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Marcelo Sguassábia

 

Marcelo Sguassábia, reside em Campinas-SP. É redator publicitário e colunista

para diversos jornais e revistas eletrônicas. É colaborador de Via Fanzine.

© Direitos Reservados, Marcelo Sguassábia, 2018.

 

 

Quebra de sigilo frigorífico

 

 

Fruto de esforços conjuntos de três organismos federais, o governo de Pitombas deu início à chamada "Operação Linha Branca".

 

A diferença desta para outras operações anteriores é que passa a ser considerado, como sinal evidenciador de riqueza - e eventualmente como possível indício de sonegação - o interior das geladeiras domésticas. A depender do que for encontrado dentro do refrigerador, pode-se deduzir se a renda do dono do eletrodoméstico é ou não compatível com aquela declarada ao fisco.

 

A fiscalização se dará por duas formas. Uma por agentes com mandado judicial para efetuar busca; nesse caso, o contribuinte em questão precisa estar indiciado em algum inquérito. A outra forma será por meio de flagrante fotográfico: pequenas câmeras serão instaladas nas geladeiras e captarão, em dias e horários desconhecidos ao contribuinte, o interior dos equipamentos e os alimentos e bebidas neles conservados.

 

A instalação das câmeras será compulsória e se estenderá em etapas regionais, ao longo de cinco anos. O contribuinte que se recusar a abrir as portas de casa e da geladeira aos agentes fiscalizadores será qualificado como suspeito, estando sujeito a penalidades que incluem detenção provisória.

 

Embora ainda em estágio embrionário, a Operação já vem apresentando resultados animadores. Doraneide Marina da Costa, auxiliar de pedicure, recebeu a visita de fiscais devido à presença, em sua geladeira, de pelo menos quinze quilos de caviar Beluga Petrossian. Além do caviar, considerado um dos melhores e dos mais caros do mundo, foi encontrado um saco plástico de supermercado envolvendo um outro pacote com três outros sacos do mesmo supermercado. Dentro dele, 30.000 dólares em numeração não-sequencial, notas de 100 e 50. Dinheiro literalmente frio, sobre o qual a proprietária da geladeira terá de dar explicações.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 12/08/2018.

 

*   *   *

 

Sem backup

 

 

I

 

É consenso no mundo da segurança da informação o fato de que as empresas produtoras de antivírus contratam hackers para criar vírus e posteriormente suas vacinas, perpetuando o ciclo de ameaça e proteção.

 

O vírus é criado, espalhado, a imprensa se encarrega de fazer o alarde mundial e, enquanto isso, a vacina já está pronta para integrar o pacote da versão 22.4 do mega-ultra-master-magic-killer-fast-ultimate-power-virus-exterminator. O mais seguro de todos os tempos, até que chegue a hora de se criar um outro vírus ainda mais detonador e em seguida seu antídoto invencível, num ciclo criminoso que torna refém toda a humanidade.

 

Mas, dessa vez, a coisa não aconteceu como deveria.

 

II

 

- Pois é, o que a gente mais temia se confirmou. Óbito, há 20 minutos.

 

- Parece humor negro ou ironia do destino, mas ele contraiu um vírus raro. Ainda teve a sorte de durar três meses, o médico garantia que não passava de dois. Doença degenerativa fulminante, sem remédio nem vacina.

 

- É, letalidade máxima. Acabou com ele e com uma multinacional de 50 bilhões de dólares numa tacada só! É o que se pode chamar de alto poder de destruição.

 

- Mas não é possível que não tenha deixado nada escrito na mesa dele. Alguma anotação em algum canto, escondida na gaveta, quem sabe salva em algum insuspeito arquivinho de wordpad?

 

- Nada aparente, já vasculhamos.

 

- Sei lá, qualquer coisa que seja uma pista de como ele estava concebendo esse antivírus. Virem tudo de cabeça pra baixo, quebrem todas as senhas do computador que ele usava, usem descriptografia, tragam hackers de fora do país se for o caso... ele não comentou nada com vocês? Nadinha?

 

- Caladão do jeito que era? Pois sim... Uma vez ele me disse que guardava tudo na cachola, por medida de segurança. O cara tinha um HD de 10 terabytes na cabeça.

 

- Amiguinhos, eu não quero saber o que fazer e de que jeito precisa ser feito, só quero que mergulhem nessa caixa de gordura e resolvam a encrenca. Dinheiro não vai ser problema! O vírus que esse rapaz criou está derrubando sistema atrás de sistema, o nível de infecção é de quarenta a cinquenta novas corporações por minuto. Se não disponibilizarmos a vacina nos dois ou três próximos dias, estaremos completamente desmoralizados.

 

- Tá, e a gente vai fazer o quê? Chamar o cara à força numa sessão espírita? A porcaria do vírus é criação dele, a chance de descobrirmos algo de prático em tempo hábil é zero. Mesmo se a gente conseguisse juntar todos os hackers do mundo, ainda assim a velocidade de infecção vai travar o planeta antes que se chegue a qualquer resultado concreto.

 

- Então, eu sei que não é o momento apropriado pra ficar falando isso, mas... caramba, quantas vezes eu já disse nas reuniões de Conselho - essses malucos precisam trabalhar em dupla, um fica sendo o backup do outro. Se dá uma caca, tem como recuperar pois há dois profissionais envolvidos no programa.

 

- Índice Nasdaq de hoje. Querem ouvir?

 

- Diga de uma vez, quanto perdemos?

 

- Até agora, 16h30, -7,2%. Debandada geral de investidores mundo afora. Viramos mico da noite para o dia.

 

- E o técnico canadense que chegou ontem?

 

- Ia falar dele agora. Desinfetamos tudo antes que ele começasse a trabalhar, mas a lei de Murphy funcionou de novo... se infectou com o vírus biológico.

 

- Sei, mas como ele está agora?

 

- Quadro de febre, vômito e confusão mental. A coisa começou assim com o nosso finado colega. É o início do fim, daqui em diante só vai definhar.

 

- Tentou chamar um médico?

 

- Todos os hospitais estão com sistemas viralizados, pane generalizada até nos serviços de emergência. Mesmo as conexões analógicas de telefonia parecem estar comprometidas.

 

- Bem-vindos ao apocalipse, meninos. Orem com fervor. Agora, só confiando na volta de Jesus.

 

- Imagem: Reprodução/José Soares da Silva (Mestre Dila).

 

Marcelo Sguassábia© - 04/08/2018.

 

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Mique Jegue e Frede Mérco:

Ô desavença sem fim!

 

 

FREDE MÉRCO DISSE ASSIM:

 

Escuta aqui, Mique Jegue

Teu pé gelado eu dispenso

Toma rumo e vade retro

Pro diabo que o carregue

 

Até porque o diabo

Caiu na tua simpatia

Tua mãe, teu pai, tua tia

Têm parte com o cão danado

 

Tu e a turmina do Róliston

É tudo uns véio safado

Querem que a gente acredite

Que ocêis não são safenado

 

Deixa de ser marcriado

com essa língua de fora

Toma tento, retardado

Porque senão vou-me embora

 

Teu sucesso “Satisfétio”

Carece de inspiração

Quando saiu, não entrou não

Nas parada do Zé Bétio

 

E RESPONDEU MIQUE JEGUE:

 

O teu conjunto, o Cuim

Desafinado e chinfrim

Não levanta multidão

Nem em festa de peão

 

Meu parceiro, o Queiterrixa

Cheira, bebe, fuma e mama

Mas pelo menos não leva

Cinquenta hómi pra cama

 

Frede Mérco, sua anta

Faz que nem o Pomacarte

Que mesmo aos setenta e seis

Compõe, grava, viaja e canta

 

Os Bito são meus “rival”

Não nego que dão trabalho

Mas de ocê não tenho medo

É carta fora do baralho

 

Mandou espalhar que morreu

Tomou Doril e sumiu

Mas essa morte, agaranto

Não passa de feiquenil

  

- Imagem: Reprodução/José Soares da Silva (Mestre Dila).

 

Marcelo Sguassábia© - 29/07/2018.

 

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Neymar, o herói das cavernas

 

 

Antes que a Seleção Brasileira chegasse às quartas de final, Neymar fugiu da concentração e partiu para a Tailândia em seu jato particular, com o firme propósito de salvar os meninos presos. Antes, porém, na boca da caverna, convocou uma coletiva de imprensa.

 

NEYMAR, O QUE FEZ VOCÊ ABANDONAR AS MORDOMIAS DE ÍDOLO MUNDIAL E VIR ARRISCAR A VIDA EM UMA MANOBRA TÃO ARRISCADA?

 

Acredito ser um chamado de Jesus. A Bruna também teve um sonho e veio chorando falar comigo, dizendo que me viu driblar todos os obstáculos rochosos e aquáticos, trazendo num instantinho o time inteiro são e salvo!

 

CONHECENDO A SUA FRAGILIDADE EM CAMPO, UM ESBARRÃOZINHO EM UMA ESTALACTITE PODE FAZER VOCÊ ROLAR E GEMER TRÊS DIAS SEGUIDOS…

 

– Cuidado com o que diz, cara. Estalactite me lembra Tite, e não estou de acordo com o esquema tático proposto por ele. Mas vou passar por cima dessa dificuldade, com a ajuda de Deus já encarei e venci muitas provas, e não será isso o que irá derrubar minha vontade de salvar os garotos. Porém confesso que, se a FIFA, a CBF ou meus assessores mais diretos puderem remover as estalactites do caminho antes que eu entre na caverna, o processo de salvamento pode ser menos doloroso para mim. Psicologicamente, eu digo.

 

O FATO DE VOCÊ CONVOCAR ESSA COLETIVA AQUI NÃO SERIA UM DESPERDÍCIO DE TEMPO, TÃO PRECIOSO NA TENTATIVA DE RESGATE DOS GAROTOS?

 

– É que eu não estou autorizado a entrar na caverna enquanto não receber a sunga, os pés-de-pato e o cilindro de oxigênio com a marca da Nike. Vocês da imprensa irão gravar tudo, e por contrato eu não posso me expor publicamente sem as marcas dos patrocinadores.

 

MAS NEYMAR, UMA CAVERNA ESCURA COM QUATRO QUILÔMETROS DE COMPRIMENTO NÃO É EXATAMENTE UM LUGAR PÚBLICO…

 

– Olha, por mim eu entrava lá de roupa e tudo, trazendo uns três ou quatro nas costas em cada viagem. Na verdade, o logo da Nike para adesivar no cilindro de oxigênio chegou ontem, mas meus empresários disseram que não era fosforescente. É preciso que seja, para brilhar no escuro. Eu não tenho culpa, são cláusulas contratuais.

 

VOCÊ ACREDITA MESMO QUE PODE TRAZER OS GAROTOS COM VIDA?

 

– É como diz o “Tudo passa”, tatuado no meu pescoço. E passa, pode acreditar. Mesmo numa caverna estreita e cheia de perigos, o Senhor vai abrir uma passagem, do mesmo jeito que abriu o Mar Vermelho, para os meninos e para o técnico dos “Javalis Selvagens”.

 

BOM, ENTÃO VAI, NEYMAR! ANDA LOGO…

 

Olha, eu não vou nem responder a essa provocação. Esse tipo de cobrança não é nada produtiva, não é isso que vai trazer um resultado positivo em termos de conjunto, de entrosamento da equipe. E isso que eu estou dizendo não vale só pra Seleção. No caso, me refiro ao staff de mergulhadores que vai me acompanhar na tarefa.

 

NEYMAR, AMANHÃ TEM JOGO DECISIVO PARA A SELEÇÃO. A TORCIDA BRASILEIRA ESTÁ AFLITA, POIS O ESFORÇO TODO QUE VOCÊ VAI FAZER HOJE PODE DEIXÁ-LO LESIONADO PARA A PRÓXIMA PARTIDA.

 

Não vejo motivo para preocupação. O único risco é o equipamento de mergulho não chegar até amanhã. Aí, não vai ter jeito: não poderei salvar o time dos “Javalis” e nem voltarei para a Rússia a tempo de disputar o próximo jogo… Mas não quero nem pensar nessa possibilidade. Deus está comigo sempre, e terei humildade para acatar o que Ele decidir.

  

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 21/07/2018.

 

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Um para o outro

 

 

Tá certo que ele não era nenhum conhecedor profundo do moderno cinema dinamarquês. Mas ela também não era nenhuma marchand francesa especializada na fase azul de Picasso ou nas esculturas de Rodin. Tá certo que ele não era nenhum master-franqueado do Instituto Kumon, com 25 unidades só no Centro-Oeste e ótimas perspectivas de expansão. Mas ela também não tinha propriamente onde cair morta, e se tinha não sabia o número da sepultura nem o cemitério.

 

Tá certo que ele não era nenhum prodígio musical, capaz de assobiar as 32 sonatas de Beethoven de trás para a frente e em ordem cronológica de composição. Mas ela também não arriscava nem o “Atirei o Pau no Gato” debaixo do chuveiro e sem ninguém em casa.

 

Tá certo que ele não era nenhum Tom Cruise, ainda que seu convênio médico cobrisse cirurgia para correção de astigmatismo congênito em grau severo. Mas ela também era um estrago natural à prova de photoshop, e estava a léguas de distância da última colocada no Miss Birigui 1978, edição do evento especialmente pródiga em mulheres corcundas e fora do peso.

 

Tá certo que ele não era nenhum espertalhão pronto a dar o bote, sendo notória sua semelhança fisionômica com Mister Bean – com a diferença que este último amealhou uma montanha de dinheiro com sua cara de idiota. Mas ela também não era nenhuma megera movida a terceiras intenções, e não consta na delegacia boletim de ocorrência envolvendo seu nome.

 

Tá certo que ele não era nenhum iogue indiano, evoluído espiritualmente a ponto de ingerir um basculante de estrume com um sorriso nos lábios, em piedoso sacrifício pelo bem da humanidade. Mas ela também não nascera Madre Teresa de Calcutá, e trocaria sem pestanejar sua alma por um naco de quebra-queixo, desde que com bastante gengibre.

 

Tá certo que ele não era nenhum exemplo de autoestima, se considerarmos as três ou quatro vezes em que foi encontrado com o gás ligado e a cabeça dentro do forno, além de outras tantas em que o flagraram ouvindo a Perla no volume máximo (e no banheiro, onde o perigo é maior devido ao eco). Mas ela também não tinha motivos para nutrir por si mesma a mais remota simpatia, tanto que uma não olhava para a cara da outra quando se cruzavam no espelho.

 

Tá certo que eles não eram nenhum casal modelo. Ainda assim apaixonaram-se, casaram-se e previsivelmente não foram nem um pouco felizes. Mas também, antes mal acompanhados do que sós.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 14/07/2018.

 

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Voltem o lance

 

 

Policlínica Hermantino Lago, oitavo andar, sala 83, Doutora Giulia Laurentino da Fonseca - Memorialogista. Pós-Doutorado pela Universidade de Sorbonne. Atendimento a convênios. Recuperação de lembranças perdidas. Pacote "porteira fechada", com resgate de todo o conjunto de vivências, ou "módulo seletivo", trazendo paulatinamente à tona apenas o que foi bom – de acordo com critérios previamente definidos em consulta. Compilação neural em conjunto com paciente a partir de miniaturas de fotos ou traillers de 1 minuto e meio. Possibilidade de escolha de períodos específicos.

 

Equalização de sons já esmaecidos em bruma auditiva, como vozes de entes queridos, sinos de recreios escolares e declarações de amor ao pé do ouvido. Restauro de cores apagadas, desde recordações estáticas até loopings em montanhas russas, em ambos os hemisférios ou áreas de difícil acesso no lobo frontal. Reabilitação de sensações gustativas retroativas à época da amamentação do paciente.

 

Possibilidade de apagamento de fato ocorrido ontem, 06-07-2018. Não porque tenha sido especialmente traumático, mas por não valer a pena armazenar dados esquecíveis na memória.

 

Punção de massa cinzenta danificada para análise. Dúvidas diagnósticas dirimidas com resultados entregues em 24 horas. Em casos de lances duvidosos, acionamento de VAR - Árbitro de Vídeo, e suas múltiplas telas em 4K.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 07/07/2018.

 

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João dá Bobeira

 

 

- Tá gravando?

 

- Sim, podemos começar.

 

- Amigo ouvinte, estamos aqui com o empresário Diógenes Skrauts, dono da maior indústria de infláveis do país, que responde por mais de 80% da produção de joões-bobos brasileiros. Tudo certo com o senhor?

 

- Tudo bem. Satisfação enorme em participar do seu programa.

 

- Bom, minha primeira pergunta é sobre o carro-chefe da empresa. Sabemos que o boneco produzido por vocês é um clássico, porém levando em conta o perfil da crianças de hoje, é preciso admitir um certo envelhecimento do produto... A impressão que dá é foi-se o tempo.

 

- Correto. Tanto que a versão clássica nem existe mais. A crise e as mudanças nos hábitos de consumo nos levaram a novos públicos e nichos de mercado. Joões-bobos caracterizados de políticos, de Presidente da República, de Judas (vendas sazonais para sábados de aleluia), de jogadores de futebol decadentes, enfim... Produzíamos também um modelo em que você tinha a opção de colocar rostos de desafetos, para socar à vontade.

 

- E aí?

 

- E aí que foi um furo n'água. Ou melhor, no joão. Mas não nos demos por vencidos. Naquele mesmo ano de 2005, nosso Departamento de Marketing sugeriu o lançamento do Seguro joão-bobo, que garantia a manutenção e o conserto dos bonecos em caso de furos e cortes, pelo período de 48 meses. E sem taxa adicional. Era um plus, compreende?

 

- Bom, imagino que isso tenha livrado vocês da bancarrota.

 

- Que nada, meu caro. Quanto mais usos alternativos nós concebíamos e implementávamos, maior o tombo mercadológico.

 

- A recessão parece ter nocauteado em cheio os bonecos... E depois dessa série de infortúnios, apareceu alguma ideia redentora que conseguisse reerguer a empresa?

 

- Pois é, foi quando nos ocorreu um caminho diferente, atrelando o joão-bobo ao processo educativo - mais especificamente às conjugações verbais, que é um verdadeiro "calcanhar de aquiles" pedagógico. Na embalagem de cada joão-bobo, a criança encontrava um livrinho de bolso com todas as conjugações dos principais verbos, para auxiliá-la na escola.

 

- Não sei, isso também me parece pouco atraente.

 

- É, tínhamos esse risco em mente. Afinal, uma criança recorre ao joão-bobo para se divertir, não para lembrar da escola... Mas decidimos arriscar, lançando o joão-sabichão. Óculos de fundo de garrafa, semblante inteligente, jeitão de CDF. Estampado nele, a conjugação de "joão-bobar" no presente do indicativo: Eu joão-bobo, tu joão-bobas, ele joão-boba, nós joão-bobamos, vós joão-bobais, eles joão-bobam.

 

- E deu certo a empreitada?

 

- Creia-me: foi um tempo de vacas gordas. Bem gordinhas. Na verdade, a venda para a criança, pessoinha física, não deslanchou. Porém, elaboramos um sofisticado sistema de proprinas com alguns colégios das redes pública e particular no Rio Grande do Norte, inserindo o joão-sabichão como recurso didático em sala de aula. Entretando, após um bom período de curva ascendente, as vendas foram minguando, a coisa deixou de ser novidade. Nossa mais recente investida foi lançar o joão-bobo à base de troca e o ecologiamente correto.

 

- Fale mais sobre isso...

 

- No caso do joão à base de troca, o consumidor traz o seu joão estragadinho à loja e ganha um superdesconto na compra de um novo. Já o ecologicamente correto é produzido com material biodegradável, não agredindo o meio ambiente no hora do descarte. A ideia é introduzir nas lojas um joão de personalidade esperta, antenado nas novidades e na preservação dos recursos naturais... isso está na ordem do dia!

 

- Aí sim, heim...

 

- O slogan é "De bobo, esse joão não tem nada". Semana que vem, estaremos analisando os primeiros relatórios de vendas. Dependendo do desempenho, criaremos novos modelos ou encerraremos de vez a produção.

 

- Boa sorte, e obrigado pela entrevista!

 

- Eu é que agradeço.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 30/06/2018.

 

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Alerta: Ricardão à frente

 

Pois então, veja como são as coisas. Eu era um daqueles sujeitos com colete refletivo e bandeira de advertência em mãos, à beira da rodovia, sinalizando desvio, obra ou acidente à frente.

 

Para quem gosta de trabalho metódico e 100% previsível, ganhar a vida fazendo o que eu fazia era estar no paraíso. Ou, pelo menos, na estrada que leva a ele.

 

Mas nem tudo é perfeito. O movimento ininterrupto do braço direito chacoalhando a bandeirinha para cima e para baixo me presenteou com uma LER, depois de um ano e meio de serviço. Foram quatro meses de licença médica, e voltei à labuta com a recomendação do fisioterapeuta de não movimentar o braço, apenas deixá-lo esticado, pois o vento batendo na bandeirinha já bastava para a sinalização.

 

Um dia tentei variar o braço, empunhando a bandeira com o esquerdo. Mas aí me dei conta de que ficava de costas para os motoristas, o que me valeu uma senhora raspança do meu supervisor imediato. Disse na ocasião que a minha falta era dupla - de educação, por não ficar de frente para o usuário, e de amor à vida, já que não poderia enxergar e desviar a tempo de um carro que viesse em minha direção.

 

Quinze dias depois, descobri o quanto aquela minha iniciativa de revezamento braçal tinha sido desastrosa. Era uma sexta à tarde, quando fui chamado ao RH.

 

Engrossando as estatísticas de 14 milhões de desempregados, me vi sem eira nem beira e muito menos acostamento. Desorientado, batendo perna a esmo atrás de colocação ou trabalho temporário, dei com uma placa de "Contratamos" na fachada de um velho galpão, onde antigamente funcionava uma fábrica de espoletas.

 

Ironia do destino: o barracão tinha virado uma indústria de "ricardões", aqueles bonecos que substituem os sujeitos que fazem o que eu fazia. Alguns empunhando binóculos, outros com bloquinhos de multa e boa parte deles com a maldita bandeirinha cor de abóbora, que ao ser despedido jurei nunca mais querer ver na frente.

 

Não sei dizer se minha experiência anterior à beira da estrada colaborou para que conseguisse a vaga, mas o fato é que no dia seguinte estava a postos na linha de montagem de ricardões rodoviários, réplicas mal-acabadas de mim mesmo.

 

Até que ontem me apareceu para produzir um ricardão-supervisor, com roupa idêntica e fisionomia parecida com o carrasco que me colocou na rua.

 

Não pude disfarçar um esgarzinho de satisfação no canto da boca. Tentei despedi-lo da minha cara, mas ele se recusa a ir embora.

 

- Imagem: http://reflectivevestsindia.blogspot.com.

 

Marcelo Sguassábia© - 23/06/2018.

 

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John in the sky

 

 

Que me perdoem a demora, mas só agora, depois de tantos anos, me autorizaram uma comunicação. Tenho pouco tempo e terei que ser breve e incisivo, como as letras das minhas canções após o fim do conjunto.

 

Sabe Yoko, Deus é testemunha do quanto eu queria encontrar alguém cabeça feita, com os olhos puxados e cabelos caindo pela cintura, que me lembrasse seu layout nos sixties e me fizesse companhia enquanto você não chega. Mas os japoneses são longevos e os mortos vêm pra cá com a aparência que tinham no desencarne. Então torço para que você bata as botas o quanto antes, de forma a chegar aqui em condições desfrutáveis. O que me deixa apreensivo é que você já passou dos 80 e eu continuo com meus quarentinha recém-completados, you know?

 

Eu queria dizer algo a respeito daquele mosaico que fizeram em minha homenagem no Central Park, com a palavra “Imagine”. Acho que a intenção foi boa mas o resultado estético ficou aquém da intenção. Por favor, destruam aquilo a picaretas e peçam a Yoko para que crie algo ao seu estilo, como nos velhos tempos. Ela conhece meu gosto e sabe o que quero dizer. Sou crítico e perfeccionista, sempre fui. Perguntem ao George Martin e ele confirmará que, por mim, regravaria a obra inteira dos Beatles, desde “Love me do”. Inclusive “Love me do”. Principalmente “Love me do”. Aliás, onde estávamos com a cabeça quando fizemos “Love me do”?

 

Há muita lenda envolvendo meu nome, e elas só cresceram de 1980 para cá. A história de que o comercial de cereal na TV inspirou “Good Morning” tem fundamento, mas quanto à balela de que “Lucy in the Sky with Diamonds” não queria dizer LSD, de que foi só uma coincidência, ora vamos, come on... Eu precisaria estar muito drogado para inventar aquela história do desenho que o Julian fez na escola, e devo admitir que estava! Ah, e como estava.

 

Para dar um basta definitivo aos boatos que persistem até hoje, o Paul não está morto coisa nenhuma. Caso contrário ele já teria incorporado não só um médium, mas toda uma assessoria de imprensa mediúnica para um ghost-pronunciamento em rede mundial, com posterior lançamento em CD, DVD e Blu-Ray. E Elvis, acreditem, também não está morto, a menos que tenha ido para o inferno e esteja por lá devorando seus sanduíches de pasta de amendoim.

 

Rebatizem, por favor, o Aeroporto de Liverpool – que leva o meu nome e tem como slogan “Above us only sky”. Nem morto eu compactuaria com isso.

 

Parem de peregrinar por Abbey Road e cruzar a faixa de pedestres. Outro dia um sujeito ficou olhando demais para a câmera na hora de tirar a foto e meia hora depois estava me pedindo autógrafo aqui em cima. Sério, guys. Procurem pela massa de tomate ainda fresca debaixo do ônibus Route 139. O nome da vítima é Thomas Allen Silverstone, veio de Denver para uns dias de turismo em Londres e mexia com seguros.

 

Também aproveito para fazer, desta vez além-túmulo, o mea culpa sobre aquela declaração que dei em 66, dizendo que éramos mais populares que Jesus Cristo. Tenho por aqui uma legião razoável de fãs, mas uma disputa com o filho do Homem seria ridícula. Mesmo na época em que eu tinha aquela barba comprida.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 17/06/2018.

 

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Rezadores

 

 

Se há carpideiras, por que não há rezadores?

 

Desde que executada com a responsabilidade e o respeito que todas as religiões merecem, e desde que também aceita de boa vontade pelas diferentes esferas da corte celeste, talvez a ideia vingasse nesse estranho mundo de meu Deus.

 

O ofício dos rezadores (pelo menos o que imaginei) se aproxima muito do das mulheres carpideiras, pagas para chorar os finados - sem que tenham nutrido por eles a mínima simpatia ou tido, em vida, vínculo de parentesco ou ao menos de vizinhança.

 

Os rezadores fariam as vezes de quem teria que rezar, cumprindo a obrigação de outro. Seja uma penitência estabelecida por padre no confessionário, seja simplesmente para fazer a reza no lugar do freguês, em intenções diversas designadas por ele.

 

Dois fatores se somam para que os rezadores já chegassem se apossando de um contingente enorme de interessados nos seus préstimos. Por um lado, temos a escassez de tempo das pessoas. Por outro, o interesse cada vez maior delas por espiritualidade, esoterismo e derivações correlatas. Se não conseguem se livrar das agruras desse mundo, sabem também que dele nada se leva, e querem garantir um cantinho com algum conforto lá no andar de cima.

 

A aferição da qualidade do serviço seria feita por fervorômetro, aparelho desenvolvido em start-up de ponta com aportes de investidores internacionais. Como o nome diz, o aparelho mediria o fervor da prece, com base na variação do campo magnético na aura do rezador. Os relatórios e gráficos de performance seriam enviados em tempo real para o cliente.

 

Dependendo da necessidade e da urgência, o contratante poderia adquirir os serviços de mais rezadores. Os módulos abrangeriam de um a milhares deles, que iriam se alternar em turnos de oração ou rezariam simultaneamente, conforme o pacote escolhido.

 

Sendo o serviço desvinculado de qualquer religião, este teria de ser prestado em espaço neutro e ecumênico. Call-centers de grandes multinacionais, vazios devido à crise, certamente estariam sendo locados para os ofícios de prece coletiva.

 

Não aprovaria, intimamente, a novidade. Mas não me espantaria se a visse, amanhã mesmo, posta em prática. E logo ali, na esquina.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 02/06/2018.

 

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O Duña profetiza

 

 

Foram anos e anos de sumiço. Uma ausência que causou desalento e tentativas de suicídio a um número incalculável de discípulos, espalhados pelos quatro cantos do Tocantins.

 

Mas eis que sem mais aquela surge o Venerável Duña, de carona em um treminhão de cana e anunciando, à sua passagem, a visão profética que teve e que ansiava por partilhar com a humanidade.

 

À falta de púlpito, o iluminado teve que trepar em um cupinzeiro para fazer sua pregação. O improviso, entretanto, em nada diminuiu a importância da revelação e o tom solene em que foi proferida.

 

Assim falou a divindade a seus pupilos e às centenas de curiosos que se acotovelavam pelo pasto, estapeando-se por um lugar onde a abençoada visão do Duña pudesse ser melhor apreciada:

 

- Vivemos uma era marcada por perversa inversão de valores. Morais, éticos, religiosos, filosóficos e, porque não dizer, gastrointestinais. Afazeres que, até outro dia mesmo, eram inerentes aos idosos, hoje disseminam-se feito tiririca entre a moçadinha das raves. É disso que trata a revelação que trago, ou melhor, a profecia.

 

Mais ou menos nesse ponto do sermão, um desafeto de outra seita arremessou, na luzidia testa do mestre, três ovos de sanhaço gorados. O incidente não calou a voz do Predestinado, que prosseguiu com a preleção a despeito da gema fétida pingando de suas grisalhas madeixas.

 

- Vejam que, desde que o mundo é mundo, ficar criando bolor em casa sempre foi o passatempo compulsório da velharada, com seus pijamas e pantufas. E é natural que assim seja, pois suas carcaças carcomidas merecem algum repouso antes da decomposição no campo santo e depois de tanta contribuição ao INSS. No entanto, o que temos observado nos últimos tempos? Filhos e netos desses valorosos heróis, alguns beirando os 50 aninhos, sendo sustentados por eles e pendurados no celular ao longo do dia, da tarde, da noite e da madrugada. Pedindo filet à Chateaubriand delivery e procurando qualquer coisa que renda algum ao fim do mês no Catho online - desde que não seja preciso deixar o conforto do lar. E o que é mais revoltante: trajando os pijamas listrados e pantufas do pateta confiscados à força de seus pais e avós.

 

Humilhados, tungados e sem ambiente em suas próprias casas, logo ao raiar do dia multidões dessas pobres vítimas saem às ruas para seus campeonatos de damas e bocha, quando homens, ou para tricotar mantinhas para as obras de caridade do Rotary Club, quando mulheres. Fora dessa rotina, uma vez ao mês vão ao banco receber suas aposentadorias e pensões. Quer dizer, iam: seus dependentes cinquentões já descobriram suas senhas eletrônicas e fazem, de casa mesmo, a transferência dos proventos para as próprias contas. Em resumo: quem tinha que estar ralando coça o dia inteiro, e quem merecia coçar tem que sair à rua para encontrar o que fazer. Mesmo não tendo, compreensivelmente, vontade de fazer nada.

 

Pois anuncio a vocês que, anteontem de tardezinha, dezoito anjos tocadores de trombeta, vindos de Jericó com baldeação em Corozaim, chegaram esbaforidos à minha choupana afirmando que, a continuar tal despropósito, há de cair sobre esse mundo a maldição das maldições. Não tenho ideia do que possa ser feito para evitar a tragédia. Apenas transmito o recado.

 

- Imagem: http://pinkfuzzyslipperwriters.blogspot.com.br

 

Marcelo Sguassábia© - 26/05/2018.

 

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Recanto da Paz

 

 

Antes de mais nada, é nosso dever informar que vocês não estão num Hotel Fazenda, como o nome pode supor aos distraídos ou àqueles mais apegados às fraquezas da carne. Apurem os sentidos e perceberão que não há boi algum mugindo, nem sabiá cantando, nem cheiro de torresmo pururuca frito no fogão de lenha. Saibam os senhores e senhoras que se encontram no paraíso, passaram de onde estavam para melhor e é bom que aceitem logo isso para que seu processo de adaptação seja menos traumático. Nossos enfermeiros e assistentes sociais não agüentam mais repetir a mesma história para cada um que chega aqui. Portanto, queimemos etapas: vocês bateram as botas, isso é um fato.

 

Embora a população na crosta terrestre cresça exponencialmente e já esteja na casa dos 6 bilhões, no cômputo geral há muito mais mortos que vivos. E é um reconfortante consolo lembrar que os seres humanos mais interessantes são aqueles que já estão por estas bandas – os grandes gênios, os maiores heróis nacionais, ídolos de bandeiras ideológicas variadas, entes queridos, amigos e colegas que deixaram saudades. E quem ficou lá embaixo, não demora muito e vem para cá também. É só uma questão de tempo. Eternamente falando, de pouquíssimo tempo.

 

Aos suicidas, lamentamos o inconveniente de decepcioná-los. Existe vida após seu ato extremo, e não há nada que vocês possam fazer para reverter essa situação. O inconformismo diante de sua nova realidade não levará a nada, não adianta se jogar pela janela de seus aposentos celestiais. O máximo que pode acontecer é vocês voltarem para cá e recomeçarem a leitura deste quadro de avisos.

 

Tentativas de amotinamento e de retorno ao vale de lágrimas de onde vieram serão imediatamente sufocadas pelos superiores de sua ala. Amantes de sexo, drogas e rock and roll serão gentilmente forçados a se adaptarem à castidade, à abstinência e às harpas e corais de querubins, que só lhes farão bem ao espírito – lembrando que o espírito é a única coisa que lhes resta.

 

A enorme legião de beatlemaníacos poderá deliciar-se com shows diários de George Harrison e John Lennon em nossa praça principal. Solicitamos aos mesmos um pouquinho de paciência até que a banda se complete. O que ocorrerá em breve, pois Paul Mc Cartney está com 75 e Ringo Starr está perto dos 80. Considerando que os dois vivam até os 100, dentro de pouco mais de 30 anos o slogan “Beatles Forever” deixará de ser uma utopia. O mesmo se aplica aos fanáticos pelos Rolling Stones, que a despeito de sua língua de fora e sua simpatia pelo coisa-ruim, farão turnê por aqui logo logo, reintegrando finalmente o Brian Jones ao conjunto – nosso hóspede desde 1969.

 

Orações por intenção de suas respectivas almas serão detectadas por nossas estações de captação vibratória e enviadas em tempo real para seus fones de ouvido, cujo controle de volume, graves e agudos encontra-se na parte interna da asa esquerda dos senhores. Já as orações-spam (aquelas genéricas, formuladas indistintamente para o bem de todas as almas) não serão enviadas, por serem muitas e perturbarem o descanso eterno de que são merecedores.

 

Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 20/05/2018.

 

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Doze anos sem cana

 

 

Doze anos de cana. Quem dera o sentido literal: doze anos de cachaça. Mas a sentença era inapelavelmente aquilo mesmo. Cento e quarenta e quatro meses vendo, a seco, o sol nascer quadrado.

 

Fosse um preso comum, arranjaria com outros encarcerados o goró nosso de cada dia. Ou os gorós, quantos bastassem. O que não falta é jeito escamoteado de fazer a bebida circular com certa tranquilidade nas Alcatrazes tupiniquins. Pinga é artigo facilmente disponível no câmbio negro, como os cigarros, os créditos de celular e outras moedas de troca utilizadas pela turminha em recuperação.

 

Mas a cela dele era especial, isolada. Essa era sua desgraça. Até o banho de sol era privativo, sem contato com ninguém. De que jeito arrumar a "marvada"?

 

Advogados, parentes, gente do partido, amigos, todos eram revistados antes das visitas. Revista brava, sem chance de entrar com qualquer coisa escondida.

 

A primeira ideia, meio previsível, foi tirar proveito da notória proximidade com algumas megaempreiteiras (em grande medida responsáveis por conduzi-lo ao novo endereço). A intenção seria óbvia: conceber um túnel ligando a distribuidora de álcool da Petrobras mais próxima de Curitiba à cela do distinto. Ou seja, um "cachaçoduto". O problema é que o porte da obra, 100% executada em nível subterrâneo, com certeza despertaria alguma suspeita, isso se não chegasse a ser totalmente descoberta em razão de provável denúncia da imprensa, intriga da oposição ou delação premiada.

 

A segunda alternativa, de execução mais prática e logística mais em conta, seria simular uma incurável e até então desconhecida mania de limpeza. O distúrbio obrigaria que se entregasse ao "doente" quantidades industriais de álcool doméstico, para dar vazão a um compulsivo esfrega-esfrega das grades, paredes, algemas e outras instalações e apetrechos do universo prisional. Evidentemente, os litros de Zulu seriam substituídos por aguardente tipo exportação antes de chegarem às ávidas mãos do dependente, numa orquestração organizacional de causar inveja a Al Capone nos idos da Lei Seca.

 

Qualquer que seja a opção estratégica, será preciso agir rápido: há casos em que a falta do álcool causa mais estrago que o excesso dele. O mundo político sabe muito bem do que um abstêmio em desespero é capaz de fazer. E de falar.

 

Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 12/05/2018.

 

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Dando pipoca aos macacos

 

 

“Eu devia estar feliz pelo Senhor

Ter me concedido o domingo

Pra ir com a família

No Jardim Zoológico

Dar pipoca aos macacos”

(Raul Seixas – “Ouro de Tolo”)

 

A disputa com o ex-futuro cunhado no ossinho da sorte, depois do almoço de sábado. O ato de contrição, a confissão, a hóstia, o Cristo vivo e ressuscitado no coração. O vale-ducha do posto de gasolina para quem abastece trinta ou mais litros de segunda a quarta. O lustro com Kaol na prataria, o zelo com o par de abotoaduras, os sapatos pretos e prontos para a reunião da associação de bairro, a imagem de São Cristóvão no retrovisor do Clio.

 

Vai que um pneu fura, é bom lembrar de calibrar também o estepe. Vai que chega lá e não tem mais mesa, é bom se precaver e reservar com antecedência o lugar para a família no jantar de caridade. Vai que o tempo fecha de repente, é bom carregar sempre um guarda-chuva na maleta. Vai que o chefe resolve chegar mais cedo, é bom já estar a postos, meia hora antes de todos, para não correr o risco. Vai que o cuco não desperta, é bom dar corda até o fim, e assim que endurecer ainda forçar mais um pouco, para dormir sossegado e amanhecer bem disposto.

 

Deus me livre de dar palpite onde não sou chamado, mas a filha caçula do vizinho anda metida com um tranqueira. Longe de mim maledicência e intrigra, mas é mesmo muito estranho um homem temente aos céus andar assim tatuado, com cinco filhos nas costas e patente de major. Olha, não é por nada não – até porque eu nunca liguei para essas coisas – mas que ali tem, isso tem. E como tem. Misericórdia…

 

Não foi por falta de aviso que a coisa deu no que deu, o quanto que eu alertei! Se conselho fosse bom ninguém dava – vendia; mas como já vi muita água passar por debaixo da ponte, não ia deixar meu compadre ser o último a saber.

 

Eu posso não ter nem a metade do que esse sacana do meu chefe acumulou tungando os outros, mas quando eu chego em casa eu boto a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila. E ele, será que? Nada como um dia depois do outro para ver quem ri por último. Essa lição e esse exemplo eu trouxe do meu pai. Esse sim, sabia tudo.

 

Quando eu tinha sua idade, também tinha pôster, boina e barba do Guevara. Quando eu tinha sua idade, experimentei mas não traguei. Quando eu tinha sua idade, também queria virar o mundo do avesso. Quando eu tinha sua idade, devia ter perdido menos tempo com bobagem e assistido mais episódios do mundo submarino de Jacques Cousteau. Quando eu tinha sua idade, me segurei e respeitei sua mãe até o casamento. Quando se tem 20 e não se é comunista, o sujeito é mau caráter; quando se chega aos 40 e se permanece comunista, o sujeito é retardado.

 

Nem adianta eu tentar te convencer agora que você está errado, é só quebrando a cara que você vai mudar de ideia. O tempo vai ensinar. Escuta bem o que eu estou te falando.

 

Imagem: mobilityhelp.com

 

Marcelo Sguassábia© - 05/05/2018.

 

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Mezza maracutaia, mezza safadeza

 

 

Bom dia, Doutor Aristenes

 

Escalei o estagiário de nossa banca de advocacia para elencar algumas possíveis alegações de defesa para o caso do nosso cliente, Rodrigo Lurdes, filmado em flagrante com mala de dinheiro saindo da pizzaria em São Paulo. Trata-se de demanda difícil e a bem dizer indefensável, mas como o primeiro time do nosso escritório só poderá se envolver com a causa a partir da semana que vem, imaginei que nosso talentoso estagiário já poderia ir adiantando alguma coisa.

 

Seguem os apontamentos do rapaz, para sua análise.

 

. Alegação de defesa 1

 

O montante de 500 mil reais dentro da mala se trataria de dinheiro falso, ainda que aparentemente idêntico ao verdadeiro. Nossa tese se embasaria no "fato" (versão construída) de Rodrigo Lurdes ser, concomitantemente à atividade parlamentar, um fornecedor da indústria de brinquedos, e que estaria levando amostras de dinheiro sem valor para aprovação do dono da empresa, que estaria lançando o "Novo Banco Imobiliário". Como as crianças de hoje não mais se deixam seduzir por qualquer porcaria mal-acabada, a semelhança com o papel moeda legítimo seria resultado da excelência profissional de nosso cliente, na intenção de satisfazer as exigências qualitativas da indústria e do consumidor em relação ao produto fornecido.

 

Evidentemente, o juiz do caso submeteria o dinheiro da mala a uma análise pericial. É claro que esta apontaria o dinheiro como real, mas a defesa recorreria, de instância a instância, baseada no argumento da alta tecnologia empregada pelo pretenso fornecedor, tornando o fake indistinto do original.

 

. Alegação de defesa 2

 

O dono da pizzaria seria sócio ou testa de ferro de Rodrigo Lurdes. Nosso cliente estaria lá para retirar o faturamento acumulado de dois anos, mantido em espécie no estabelecimento. Ainda que pouco usual, o procedimento não pode ser considerado ilícito.

 

. Alegação de defesa 3

 

Argumentamos que Rodrigo Lurdes é proprietário da pizzaria, e que acreditaria estar carregando uma mala cheia de molho Pomarolla vencido para devolução ao supermercado onde supostamente foi adquirido. Entretanto, antes que saísse para a rua, ainda dentro da pizzaria, a mala com Pomarolla teria sido criminosamente substituída pela recheada com dinheiro. A defesa sustentaria a tese de que a troca foi provavelmente realizada por membros do Partido dos Batalhadores, com o intuito de incriminar Lurdes.

 

. Alegação de defesa 4

 

Rodrigo Lurdes seria um recém-convertido à bancada evangélica do Congresso. A pizzaria, na verdade, escamotearia um templo da seita "Lurdes dos Inválidos". O dinheiro no interior da mala corresponderia às oferendas recolhidas no dia ou acumuladas no mês.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 28/04/2018.

 

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A família reunida

 

Uma retrospectiva da obra de Klausten Van Herbert, no MoMa, reacende o debate em torno de um dos mais célebres quadros da história da arte: "A Família Reunida".

 

Foco de discussão há anos entre críticos de arte, leiloeiros, marchands e estudiosos, o sorriso enigmático – especificamente do pai – parece mais intrigante com o passar do tempo e com a sucessão de teses acadêmicas das quais é objeto.

 

No âmbito estilístico, a influência de Miró é predominante e incontestável, bem como da arte naif. Mas engana-se quem se deixa levar por essa definição reducionista.

 

A aparente singeleza e a suposta simplicidade da obra são ardilosamente manejadas pelo artista para ludibriar o desavisado observador. É como se o autor tivesse a intenção de provocar discórdia, agindo premeditadamente para polemizar.

 

No primeiro boneco, em vermelho, percebemos a ausência de olhos como uma velada porém não imperceptível crítica à manipulação da realidade pelos meios de comunicação, que têm na alienação do ser humano e na subserviência das massas ao status quo o seu maquiavélico objetivo.

 

Teóricos parecem concordar com a interpretação de que a figura materna é muito possivelmente representada pelo serzinho em azul. A ausência dos pés retrataria a forçada imobilidade feminina na dinâmica socioeconômica. É a chamada "arte denúncia", que nas democracias mais evoluídas vem encontrando estímulo cada vez maior, tanto no que se refere ao fomento governamental e aos patrocínios da iniciativa privada quanto aos espaços de exposição, modernos e bem estruturados.

 

Evidente que, em obra tão permeada por signos subjacentes - e não raramente despercebidos ao olhar desatento da fruição meramente estética - seria de se esperar a presença de símbolos concernentes às sociedades secretas, como a Maçonaria, a Ordem dos Templários, os illuminati, a Opus Dei e os Rosacruzes. E tais referências saltam aos olhos: mesmo aos não iniciados, revela-se óbvio esse intento, materializado em um sem número de elementos representativos dessas organizações.

 

Já a ausência de uma figura em amarelo vem sendo erroneamente interpretada como segregação à cultura oriental. Em recente coletiva de imprensa, o consagrado pintor esclareceu que os tons amarelados, embora não presentes nas pessoas do quadro, consta do arco-íris ao fundo. No entendimento do autor, isso colocaria o amarelo e todas as suas conotações étnicas e filosóficas como parte da natureza e da vida.

 

Por último, parece nítido o propósito de Klausten Van Herbert em atribuir o conceito de ascendência ou elevação às figuras retratadas. Basta que o espectador repare no aclive da perspectiva dos pés em relação à base do quadro. Observa-se um ângulo a elevar-se da esquerda para a direita, o que pode ser entendido também como uma simbologia das convicções políticas do artista, que como todos sabem migrou da militância ativa no Partido Comunista para uma posição ideológica bem mais conservadora.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 14/04/2018.

 

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Material de demolição

 

 

MATERIAL

 

O oratório e o missal de madrepérola, tacos pequenos soltando em efeito dominó, um vidro começado de xarope São João, esfregão sem cabo servindo de peso de porta, cantoneiras de retrato em práticas embalagens de 200 unidades, velas votivas Belém 100% parafina, o Opus Dei precisa da sua colaboração: preencha aqui o valor de sua contribuição mensal, disco é cultura, com sua Lanofix você poderá fazer roupas de tricô para toda a família, Gillette Platinum Plus Registered Trade Mark, Monark Monareta 73 - toda a loucura da vida para rasgar o mundo, azedinhas sortidas Sönksen, contribua pela formação de um Brasil grande: encaminhe um analfabeto a um posto do Mobral, Loteria Esportiva Federal - teste 254, com Magnésia Bisurada você fica bom mais depressa, fogão Semer Radiante em oferta relâmpago na Eletroradiobraz, ouça em alto e bom som no seu rádio Admiral.

 

DEMOLIÇÃO

 

Hashuashuashuashua :D :D :D

Bfds, vacilei mais vou googlar, sqn véi. :(((((((

Vlw. Joseh Bonifácil? Nuntendi, eh onde fika sua ksa, miguxo? Posso te add? kbeça zuada hj, bjão, tão xau.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 09/04/2018.

 

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O remédio é a permuta

 

 

- Nossa rede de farmácias tem uma oferta irrecusável pelo seu terreno, Sr. Álvaro.

 

- Bom, não tá à venda. Mas dependendo do que você tiver aí na manga, não sou louco de não aceitar...

 

- O senhor sabe que está todo mundo mergulhado até o pescoço nessa crise, e a oferta de imóveis excelentes para vender é enorme. Terrenos semelhantes ao seu, nesse bairro, há pelo menos uns vinte anunciados.

 

- Tá, pode pular essa parte.

 

- Indo direto ao assunto: só fazemos negócio à base de permuta.

 

- Não estou entendendo. O que uma rede farmacêutica vai querer permutar em troca do meu terreno?

 

- Óbvio: remédios. Todos os que o senhor e sua família precisarem.

 

- Oi????

 

- O senhor já parou para pensar o peso que tem o gasto com medicamentos no seu orçamento doméstico? Basta fazer uma conta por alto, assim de cabeça, e vai se assustar com o resultado. Fica entre 7 e 20% das despesas mensais. Um percentual que vai aumentando conforme a família envelhece.

 

- Maluco isso...e quem da família pode aproveitar essa permuta?

 

- O senhor, sua esposa, seus filhos, netos, genros, noras, sogros, cunhados e parentes até o segundo grau. Do seu ramo familiar e da sua mulher também. E é vitalício, o contrato vale até que todos morram. Mas o terreno tem que vir como doação para a Rede imediatamente, com escritura em cartório, tudo direitinho.

 

- Mas eu posso morrer amanhã! Aí dessa permuta eu não aproveito nada... É cada uma que me aparece!

 

- Veja, com tantos remédios à sua disposição, vai ser difícil o senhor morrer tão cedo. E, se morrer, vai deixar uma bela herança em saúde para a família toda.

 

- Só que o meu terreno vale 2 milhões!

 

- E quanto vale a saúde da sua família? Seu neto, por exemplo, pode vir a precisar de um remédio caríssimo, de uso diário... Será tudo por nossa conta. A única possibilidade do senhor fazer mau negócio é se sua família inteira estiver a bordo de um avião que venha a cair e mate todo mundo. Aí não dá para fazer nada mesmo.

 

- Nossa, seria azar demais.

 

- Só que tem alguns pontos importantes, previstos em contrato, para a permuta não virar bagunça. O senhor pode ter parentes hipocondríacos, e aí vamos ter prejuízo. Outra coisa: hoje em dia farmácia vende de tudo. Tem chocolate, isotônico, recarga de celular, barrinha de cereal, bronzeador, batata frita... Então é bom que fique bem claro que a permuta é para medicamento. E tem que haver uma perícia com um farmacêutico da rede, para saber se o remédio requisitado condiz com o quadro do paciente.

 

- Sei. E vai ter farmacêutico de plantão na farmácia?

 

- Ahnnnnn.... bem... o que eu quero dizer... Olha, tem que ter a autorização de profissional habilitado. Se não tiver farmacêutico aqui na hora, o gerente liga para a central da rede e a gente envia um para fazer a perícia. Esse ponto precisa ficar bem entendido.

 

- Que prazo eu tenho para dar uma resposta?

 

- Meia hora. A máquina de terraplenagem já está vindo para cá.

 

- Calma aí, queridão. E se eu não quiser fechar negócio?

 

- Sabe aquele outro terreno, atravessando a rua? Já está vendido para nós, caso o senhor não aceite.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 31/03/2018.

 

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Mané, saudoso Mané

 

 

Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

 

Dizia o Mané:

 

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

 

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

 

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

 

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

 

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

 

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 24/03/2018.

 

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Retatuando

 

 

A ideia é fantástica: tattoo imitando pele, para ser aplicada por cima do corpo tatuado, simulando uma derme zero quilômetro. Um processo caríssimo e muito mais demorado do que encher o corpo de dragões, flores, âncoras, crânios, frases e assemelhados.

 

Há uma vasta escala de cores com todos os tons de pele possíveis e imagináveis. Encontrado o tom exato do cliente, este passará semanas aos cuidados do tatuador, tendo que suportar um total estimado de 4 trilhões de agulhadas até que a falsa nova pele fique pronta.

 

A nova tecnologia tem duas finalidades principais. A primeira é possibilitar a reversão do que até agora era irreversível, deixando o corpo da forma com que veio ao mundo. A segunda é como limpar um muro todo pichado e deixá-lo pronto para nova pichação. Ou seja, uma solução voltada aos amantes compulsivos dessa antiga arte - aqueles que só não carregam mais tatuagens em si por falta de espaço na carcaça.

 

O primeiro público consiste, em sua maioria, de evangélicos neoconvertidos, que de uma hora para outra encasquetam que seu corpo é a morada do Senhor e, como tal, deve ser mantido do jeitinho que foi criado. E também dos desiludidos do amor, que aplicaram em si mesmos frases ou extensas declarações de paixão eterna, com o nome da cara metade, e acabaram por levar um pé na bunda.

 

Já o segundo público, bem mais "outsider" que o primeiro, terá a sensação de portar sobre si um verdadeiro parque de diversões, podendo substituir desenhos e símbolos que considere ultrapassados ou dos quais já esteja farto de carregar pra baixo e pra cima. Para esses alternativos, seria como nascer de novo - abrindo seus corpos para o inenarrável prazer de entupir cada poro de tinta.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 17/03/2018.

 

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O Robô vai roubar

 

Pasme, porque a coisa é séria e assustadora. Um pedreiro, daqueles de mão cheia, que trabalha rápido e bem, consegue assentar até 600 tijolos ao longo de oito horas de serviço. Isso em condições ideais de temperatura e pressão, contando que o sujeito irá pular da cama disposto e louco pra botar a mão na argamassa. O robô, já concebido e no aquecimento para roubar seu lugar, assenta POR HORA cerca de 1500 tijolos – milimetricamente aprumados, sem desperdício de material, sem cantoria de pagode, sem parar para começar outro serviço enquanto não termina o que está fazendo ou para chavecar a mulherada que passa em frente à obra, com o manjado “ô, lá em casa!”. Mais: sem salário, sem nunca ficar doente, sem FGTS, sem INSS, sem décimo-terceiro, sem greve, sem panetone e sidra de fim de ano. O máximo que vai exigir é uma ou outra borrifada de WD40 de vez em quando. Esse é um exemplo, para ficar só na construção civil. Juro que não quero estragar o seu Natal, nem o espírito de harmonia e fraternidade reinante, mas o poder de destruição da Inteligência Artificial promete não deixar pedra sobre pedra. Vai virar tudo do avesso e passar a Makita em milhões de pescoços.

 

Tem jeito de evitar isso? Não. Tem jeito de evitar as consequências disso? Também não. Então, fazer o quê? Tentar deixar menos árdua a remoção dos escombros e a reinvenção da roda. Fóruns de discussão e congressos mundo afora debatem a possibilidade de uma giga-tributação sobre os robôs, como forma de inibir sua utilização desenfreada e o resultante desemprego em massa. Aí então teríamos robôs em oferta abundante e a preços módicos, mas não teríamos empresários dispostos a arcar com o ônus de utilizá-los. Logicamente, a produtividade e a diminuição de custos prometidas pela Inteligência Artificial, que trariam uma brutal redução nos preços de tudo, ficariam pra depois. Afinal, de que adianta o mundo a preço de banana, se não tiver ninguém empregado e recebendo direitinho para limpar as prateleiras?

 

Pessimistas mais radicais profetizam que a automoção e o autosserviço tomarão conta de toda a cadeia econômica, e que funções burocráticas e mecânicas serão rapidamente varridas dos comércios e das indústrias. Até mesmo contadores, engenheiros, nutricionistas, analistas de laboratório e adestradores de foca estariam ameaçados de extinção para darem lugar ao fantástico poder dos algoritmos. Tudo bem, novas funções surgirão, mas com um potencial de empregabilidade infinitamente inferior ao número de humanos tornados obsoletos da noite para o dia. Não é difícil imaginar o aparecimento de fábricas moderníssimas, cujas inteligências artificiais produzirão artefatos de Inteligência Artificial para controlar robôs artificialmente inteligentes que executarão miríades de tarefas antes a cargo do pessoal de carne e osso. E o Nosso Senhor lá em cima assistirá a tudo isso com um olhar complacente e um sorriso de canto de boca, como quem já sabe desde o início dos tempos qual será o final dessa novela. Que Ele nos inspire e nos abençoe.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 10/03/2018.

 

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Mim Tarzan, You Tube

 

 

Definitivamente, Tarzan não estava em seus melhores dias. Chegou à repartição meia hora depois do cacique, derrubou pó de guaraná na camisa branca e, como se não bastasse, o programa travou no meio da planilha. O relatório precisava estar pronto dali a duas luas, no máximo.

 

Ficou olhando impotente para o mico computador, contando até 10 para não esmurrá-lo. Era todo de jacarandá, com uns detalhes em peroba rosa. Talvez por isso desse pau o tempo todo. Comprado de contrabando, veio escondido debaixo de um carregamento de mogno vindo do Amapá.

 

O gabinete de Tarzan era no décimo oitavo andar da palmeira imperial 15, Asa Sul de Bem-Te-Vi.

 

Lá vem ela: Jane. Aquilo não era uma mulher, era uma reserva natural paradisíaca. Assim ficava difícil se concentrar no trabalho. Funcionária nova, chegara ali transferida da Funai, depois de ter servido oito anos na Sudam. Se aproxima insinuante e pergunta qual o melhor caminho pra voltar pra casa.

 

Meu Santo, Daime forças pra resistir à tentação. Seria uma inesquecível transa amazônica...

 

Tarzan explica que o caminho mais fácil é pegar o cipó 12, passar três estações, fazer conexão com o cipó 35, saltar na Avenida Vitória Régia e dali ir de canoa até sua oca.

 

Com vestido de chita essa Jane fica um arraso, ele pensa. Mas, se abatesse a presa, teria que ser mais cauteloso do que com aquela gata vestida de oncinha, que levou para o meio do mato na semana passada. Por um descuido a conta do “Moita’s Hot Night” foi parar na fatura do cartão de crédito. Pra explicar em casa não foi nada fácil, o couro de jacaré comeu solto quando chegou na cabana.

 

A reunião com a diretoria foi demorada. Pauta do dia: Alternativas para livrar a selva de pedra da extinção, detendo a devastação da cidade pela floresta e preservando os mananciais de CO2. "O crescimento desordenado da mata nativa vem engolindo impiedosamente as chaminés das fábricas. Se não fizermos alguma coisa agora, não vai sobrar uma fumacinha para as próximas gerações", argumentava colérico o gerente de assuntos institucionais. E aí a discussão se estendeu com todo aquele papo de sustentabilidade, de responsabilidade ambiental, que a empresa precisa se mobilizar pra calar a imprensa e aplacar os ânimos da opinião pública, etc. Ao final, tudo combinado e nada resolvido. Saiu esgotado do blá-blá-blá e parou no bar para um Gin das selvas. Duplo.

 

De volta à cabana, acessou amazon.com e encomendou o último lançamento do Ramos de Carvalho, que o Campos Nogueira havia recomendado para seu primo, Pinheiro da Serra. Aproveitou e comprou também um ensaio do Florestan Fernandes e um CD da Vanessa da Mata.

 

Já na rede, pegando no sono, o celular toca. Era o Aníbal pedindo que lhe quebrasse um galho. E toca o tonto do Tarzan a se embrenhar floresta adentro, com a moto-serra nas costas, pra resolver o problema do amigo.

 

Nisso já clareava o dia. Parou na banca de jornais, comprou a “A Voz Nativa” e leu a reportagem sobre um projeto voluntário de crianças que derrubavam árvores para transformar em roçados de arroz e soja. A matéria também falava de um grupo de adolescentes que drenou um rio e seus peixes para enchê-lo de asfalto. As fotos mostravam as mães dos meninos chorando de emoção, o jornal elogiava o exemplo de cidadania, um representante da ONU veio condecorar a escola e os alunos pelo feito inédito e inspirador.

 

Com os olhos marejados, dobrou o jornal e seguiu direto para a repartição, exausto e sem banho tomado, mas com o gratificante sentimento de que nem tudo estava perdido nesse mundo.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 04/03/2018.

 

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Ministério da Solidariedade

O governo da Inglaterra acaba de criar o Ministério da Solidão. Tido como epidemia oculta, o problema afeta mais de 9 milhões de britânicos, que trocariam o saldo bancário por um dedinho de prosa.

 

Mas se os ingleses são solitários, os brasileiros são por natureza solidários. Talvez aí resida a principal diferença entre os súditos da rainha, aparentemente tão tristes e cabisbaixos em sua nublada rotina, e nós, solares, extrovertidos e sempre sorrindo para a vida ou dando de ombro aos revezes. Um povo prestativo e solícito, pronto a ajudar por vocação, não por obrigação.

 

O fato é que, da cinzenta ideia do Ministério da Solidão, surgiu ao Governo Federal a simpática iniciativa de instituir o Ministério da Solidariedade.

 

Como disse John Kennedy, com raro senso patriótico: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer pelo seu país". Nosso Brasil não suporta mais tamanha carga tributária, que tanto onera o preço final dos produtos e o orçamento dos mais necessitados. Assim, ao invés de criarmos novos e impopulares impostos, incentivaremos a solidariedade de nossos cidadãos, para que espontaneamente doem recursos aos cofres públicos - o que é bem diferente da taxação compulsória.

 

Sabe-se que todo o alto escalão do Ministério da Economia estará reunido hoje e nos próximos dias, em caráter de urgência, debruçando-se sobre as logísticas de arrecadação e os incentivos necessários a atrair o contribuinte. Uma das ideias em pauta é a emissão, em papel moeda marcado com brasão holográfico da República, do certificado "Cidadão Solidário", a ser entregue a todos os doadores de quantias superiores a R$1.500,00. Nele, o governo compromete-se a ser tolerante em demandas de fiscalização que não envolvam estelionato e outros delitos graves, como forma de recompensar a ajuda extra desembolsada pelo cidadão que aderir às doações. Obriga-se, ainda, a destinar os recursos provenientes da receita solidária exclusivamente à saúde, à educação e à segurança pública, com prestações de contas periódicas no Portal da Transparência.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 19/02/2018.

 

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Grande Muralha

 

 

Os chineses fazem qualquer negócio. Sabem comprar e sabem vender. Arrematam na bacia das almas, passam pra frente a peso de ouro. Têm a manha de copiar o que o mundo faz de melhor, aperfeiçoar e exportar para a Via Láctea inteira por uma décima parte do preço de mercado.

 

Um dos desafios atuais do gigante vermelho é como fazer dinheiro do seu maior e mais valioso patrimônio - a Grande Muralha da China. Construída ao longo de vinte séculos, estende-se ao longo de inacreditáveis 21.196 km e tinha como finalidade original defender as divisas do país contra as invasões de outros povos, especialmente os mongóis.

 

Com os mongóis deixando de ser ameaça, essa maravilha da humanidade passou a não ter utilidade alguma além de servir de cenário para fotos turísticas. A lenda arquitetada em torno dela, de que seria a única obra feita pelo homem visível da lua a olho nu, caiu por terra em 2004, quando um astronauta chinês afirmou que do espaço não se enxergava muralha nenhuma. Aliás, é de se supor que quem concebeu tal idiotice viajou na maionese, pois nunca esteve na lua para vir com uma história dessas.

 

A primeira ideia ocorrida aos neocapitalistas foi bater a marreta em tudo e exportar nacos a preço de banana para cada terráqueo vivente. Mas um chinês de visão dividiu sete bilhões de possíveis compradores pela gigantesca área da muralha e chegou à conclusão de que o souvenir seria maior do que a casa que o abrigaria, mesmo que fosse uma mansão de príncipe saudita. Ainda iria sobrar muita muralha, uma outra solução teria que ser encontrada.

 

Hoje, duas alternativas despontam como as mais viáveis para fazer dinheiro da imensa e inútil tripa de pedra.

 

Reformatório para pichadores brasileiros.

Um inédito acordo de cooperação entre Brasil e China preveria o seguinte estratagema, vantajoso às letras B e C do BRICS:

1) Venda de tinta spray chinesa a preços módicos para o Brasil.

2) Espetacular crescimento de vendas da tinta no mercado interno, pelo custo inacreditavelmente baixo, atraindo pichadores e aspirantes à prática.

3) Aplicação de multas extorsivas aos meliantes pegos com a mão no spray, com arrecadação extra para Estados e municípios.

4) Deportação dos contraventores tupiniquins para os domínios de Mao-Tsé. Lá, se debruçarão à vontade sobre os 21.960 km de muralha e gastarão 50 latas de spray cada um para escreverem repetidamente a seguinte frase: " A pichação não compensa". Em seguida, receberão do governo chinês latas de removedor e palhas de aço para apagarem da muralha a merda que fizeram. Os removedores serão comprados pelos brasileiros, com vantagens para a China em duas frentes - venda de removedor e limpeza da muralha, que há séculos vem pedindo por uma boa manutenção.

 

A outra alternativa em estudo consiste na venda de parte da muralha para Donald Trump edificar o muro na divisa com o México. Essa opção esbarra no problema, até o momento incontornável, da entrega da mercadoria. A parte vendida da muralha teria que ser fatiada em milhares de pedaços, transportada em imensos navios e reunificada no local de destino. A manobra levaria décadas ou mesmo séculos. Até lá, Trump já teria concluído seu mandato e o presidente que o substituísse poderia muito bem mudar de ideia, tornando inútil todo o esforço.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 11/02/2018.

 

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Coca-Cola em Pessoa 

Pouca gente sabe, mas o grande Fernando Pessoa já fez free-lance para a Coca-Cola nos anos 20, quando da entrada da bebida no mercado português.

- E então, senhor Fernando? Já temos o nosso slogan?

- Aqui está. “Coca-Cola. Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”. Que me diz?

- Bem... eu entendi o jogo de palavras, muito engenhoso, diga-se. Mas...

- Mas?

- Eu não gostei da primeira parte da mensagem, a impressão que se tem é que o nosso produto causa uma reação negativa. Senhor Fernando Pessoa, se estivesse em meu lugar, precisando de resultados e vendas, sendo cobrado pela matriz e necessitando consolidar a Coca-Cola no mercado lusitano, iria aprovar uma barbaridade dessas?

- Ora pois, que há de errado com o reclame?

- Ao usar o termo "estranhar", o nobre escritor já levanta a lebre que a bebida pode parecer a princípio repulsiva.

- Mas só a princípio. A segunda parte do slogan já rebate essa estranheza.

- Eu entendi o seu raciocínio. Na sequência, temos o "depois entranha-se", querendo dizer que, logo em seguida, o refrigerante passa a ser apreciado. Mas, olha, serei sincero: esse "entranha-se" também não me agrada de forma alguma. Entranha me lembra víscera, tripa, o que não combina nem um pouco com a sensação de sabor e refrescância prometidos pela nossa deliciosa Coca-Cola.

- Devo entender então que a minha frase foi reprovada por completo? O senhor está fazendo pouco do grande Fernando Pessoa, um gigante à altura de Camões? Um gênio tão inspirado que, não se bastando, teve de criar heterônimos para dar vazão a tudo o que tem a dizer?

- Heterônimos?

- Sim. Tenho dezenas deles, mas quatro são mais famosos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares.

- Entendi. Eu tenho uma sugestão a fazer: por que você não passa a criação do slogan para esses quatro amigos seus? Vai que sai alguma coisa que preste...

- O senhor não entendeu coisíssima nenhuma. Os quatro são eu mesmo. Eu os criei, cada qual com um estilo peculiar.

- Então! Mais um motivo para passar esse trabalho a eles. Serão quatro estilos diferentes pensando no nosso slogan. Isso é até bom, pois as opções serão provavelmente bem diversificadas. Vocês fazem uma concorrência entre si, e quem fizer o melhor fica com o dinheiro do freela.

- Mas todos eles são uma única pessoa. O senhor sabe o que são heterônimos?

- Olha, não me interessa se é heterônimo, se é Jerônimo, se é Antônimo, se é Anônimo, o que eu quero é o meu slogan. E que seja único e original, como é a Coca-Cola!

- Bem, eu tenho aqui comigo uma segunda opção. Algo assim: "Tudo vale a pena se a Coca não é pequena". Profundo, heim?

- Então, mas aí o senhor valoriza demais os outros tamanhos do refrigerante, e ao mesmo tempo diz que a Coca pequena não presta. E é das pequenas que vendemos mais! Por favor, senhor Pessoa. Admita que as opções não está lá essas coisas e bote novamente essa sua privilegiada cabeça pra funcionar. A sua e a dos seus amigos, esse Jerônimo e tudo mais. Boa sorte, nos falamos na próxima semana.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 03/02/2018.

 

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Affair virtuoso

 

 

Cada um na sua webcam. No começo, uma gracinha aqui e outra ali. Não demorou muito, amantes remotos.

 

- Bota o cachecol... bota o cachecol que eu enlouqueço logo de uma vez!

 

- Só se você colocar antes um gorro de lã. Mas tem que ser tipo capuz de bandido, daqueles que só ficam os olhos descobertos.

 

- Tá, mas depois você promete que veste um casaco? Sobretudo é meu fetiche, sabia? Já te falei isso? Então. Quero três casacões bem grossos e felpudos, um em cima do outro, até você ficar curvado de tanto peso, sem poder mexer os braços e sem nenhum poro do corpo descoberto! Ui, só de pensar eu fico doidinha, doidinha. Megaexcitante!!!

 

- Mas como você é safada, heim?

 

- Então, aí você faz uma dança sensual em frente à câmera e aos poucos, bem devagarinho, vai abotoando os casacos no ritmo da música, até ficar tudo bem fechadinho até o pescoço.

 

- Ai, mas e se alguém resolve entrar aqui no quarto e me pega assim, vestidão - do jeito que não vim ao mundo? O que que eu vou dizer? Imagina a situação, vestido dos pés à cabeça!

 

- Isso é problema seu, quem mandou me provocar? Reconheça: você também está gostando...

 

- Sabe, um negócio que me tira do sério é marquinha de biquíni... Você bem que podia arrumar uma mala cheia deles, e ir mostrando, com essa sua carinha de sem vergonha, as etiquetas com as marcas de todos os biquínis que existem no mercado. Uau! Isso ia ser demais. Podemos fazer isso amanhã, né? Por enquanto manda uma selfie pra mim, todinha vestida. Por favor, só uma, vai...

 

- Esse negócio de tirar foto vestida e enviar pela net é um perigo. Aliás, dois perigos. Um hacker pode entrar nos arquivos do meu computador, achar as fotos comprometedoras e publicar. E você também, caso a gente brigue e pare com essa brincadeira, pode se vingar jogando as fotos na web.

 

- Então faz o seguinte, tira a foto do pescoço pra baixo, sem enquadrar o rosto... aí não vai ter jeito de alguém reconhecer você como dona do corpo cheinho de roupas. Concorda?

 

- Não sei, não. Vou pensar. Mesmo não mostrando o rosto, acho muito perigoso. Ainda se fosse um nudezinho inocente, mas de roupa... se algum conhecido vê, com que cara eu vou sair na rua?

 

- Tudo bem, então vamos parar por aqui.

 

- Mas logo agora que está ficando bom? Investi o que tinha e o que não tinha nessa relação, entrei em tudo que é crediário de loja, pedi dinheiro emprestado...

 

- Bom, então resolve o que você quer fazer. Mas uma coisa é certa: nua assim ninguém vai reparar em você. Nem na rua, nem na internet, nem em lugar nenhum.

 

- Tô indo. Preciso de um tempo pra refletir sobre nosso caso.

 

- Tá, mas e a burca? Você prometeu.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 27/01/2018.

 

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O dia em que o Rubão explodiu

 

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Eram onze e meia da manhã quando o Rubão foi pelos ares.

 

O chefe o chamou em sua sala e começou a esculhambação. Metas, metas e mais metas não atingidas. Relatórios, gráficos de vendas, queda nos lucros. Cobrança de resultados, avanço dos concorrentes, vermelho inevitável no balanço do fim do mês.

 

– Então, seu Rubens, como é que fica?

 

O Rubão, do alto de um metro e noventa e quatro revestidos por largo invólucro adiposo, ia escutando calado, os braços cruzados e os olhos no chão. Foi quando começou a inchar. Os globos oculares querendo saltar do rosto. As mãos tremendo incontrolavelmente, os lábios arroxeando e dobrando de tamanho. No início ainda teve a consciência de afrouxar o nó da gravata e desapertar o cinto. Depois foi perdendo os sentidos e entregando-se resignado ao estouro iminente. O coração pulsava na altura do pescoço, veias e artérias iam rebentando como pipocas no microondas.

 

O chefe, agora acuado diante do quadro calamitoso, tentava uma remissão.

– Calma, Rubão, calma, esquece o que eu disse. Mês que vem a gente recupera essa situação, agora volta ao normal…

 

Três segundos depois, Rubão era carne moída. Explodira silenciosamente, low-profile, bem ao seu estilo. Talvez a banha abundante tivesse abafado o estrondo. O fato é que não havia centímetro de mármore, vidro temperado e madeira nobre da sala do diretor que não estivesse coberto com as vísceras do dedicado supervisor de vendas. Embora quase inaudível, a força daquele big-bang humano foi avassaladora. Alguns ossos encravaram-se, como que fossilizados, nas paredes do escritório, formando um curioso mosaico.

 

O diretor, tirando um fiapo de pâncreas preso aos seus óculos junto com o “R.J.T.” da camisa do Rubão (chamava-se Rubens José Tavares), tinha que pensar rápido. A situação era insólita, poderia ser acusado de assassinato.

 

Interfonou para a secretária e pediu que providenciasse um cão faminto, em pele e osso, imediatamente. Antes de tudo, limpar a área.

 

Refestelado do presunto e sua gordura, o cão começou a agonizar. O diretor decidiu levá-lo a um veterinário para uma injeção letal. Sacrificado o bicho, não haveria indício do ocorrido.

 

Não foi preciso. O cachorro chegou morto ao consultório. Sem a permissão do diretor, o doutor foi logo abrindo sua barrigada.

 

Após autopsiar o bicho, o veterinário foi categórico:

 

– Macacos me mordam, isso é carne de Rubão!

 

– Como assim? , disfarçou o diretor.

 

– Como assim digo eu, quem tem que se explicar é o senhor. Conheço carne de Rubão a léguas de distância. Além do mais…

 

Não chegou a concluir o raciocínio. Três tiros nos miolos o calaram para sempre. Sabia de tudo, era preciso eliminá-lo, pensou o diretor ao sacar a arma e mandar pro inferno o segundo num dia só.

 

Fugiu em disparada com o Rubão moído num saco de lixo, e se deu conta de que as placas dos carros todos tinham prefixo RJT. Pelas ruas em que passava via a Borracharia do Rubão, rubancas de jornal, a agência do Rubanco do Brasil, outdoors de Vick Vaporubão, concessionárias Mercedes-Rubenz.

 

Corria. E quanto mais corria, mais o espectro do Rubão ganhava fôlego para alcançá-lo. Ele com o pacote de carne já marrom, sem ter como livrar-se do finado a decompor. Entrou num beco, olhou para o céu e viu uma nuvem com o perfil exato do defunto. Exausto, cambaleou até chocar-se com a vitrine de uma loja de perfumes. O alarme soou: ru-bão, ru-bão, ru-bão, ru-bão…

 

Antes que a polícia viesse, chegou sua vez de explodir. Ruidosamente, gloriosamente, solenemente, como convinha a um executivo do seu porte.

 

No dia seguinte, os jornais noticiaram terem sido finalmente encontrados os restos mortais de Rubão, junto aos destroços de um desconhecido, enterrado como indigente.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 20/01/2018.

 

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Cachorro engarrafado

"O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado"

Vinícius de Moraes

 

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Ele chegou filhotinho, uma coisinha de nada, só 200ml de suave fofura e inocência. No rótulo se lia "12 years old", mas, para um exemplar daquele pedigree, doze anos era só o começo de uma longa e proveitosa vida.

 

E como foi saboreada a vida que me deu, enquanto durou. Não exigia nada em troca e não dava trabalho nenhum. Não pegava pulga, nem carrapato, banho não carecia, nem latir ele latia. Manso como só ele, deixava-se ficar ali na estante, entre livros e porta-retratos.

 

A intimidade e o zelo foram se achegando aos poucos, em goles discretos. Sabia o momento do seu reinado a cada fim de tarde, à hora certa e boa. Era quando trocávamos colos. Eu lhe dava o meu e ele me dava o dele. Sem gelo, reconfortante e amigo. Cicatrizante de mágoas e refazedor de ânimos, punha-me a alma pulando doida feito um cãozinho dançante de circo. Em sua irracionalidade, parecia conhecer a magia do seu caramelo com gosto e cheiro de envelhecido, levando como recompensa de sua travessura um biscrock ou coisa assim.

 

E quantas vezes eu ali quieto, no divã da sala, livro ou jornal nas mãos, e lá vinha ele com aquela cara de pidoncho, abanando o rabinho. Me ganhando com seu blend de cocker spaniel, poodle e yorkshire, um malte (ou seria maltês?) de aroma inconfundível e traços amadeirados de marcante personalidade, que só o repouso sem pressa em carvalhos escolhidos pode trazer.

 

Nessa toada, o tempo voou e ele espichou. De garrafa de bolso para 500ml, daí para 750 até chegar a um litro. Ou seja, se eu o entornava aos poucos, o seu crescer forte e saudável recuperava o consumido. Na cruza, rendeu oito filhotinhos. Todos com a sua cara e com os mesmos 200ml, o tamanho que tinha quando entrou em casa pela primeira vez.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Marcelo Sguassábia© - 13/01/2018.

 

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* Marcelo Sguassábia, reside em Campinas-SP. É redator publicitário e colunista

para diversos jornais e revistas eletrônicas. É colaborador de Via Fanzine.

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