. Afinal, fomos nós dois que tivemos a idéia de fazer uma banda, muito antes de podermos ter realizado este sonho. Por isso, nunca perguntei a ele o que realmente houve... Se não esteve lá no dia, é porque não era para estar. Claro, se ele tivesse participado da gravação ao vivo, poderia ter sido mais interessante, principalmente para os fãs, que gostariam de vê-lo tocando e cantando conosco ao vivo. Mas gostei também – e muito! - dele gravando com a gente no estúdio [fotos de estúdio no site www.14bis.com.br]. No estúdio, ele pôde tocar piano acústico, o que não teria sido possível no Palácio das Artes, onde gravamos ao vivo. Ele cantou com a gente, fazendo o vocal ficar a quatro vozes, em Planeta Sonho e Uma Velha Canção Rock’n’roll, onde também faz a voz solo, revezando com Cláudio. E posso dizer, com certeza, que a gente vai, num futuro próximo, voltar a compor e tocar juntos, a gente se completa musicalmente de uma maneira maravilhosa e ele, de certa maneira, sempre fez e faz parte da banda.
2007: Flávio, Cláudio, Vermelho e Hemir (técnico do DVD 14 bis).
Via Fanzine: Marcus Vianna abriu o dvd com vocês, executando um dos temas instrumentais mais lindos da música contemporânea. Estava tão à vontade que parecia o 15º Bis e lembrou-nos dos bons tempos dele no Saecula Saeculorum e no Sagrado Coração da Terra... Vermelho: Eu o convidei, pois nos conhecemos e nos admiramos há muito tempo. Mas a produtora dele foi a responsável por ele participar deste show, segundo ele mesmo disse. Ele é um cara profissional, muito requisitado, além dos trabalhos com varias bandas, ainda faz inúmeras trilhas para novelas de sucesso, principalmente, na Rede Globo. Por isso, tinha que agendar tudo direitinho e sua produtora foi muito eficiente, fez com que a participação dele fosse possível e trouxesse um brilho todo especial para o show. Pois - como você bem disse -, a 14 Bis Instrumental é uma das melhores músicas instrumentais progressivas que eu e Flávio, em parceria com os outros da banda, compusemos. Tem ao mesmo tempo um tema muito bonito, uma melodia meio arpejada que Flávio compôs, onde eu montei toda a estrutura e forma da música, mas deixando espaço para o Cláudio improvisar tudo que tem direito na guitarra. Além disso, fiz a parte central, mais Rock‘N Roll – de onde o Magrão (no baixo) e Hely (na batera) saem para um ritmo bem sincopado que, depois de idas e vindas, mudanças de tom, etc, volta ao tema principal. E, neste gran finale, o dueto da guitarra com o violino soa muito bem. Cláudio e Marcus Vianna tocaram isto de maneira maravilhosa no show, estão acostumados a tocarem juntos e são virtuoses em seus instrumentos. Concordo com você, é realmente uma grande musica instrumental contemporânea e quando a escolhemos para ser a abertura do show de gravação do dvd, não tínhamos idéia de que ia ter uma receptividade tão boa como teve... Sinal de que as pessoas gostam também de desafios...
Via Fanzine: A canção Nave de Prata teve um tratamento muito especial neste dvd, a letra de Márcio Borges é fascinante e, ao vivo, com um quarteto de cordas, ficou ainda mais bela que a gravação do 14 Bis em Idade da Luz. Como surgiu esta canção maravilhosa? Vermelho: Morei quase 20 anos no Rio, numa rua tranqüila do Jardim Botânico, no 4º andar, com uma vista maravilhosa para uma enorme pedra, rodeada de matos, cachoeiras e canto de pássaros – essa floresta saía dos fundos da casa do Tom Jobim. Estava feliz com a banda, vivíamos um momento muito criativo e, na minha vida particular, tudo ia muito bem, tinha acabado de nascer minha filha, que amo de paixão. Eu estava com uma viola de 12, ligada num gravador de quatro pistas - novidade para a época, pois tinha acabado de chegar. Era um fim de tarde destes que só o Rio propicia, depois de um passeio pelo Horto, aquelas árvores centenárias e aquele silêncio que inebria a gente de boas energias, céu azul etc. Tomei uma batidinha e comecei a dedilhar alguns acordes na viola e logo encadeei alguns acordes que me inspiraram uma melodia: aí me veio à lembrança, minha cidade natal, também repleta de silêncio e canto de pássaros e aquela tranqüilidade foi me tornando uma letra onde eu cantava “eu me lembro da chuva, pequena cidade, as ruas, o chão”, e por aí vai. Fiz a música assim, em um fim de tarde, começo de noite. Depois acrescentei um órgão Farfisa, que adoro, pois tem um som brilhante e ao mesmo tempo suave. E fiz uma terceira parte, mais ritmada, mais rock. Quando entreguei a música para o Marcinho fazer a letra, como eu já tinha escrito algumas frases, ele soube muito bem aproveitar isto, principalmente as rimas - usou a sonoridade que havia em minha letra-esboço. Onde eu tinha colocado chão, ele escreveu "tudo acontece no meu coração", rimando com "a mesma vontade de revelação...". Foi assim que ficou pronta a música. O Marcinho é muito musical, ele guarda nuances da melodia que, às vezes, te surpreende. Se você cantar diferente do que ele ouviu, ele te corrige... E capta bem a idéia que você teve e a coloca em termos de uma bela letra poética. Planeta Sonho, outra grande letra, ele fez completamente livre – eu e Flávio só fizemos a música, ele viajou na música e veio com uma letra muito original, não mudamos nada, estava perfeita. E a banda toda a transformou num sucesso que, talvez seja a música que mais reflita o som 14 Bis.
Vermelho e o filho Rafael em 1984.
Via Fanzine: Você sempre diz aos fãs e amigos que não é maestro, porém já assinou arranjos belíssimos como, por exemplo, Pensando em Você, também na regência, do Flávio em seu álbum Nascente e no primeiro disco do Beto Guedes, em Maria Solidária. Qual é sua formação musical e a origem de tanto talento? Vermelho: Comecei cedo vendo meu pai, maestro de banda, arranjador de mão cheia, escrever dobrado para uma banda em qualquer papel e toca. Estudei arranjo com Rogério Duprat, o maestro do Tropicalismo e nas aulas do Festival de Inverno de Ouro Preto, na década de 70, fiz arranjos muito ousados, ele incentivava isto. Compus uma fuga, que é uma forma de composição muito elaborada, que teve em Bach, talvez, seu ápice, e misturei aquilo com baixo, batera, teclados e guitarra. Ainda bem que era o Rogério que estava regendo, senão, ninguém dava conta de entender o que eu escrevi lá (risos). Pena que não tem registro gravado daquilo, mas foi uma experiência inesquecível. O primeiro arranjo que escrevi profissionalmente foi para cordas, para uma música minha, Palhas de Milho, que gravei com o Bendego, ótima banda baiana, com violões, violas baixo, percussão, batera (Hely) e eu nos teclados. Vocal a quatro vozes e uma harmonia bem nordestina, mas ao mesmo tempo pop, tipo Beatles. A banda não ficou conhecida, apesar de termos gravado e tocado com Caetano Veloso, na época do Qualquer Coisa. Depois fiz o arranjo de Pensando em Você, música do Flavio que O Terço gravou e acho que ficou muito bom o arranjo, além da presença do Duprat, que fez outros arranjos. Tínhamos uma boa orquestra à disposição, e um estúdio (o Vice Versa – SP) que era o mais moderno do Brasil na época. Depois, no álbum A Página do Relâmpago Elétrico do Beto Guedes, eu Flávio, Hely e Zé Eduardo, fizemos, juntos com o Beto, praticamente todos os arranjos do disco. E, especificamente em Maria Solidária - bom que você teve a percepção disto -, pois foi realmente uma idéia minha aquele arranjo, de mudar subitamente de tom (sobe de Ré maior para Mi maior), com o órgão antecipando a modulação. Só ouvindo para entender o efeito, que é fantástico. Essas mudanças súbitas de harmonia são muito usadas pelos grandes mestres, notadamente Wagner, C. Franck, Liszt e os grandes organistas, de qualquer época. Organistas sempre foram mestres na harmonia, desde a Idade Media, Renascença, Romantismo, Modernismo, Jazz e, claro, Rock, vide Tony Banks (Genesis) e Rick Wakeman (Yes). E, por aqui, temos também grandes tecladistas bons de harmonia, seja no órgão, sanfona ou piano, tais como, Guilherme Arantes, César Camargo Mariano, Wagner Tiso, Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Sivuca, Egberto Gismonti, entre outros. E acho que posso me incluir – sem falsa modéstia (risos), neste time da pesada. Estou estudando bastante pra isto.
Vermelho e o pai, Sr. Moreira, músico de Banda.
Via Fanzine: Que o 14 Bis é composto de músicos de primeira linha, ninguém duvida. A banda tem em seus primórdios fortes inclinações Folk-acústicas regionalíssimas. Já vi Cláudio tocando guitarra portuguesa, gaita, violas de 10 e 12. Você, até cravo toca e muito bem, o Magrão, desde O Terço, trabalhava este lado e o Hely é um percussionista divino. Não cairia bem um Acústico MTV com todo aparato necessário e de acordo com a grandeza de vocês? Vermelho: Não sei bem como é esta coisa da MTV. Posso estar enganado, mas me parece que eles têm um conceito do que é moderno, do que é in e do que está out, do que é brega, etc... Assim, alguns artistas não aparecem lá. Nós nunca fomos convidados, nem nunca tivemos nada nosso executado lá. Se existe algum padrão de qualidade estética deles, até hoje nunca entendi. Antigamente assistia muito e gravava em vídeo coisas excelentes que passavam lá. Mas, depois o nível começou a mudar, parecia que beleza estética, gente bonita, com roupa da moda ou então quem fosse mais periferia, mais louco, era o que importava. Não sei mesmo... Deixei de entender de vez, quando vi um programa dedicado a Sandy e Júnior. Então, saí fora, apesar de gostar da voz da Sandy e saber que eles têm jeito para a musica, sendo filhos de quem são... Porém, alguma coisa não bateu nesta história toda: divulgação de alguém que tem um forte poder de se impor? Sei lá...
Via Fanzine: Vocês já têm um repertório de composições inéditas para o próximo CD? Vermelho: Estou revendo muitas idéias guardadas em fitas, disquete, etc, coisas de mais de 20 atrás. O Flávio disse que também está resgatando o que tem gravado, inclusive, muita coisa que compusemos juntos, eu, ele e Beto Guedes. Vou selecionar o que achar que ainda pode ser aproveitado hoje e, partir daí, fazer novas canções, seja sozinho, seja em parceria. Claro, vamos fazer coisas totalmente novas também. Eu e Cláudio, por exemplo, gostamos de compor juntos, como fizemos em Xadrez Chinês e Mesmo de Brincadeira, que estão no dvd. Xadrez inclusive é uma surpresa, o arranjo que fizemos ficou ótimo e a letra, do Chacal, que diz, “Às vezes, me pego pensando igual computador, tem dias que nem sei ao menos quem eu sou” – foi escrita em 1985! Ela antecipa o que acontece hoje, quando, às vezes, a gente fica meio perdida com a vastidão de informações no mundo da informática, principalmente na Internet. Devemos fazer um cd com canções inéditas até o fim do ano e todos nós vamos compor. Vamos ver o que acontece. Já temos muito material e com muita vontade de trabalhar músicas novas, pois é muito estimulante tudo isto.
Dvd '14 bis ao vivo'.
Via Fanzine: Quando veremos o Vermelho intimamente num disco solo? Vermelho: Eu tive um período de minha vida em que - por motivos que não vêm muito ao caso, pois é passado, fiquei um pouco desligado, quase ausente da banda. Isto, por volta de 1990 até 2003, foi um longo período. Época também em que me mudei do Rio e voltei para Minas. Continuei compondo em casa e fazendo shows, mas não contribuí muito com composições para a banda, como antes. Além disso, foi uma época em que a qualidade das músicas que as gravadoras, rádios, tevês e mídia em geral, mostravam para o público era péssima, para meu gosto. E, pior ainda, parecia que o público queria era esta merda mesmo. Parecia não haver espaço para o que queríamos mostrar. Mas tudo começou a mudar quando fizemos uma excursão com o Boca Livre, uma banda que sempre curtimos muito, tem vocais e instrumentais excelentes, num estilo todo próprio – temos muito em comum. Fizemos ótimos shows juntos, dividindo repertório, cantando músicas em várias vozes e, tudo isto foi registrado em cd e dvd. Depois, o 14 Bis gravou, em 2003, um cd de inéditas, o Outros Planos. Continuamos fazendo shows e sentindo que estava na hora da boa música voltar a ocupar seu lugar. E no final de 2006, finalmente, pudemos realizar o sonho de gravar nosso primeiro dvd. Assim, agora posso pensar em fazer meus projetos: o primeiro que quero fazer é um cd/dvd de Banda de Música, com meu pai, registrando composições dele e de outros grandes músicos, alguns desconhecidos, outros consagrados, do Barroco Mineiro. Minha idéia é fazer um disco agradável de ouvir, selecionando músicas típicas de banda. Pelo que ouvi na minha infância, eu e meu pai vamos selecionar coisa boa, só estamos dependendo de patrocínio, coisa, às vezes, meio complicada, pois a burocracia e politicagem são muito enraizadas em nosso país, infelizmente. O mesmo acontece para fazer um cd solo meu, onde quero misturar todas minhas influências, de música erudita (englobando o que gosto, do século XII ao XXI), a música popular brasileira (mais particularmente, mineira) e me cercando de músicos que realmente gosto de tocar junto, como Beto Guedes, Flávio Venturini, Marcus Vianna, minha filha adolescente, que já compõe bem, num estilo totalmente dela, meio gótico, meio pop, moderno mesmo. E outros músicos que vão aparecer, de acordo com as músicas que escolher. PQuero mostrar meu universo musical, o universo de um músico. Continuarei estudando regência com grandes maestros, mas ainda não me considero um maestro (‘mestre’, em italiano), como os grandes músicos que admiro. Sei que um dia chego lá, mas ainda tenho muito que aprender. A música é um universo!
* Antônio Siqueira é cronista e correspondente carioca de Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br). - Fotos: Arquivo Vermelho / Arquivo Via Fanzine. - Visite o site do 14 Bis: www.14bis.com.br - Produção: Pepe Chaves. * * *
Entrevista com Tavinho Paes Letrista, poeta e produtor cultural. Por Pepe Chaves Para Via Fanzine
Tavinho Paes e seu jornal impresso Poema Show.
O menestrel da palavra, no Século 21
Luiz Octavio Paes de Oliveira, carioca da gema - nascido literalmente na Praça da Apoteose - é um dos poetas mais apoteóticos do País. Sempre gentil e atencioso, Tavinho mantém contato conosco via Internet já por alguns anos, criando laços de estima e mútua admiração. O jornal Via Fanzine, surgido através de sua versão impressa em 1994, trazia em seu título a palavra "Fanzine", em menção a uma de suas letras na banda Hanoi Hanoi (Fanzine), que abordava a literatura alternativa. Exatos dez anos mais tarde, logo que foi ao ar, o portal Via Fanzine disponibilizou uma página exclusivamente para o poeta (www.viafanzine.jor.br/journow), onde ele mostra um pouco de sua arte experimentalisticamente consciente. Sua denotada participação na MPB a partir dos anos 80, vem eternizar seu nome na galeria dos grandes letristas brasileiros. Sua arrogância e seu cinismo, transpirados em suas criações literárias, tornaram-se combustíveis inflamáveis ao trazer para as canções, nuances raras da vida social pasteurizada em seu País. Destarte, suas composições costumam a agradar a “gregos e baianos”, vez que trafega pela sensatez inata, seja tratando o “público” ou o “pessoal” em questões amplamente diversas. Nesta entrevista, Paes “abre o verbo” e, pensador inconformado que sempre foi, vem cobrar de cada um de nós, uma parcela de responsabilidade sobre este mundo medíocre e mesquinho que aí está. Como letrista dos mais expressivos da história da Música Popular Brasileira, coadjuvou parcerias na Música com inúmeros autores, destacadamente, Arnaldo Brandão (Hanoi Hanoi) e Lobão. Na poesia realizou trabalhos experimentais com Ricardo Ruiz e Chacal. Entre as parcerias que viraram hits nas rádios brasileiras, estão, Totalmente Demais (Caetano Veloso); Rádio Blá (Lobão); Sexy Yemanjah (Pepeu Gomes - abertura da novela Mulheres de Areia); Linda Demais (Roupa Nova), Fanzine (Hanoi Hanoi), além de diversas outras, gravadas por inúmeros intérpretes. No total, foram 251 registros com distintos compositores da MPB. A última canção, ainda no forno, é uma parceria com Fagner (Espelho Meu). Outras produções como, publicações, filmes e registros em formatos diversos contabilizam mais de 100 títulos produzidos independentemente. “Agora estou lançando um cineZine (DVD), onde começo a publicar vídeos de minhas apresentações ao vivo”, nos informa Tavinho.
N.E.: Esta entrevista foi acrescida e revisada em 11/08/2006.
Via Fanzine: Tavinho, por favor, nos faça uma síntese de seu envolvimento com a poesia, a literatura e os movimentos de arte no Rio de Janeiro. Tavinho Paes: No início, lá em 1973, minha ação era pequena, pois eu interferia nos eventos de poetas com performances ligados ao que acontecia no segmento das artes plásticas. Minhas influências eram artistas da chamada arte conceitual e meus interesses eram mais experimentais do que construtivos. Em 1976, no teatro Municipal de SP, quase criei um problema para todos com meu ato hard-core: Peru de Fora dá Palpite. Já nos anos 80, depois que eu li Ezra Pound e Oswald de Andrade, comecei a fixar minha atenção na leitura de poesia. Devorei Drummond (que ainda era vivo e saia no jornal); viajei com Guimarães Rosa; fiquei doido por Kerouak e Baudelaire. Mas, por obra do destino e pela via das oportunidades imediatas, passei um longo tempo fazendo dos poemas letras de música e da poesia, panfletos marginais em livretos que eu publicava praticamente toda semana e vendia todas as noites. Chamava-os de passaporte do país das liberdades absolutas, pois me garantiam acesso a quem quer que fosse, em qualquer lugar, a qualquer hora...
VF: E como eram esses “passaportes”? TP: Não eram livros: eram objetos de arte tinham uma função nas minhas mãos muito além da literatura). Então, em 1990, junto com Chacal, Zarvos e Carlos Emílio, fundei o CEO 20Mil (vai fazer 16 anos em agosto). Parei tudo entre 1996 e 1998, pois fundei um selo independente (Indie Records), cujas dores de cabeça me deixaram com quase 100kg. Voltei à carga em 2002: abri o site www.poemashow.com.br; dele parti para um evento diferenciado de poesia falada, uma tendência que acabou se firmando. A partir deste evento, curei e dei apoio a mais de 30 eventos pela cidade, montei com Bruno Cattoni o Poesia Voa 1.0, o Festival de Poesia do Circo Voador, em 2005 e não paro de ir a todos os eventos que posso, mapeando seus territórios, criando interligações entre eles e registrando suas diferenças e opções de intervenção na cena que estou me esforçando para dar visibilidade, consistência e possibilidades de crescimento. Como tudo leva a crer que a poesia depois de falada começa a integrar em seus eventos o audioVisual (vídeos), cuja janela interdimensional dá aos eventos um novo fermento (como a música e o balé têm dado), estou inaugurando um evento-mix de cineclube e sarau e criando seu sub-produto excepcional: o cineZine (em DVD), que corresponde à evolução dos panfletos independentes com a possibilidade de levar aos outros eventos imagens dos recitais acontecidos em outras cenas, outras épocas, outros momentos geopolíticos... Isso para não falarmos nos poemaClip e as experimentações gráficas que as novas tecnologias possibilitam, que marcam uma nova mutação de apresentação para a poesia contemporânea...
'Não quero me auto-biografar: a minha vida é um filme que ainda não acabou e o final ainda não está definido...'
VF: Estando constantemente em atividade e sempre a frente de movimentos poéticos do Rio de Janeiro, você se sente um líder literário? TP: Não me sinto uma liderança: o que faço é voltado para o grupo. Assim como a música, o teatro, o cinema e até a televisão têm livros sobre o que aconteceu em seus segmentos nesses últimos 10 anos, estou disposto a iluminar o que aconteceu com a poesia. Precisamos deixar de pensar em mortos e acadêmicos quando falamos de poesia - ela não parou em 1964. Para isso, sem patrocínio e com o mesmo entusiasmo que me levava aos bares para negociar mano-a-mano, cara-a-cara os meus panfletos mimeografados, estou pondo na rua um jornal tablóide; um programa de rádio, um cineZine, inventando novos eventos. O cinePoema, por exemplo, que é um mix de cineclube com sarau de poesia falada e, até o fim do ano montarei um programa de TV na web (www.interativaweb.com.br). Hoje, meu envolvimento com a poesia é o mesmo que um cirurgião tem com seu bisturi. Hoje, sei que Poesia não é uma arte. Poeta não é artista. Não tem nada a ver com arte: é diferente disso. É homérico: é poeta!
VF: Nos anos 80 você desovou diversas letras de protesto contra o Sistema e a sociedade brasileira em geral. Alguma vez, abordar esta temática custou caro para você? TP: Várias vezes. Só para dar uma idéia dos desconfortos, de minhas primeiras 10 músicas, seis foram proibidas. Totalmente Demais ficou 4 anos na geladeira, até Caetano gravar num evento transmitido pela estatal e liberar o sucesso. Estou listando as memórias destes acontecimentos absurdos numa época de obscurantismo oficial, determinado pela suspensão dos direitos civis e da democracia. A grande maioria destes desconfortos ocorreram quando eu ainda vendia livros nos bares e viajava pelo país como um hippie. Estou gravando em áudio (e mixando em CDs) depoimentos sobre fatos que me aconteceram, precisando as datas e o ambiente geopolítico em que ocorriam. Tudo para que, no futuro, quem vier a se interessar pelo assunto, jornalística ou academicamente, possa dispor de depoimentos em viva voz. Algumas histórias reais, cheias de perigos e aventuras, dariam curtas de alta performance. Por enquanto, não quero me auto-biografar: minha vida é um filme que ainda não acabou e o final ainda não está definido...
VF: Suas letras, em essência, trazem muito de uma ironia fina, destilada. Como se faz essa frieza para colocar determinadas situações - que "talham o sangue" da gente - de uma forma discreta, intensa, bastante irônica e, às vezes, beirando o cômico? TP: Eu acredito que tudo faz parte das leituras que fiz durante a minha vida. Continuo disciplinado, lendo uma cota de 100 a 150 páginas de livros todos os dias, pela manhã. Tudo com anotações e registros das idéias que a leitura me concede e que, por força do acúmulo e da prática prazerosa, torna-me mais inteligente do que simplesmente informado. Eu não leio como um robô: eu penso e reflito sobre o que leio, faço conexões com o que li e memorizei; cruzo informações; atualizo passados para que eles cheguem ao presente com um mínimo de atraso e possam chegar ao futuro com alguma saúde.
VF: E se você fosse fazer uma letra dedicada ao atual presidente da República, qual frase, por exemplo, seria obrigatória? TP: Não caia na armadilha que armaram prá você / não fique preocupado com o que vai deixar de fazer / não ceda ao estresse / não se zangue nem se queixe / papel de presidente é como jornal / se hoje tá na banca / amanhã vai estar na feira embrulhando peixe / não se afobe / não se queixe...
VF: Muito bom! De onde vem a ironia poética? TP: A ironia não é uma arma ou um estilo que me vicia. Ocorre que meu vocabulário é grande e minha maneira de ver o mundo passou a ser filtrada por conhecimentos adquiridos com a leitura. Se você ler filósofos como Deleuze, Derrida; poetas como Rimbaud, Manuel Bandeira, Kerouak; gente da estirpe dos Gláuberes, Monteiros Lobatos ou Machados de Assis, você vai reparar que suas descrições e análises do que vivenciam ou sobre o que são e estão sendo informados acabam sendo irônicas por que seus olhares para a realidade ajustam o foco através de posicionamentos estéticos bem definidos e filosoficamente bem equacionados. Como tenho afiado minha pena à luz da poesia, minhas construções textuais estão impregnadas de liberdades que só a poesia dispõe. A ironia não está no que eu estou dizendo, mas na maneira como estou enxergando o que estou dizendo. Abuso e aproprio-me de estilos que nem me pertencem. Quando tenho uma reflexão sobre alguma coisa, vasculho todos os cantos em que ela pode esconder detalhes que parecem inúteis ao primeiro contato e habilito utilidades no que não está no foco do seu interesse comunicativo. Não faço autópsias: enxergo almas nos cadáveres que ressuscito...
'A ironia não está no que eu estou dizendo, mas na maneira como estou enxergando o que estou dizendo.'
Arnaldo Brandão_ VF: E por falar nisso, vocês alguma vez sofreram pressões de pessoas de gravadoras, no sentido de modificar letras e até arranjos de suas canções? TP: Em várias ocasiões estas conversas vinham à baila. Em Panamericana (Ao sol de Parador), eles queriam que a gente tirasse a pergunta sobre os matadores dos índios brasileiros e a dúvida sobre quem ajudava os cocaleros com éter e gasolina. Quando a música era feita por encomenda, para um autor ou artista, eu nem ligava. Aquilo era o que eu conscientemente chamava de MPGD (música para ganhar dinheiro), um estilo que não pára de crescer, no qual, a qualidade do que é dito não interessa nem a quem canta...
VF: Por que o brasileiro é tão hipócrita? TP: Porque tem inveja na alma e esforça-se para ser um imbecil vaidoso cuja soberba não lhe permite comportar-se com a elegância de um índio. Toda a balela de que somos amistosos, receptivos e hospitaleiros só serve para a indústria do turismo e olhe lá. Nossa sociedade está vazada por candomblés dispostos a fazer o mal; malandros determinados a te dar uma volta; gente que prefere reclamar a apontar uma saída. Adoramos que a esquerda tenha se metido na corrupção: se fossem honestos seriam vaiados, mais odiados do que estão sendo. Somos um bando de fascistas metidos a liberais. Somos cruéis com nossos conterrâneos. Somos podres e achamos que os trópicos escondem nosso fedor. Isso para não falarmos que somos uns cagões de primeira. Se depois do petróleo, os americanos resolverem pegar a nossa água potável e mandar suas tropas para ocupar nossos terrenos, é capaz dos governadores de Estado e prefeitos das cidades brigarem para atrair os invasores: “...ei, venham para cá: temos umas garotas de 10 anos que vocês vão adorar... temos samba, praia...”. O Roberto Carlos é capaz de fazer shows especiais para os generais da tropa de ocupação em seu transatlântico e a classe média paulista é capaz de pagar qualquer coisa para estar presente nesta sala, olhando os uniformes dos invasores... Aqui, a vergonha na cara só aparece quando alguém a esbofeteia e, mesmo assim, por uns tostões e uma mariola, ela vai pro saco. Nós não somos exatamente hipócritas: somos volúveis!
VF: Nos fale sobre o fato de você ironizar a mediocridade em geral, manifestando o cinismo, como uma cartada fatal. TP: Não ironizo: falo com as ferramentas dela com consciência de que nela há um retrovirus capaz de desmascarar suas ambigüidades programadas. Parece que sou cínico, mas sei que esse cinismo heterodoxo, cheio de truques e desconfianças, virou moda entre celebridades e comunica mais do que sinceridades. Não que mentiras sinceras me interessem: a verdade é que não provoca interesse nenhum se for absolutamente sincera. Sabemos que um dos pilares da democracia iluminista é a capacidade que cada um tem de ser sincero perante os demais: falando a verdade, a comunicação cria uma teia de confiança que mantém a democracia forte e repelente a coisas como a corrupção. Mas, infelizmente, as pessoas estão acostumadas a serem enrabadas sem reagir. Não adianta querer que elas pensem, organizem opiniões, apresentem idéias: todos querem ser agradáveis, dizerem piadas que alegrem e façam rir quem está em volta. Tudo, inclusive coisas desagradáveis como insultos e sentenças injustas deve valer uma gargalhada; caso contrário não vale a pena pensar no que está sendo dito, feito ou preparado. A hipocrisia que nos corrói o caráter e molda nossa personalidade sócio-dinâmica está toda baseada no único valor que nos foi imputado como parâmetro de dignidade: A GRANA! A hipocrisia é o dinheiro e suas perturbadoras promiscuidades conexas. Não adianta informar que esse dinheiro que controla nosso dia-a-dia só existe no planeta há menos de 200 anos e, como outras coisas que acompanham a história da nossa civilização, vai acabar...
'Nossa esculhambação é híbrida, original, inexorável. Somos burríssimos, ignorantérrimos, estúpidos; embora tenhamos excelência quando o assunto é bolsa de valores, falcatruas econômicas e outras matérias dignas da máfia, da pirataria...'
VF: Como você vê a Educação no Brasil atual? TP: Olha: o caso é de uma gravidade absurda. Estamos com mais da metade dos alfabetizados incapacitados de entender o que lêem. Eu faço um Quiz interessante nos meus eventos: pergunto à platéia quem é o cara chamado Haddad que está no governo? Faz-se um silêncio sepulcral. Um ou outro sabe, mas peço que se mantenha calado. Nove entre dez caras da audiência não sabem que o Haddad comanda o segundo maior orçamento da União e que está sob responsabilidade executiva e gerencial de sua pasta aquela solução que todo idiota costuma vomitar quando lhe perguntam qual é a saída para que este povo ignorante e de futuro mais miserável do que triste saia de sua trincheira e resolva pular o muro que o acovarda e aprisiona. O cara é o Ministro da Educação e ninguém sabe. Tanto que aquela idiota subiu no palco do Gil para protestar contra o descaso com as escolas, confundindo Ministérios e responsabilidades: uma cena patética e triste como um massacre nos Bálcãs. Estamos caminhando para uma nação formada por gente espiritual e intelectualmente desmiolada e desorientada. Pessoas com a alma carregada de uma mediocridade inimaginável. Nossas elites devem estar entre as mais grosseiras e mal-educadas do mundo. Tem gente que já viajou o mundo todo, veste-se com griffes importadas e posa em colunas sociais que acha que o teto da Capela Cistina é forrado com papel de parede... (risos).
VF: Te incomoda saber disso? Ou seja, até que ponto a ignorância alheia, que se traduz em deseducação, falta de informação, de instrução, formação, golpes de toda espécie, interferem em seu humor, na sua vida, a ponto de transmutar-se para suas criações? TP: A irritação que a ignorância me causa deve ser efeito colateral da minha veia kantiana que se apegou em excesso aos racionalismos necessários à uma democracia plena. Tem horas que esqueço que sou dos trópicos, de uma nação de grileiros e degredados que se misturaram com uma civilização nativa pacifista e pra lá de budista; e não um iluminista que acredita que a liberdade decorre do uso público que fazemos da razão diante dos problemas sociais que nos oprimem. Na verdade, não odeio os ignorantes que não podem ser alinhados na mesma fieira a que estão aguilhoados os analfabetos e os menos culturalmente enriquecidos por idéias e filosofias. Eles me causam dor no parassimpático quando me passam a incapacidade de fazer uso racional da liberdade que a democracia plena e a cidadania constitucional lhes garante. Sofro com a ignorância deles, pois não creio que possa haver liberdade se duas pessoas não puderem se considerar iguais quando estabelecem uma comunicação através das palavras de um idioma que lhes é comum. Na verdade, sinto raiva de mim mesmo por perceber que sou mal compreendido e, por conta disso, algumas vezes passo a ser admirado, tomado por mestre, líder... Isso me é horrível de suportar.
VF: Como você vê a notória 'falta de educação' do brasileiro? TP: A falta de educação, geralmente manifesta pela soberba com que a classe dominante olha os que lhes estão à disposição, oferecendo sua força de trabalho em troca de miúdos, causa-me engulhos biliáticos e acabo vomitando coisas que seriam mais eficazes se distribuídas e comunicadas como as fofocas que dão vida à nossa sociedade criminosamente estratificada. Já a ausência de informação e a completa indiferença sobre o que esta sendo de alguma forma informado... Putz! Isso sim, me deixa deprimido, desesperançoso, triste, sorumbático. Diante dos que vivem alegremente submersos na alienação que lhes é imputada pelos manipuladores dos meios de comunicação de massa, minha alma é tomada por um ceticismo agnóstico que parece estar roubando dias de minha vida. Não chamo o povaréu de burro, nem me coloco num Olimpo de privilegiados: o que me deprime é saber que a cidadania pode não ser um bem essencial à vida das pessoas que não se interessam pela vida pública e que fazem questão de darem caráter apolítico às suas deficiências de caráter (mesmo que sejam honestos, beatos e trabalhadores). Gente assim, vai fabricar as bases para que o fascismo volte recauchutado (remixado, como prefiro ver) e capaz de surpreender quem quer que discorde de suas artimanhas. Gente assim, sofre de uma baixa estima, capaz de deteriorar a autonomia de suas escolhas. Gente assim, vai acabar acreditando que sem Mussollini não existiriam as atuais Leis Trabalhistas que lhes garantem vantagens nos tribunais ordinários das demissões em massa; nem teriam sido possíveis os Sindicatos que criaram o PT e deram aos operários uma ferramenta de barganha sócio-política nos mercados do trabalho. Gente assim, vai acabar servindo de massa de manobra para os operadores do poder globalizado...
'Ao invés de benefícios, a globalização está trazendo mais e mais miséria ao mundo e a pior das doenças: a desconfiança'
VF: Considerando-se tudo isso, você acha que o país ainda tem conserto? TP: Não. Definitivamente não tem quem dê jeito! Aqui vamos nos tornar uma alternativa internacional justamente porque estamos resolvendo problemas que o mundo ainda vai enfrentar (como viver na miséria sem reclamar; como aceitar injustiça social sem sofrer; como eleger amaldiçoados sem incorrer na maldição, etc...) justamente porque não temos capacidade de resolver problemas que boa parte do mundo já solucionou. Nossa esculhambação é híbrida, original, inexorável. Somos burríssimos, ignorantérrimos, estúpidos; embora tenhamos excelência quando o assunto é bolsa de valores, falcatruas econômicas e outras matérias dignas da máfia, da pirataria, do descaramento e das maçonarias mais gananciosas. Aqui ninguém conserta mais nada: complica mais e mais. Complica tanto que a falta de solução passa a ser a solução. Vamos queimar florestas, poluir rios, destruir tudo; vamos concentrar renda até voltarmos ao tempo dos vassalos e suzeranos; vamos manter milhões abaixo do nível de miséria e nem nos importarmos... e, mesmo assim, seremos a vanguarda do terceiro milênio. Não explicamos nem queremos saber por quê?; somos hábeis em dizer qual é? Tanto que vamos nos tornando fascistas sem nos darmos conta disso. Nossos fascistas são tão originais que vão conquistar o poder falando de violência e pedindo paz...
VF: Por falar em Fascismo, explique sobre o que você chama de ‘remix fascista’, o qual já teceu um consistente e atualizado poema "Estão remixando o fascismo" (leia na íntegra em www.viafanzine.jor.br/journow). Na verdade, como um off de seu poema gostaria que, se possível, você traçasse um comparativismo sintético, do autêntico fascismo italiano, com este de agora, cibernético, digitalizado, globalizado... TP: Para fundamentar o que digo é preciso informar que o conceito de Novos Fascistas pertence ao ideário de Pier Paolo Pasolini, cuja principal fobia investia contra a incursão da Igreja reacionária, com suas maçonarias conservadoras e inquisidoras (Opus Dei, a qual está ligada ao atual Papa e que, em seus consulados internacionais encontram no candidato do PSDB, Geraldo Alckimin, um exemplo a ser observado) no Estado Republicano profetizou a ascensão de Mussolini e suas hordas castradoras. Como alvo secundário, mas igualmente aterrorizante, estavam no foco da metralhadora pasoliniana as promíscuas ingerências do capital financeiro, liberal e capitalista, nos mecanismos de controle do Estado, cujo governo, quando democraticamente eleito, deveria estar lidando com as deficiências da nação; educando o indivíduo para que ele pudesse enfrentar a realidade com idéias autônomas e escolhas perspicazes, conhecendo melhor e racionalmente o que lhe afetava e auto-conhecendo-se afetado. Esta mistura, atualmente, tendo no consumismo uma de suas moedas de troca, impede que o estado-nação democraticamente equipado providencie meios e acessos inclusivos para que as bases sociais em que assentou suas frentes operacionais possam divergir democraticamente, discutir com posicionamentos equânimes e constantemente reajustar os parâmetros determinantes da justiça social. Entretanto, com a rapidez com que a globalização executou a modernização das sociedades do primeiro mundo, internacionalizando as reservas do capital financeiro, tecnologizando o capital produtivo e oferecendo um modelo de estabilidade social baseada na acumulação de bens e serviços. Nos países periféricos o impacto criou um imenso batalhão de hipnotizados, vasculhados e mesmerianamente absorvidos pelas possibilidades da Internet. Estes alienados e confusos indivíduos, sem se darem conta de seus egoísmos, querem refletir-se num espelho em que a imagem é formada por pixels. Desnorteados e cada vez mais narcisistas buscam revelações divinas em celebridades fabricadas pela eficiência da publicidade e/ou pelo oportunismo das circunstâncias que lhes restaure a fé num Deus que se tornou possível no universo virtual em que suas vidas vão moldando uma realidade que os comporte, independente dos outros e de quem lhes é alheio.
VF: E como se daria este processo em termos práticos? TP: Minorias de todos os matizes passam a criar grupelhos de interesses privados capazes de eleger sub-lideranças sazonais e segmentadas, cuja infiltração no aparelho de Estado, servindo a suzeranos de ordens renascentistas remixadas na forma de legendas partidárias (as quais devem favores pessoais ou nas quais prospectam dividendos derivados de sua lealdade programática), acabam minando e destruindo a capacidade da máquina estatal administrar mudanças; o que, num ponto mais avançado, vai acabar destruindo as vias pelas quais ele mesmo, o indivíduo, através dos benefícios que recebe do estado através de sua ligação umbilical e cívica com a nação, conseguiria emancipar-se ética e moralmente, gabaritando-se a conceber uma liberdade que não supera nem se contrai diante da liberdade do outro. Ao invés de benefícios, a globalização está trazendo mais e mais miséria ao mundo e a pior das doenças: a desconfiança. Ora, o medo e a desesperança, associadas à quebra nos protocolos da confiança mútua que mantém os cidadãos unidos em suas nações, foram as vias pelas quais o fascismo floresceu na Europa, após a primeira guerra. A segunda guerra e a guerra fria que programaticamente a sucedeu apenas encenaram um ambiente de modernização pacífica entre as nações mundiais; mas, com a pressão da tecnologia e a integração global das comunicações, os mesmos agentes que fizeram os ignorantes ingressarem nas colunas uniformizadas e disciplinadas por uma doutrina autoritária que aparentemente minimizava as doenças sociais estão se aproveitando da nova cena mundial e infiltrando seus demônios na vida pública dos estados-nações, preparando a nova formatação do equilíbrio de poder planetário. O Fascismo que estou denunciando (isso não é profecia: o processo já está em curso e tem facetas pós-modernas) está fechando o cerco enquanto o terrorismo desterritorializado e movido por grupos e redes transnacionais (o crime organizado, inclusive, participa desta negociação da mesma forma que a máfia participou da invasão à Itália fascista durante a segunda guerra) se ocupa de criar uma Guerra Santa que facilite a institucionalização de sua nova versão doutrinária nas comunidades que estejam vivenciando o desmanche do tecido social e convivendo com as vítimas da desestruturação do modo de vida tradicional que as exigências da globalização condenaram à extinção sumária. Posso falar e delirar horas sobre esse assunto, mas vou encerrá-lo aqui com uma única sentença: estamos sendo levados a repetir ciclicamente o que a história já nos apresentou como resultado e, desta vez, a farsa não será a melhor parte dela.
VF: E agora? TP: Agora é tudo segmentado. Um bando de caretas está na crista da onda cagando regras e exibindo-se na mídia como cacatuas emplumadas. Sabemos que a maioria das celebridades tem um poder econômico canhestro (sobre o qual elas não refletem desde que o cheque continue sendo assinado) garantindo suas visibilidades através da gigantesca máquina publicitária global. Percebemos que tem muita gente que se submete a impuras infâmias só para paparicar o que crêem ser superiores e deles ganhar as migalhas de um pão que nem o diabo ousaria amassar. A sexualidade virou um clichê para o qual até a AIDS virou uma peça positiva, no sentido de que passou a exigir de seus praticantes uma higiene que, de outra forma, seria ignorada e ajudaria a propagar por aí doenças que vão da sífilis a hepatite D. Não tem nada de novo no front. Aliás, não tem mais front: só retaguardas! Quem tem poder, garante-o com a retaguarda protegendo sua nuca. Não existe uma idéia original capaz de convocar uma reunião de pessoas dispostas a pensar. Até as drogas se tornaram ridículas: não conheço ninguém de classe média que não tome remédios (vitaminas, esteróides, tranquilizantes, soníferos) pelo menos uma vez por semana, quando não é todo dia. Bebe-se cada vez mais cedo como nunca se bebeu antes (a propaganda insiste que sem uma cerveja você não é ninguém e vai acabar criando uma geração de diabéticos já, já...) e bebe-se sem motivo nenhum. Cigarros começaram a ser reparados pelo cheiro e, tirando a fobia pela saúde, essa justa moda é de uma caretice inacreditável: se o sujeito achasse que vai ser vítima de câncer passivo desculpava-se a coerência de sua paranóia; mas ele acaba agindo assim porque acha que esta é uma postura elegante, moderna, inteligente. Com um mundo assim, meu nêgo, movimentos artísticos são babaquices que não servem nem para contextualizar insignificâncias excepcionais. Basta criar rótulos e manipulá-los por curtos prazos através da imprensa e dos outdoors, ganhar uma grana dos otários que o comprarem e cair fora. Nada tem consistência. Ninguém quer saber de desafios que não sejam esportivos. Acabou-se o tempo dos romantismos destemperados. O que sobrou tem a ver com esoterismo: até a próxima guerra, pelo andar da carruagem, vai ter a ver com religião. Como poeta, acho que inventar uma prece que consiga atender a todas as religiões do mundo deva ser uma utopia que valha a pena lutar por ela. Movimentos Revolucionários? Só o da lua em torno da terra...
'Como opção intuitiva, vou optar por votar em candidatos e esquecer que estão alinhados a partidos em que ninguém é de confiança. Vou votar como quem arma uma armadilha e preparar-me para cair nela'
VF: Nos fale da poesia marginal do Rio. Ou seja, nos fale do conteúdo de alguns poemas, seus e de outros autores que denotam a vida urbana carioca, a criminalidade e a batalha do cidadão comum para sobreviver em meio a tudo isso. Este tipo de composição nasce, em você, de uma necessidade de expressar "a lágrima urbana"? TP: As margens fazem parte do rio e se encontram no fundo dele. Nos anos 70/80, marginais eram os independentes que publicavam seus livrinhos e discos à margem do controle da censura estatal. Com a democracia iluminista manuseada pelos espertinhos e depositada nas mãos dos publicitários, a marginalidade mudou de status. Nós, os poetas, continuamos marginais, nossos eventos não saem nos tijolinhos dos jornais, nossos livros não vendem, somos chamados de chatos por babaquaras de todo tipo; mas nosso Rio agora é outro. O ambiente das cidades, com a criminalidade crescente no caos que foi montado pelo desenvolvimento econômico baseado na criação de riquezas e no controle do poder pelos donos do capital concentrado é uma desgraça urbana que não tem como ser evitada, mas pode ser distorcida à vontade. A cultura que podemos chamar de marginal neste meio está vindo dos bailes funk da periferia; embora suas manifestações mais positivas sejam as ONGs e outras entidades de atendimento aos marginalizados pela economia (e não mais pela política do Estado). A voz dos baticuns eletrônicos está dizendo o que os ouvidos finos dos amantes de Jobim e Vinícius não querem ouvir, não crêem ser poesia nem gostariam de ver expandir-se pela sociedade. Hoje, ser marginal, como dizia Hélio Oiticica, é ser herói; só que, ao se tornar herói, ou o cara morre ou é co-optado para sair na Caras. Hoje, nem o Marcola é marginal...
VF: Como os seus trabalhos impressos e musicais podem ser adquiridos e como podemos acessá-los via Internet? TP: Tudo é pelo site www.poemashow.com que eu atualizo todo dia, embora o foco dele não seja comercial: bloggo links para artigos importantes, mantenho ativa uma agenda de eventos de poesia e publico quem me parecer interessante. Uma coisa me é clara: não quero mais deixar de ser independente. Esta é uma cicatriz que aprendi a não me envergonhar de ter na cara, embora sinta que seria mais atraente ser procurado por alguém disposto a me por na baia de um supermercado como um sabonete ou um político vencedor. Estou discutindo com meu filho a possibilidade de me transformar num commoditie; ou seja: tudo que tenho encalhado e pronto nos meus arquivos (caixas de sapato, pastas, etc...) pode ser adquirido hoje, mas só poderá ser publicado após a minha morte e com assistência de meus herdeiros. Não que eu não queira ver o sucesso (ou o fracasso) deste empreendimento. Acho que morto meu valor é maior: inclusive porque morto não reclama do que fazem com seus ossos e cinzas. Tudo que faço hoje em dia é realizado em pequenas edições, como amostras de um projeto em desenvolvimento e quero que estas raridades se tornem valiosas por terem sido manualmente realizadas.
VF: E os seus trabalhos digitalizados? TP: Minha paixão pelas novas tecnologias me lança num universo cheio de novidades. Meus e-books podem ser adquiridos no meu site - na operação mais complicada e amadora do mundo: depósitos, e-mail, etc.... Estou criando cineZines (DVD) com vídeos de performances ao vivo que recolhi e colecionei ao longo destes 30 anos de atividades. Realizo um talk-show que me tem trazido alviçareiras simpatias e parcos recursos financeiros, alugável para qualquer situação: do baile punk à festa de casamento. Tenho CDs com minhas poesias faladas e, recentemente, muitas delas podem ser compradas e baixadas na www.americanas.com, que recebe e processa cartões e Visa Eletrons de todos os tipos: basta entrar no www.poemashow.com e seguir o link direto. Não sou inaccessível, mas não me acham em qualquer shopping e não sei se lamento ou se empino o nariz. Não vivo do mercado informal: atuo num mercado de informações interativas. Para dizer a verdade, não vendo nada: recebo doações para continuar sendo quem sou e desenvolvendo o que faço, mesmo não sabendo aonde tudo isso vai dar. Sinto-me vivo: isto é inegociável!
'Não diga a esse povo que o carnaval está proibido, o futebol não vai ter mais estádios para ser jogado e que o preço da cachaça vai se tornar impossível para quem não ganha nem um salário mínimo: se isso acontece a guerra civil, pela primeira vez vai rolar nas ruas...'
VF: Como você analisa estas eleições presidenciais de 2006? TP: Um teste de paciência. Os candidatos são péssimos, mas o voto nulo é pior do que votar no Enéas porque ele parece um malucão (risos). Com o circo montado, a direita está levando seus domadores de leões, o centro traz o mágico e a esquerda vai apresentar o atirador de facas: na platéia, os palhaços vão decidir quem faz o melhor número e, depois que eles indicarem o vencedor, vão acabar torcendo para que o trapezista despenque e se estabaque como tomate fora da rede de segurança. Vamos escolher entre os profissionais da corrupção qual o que pode nos arranjar uma vaga no grupo que vai fazer o próximo assalto. Conheço uns caras que adoram andar com políticos e servi-los como mordomos só para se sentirem importantes. Sentem-se felizes por estarem perto da corte. Não sou dessa quadrilha, mas não anulo meu voto porque esta conquista democrática custou-me caro e levou a vida de muitos camaradas meus. Como opção intuitiva, vou optar por votar em candidatos e esquecer que estão alinhados a partidos em que ninguém é de confiança. Vou votar como quem arma uma armadilha e preparar-me para cair nela. Diante da urna, sentir-me-ei como alguém que está pronto para dar uma boa foda e, sem querer, na excitação do confronto, confundiu-se e trocou o tubo da vaselina pelo da cola-tudo... (risos).
VF: Esta foi ótima! Isso deve ser o "estar F*" literal (risos). Mas me fale uma coisa, quem é tal do Fausto Brasil? Personagem costa-quente de uma de uma das canções do Hanoi, que, segundo consta, graças a seus contatos influentes detém um poderoso "passaporte-em-branco-pra-qualquer-parada"? TP: Infelizmente, aquele frankstein montado numa canção de rock'n'roll continua recebendo partes de corpos e ficando cada vez mais impossível de controlar. Aquele personagem foi criado numa época em que o Plano Cruzado, uma irresponsabilidade técnica que estava facilitando a vida do brasileiro, ajudava a entendermos o poeta José Sarney, eleito indiretamente presidente da república pela sinistra morte do Tancredo Neves, como um sinal de que a liberdade democrática estava chegando à cavalo (embora uma besta ou um asno fossem mais confiáveis). Fausto tem a ver com Goethe; mas sua profecia acabou gerando outros monstros como PC Farias e esse Valério... Esses são celebridades nesse mundinho de crápulas. Há outros demônios circulando livremente nesse castelo de cartas que é o Brasil continental: uma nação de chuteiras jogando futebol e olhe lá...
VF: Tavinho, você como um eterno "inconformado de carteirinha", o que tem a dizer sobre os múltiplos comentários sobre o destino do País? Quero dizer, acabamos de 'perder uma copa', e estamos à beira das eleições presidenciais de 2006; ouve-se falar que um golpe socialista poderia ocorrer, caso Lula não vença as eleições; ouve-se falar que os generais estão prestes à desenhembainhar a espada diante de tanta calamidade política; enfim, como você vê estes comentários antidemocráticos e o que sugere sobre o destino do Brasil? TP: Os militares não são tão burros: estão com Lula e com a Ordem Constitucional. O candidato do PSDB disse numa entrevista que seu Estado tem uma força policial armada maior que o exército brasileiro! Você acha que num país em que cada um está olhando para seu umbigo alguém consegue fazer uma quartelada, dar um golpe de Estado? Quem quer essa massa falida? A nossa democracia é tão flexível quanto a nossa poderosa moeda. Não vai haver nada de grave, mas as baixarias eleitorais vão ser de lascar. O destino do Brasil é ganhar confiança em si mesmo e auto-determinar-se como a potência espiritual do terceiro milênio: aqui, a paz será movida à vela, incenso e despacho. Está escrito no ifá: não somos um país; somos uma nação. O país, os políticos podem quebrar a vontade; mas a nação... Ah, meu nêgo, essa agüenta porrada, desilusão, rasteira e sacanagem. Só não diga a esse povo que o carnaval está proibido, o futebol não vai ter mais estádios para ser jogado e que o preço da cachaça vai se tornar impossível para quem não ganha nem um salário mínimo: se isso acontece a guerra civil, pela primeira vez vai rolar nas ruas... Isso aqui é o Brasil: a gente não desiste, a gente insiste... Vai dar Lula lá e cá entre nós, lá não é um lugar em que nenhum de nós queria estar!
VF: Agradecemos pela entrevista e pedimos para nos deixar um comentário final. TP: Nas próximas eleições, nem precisam votar conscientes (o que não quer dizer que devam votar embriagados), mas não joguem fora seus votos nem subestimem o poder do sufrágio universal. A esperança que os votos carregam pode não valer o que deveriam valer, mas é a última que querem matar. Protejam essa vida que pertence a todos. Não se sinta um otário: participe da festa para a qual não te convidaram e participe dela sem se portar como um penetra (essa festa é você quem banca sem gastar um só centavo)...
* Pepe Chaves é jornalista e editor de Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br). - Fotos: Antônio Siqueira / Arquivo Via Fanzine. - Visite o site de Tavinho Paes: www.poemashow.com.br - Produção: Pepe Chaves. |
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