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Marcelo Sguassábia

 

Marcelo Sguassábia, reside em Campinas-SP. É redator publicitário e colunista

para diversos jornais e revistas eletrônicas. É colaborador de Via Fanzine.

© Direitos Reservados, Marcelo Sguassábia, 2018.

 

 

A família reunida

 

Uma retrospectiva da obra de Klausten Van Herbert, no MoMa, reacende o debate em torno de um dos mais célebres quadros da história da arte: "A Família Reunida".

 

Foco de discussão há anos entre críticos de arte, leiloeiros, marchands e estudiosos, o sorriso enigmático – especificamente do pai – parece mais intrigante com o passar do tempo e com a sucessão de teses acadêmicas das quais é objeto.

 

No âmbito estilístico, a influência de Miró é predominante e incontestável, bem como da arte naif. Mas engana-se quem se deixa levar por essa definição reducionista.

 

A aparente singeleza e a suposta simplicidade da obra são ardilosamente manejadas pelo artista para ludibriar o desavisado observador. É como se o autor tivesse a intenção de provocar discórdia, agindo premeditadamente para polemizar.

 

No primeiro boneco, em vermelho, percebemos a ausência de olhos como uma velada porém não imperceptível crítica à manipulação da realidade pelos meios de comunicação, que têm na alienação do ser humano e na subserviência das massas ao status quo o seu maquiavélico objetivo.

 

Teóricos parecem concordar com a interpretação de que a figura materna é muito possivelmente representada pelo serzinho em azul. A ausência dos pés retrataria a forçada imobilidade feminina na dinâmica socioeconômica. É a chamada "arte denúncia", que nas democracias mais evoluídas vem encontrando estímulo cada vez maior, tanto no que se refere ao fomento governamental e aos patrocínios da iniciativa privada quanto aos espaços de exposição, modernos e bem estruturados.

 

Evidente que, em obra tão permeada por signos subjacentes - e não raramente despercebidos ao olhar desatento da fruição meramente estética - seria de se esperar a presença de símbolos concernentes às sociedades secretas, como a Maçonaria, a Ordem dos Templários, os illuminati, a Opus Dei e os Rosacruzes. E tais referências saltam aos olhos: mesmo aos não iniciados, revela-se óbvio esse intento, materializado em um sem número de elementos representativos dessas organizações.

 

Já a ausência de uma figura em amarelo vem sendo erroneamente interpretada como segregação à cultura oriental. Em recente coletiva de imprensa, o consagrado pintor esclareceu que os tons amarelados, embora não presentes nas pessoas do quadro, consta do arco-íris ao fundo. No entendimento do autor, isso colocaria o amarelo e todas as suas conotações étnicas e filosóficas como parte da natureza e da vida.

 

Por último, parece nítido o propósito de Klausten Van Herbert em atribuir o conceito de ascendência ou elevação às figuras retratadas. Basta que o espectador repare no aclive da perspectiva dos pés em relação à base do quadro. Observa-se um ângulo a elevar-se da esquerda para a direita, o que pode ser entendido também como uma simbologia das convicções políticas do artista, que como todos sabem migrou da militância ativa no Partido Comunista para uma posição ideológica bem mais conservadora.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 14/04/2018.

 

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Material de demolição

 

 

MATERIAL

 

O oratório e o missal de madrepérola, tacos pequenos soltando em efeito dominó, um vidro começado de xarope São João, esfregão sem cabo servindo de peso de porta, cantoneiras de retrato em práticas embalagens de 200 unidades, velas votivas Belém 100% parafina, o Opus Dei precisa da sua colaboração: preencha aqui o valor de sua contribuição mensal, disco é cultura, com sua Lanofix você poderá fazer roupas de tricô para toda a família, Gillette Platinum Plus Registered Trade Mark, Monark Monareta 73 - toda a loucura da vida para rasgar o mundo, azedinhas sortidas Sönksen, contribua pela formação de um Brasil grande: encaminhe um analfabeto a um posto do Mobral, Loteria Esportiva Federal - teste 254, com Magnésia Bisurada você fica bom mais depressa, fogão Semer Radiante em oferta relâmpago na Eletroradiobraz, ouça em alto e bom som no seu rádio Admiral.

 

DEMOLIÇÃO

 

Hashuashuashuashua :D :D :D

Bfds, vacilei mais vou googlar, sqn véi. :(((((((

Vlw. Joseh Bonifácil? Nuntendi, eh onde fika sua ksa, miguxo? Posso te add? kbeça zuada hj, bjão, tão xau.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 09/04/2018.

 

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O remédio é a permuta

 

 

- Nossa rede de farmácias tem uma oferta irrecusável pelo seu terreno, Sr. Álvaro.

 

- Bom, não tá à venda. Mas dependendo do que você tiver aí na manga, não sou louco de não aceitar...

 

- O senhor sabe que está todo mundo mergulhado até o pescoço nessa crise, e a oferta de imóveis excelentes para vender é enorme. Terrenos semelhantes ao seu, nesse bairro, há pelo menos uns vinte anunciados.

 

- Tá, pode pular essa parte.

 

- Indo direto ao assunto: só fazemos negócio à base de permuta.

 

- Não estou entendendo. O que uma rede farmacêutica vai querer permutar em troca do meu terreno?

 

- Óbvio: remédios. Todos os que o senhor e sua família precisarem.

 

- Oi????

 

- O senhor já parou para pensar o peso que tem o gasto com medicamentos no seu orçamento doméstico? Basta fazer uma conta por alto, assim de cabeça, e vai se assustar com o resultado. Fica entre 7 e 20% das despesas mensais. Um percentual que vai aumentando conforme a família envelhece.

 

- Maluco isso...e quem da família pode aproveitar essa permuta?

 

- O senhor, sua esposa, seus filhos, netos, genros, noras, sogros, cunhados e parentes até o segundo grau. Do seu ramo familiar e da sua mulher também. E é vitalício, o contrato vale até que todos morram. Mas o terreno tem que vir como doação para a Rede imediatamente, com escritura em cartório, tudo direitinho.

 

- Mas eu posso morrer amanhã! Aí dessa permuta eu não aproveito nada... É cada uma que me aparece!

 

- Veja, com tantos remédios à sua disposição, vai ser difícil o senhor morrer tão cedo. E, se morrer, vai deixar uma bela herança em saúde para a família toda.

 

- Só que o meu terreno vale 2 milhões!

 

- E quanto vale a saúde da sua família? Seu neto, por exemplo, pode vir a precisar de um remédio caríssimo, de uso diário... Será tudo por nossa conta. A única possibilidade do senhor fazer mau negócio é se sua família inteira estiver a bordo de um avião que venha a cair e mate todo mundo. Aí não dá para fazer nada mesmo.

 

- Nossa, seria azar demais.

 

- Só que tem alguns pontos importantes, previstos em contrato, para a permuta não virar bagunça. O senhor pode ter parentes hipocondríacos, e aí vamos ter prejuízo. Outra coisa: hoje em dia farmácia vende de tudo. Tem chocolate, isotônico, recarga de celular, barrinha de cereal, bronzeador, batata frita... Então é bom que fique bem claro que a permuta é para medicamento. E tem que haver uma perícia com um farmacêutico da rede, para saber se o remédio requisitado condiz com o quadro do paciente.

 

- Sei. E vai ter farmacêutico de plantão na farmácia?

 

- Ahnnnnn.... bem... o que eu quero dizer... Olha, tem que ter a autorização de profissional habilitado. Se não tiver farmacêutico aqui na hora, o gerente liga para a central da rede e a gente envia um para fazer a perícia. Esse ponto precisa ficar bem entendido.

 

- Que prazo eu tenho para dar uma resposta?

 

- Meia hora. A máquina de terraplenagem já está vindo para cá.

 

- Calma aí, queridão. E se eu não quiser fechar negócio?

 

- Sabe aquele outro terreno, atravessando a rua? Já está vendido para nós, caso o senhor não aceite.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 31/03/2018.

 

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Mané, saudoso Mané

 

 

Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

 

Dizia o Mané:

 

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

 

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

 

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

 

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

 

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

 

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 24/03/2018.

 

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Retatuando

 

 

A ideia é fantástica: tattoo imitando pele, para ser aplicada por cima do corpo tatuado, simulando uma derme zero quilômetro. Um processo caríssimo e muito mais demorado do que encher o corpo de dragões, flores, âncoras, crânios, frases e assemelhados.

 

Há uma vasta escala de cores com todos os tons de pele possíveis e imagináveis. Encontrado o tom exato do cliente, este passará semanas aos cuidados do tatuador, tendo que suportar um total estimado de 4 trilhões de agulhadas até que a falsa nova pele fique pronta.

 

A nova tecnologia tem duas finalidades principais. A primeira é possibilitar a reversão do que até agora era irreversível, deixando o corpo da forma com que veio ao mundo. A segunda é como limpar um muro todo pichado e deixá-lo pronto para nova pichação. Ou seja, uma solução voltada aos amantes compulsivos dessa antiga arte - aqueles que só não carregam mais tatuagens em si por falta de espaço na carcaça.

 

O primeiro público consiste, em sua maioria, de evangélicos neoconvertidos, que de uma hora para outra encasquetam que seu corpo é a morada do Senhor e, como tal, deve ser mantido do jeitinho que foi criado. E também dos desiludidos do amor, que aplicaram em si mesmos frases ou extensas declarações de paixão eterna, com o nome da cara metade, e acabaram por levar um pé na bunda.

 

Já o segundo público, bem mais "outsider" que o primeiro, terá a sensação de portar sobre si um verdadeiro parque de diversões, podendo substituir desenhos e símbolos que considere ultrapassados ou dos quais já esteja farto de carregar pra baixo e pra cima. Para esses alternativos, seria como nascer de novo - abrindo seus corpos para o inenarrável prazer de entupir cada poro de tinta.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 17/03/2018.

 

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O Robô vai roubar

 

Pasme, porque a coisa é séria e assustadora. Um pedreiro, daqueles de mão cheia, que trabalha rápido e bem, consegue assentar até 600 tijolos ao longo de oito horas de serviço. Isso em condições ideais de temperatura e pressão, contando que o sujeito irá pular da cama disposto e louco pra botar a mão na argamassa. O robô, já concebido e no aquecimento para roubar seu lugar, assenta POR HORA cerca de 1500 tijolos – milimetricamente aprumados, sem desperdício de material, sem cantoria de pagode, sem parar para começar outro serviço enquanto não termina o que está fazendo ou para chavecar a mulherada que passa em frente à obra, com o manjado “ô, lá em casa!”. Mais: sem salário, sem nunca ficar doente, sem FGTS, sem INSS, sem décimo-terceiro, sem greve, sem panetone e sidra de fim de ano. O máximo que vai exigir é uma ou outra borrifada de WD40 de vez em quando. Esse é um exemplo, para ficar só na construção civil. Juro que não quero estragar o seu Natal, nem o espírito de harmonia e fraternidade reinante, mas o poder de destruição da Inteligência Artificial promete não deixar pedra sobre pedra. Vai virar tudo do avesso e passar a Makita em milhões de pescoços.

 

Tem jeito de evitar isso? Não. Tem jeito de evitar as consequências disso? Também não. Então, fazer o quê? Tentar deixar menos árdua a remoção dos escombros e a reinvenção da roda. Fóruns de discussão e congressos mundo afora debatem a possibilidade de uma giga-tributação sobre os robôs, como forma de inibir sua utilização desenfreada e o resultante desemprego em massa. Aí então teríamos robôs em oferta abundante e a preços módicos, mas não teríamos empresários dispostos a arcar com o ônus de utilizá-los. Logicamente, a produtividade e a diminuição de custos prometidas pela Inteligência Artificial, que trariam uma brutal redução nos preços de tudo, ficariam pra depois. Afinal, de que adianta o mundo a preço de banana, se não tiver ninguém empregado e recebendo direitinho para limpar as prateleiras?

 

Pessimistas mais radicais profetizam que a automoção e o autosserviço tomarão conta de toda a cadeia econômica, e que funções burocráticas e mecânicas serão rapidamente varridas dos comércios e das indústrias. Até mesmo contadores, engenheiros, nutricionistas, analistas de laboratório e adestradores de foca estariam ameaçados de extinção para darem lugar ao fantástico poder dos algoritmos. Tudo bem, novas funções surgirão, mas com um potencial de empregabilidade infinitamente inferior ao número de humanos tornados obsoletos da noite para o dia. Não é difícil imaginar o aparecimento de fábricas moderníssimas, cujas inteligências artificiais produzirão artefatos de Inteligência Artificial para controlar robôs artificialmente inteligentes que executarão miríades de tarefas antes a cargo do pessoal de carne e osso. E o Nosso Senhor lá em cima assistirá a tudo isso com um olhar complacente e um sorriso de canto de boca, como quem já sabe desde o início dos tempos qual será o final dessa novela. Que Ele nos inspire e nos abençoe.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 10/03/2018.

 

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Mim Tarzan, You Tube

 

 

Definitivamente, Tarzan não estava em seus melhores dias. Chegou à repartição meia hora depois do cacique, derrubou pó de guaraná na camisa branca e, como se não bastasse, o programa travou no meio da planilha. O relatório precisava estar pronto dali a duas luas, no máximo.

 

Ficou olhando impotente para o mico computador, contando até 10 para não esmurrá-lo. Era todo de jacarandá, com uns detalhes em peroba rosa. Talvez por isso desse pau o tempo todo. Comprado de contrabando, veio escondido debaixo de um carregamento de mogno vindo do Amapá.

 

O gabinete de Tarzan era no décimo oitavo andar da palmeira imperial 15, Asa Sul de Bem-Te-Vi.

 

Lá vem ela: Jane. Aquilo não era uma mulher, era uma reserva natural paradisíaca. Assim ficava difícil se concentrar no trabalho. Funcionária nova, chegara ali transferida da Funai, depois de ter servido oito anos na Sudam. Se aproxima insinuante e pergunta qual o melhor caminho pra voltar pra casa.

 

Meu Santo, Daime forças pra resistir à tentação. Seria uma inesquecível transa amazônica...

 

Tarzan explica que o caminho mais fácil é pegar o cipó 12, passar três estações, fazer conexão com o cipó 35, saltar na Avenida Vitória Régia e dali ir de canoa até sua oca.

 

Com vestido de chita essa Jane fica um arraso, ele pensa. Mas, se abatesse a presa, teria que ser mais cauteloso do que com aquela gata vestida de oncinha, que levou para o meio do mato na semana passada. Por um descuido a conta do “Moita’s Hot Night” foi parar na fatura do cartão de crédito. Pra explicar em casa não foi nada fácil, o couro de jacaré comeu solto quando chegou na cabana.

 

A reunião com a diretoria foi demorada. Pauta do dia: Alternativas para livrar a selva de pedra da extinção, detendo a devastação da cidade pela floresta e preservando os mananciais de CO2. "O crescimento desordenado da mata nativa vem engolindo impiedosamente as chaminés das fábricas. Se não fizermos alguma coisa agora, não vai sobrar uma fumacinha para as próximas gerações", argumentava colérico o gerente de assuntos institucionais. E aí a discussão se estendeu com todo aquele papo de sustentabilidade, de responsabilidade ambiental, que a empresa precisa se mobilizar pra calar a imprensa e aplacar os ânimos da opinião pública, etc. Ao final, tudo combinado e nada resolvido. Saiu esgotado do blá-blá-blá e parou no bar para um Gin das selvas. Duplo.

 

De volta à cabana, acessou amazon.com e encomendou o último lançamento do Ramos de Carvalho, que o Campos Nogueira havia recomendado para seu primo, Pinheiro da Serra. Aproveitou e comprou também um ensaio do Florestan Fernandes e um CD da Vanessa da Mata.

 

Já na rede, pegando no sono, o celular toca. Era o Aníbal pedindo que lhe quebrasse um galho. E toca o tonto do Tarzan a se embrenhar floresta adentro, com a moto-serra nas costas, pra resolver o problema do amigo.

 

Nisso já clareava o dia. Parou na banca de jornais, comprou a “A Voz Nativa” e leu a reportagem sobre um projeto voluntário de crianças que derrubavam árvores para transformar em roçados de arroz e soja. A matéria também falava de um grupo de adolescentes que drenou um rio e seus peixes para enchê-lo de asfalto. As fotos mostravam as mães dos meninos chorando de emoção, o jornal elogiava o exemplo de cidadania, um representante da ONU veio condecorar a escola e os alunos pelo feito inédito e inspirador.

 

Com os olhos marejados, dobrou o jornal e seguiu direto para a repartição, exausto e sem banho tomado, mas com o gratificante sentimento de que nem tudo estava perdido nesse mundo.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 04/03/2018.

 

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Ministério da Solidariedade

O governo da Inglaterra acaba de criar o Ministério da Solidão. Tido como epidemia oculta, o problema afeta mais de 9 milhões de britânicos, que trocariam o saldo bancário por um dedinho de prosa.

 

Mas se os ingleses são solitários, os brasileiros são por natureza solidários. Talvez aí resida a principal diferença entre os súditos da rainha, aparentemente tão tristes e cabisbaixos em sua nublada rotina, e nós, solares, extrovertidos e sempre sorrindo para a vida ou dando de ombro aos revezes. Um povo prestativo e solícito, pronto a ajudar por vocação, não por obrigação.

 

O fato é que, da cinzenta ideia do Ministério da Solidão, surgiu ao Governo Federal a simpática iniciativa de instituir o Ministério da Solidariedade.

 

Como disse John Kennedy, com raro senso patriótico: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer pelo seu país". Nosso Brasil não suporta mais tamanha carga tributária, que tanto onera o preço final dos produtos e o orçamento dos mais necessitados. Assim, ao invés de criarmos novos e impopulares impostos, incentivaremos a solidariedade de nossos cidadãos, para que espontaneamente doem recursos aos cofres públicos - o que é bem diferente da taxação compulsória.

 

Sabe-se que todo o alto escalão do Ministério da Economia estará reunido hoje e nos próximos dias, em caráter de urgência, debruçando-se sobre as logísticas de arrecadação e os incentivos necessários a atrair o contribuinte. Uma das ideias em pauta é a emissão, em papel moeda marcado com brasão holográfico da República, do certificado "Cidadão Solidário", a ser entregue a todos os doadores de quantias superiores a R$1.500,00. Nele, o governo compromete-se a ser tolerante em demandas de fiscalização que não envolvam estelionato e outros delitos graves, como forma de recompensar a ajuda extra desembolsada pelo cidadão que aderir às doações. Obriga-se, ainda, a destinar os recursos provenientes da receita solidária exclusivamente à saúde, à educação e à segurança pública, com prestações de contas periódicas no Portal da Transparência.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 19/02/2018.

 

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Grande Muralha

 

 

Os chineses fazem qualquer negócio. Sabem comprar e sabem vender. Arrematam na bacia das almas, passam pra frente a peso de ouro. Têm a manha de copiar o que o mundo faz de melhor, aperfeiçoar e exportar para a Via Láctea inteira por uma décima parte do preço de mercado.

 

Um dos desafios atuais do gigante vermelho é como fazer dinheiro do seu maior e mais valioso patrimônio - a Grande Muralha da China. Construída ao longo de vinte séculos, estende-se ao longo de inacreditáveis 21.196 km e tinha como finalidade original defender as divisas do país contra as invasões de outros povos, especialmente os mongóis.

 

Com os mongóis deixando de ser ameaça, essa maravilha da humanidade passou a não ter utilidade alguma além de servir de cenário para fotos turísticas. A lenda arquitetada em torno dela, de que seria a única obra feita pelo homem visível da lua a olho nu, caiu por terra em 2004, quando um astronauta chinês afirmou que do espaço não se enxergava muralha nenhuma. Aliás, é de se supor que quem concebeu tal idiotice viajou na maionese, pois nunca esteve na lua para vir com uma história dessas.

 

A primeira ideia ocorrida aos neocapitalistas foi bater a marreta em tudo e exportar nacos a preço de banana para cada terráqueo vivente. Mas um chinês de visão dividiu sete bilhões de possíveis compradores pela gigantesca área da muralha e chegou à conclusão de que o souvenir seria maior do que a casa que o abrigaria, mesmo que fosse uma mansão de príncipe saudita. Ainda iria sobrar muita muralha, uma outra solução teria que ser encontrada.

 

Hoje, duas alternativas despontam como as mais viáveis para fazer dinheiro da imensa e inútil tripa de pedra.

 

Reformatório para pichadores brasileiros.

Um inédito acordo de cooperação entre Brasil e China preveria o seguinte estratagema, vantajoso às letras B e C do BRICS:

1) Venda de tinta spray chinesa a preços módicos para o Brasil.

2) Espetacular crescimento de vendas da tinta no mercado interno, pelo custo inacreditavelmente baixo, atraindo pichadores e aspirantes à prática.

3) Aplicação de multas extorsivas aos meliantes pegos com a mão no spray, com arrecadação extra para Estados e municípios.

4) Deportação dos contraventores tupiniquins para os domínios de Mao-Tsé. Lá, se debruçarão à vontade sobre os 21.960 km de muralha e gastarão 50 latas de spray cada um para escreverem repetidamente a seguinte frase: " A pichação não compensa". Em seguida, receberão do governo chinês latas de removedor e palhas de aço para apagarem da muralha a merda que fizeram. Os removedores serão comprados pelos brasileiros, com vantagens para a China em duas frentes - venda de removedor e limpeza da muralha, que há séculos vem pedindo por uma boa manutenção.

 

A outra alternativa em estudo consiste na venda de parte da muralha para Donald Trump edificar o muro na divisa com o México. Essa opção esbarra no problema, até o momento incontornável, da entrega da mercadoria. A parte vendida da muralha teria que ser fatiada em milhares de pedaços, transportada em imensos navios e reunificada no local de destino. A manobra levaria décadas ou mesmo séculos. Até lá, Trump já teria concluído seu mandato e o presidente que o substituísse poderia muito bem mudar de ideia, tornando inútil todo o esforço.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 11/02/2018.

 

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Coca-Cola em Pessoa 

Pouca gente sabe, mas o grande Fernando Pessoa já fez free-lance para a Coca-Cola nos anos 20, quando da entrada da bebida no mercado português.

- E então, senhor Fernando? Já temos o nosso slogan?

- Aqui está. “Coca-Cola. Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”. Que me diz?

- Bem... eu entendi o jogo de palavras, muito engenhoso, diga-se. Mas...

- Mas?

- Eu não gostei da primeira parte da mensagem, a impressão que se tem é que o nosso produto causa uma reação negativa. Senhor Fernando Pessoa, se estivesse em meu lugar, precisando de resultados e vendas, sendo cobrado pela matriz e necessitando consolidar a Coca-Cola no mercado lusitano, iria aprovar uma barbaridade dessas?

- Ora pois, que há de errado com o reclame?

- Ao usar o termo "estranhar", o nobre escritor já levanta a lebre que a bebida pode parecer a princípio repulsiva.

- Mas só a princípio. A segunda parte do slogan já rebate essa estranheza.

- Eu entendi o seu raciocínio. Na sequência, temos o "depois entranha-se", querendo dizer que, logo em seguida, o refrigerante passa a ser apreciado. Mas, olha, serei sincero: esse "entranha-se" também não me agrada de forma alguma. Entranha me lembra víscera, tripa, o que não combina nem um pouco com a sensação de sabor e refrescância prometidos pela nossa deliciosa Coca-Cola.

- Devo entender então que a minha frase foi reprovada por completo? O senhor está fazendo pouco do grande Fernando Pessoa, um gigante à altura de Camões? Um gênio tão inspirado que, não se bastando, teve de criar heterônimos para dar vazão a tudo o que tem a dizer?

- Heterônimos?

- Sim. Tenho dezenas deles, mas quatro são mais famosos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares.

- Entendi. Eu tenho uma sugestão a fazer: por que você não passa a criação do slogan para esses quatro amigos seus? Vai que sai alguma coisa que preste...

- O senhor não entendeu coisíssima nenhuma. Os quatro são eu mesmo. Eu os criei, cada qual com um estilo peculiar.

- Então! Mais um motivo para passar esse trabalho a eles. Serão quatro estilos diferentes pensando no nosso slogan. Isso é até bom, pois as opções serão provavelmente bem diversificadas. Vocês fazem uma concorrência entre si, e quem fizer o melhor fica com o dinheiro do freela.

- Mas todos eles são uma única pessoa. O senhor sabe o que são heterônimos?

- Olha, não me interessa se é heterônimo, se é Jerônimo, se é Antônimo, se é Anônimo, o que eu quero é o meu slogan. E que seja único e original, como é a Coca-Cola!

- Bem, eu tenho aqui comigo uma segunda opção. Algo assim: "Tudo vale a pena se a Coca não é pequena". Profundo, heim?

- Então, mas aí o senhor valoriza demais os outros tamanhos do refrigerante, e ao mesmo tempo diz que a Coca pequena não presta. E é das pequenas que vendemos mais! Por favor, senhor Pessoa. Admita que as opções não está lá essas coisas e bote novamente essa sua privilegiada cabeça pra funcionar. A sua e a dos seus amigos, esse Jerônimo e tudo mais. Boa sorte, nos falamos na próxima semana.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 03/02/2018.

 

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Affair virtuoso

 

 

Cada um na sua webcam. No começo, uma gracinha aqui e outra ali. Não demorou muito, amantes remotos.

 

- Bota o cachecol... bota o cachecol que eu enlouqueço logo de uma vez!

 

- Só se você colocar antes um gorro de lã. Mas tem que ser tipo capuz de bandido, daqueles que só ficam os olhos descobertos.

 

- Tá, mas depois você promete que veste um casaco? Sobretudo é meu fetiche, sabia? Já te falei isso? Então. Quero três casacões bem grossos e felpudos, um em cima do outro, até você ficar curvado de tanto peso, sem poder mexer os braços e sem nenhum poro do corpo descoberto! Ui, só de pensar eu fico doidinha, doidinha. Megaexcitante!!!

 

- Mas como você é safada, heim?

 

- Então, aí você faz uma dança sensual em frente à câmera e aos poucos, bem devagarinho, vai abotoando os casacos no ritmo da música, até ficar tudo bem fechadinho até o pescoço.

 

- Ai, mas e se alguém resolve entrar aqui no quarto e me pega assim, vestidão - do jeito que não vim ao mundo? O que que eu vou dizer? Imagina a situação, vestido dos pés à cabeça!

 

- Isso é problema seu, quem mandou me provocar? Reconheça: você também está gostando...

 

- Sabe, um negócio que me tira do sério é marquinha de biquíni... Você bem que podia arrumar uma mala cheia deles, e ir mostrando, com essa sua carinha de sem vergonha, as etiquetas com as marcas de todos os biquínis que existem no mercado. Uau! Isso ia ser demais. Podemos fazer isso amanhã, né? Por enquanto manda uma selfie pra mim, todinha vestida. Por favor, só uma, vai...

 

- Esse negócio de tirar foto vestida e enviar pela net é um perigo. Aliás, dois perigos. Um hacker pode entrar nos arquivos do meu computador, achar as fotos comprometedoras e publicar. E você também, caso a gente brigue e pare com essa brincadeira, pode se vingar jogando as fotos na web.

 

- Então faz o seguinte, tira a foto do pescoço pra baixo, sem enquadrar o rosto... aí não vai ter jeito de alguém reconhecer você como dona do corpo cheinho de roupas. Concorda?

 

- Não sei, não. Vou pensar. Mesmo não mostrando o rosto, acho muito perigoso. Ainda se fosse um nudezinho inocente, mas de roupa... se algum conhecido vê, com que cara eu vou sair na rua?

 

- Tudo bem, então vamos parar por aqui.

 

- Mas logo agora que está ficando bom? Investi o que tinha e o que não tinha nessa relação, entrei em tudo que é crediário de loja, pedi dinheiro emprestado...

 

- Bom, então resolve o que você quer fazer. Mas uma coisa é certa: nua assim ninguém vai reparar em você. Nem na rua, nem na internet, nem em lugar nenhum.

 

- Tô indo. Preciso de um tempo pra refletir sobre nosso caso.

 

- Tá, mas e a burca? Você prometeu.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 27/01/2018.

 

*  *  *

 

O dia em que o Rubão explodiu

 

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Eram onze e meia da manhã quando o Rubão foi pelos ares.

 

O chefe o chamou em sua sala e começou a esculhambação. Metas, metas e mais metas não atingidas. Relatórios, gráficos de vendas, queda nos lucros. Cobrança de resultados, avanço dos concorrentes, vermelho inevitável no balanço do fim do mês.

 

– Então, seu Rubens, como é que fica?

 

O Rubão, do alto de um metro e noventa e quatro revestidos por largo invólucro adiposo, ia escutando calado, os braços cruzados e os olhos no chão. Foi quando começou a inchar. Os globos oculares querendo saltar do rosto. As mãos tremendo incontrolavelmente, os lábios arroxeando e dobrando de tamanho. No início ainda teve a consciência de afrouxar o nó da gravata e desapertar o cinto. Depois foi perdendo os sentidos e entregando-se resignado ao estouro iminente. O coração pulsava na altura do pescoço, veias e artérias iam rebentando como pipocas no microondas.

 

O chefe, agora acuado diante do quadro calamitoso, tentava uma remissão.

– Calma, Rubão, calma, esquece o que eu disse. Mês que vem a gente recupera essa situação, agora volta ao normal…

 

Três segundos depois, Rubão era carne moída. Explodira silenciosamente, low-profile, bem ao seu estilo. Talvez a banha abundante tivesse abafado o estrondo. O fato é que não havia centímetro de mármore, vidro temperado e madeira nobre da sala do diretor que não estivesse coberto com as vísceras do dedicado supervisor de vendas. Embora quase inaudível, a força daquele big-bang humano foi avassaladora. Alguns ossos encravaram-se, como que fossilizados, nas paredes do escritório, formando um curioso mosaico.

 

O diretor, tirando um fiapo de pâncreas preso aos seus óculos junto com o “R.J.T.” da camisa do Rubão (chamava-se Rubens José Tavares), tinha que pensar rápido. A situação era insólita, poderia ser acusado de assassinato.

 

Interfonou para a secretária e pediu que providenciasse um cão faminto, em pele e osso, imediatamente. Antes de tudo, limpar a área.

 

Refestelado do presunto e sua gordura, o cão começou a agonizar. O diretor decidiu levá-lo a um veterinário para uma injeção letal. Sacrificado o bicho, não haveria indício do ocorrido.

 

Não foi preciso. O cachorro chegou morto ao consultório. Sem a permissão do diretor, o doutor foi logo abrindo sua barrigada.

 

Após autopsiar o bicho, o veterinário foi categórico:

 

– Macacos me mordam, isso é carne de Rubão!

 

– Como assim? , disfarçou o diretor.

 

– Como assim digo eu, quem tem que se explicar é o senhor. Conheço carne de Rubão a léguas de distância. Além do mais…

 

Não chegou a concluir o raciocínio. Três tiros nos miolos o calaram para sempre. Sabia de tudo, era preciso eliminá-lo, pensou o diretor ao sacar a arma e mandar pro inferno o segundo num dia só.

 

Fugiu em disparada com o Rubão moído num saco de lixo, e se deu conta de que as placas dos carros todos tinham prefixo RJT. Pelas ruas em que passava via a Borracharia do Rubão, rubancas de jornal, a agência do Rubanco do Brasil, outdoors de Vick Vaporubão, concessionárias Mercedes-Rubenz.

 

Corria. E quanto mais corria, mais o espectro do Rubão ganhava fôlego para alcançá-lo. Ele com o pacote de carne já marrom, sem ter como livrar-se do finado a decompor. Entrou num beco, olhou para o céu e viu uma nuvem com o perfil exato do defunto. Exausto, cambaleou até chocar-se com a vitrine de uma loja de perfumes. O alarme soou: ru-bão, ru-bão, ru-bão, ru-bão…

 

Antes que a polícia viesse, chegou sua vez de explodir. Ruidosamente, gloriosamente, solenemente, como convinha a um executivo do seu porte.

 

No dia seguinte, os jornais noticiaram terem sido finalmente encontrados os restos mortais de Rubão, junto aos destroços de um desconhecido, enterrado como indigente.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 20/01/2018.

 

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Cachorro engarrafado

"O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado"

Vinícius de Moraes

 

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Ele chegou filhotinho, uma coisinha de nada, só 200ml de suave fofura e inocência. No rótulo se lia "12 years old", mas, para um exemplar daquele pedigree, doze anos era só o começo de uma longa e proveitosa vida.

 

E como foi saboreada a vida que me deu, enquanto durou. Não exigia nada em troca e não dava trabalho nenhum. Não pegava pulga, nem carrapato, banho não carecia, nem latir ele latia. Manso como só ele, deixava-se ficar ali na estante, entre livros e porta-retratos.

 

A intimidade e o zelo foram se achegando aos poucos, em goles discretos. Sabia o momento do seu reinado a cada fim de tarde, à hora certa e boa. Era quando trocávamos colos. Eu lhe dava o meu e ele me dava o dele. Sem gelo, reconfortante e amigo. Cicatrizante de mágoas e refazedor de ânimos, punha-me a alma pulando doida feito um cãozinho dançante de circo. Em sua irracionalidade, parecia conhecer a magia do seu caramelo com gosto e cheiro de envelhecido, levando como recompensa de sua travessura um biscrock ou coisa assim.

 

E quantas vezes eu ali quieto, no divã da sala, livro ou jornal nas mãos, e lá vinha ele com aquela cara de pidoncho, abanando o rabinho. Me ganhando com seu blend de cocker spaniel, poodle e yorkshire, um malte (ou seria maltês?) de aroma inconfundível e traços amadeirados de marcante personalidade, que só o repouso sem pressa em carvalhos escolhidos pode trazer.

 

Nessa toada, o tempo voou e ele espichou. De garrafa de bolso para 500ml, daí para 750 até chegar a um litro. Ou seja, se eu o entornava aos poucos, o seu crescer forte e saudável recuperava o consumido. Na cruza, rendeu oito filhotinhos. Todos com a sua cara e com os mesmos 200ml, o tamanho que tinha quando entrou em casa pela primeira vez.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 13/01/2018.

 

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* Marcelo Sguassábia, reside em Campinas-SP. É redator publicitário e colunista

para diversos jornais e revistas eletrônicas. É colaborador de Via Fanzine.

© Direitos Reservados, Marcelo Sguassábia, 2018.

 

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