| AEROVIA | ARQUEOLOVIA | ASTROVIA | DORNAS DIGITAL | ITAÚNA FANZINE | J.A. FONSECA | UFOVIA | VIA FANZINE |
Ricardo Taipa
|
Costumes: A influência do Brasil em Portugal Brasil e Portugal, tal como Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde estarão eternamente ligados por uma história comum e pelo idioma português, uma língua antiquíssima com origem no Latim da província Romana da Gallaecia, que se transformaria no Galaico-Português e evoluiria no Português contemporâneo.
Por Ricardo J.F. Taipa* de Lódz/Polônia Para Via Fanzine 05/04/2026
Produções de TV, música, futebol, Fórmula 1 e automóveis: em que mais os brasileiros influenciaram os portugueses nos últimos tempos?
Ó pá! Isto aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil iaiá...
A década de 1970 em Portugal começou marcada pela continuação do regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, o qual havia sido substituído por Marcelo Caetano em 1968. A Guerra Colonial portuguesa rugia desde 1961 e com ela, o recrutamento de milhares de jovens para o "Ultramar", ditando a morte de mais de 30 mil soldados e invalidez para outros tantos. Era o fim de uma Era e os últimos dias do Império Colonial português.
Os Territórios Ultramarinos africanos caminhavam a passos largos para o início do processo de independência. Após a revolução de abril de 1974, Marcelo Caetano exilava-se em Copacabana, num Brasil que vivia o período conturbado da Ditadura Militar, sendo presidente o recém-eleito General Ernesto Geisel. O último ditador português morreria ostracizado e amargurado, longe da Pátria, no Brasil, em outubro de 1980 - Primavera brasileira e Outono português.
Brasil e Portugal, tal como Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde estarão eternamente ligados por uma história comum e pelo idioma português, uma língua antiquíssima com origem no Latim da província Romana da Gallaecia, que se transformaria no Galaico-Português e evoluiria no Português contemporâneo. Tal como dizia Fernando Pessoa "A minha Pátria é a língua portuguesa" e a identidade de todos estes países está fortemente linkada nesse idioma. Na África e na América do Sul os países falantes de português têm características únicas em relação aos seus vizinhos, especialmente o Brasil - rodeado por falantes de espanhol, da Argentina até ao México.
Os perfeitos desconhecidos
O Brasil já se havia desprendido dos grilhões do Império e Monarquia desde 1822 e com essa separação ocorre um desligamento entre as duas nações, fruto da distância entre os dois lados do Atlântico, o encetar da construção do Brasil independente e o foco de Portugal na manutenção dos seus territórios ultramarinos na África, na Índia (Goa, Damão e Dio) e em Timor. Macau, na China, seria devolvido contratualmente em 1999 como assinado 500 anos antes.
O século XIX marcou-se pela imigração portuguesa para o Brasil, os chamados "portugueses brasileiros" que em muitos casos por lá fizeram fortuna no comércio e nas fazendas de café e açúcar. As relações comerciais perduraram até hoje porém a variedade de povos no Brasil, as imigrações massivas de europeus. Sobretudo, italianos e alemães moldaram essa nação e o próprio idioma do português por lá falado com a mistura do nativo Tupi-Guarani, o Quimbundo africano e posteriormente, o alemão e o italiano tal como povos asiáticos, sobretudo os japoneses, que trabalharam arduamente nas fazendas de café e que é por si uma fascinante história, tendo em conta que não há outro país no mundo com tal diáspora japonesa - mais de dois milhões de descendentes.
Muitos imigrantes portugueses no Brasil eram gente com pouca instrução e de origem humilde trabalhando em profissões não especializadas, no comércio, em padarias, armazéns, no campo e em fazendas. Será, de acordo com os historiadores, um dos motivos para a eterna "piada de português" ou anedota com portugueses que ainda hoje grassa entre os brasileiros.
O sotaque distinto aliado à conhecida frontalidade e por vezes ingenuidade portuguesa, aliada ao natural ressentimento entre colonizado e colonizador - com a inversão de poderes entre quem era agora o "dono das terras" terá contribuído para tal. Para os portugueses é lugar-comum as tiradas brasileiras do "ó pá", "ora essa" ou todos os portugueses serem chamados de Manuel, Joaquim ou Maria.
Os brasileiros, em muitos casos, parecem ter "ouvido duro" para o português de Portugal, para uns é genuinamente uma dificuldade e por experiência própria em lidar há anos com o Brasil no trabalho (clientes e colegas de trabalho, mas também grandes amigos pelos quais tenho genuíno apreço e amizade) por vezes, temos alguma animosidade por causa disso e vice-versa. Os brasileiros abrem as vogais, enquanto os portugueses, geralmente, fecham. Portugal soa a Pur-t-gale a um brasileiro e o português não diz Bráziú, mas sim, Bra-zile enquanto o nosso país dito pelos brasileiros é Pór-tu-gau para os ouvidos Lusos.
Mas qual o motivo para os portugueses entenderem quase perfeitamente o português dos brasileiros e o mesmo não acontecer ao contrário? Muito provavelmente "treino de ouvido", derivado da influência da televisão brasileira no quotidiano dos portugueses, sobretudo, a partir do final dos anos 70.
Para conquistar o território que é hoje em dia o Brasil os portugueses usaram o engenho, a força, a habilidade, a persistência e também a violência - sobretudo com os povos indígenas e com a mão-de-obra escrava do “Tráfico Negreiro” do Atlântico, que perdurou séculos. Os brasileiros conquistaram Portugal sem disparar um tiro, sem sequer se sentir o cheiro da pólvora. A artilharia veio entre outros da Globo, um canal televisivo brasileiro com a Telenovela Gabriela, emitida pela RTP em 1977.
Diz-se que há hora do jantar o país abrandava. A hora da Gabriela de Jorge Amado com a protagonista Sônia Braga e Paulo Gracindo, era quase sagrada. Pouco recordo isso pois tendo nascido em 1973 ainda era uma criança, mas vagamente recordo ligarem o televisor a essa hora e as pessoas falando um português um pouco diferente com a letra da música da abertura, “Gabriela ê, meus camaradas...”. Figuras de craveira da política portuguesa como Mário Soares e o líder do Partido Comunista Português, Álvaro Cunhal, eram assíduos telespectadores, de acordo com um artigo publicado pelo SAPO.
A atriz Sônia Braga interpretou a personagem Gabriela, na novela homônima produzida pela TV Globo.
Como o sucesso foi arrebatador (a Gabriela até na Polônia foi um sucesso), mais novelas se seguiram como A Escrava Isaura e Dancin' Days, já a entrar na década de 1980. O português do Brasil tornava-se assim, familiar ao ouvido dos portugueses e essa aculturação era tal que causou a necessidade de se rodar a primeira telenovela portuguesa, Villa Faia, em 1982, com Ruy de Carvalho, Ana Zanatti, Nicolau Breyner e Mariana Rey Monteiro, entre outros grandes atores e atrizes do teatro português.
A sede por telenovelas e a indústria de telenovelas brasileiras eram imparáveis. Em 1987, uma das novelas mais impactantes foi Roque Santeiro, com legendários atores e atrizes como José Wilker, Regina Duarte, Lima Duarte, Armando Bógus entre outros.
Ficaram conhecidas e eram imitadas expressões e gestos como o abanar do relógio de Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e o "tô certo, ou tô errado?", além de cenas humorísticas lendárias como aquelas protagonizadas pelo professor Astromar (Rui Resende) e a belezas de Cláudia Raia e Lucinha Lins que, sendo eu então um adolescente, me faziam sonhar...
A canção Mistérios da Meia-Noite (de Zé Ramalho) associada ao Professor Astromar - que se transformava em Lobisomen, ainda hoje está na memória coletiva de muitos portugueses.
“Mistérios da Meia-Noite Que voam longe Que você nunca Não sabe nunca Se vão, se ficam Quem vai, quem foi”.
Roque Santeiro em Angola foi um sucesso tal que até um dos mercados principais da capital, Luanda, chegou a ter esse nome, tal como outros se chamavam de Beato Salu e Asa Branca.
Impactante na minha adolescência foi também a telenovela Tieta do Agreste, apresentada em Portugal em 1991. A abertura era ousada, com uma mulher lindíssima (a atriz, Isadora Ribeiro) a revelar os peitos e a rodar em torno de uma árvore como a serpente do paraíso do pecado original.
A letra da música de Luiz Caldas, pelo menos eu próprio, ainda hoje, consigo cantar de cor: “Tieta do Agreste, Lua cheia de tesão, é mulher diabo é a nossa tentação...”. Mas tenho a certeza que não devo ser o único e sim, a abertura na altura era causa de alguma animosidade entre maridos e as mulheres...
Os "Quadrinhos" vindos do Brasil
Lá em casa havia uma grande abundância de revistas do Tio Patinhas, Pato Donald, Rato Mickey, Pateta, Professor Pardal e Zé Carioca, essas já vinham de Angola onde a minha família viveu até 1975. Em Portugal também eram vendidas e publicadas pela Editora Abril, tal como os Almanaques. Me recordo do Almanaque do Gastão, o irritante primo sortudo do Pato Donald e o Almanaque do Escoteiro Mirim.
Almanaque do Gastão, personagem de Walt Disney produzido pelos quadrinhos brasileiros da Editora Abril, em São Paulo.
Estas revistas da Disney junto com as Selecções do Readers Digest, que era uma subscrição mensal, vinham escritas em português do Brasil. E isso contribuiu também para que imensas expressões brasileiras e até publicidade, produtos e serviços se tornassem conhecidos em Portugal, causando alguma confusão gramatical nas gerações que estavam na escola.
Talvez, por isso, mais tarde, muitas revistas passaram a ter editores portugueses, mas nada disso diminuiu o fluxo vindo do Brasil. O Brasil a nível de indústria, volume e capacidade estava para Portugal como os Estados Unidos estão para o Reino Unido, tudo é em grande quantidade e volume e a qualidade era uma das características.
Notava-se esmero nas publicações e o sentido de humor brasileiro junto com as tipicidades e idiossincrasias da cultura brasileira e do seu povo eram uma curiosidade e agora também parte do quotidiano dos portugueses. As revistas brasileiras como A Turma da Mônica com o Cascão e o Cebolinha, bem como o Sítio do Pica-Pau Amarelo, que havia estreado em Portugal em 1981, fazem parte da memória coletiva de milhares, senão milhões de portugueses.
A familiaridade com o português do Brasil estava consolidada, não só através da televisão e literatura como também na música não sendo difícil encontrar um português ou uma portuguesa que não saiba cantarolar músicas brasileiras ou que haja um Carnaval em que não toque uma marcha com Cachaça não é Água ou Mamãe eu Quero, Cidade Maravilhosa, Me dá um Dinheiro Aí etc. Artistas como Caetano Veloso, Roberto Carlos, Roberto Leal, Ivete Sangalo, Adriana Calcanhotto, Fafá de Belém, Roberto Carlos, Martinho da Vila e o seu icônico sucesso Mulheres foram e são acarinhados pelo público português. A lista seria demasiada longa para mencionar todos!
O cantor popular Quim Barreiros é um dos exemplos de adaptação da música popular brasileira nordestina e artistas como Zenilton e estilos musicais como "Forró" para o universo lusitano.
Futebol, o Esporte-Rei (extremamente) amado no Brasil e em Portugal
Entro em território estranho aqui, sou dos poucos portugueses que pouco entendem de futebol (precisava aqui do meu compatriota em Varsóvia, o Nuno Bernardes, que é um perito nesse desporto), mas aprecio os mundiais e o europeu de futebol mais do que o eterno Benfica versus Sporting versus Porto.
Primeiramente, há uma clara clivagem nos termos futebolísticos entre os dois países. Goleiro é o Guarda-Redes, Gol é Golo, Zagueiro é Defesa-Central, Escanteio é Pontapé de Canto, Gramado é Relvado, Botas são Chuteiras, Torcida é Claque, Driblar é Fintar, Juiz é Árbitro e muitos mais.
O que não é clivagem são os jogadores brasileiros em Portugal, muitos deles com as duas nacionalidades. Mário Jardel do Futebol Clube do Porto fez história e é um dos melhores marcadores de sempre. Hulk, Luisão, Deco, Liedson, Pepe, Silas são uma pequena amostra de talentos vindos das terras de Vera Cruz, tal como técnicos, o legendário Scolari, Carlos Alberto Silva e Otto Glória nos anos 50 em pleno Estado Novo.
O jogador de futebol brasileiro Jardel, marcou época em Portugal.
E nos mundiais de futebol ou Copa do Mundo, como dizem os brasileiros, o Brasil é acompanhado com interesse e até apoio de muitos portugueses quando Portugal é eliminado.
Brasil ao volante, dirigir ou conduzir?
O desporto automóvel, sobretudo, a Fórmula 1, não pode passar sem nomes de referência como Ayrton Senna, Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi, Rubens Barrichello e Filipe Massa. Em Portugal, ouvia-se por vezes a expressão: “Achas que és o Fittipaldi?”, quando se conduzia muito depressa ou em excesso de velocidade.
Ayrton Senna, um nome gigante da F1 e do desporto automóvel, foi e é ainda um dos pilotos mais respeitado e carismático. Particularmente, no dia do fatídico acidente que lhe tirou a vida, deixei de ver F1. A namorada de Senna, Adriane Galisteu, viveu em Sintra durante mais de um ano, depois do falecimento de Senna, onde ele tinha uma ligação forte.
O piloto de F1, Ayrton Senna, obteve elevadas estima e admiração em Brasil e Portugal.
A indústria automobilística brasileira, que devido a restrições à importação de carros estrangeiros, se desenvolveu internamente como a Fiat, VW, GM e Ford marcando a sua presença por um breve período de tempo em Portugal. Sobretudo, com a VW Brasília, que era uma alternativa interessante e acessível ao antiquado VW Carocha (Fusca), que havia deixado de ser fabricado na Europa no final da década de 1970. Ainda hoje se veem algumas Brasílias portuguesas em mãos de colecionadores privados.
O WV Brasília, veículo produzido pela indústria automobilística brasileira, pela empresa alemã Volkswagem.
Os Brasileirismos
Todos os idiomas têm influência de outros e o português de Portugal não é exceção, com inúmeros galicismos (Francês) e anglicismos, mas também brasileirismos, fruto da aculturação entre as nações e as vagas de imigrantes e emigrantes da diáspora brasileira e portuguesa.
Sem que muitos portugueses se apercebessem, palavras como, Bicha para designar uma linha de espera com pessoas, passou a ser Fila, porque bicha é aquilo a que os brasileiros chamam de homem efeminado ou que gosta de pessoas do mesmo sexo. A Fofoca que era o Mexerico agora é mais comum dizer a Fofoqueira(o) do que bisbilhoteiro(a).
Com o advento da Internet e youtubers brasileiros, junto com o influxo da imigração brasileira nos anos de 1990 e nas décadas seguintes, a influência foi ainda mais marcante, especialmente para as gerações de portugueses e brasileiros que convivem diariamente nas escolas, nas universidades e no trabalho.
O fenômeno foi amplamente discutido em inúmeros artigos na imprensa e entre professores e linguistas. Não é incomum hoje em dia ouvir uma criança portuguesa a dizer Policial em vez de Polícia, Cadeirante em vez de Inválido, Grama em vez de Relvado, Dica em vez de Sugestão, mas também o reverso com crianças brasileiras capazes de alternarem entre as duas versões do idioma ou a dizerem Gajo em vez de Cara, Parvo em vez de Bobo, Autocarro e não Ônibus etc.
Dados estatísticos referem que mais de meio milhão de brasileiros vivem atualmente em Portugal, trabalhando em todos os setores da economia e a maioria contribuindo para a Segurança Social. A integração é facilitada pelo idioma - em questão de meses o tal "ouvido duro" desaparece, mas não é exatamente fácil o que tem vindo a ser reportado por inúmeros brasileiros que vivem em Portugal.
Muitos lutam por salários e habitação condigna (têm dificuldades em encontrar renda e aluguel acessível), os processos de legalização são demorados e complicados, há casos de xenofobia reportados e preconceito contra cidadãos brasileiros e estrangeiros e, também o modo de ser e de estar dos portugueses - mais brusco, frontal, menos relaxado, mais sério e com regras de convivências sociais apertadas. Ouvir música alto na praia, no transporte público ou em casa a partir de determinadas horas é punível com multa e socialmente mal visto, o "jeitinho" brasileiro nem sempre é aceito de bom grado, sobretudo, se desonesto ou que vise prejudicar terceiros em usufruto próprio.
Expressões como chamar o garçom de Moço pode ser vista como ofensiva, por ser considerada em Portugal como achar alguém "um Moço, uma criança um ou Zé Ninguém". Casos do humor e humor sarcástico português pode ser considerado ofensivo, porque é dito com cara séria como casos em que o brasileiro pede num restaurante ou num café: “Queria um café por favor”, e o garçom responde: “Queria ou quer?”. A graça nem sempre é entendida como tal pelo brasileiro e este considera que o garçom foi rude.
As ramificações do PCC e CV e o crime organizado brasileiro estão bem presentes em Portugal no narcotráfico, lavagem de capitais, tráfico de armas e de humanos, corrupção ativa e passiva e até no futebol e política portuguesa. A situação é grave e contribui em parte para a animosidade entre portugueses e brasileiros, o caso do "paga o justo pelo pecador".
Notícia em destaque na CNN Portugal.
Mas há inúmeros casos de sucesso de brasileiros em Portugal. Sem a violência diária, sobretudo, os que vieram de grandes cidades com violência urbana e sem extorsão do crime organizado, os negócios prosperam. O trabalho intenso dá frutos e onde muitos portugueses não querem viver, como zonas do interior do país, onde os velhos morreram e deixaram casas e propriedades que os filhos não têm interesse em manter, o brasileiro vê uma oportunidade. Compram, restauram eles mesmos, comprando os materiais, as casas antigas que em tempos foram propriedades rurais ou de senhores burgueses que plantavam vinha e tinham gado. O YouTube mostra imensos vídeos sobre esse fenômeno.
Quando visitei Portugal em março deste ano (não ia lá desde 2022), viajei, sobretudo, pela zona conhecida como "a outra banda" ou seja, o outro lado do Rio Tejo quando visto de Lisboa. Lavradio, Barreiro, Montijo, Alhos Vedros, Setubal, Azeitão, Sesimbra são zonas com uma forte presença de brasileiros, não é raro ver a bandeira da Ordem e Progresso numa janela qualquer. Na rua onde fiquei durante a estadia, no supermercado ao lado, as caixas que atendiam eram brasileiras, muitos vizinhos eram do Brasil e disse-me a minha mãe que, em serviços como por exemplo a reparação do esquentador a gás são brasileiros que lá vão à casa.
Nos supermercados e padarias já se têm à venda os famosos doces "brigadeiros", feitos com chocolate e leite condensado e até no aeroporto da Portela - agora chamado Humberto Delgado (político português que enfrentou Salazar e que, curiosamente, tinha uma secretária e amante brasileira - Arajaryr Campos - ambos assassinados pela PIDE em 1965), a senhora que me atendeu na loja Duty Free era brasileira de Belém no Pará.
Humberto Delgado e Arajaryr Campos.
A animosidade existente entre brasileiros e portugueses é entre outros frutos, de uma rivalidade da Era Digital, onde o anonimato facilita a interação negativa nas redes sociais com insultos e desdém de parte a parte por assuntos geralmente frívolos. E o legado histórico do colonialismo que foca muitos dos problemas atuais existentes no Brasil, como herança dos portugueses a par com provocações mútuas como pedidos para os portugueses "devolverem o ouro roubado ao Brasil", chamar Portugal de Pernambuco de Pé, Guiana Brasileira ou Faixa de Gajos ou ser o Brasil apelidado de Favela Gigante ou Colônia de Portugal.
Na realidade é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa e ao contrário dos ingleses, norte-americanos e australianos, que são unidos pelo mesmo idioma e formam, por isso, uma coesão visível e com influência mundial como a Common Wealth, os portugueses, os brasileiros, os angolanos, moçambicanos e outros países de expressão oficial portuguesa deveriam ser mais unidos e aproveitarem os laços históricos e linguísticos para serem uma voz audível no mundo, uma voz em português ainda que com muitas pronúncias distintas.
* Ricardo J.F. Taipa é articulista e cronista português, reside em Lódz/Polônia. É colaborador de Via Fanzine e autor do blog Um Português na Polônia.
- Imagens: Internet/Reprodução.
- Produção: Pepe Chaves
* * *
Memória Coletiva: O Efeito Mandela e James Bond no Brasil Falsas memórias coletivas ou universos paralelos em colisão? A polêmica onde os expectadores de um filme de James Bond se lembram da cena onde uma atriz usava claramente um aparelho de dentes, que na verdade nunca usou.
Por Ricardo J.F. Taipa* de Lódz/Polônia Para Via Fanzine 20/01/2019
Quem assistiu ao filme (inclusive este autor) garante que ela usava um aparelho nos dentes durante esta cena, onde um sorria para o outro. Leia também: Outros destaques em Via Fanzine
O filme é Moonraker, intitulado em português Aventura no Espaço (em Portugal) e 007 Contra o Foguete da Morte (no Brasil) apresentado nos cinemas de todo o mundo em 1979. Ficou célebre por ser um dos filmes da saga James Bond com cariz de ficção-científica. Numa conspiração maquiavélica do bilionário Hugo Drax, o vilão psicopata tencionava destruir a humanidade lançando do espaço na atmosfera terrestre as “orquídeas da morte” deixando os únicos sobreviventes, todos eles homens e mulheres esbeltos e perfeitos, numa espécie de estação especial, na qual ele se encontrava, para recolonizar o planeta depois do grande cataclismo.
Filmado no Brasil, no Pão de Açúcar, durante o Carnaval de 1978 durante a imensa festa que vê o Rio de Janeiro se transformar num gigantesco baile, a cena mais carismática tem lugar no teleférico do Pão de Açúcar, culminando com um dos vilões de 007 – Jaws ou Mandíbulas – interpretado por Richard Kiel – destruindo o teleférico, ficando quase soterrado e debaixo de uma enorme roda mecânica.
É nesta cena que, Dolly – interpretada pela atriz francesa Blanche Ravalec – aparece e ajuda o mostrengo a sair debaixo dos destroços (Assista à cena). Sacudindo o pó, Jaws vê diante de si uma jovem loira, de tranças e óculos. O mauzão sorri, mostrando os seus assustadores dentes metálicos e a jovem, nervosa, sorri de volta, mostrando o seu aparelho dentário. Jaws e Dolly parecem estar enamorados à primeira vista e fogem apenas para serem vistos mais tarde no filme, ajudando James Bond a destruir Drax e o seu projeto insano…
O que há de anormal aqui é o fato de Dolly nunca ter usado aparelho dentário, e na cena ela aparecer com um sorriso bonito mas sem mostrar metal nos dentes… Dolly nunca usou aparelho no filme, em momento algum (algumas fontes na Internet afirmam que a atriz o confirma), ainda que, aparentemente, quase todas, senão todas as pessoas que assistiram Moonraker garantem que ela usava um aparelho nos dentes e recordam bem da cena. Juram de pés juntos que a cena agora não faz sentido nenhum [com ela aparecendo sem o aparelho na boca]! Entre eles, este escriba, que assistiu ao filme por vezes na RTP1 (canal público da televisão portuguesa) e em VHS – recordo bem uma tarde de Verão na casa do Jorge Azevedo a vermos Moonraker no então moderníssimo “video-gravador” e lá estava, Dolly a sorrir para Jaws com o dito aparelho…
Este fenômeno não me tirou o sono, mas sem dúvida custou-me a adormecer no dia em que me inteirei a respeito porque, tal como milhares de pessoas em todo o mundo, incluindo fãs acirrados de James Bond e de cinema, eu me recordo vividamente de algo que nunca existiu - ou será que existiu, noutro tempo, noutro lugar?
O Efeito Mandela
Este termo, relativamente recente e controverso, denominado de pseudociência, falsa memória (pela comunidade científica) e até de teoria da conspiração, tem origem na alegada morte do líder africano Nelson Mandela, nos anos 80, no cárcere em Johanesburg – Mandela morreu em 2013 e foi Presidente da África do Sul – no entanto o número de pessoas que alegadamente recordam a sua morte, funeral e todo o luto de um país, transmitido na televisão e emitido mundialmente batizou este fenômeno de “Mandela Effect” em inglês ou Efeito Mandela.
Considerado cientificamente como falsas memórias, ou seja, a recordação falsa, errônea ou distorcida de algo que aconteceu, o Efeito Mandela é explicado por falhos e lapsos na memória humana, singulares ou coletivos sobre acontecimentos, detalhes e situações que aconteceram de um determinado modo, mas são recordadas de outro, totalmente distinto. Exemplos não faltam na Internet, no YouTube com vídeos a debaterem exaustivamente este assunto, alguns dos exemplos mais conhecidos e debatidos são:
- O Mr. Pennybags (o velho da cartola) do jogo Monopólio tinha um monóculo quando nunca teve.
- Os ursinhos Berenstein são os ursinhos Berenstain, com um A.
- O filme Interview with the Vampire é recordado como Interview with a Vampire.
- Sex in the City é afinal Sex and the City.
- O logótipo da VW não ter o V e o W separados ou o F da Ford não ser rebuscado.
- Um filme denominado Shazzann, com um gênio da lâmpada, descrito por muitos americanos em pormenor, mas que nunca foi filmado, o ator nega ter sido contratado para tal filme.
- Em Star Wars, Darth Vader diz “Luke, sou o teu pai” quando na realidade disse “não, sou o teu pai”.
- O robô c3po de Star Wars ter uma perna prateada – praticamente ninguém se recorda desse pormenor, mas sim de este ser totalmente dourado.
- A Bruxa Má no filme da Disney dizer “Mirror, mirror on the wall” (espelho, espelho na parede) quando na realidade diz “Magic mirror on the wall” (espelho mágico na parede).
- Tom Hanks em Forrest Gump dizer na famosa cena dos bombons “Life is like a box of chocolates” (a vida é como uma caixa de bombons) quando afinal disse “Life was like a box of chocolates” (a vida era como uma caixa de chocolates).
- A canção “We are the Champions” do Queen já não terminar com “of the world” etc…
Muito antes da polêmica do aparelho dentário, em vídeo de 2014 aparece um cientista do CERN com cartezes escrito "James Bond #1" e "Mandela". Seria uma simples coincidência?
Os exemplos são ainda mais vastos, sendo os mais discutidos todos aqueles da cultura popular que são transversais a todos os países e culturas.
Fora dos limites impostos pelo método científico, o Efeito Mandela é atribuído, entre outros, a possíveis alterações no espaço-tempo, devido a interferências sutis no passado (viagens no tempo), convertendo o futuro em algo distinto daquilo que nos recordamos. Ou mesmo algo mais rebuscado, como a possibilidade de o CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) na Suíça ser o responsável por criar ou cruzar – porventura acidentalmente - um universo paralelo, ou uma realidade paralela, àquela em que nascemos e crescemos.
Intrigante é o fato de haver um vídeo feito pelos funcionários do CERN, de 2014, intitulado We are Happy at CERN (assista ao vídeo do CERN) onde os seus funcionários dançam felizes e mostram o interior do enorme laboratório quando, aos 2 minutos e 32 segundos, um dos seus famosos cientistas segura um papel com os dizeres “We are HAPPY @ CERN” e dois cartazes, um onde se pode ler “BOND #1” e outro “MANDELA” [imagem acima].
Isto foi considerado por muitos internautas e “YouTubers” como algo muito bizarro, ainda para mais tendo em conta que a questão do aparelho de Dolly no filme de James Bond ainda não era debatida e a discussão sobre o Efeito Mandela ainda não tinha tomado as proporções quase virais que tem nos dias que correm.
* Ricardo J.F. Taipa é articulista e cronista português, reside em Lódz/Polônia. É colaborador de Via Fanzine e autor do blog Um Português na Polônia.
- Imagens: Internet/Reprodução.
- Produção: Pepe Chaves
|
| AEROVIA | ARQUEOLOVIA | ASTROVIA | DORNAS DIGITAL | ITAÚNA FANZINE | J.A. FONSECA | UFOVIA | VIA FANZINE |
© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.