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Crônicas

 

 

Adeus à jaula:

Um leão está solto nas ruas

Ninguém entende este Brasal. Talvez, só Roberto Carlos tenha entendido: “É uma brasa, mora?” O Brasil é um paradoxo. O profeta Ary Barroso já havia dito que o Brasil é um Brasil brasileiro.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

10/11/2019

 

Estamos começando a entender o que é o Brasal: mistura de brasa com sal, com pré-sal, com pressão; sal que aumenta a pressão, do leão...

 

Um leão, não. Cinco mil leões. Mais. Será que agora o circo vai pegar fogo – ou já estava pegando, desde o tempo dos Cabrais – e é por isto que os leões fugiram de lá?

 

Ninguém entende este Brasal. Talvez, só Roberto Carlos tenha entendido: “É uma brasa, mora?” O Brasil é um paradoxo. O profeta Ary Barroso já havia dito que o Brasil é um Brasil brasileiro. Mas o que é ser brasileiro? É pagar impostos altíssimos... É ter de enfrentar o Leão do imposto de renda? Que renda? Nem saia de renda existe mais. Ser brasileiro é estar sempre votando e se decepcionando? É sempre odiar a Globo, mas estar ligado nela, em dia de futebol?

 

Sou um cronista. Um cronista não julga; registra; provoca; abre espaços para teses e antíteses.

 

Talvez o melhor, para aproveitar esse sol, esse mar, seja relaxar... Aqui não tem guerra, não tem terremoto... (E você acredita nisto?).

 

Agora, por acaso, você está preocupado com os leões que fugiram? Te dou toda a razão. Eles são perigosíssimos. Contudo, e as feras que restam soltas por aí? São iguais ou mais ferozes. Não tem mais jeito: se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come.

 

Estamos começando a entender o que é o Brasal: mistura de brasa com sal, com pré-sal, com pressão; sal que aumenta a pressão, do leão... Pré-sal: é muito sal, é muito óleo, é muito olho, é muito ouro. Só que isto, com toda a certeza, não é para nós... Tem que ser mergulhador. Mergulhar fundo, uma légua inteira, para pegá-lo. (Melhor mesmo é continuar vendendo balas pelas ruas, ou fazendo mágicas no farol.)

 

Existem os bons leões: o Leão José, o William Leão, a Williane Leão, o Leão do Norte, a Nara Leão. Por que todos os leões não são assim?

 

Fui à África, não encontrei leões. (Lá eu estava seguro.)

 

Esse leite derramado, esse dejeto derramado, esse óleo derramado, esse suor derramado, essa lágrima derramada, esse sangue derramado... Isto é Brasil.

 

Esse bêbado tombado; esse drogado tombado; esse edifício tombado, essa árvore tombada, essa canoa tombada, esta fábrica tombada, essa escola tombada, esse hospital tombado, essa igreja tombada, esse velhinho tombado, esse caminhão tombado, essa vítima tombada, esse bandido tombado... Isto é Brasil.

 

Brasil. Brasil dos resistentes. Mulheres e homens, mais fortes que a desgraça - e que vêm alguma graça no sonar de um violão, no ronco de um tambor, no batido de um pandeiro, no bloco de carnaval, no trabalho que enobrece, no sorriso das crianças, na paixão do futebol.

 

Diz o profeta que haverá uma grande guerra. A guerra entre os leões. (Já existia, porém, ela ficará mais canibal.) Aumentará a procura por domadores; haverá cursos, treinamentos, qualificações. A profissão será a mais valorizada do mercado.

 

Nova Aquarela Brasileira acaba de ser pintada. Com traços bem mais fortes que os de Ary. Aquarela Realista.

 

Descobrimos o novo Brasil: a terra leonum; também das onças, dos chacais... No entanto, de gente que ainda acredita no bem. Fazer o bem nem sempre é fácil. Às vezes temos de enfrentar, pelo caminho, leões e lobos voracíssimos. O segredo é nunca nos comportarmos como ovelhinhas ingênuas, medrosas e distraídas.  

 

 

 

*  *  *

 

Tudo por uma tevê:

Num vai de foice, vai de machado!

Traduzindo: ela tentava executar alguma tarefa de um jeito mais simples. Se não funcionasse, ela empregava maior força, ou apelava para um método mais grosseiro, e resolvia o problema.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

02/11/2019

 

Já foi trepando na cadeira, dali, na mesa, e já foi arrancando as primeiras peças. A orquestra resolveu entrar na palhaçada, executando músicas eróticas e de cancã. A vedete se empolgou.

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Dona Luzia! Jamais vou esquecer essa mulher. Quando a conheci, ela aparentava uns trinta e oito, trinta e nove anos. Tinha um corpo bonito. Aos trinta e três, ficara viúva, com dois filhos para tratar. O marido só deixara dívidas. Bebia. Isto a desanimara de tentar um segundo matrimônio. É o que ela contava.

 

Após viver um tempo na informalidade, arranjou emprego em um prédio de nove andares. Era a única faxineira. Pobre, porém, feliz. Trabalhava cantando.

 

Uma frase que ela repetia muito era: “Num vai de foice, vai de machado!” Traduzindo: ela tentava executar alguma tarefa de um jeito mais simples. Se não funcionasse, ela empregava maior força, ou apelava para um método mais grosseiro, e resolvia o problema.

 

Movida pelas paixões, e pelas propagandas, aquela doce senhora decidiu adquirir uma TV de última geração. Comprar é fácil, né? Principalmente no cartão. É só introduzi-lo naquela maquininha e, como mágica, está, no mesmo dia, o objeto do nosso desejo em nossa residência. No entanto, e quando chega a fatura? Nossa! Isso tudo!? Deve ter havido algum engano. Não pode!

 

Cinco horas da tarde. Fim do expediente. E a Dona Luzia:

 

- Arre! Tô cansada... Tava doida pra ir pra casa descansar. - Ah, meu Deus, mas tenho que sair vendendo empadas, se não, eu não pago a minha televisão. Minha vida agora é esta: larga a vassoura, pega no balaio; larga o balaio, pega na vassoura... Ah, é assim mesmo. Num vai de foice, vai de machado.

 

Assim procedendo, ela conseguiu quitar em dia a primeira prestação, a segunda; atrasava um pouquinho alguma, porém liquidava... O fato é que, quando chegou na última, não havia mais como pagar. A loja cobrava, xingava, com ameaças até de pegar de volta aquele sonho encantado... A alegre arrumadeira já não cantava mais.

 

De repente, surge-lhe uma ideia magnífica! No andar mais luxuoso do prédio, funcionava o escritório de uma grande empresa, frequentado só por homens engravatados. Tapetes persas, móveis finíssimos. Ali, a Dona Luzia nem pensava em entrar.

 

Pois bem. Ela sabia que estava agendada, para o crepúsculo de uma sexta-feira, uma importante reunião. Chegavam homens, os quais, pela aparência e pelo sotaque, revelavam ser até de outras nações. Eram recebidos com pompa, circunstância e uma orquestra tocando.

No meio da reunião, entra a Dona Luzia gritando: “É agora! Num vai de foice, vai de machado! Tenho que pagar a minha televisão.”

 

(Com doçura.) - Gente, eu sei que esse trabalho de vocês é muito desgastante e eu resolvi oferecer-lhes um pouquinho de diversão. (Decidida!) - R$50,00 de cada um aqui, agora, que eu vou fazer pra vocês um strip-tease.  

 

Já foi trepando na cadeira, dali, na mesa, e já foi arrancando as primeiras peças. A orquestra resolveu entrar na palhaçada, executando músicas eróticas e de cancã. A vedete se empolgou.

 

Alguns participantes ficavam vermelhos; outros riam a perder o fôlego. Outros ainda, extasiados, acompanhavam o ritmo com as mãos, batiam palmas, gritavam oba, sem tirar os olhos da cena. E o dono do escritório não sabia mais onde enfiar a cara. Tentou todo tipo de desculpa. Nenhuma colou.  Aliás, ninguém nem o ouvia.

 

Só sei que a Dona Luzia pagou a televisão. Teve homem que deu muito mais. Caíam sobre a mesa 500, 1000... Até dólares. Foi a melhor reunião da vida deles. E as esposas não podiam reclamar, porque não foram eles que inventaram o programa.

 

- Imagem: Divulgação.

 

 

*  *  *

 

Na roça:

Uma chamada no celular 

O celular passou a fazer parte do corpo humano – daí o sofrimento, quando ele é retirado. Tornou-se a extensão da vista, da fala, do ouvido.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

27/10/2019

 

Mas eis que a tecnologia invade a roça. As meninas, os rapazes, todos já de celular na mão. Nele, escutam até o canto dos pássaros...

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Gerações X, Y, Z, Alfa, Baby Boomer... Com tanta geração, fica difícil se entender. No meio rural, é mais fácil. Avós, pais, filhos, netos trabalham juntos, almoçam juntos, vão à igreja juntos, dançam congado juntos... Ali, quando se julga necessário, a voz do mais velho engrossa, chama a atenção dos mais jovens, eles têm de obedecer e acabou.

 

Já no meio urbano, quem manda é o celular. Olha-se mais para a telinha do que para o rosto de um familiar, de um amigo. O smartphone, bem como a televisão, determinam os nossos atos; escolhem para nós. O celular passou a fazer parte do corpo humano – daí o sofrimento, quando ele é retirado. Tornou-se a extensão da vista, da fala, do ouvido.

 

No centro dessa reviravolta comunicacional está o Sô João. “Home bão, sô! Trabaidô, respeitadô, religioso, ótimo pai e marido”. Mora com a família em seu sítio, a uns dez quilômetros da cidade. Ali se respira paz...

 

Mas eis que a tecnologia invade a roça. As meninas, os rapazes, todos já de celular na mão. Nele, escutam até o canto dos pássaros, no mesmo instante em que essas aves trinam, de modo muito mais melodioso, voando livres por entre as árvores.

 

Dominado também pela força midiática, o Sô João foi ficando cada vez mais fascinado por esse prodigioso invento, até quê...

 

- Gente, que trem bunito esse doceis, hein?! Cê tá aqui, tá falano cum gente até lá do fim do mundo - sem fio, sem nada. Num parece coisa aqui da Terra não. Parece inté coisa do capeta.

 

(Todos riram à farta.)

 

Após refletir um pouco, o homem deu a mais surpreendente notícia:

 

- Quando eu fô lá na cidade, um dos fio vai cumigo, me ajuda a iscoiê, que eu vô comprá um troço desse pra mim.

 

(Palmas de alegria!)

 

No outro dia mesmo, já está o bom roceiro amansando o celular.

 

- A gente tem que mudernizá, né? Num pode ficá pra trais não.

 

Nos primeiros momentos, vovô ficou igual os jovens: não mais se separava desse empolgante brinquedo. Certa hora, colocou-o no bolso detrás da calça e foi roçar cana. E todos nós sabemos que cascavel adora um canavial, né?.

 

Dona Maria, a esposa do Sô João, dirigiu-se a um dos filhos:

 

- Toninho, dá uma ligada pro seu pai. Ele vai gostá de, já no primero instante, recebê uma ligação.

 

O filho obedeceu. Pra quê?! A confusão tava formada.

 

Num salto vem o louco correndo-gritando desesperado:

 

- Maria, acode aqui! Tira! Tira! Dipressa!

 

- Tira o quê, João?

 

- Cascaver, Maria! Tá garrada no meu bumbum!

 

- Que cascaver, seu panaca?! Num tem cascaver ninhuma aí não.

 

- Tem sim, sua paiaça! Iscuita o chocaio dela!

 

(Pobre João! Era o celular, vibrando ali em seu traseiro.)

 

Descoberto o vacilo, o Sô João, muito sem graça, atira o aparelho pela mesa afora avisando:

 

- Num quero mais isso não. Num falei que isso era coisa do capeta? Isso é só proceis mesmo, qui é mais jove.   

 

Game over! Vitória da geração Z, derrotando aquele velhote, que vivia dando palpitinhos em suas vidas. E acabaram ganhando, como recompensa, mais um celular novinho. O mundo é dos nerds.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Tudo o que preciso:

Vou-me embora pra Campo Belo

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei.

(Manuel Bandeira)

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

19/10/2019

 

 

Em Campo Belo, a ideia era que os passageiros pudessem acessar sua internet, mesmo de dentro do veículo, ganhando tempo em suas vidas ou se divertindo. Só que a diversão virou festa.

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Vou-me embora pra Campo Belo. Lá sou amigo do prefeito. Lá tenho o wi-fi que eu quero, no ônibus que escolherei.

 

Campo belo, Campo Belo, tenho tudo que não quero... Não tenho óculos nem tosse, nem obrigação de voto.

 

Para quem ainda não teve o prazer de conhecer, Campo Belo é uma cidade mineira, aproximando-se dos sessenta mil habitantes, de meninas belíssimas, de gente cordial e hospitaleira, a 226 km de Belo Horizonte. Tem pecuária, agricultura, indústrias têxteis... Ah! E tem algo especial, que me move para lá.

 

Vou-me embora pra Campo Belo. Aqui eu não sou feliz. Lá a existência é uma aventura, de tal modo inconsequente, que laranjas de Brasília, a mando daqueles dementes, vêm até os campo-belenses transmitir-lhes em suas campanhas sentimentos que não sentem.

 

Sem largar o celular, farei ginástica, andarei de bicicleta, montarei em burro bravo, subirei em pau de sebo, tomarei banhos de mar...

 

E quando estiver cansado, ponho o rosto na janela, mando chamar a Anitta pra me cantar algum funk, que há menos de um minuto, outra vinha me cantar. Vou-me embora pra Campo Belo.

 

Em Campo Belo tem tudo. É outra civilização. Tem um processo seguro de manter a conexão. Tem telefone à vontade, tem as gatas mais charmosas para a gente namorar.

 

E quando eu estiver bem triste, mais triste de não ter jeito, e der vontade - de quebrar meu celular -, calma!... Lá sou amigo do prefeito. Terei o wi-fi que eu quero, no ônibus que escolherei. Vou-me embora pra Campo Belo.

 

A história, contada de forma poética, está um pouco confusa? Vamos esclarecer. Chegou-nos a notícia que o prefeito de Campo Belo, desejando o melhor para a sua gente, resolveu instalar nos ônibus municipais ar condicionado e wi-fi. A ideia era que os passageiros pudessem acessar sua internet, mesmo de dentro do veículo, ganhando tempo em suas vidas ou se divertindo. Só que a diversão virou festa. A moçada, precisando ou não, danou a andar de lotação o dia inteiro, para aproveitar o wi-fi. Tem gente que chega às sete da manhã e só sai do ônibus quando termina o expediente. Comer? Beber? Ir ao banheiro? Pra quê? O viciado em celular não se lembra de nada. Esse mágico aparelhinho por si lhe basta. No entanto, e os estudantes, os trabalhadores, que precisam dos ônibus a tempo e a hora para cumprirem os seus deveres? Ah, terão de ir a pé – ou tentar algum transporte alternativo (e que não tenha wi-fi, se não, vem de novo a confusão). Os ônibus viraram ponto de encontro da garotada, dos passageiros fiéis. Agora, eu lhe pergunto: existe cidade melhor?

 

Por tudo isto, vou-me embora pra Campo Belo. Não a Veneza americana. Não a Mauritsstat dos armadores das Índias Ocidentais. O Campo Belo que aprendi a amar.

 

Amados cibernautas entorpecidos trocam, por uma telinha, belas praças, campos belos, em que as pessoas se tocam, se abraçam, se beijam, em sublimes intercâmbios de amor e de amizade.   

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Na padaria do português:

Como tirar de letra um assaltante perigoso

Possuía todos os discos do Roberto Leal, porém defendia que a maior expressão da música lusitana foi, e continuará sendo, Amália Rodrigues.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

14/10/2019

 

Trabalhavam ali quatro balconistas. A Gorete se destacava pela simpatia e rapidez de raciocínio. No caixa, quem mais atendia era a Manuelina, esposa do Sr. Antônio.

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Era tão bom frequentar a padaria do Antônio português! Sempre o melhor pão, quitandas variadas, receitas vindas de Portugal. Entretanto, o que mais atraía os fregueses era o papo. Virou ponto de encontro. Havia uma área com mesinhas, podendo-se ali comer, tagarelar, bebendo-se uma cerveja ou um legítimo vinho do Porto.

 

O Antônio era muito prosa. Ufanista ao extremo. Aclamava a coragem dos navegantes. “Navegar é preciso/Viver não é preciso.” E complementava: “Aqui está a alma do povo lusitano.”

 

O português já recebia a gente recitando: “As armas e os Barões assinalados...” E explicava: “Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.” Ou vinha com Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a sentir que é dor/A dor que deveras sente.” Era um homem culto, afinal.

 

Cristiano Ronaldo afigurava-se-lhe um semideus: “Cem vezes melhor do que foi o Pelé de vocês.” – afirmava, sem hesitar, o faroleiro.

 

Possuía todos os discos do Roberto Leal, porém defendia que a maior expressão da música lusitana foi, e continuará sendo, Amália Rodrigues. Acreditam que ele cantava os fados interpretados por ela, imitando-a na voz e nos gestos? Ficava divertidíssimo.

 

Mas vamos falar da rotina da padaria. Trabalhavam ali quatro balconistas. A Gorete se destacava pela simpatia e rapidez de raciocínio. No caixa, quem mais atendia era a Manuelina, esposa do Sr. Antônio. O nome completo dela era Manuelina Terebentina Capitulina de Jesus Amor Divino. A gente pensava que era brincadeira, mas era assim mesmo que ela se chamava. Quantas vezes eu a vi assinando! Educadíssima. Um amor de pessoa. Só que...

 

A Manuelina já não estava tão novinha assim. Poderia ter uns sessenta anos - e já um pouco desgastada pela idade. E mais: era obrigada a conviver com um terrível problema: foi ficando cada vez mais surda. Difícil para ela e para os fregueses. Por exemplo, alguém ia pagar um doce, ela entendia broa, e cobrava mais caro. Um dia, um freguês lhe pediu uma Coca-Cola. Sabe o que ela lhe disse? 

 

- Isto não vende aqui não. Você vai encontrar é na papelaria ao lado.

(Ela entendeu cola, para colar papéis etc.)

 

E foi numa dessas é que veio a parte mais emocionante da história. Chegou um assaltante, puxou um revólver, mantendo-o na linha da cintura - de modo que a Manuelina não chegou a vê-lo - e anunciou:

 

- Passa, passa! O dinheiro e o celular!

 

- Meu lar? Vai bem, obrigado. E o seu?

 

- A grana! Agora já quero é cem mil!

 

- Cemil? Tem. Leite, né?

 

- É um assaaaltooo!

 

- Ah! Pão de sal? Tem sim. Tá fresquinho. Saiu agora.

 

Quando o ladrão levantou a arma para atirar, já foi surpreendido por quatro policiais pulando nele e imobilizando-o. Enquanto a Manuelina foi segurando o bandido na conversa (mesmo sem saber), a Gorete chamou a polícia. Descobriram ser um bandido perigoso, bastante procurado. Nota: havia sido estipulado um prêmio de cinquenta mil reais a quem o encontrasse.  O sargento deu à Manuelina as diretrizes, para que ela pudesse receber tal prêmio. Ela, por questão de justiça, decidiu dividi-lo com a Gorete, sua fiel escudeira.

 

Ao sair, um soldado parou, olhou pra trás e comentou:

 

- Nossa! Mas que calma a dessa mulher, hein!? Difícil agora vai ser fazer o delegado acreditar em toda essa história. Ele vai pensar que é mais uma piada de português.  

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Situação dolorosa:

Benzetacil

A benzilpenicilina benzatina é uma forma de penicilina, popularmente conhecida como benzetacil, utilizada para tratar sífilis, problemas de garganta e outras doenças infecciosas. Quem já experimentou sabe: um tanto eficiente.

 

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

05/10/2019

 

Ele arranjou um reumatismo infeccioso, com dores que se espalhavam pela coluna, que lhe tiravam a graça de viver.

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Para quem não teve o (des)prazer de conhecer, a benzilpenicilina benzatina é uma forma de penicilina, popularmente conhecida como benzetacil, utilizada para tratar sífilis, problemas de garganta e outras doenças infecciosas. Quem já experimentou sabe: um tanto eficiente, porém, um tanto dolorida. (Às vezes também não. Depende do ponto de vista.) Você vai compreender.

 

Clécio e Débora eram namorados. Dois pombinhos apaixonados. Quando iam almoçar juntos, era o Clécio quem punha comida na boca da amada. Em qualquer lugar onde Débora fosse sentar, o Clécio primeiro tirava do bolso um lenço e passava sobre o assento, para eliminar qualquer poeira que pudesse maculá-la. Quem não gostaria de ter um namorado assim? Por este motivo, a família da moça tratava-o como um santo, um herói. No dia do aniversário da sogra, se a floricultura lhe entregasse um buquê de flores, podia saber: era por parte do Clécio. Ao sogro, ele presenteava com camisas do seu time do coração. E as crianças não ficavam sem seus sorvetes e bombons. O moço ganhava bem. Era subgerente de um banco.

 

Ficaram noivos. Alegria geral. Efetivamente, a família até torcia para que o casamento ocorresse depressa. Não queriam perder um rapaz como esse. Comentava-se pelos bastidores: “Moço bom, bem aparecido, religioso, apaixonado pela Débora... Ah, quer saber a verdade? Ela ganhou foi na loteria”. Nisto, alguém intervinha: “Sim, mas a Débora também é excelente: é linda, cursa faculdade, nunca foi bagunceira, não tem vícios, trabalha... Melhor que ela, ele também não encontraria não”. O casal perfeito, enfim.

 

Foram imaginando a data do casamento. “Quinze de maio” – sugeriu o noivo. “É aniversário de Débora”. “E maio é realmente ‘o mês das noivas’; vai ficar muito bonito” – completou a sogra.

 

Só que, quando foi chegando o dia, o Clécio adoeceu, e a data teve de ser adiada. Ele arranjou um reumatismo infeccioso, com dores que se espalhavam pela coluna, que lhe tiravam a graça de viver. “Não faz mal. Essas coisas acontecem; o importante é que ele se trate direitinho e melhore bem depressa” – ponderou a família.

 

- Mamãe, o Clécio me falou ontem que o médico receitou para ele uma cartela cheinha de benzetacil.

 

- Ô coitado! Dizem que essa injeção dói tanto! Mas, sendo para curar, todo esforço vale a pena.

 

Sexta-feira, à noite, os noivos haviam combinado de sair. Ali pelas dezoito e quarenta e cinco, toca o telefone:  

 

- Amor, hoje, infelizmente, não vou poder ir te buscar. Vou ter que tomar benzetacil, e a reação, como você sabe, é fortíssima. Melhor então que depois de tomá-la eu vá para casa e fique de repouso.

 

- Compreendo, amor. Trate bem da sua saúde. Melhoras. Um beijo.

 

Só que essa história de benzetacil começou a se repetir tanto, que a Débora tomou uma decisão. Seguindo o instinto feminino - que por sinal é bastante aguçado -, ela foi para a porta de um colégio, quase na hora da aula acabar. Ah! Não deu outra: olha lá o Clécio, o bom rapaz, descendo as escadas, abraçadinho com uma aluna.

 

A Débora apareceu bem na frente dos dois e perguntou ao traidor:

 

- Ah, essa aí é que é a Benzetacil?

 

(À menina) – Benzetacil, prazer. Meu nome é Débora. Eu fui noiva desse cafajeste. Ele falava muito em você. Agora ele é seu. Você verá que ele é um homem de verdade, sincero, e tenha certeza de que ele jamais vai te trair. (O moço desmaia.)

 

Benzetacil nele, que ele merece! O que vocês acham?

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Foi parar no hospital:

Os perigos da automedicação

O médico foi comentando cada passo do atendimento: “Pressão, 13 por 8: excelente; frequência cardíaca? 60. Ótima. Glicemia? 96. Quer saber? Esse homem tá melhor do que eu. Por que o trouxeram aqui?”.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

30/09/2019

 

 Vovô acabou exagerando nos salgadinhos. Deu nele uma queimação! Aí ele voltou lá para a cama.

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Vovô. Era assim que as pessoas o chamavam. Pela aparência, deveria ter uns oitenta e três, oitenta e quatro anos. Ainda trabalhava lá na roça. Era de pouca conversa. Isso, contudo, não abolia a meiguice que seu sorriso tímido irradiava. Todo mundo falava: “vovô nunca fez mal a ninguém”. O homem não era muito de sair também não.

 

Mas e hoje? O Vovô vai ou não vai? Era batizado de sua netinha, que, aliás, ele ainda nem conhecia. Ele foi. Viajou oitenta e oito quilômetros até chegar lá. Receberam-no com a maior empolgação.

 

A viagem deixou o Vovô um pouco estonteado. Encontrou uma boa cama e deitou. Mas dormir como? Gritaria, músicas, casa em festa. Além do mais, a sua filha Antonina fez questão de levá-lo à mesa, a fim de que ele comesse umas empadas e bebesse um guaraná.

 

Quando chegara à casa da filha, Vovô havia-se queixado de uma dorzinha de cabeça, mas ninguém deu muita bola praquilo não. O clima festivo abafava qualquer coisa. E, como se diz na roça, “comer e chorar, basta começar”, o Vovô acabou exagerando nos salgadinhos. Deu nele uma queimação! Aí ele voltou lá para a cama.

 

Algumas pessoas ainda estavam absortas em festa. Nem mesmo o Vovô se queixando, elas teriam condições de ouvi-lo. Um amigo da família foi, no entanto, quem começou a dar alarme: “Gente, precisa olhar o Vovô. Ele não está bem, não”. A filha então decide:

 

- Pai, vou arranjar um comprimido pro senhor tomar. Ele resolve qualquer problema de estômago.

 

- É... Lá na roça, eu tomo é chá, mas vocês, cá da cidade, têm mania de farmácia, né? Tá bão, eu tomo.

 

A filha trouxe para ele um comprimido efervescente, desses grandões, um copo d’água, e saiu. Um minuto depois, estava a empregada fazendo o maior escândalo pela casa:

 

- Gente, corre, corre, lá no quarto! O Vovô tá morrendo!

 

Umas treze pessoas ligaram de uma vez para a ambulância. Por isto é que ela chegou tão rapidinho. Levaram o homem para o hospital.

 

O médico foi comentando cada passo do atendimento: “Pressão, 13 por 8: excelente; frequência cardíaca? 60. Ótima. Glicemia? 96. Quer saber? Esse homem tá melhor do que eu. Por que o trouxeram aqui?”.

 

E a empregada:

 

- Ah, doutor, mas ele teve uma convulsão sim. Ele tava pondo um montão de espuma pela boca. Minha sogra morreu foi assim.

 

E o médico:

 

- Calma! Não criemos pânico. Por acaso, ele não ingeriu alguma bebida gasosa, por exemplo, champanhe?

 

Aí o genro matou a charada:

 

- Vovô, como o senhor tomou aquele comprimido?

 

- Uai, eu taquei ele na boca e engoli com água e tudo.

 

- Não, Vovô! Era para tê-lo dissolvido em água, para depois bebê-lo. Ele acabou efervescendo no seu estômago, e é por isto que o senhor foi pondo tanta espuma pela boca.

 

- Uai, eu não sabia. Eu pensei que tomava igual os outros mesmo.

Uma adolescente concluiu:

 

- Faz lembrar essas pegadinhas da televisão. Podia ter filmado e mandado para lá. Ia ser o maior sucesso. (Sei lá se ela não filmou).

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

O que vem de cima:

O homem que foi confundido com Deus

Um dia, ele foi chamado para pintar um predinho próximo à casa da Maria das Dores. Para alcançar a parte mais elevada, foi erguido um andaime.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

25/09/2019

 

E lá estava o Bodoque, todo benevolente, dando as suas pinceladas.

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Não era de admirar que tudo o que acontecesse de extravagante fosse com o Paulo Bodoque. Moreno, magro, alto, meio curvo, gingava um pouco ao andar; e tinha um pomo de adão bem saliente, o qual se deslocava para cima e para baixo, enquanto ele falava, o que lhe conferia ainda mais graça às piadas. O apelido surgiu foi num jogo de futebol em Formiga, Oeste Mineiro, terra de meninas muito bonitas.

 

Logo após a partida, uma delas quis saber:

 

- Moço, como você se chama?

 

- Paulo.

 

- Nossa! Você tem as pernas tão tortas! Elas parecem um bodoque. Vou te chamar de Paulo Bodoque.

 

O Paulo ganhou duas coisas: o apelido e a garota. Começaram a namorar. Foram andando ao longo do rio e conversando. Até que, quando o assunto se esgotou, a mocinha lhe perguntou:

 

- E aí, Bodoque, você está gostando de Formiga?

 

E ele, rapidamente:

 

- Eu não. Não sou tamanduá.

 

A menina ficou indignada com a resposta e terminou ali mesmo o relacionamento. Normal. Os namoros do Bodoque pouco duravam.

 

Do outro lado da questão, estava a Maria das Dores. Devia ter, naquela época, uns cinquenta e quatro anos. Sua vida era queixar-se de tudo. Era uma dor aqui, que responde ali; era urina presa, era urina solta; uma dor na pleura; outra na espinha; era a pataca do “jueio” que tava solta; era a batata da perna que estava inchada; era sopro no coração; era a bacia que estava trincada; eram coceiras; era o intestino que disparava... E mais: em tudo ao seu redor, via sinais do fim do mundo. As filhas dela diziam que ela não tinha nada. Apenas mania de reclamar.

 

Já o Paulo Bodoque situava-se no extremo oposto. Não reclamava de nada. Tudo pra ele era festa. E tinha a saúde de um touro. Todo dia ele trazia uma piada nova, que ele mesmo inventava. Trabalhava de pedreiro e de pintor. Uns o contratavam, porque gostavam do serviço dele; outros, para ouvir suas piadas.

 

Um dia, ele foi chamado para pintar um predinho próximo à casa da Maria das Dores. Para alcançar a parte mais elevada, foi erguido um andaime. E lá estava o Bodoque, todo benevolente, dando as suas pinceladas.

 

A Maria das Dores vem andando e, quando já está passando bem embaixo do andaime, dá uma descansadinha, e uma amiga lhe pergunta:

 

- E aí, Dona Maria, a senhora tá boa?

 

E ela, para não perder o costume:

 

- Boa nada. Hoje eu tô com uma dor na perna! Eu tô custando a andar! Ah! Minha vida é só sofrimento. (Referindo-se a Deus.) Só aquele que tá lá em cima é que sabe o quanto eu sofro.

 

E o Bodoque, sem precisar muito pensar, grita lá do alto:

 

- Eu não sei de nada não. Tô trabaiano aqui, eu não sei de nada.

 

A Das Dores sai disparada, gesticulando, gritando os piores palavrões. E o Bodoque, com aquele seu jeito inabalável, conclui:

 

- Gente, descobrimos o melhor remédio pra dor na perna: raiva. Cês viram? A Dona Maria ficou com tanta raiva, que esqueceu a dor na perna. Saiu numa correria!...

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Faz parte do lugar:

Os delegados da rua

Logo que o Don Pedrito soube da covardia contra o Juarez, decidiu ir lá para pegar o Capixaba. Foi a conta de avistar o toreador, com uma faca numa das mãos e um porrete na outra, o covarde voou para dentro de casa.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

16/09/2019

 

Só que o peão também teve seu dia de vacilo. A Dona Matilde era uma morenona, gorda demais, também forte demais e um tanto bem disposta.

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Em toda rua tem, pelo menos, uma fofoqueira e um valentão. Também pode ser o contrário: um mexeriqueiro e uma Maria-tomba-homem. E isto é o que dá graça ao lugar, quebra a monotonia.

 

Pois bem, tinha um tal de Juarez Boca-Torta, homem humílimo, trabalhador, educado ao extremo com seus clientes. Era fotógrafo. O apelido vinha da dificuldade que ele apresentava em pronunciar o fonema representado pela letra f, tão recorrente nas palavras foto, fotografia, que a toda hora ele tinha de articular. Para conseguir essa façanha, ele entortava a boca. Lamentavelmente, o mundo é assim. As pessoas são muito mais identificadas pelos seus defeitos que pelas suas qualidades. Era o caso do Josias: se alguém o indicasse como aquele homem sobremodo culto, viajado, graduado em duas faculdades, autor de diversos livros, ninguém o reconheceria. Bastava dizer o “Josias Careca”, e todo mundo sabia quem era.

 

Outra figura de destaque ali no pedaço era o Capixaba. Homem forte, bonito, ao contrário do Juarez, valentão e inimigo do trabalho. Sua mulher labutava pelos dois. E ele a traía - sem escrúpulo algum.

 

Um dia, o Capixaba pediu ao Juarez a bicicleta dele emprestada. O fotógrafo recusou-lhe o favor, alegando que precisava dela para entregar as fooo-tografias. O Capixaba pegou um porrete, espancou o coitado e, em seguida, quebrou todo o seu estúdio. Foi horrível. A vítima ficou com medo de chamar a polícia e o negócio piorar, mais ainda, para o lado dela. Enfim, como era costume no lugar, o Capixaba foi eleito “O Delegado da Rua”.

 

É aí que entra em cena o Don Pedrito. Um cara miúdo, já de uns quarenta e seis anos, todavia corajoso, acostumado a pegar touro a unha. Era toureiro, dessas touradinhas de várzea, e peão, em rodeios de roças. Chamava-se Pedro Miguel, porém gostava de ser tratado por Don Pedrito, porque cismara que era mexicano.

 

Logo que o Don Pedrito soube da covardia contra o Juarez, decidiu ir lá para pegar o Capixaba. Foi a conta de avistar o toreador, com uma faca numa das mãos e um porrete na outra, o covarde voou para dentro de casa. E o Don Pedrito danou a quebrar as suas portas e janelas, numa fúria danada, querendo descontar para o Juarez, e com juros. “Cadê o home!? Cadê o valentão!?”... O Capixaba não deu um pio. Dizem que ele foi procurar refúgio debaixo da cama. Quando pôde, sumiu. Falam que ele voltou a apoquentar lá pela sua terra. Por ser o Juarez muito querido no lugar, o pessoal fez uma vaquinha e deu-lhe um estúdio novo, bem melhor e mais moderno. Com justa razão, Don Pedrito é agora aclamado, o novo “Delegado da Rua”.

 

Só que o peão também teve seu dia de vacilo. A Dona Matilde era uma morenona, gorda demais, também forte demais e um tanto bem disposta. Mãe e esposa responsável, não era muito de brincadeira não. Passando por ela numa pracinha, o Don Pedrito, julgando-se agora o herói do pedaço, dirigiu-lhe uma cantada escrachada:

 

(Rindo) - Eu nunca trepei com uma baleia dessa não. Tinha vontade.

 

- É pra já – respondeu Dona Matilde.

 

Deu nele um golpe, sei lá de quê, mistura de capoeira com jiu-jítsu, ou com keretê (querê tê e num podê). Eu sei é que o homem rodopiou, caiu e teve de aguentar aqueles cento e cinquenta quilos de mulher suada em cima dele. Ela, montada de cavalinho sobre o pobre coitado e puxando-lhe as orelhas - como se fossem rédeas -, gritava: “Segura, peão!”, “Segura, peão!” Foram necessários oito homens para desgarrá-la do infelizardo. Toda a rua festejou: “Viva a Dona Matilde, a nova Delegada da Rua!”. E, até onde eu sei, o cinturão continuou sendo dela, porque não houve mais quem ousasse desafiá-la.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Haja paciência:

Tiãozinho Nervosinho

Assim era o dia a dia do Tiãozinho: em casa, no trânsito e com os clientes. Era dono de uma lojinha. E ele também sofria: gastrite, pressão alta, insônia... E se alguém gritasse: “Tiãozinho nervosinho”, aí ele pirava.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

09/09/2019

 

 

Se você quiser namorar minha filha, então, corte esse cabelo e jogue fora esse brinquinho.

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O Tiãozinho, pessoa melhor seria difícil encontrar. Esse baixinho, moreninho, de bigodinho, cabelinho ondulado para trás (já com algumas mechas brancas), de uns quarenta anos, tem um papo agradável, é espirituoso, prestativo, gosta de música e de futebol. Só uma virtude ele não tem: a paciência. Você vai entender melhor.

 

A filha, de vinte e três anos, avisou-lhe que iria a uma festa. Ele determinou:

 

- Às 22 horas, em casa! 22 não é o mesmo que 22h05min, tá?

 

Dez e vinte, a filha ainda não havia regressado. O pai pega o carro e vai atrás dela. Deu murro, deu pernada, deu escândalo.

 

Assim era com tudo. Dirce, a esposa, já não sabia mais o que fazer. Uma outra filha, a Nara, de dezenove anos, chegou lá um dia com um namorado, que usava cabelo amarrado para trás e brinquinho. Pra quê? O Tiãozinho encarou o jovem e esbravejou:

 

- Moço, você não é homem. Homem, que é homem, não se apresenta desse jeito. Se você quiser namorar minha filha, então, corte esse cabelo e jogue fora esse brinquinho. Se não, eu ponho você pra correr a pauladas. O bom rapaz ali não voltou mais.

 

Assim era o dia a dia do Tiãozinho: em casa, no trânsito e com os clientes. Era dono de uma lojinha. E ele também sofria: gastrite, pressão alta, insônia... E se alguém gritasse: “Tiãozinho nervosinho”, aí ele pirava. Jogava no sujeito o que tivesse ao alcance da mão.

 

A paciente Dirce o levava para consultar, mas até o médico já estava com medo dele. Aí ela propôs um psicólogo. E ele:

 

- Mulher, faço qualquer coisa para me ver livre desse mal-estar. Eu sofro e faço as pessoas sofrer.

 

Foram ao psicólogo. O Tiãozinho voltou dizendo que psicologia é puro blá-blá-blá; que não resolve nada. Até que surgiu outra ideia:

 

- Tião, fiquei sabendo de um guru. Dizem que ele é muito bom; que uma porção de gente vem-se dando bem com ele.

 

- Quê que é guru?

 

- É um homem que vive de orações, meditação. Só prega a paz, o bem. Dá ótimos conselhos para uma vida melhor. Quem sabe nós vamos lá?

 

- Eu topo! Mas deixe que eu vá sozinho.

 

E foi. Voltou entusiasmadíssimo:

 

- Ah! Agora sim. Era de um guru igual esse que eu tava precisando. O homem respira paz e bondade. Só de chegar perto dele a gente tem a sensação de estar passeando por um jardim. Mandou eu respirar, meditar... Eu entendi muito bem. Ele explicou que tudo o que eu tô passando é uma questão de “karma”. É isso mesmo. Eu preciso é ter mais “carma”. Só isso. Só depende de mim.

 

A patroa deu Graças a Deus. Comentou com as filhas na cozinha que o Tião havia ficado uma bondade; que até funk, que ele detestava, ele estava vendo na TV com a garotada.

 

No dia seguinte, entra na loja um freguês, e começa a reclamar demasiado do preço das mercadorias. O Tião determina:

 

- Não está satisfeito? Então vai embora e compre noutro lugar.

 

O freguês danou a dançar na frente dele, repetindo:

 

- Tiãozinho nervosinho! Tiãozinho nervosinho!...

 

O Tião pega um guarda-chuva, pula o balcão, sai doido, correndo atrás do indivíduo. Enquanto não o derruba, com uma guarda-chuvada bem pegada, no meio de sua testa, não sossega.

 

Logo em seguida, vem o Tião, de braço dado. “Ai de braço dado é cum dois sordado, ai muito obrigado”. Não quis ouvir o guru, né?  

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais.

 

- Imagem: Divulgação.

 

 

*  *  *

 

Religião e graça:

O pastor e o palhaço

Existem sim os verdadeiros cristãos. E há também aqueles que, por convicção, trilham diferentes caminhos, fazendo o bem, encontrando a paz. Basta um pouco mais de aceitação, respeito e de amor, para fazermos do mundo o lugar ideal pra se viver.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

02/09/2019

 

O circo é minha vida. Jamais o deixarei. E como eu posso estar em pecado, se o que mais faço é as pessoas rirem?

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O circo chegou e, para melhor acomodação da família, alugaram uma casa bem pertinho da minha. Foi aí que eu fiz amizade com o Geninho. No circo, ele se apresentava como Palhaço Carambola. Não muito alto, magrinho, moreninho, de uns vinte e três anos. Sabe aquele cara, de quem todo mundo adora se aproximar? Esse era o Geninho.

 

Por uns dias, no entanto, o arlequim andou perdendo o seu humor. Duas obreiras, representantes de uma igreja, foram à casa dele, forçando-o a “se converter”. Ele retrucou:

 

- Sou católico, nasci nesta religião, quero morrer nela.

 

Houve ainda muita queda de braço. Depois, elas se foram. Só que, na próxima semana, olha elas ali novamente! Desta feita, endureceram mais o seu discurso:

 

- Estamos insistindo com você, porque estamos próximos do fim dos tempos, e você precisa abandonar esta sua vida de mundano, se quiser a salvação.

 

- Mundano por quê?

 

- Ah, porque você é de circo. No mundo circense, existe muita promiscuidade e pouca fé em Deus. Vocês vivem no pecado.

 

- Quem as autoriza a me julgarem? O circo é minha vida. Jamais o deixarei. E como eu posso estar em pecado, se o que mais faço é as pessoas rirem? Visitamos até hospitais. O riso é a melhor das terapias. E não venha falar que somos promíscuos. Somos trabalhadores e honrados. Com licença. (Fechou a porta e entrou.)

       

Sete dias depois... Elas. Quase que ele sofre um troço. Porém, desta vez, elas chegam mais de mansinho:

       

- Olha aqui, irmãozinho, vai lá sábado. Será às oito horas da noite, numa pedreira, próxima à fazenda do Sô Juca Rumão. Sabe onde fica? Será uma noite cheia de bênçãos e milagres para você.

       

- Combinado. Eu vou.

       

E foi mesmo. Fez questão de chegar meia hora mais cedo. Estudou bem o local e tomou a decisão: ficou bem escondidinho em uma moita, logo atrás de onde ele imaginou que fosse o altar.

 

Chega o pastor, acompanhado dos fiéis. Ele abre o cerimonial, lembrando a importância da montanha: ali Jesus fez aquele seu célebre sermão; foi numa outra, como esta, que Moisés nos revelou As Tábuas da Lei. A propósito, meus irmãos, eu estou sentindo que Moisés está aqui entre nós. Tenho certeza! (Momentos de êxtase...).

       

O palhaço não desperdiçou a oportunidade. Com voz cavernosa e retumbante, ele bradou lá da moita:

 

- Eu sou Moisés. Eu vim aqui para fazer-lhes uma revelação: o mundo não demora a acabar. Questão de dias. Talvez até de horas.

       

O povo desmaiou. O pastor endoideceu.

       

No dia seguinte, o servo de Deus vai espinafrar o rapaz:

       

- Você é doido? Eu sei que foi você! Você estragou o nosso culto. Será condenado ao inferno. Você foi lá só pra fazer palhaçadas.

       

- Mas o que vocês poderiam esperar de um palhaço, que não fosse palhaçadas? Foi a única coisa que aprendi a fazer na vida.

       

Bem, existem sim os verdadeiros cristãos. E há também aqueles que, por convicção, trilham diferentes caminhos, fazendo o bem, encontrando a paz. Basta um pouco mais de aceitação, respeito e de amor, para fazermos do mundo o lugar ideal pra se viver.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Trabalhador:

O burro tava certo

Coube à Câmara dos Vereadores decidir. Um vereador argumentou que a atitude do servidor constituía um verdadeiro modelo de administração: boa pra Prefeitura, pro próprio servidor e pro burro.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

27/08/2019

 

Eu sei é que um montão de gente chegou fotografando, e o assunto foi parar nas redes sociais. Viralizou-se. Daí, as pessoas saíam às ruas para se manifestar.

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Ih!... Olha lá quem vem chegando! É o Caburé. Esse sujeitinho moreno, estatura média, de uns trinta e oito anos, gingado lento, sorriso sempre nos lábios, rosto escondido atrás do chapéu, esse é o Caburé. Algumas histórias só acontecem com ele. Às vezes, capinava um lote, vendia salgadinhos nas ruas, ou trabalhava como servente de pedreiro. (Tudo isso, se não fosse pescar, é claro). A esposa vivia dando bronca na sua moleza: “Num pode viver só de biscate não! Tem que arranjar é um emprego fixo”. Ele dava uma risadinha, acendia um cigarrinho e ia pro bar ver futebol.

 

Um dia, foi visitar uma exposição agropecuária. Ele havia feito umas catiras e estava com um dinheirinho no bolso. Após tomar um copinho de cerveja aqui, comer um salgadinho ali, ele chega a um curral, onde havia animais para comercialização. O Caburé apaixonou-se por um burro; e o burro, por ele. (Dizem até que o burro havia dado uma piscadinha para ele). Bem, mas a grana não dava. Depois de muita choradeira, muita queda de braço, combinou-se que o Caburé daria todo o dinheiro que tinha, mais uma dúzia de pintos. Negócio fechado.

Chegando em casa...

 

- Patroa, trouxe um amigo para almoçar com a gente.

 

(Ela, de costas, porém escutando.)

 

– É. Aproveita e pede esse amigo seu pra ver se arruma um emprego procê, se não, tá danado.

 

- Já arranjou. Eu vou trabalhar com ele.

 

- Graças a Deus! (Virando de frente).

 

- Ora! É isso aí? Cê tá é doido! Tem que ser internado!

 

Entretanto, começou a dar certo. O Caburé fez uma carrocinha, bem bonitinha, enfeitou o bichinho e começou a fazer alguns carretos, ou a dar voltas com a criançada, a qual pagava um ingressinho.

 

Mas eis que vem o emprego fixo. O Caburé conseguiu um cargo de serviços gerais na prefeitura. O que mais preocupava naquele momento era um lote vago ao fundo. O capim já estava alto, e as pessoas temiam que o local abrigasse animais peçonhentos. Um trabalho para... Caburé!

 

Já no primeiro dia, olhando da janela, dava pra ver o lote bem melhor. Segundo, terceiro dia, só melhorando. No quarto dia então, uma beleza: a grama certinha, tudo limpinho, arrumadinho, nem um montinho de capim. O danado é que ninguém via o Caburé trabalhando. Como é isto? Milagre? O prefeito foi pessoalmente parabenizar o novo servidor pela eficiência. Chega ao terreno, encontra o Caburé deitado debaixo de uma árvore, no mais profundo dos roncos. E o burro, no meio do terreno, com a barriga tão cheia, que mal conseguia andar. Descobriu-se tudo: o Caburé, sorrateiramente, levava o seu amigo inseparável, o qual trabalhava “como um burro”, enquanto o preguiçoso dormia. O prefeito urrou de raiva: “Esse malandro tem de ser demitido! Rua pra ele!”

 

Eu sei é que um montão de gente chegou fotografando, e o assunto foi parar nas redes sociais. Viralizou-se. Daí, as pessoas saíam às ruas para se manifestar. Um pequeno grupo exibia faixas e cartazes: “FORA, CABURÉ!”. Um grupo já bem maior o apoiava: “FICA, CABURÉ!”. E uma multidão glorificava o quadrúpede: “VIVA O BURRINHO!”. “ELE É O NOSSO ÍDOLO”. “ELE É O NOSSO HERÓI”.

 

Coube à Câmara dos Vereadores decidir. Um vereador argumentou que a atitude do servidor constituía um verdadeiro modelo de administração: boa pra Prefeitura, pro próprio servidor e pro burro. Todavia, foi voto vencido. Por nove votos a um, ficou decidido que: “O burro permaneceria no emprego, mas o servidor seria demitido.” O Caburé aceitou, porém insistiu que dali não arredaria o pé, enquanto não recebesse as férias. Pagaram.

 

Amigos, a nova eleição já vem por aí. Devido à imensa popularidade do Caburé, somada ao seu excelente desempenho como administrador, seu dinamismo, não tenho dúvida de que ele será candidato. Acho mais: que ele poderá escolher qualquer cargo eletivo neste País, que vencerá com larga vantagem. (O Doutor Burro também, é claro).

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

No palco da vida:

O pequeno mágico

Outras pessoas foram-se aproximando, cada qual com seus problemas: doenças; conflitos; separações; filhos; desempregos; dívidas... O único que não falava de desgraças era o pequeno mágico. Cumpria sua nobre missão.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

19/08/2019

 

Esse pequeno mágico (grande mágico) contou piadas, inventou estórias engraçadíssimas. Tudo saía puro, de dentro do seu coração.

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Numa tarde qualquer, fui até uma pracinha e lá me sentei. Eu estava com dor de cabeça. Havia-me medicado, porém a dor não passava.

 

Vi quando um menino, quase um mendigo, se apartou da mãe, vindo até a mim. Em seu boné, a palavra MÁGICO. Ele me perguntou:

 

- Oi moço, posso fazer uma mágica para você? E, se gostar, você me dá uma moedinha?

 

- Combinado. Quero ver a sua mágica.

 

Ele tirou do bolso uma das moedas que já havia ganhado, mostrou-a com nitidez e, em seguida, fê-la desaparecer. Conquanto se tratasse de algo bastante rudimentar – e fácil de decifrar -, ele recebeu seu pagamento: até mais que o suplicado.

 

Outras pessoas foram-se aproximando, cada qual com seus problemas: doenças; conflitos; separações; filhos; desempregos; dívidas... O único que não falava de desgraças era o pequeno mágico. Cumpria sua nobre missão. Quando um truque dava errado (por sinal, a maior parte), o público rachava de rir. Aí, ele logo contava uma mentira, para desviar as atenções. Contou, por exemplo, que, aos oito anos, ele já tinha quinze namoradas... (Risos e mais risos.)

 

- E quantos anos você tem agora? - perguntou um da plateia?

 

- Treze.

 

- E já tem quinze filhos, né? - continuou uma senhora.

 

- Nãããooo! – respondeu precipitado. Deixe isto pra mais tarde.

 

        (Gargalhadas e mais gargalhadas.)

 

Agora, ele se levanta e traz um cachorro, todo pesteado. Sentou-se de novo, fazendo inúmeros carinhos ao animal.

 

- Você gosta muito de cachorro, não é? – alguém perguntou.

 

- Sim, gosto de todos os animais. Eles são mais que amigos: eles são meus irmãos. Até mesmo nos insetos vejo graça. Gosto também de plantas, cachoeiras, estrelas... E até de pessoas.

 

- Por que você deixa as pessoas por último? – questionou outra senhora.

 

- Bem, eu amo as pessoas. Eu só queria que elas fossem melhores. Animais não usam armas; não fabricam bomba atômica; não brigam pelo dinheiro; não se pegam por política, futebol, religião. É mais fácil conviver com os bichos. A professora ensinou que o homem é o primeiro ser na escala biológica. Eu não acredito. Acho até que é o último.

 

- Mas afinal, para você, qual é o primeiro ser na escala biológica?

 

- A flor. 

 

- Por quê?

 

- Se ela chegou a ser tão bela, deve estar num nível de evolução mais elevado. Bem, poderia ser, igualmente, a estrela. – Oh! Minha mãe está chamando. Tenho de ir. (Curvando-se e tirando o chapéu) - Obrigado a todos. E muito boa sorte!

 

Esse pequeno mágico (grande mágico) contou piadas, inventou estórias engraçadíssimas. Tudo saía puro, de dentro do seu coração. Ao final, todos os rostos se viam renovados, confiantes, iluminados. Só se falava de amor, de paz, de solidariedade. Eu mesmo nem me lembrava mais daquela cefaleia. 

 

Se cada um se tornasse um mágico, o mundo seria mágico.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Fauna linguística:

Os bichos invadem a língua portuguesa

Aquela da frente é uma cobra; a do lado, uma piranha; a baleia da casa rosa fica igual maritaca, falando mal do marido. Ele foi burro demais de ter casado com ela. Mas a gente sabe que ele também não é cordeirinho não.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

11/08/2019

 

Vocês colocam animal demais na fala de vocês. Às vezes, eu fico meio doido. Eu não entendo nada.

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Estava eu no Bar do Piaba, vendo, pela TV, o Bezerra da Silva cantar, quando entrou um cara tonto igual um gambá. Disse que se chamava Zé Leão, que era do signo de Leão, que havia trabalhado em Serra Leoa e que hoje é leão de chácara numa boate.

 

Em seguida, entra outro cafajeste e se dirige a um freguês:

 

- Oi, cê conhece aquela gata que tá passando?

 

- Demais! Ela é uma gata, a irmã dela, uma galinha, a mãe dela, uma onça, o pai dela, um cavalo e o irmão dela é viado.

 

- Mudando de assunto, quem joga hoje? – pergunta ao Piaba?

 

- O Galo enfrenta a Raposa. E ontem, gente? O Coelho ganhou de 4 x 0 do Peixe. Zebra, hein!?

 

Todo mundo corre lá pra porta pra ver uma maluca, gritando pela calçada, metendo o pau nas vizinhas dela:

 

- Aquela da frente é uma cobra; a do lado, uma piranha; a baleia da casa rosa fica igual maritaca, falando mal do marido. Ele foi burro demais de ter casado com ela. Mas a gente sabe que ele também não é cordeirinho não. Quer saber? Ele é piolho de zona. Já aquela do pescoço de girafa, e a irmã dela, a do cabelo de capivara, é tudo mariposa de cabaré. A filha da barraqueira fica borboletando por aí, atrás desses tigrões casados, esses gaviões, que vivem atrás de andorinhas. Já a tia delas (rs)..., é igual bicho-preguiça... Quando não tá na rede, tá lá na janela, curujano tudo o que passa. Quer saber a verdade? Tô uma arara com elas todas. Ali só dá traíra.  

       

Acha que tá pouco? O pior ainda estava por vir. Entra um cabra da peste, falando que queria pegar o Vicente Macaco, que ia soltar um pombo sem asa no meio da testa dele. O Piaba ficou com a pulga atrás da oreia...

 

Chega o Macaco, e o cabra vai logo atacando:

 

- Ô fio duma égua! Tu tava mostrando o pinto pra minha nega, né, safado? Cê muntô no porco! Cê chuchô caxa de marimbondo.    

 

- Ah, chifrudo, sua macaca vive mostrando a perereca pra todo mundo. Agora eu é que vou pagar o pato?

       

O cabra puxa a peixeira, vai pra cima do atrevidinho, ele sai pulando que nem cabrito. Correu mais do que cachorro viadero.

 

E eu, que não tinha nada a ver com o peixe, fui saindo..., no passo do urubu malandro. Só no outro dia é que voltei para pagar a minha despesa.

 

O Piaba me contou que o cabra, quando bebe, é chato igual carrapato, e que ele ainda ficou lá a noite inteira, bebendo, fumando, igual um dragão, falando igual papagaio.

 

Caras leitoras, caros leitores, apresentaram-me, há pouco tempo, um americano, o Fred. Gente boa. Aproveitei para tirar com ele algumas dúvidas de inglês. O Fred já estava no Brasil havia um ano e, portanto, já se comunicava razoavelmente em português. Certa hora, eu lhe perguntei qual foi a maior dificuldade que ele encontrou com o nosso idioma. Ele respondeu de uma maneira jocosa e inesperada:

 

- Vocês colocam animal demais na fala de vocês. Às vezes, eu fico meio doido. Eu não entendo nada.

 

Quando eu contei pra ele essa história, aí o moço surtou de vez. Acabou até engasgando com o cachorro-quente que ele estava comendo.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Na torcida:

2 X 0 pro Vasco

Tudo iria às mil maravilhas, não fosse um mero detalhe. Era torcedor do Vasco. Torcedor não; era fanático; brigava por ele. Quando a equipe de São Januário sofria uma terrível derrota, o gajo nem ia trabalhar.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

21/07/2019

 

O Vasquinho tinha qualidades. Mas não vou perder tempo em descrevê-las. Basta citar que, da mesma forma que o pai, brigava pelo ídolo futebolístico.

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O Vasco, que estava vivendo um período de turbulências, veio tentar a sorte em São Paulo. Era português, da região do Minho. Portugueses, ou são padeiros, ou pasteleiros, ou montam um restaurante especialista em bacalhau. Este imigrante inaugurou uma lanchonete e pastelaria, no coração da cidade: avenida São João, quase esquina com Ipiranga. Seu pastel de bacalhau cheirava longe.

 

Tudo iria às mil maravilhas, não fosse um mero detalhe. Era torcedor do Vasco. Torcedor não; era fanático; brigava por ele. Quando a equipe de São Januário sofria uma terrível derrota, o gajo nem ia trabalhar. Temia as gozações dos adversários, e as reações que pudesse ter.

 

Se alguém entrasse na pastelaria com a camisa do Flamengo, ele não atendia; nem do Fluminense; nem do Botafogo. Os espertinhos então, mesmo torcendo pelos seus rivais, entravam lá, sentavam-se à mesa, fingiam torcer pelo Gigante da Colina e ganhavam belos descontos. Isto, quando não saía tudo de graça.

 

Dorinha, uma moça bonitinha, que na verdade, torcia só pra si, sabendo da situação, resolveu ir além. Começou a frequentar a pastelaria. Batucava na mesa quando o cruz-maltino ganhava, ia para a porta gritar e alçar bandeiras. O homem ficou doido com ela. Além de vascaína doente (no caso, boa atriz), era mulatinha, e todo mundo sabe que português adora uma mulata. Ofereceu-lhe um emprego, ali mesmo, na pastelaria. Foi o primeiro passo para um “grande amor”. Dorinha comentava com as colegas:

 

- Bem, um galã, eu sei que ele pode não ser, mas é rico. E eu sou isso que vocês conhecem: um bilhete corrido; um fósforo queimado, atirado no chão; uma pobre farsante que a sorte esqueceu. Quem não tem nada a perder só pode ganhar.

 

- Chega, Dorinha! Nem tanto! Você é bonita, inteligente e ótima marqueteira, né? Cê vai longe...

 

Casaram-se. Tiveram um filho. Te dou cinco segundos de prazo para você adivinhar o nome dele. 1, 2, 3, 4, 5. – Vasco!? Acertou. Você é vidente! Eram agora: o Vasquinho e o Vascão, ou o Vasco pai e o Vasco filho ou ainda o Vasco novo e o Vasco velho.

 

O filho foi crescendo (e o pai foi encolhendo). O Vasquinho tinha qualidades. Mas não vou perder tempo em descrevê-las. Basta citar que, da mesma forma que o pai, brigava pelo ídolo futebolístico. Fazia arruaça, ia preso. O pai, todavia, se orgulhava: “Tudo, pelo melhor de todos: o Vasco. Meu filho merece uma medalha de herói.”

 

E o tempo foi passando. O Vasco Velho já não tinha a mesma energia para berrar, brigar. Tornou-se mais caseiro, cuidando das macacoas próprias da idade, sem deixar de acompanhar, pela TV, tudo sobre o clube de sua paixão. E nesse perde-ganha do futebol, o Vasco da Gama entrou numa fase ruim, com risco de ir para a segunda divisão. Isto abalou as estruturas do velho.

       

Um dia, numa rua qualquer, uma mulher interrompeu a conversa que tinha com sua amiga: “Ouvi dizer que o Sô Vasco, lá da pastelaria, estava meio doente; sou amiga dele e quero fazer-lhe uma visita, mas não sei ao certo se ele está no hospital ou em casa. O filho dele vem ali, e eu vou saber tudo direitinho”.

 

- Moço, por favor! Que notícia você me dá do Vasco?    

 

Com o maior entusiasmo do mundo, o rapaz pulou e gritou:

 

- GANHOU ONTEM DE 2 X 0 !

 

- Não, moço, seu pai. Queria notícia era do seu pai.

 

- Ah!... Meu pai?... Faz três dias que ele foi enterrado.

  

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Nas curvas da vida:

Trinta anos de experiência

Ela era loira, elegante, discreta, um pouquinho robusta, pernas grossas - as quais ela parcialmente exibia, sob as saias que trajava, cada qual mais linda! E quando ela lançava aquele seu olhar, com aqueles olhos verdes, moles, lembrando a Roberta Miranda.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

08/07/2019

 

Nessa hora, vai parando em frente ao bar um luxuoso carro vermelho, lindíssimo. Ouve-se uma buzina. Os boêmios, notando que quem dirigia era uma mulher, animam o campeão: - Vai lá! Ela tá olhando é pra você. Põe mais uma na coleção (risos).

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Desde a primeira vez que o Alceu viu a Roseli, ele murmurou:

 

- Ah! Vou casar com essa mulher.

 

E ele tinha bom gosto. Ela era loira, elegante, discreta, um pouquinho robusta, pernas grossas - as quais ela parcialmente exibia, sob as saias que trajava, cada qual mais linda! E quando ela lançava aquele seu olhar, com aqueles olhos verdes, moles, lembrando a Roberta Miranda, ah, não havia homem que resistisse.  Teria uns vinte e sete anos, e o Alceu, uns vinte e cinco. A Roseli costumava ir a clubes ou restaurantes, geralmente, com suas colegas. Era bastante moderada no comer, no beber, no dançar e até mesmo no falar.

 

Voltando ao Alceu, certa vez, uma senhora comentou perto dele:

 

- O pedreiro que eu chamei fez um serviço horrível lá em casa.

 

De pronto, o moço reage:

 

- Por que a senhora não deu o serviço pra mim?

 

- Ué, você é pedreiro?

 

- Trinta anos de experiência!

 

No outro dia, alguém reclama do eletricista que contratara. “Demorou a fazer a instalação e ainda cobrou caro.” Logo o Alceu interpela:

 

- Se tivesse me contratado, eu faria rápido, melhor e mais barato.

 

- Ora, eu não sabia que você é também eletricista.

 

- Trinta anos de experiência!

 

O Alceu tinha trinta anos de experiência como pintor, bombeiro, carpinteiro, pianista, piloto de avião, professor de artes marciais, cirurgião, ginecologista e o mais que viesse. E o que todos sabiam, com certeza, é que ele era mecânico de manutenção numa indústria. Conseguiu aproximar-se da Roseli e convencê-la de que ele possuía um emprego fixo, um bom dinheiro no banco, e que a sua intenção era casar. A Roseli topou, e o matrimônio aconteceu meses depois.

 

Tudo ia indo maravilhosamente bem. O fato é que, quando se realiza um desejo, o objeto desse desejo costuma perder o valor. O Alceu passou a achar a vida de casado monótona: ter de ficar somente com uma... Aí ele se justificava: “Bem, homem ter mais de uma mulher é aceitável na nossa sociedade; mulher é que não pode ter mais de um homem.” E os colegas apoiavam.

 

A nova conquista foi a Rosimara, irmã da Roseli, de apenas dezesseis anos. Atrás de uma veio outra, e a coisa foi virando festa...

 

Até que uma noite, num bar, o Alceu chega ao cúmulo do cinismo: pega o celular e vai mostrando para os amigos as várias mulheres com quem vinha ficando: loiras, morenas, mulatas... Os vadios caem nas gargalhadas. O Anselmo é o que mais ri; depois pondera:

 

- Amigo, nesta hora, a sua esposa deve estar lá, passando a sua roupa. Ela trabalha igual escrava. Você não tem dó dela não?

 

- Tenho. Quer dizer, tenho e não tenho, porque mulher gosta mesmo é de sofrer (gargalhadas). Mulher, a gente tem que escravizar. Quanto mais a gente escraviza, mais elas se apaixonam pela gente. “Isto é verdade” – todos concordaram.

 

Nessa hora, vai parando em frente ao bar um luxuoso carro vermelho, lindíssimo. Ouve-se uma buzina. Os boêmios, notando que quem dirigia era uma mulher, animam o campeão:

 

- Vai lá! Ela tá olhando é pra você. Põe mais uma na coleção (risos).

 

O bacanão, todo cheio de si, vai até a porta. Quem ele vê dirigindo?

 

Ela: a Roseli. O galinhão fica perplexo. Aproxima-se dela e esculacha:

 

- Será que eu estou é sonhando? Ou eu estou é delirando?...

 

- Nem sonho e nem delírio. É a pura realidade.

 

- De quem é esse carrão?

 

- Gostou? É meu. Presentinho de um industrial.  

 

- Piranha! Como você chegou a acumular tanta malícia assim?

 

- Trinta anos de experiência. Sabe quando você ficava mostrando fotos de mulheres para aqueles vagabundos? Eles gargalhavam, mas era de você. Já fiquei com todos eles. Eles me contavam tudo sobre você. O Anselmo, o mais moralista, é o mais safadinho. Ele tem um fetiche...

 

- Pare! Isto já é demais! Vou te processar e matar esse industrial.

 

- Vai nada! Sabe quem é esse industrial? É o seu patrãozinho. Agora, você tem de ficar é bem bonzinho, se não, ainda perde o seu empreguinho, seu bobinho, inexperiente. Até um dia. Tchau!

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Em Minas Gerais:

Guerra na Lotação

Num outro ponto, entra uma freira. Com olhar discreto e sorriso santo, me cumprimenta, acomodando-se também por ali. A viagem transcorria serena como uma brisa... Um episódio iria mudar todo o ritmo dessa jornada.

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

30/06/2019

 

 “E quem não tem carro, geralmente vai de trem.” É o que diz o samba. Outros vão de carona ou também de lotação.

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Por falar nisto, entrei num coletivo, o qual saía de uma cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte para a capital. Os assentos antes da roleta (próximos ao motorista) eram os únicos que estavam vagos. Sentei-me num deles. Num outro ponto, entra uma freira. Com olhar discreto e sorriso santo, me cumprimenta, acomodando-se também por ali. A viagem transcorria serena como uma brisa... Um episódio iria mudar todo o ritmo dessa jornada.

 

Entra um moço moreno-claro, alto, de uns vinte e sete anos, roupas ligeiramente sujas, isentas, porém, de qualquer extravagância. Enquanto deu, foi viajando de pé, na base da malandragem, bem pertinho do motorista.

       

Dali a pouco, o condutor estende-lhe a mão, solicitando o dinheiro da passagem. O rapaz determina:

 

- Não vou pagar não.

 

- Não vai pagar por quê?

 

- Porque não tenho dinheiro.

 

- Não tem dinheiro, então, desce.

 

O moço insiste:

 

- Mas deixa eu explicar. Eu não tenho a grana é porque eu saí da cadeia hoje. Eu estava cumprindo pena por homicídio, tráfico de drogas e outras tretas aí no artigo 157.

 

(Nesse momento, algumas pessoas se apressam em descer. E eu, como um gato, passo pela roleta, mas fico ali assistindo.)

 

E olha a reação do motorista, um baixinho invocado, de uns quarenta e dois anos:

 

- “Tá quereno me intimidá? Eu não tenho medo docê não, seu trouxa; nem aqui nem na China. Pois pode descê.” (E foi reduzindo a marcha, procurando um melhor lugar para estacionar.)

 

E o passageiro:

 

- Ah, cê qué sabê duma coisa? Vai tomá...!

 

- Vai, ocê!

 

- Vai, ocê!

 

(Até aí, zero a zero, porque ninguém foi).

 

O ex-presidiário, para desempatar, inaugura um novo ataque. Dá uma cuspida na cara do motorista. O motorista retribui com duas, querendo provar que era mais homem do que ele. E a 1ª Grande Guerra de Cuspe só termina, quando acabam as salivas.

 

E a freira?

 

- Nossa Senhora! Isto aqui é o inferno. É obra de satanás. Esse moço tá é endemoniado (batendo o terço contra ele, e já tentando passar o mais rápido possível pela roleta).

 

Só que a roleta trava. E não há reza que a faça destravar. (Problema com o cartão.) A freira empurra com a mão, com o pé, com o joelho, com a barriga; empurra de frente, de lado, e nada(Até um palavrãozinho saiu nessa hora). Ela danou a tremer, a gritar, a suar. Já estava prestes a desmaiar, quando alguém tranquilizou:  

 

- Mas para que tanta luta, senhora? O perigoso já foi embora há muito tempo.

 

(Aí a roleta funcionou.)  

 

Com o tempo, eu fui vendo que este tipo de golpe, para não pagar passagem, já vem virando moda entre os mandriões.

 

 - Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Desejo:

Assalto e poesia

Primeiro, o assaltante subtraiu-lhe a bolsa. Na sequência, tomou-lhe uma das mãos, sacou-lhe um anel de brilhante; apoderou-se da outra mão, retirando-lhe um bracelete de ouro; viajou até o pescoço, usurpando-lhe o colar; não perdoou nem o rosário, que lhe dava sobrenome.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

22/06/2019

 

Após permanecer três noites acordada, só pensando no ocorrido, alguém decide levá-la a um psicólogo. “Ficou traumatizada”.

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Maria do Rosário, viúva, sessenta e dois anos. Sábado à noite, ela vinha da missa.

 

- É um assalto! Fique caladinha aí, se não quiser perder a vida.

Maria do Rosário não esboça reação. “O susto foi tamanho, que ela ficou paralisada.” - pensaria a generalidade. Alguns, no entanto, atribuiriam este seu equilíbrio às suas incessantes orações.

 

Primeiro, o assaltante subtraiu-lhe a bolsa. Na sequência, tomou-lhe uma das mãos, sacou-lhe um anel de brilhante; apoderou-se da outra mão, retirando-lhe um bracelete de ouro; viajou até o pescoço, usurpando-lhe o colar; não perdoou nem o rosário, que lhe dava sobrenome. Não tendo mais o que roubar, puxou-a de arranco contra si, no afã de estuprá-la. No meio do ato se deteve.

 

Liberta, ela chega em casa, com uma pequena multidão ao seu redor. Alguns homens se armam e vão ao encalço do salteador.

 

- Vou ligar para a polícia. – promete uma corajosa.

 

- Não! Pelo amor de Deus! Não faça isto! – roga a coitada.

 

 “Ela morre de medo de polícia.” – comentário geral.

 

- Ladrão tem que ir pra cadeia! Melhor dizendo: tem é que ser fuzilado.

Eu sempre fui a favor da pena de morte. Assaltar uma idosa, indefesa, uma santa... – esbraveja um valentão.

 

Polícia chega. Identifica a vítima e inicia o interrogatório:

 

- Tem testemunhas?

 

- Não.

 

- A senhora pôde observar algum detalhe do bandido: rosto, algum sinal particular, como ele se trajava?

 

- Não. Nada. Eu fiquei muito nervosa.

 

- Assim fica mais difícil. Contudo, vamos tentar.

 

Após permanecer três noites acordada, só pensando no ocorrido, alguém decide levá-la a um psicólogo. “Ficou traumatizada”.

 

- Nada feito – justifica o conselheiro. Ela não se abre comigo. O primeiro a se interessar pela cura tem de ser o paciente. Quando ele não quer, o terapeuta nada pode fazer.

 

Mais três tentativas. Em vão.

 

Aparece uma menina, de uns treze anos, e Maria lhe confia esta louca e bonita confissão:

 

 “Não me importei com o assalto. Quer saber toda a verdade? Ele até que me fez bem. Eu vivo na solidão. Ninguém vem me visitar. Ninguém vem tocar em mim. Ele mostrou que eu existo. Seus olhos não eram maus. Ele nada me roubou. Tudo lhe dei de presente. De noite, eu fico acordada, esperando ele vir me visitar. (Ele chega de mansinho, vem lindo, transbordante de carinhos)”.

 

Dito isto, faleceu.

 

Quando velada, um desconhecido entrega a um dos familiares um pacote. Ele abre-o à vista de todos. Encontra um bilhete:

 

 “Perdão, bondosa senhora. A sua serenidade mudou a minha vida. Vi-a, como a mãe que eu nunca tive. Devolvo-lhe tudo, menos o dinheiro que gastei com um prato de comida, mas creio que a sua bondade me perdoará. Obrigado. Assinado: Zé-ninguém.”

 

Ela sorri.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Surpresa:

Lua de mel

Com apenas dois meses de namoro, a Soraia, caladinha, se inscreve num concurso de misses. Resultado: ganha! Aí o Valter fica meio doido: “Nossa! Tenho que agilizar o casamento. De agora em diante, aumentarão os pretendentes, e essa miss tem que ser minha!”.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

04/06/2019

 

A dama segue em seu lavor. Num golpe arranca o vestido, desprezando-o pelo chão. Momento de êxtase. O espectador fica perplexo. Paralisado.

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Todo mundo passou a comentar sobre a sorte do Valter:

 

- Ah! Ele ganhou na loteria.

 

- Concordo plenamente. Conquistar a Soraia não era tarefa pra qualquer um. Ainda mais com esse jeitinho meio caipira que ele tem.

 

De fato, a Soraia era lindíssima. O Valter podia não ser um galã, porém, apresentava outras qualidades: sério, sensato, trabalhador... Bem, e um dinheirinho ele possuía. Filho de fazendeiro.

 

Com apenas dois meses de namoro, a Soraia, caladinha, se inscreve num concurso de misses. Resultado: ganha! Aí o Valter fica meio doido: “Nossa! Tenho que agilizar o casamento. De agora em diante, aumentarão os pretendentes, e essa miss tem que ser minha!”.

 

Fala do seu plano com a amada, e ela aceita.

 

O matrimônio ocorre dali a trinta e sete dias. Para a lua de mel, o noivo reservara um hotel cinco estrelas, no Rio de Janeiro.  

 

Um detalhezinho: o moço, por princípios religiosos, bem próprios de sua criação, fizera votos de castidade antes do casamento. Com isto, namorava, respeitosamente, evitando que os corpos se conhecessem em toda a sua plenitude.

 

A noite é dos amantes! Chegaram ao hotel ali pelas 20h. Nem jantaram. Foram logo para a suíte.

 

O Valter notou alguma estranheza no semblante da amada. Pensativa, ela desfilava pelo quarto. O cônjuge toma a iniciativa: tira a camisa e deita-se na cama (coração batendo forte!). A ninfa, de olhar sem dono, escolhe a música “F comme femme”, sorri e inicia o striptease: livra-se do chapéu; depois, dos sapatos; das meias; da blusa... Segue desfilando, no embalo da canção. Seu olhar, seus gestos são de quem atua, não para o seu homem, mas para uma vaga plateia, o que intensifica a cobiça daquele amante apaixonado.

 

A dama segue em seu lavor. Num golpe arranca o vestido, desprezando-o pelo chão. Momento de êxtase. O espectador fica perplexo. Paralisado. (“Nunca imaginei estar tão perto de uma diva como esta. Isto não é uma mulher. É um anjo. Parece que veio de uma estrela”). Eroticamente, a exibicionista massageia os próprios seios. Após um tira-não-tira, livra-se do sutiã, o qual é jogado pelos ares. (Delírio!) Faltava apenas a última pecinha, aquela arte rósea, rendada, guardiã do Reino de Eros; o selo da virgindade... Ao curvar-se para violá-lo, desequilibra-se, cai, levanta-se rapidamente, corre para o banheiro, ordenando ao cônjuge que não vá atrás dela.

 

O companheiro aguarda o quanto pode. Agoniado pela demora, ele vai até o local e olha por cima da porta... Só agora ele consegue fitar aquela Vênus, inteiramente nua, objeto-mor do seu sonho de amor. Seu pensamento vagueia...

 

Qual um foguete corre desce tromba chega à recepção. Paga a conta, sai apressado, pega o primeiro avião de volta. 

 

No dia seguinte, reunião de famílias. Ela só alega que sofrera um transtorno intestinal. O Valter é tremendamente criticado por seu ato de abandono. Ele, timidamente, tenta se explicar:

 

- Naquele momento, eu fiquei estarrecido. Uma estrela como aquela deveria estar sentada, em um trono, não, num vaso sanitário. O choque foi descomunal! Eu não tive estrutura para suportar.

 

- Que loucura, meu filho! Ela é humana como todos nós. 

 

- Sim, meu pai. O meu erro foi idealizá-la como deusa.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Denúncia:

O caso do Papagaio

Temos mandado para vasculhar sua residência. Queremos ver seus animais. Temos denúncia de que você mantém, em cativeiro, uma porção deles aí, e que os maltrata bastante.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

26/05/2019

 

Policiais vasculham tudo e realmente não encontram nada mais que aquele pássaro. No entanto, não lhe dão trégua.

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O Deilinho trabalhava com filmagens e fotografias. Morava no quarto andar de um prédio, onde recebia os seus clientes. Era claro, gordinho, de estatura média, educado, e não se preocupava em esconder o seu jeito afeminado de ser. Ótimo profissional!

 

Apesar de já ter dividido apartamento com um colega, sentia-se mais feliz morando sozinho. Sozinho nada! Com o amigo inseparável: o Mike, seu papagaio. O nome surgiu em homenagem ao Michael Jackson, seu ídolo.       

 

Campainha toca. Toca outra vez. Toca mais.

 

- Já vou, sua bichona!

 

Abre a porta, eram um policial militar, um florestal e um fiscal. (Exibindo os documentos).

 

– Temos mandado para vasculhar sua residência. Queremos ver seus animais. Temos denúncia de que você mantém, em cativeiro, uma porção deles aí, e que os maltrata bastante. Você sabe da gravidade desses crimes, não é mesmo?

 

- Mas que animais? Eu só tenho um papagaio. Se vocês acharem mais alguma coisa, só se for pernilongo e barata. Isto aí é atitude de invejosos. Ninguém precisa me invejar. Basta fazer como eu, que deito tarde e levanto às cinco horas da manhã pra trabalhar.

 

Policiais vasculham tudo e realmente não encontram nada mais que aquele pássaro. No entanto, não lhe dão trégua:

 

- De qualquer jeito, você sabe que manter uma ave como esta em domicílio é ilegal. Quem te vendeu? Vamos atrás do vendedor.

 

- Ah, foi um caminhoneiro que eu conheci num posto de gasolina. Eu não sei o nome dele. Nunca mais o vi.

 

- Essa história de caminhoneiro desconhecido já não cola mais. Vamos levar seu papagaio. E você será responsabilizado.

 

Ele pega o Mike, abraça-o, beija-o; ajoelha-se diante das autoridades; e, com os olhos cheios de lágrimas, suplica:

 

- Se forem levar meu amigo, levem-me com ele; e se forem me prender, prendam-no comigo. Ele é o sonho da minha vida.

 

Um policial faz beicinho, tenta segurar, mas não consegue. Explode-se em prantos, lembrando a saudosa vovozinha, que tinha um igualzinho, e que era o sonho da vida dela. Todos choram.

 

Após enxugarem as lágrimas, eles se entreolham e concluem:

 

- A denúncia de que esse moço maltrata os animais é totalmente falsa. Ele é mesmo muito amoroso. O que vamos fazer?

 

- Ah, vamos dar o caso por encerrado.

 

(Bem, e já que eles eram sentimentais, Deilinho agradece e dá um abraço e um beijinho em cada um deles).

 

Notícia corre, no mesmo dia, a vizinha do segundo andar vai procurar o Deilinho. Diz que seu filho sempre foi louco para ter um papagaio, mas os pais não compravam, com medo de dar problema. Já que não deu, você poderia me informar onde você comprou?

 

- Ah, mas é claro. Eu comprei foi na mão do Fofinho, lá na feira. É só você procurá-lo e falar que fui eu que indiquei, que ele te vende. A mulher vai, encontra o Fofinho e compra um lindo para o filhinho.

       

 papagaio do segundo andar (o do menino) e o do quarto (o do Deilinho) fizeram a maior amizade! Ficam o tempo todo na janela tagarelando. Um pergunta de lá, o outro responde de cá.

 

E no apartamento do terceiro andar - o que ficou entre as duas aves tagarelas -, foi colocada uma placa bem grande:

 

VENDE-SE BARATO. Motivo: mudança.

 

- Imagem: Divulgação.

 

*  *  *

 

Coisa do destino:

Gripe nos ossos

Dona Alzira,apresentava-se calada, carrancuda, isolacionista, contudo, cortesã. Seu modo intocável talvez ocultasse um mecanismo de defesa: era riquíssima.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

18/05/2019

 

A rapaziada passou a comentar: “Como um camarada desse: mulato, pobre, fabricante de pirulitos, foi namorar com uma princesa daquela?”... Quer saber a resposta?

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O Pedro Pirulito parou, deu uma escoradinha num poste, uma tossidinha, respirou fundo, limpou o suor e se foi cumprindo a sua sina, de vender seus pirulitos.

 

Em frente, uma mansão. Nela viviam mãe e filha. Adele era um tipo nobre. Magra, clara, cabelos longos, ondulados, com tons de ruivo e doirado, pele finíssima, uma princesa enfim. Outro dote era entender de chocolates. Dona Alzira, sua mãe, apresentava-se calada, carrancuda, isolacionista, contudo, cortesã. Seu modo intocável talvez ocultasse um mecanismo de defesa: era riquíssima.

 

A Adele, vendo o Pedro naquela tosse, perguntou-lhe:

 

- Passando mal, moço?

 

- Não. Obrigado por se incomodar, mas é coisa atoa.

 

- Vá a um posto de saúde. Pode ser tuberculose. O senhor é fortão, mas o bacilo “dicoque” (de Koch) pode atacar qualquer um.

 

- Dicoque é sapo, né? O bacilo dicoque é o único que é, ao mesmo tempo, um bacilo e um sapo.

 

A moça, só acostumada com nobreza, desata em risos com aquele jeito espontâneo do rapaz.

 

Três dias depois, coincidência: ele passando em frente à mansão, e ela, à porta.

 

- Melhorou, moço? Foi ao médico?

 

- Fui. Tô melhorando.

 

- E era tuberculose mesmo?

 

- A senhora tá doida pra me “impurrá” uma tuberculose, né? (Ela riu demais.) O médico falô que eu tô é com gripe nos ossos.

 

- Oh! Que negócio gozado! Quer dizer, não é caso de rir não.

 

- Gozado pra quem num tem, né? (Novos risos.)

 

Encontrando-se com a rapaziada, o Pedro anunciou:

       

- Tô namorando com a Adele.

       

- Que Adele?

       

- A da Dona Alzira.

       

- Ah, cê tá é doido! (Gargalhadas e mais gargalhadas.)

 

E estavam namorando mesmo. (Tudo, escondidinho de Dona Alzira, é claro). A rapaziada passou a comentar: “Como um camarada desse: mulato, pobre, fabricante de pirulitos, foi namorar com uma princesa daquela?”... Quer saber a resposta?

       

O Pedro Pirulito pirulitou a moça e estão prestes a se casar. Ao saber do ocorrido, a mãe desmaia. Ao voltar desse desmaio:

 

- Filha, você merece pessoa melhor! Todavia, se foi esse piruliteiro que você escolheu, então casa, mas não conte com o meu dinheiro, nem antes, nem depois do casamento, ouviu? 

 

Casaram-se. Por amor, Adele trocou a mansão por um barraco. O início foi como um pirulito: duro, porém, doce. A liberdade os fez crescer. Inauguraram uma fábrica de chocolates, que chegou a exportar. Mesmo assim, dispensavam qualquer luxo. A Adele não queria repetir aquele monte de etiquetas a que vivia submetida. 

 

À noite, sentam-se num sofá rasgado e conversam abobrinhas:

 

(Pedro) – Amor, quem começou toda essa brincadeira?

 

(Adele) – Eu, quando te perguntei se você estava doente.

 

(Pedro) – Eu, porque se não tivesse aquela gripe nos ossos, você não teria nada pra perguntar.

 

Beijam-se.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

*  *  *

 

Amizade:

Missa De Sétimo Dia

Sábado. Sete da noite. Oito. Nove. Nove e meia. Dez. Dez e meia. Onze... Nada. O Vicente não passou nem deu a mínima satisfação. O Eduardo teve vontade de esmagá-lo.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

05/05/2019

 

Quase tromba com um antigo colega seu: o Ramon. Os dois haviam trabalhado como pedreiros em uma construtora. O Edu aperta rapidamente a mão dele e promete voltar.  

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O Eduardo fica conhecendo o Vicente num bar. Tornam-se amigos. Três semanas depois, o Vicente o convida para uma festa, a realizar-se em seu sítio. Promete que passará em sua casa, sábado à noite, para levá-lo de caminhonete. O Edu já começa a festejar. O que ele mais adorava nesta vida era comer e beber de graça.

 

Sábado. Sete da noite. Oito. Nove. Nove e meia. Dez. Dez e meia. Onze... Nada. O Vicente não passou nem deu a mínima satisfação. O Eduardo teve vontade de esmagá-lo.

 

Na segunda-feira, pela manhã, o Eduardo atende o telefone e uma voz angelical, de uma menina de uns dez anos, anuncia:

 

- Eu sou Natália, sobrinha do Vicente. Ele mandou te comunicar que não foi à sua casa no sábado, porque a mãe dele morreu.

 

- Oh! Lamento profundamente! Por que não me avisaram? Nós somos tão amigos! Eu deveria ter estado lá.

 

- Sim. Meu tio pede desculpas. No dia, ele ficou transtornado, não podendo nem raciocinar direito. Mas você está convidado para a missa de sétimo dia. Será sexta-feira, às 19h, na igreja tal.

 

O Eduardo vai. Só que chega bem atrasado. Percorre toda a igreja e, não vendo nem Vicente nem família, caminha por um dos bancos, para tirar a dúvida com uma conhecida. Ela esclarece:

 

- Hoje é missa para três pessoas, inclusive para a mãe dele sim. - Olha! Vai! Corre! O Vicente e seus familiares estão saindo por aquela porta lateral.

 

- Vai, mas depois volta, sim?

 

Na correria, o Eduardo quase tromba com um antigo colega seu: o Ramon. Os dois haviam trabalhado como pedreiros em uma construtora. O Edu aperta rapidamente a mão dele e promete voltar.  

 

O Eduardo vai, dirige palavras confortantes ao Vicente. Volta e reencontra o Ramon, o qual tira do bolso um “santinho” (o retrato de uma senhora) e entrega ao Edu, que logo pensa: “Oh! Dá pra notar que essa senhora morreu. Mas o que ela será do Ramon? Mãe, tia, esposa, sogra...?” Formula então uma vaga pergunta:

 

- O que foi que aconteceu, Ramon?

 

- Derrame cerebral.

 

“Ai, meu Deus. Deu na mesma. O jeito é manter a calma.”

 

Nisto, o Ramon chama a esposa:

 

- Viu, Aparecida? Amigo é como este. Tinha uns dez anos que a gente não se via, e ele, ciente do ocorrido, veio aqui nos consolar.

 

- Exatamente – concordou ela. Amigo assim tem que conservar. Cadê aqueles seus colegas, que você tanto elogia? Cadê?

 

Aí o Eduardo, para não decepcionar, glorifica o amigo:

 

- Ah, meu caro Ramon, eu não podia faltar. Nós nos tornamos amicíssimos lá naquela obra. Com os outros colegas, de vez em quando, eu até tinha algum atritozinho. Mas, com você, não. Nunca. Aliás, pra mim você sempre foi e será o meu maior amigo. (Emoção.)

 

O Ramon era agora construtor. Havia progredido na vida. E o Eduardo, regredido. Depois da missa, a convite do casal, o Edu vai jantar com eles num luxuoso restaurante. Ao final, o Ramon ainda lhe dá um cartãozinho e o convida para ir almoçar na casa deles, sempre que quiser. Pra quê!? Deu banana a macaco. O Eduardo danou a ir mesmo. Ia, almoçava, tomava banho, jantava, escolhia os programas de televisão, dormia por lá mesmo e, ao sair, ainda levava uma sacola cheia de frutas, colhidas ao quintal.

 

Fazer o quê, né? Amigo assim tem que conservar.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

*  *  *

 

Diferenças:

Os dois bananas

O troféu para qualquer rapaz era provar que ficara, pelo menos por um instante, com essa, que tinha o destino da lua, que a todos encanta e não é de ninguém.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

30/04/2019

 

A turma do Sinval instrui-o a pegar um atalho, pelo meio da floresta, para driblar o Felipe. Sem saber de nada, a turma do Felipe aconselha-o a ir, por outro trilho, para evitar o Sinval.

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Vinte de janeiro. Dia de São Sebastião. Festa na roça. Barraquinhas. O local ficava a uns oito quilômetros do centro da cidade. Havia ônibus de hora em hora para lá.

 

Destacando-se na multidão, via-se Bruninha. Que moça linda! Morena, um pouco alta, saia curta, animada, falava o tempo todo. Detalhe: tinha a voz rouquejada, o que lhe conferia mais charme.

 

O troféu para qualquer rapaz era provar que ficara, pelo menos por um instante, com essa, que tinha o destino da lua, que a todos encanta e não é de ninguém. Com o Sinval, não foi diferente. Moço da roça, tradicional, sincero, trabalhador, religioso. (Só um pouco estopim curto.) Também ele se rendeu aos encantos de Bruna.

 

Aproximou-se dela, começaram a conversar... Dali a pouco, estavam abraçadinhos e aos beijinhos. Mas eis que alguém vem atrapalhar. O Felipe cismava que era namorado da Bruna. Por ela, lavaria rapadura, até tirar todo o docinho; descoraria urubu, até ficar branquinho; carregaria água no balaio. Vendo aquela cena, voou contra o Sinval, deu nele um arranco cinematográfico, tirando-o da Bruninha. Um monte de gente entrou para separar. De todo jeito, o Felipe levou um murro no olho.

 

- Mas isso não fica só assim não! - grita o Sinval. Eu vou lá em casa “buscá um negoço bão procê”.

 

E o Felipe:

 

- Deixa comigo. Eu também tenho isso que você tem. E medo não foi feito pra mim não. Veremos qual é o mais valente.

 

A turma do Sinval instrui-o a pegar um atalho, pelo meio da floresta, para driblar o Felipe. Sem saber de nada, a turma do Felipe aconselha-o a ir, por outro trilho, para evitar o Sinval.

 

Eles andam, andam, andam... Ninguém poderia imaginar é que, num determinado ponto, os dois caminhos se cruzavam. Naquela noite enluarada, naquele ermo sertão, os dois valentes se encontram. Assustam-se! Breve se refazem. Param a uns quatro metros um do outro. Nem piscam... Até que o Sinval toma a iniciativa, abre o peito e ruge igual leão:

 

- Atira! Pode me matar. Eu não peguei arma em casa. Vai, descarrega todo o seu ódio em mim.

 

 (Após alguns minutos de silêncio...)

 

- Eu também não fui em casa, também estou desarmado. – informa o seu oponente.

 

 

- Melhor então. Afinal, homem, que é homem, não resolve as coisas na bala. Resolve tudo é no braço. (E vão se aproximando.)

 

O Felipe dá uma pausa, relaxa, acende um cigarrinho... Depois pergunta:

 

- Você está mesmo com raiva de mim?

 

- Sim, quer dizer, não. Você é que está com raiva de mim.

 

- Também não.

 

Numa gargalhada, pulam um no outro, abraçam-se e riem, riem, como nunca na vida. Tudo agora parecia festa.

 

Já na cidade, eles vão para um bar, enchem a cara, cantam até a madrugada. O Felipe, julgando que o Sinval estivesse mais tonto, abraça-se com ele e vai levá-lo em casa. Chegando lá, o Sinval acha que o Felipe é que está pior, e volta, para levá-lo à casa dele. Acaba é eles se desmoronando ali numa pracinha, onde passam o resto da noite. Os dois se tornaram amicíssimos. Jamais se separaram. E nem se lembraram mais daquela tal de Bruninha. 

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

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Depoimento:

Explosão na delegacia

Estava ela a varrer sua porta, quando avistou, a uns cem metros dali, um acidente.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

22/04/2019

 

Na manhã seguinte, Cecília é chamada à delegacia, a fim de testemunhar o fato. Ela vai, timidamente, visto nunca ter comparecido a um lugar como esse. 

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A Cecília era uma mulher humilde. Só gostava mesmo de aparecer, quando fosse necessário.

 

Estava ela a varrer sua porta, quando avistou, a uns cem metros dali, um acidente. O Sô Miguel era um pequeno fazendeiro, o qual, apesar de casado com uma mulher honesta e bonita, vivia rodeado de prostitutas, bebendo e gastando com elas. Naquele dia, ele, parecendo estar em seu “estado normal” (embriagado), cruzou de repente a rua, enfiando na frente de uma moto. Foi fatal. “O condutor não teve culpa.” – era o comentário geral.

 

Na manhã seguinte, Cecília é chamada à delegacia, a fim de testemunhar o fato. Ela vai, timidamente, visto nunca ter comparecido a um lugar como esse. 

 

Chegando lá, um funcionário lhe avisa que ela deveria procurar a sala número 11, para falar com o escrivão.

 

Antes de entrar, ela se apresenta a ele:

 

        - Bom dia, senhor! Meu nome é Maria Cecília...

 

        - Entra! Ou você acha que a entrevista vai ser aí fora?

 

Ela entra e permanece de pé em frente a sua mesa.

 

        - Senta, ou você acha que a entrevista vai ser em pé?

 

Ela obedece.

 

        - Você vai testemunhar é sobre o caso do Sr. Rafael, não é?

 

        - Desculpe, senhor, o nome dele é Miguel.

 

        - Ah, sim, Miguel. Miguel Canabrava. Tá aqui na ficha.

 

        - Vamos lá então: nome, ou seja, “cumé qui cê chama”?

 

        - Maria Cecília de Oliveira.

 

        - Endereço, ou seja, “ondé qui cê mora”.

 

        - Rua...

 

        - Agora cê vai contar o que cê viu. Não precisa preocupar com o vocabulário. A redação é minha. Eu ajeito tudo aqui. Fala então, com as suas palavras, o quê que cê viu.

 

E a Cecília, naquela sua simplicidade, relata:

 

        - Vinha o transeunte descrevendo movimentos senoidais pela calçada, quando foi surpreendido pela massa férrea e letal de uma motocicleta, cuja forma reduzida é moto. Veículo implacável, porém, emplacado. O condutor se nos afigurava atilado e cauto, devendo sobre ele recair dó, todavia, não dolo.

 

(EXPLOSÃO DE GARGALHADAS!) Servidores ali presentes não sabiam se riam mais da originalidade do testemunho ou da cara do escrivão, que parecia não ter entendido nada. Ainda ele:

 

        - Putsgrilo! Eu tô é ferrado! A senhora estudou até que série?

 

        - (Silêncio).

 

        - Vamos continuar? O Sô Miguel estava embriagado?

 

        - Da distância, não deu para aquilatar-lhe o bafo, mas posso garantir que ele vinha vacilante pelas ruas.

 

        - Vacilante!? Mais uma boa! Gostei.

 

        - Vacilante, hesitante, instável, incerto, titubeante ou dúbio.

Agora, o escrivão é que fica tonto.

 

A humilde Cecília tinha dois mestrados: um em linguística, outro em filosofia.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

*  *  *

 

Personagem de rua:

O Louco das Alvoradas

“Dia após dia, sozinho em uma colina. o homem com o sorriso tolo está sentado perfeitamente imóvel...”.

(The Fool on the Hill – Beatles.)

       

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

14/04/2019

 

Sempre na alvorada, ele sai, começa a beijar todas as flores...

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Nascer do sol. As pessoas, afoitas, absortas em seu labor. Trabalhar, trabalhar, trabalhar, ganhar o pão, poder educar os filhos... Tudo isso, impulsionando-as a buscarem, céleres, as suas conduções, que tornarão o trânsito ainda mais caótico.

 

Um dos ônibus saía do centro, indo até um bairro mais distante. Os trabalhadores iam descendo, de acordo com a conveniência.

 

Numa alvorada, quando o veículo passava por um trecho menos movimentado, uma senhora alertou os passageiros sobre um senhor, de uns sessenta e tantos anos, caminhando, em atitudes suspeitas. Noticiários de tevês não poupam alertas sobre esses tipos perigosos e a urgência de denunciá-los. Não foi desta vez. A viagem prosseguiu.

 

Nova aurora, mesma rotina, mesmo ônibus, mesmos passageiros. Do lado de fora, o mesmo enigmático viandante. Desta feita, a dama promoveu um alvoroço. Temos que fazer alguma coisa!

 

Terceira alvorada. Na mesma estrada, aparece aquele estranho assustador. Apelam ao motorista, pedindo-lhe providências.

 

- Eu não posso largar o volante. Chamem a polícia.

 

Esplêndida alvorada. Polícia! O suspeito é levado, juntamente com aquela turba, que vivia a censurá-lo.

 

- O que aconteceu? Este malandro está perturbando a paz de vocês? – pergunta o delegado.

 

- Sim - respondem em coro.

 

- O que vocês costumam vê-lo fazendo?

 

- Sempre na alvorada, ele sai, começa a beijar todas as flores...

 

- Ele até conversa com elas – completou outro. E todos riram.

 

- Ele abraça as árvores, beija-as... Parece até que ele namora com uma palmeira. (Gargalhadas).

 

(Delegado, a um soldado) - Prenda-o preventivamente! Deve ter mais coisas envolvidas nesta história. Vamos apurar. (Aplausos).

 

Um desconhecido, que tudo ali espreitava, intercede em prol do condenado: 

 

- Senhor delegado, doravante sou advogado desse infeliz. Ouça-me, por gentileza, e, se ao final, vir por bem aprisioná-lo, prenda-me também. Este sonhador, que já foi até apedrejado, eu o conheço bem. Homem honesto, honrado pai de família. Após árduos anos de serviços, alguns deles até prestados à nossa Pátria, aposentou-se e vive a salvar o meio ambiente. Inimigos do ecossistema julgam normal destruir as florestas, trucidar os animais. Todavia, entendem como insano o amor à natureza. Aos olhos dos incautos, ele é um desvairado. Mas quem aqui pode dele apontar um ato sequer, que ofenda as leis ou os bons costumes? Falem! Provem! (Todos calados.) Este incompreendido faz lembrar aquele “louco no monte”, dos Beatles. Aquele que se isolara da sociedade, a qual o repudiava. No entanto, habitava o monte, estando assim num nível mais elevado que o dela. Este nobre que defendo não é propriamente “o louco no monte”. Ele é “o louco das alvoradas”, melhor dizendo, “o sábio das alvoradas”.

 

- Solte-o – determina o delegado. E prenda, pelo menos por um dia, esses malditos acusadores.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

*  *  *

 

Um encontro:

Quase que ela perde o namorado

Ele se mostrava tremendamente constrangido por não falar português. Era argentino. A valência é que Cíntia possuía, pelo menos, os conhecimentos básicos do espanhol, e pôde ajudá-lo a localizar o hotel que pretendia.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

06/04/2019

 

A Cíntia, no intuito de aquecer mais ainda esta relação, convidou-o para, no dia seguinte, almoçar em sua casa.

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Cíntia comemorara, na véspera, seus vinte e seis anos. No entanto, um pouquinho tediosa, porque ela não tinha sorte com namorados.

 

Na noite seguinte, solta o pensamento e sai, por uma rua enluarada. Como por mágica, surge à sua frente um jovem encantador, o qual se dirigiu a ela, mais gesticulando que falando:

 

- ¿Puedo... hacerte... una pregunta? ¿Dónde fica...? ¿Dónde está?... No sé como decir...

 

Ele se mostrava tremendamente constrangido por não falar português. Era argentino. A valência é que Cíntia possuía, pelo menos, os conhecimentos básicos do espanhol, e pôde ajudá-lo a localizar o hotel que pretendia.

 

Ele foi a esse hotel, voltou, reencontrou a garota e, enfim, deu namoro. Uau! Jamais se viu tanta reciprocidade: nos olhares, nos beijinhos...

 

A Cíntia, no intuito de aquecer mais ainda esta relação, convidou-o para, no dia seguinte, almoçar em sua casa:

 

- “Pablito, mañana, por vuelta de las onze y media, en mi casa, ¿de acuerdo?”

 

- “Con mucho gusto, Cintia, gracias.”

 

Domingo calmo e azul. Onze e meia. Almoço na mesa. Dona Laura, mãe de Cíntia, andando pra lá e pra cá, curiosa para conhecer o “futuro genro”, com quem a filha até sonhara. E a Cíntia, sentada, roendo as unhas, com medo do muchacho não aparecer.

 

Campainha toca. É ele. Chegou com meia hora de atraso.

 

Findo o ritual das apresentações, vão desfrutar os prazeres da mesa. O convidado come, bebe e, ao final, dirige-se à sogra assim:

 

- ¡Está exquisita su comida! ¡Muy exquisita!

 

A boa senhora fecha uma cara, vai lá pra cozinha, chora, chora, até não ter mais lágrimas. Não volta à sala nem pra se despedir.

 

Logo depois que o visitante foi embora, a mãe, nervosíssima, chama a filha na conversa:

 

- Que moço sem educação esse que você me traz! Eu faço a comida pra ele com o maior carinho, e ele fala que a minha comida tá esquisita. Esquisito é o nariz dele! Com esse, eu não deixo você namorar! Cafajeste como esse não entra mais nesta casa!

 

Cíntia tenta de todo modo explicar:

 

- Não é isto, mamãe. A senhora entendeu mal.

 

- Ah, tá me chamando de surda? Eu ouvi muito bem, tá?

 

- Acalme-se, mamãe, acalme-se! Vou mostrar para a senhora.

 

Sai Cíntia e volta com um dicionário espanhol na mão.

 

- Olha aqui, mamãe, “Exquisita”, em espanhol, não é esquisita, como em português. Quer dizer agradável, muito boa, deliciosa.

 

– Ah, meu Deus! Que ignorância a minha! Ele estava era elogiando... Na verdade, ele é muito educado. Pode namorar com ele.

 

Abraçam-se calorosamente. A mãe ainda tira esta conclusão:

 

- Agora é que eu vi o quanto as pessoas sofrem por ignorância.

 

- Não diga assim, mamãe. Todos nós, em alguns pontos, somos ignorantes mesmo. Mas quanta sabedoria a senhora já nos passou!

 

QUATRO ANOS DEPOIS...

 

Cíntia e Pablito já têm uma menina de três anos, a Carmencita, e um menino de um, o Ramoncito. Um casamento “muy exquisito”.

 

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

*  *  *

 

Educação:

O Terceiro Round

Hora do recreio. Professoras famintas: de um salário mais digno, de melhores condições de trabalho, de alimento. Sentam-se em volta da mesa. A cantineira, sorridente, vem trazendo a refeição.

 

Por A. Sérgio*

De Sarzedo-MG

Para Via Fanzine

29/03/2019

 

O ringue já está montado. Vai começar a grande luta. Você não pode perder este momento de emoção!

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Numa escola, professoras, diretoras, sempre se desabafando: “Estes alunos de hoje são indisciplinados demais; eles não têm limite.” Como sempre, todas, empenhadas em aprimorar a disciplina, para uma educação melhor, para um Brasil melhor. (Um momento. Estou ouvindo no rádio da vizinha aquela canção da Legião Urbana, “Será só imaginação...”). Desculpem. Eu gosto bastante dessa música.

 

Hora do recreio. Professoras famintas: de um salário mais digno, de melhores condições de trabalho, de alimento.

 

Sentam-se em volta da mesa. A cantineira, sorridente, vem trazendo a refeição.

 

(E atenção! O ringue já está montado. Vai começar a grande luta. Você não pode perder este momento de emoção!)

 

Entre uma garfada e outra, a professora A revela espontaneamente:

 

- Meu prato predileto é frango com quiabo.

 

A professora B rebate veemente:

        

- Quê?! Frango com quiabo?! Cê tá é doida.

        

(Inicia-se o combate!)

        

- Uai, mas eu gosto e cabô. A propósito, cê gosta é de quê?

        

- Ah, meu prato predileto e o da minha mãe é taioba com angu.

        

- Ocê é que tá doida. Onde já se viu uma comida desta?

        

- A sua é que não presta: “frango com quiabo, ih! que nojo!”

        

- Isto é porque você não sabe fazer frango.

        

(Esse foi um direto de direita. Deu pra bambear. Atingiu a feminilidade da mestra. Mulher que se preza tem que saber cozinhar.)

        

Início do segundo round. Está 10 a 9 pra professora A.

        

- Eu não sei fazer frango? Fique sabendo que eu aprendi a fazer frango foi com a minha avó, a Dona Dolores, simplesmente a melhor cozinheira da região. Acumula prêmios internacionais. Tá satisfeita agora?

        

(Com esse cruzado de esquerda, atingindo o supercílio da adversária, termina o segundo round. Desta vez, 10 a 9 pra professora B. Até agora, empatado.)

        

- Então você não sabe é fazer o quiabo – insiste a professora A.

        

- Você se acha melhor do que todo mundo, não é? Mal-amada!

        

- Ah, cê quer saber a verdade? Angu com taioba é comida de porco.

        

(Foi um upper, a que nem os grandes lutadores resistiriam. Lona.)

        

Nisto, um professor ainda entra na confusão:

        

- Todas duas estão erradas. O melhor prato mesmo é pão molhado no feijão.

        

(Juntam-se as duas para bater nele.)

        

Um terceiro round violentíssimo. Entretanto, foram todos salvos pelo gongo: deu o sinal escolar, indicando que acabara o recreio.

        

Enfim, quem ganhou? Ninguém. Todos perderam. A escola perdeu. A educação brasileira perdeu. Não é “só imaginação”. Lamentavelmente, esse fato ocorreu numa escola. Tanta picuinha, tanta briga por causa de nada, e os grandes projetos dormindo nas gavetas.

        

E os alunos, hein? Eles, que eram tidos como indisciplinados.

  

*A. Sérgio é professor de português/inglês/literatura; tradutor; revisor. Escreve contos, crônicas, poesias; compõe músicas. Gosta de pessoas, plantas e animais. É colaborador de Via Fanzine, desde sua fundação, em 1994.

 

- Foto: Divulgação.

 

 

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