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Crônicas

 

Personagem de rua:

O Louco das Alvoradas

“Dia após dia, sozinho em uma colina. o homem com o sorriso tolo está sentado perfeitamente imóvel...”.

(The Fool on the Hill – Beatles.)

       

Sempre na alvorada, ele sai, começa a beijar todas as flores...

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Nascer do sol. As pessoas, afoitas, absortas em seu labor. Trabalhar, trabalhar, trabalhar, ganhar o pão, poder educar os filhos... Tudo isso, impulsionando-as a buscarem, céleres, as suas conduções, que tornarão o trânsito ainda mais caótico.

 

Um dos ônibus saía do centro, indo até um bairro mais distante. Os trabalhadores iam descendo, de acordo com a conveniência.

 

Numa alvorada, quando o veículo passava por um trecho menos movimentado, uma senhora alertou os passageiros sobre um senhor, de uns sessenta e tantos anos, caminhando, em atitudes suspeitas. Noticiários de tevês não poupam alertas sobre esses tipos perigosos e a urgência de denunciá-los. Não foi desta vez. A viagem prosseguiu.

 

Nova aurora, mesma rotina, mesmo ônibus, mesmos passageiros. Do lado de fora, o mesmo enigmático viandante. Desta feita, a dama promoveu um alvoroço. Temos que fazer alguma coisa!

 

Terceira alvorada. Na mesma estrada, aparece aquele estranho assustador. Apelam ao motorista, pedindo-lhe providências.

 

- Eu não posso largar o volante. Chamem a polícia.

 

Esplêndida alvorada. Polícia! O suspeito é levado, juntamente com aquela turba, que vivia a censurá-lo.

 

- O que aconteceu? Este malandro está perturbando a paz de vocês? – pergunta o delegado.

 

- Sim - respondem em coro.

 

- O que vocês costumam vê-lo fazendo?

 

- Sempre na alvorada, ele sai, começa a beijar todas as flores...

 

- Ele até conversa com elas – completou outro. E todos riram.

 

- Ele abraça as árvores, beija-as... Parece até que ele namora com uma palmeira. (Gargalhadas).

 

(Delegado, a um soldado) - Prenda-o preventivamente! Deve ter mais coisas envolvidas nesta história. Vamos apurar. (Aplausos).

 

Um desconhecido, que tudo ali espreitava, intercede em prol do condenado: 

 

- Senhor delegado, doravante sou advogado desse infeliz. Ouça-me, por gentileza, e, se ao final, vir por bem aprisioná-lo, prenda-me também. Este sonhador, que já foi até apedrejado, eu o conheço bem. Homem honesto, honrado pai de família. Após árduos anos de serviços, alguns deles até prestados à nossa Pátria, aposentou-se e vive a salvar o meio ambiente. Inimigos do ecossistema julgam normal destruir as florestas, trucidar os animais. Todavia, entendem como insano o amor à natureza. Aos olhos dos incautos, ele é um desvairado. Mas quem aqui pode dele apontar um ato sequer, que ofenda as leis ou os bons costumes? Falem! Provem! (Todos calados.) Este incompreendido faz lembrar aquele “louco no monte”, dos Beatles. Aquele que se isolara da sociedade, a qual o repudiava. No entanto, habitava o monte, estando assim num nível mais elevado que o dela. Este nobre que defendo não é propriamente “o louco no monte”. Ele é “o louco das alvoradas”, melhor dizendo, “o sábio das alvoradas”.

 

- Solte-o – determina o delegado. E prenda, pelo menos por um dia, esses malditos acusadores.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

*  *  *

 

Um encontro:

Quase que ela perde o namorado

Ele se mostrava tremendamente constrangido por não falar português. Era argentino. A valência é que Cíntia possuía, pelo menos, os conhecimentos básicos do espanhol, e pôde ajudá-lo a localizar o hotel que pretendia.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

06/04/2019

 

A Cíntia, no intuito de aquecer mais ainda esta relação, convidou-o para, no dia seguinte, almoçar em sua casa.

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Cíntia comemorara, na véspera, seus vinte e seis anos. No entanto, um pouquinho tediosa, porque ela não tinha sorte com namorados.

 

Na noite seguinte, solta o pensamento e sai, por uma rua enluarada. Como por mágica, surge à sua frente um jovem encantador, o qual se dirigiu a ela, mais gesticulando que falando:

 

- ¿Puedo... hacerte... una pregunta? ¿Dónde fica...? ¿Dónde está?... No sé como decir...

 

Ele se mostrava tremendamente constrangido por não falar português. Era argentino. A valência é que Cíntia possuía, pelo menos, os conhecimentos básicos do espanhol, e pôde ajudá-lo a localizar o hotel que pretendia.

 

Ele foi a esse hotel, voltou, reencontrou a garota e, enfim, deu namoro. Uau! Jamais se viu tanta reciprocidade: nos olhares, nos beijinhos...

 

A Cíntia, no intuito de aquecer mais ainda esta relação, convidou-o para, no dia seguinte, almoçar em sua casa:

 

- “Pablito, mañana, por vuelta de las onze y media, en mi casa, ¿de acuerdo?”

 

- “Con mucho gusto, Cintia, gracias.”

 

Domingo calmo e azul. Onze e meia. Almoço na mesa. Dona Laura, mãe de Cíntia, andando pra lá e pra cá, curiosa para conhecer o “futuro genro”, com quem a filha até sonhara. E a Cíntia, sentada, roendo as unhas, com medo do muchacho não aparecer.

 

Campainha toca. É ele. Chegou com meia hora de atraso.

 

Findo o ritual das apresentações, vão desfrutar os prazeres da mesa. O convidado come, bebe e, ao final, dirige-se à sogra assim:

 

- ¡Está exquisita su comida! ¡Muy exquisita!

 

A boa senhora fecha uma cara, vai lá pra cozinha, chora, chora, até não ter mais lágrimas. Não volta à sala nem pra se despedir.

 

Logo depois que o visitante foi embora, a mãe, nervosíssima, chama a filha na conversa:

 

- Que moço sem educação esse que você me traz! Eu faço a comida pra ele com o maior carinho, e ele fala que a minha comida tá esquisita. Esquisito é o nariz dele! Com esse, eu não deixo você namorar! Cafajeste como esse não entra mais nesta casa!

 

Cíntia tenta de todo modo explicar:

 

- Não é isto, mamãe. A senhora entendeu mal.

 

- Ah, tá me chamando de surda? Eu ouvi muito bem, tá?

 

- Acalme-se, mamãe, acalme-se! Vou mostrar para a senhora.

 

Sai Cíntia e volta com um dicionário espanhol na mão.

 

- Olha aqui, mamãe, “Exquisita”, em espanhol, não é esquisita, como em português. Quer dizer agradável, muito boa, deliciosa.

 

– Ah, meu Deus! Que ignorância a minha! Ele estava era elogiando... Na verdade, ele é muito educado. Pode namorar com ele.

 

Abraçam-se calorosamente. A mãe ainda tira esta conclusão:

 

- Agora é que eu vi o quanto as pessoas sofrem por ignorância.

 

- Não diga assim, mamãe. Todos nós, em alguns pontos, somos ignorantes mesmo. Mas quanta sabedoria a senhora já nos passou!

 

QUATRO ANOS DEPOIS...

 

Cíntia e Pablito já têm uma menina de três anos, a Carmencita, e um menino de um, o Ramoncito. Um casamento “muy exquisito”.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

*  *  *

 

Educação:

O Terceiro Round

Hora do recreio. Professoras famintas: de um salário mais digno, de melhores condições de trabalho, de alimento. Sentam-se em volta da mesa. A cantineira, sorridente, vem trazendo a refeição.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

29/03/2019

 

O ringue já está montado. Vai começar a grande luta. Você não pode perder este momento de emoção!

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Numa escola, professoras, diretoras, sempre se desabafando: “Estes alunos de hoje são indisciplinados demais; eles não têm limite.” Como sempre, todas, empenhadas em aprimorar a disciplina, para uma educação melhor, para um Brasil melhor. (Um momento. Estou ouvindo no rádio da vizinha aquela canção da Legião Urbana, “Será só imaginação...”). Desculpem. Eu gosto bastante dessa música.

 

Hora do recreio. Professoras famintas: de um salário mais digno, de melhores condições de trabalho, de alimento.

 

Sentam-se em volta da mesa. A cantineira, sorridente, vem trazendo a refeição.

 

(E atenção! O ringue já está montado. Vai começar a grande luta. Você não pode perder este momento de emoção!)

 

Entre uma garfada e outra, a professora A revela espontaneamente:

 

- Meu prato predileto é frango com quiabo.

 

A professora B rebate veemente:

        

- Quê?! Frango com quiabo?! Cê tá é doida.

        

(Inicia-se o combate!)

        

- Uai, mas eu gosto e cabô. A propósito, cê gosta é de quê?

        

- Ah, meu prato predileto e o da minha mãe é taioba com angu.

        

- Ocê é que tá doida. Onde já se viu uma comida desta?

        

- A sua é que não presta: “frango com quiabo, ih! que nojo!”

        

- Isto é porque você não sabe fazer frango.

        

(Esse foi um direto de direita. Deu pra bambear. Atingiu a feminilidade da mestra. Mulher que se preza tem que saber cozinhar.)

        

Início do segundo round. Está 10 a 9 pra professora A.

        

- Eu não sei fazer frango? Fique sabendo que eu aprendi a fazer frango foi com a minha avó, a Dona Dolores, simplesmente a melhor cozinheira da região. Acumula prêmios internacionais. Tá satisfeita agora?

        

(Com esse cruzado de esquerda, atingindo o supercílio da adversária, termina o segundo round. Desta vez, 10 a 9 pra professora B. Até agora, empatado.)

        

- Então você não sabe é fazer o quiabo – insiste a professora A.

        

- Você se acha melhor do que todo mundo, não é? Mal-amada!

        

- Ah, cê quer saber a verdade? Angu com taioba é comida de porco.

        

(Foi um upper, a que nem os grandes lutadores resistiriam. Lona.)

        

Nisto, um professor ainda entra na confusão:

        

- Todas duas estão erradas. O melhor prato mesmo é pão molhado no feijão.

        

(Juntam-se as duas para bater nele.)

        

Um terceiro round violentíssimo. Entretanto, foram todos salvos pelo gongo: deu o sinal escolar, indicando que acabara o recreio.

        

Enfim, quem ganhou? Ninguém. Todos perderam. A escola perdeu. A educação brasileira perdeu. Não é “só imaginação”. Lamentavelmente, esse fato ocorreu numa escola. Tanta picuinha, tanta briga por causa de nada, e os grandes projetos dormindo nas gavetas.

        

E os alunos, hein? Eles, que eram tidos como indisciplinados.

  

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

 

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