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Comportamento Virtual:

Essa tal Liberdade de Expressão

A regulamentação da Internet praticamente estendeu as leis aplicáveis a qualquer tipo de crime, tornando crimes virtuais puníveis da mesma forma que crimes praticados fora de Internet e até "prints" - cópias - passaram a servir como provas.

 

Por Rita Shimada Coelho*

De São Paulo-SP

Para Via Fanzine

14/07/2021

 

O comportamento criminoso foi inibido com a lei, mas, um outro tipo de comportamento ficou mais evidente com esta inibição e só não é determinado crime de fato porque quem se sente agredido de alguma forma não recorre à lei.

 

Em meados de 2005 podia-se afirmar que a Internet era "terra sem lei", até que um movimento começou a apoiar a regulamentação do uso da Internet. A Internet parecia uma boa ferramenta para quem queria divulgar e praticar crimes. A primícia dos crimes virtuais naquela época era preocupante: quem comete crime online comete crime offline. Parecia óbvio visto que com a febre da rede social Orkut, crimes contra a Vida, principalmente contra animais eram publicados e compartilhados. Os criminosos acreditavam que não podiam ser localizados e nem identificados. Na verdade, podiam, mas, a lei não favorecia o uso de material virtual como prova e os recursos eram limitados. A regulamentação da Internet praticamente estendeu as leis aplicáveis a qualquer tipo de crime, tornando crimes virtuais puníveis da mesma forma que crimes praticados fora de Internet e até "prints" - cópias - passaram a servir como provas.

 

Desde então, crimes como tráfico de drogas e armas, prostituição/pornografia infantil, pedofilia, maus tratos a animais, crimes contra o patrimônio/meio ambiente e a Vida e todo tipo de crime conhecido publicado na Internet passaram a ser não apenas   identificados e localizados com maior rapidez, como punidos e suas publicações usadas como prova! O avanço da tecnologia favoreceu muito e com o passar do tempo, não apenas foram consolidadas as leis de crimes virtuais como foram criadas as Delegacias de Crimes Virtuais: até mesmo a difamação, a calúnia e ofensas podem ser denunciadas.

 

Quando pensamos na necessidade de criar um limite para o comportamento das pessoas, o assunto fica ainda mais preocupante.  Alguém que comete qualquer tipo de crime, o comete contra outra pessoa.... Agir criminosamente contra alguém já é o suficiente para refletirmos no que leva alguém a cometer qualquer tipo de agressão, violência e abuso contra outro da própria espécie. Determinar a falta de empatia não encerra esta reflexão.... Se formos ainda mais além, alguém que comete seus crimes e se gaba, se auto promove, confessa livremente usando o espaço virtual como ferramenta, além de usá-la para praticar mais crimes tem qual tipo de problema? Falta de empatia, problemas sociais não são justificativas plausíveis.... Em se tratando de "espaço virtual", muitas vítimas são pessoas que nem fazem parte da realidade do agressor.

 

Até aqui, tudo o que você leu foi para reflexão do comportamento criminoso mais visível e conhecido para falarmos de outro tipo de comportamento que, embora não seja praticado pelos mesmos tipos de indivíduos, é bem similar...

 

A "terra sem lei" agora tem lei! Pode não parecer visto que poucos conhecem seus direitos virtuais tanto quanto conhecem seus direitos offline... Quem realmente lê aquele "textão" que se refere ao Uso da Internet antes de clicar "Li e Aceito" toda vez que cria uma conta? Um é reflexo da falta de conhecimento do outro e dizer que as leis são apenas para quem tem dinheiro ou poder é um tipo de procrastinação: se todos se empenhassem em exigir direitos garantidos por lei ou, em último caso, procurar mudá-la - assim como  a lei de uso da internet mudou as normas virtuais - ela seria eficaz para todos. Na prática parece sim contraditório, mas, é preciso compreender que o caminho do seu pedido por justiça até o acesso à lei e ao cumprimento da justiça, passará por diversas pessoas e pessoas... São falhas! É a mesma coisa de considerar que o Sistema de Saúde é péssimo, mas, do balcão de atendimento até a cadeira que o coloca diante de um médico e a competência daquele médico, não são suficientes para generalizar a qualidade do Sistema de Saúde: cada caso um caso, cada lugar um tipo de administração.

 

Ainda assim, com todo este superficial conteúdo expressado acima, poderíamos considerar que o comportamento virtual fosse hoje em dia, muito melhor do que já foi.... Dizer que a lei falha é simples, mas, agir de acordo com o que a lei exige sempre será para poucos e talvez por isso poucos se sentem satisfeitos com o cumprimento da lei... Só se sabe realmente os benefícios de estar adequado à lei quando precisamos invocá-la. A sua conduta é a prova que o favorece quando é preciso apresentar seus argumentos de defesa ou acusação. É simples recorrer na Justiça com uma mentira tentando se auto beneficiar com um resultado positivo a você... A questão é como provar que sua mentira é uma verdade e como a mentira pode ir contra a verdade do outro lado?

 

O comportamento criminoso foi inibido com a lei, mas, um outro tipo de comportamento ficou mais evidente com esta inibição e só não é determinado crime de fato porque quem se sente agredido de alguma forma não recorre à lei.

  

A primícia que apoiou a Regulamentação da Internet ainda é válida, mas, deixou de se limitar a crimes conforme a nova realidade: Quem tem determinado comportamento online terá off-line, ou seja, quem a pessoa é de fato off-line sempre aparecerá de alguma forma online.

 

Todos sabemos que muitos usuários publicam uma falsa realidade da própria realidade. Ou, como tem sido muito comum, mascaram a verdadeira realidade em que vivem. Fotos nunca deixarão de ser um instante eternizado em imagens: uma foto registra aquilo que o indivíduo deseja eternizar. Uma selfie sempre será aquilo que o indivíduo quer mostrar, compartilhar, nem sempre sendo a própria realidade de fato, sendo assim, uma imagem manipulada, passada por filtros e cortes. Ainda assim, as legendas nestas imagens revelam mais do que as pessoas querem que os outros acreditem e muito do que ela tenta esconder.... Mesmo que seja uma publicação escrita, "Ninguém nunca pode esconder o que se é quando escreve", não é à toa que ter um diário é um tipo de terapia. Talvez por isso, frases "printadas", compartilhamentos das publicações de outras pessoas sejam mais comuns do que a expressão própria: quem realmente pode publicar palavras coerentes resultantes de uma profunda reflexão? Quem realmente sabe o que está dizendo? Sabe-se quem tem alguma noção do que pensa quando compartilha as palavras "printadas" de outra pessoa, além do que, quando eu compartilho as palavras de outro, estou imune às críticas alheias porque, se for necessário me justificar, "não foi eu quem disse, só compartilhei para ver a reação das pessoas"... Quem quer ser responsável pelas próprias atitudes ou palavras? Ainda mais quando nunca foi tão mais fácil arrumar um culpado... A frase já clichê "O que compartilho não quer dizer indireta ou como estou no momento" é contraditória visto que só simpatizamos com algo através de identificação, e se me identifico, o compartilhamento corresponde ao que penso, ao que quero falar, ao meu estado emocional...

 

No princípio deste século falava-se muito de "Inversão de Valores"... Só se falava, como se fosse algo do tipo "eu enxerguei/eu sei" (como ocorre com muitos assuntos), mas, nada foi feito para que a Inversão fosse revertida. Sendo assim, gradativa e sutilmente esta inversão tomou proporções e afetou todas as áreas.... Se um dia uma empresa não mediu esforços para garantir a fidelidade de seus consumidores, agora os consumidores revelam uma dependência por empresas e serviços e nem sempre é por falta de opção, mas, por condicionamento e submissão a ideias e as redes sociais contribuíram muito para isto. Assim também, apesar das leis estendidas no uso da internet, o comportamento mudou com a inversão na interpretação da expressão "Liberdade de Expressão".

 

Sempre será fato o seguinte: a internet será a válvula de escape de muitos. Todos possuem um dilema: frustração, limitação, trauma, distúrbio de nível psicológico, emocional e até psiquiátrico. O mundo pode parecer estar mais exigente e todo tipo de competição por tudo bem mais acirrada, mas, o maior apelo interno do ser humano será a necessidade de ser aprovado ou aceito em qualquer área da Vida.... Esta necessidade é responsável por muitos indivíduos reprimirem quem são - a própria natureza/essência - e se podam, se moldam, se submetem a padrões pré-estabelecidos por uma maioria para poderem se enquadrar na aceitação coletiva. Então, muito do que fica represado no indivíduo, principalmente o que é negativo e causa uma pretensa aversão aos padrões, é literalmente vomitado ou descarregado na internet nas caixas de textos virtuais (comentários).

 

Por mais que exista um empenho em manter a imagem virtual de pessoa de bem, assumida, resolvida, livre de preconceitos, mente aberta, são nos comentários que todo mundo revela quem é de fato, contrariando toda a imagem que ela produz de si mesma, principalmente nas redes sociais.

 

Se formos analisar profundamente a "Liberdade de Expressão", poderemos chegar à dura conclusão que a maioria das pessoas é hipócrita!

 

Segundo o dicionário Liberdade significa condição (estado real) daquele que é livre. Portanto, sendo livre, possui a capacidade de agir (pensar, realizar, tomar decisões...) por si mesmo, possuindo determinação, independência e autonomia. Expressão seria a manifestação do próprio pensamento, seja por palavra ou gesto. Podemos concluir que Liberdade de Expressão é a manifestação de um pensamento livre de um indivíduo livre de quaisquer padrões limitantes ou que não depende da aprovação de outro para manifestar seu pensamento como lhe convém.

 

A Liberdade de Expressão não é ser desbocado: isto é não ter modos, boas maneiras.... Não é falar o que vem à boca: isto é inconsequência... Estes dois modos de agir juntos não refletem ser assumido, ser alguém que se aceita, mente aberta, intelectualmente elevado e coisas assim: significa arrogância, orgulho e dificuldade ao ser contrariado. Quando na pseudo expressão há a presença de palavras chulas ou agressivas, tudo piora: nada tem a ver com Liberdade de Expressão. Ainda mais porque ser livre é poder tudo o que quiser, mas, ser sensato o bastante para saber o que pode...

 

Eis então o novo comportamento virtual disfarçado de Liberdade de Expressão: temas importantes para o Bem Coletivo sendo deturpados ao serem usados apenas para aliviar incômodos emocionais e psicológicos. Não é  acaso como se torna comum o Analfabetismo Funcional: basta ler o título de uma notícia ou a primeira linha de uma postagem e o indivíduo num passe de mágica sabe todo conteúdo do que foi noticiado ou postado e declama todo seu pseudo conhecimento no assunto, deixando evidente para olhos virtualmente mais treinados que o tema exposto não foi realmente lido e compreendido, ou pior, o indivíduo dá voltas em um discurso que finge ser intelectualizado e inteligente revelando que não sabe nada do assunto principal... Se prestar atenção ao comentar em alguma publicação, observe o comentário antes ou depois do seu: ele será baseado apenas no título, no último comentário ou no comentário mais curtido e não no tema a ser comentado...

 

Cada vez mais pessoas visualizam e utilizam as "reações" em vez de comentar algo a respeito: "Dá preguiça de ler ou escrever, mais ainda em pensar". Reflexo de que, na realidade, os usuários não expressam, apenas reagem. E assim, a onda Meme se prolifera disfarçando tudo o que é considerado crime virtual, como o bullying ou o preconceito... E assim, ler comentários revela quão chocante está o interior das pessoas... E assim nasceu o famoso Mimimi: um assunto comum a todos, tornando o espaço virtual um ringue para duelo de egos inflamados... E assim, vale comentar de qualquer modo com as pessoas para ser lido, para receber "curtidas" para parecer inteligente - e não meramente informado - enfim, vale tudo para se destacar. E assim, perdeu-se o real significado de "amigos" quando aqueles rostos e nomes na lista de contatos parecem apenas parte de um álbum de figurinhas...Assim, a hipocrisia domina livremente quando alguém exige respeito, mas, não se dá conta que seu comentário ou publicação está de alguma forma ofendendo e desrespeitando alguém... Quando o pensamento do outro é contrário ao seu, ainda é direito do outro. Quando a expressão do outro é contrária à sua, é direito também e reagir agressivamente contra isso é desrespeito... Dependendo do modo como se manifestar, é crime!

 

Não cabe a ninguém julgar o que leva alguém a compartilhar publicamente algo pessoal e íntimo em qualquer rede "social": os usuários têm o direito de usar suas contas como lhes convém. O conteúdo compartilhado pode causar as mais diversas reações, mas, as reações não deixam de despertar o mesmo nível de preocupação.

 

No direito do usuário de usar sua conta como convém podem surgir verdadeiros "linchamentos" virtuais simplesmente porque contraria a opinião de alguém, e o direito de exercer esta verdadeira Inquisição Moral está disfarçada no argumento "Se não quisesse a opinião dos outros, não publicasse".

 

E se aquela publicação fosse uma expressão, evento, situação na vida real, estas pessoas contrárias teriam a mesma atitude? Ou então, é isto o que na verdade pensam a respeito de vários assuntos, mas reprimem? Por que reprimem na vida real e se manifestam no virtual?

 

Todo mundo pode e deve usufruir do direito à Liberdade de Expressão, contanto que saiba o que isto representa. Dizer o que realmente pensa publicamente na Internet poderia refletir um desejo de contribuir de alguma forma na necessidade de alguma mudança; revelar o que pensa sobre determinado assunto de comoção pública; interagir com amigos e familiares, visto que é “rede social”; disseminar mensagens de motivação e positividade; arrancar risos; compartilhar o que gosta e mostrar indignação sobre algum acontecimento - o que mostra um ser humano empático. Mas, quando alguém tenta converter, convencer, contrariar ou estar "mais certo" que o outro, é possível perceber todos os males internos se manifestando nas entrelinhas, não pensamentos e expressões dignas de mérito. Não é questão de ser obrigado a se auto policiar vinte e quatro horas por dia.... A questão é que quando a atitude é um hábito ela é espontânea...

 

De repente, tudo o que o próprio usuário condena em suas postagens, está presente no modo como as expressa... De repente, a selfie que tenta ostentar um nível de pessoa pode ser contrariada com um simples comentário... De repente, a humanidade, o intelecto, a percepção, a compreensão, a empatia e as boas maneiras estão em vias de extinção...

  

Tudo o que cada um realmente é, é seu nome e sua origem. Antes disso, pertence à espécie humana. Depois disto, resultado de suas escolhas refletidas em seu comportamento: nem pior e nem melhor que ninguém.

 

E sabe o que é ainda mais preocupante em tudo isso? Perdendo gradativamente a humanidade e tudo o que nos torna seres humanos, revelamos algo perverso em nós e que muitas vezes não estamos aptos a usar: o julgamento disfarçado de crítica.

 

* Rita Shimada Coelho é cronista e articulista. É colaboradora de Via Fanzine.

 

- Imagem: Divulgação.  

 

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