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Página de Marcelo Sguassábia em Via Fanzine

 

Todos os textos:

Por Marcelo Sguassábia*

De Campinas-SP

Para Via Fanzine

© Direitos Reservados

 

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário e colunista de diversos jornais e revistas eletrônicas.

É colaborador de Via Fanzine.

   Seu blog: Consoantes reticentes. E-mail: msguassabia@yahoo.com.br.

 

 

 

Me leva pro Velho Testamento

 

 

Sim, o mundo estava há milênios da invenção da penicilina. O sujeito nascia e já tinha tudo pra cair duro, mortinho da silva, tamanha era a falta de recursos na saúde e na ciência. No entanto, a "morte morrida" custava demais a chegar. E isso é a Bíblia que atesta.

 

Vamos a uma breve relação de patriarcas longevos do Antigo Testamento e a idade em que respectivamente bateram a caçuleta: Adão, 930; Seth, 912; Enos, 905; Cainan, 910; Mahalalel, 895; Jarede, 962; Enoque, 365; Lameque, 777; Noé, 950; Sem, 600; Arpachade, 438; Selá, 433; Éber, 464; Pelegue, 239; Reú, também 239; Serugue, 230; Naor, só 148 - deve ter morrido na creche ou no balão pula-pula; Terá, 205; Abraão, 175; Isaque, 180. Por fim o campeoníssimo Matusalém, que, sem grandes cuidados com a carcaça, chegou à impressionante marca de 969 aninhos.

 

Fica claro que o modus vivendi pré-diluviano, por mais que se julgue hoje primitivo, era muito mais saudável e contribuía para a longevidade. Não é nem questão de deduzir. É fato, a menos que não se leve a sério a Palavra Sagrada ou que se prove que o tempo passava mais rápido naquela época.

 

A comunidade científica estufa o peito e convoca a imprensa para apregoar, orgulhosa, que o homem em breve (e esse em breve não raro significa daqui a uns 50 anos) alcançará 120 como expectativa média de vida. Belo chabu. Com essa idade Matusalém era um feto e o respeitável Mahalalel ainda enchia as fraldas no berço.

 

O bicho homem do século 21, com toda a sua expertise em descobrir geringonças e fármacos que o possibilitem viver mais e melhor, nem arranha os recordes etários desses heróis do Gênesis.

 

É ainda uma incógnita a razão por que, naquele mundo ainda intocado de meu Deus, a decrepitude e a morte custavam tanto a chegar. Uma explicação talvez seja porque a carne dos bois, porcos, ovelhas, bodes, cabras, aves e assemelhados de antanho estivessem a salvo dos conservantes, dos ácidos cancerígenos e demais porcariadas que disfarçam a podridão da carne vencida que comemos - produzida, empacotada com carimbos sanitários fraudulentos e exportada mundo afora pelos nossos grandes, assépticos e incorruptíveis frigoríficos. O bom e velho Cainan conhecia seus bichos de abate e sabia muito bem o que botava em sua mesa. Ele e seus centenários amigos eram os caras.

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 19/03/2017.

 

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Carta de um preso ao seu pai

 

 

Modéstia à parte eu me considero um ladrão boa gente, pai. E você sabe que eu sou. Tive a quem puxar, né?


Meus camaradas de cela dizem que homem não chora, que escrever é coisa de fresco. Mas eu estou chorando e escrevendo agora, boiolão assumido, tudo bem. Estou abrindo o coração de saudade sua, meu velho. Segura essa onda comigo, preciso demais de um Habeas Corpus pra te abraçar bem apertado.

 

Você que me deu a primeira luvinha pra não deixar impressão digital na mamadeira, de lã azul celeste e punho imitando algema, lembra? Você que me ensinou que vergonha é roubar e não poder carregar – e que por isso a gente deve sempre levar um saco bem grande ou ir assaltar de carro. Que sempre me aconselhava a evitar sereno em assalto à noite e a olhar pros dois lados da rua, na hora de fugir da polícia.

 

Tá viva demais a lembrança de você me mostrando como é que se coloca uma meia na cara. Do dia em que você me levou pra uma festa com seus amigos em Brasília, todo mundo engravatado. Você roubando o pão com o suor do seu rosto. Lutando com dificuldade, porque os policiais geralmente eram bem maiores que você. Que covardia.

 

É, pai, nem todo bandido é frio como cano de revólver. E como recordo seu colo quente, me adestrando em golpes e mutretas, me falando das diferenças entre furto, roubo e latrocínio...


Logo que aprendi a escrever, já falsificava assinaturas do Tiago, da Fabíola e do Gui, meus coleguinhas do colégio. Você me dando força, fazendo uma correção aqui e ali. Depois fui crescendo e passei a falsificar assinaturas dos pais da classe toda nos boletins, mediante pagamento em balas, chicletes e dadinhos na hora do recreio. Dos boletins da escola foi um pulo para os de ocorrência. E olha que, como filho de pai bandido, tinha tudo do bom e do melhor. Não precisava levar essa vida. Antes dos 16 já tinha celular clonado, carro com chassi frio e uns caraminguás na Suíça. Um verdadeiro Mauricinho da Rocinha.

 

Você era malandro, sim, pai. Não escondia isso de ninguém. Mas também nunca deixou faltar nada dentro de casa: nem dólar, nem notebook, nem cd player de carro de bacana.

 

Que dizer então do carinho da mamãe? A última broa de milho que ela me mandou estava deliciosa. E a serra no recheio, como sempre, afiadíssima. Não vejo a hora de fazer um teste nessas grades, mas o carcereiro não dá trégua. Ah, mamãe... meus olhos marejam ao lembrar do seu zelo e dedicação. Mamãe que nunca teve nada a ver com ofício escuso, que não sabia se pedia a Deus pelo marido ou pelo filho.

 

Como ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, penso que é o momento de confessar que fui eu quem sumiu com o dinheiro que o senhor afanou daquela viúva do Guarujá. Poderia muito bem ter aberto o jogo antes, mas o fato de conseguir engambelar um expert do seu naipe é o maior troféu que eu poderia ganhar na vida.

 

Eu queria te falar tudo isso pessoalmente, quem sabe no indulto de Natal. Mas minha voz ficaria mais presa do que eu estou agora. Eu, que mantive tanto mané em cativeiro, hoje sou refém de você, pai. Meu velho pai, sangue bom.


Esta carta foi encontrada junto ao corpo de Jair das Candongas, destinatário da mesma, após violento tiroteio na Favela do Maluco.

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 11/03/2017.

 

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Diário, seu inútil

 

 

Escrever um diário pressupõe a tentativa de não deixar tudo por conta da volátil memória humana, de capturar um pouco do que se vive hoje para degustação futura. Isso significa registrar o que de objetivamente acontece mas também, e principalmente, o subjetivo de cada experiência - ou pelo menos dos acontecimentos principais. Sem esse detalhamento, um diário não tem função.

 

Se excessivamente sumário, um típico dia de semana de um sujeito de classe média, com perfil no instagram e vacinado contra caxumba, traria algo assim:

 

05 de maio de 1980, segunda-feira. Acordei às seis. Exercício das 6h05 às 6h35. Café da manhã. Trabalhando das 8 às 12h. Almoço das 12 às 14h. Trabalhando das 14 às 18. Jantar. Assistindo televisão até 23h30.

 

Imagine isso sendo lido décadas depois. Sem detalhamento essa descrição de tarefas não signficará nada, pois não reconstituirá aquele dia na mente de quem o viveu. Pior: levando em conta o fato de que a rotina, justamente por ser rotina, tende a se repetir, todos os registros serão muito iguais - à exceção de um ou outro episódio mais marcante, a ser resumidamente descrito pelo preguiçoso memorialista. De onde se conclui que um diário é tanto mais eficiente quanto mais detalhado puder ser.

 

Por outro lado, partir para um diário excessivamente descritivo também será perda de tempo. Vamos supor um início de diário aos 20 anos e término aos 70. Calculando uma expectativa de vida de 80, nosso registrador de fatos terá apenas 10 anos para ler o relato em detalhes de tudo o que vivenciou ao longo de 50. Afinal, foi com a intenção ler um dia suas recordações que ele decidiu encarar a empreitada. Acontece que não faz sentido ele gastar seus últimos 10 lendo o que viveu, ao invés de viver o que lhe resta. Parece exagero falar em 10 anos de leitura. Porém, por mais que geralmente sobre mais tempo aos idosos, eles tendem a executar tudo mais lentamente, e a depender da prolixidade do diário, será essa a sua tarefa principal até bater as botas.

 

A inutilidade do diário não para por aí. Relatos detalhados incluem opiniões do autor a respeito de outras pessoas, nem sempre muito elogiosas. Deixar isso por escrito para a posteridade pode ser perigoso, comprometedor e, dependendo do naipe dos personagens, trazer boas encrencas jurídicas. Para evitar aborrecimentos, seu dono terá que exterminá-lo antes de morrer. E se morrer de repente não poderá fazê-lo, deixando de herança uma bomba de imponderável potencial de destruição.

 

04 de março de 2017, sábado. Se pensa em começar o seu, desista. Se já tem, toque fogo.

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 04/03/2017.

 

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Anjos acham difícil manter a guarda

 

 

Veja como são as coisas. Há cinquenta anos - e isso é um piscar de olhos nas cronologias serafínica e querubínica - , cada anjo dava conta de guardar dois, três, até mais viventes de carne e osso. A vida era calma e o perigo era pouco. Agora, se bobear é preciso um regimento dos nossos para pajear cada humano. E o déficit funcional se vê em todas as esferas celestes, entre os anjos da guarda municipal, estadual e federal.

 

Quanto mais a humanidade inventa traquitanas e afazeres, mais perigo se corre e mais desavisados temos que ficar puxando da beira do precipício. Os malditos smartphones são os piores exemplos do que estou dizendo. Eles distraem a atenção de todos o tempo todo, nos deixando em sobressalto, sem saber a quem acudir primeiro e sem poder pregar olho para recuperar as forças. Crianças não fazem seus deveres, casais brigam sem motivo, velhinhos deixam de jogar damas para fazerem a alegria dos hackers nos sites de banco e lojas virtuais. É só cilada, uma atrás da outra.

 

A mesma tecnologia que dá inteligência a celulares está produzindo gerações de acéfalos. E joga milhões de profissionais para as estatísticas dos economicamente inativos. O desemprego deixa as pessoas desorientadas pelas ruas, o que nos obriga a ficar virando seus pescoços para os dois lados a cada cruzamento que atravessam, para não aumentar ainda mais os já estúpidos índices de acidentes.

 

A eleição do zen-budista Donald Trump, somada à incontestável sanidade mental daquele ditador norte-coreano, fez soar a trombeta de alerta máximo aqui nas nuvens. As chances de um tilt global e irreversível são todas e mais algumas, e não há previsão para publicação de edital para contratação de novos anjos da guarda. O último aconteceu lá pelos idos da revolução francesa e, embora sejamos eternos no cargo, a população aí embaixo é extraordinariamente maior que o nosso efetivo. Só para se ter uma ideia: em 1800, o mundo contava com 978 milhões pessoas, enquanto que hoje só na China são um bilhão e quatrocentos milhões. E o nosso exército angelical permanece com o quadro inalterado...

 

Outro agravante é a expectativa de vida. Apesar de estarem correndo cada vez mais perigo, estranhamente vocês estão conseguindo viver muito mais. É um paradoxo, mas é verdade. A evolução da medicina e das tecnologias envolvidas nos sistemas de segurança viária talvez expliquem um pouco essa intrigante realidade. O fato é que, mais uma vez, sobra para nós. Além de cada um dos nossos se ocupar de mais gente, essa mesma gente não veste o paletó de madeira de jeito nenhum, e está vivendo o dobro de seus bisavós. Junte a isso as maternidades abarrotadas de recém-nascidos e chegamos a uma situação caótica, beirando o descontrole absoluto. De anjos da guarda estamos nos transformando naqueles caras que ficam girando pratinho no circo. Tire esse riso da cara, por favor. O assunto é sério, e você ri porque não é com você.

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 24/02/2017.

 

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Pastéis de Belém - O Segredo

 

- Que bom que veio. Sente-se.

- Obrigado.

- Como já deve saber, é um cargo vitalício. Nossos chefes de cozinha, uma vez admitidos, ficam conosco a vida toda. E ganhando muito bem.

- Muito bem quanto?

- Não se preocupe com isso. Dinheiro não é problema. O que precisa ficar bem claro é que, a partir do momento em que você entrar aqui, vai morrer a serviço do negócio. E de boca fechada.

- Sim, mas quanto?

- Diga-nos o que você imagina ser um salário astronômico. Esse salário dos sonhos nós multiplicamos por seis, para não perdermos tempo discutindo assuntos assim, tão sem importância. Tá bem para você?

- Não imaginava que isso desse tanto dinheiro. Ora pois...

- São milhares de pastéis vendidos por dia, que as pessoas comem em pé, depois de horas na fila. Em alguns domingos, chegamos a vender 45 mil unidades. Todos tentam copiar nossa especialidade, aqui em Lisboa e mundo afora. Os resultados são constrangedores. A nata utilizada nas outras receitas tem gosto de nada, a massa resseca, empelota e desanda. E olha que eles vêm tentando uma imitação que preste desde 1837...

- Que intrigante esse mistério.

- O segredo não está escrito em lugar nenhum, por medida de segurança. Ele é revelado verbalmente pelo dono da confeitaria ao cozinheiro chefe, em uma sala sem janelas e com isolamento acústico. O cozinheiro só sai da sala fechada após decorar de memória a receita completa. Isso feito, nosso proprietário vai com ele até um cartório de Lisboa, para lavrar um termo de compromisso onde o novo contratado jura guardar o segredo, responsabilizando-se criminalmente caso ele seja divulgado.

- E depois?

- Depois vem um estágio probatório que dura de dez a doze anos, onde, dentre outros desafios, o novo guardião será obrigado a fazer a receita no escuro e com apenas uma das mãos. Esse é apenas um exemplo, as provações são diárias e de dificuldade crescente. É, o pastel é doce mas não é mole não.

- Compreendo.

- Nosso guardião do segredo, que estava no posto há 47 anos, faleceu há 3 dias. Precisamos eleger com urgência o novo pontífice de Belém. Nossos headhunters apontaram você por unanimidade, levando em conta dois critérios: maestria confeiteira e personalidade discreta. Basta que você aceite e a gente manda soltar a fumaça branca na chaminé da cozinha, he he he...

- Certo.

- Só não podemos esperar muito. Em 72 horas sem pastéis, já constatamos um espantoso número de cancelamentos de pacotes turísticos para Lisboa. Sem exagero algum: a falta dos pastéis de Belém na cidade vai provocar um abalo sísmico na balança comercial portuguesa. E você não quer ser o responsável por isso, concorda?

- Bom, acho que agora preciso contar o meu segredo para você. Na verdade, estou aqui só escutando e me fingindo desentendido. Sou obcecado pelos pastéis de Belém, e minha vida se resume a desvendar sua fórmula. Saio do trabalho e me debruço em incontáveis ciclos de tentativa e erro, até cair exausto no sono. Descobrir o segredo assim, de mão beijada, seria perder o resto da motivação que ainda tenho. Nem todo o dinheiro do mundo pagaria a satisfação de decifrar por mim mesmo o mistério dessa lenda lusitana. Ainda que tenha que morrer tentando. Agora, se me dá licença, são seis da tarde e tenho programadas mais dezoito tentativas antes de dormir.

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 11/02/2017.

 

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Novelos e novelas

 

 

Ninguém pode afirmar com absoluta certeza, mas tudo leva a crer que o termo "novela" vem de "novelo". O fato de ser algo que vai se desenrolando aos poucos explica esse bem aplicado batismo.

 

Mas novela não só vem de novelo. Ela vende novelo, com o perdão do trocadilho. Se por um lado vemos a TV perdendo audiência dia a dia para a internet, por outro é crescente a fatia populacional da chamada terceira idade. Tem mais vovós crochetando e tricotando em frente à boa e velha televisão do que sonha a vã filosofia do Mark Zuckerberg. Por mais que as vovozinhas de hoje saibam também manejar com destreza seus perfis no facebook e no instagram.

 

Essa nova realidade inspirou um plano ambicioso e detalhadamente articulado, envolvendo o núcleo de projetos especiais da emissora líder e o maior nome da nossa indústria têxtil. O patrocinador da novela é o fabricante do novelo. Além de milhares de inserções de merchandising no enredo televisivo, a marca fica licenciada a utilizar nomes, fotos de atores, sinopses e o que mais julgar conveniente em seus produtos. Incluindo a embalagem - no caso, aquela tira de papel que abraça a lã.

 

Ao final de cada novelo, a vovó encontrará uma dica sobre o fim da novela, agregada a um cupom de desconto para a compra do próximo suprimento de lã. Um círculo perpétuo de consumo. Novelo após novelo, novela após novela. A trama do folhetim em absoluta sintonia com a trama do tricô e do crochê.

 

No quesito interatividade, há um rol imenso de ideias. Sendo o público idoso cada vez mais representativo no universo da audiência, os velhinhos e velhinhas também seriam os galãs e vilões da novela. Isso criaria uma maior identificação do telespectador com o elenco, ampliando exponencialmente o Ibope. A primeira ação interativa já está aprovada, e consiste em um concurso de figurinos. O público cria e confecciona roupas para os atores, necessariamente produzidas com a lã do patrocinador. As melhores ou mais originais irão vestir os personagens, e os nomes dos figurinistas domésticos constarão nos créditos em destaque, lado a lado com os nomes dos astros e estrelas. A anciã-estilista que mais se destacar ganha ainda uma aparição especial no último capítulo.

 

Uma grande ação de cross marketing irá amarrar comercialmente o processo, até mesmo junto às velhinhas não adeptas do tricô e do crochê. Em parceria com uma rede de lojas de roupas, as peças de vestuário feitas com a lã e que aparecem na trama serão expostas com destaque nos pontos de venda. Em cada cabide, um apelo chamando para assistir à novela; e na novela, em contrapartida, cenas gravadas dentro do magazine. Uma perfeita e harmônica engrenagem promocional, onde todos os envolvidos ganham. A seguir, cenas dos próximos capítulos.

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 28/01/2017.

 

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O Despertador Humano

 

 

Junto com a Revolução Industrial – período de 1760 a algum momento entre 1820 e 1840 – vieram os empregos. Para não perderem a hora, existia o despertador humano, um profissional responsável por acordar as pessoas para que comparecessem ao trabalho pontualmente. O primeiro relógio-despertador foi criado em 1847, mas só se popularizou décadas depois. Assim, era comum ver pessoas com bambus ou varetas batendo nas vidraças ou atirando pedrinhas nas janelas daqueles que as contratavam.

 

Fico imaginando o que seria dessa cidade caso eu tivesse escolhido outra coisa para fazer na vida. Se bobear, você mesmo pode ter sido acordado por mim hoje.

 

Não há quem não precise de meus préstimos. Muitos podem pensar que não faz nenhum sentido um arrumador de pinos de boliche, por exemplo, necessitar dos serviços de um despertador humano. Ele não tem que acordar cedo, pois geralmente trabalha à noite. Só que ele troca a noite pelo dia, e se não houver ninguém para acordá-lo mais ou menos ao pôr do sol, ele vai ser mandado embora. Mas existem outras consequências. Se um cara desses vai trabalhar com sono, demora para sair da pista e acaba ele mesmo servindo de pino de boliche. Concorda comigo?

 

Se você parar para pensar, vai ver que tudo - ou quase - depende de mim. Supondo que aconteça um acidente e o arrumador de pinos acabe indo para o hospital. Ele não vai precisar de mim enquanto estiver internado, certo? Errado, pois o médico que trata dele vai, para estar pontualmente levando seus cuidados ao enfermo. Assim como a enfermeira, o motorista da ambulância e todo um leque de profissionais que botam o hospital para funcionar.

 

Se o leiteiro não estiver de pé às 5 e meia da manhã, pronto para fazer suas entregas, vai deixar todo mundo sem café para ir ao trabalho (ainda que seja leite o que ele fornece). E a sorte minha é que o ordenhador de vacas mora na zona rural. Se fosse na cidade, teria que acordá-lo também. E bem antes do leiteiro...

 

Agora imagine você numa emergência, em que seja preciso ligar imediatamente para alguém. Pode esquecer se não houver telefonista acordada, para completar a ligação. Como elas trabalham em turnos, são vários grupos de mulheres que precisam ser despertadas em horários diferentes. Isso me força a ficar com minha vara de bambu pra baixo e pra cima o dia todo. E a pé, pois não há transporte que acomode satisfatoriamente o meu instrumento de trabalho.

 

Confiança é tudo nessa profissão, e a responsabilidade de acordar tanta gente não admite erros nem desculpas. Basta meia hora de atraso em um dia qualquer e pronto, perco de uma vez o respeito dos clientes.

 

Sem mim, o mundo para. Ninguém pode imaginar a vida com atrasos nos serviços de telefonista, leiteiro, arrumador de pinos de boliche e tantas outras ocupações desse mundo moderno. A menos que inventem um relógio que seja também despertador, o que me parece muito improvável. Porém, devo admitir que essa ameaça me roubaria o sono. Mas como não posso dormir mesmo...

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 21/01/2017.

 

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Ex-Tilingue

 

 

O estilingue sumiu do mapa. Bem como o bodoque, a chiloida, a baladeira, a funda, a atiradeira e demais sinônimos. Justifica-se o desaparecimento. Que chance teria o coitado numa queda de braço com o Xbox, o PS4, os jogos de realidade virtual e sua turma? É claro que não falo das atiradeiras de competição, que parecem uns bólidos, ultramodernas e produzidas com materiais sintéticos. É aquele rustiquinho, da roça mesmo, ou quando muito dos quintais das casas de vila, quase tão extintos quanto o próprio estilingue.

 

Por definição, o estilingue é uma traquitana contraditória. Para um militar em guerra, uma brincadeira de criança. Para um militante da paz, uma arma mortal travestida de brinquedo. Para mim e para você, talvez pairem controvérsias. Mas certamente concordaremos ao admitir que não existe uso politicamente correto ou ambientalmente justificável para um estilingue. Tanto na intenção com que é usado quanto no material necessário para fazer um.

 

Começando da estrutura básica: a forquilha. É preciso serrar um galho de goiabeira, jabuticabeira ou outra eira do pomar para se ter uma bem bacana em mãos, com um "V" simétrico e reforçado. Daí você precisa de pedregulhos, também chamados seixos, como munição. E seixos ou pedregulhos demoram centenas, milhares, quem sabe milhões de anos para ganharem da natureza aqueles contornos arredondados. Porque se a pedrinha não for redonda, já era. O tiro não será certeiro. Depois tem aquele courinho que prende o pedregulho para o disparo. Só se for couro legítimo, subproduto de gado abatido. Caso contrário, durabilidade zero. O menos antiecológico dos insumos seria o conjunto das duas tiras de borracha, que esticadas darão o impulso para a pedrinha zarpar. Ainda assim elas vêm da seringueira, cujo látex poderia muito bem ser destinado a fins mais edificantes.

 

Pronto o estilingue, ele vai servir para quê? De duas uma: arrebentar vidraças ou matar passarinhos. A primeira opção caracteriza vandalismo; a segunda, crueldade animalesca e estúpida interferência na cadeia alimentar. No entanto, sua imagem permanece como algo bucólico, associado à inocência infantil e aos inesquecíveis momentos vividos na fazenda da vovô. Algo que lembra cartilha de alfabetização, calendário de quitanda ou capa de alguma edição antiga de "Caçadas de Pedrinho", do Monteiro Lobato.

 

Por isso, se alguém, contradizendo minha tese, disser que viu por aí um menino com um estilingue nas mãos ou no bolso, não caia nessa. Com certeza é uma arapuca. Também em extinção, por sinal.

 

- Foto: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 07/01/2017.

 

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