Ficção científica
Exploração Espacial: Quando o homem deixar a Terra Em "As Canções da Terra Distante", Arthur C. Clarke descreveu a partida dos últimos remanescentes terrestres a bordo da imensa astronave Magalhães. Ela seguiu rumo a um conhecido e distante planeta, bem semelhante à Terra.
Por Pepe Chaves* De Contagem-MG Para ASTROvia
Thalassa seria um planeta com duas luas e atmosfera muito semelhante à da Terra. Quase sua totalidade estaria coberta por água, com exceção de três ilhas, ocupadas por sua população.
Em busca da Terra distante
Enquanto o mundo se choca com a violência e se espanta com a temática tida como inovadora da super produção cinematográfica “Distrito 9”, que em outubro de 2009 chegou nos cinemas de todo o mundo, o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke há muito já abordava o tema. Em sua obra “Fim da Inocência” (Childhood's End) - título que rendeu também canções homônimas de bandas de rock consagradas, como Pink Floyd e Marillion – Clarke já oferecia a possibilidade de a nossa civilização se deparar com seres inteligentes, visitantes vindos de mundos longínquos.
Mas, a proposta aqui é abordar justamente o avesso disso: o ponto de vista da extradição definitiva do ser humano de seu planeta que ocupa por tempos incalculáveis. Sabemos que um dia, se a espécie quiser se perpetuar pelo Cosmos, terá de, inevitavelmente, deixar o planeta Terra. Em seu romance “As Canções da Terra Distante” (The Songs of the Distant Earth) Clarke navega por estes mares siderais, oferecendo uma, entre tantas alternativas, de o homem um dia deixar a Terra - que pelas leis da física, se esgotará como um planeta estável.
“As Canções da Terra Distante” é o primeiro romance publicado por Arthur C. Clarke depois de “2010: uma odisséia no espaço II” e posteriormente nomeou um brilhante álbum musical do estilo "Space Rock", produzido pelo multi-instrumentista britânico Mike Oldfield (The Songs of the Distant Earth).
Além de um contista nato, daqueles que descreve com mestria detalhes de ambientes, bem como de seres humanos, Clarke faz questão de pontuar seu trabalho com as mais recentes descobertas físicas e tecnológicas a que sempre teve acesso. Sua obra de ficção “previu” e inspirou a efetivação das viagens espaciais tripuladas, como também a criação e utilização dos satélites artificiais, nos moldes atuais, além de inúmeros aparatos espaciais (entre os que ainda estão por vir, como o ainda teórico “elevador espacial”), alguns dos quais, sugeridos por ele próprio à Nasa.
Portanto, em “As Canções da Terra Distante” o autor não remonta somente uma fantasiosa possibilidade de um dia o homem deixar seu planeta moribundo, mas fortalece esta ideia utilizando diretrizes tecnológicas lançadas em curso, bem antes da época em que a obra foi publicada (1985). No entanto, o autor deixa claro que 30 anos antes de vir a ser publicada, a ideia de conceber esta temática fora “pensada” por ele.
Em seu romance “As Canções da Terra Distante”, Clarke coloca a considerável possibilidade de um dia os últimos seres humanos abandonar o seu moribundo planeta Terra, em busca da sobrevivência enquanto espécie. E assim, preparado para enfrentar o futuro duvidoso e tendo o seu mundo reduzido à enorme “arca sideral”, o homem terrestre seguirá rumo a um destino certo: um planeta similar à Terra. Toda esta jornada final, que se faz enquanto a Terra é consumida pelas chamas solares, se iniciou com antigos cientistas terrestres e agora se torna apenas o resultado esperado de incansáveis projetos científicos, calculados e desenvolvidos desde os séculos antecedentes.
Semeando o homem pelo espaço
Enquanto nos dias de hoje temos os robôs Spirit e Opportunity (da Nasa) a caminhar pela superfície de Marte, além de outros aparatos a nos enviar sinais da órbita de astros do nosso sistema solar, Clarke, em meados da década de 1950 descreveu um planeta Terra que, por volta do ano 2.550, lançaria ao espaço, diversas astronaves “semeadoras”. Estas complexas máquinas carregariam semens de vida humana e partiriam rumo a centenas de planetas semelhantes à Terra, buscando florescer a vida nestes orbes.
Tais semeadoras se tratam de astronaves não tripuladas com funções de avançadíssimos robôs que carregam um conteúdo nobre: material genético humano para povoar mundos semelhantes ao nosso. A deter uma tecnologia ainda inimaginável para os nossos dias, estas máquinas seriam capazes de produzir toda uma civilização, pois que se portavam como verdadeiras “estufas de vida” - desde que atinjam um planeta com as características da Terra para poder “florescer” uma civilização, a partir desse robô terrestre.
Curioso é constatar que, nesta última década e mesmo pouco depois da morte Clarke, ocorrida em princípios de 2008, cientistas já anunciaram a descoberta de diversos planetas extrasolares (exo-planetas), que podem ser muito parecidos com a Terra sob diversos aspectos.
'A questão só pode ser decidida com provas concretas e não pela lógica, por mais plausível que seja'. Arthur Clarke, sobre a vida extraterrestre.
No entanto, dentro do enredo de Clarke, desde que foram lançadas, as semeadoras não enviaram respostas satisfatórias que confirmassem o sucesso da experiência, apesar de haver grande possibilidade de a vida ter “vingado” e florescido em alguns dos planetas que receberam as “cápsulas da vida” - ainda que tais seres não pudessem se manifestar, anos mais tarde, através do envio de esperados sinais.
E assim, séculos depois dos primeiros lançamentos de semeadoras ao espaço, já por volta do ano de 3.600, o Sol se transformaria numa nova, de dimensão suficiente para engolir a Terra com suas chamas alongadas. Antes disso, a humanidade já teria que ter deixado o ameaçado planeta, se quisesse sobreviver como espécie.
Da Terra para Thalassa
Para tanto, uma imensa espaçonave seria criada e denominada “Magalhães”. Esta verdadeira arca de Noé sideral atravessaria anos-luz pelo vácuo congelado, levando em seu ventre, os últimos remanescentes vivos da Terra, em busca de um planeta capaz de abrigá-los. Desta maneira, mais de um milhão de seres humanos em estado de hibernação embarcaram na astronave Magalhães e se encontravam à espera de uma chegada feliz a um mundo similar ao seu - que deixa de existir alguns anos depois de sua partida.
Ao longo da extensa viagem, a imensa espaçonave adquirira uma crosta de gelo ao seu redor, dando-lhe a aparência de um reluzente cristal cósmico. Magalhães fora programada para chegar à Thalassa, um dos planetas semelhantes à Terra que recebera os semeadores terrestres. Thalassa possuía atmosfera similar a terrestre, era quase todo coberto por mares e em sua órbita havia duas luas.
Aquela terra distante abrigava uma civilização nascida a partir do envio de material genético terrestre, a qual conseguiu florescer, mantendo consciência total de suas raízes. Se geneticamente os lasseanos e os terrestres trariam muitas características comuns, em termos de caráter e comportamento, o povo dessa terra distante herdou alguns aspectos acentuadamente distintos dos terrestres – reservadas inevitáveis similaridades.
A introdução de “As Canções da Terra Distante” descreve Thalassa com “apenas algumas ilhas espalhadas num planeta selvagem oceânico, Thalassa era um verdadeiro paraíso. Feliz e tranqüilo, o povo de Thalassa deleitava-se em viver bem no seu belo e abastado mundo. Envolvidos pelos encantos e recursos do planeta, aqueles colonos não suspeitavam do colossal evento que repentinamente tomaria lugar sobre seus mares. O idílio de Thalassa seria rompido em breve com o aparecimento de Magalhães em sita órbita”.
Os invasores humanos
Com a notável chegada de Magalhães à sua órbita planetária, os nativos lasseanos estariam inseridos, então, na condição em que os terrestres se encontram dentro do enredo de “Distrito 9”: a receber em seu mundo, diversos seres “sem lar”, verdadeiros invasores vindos do espaço. Tal encontro entre distintas civilizações cósmicas poderia causar (assim como sugere “Distrito 9”) choques culturais, psíquicos e sociais, de maneira irreversível e sem precedentes, sobretudo, aos receptores.
Ao longo de mais de cinco décadas, a ficção apresentou consagrados enredos onde criaturas vindas de outros planetas figuram como invasoras da Terra. No entanto, em pouquíssimas oportunidades, os seres humanos foram enfocados a partir da perspectiva de vilões nessas histórias. Sempre soou incomum nossa espécie figurar como invasora espacial, ainda que tivéssemos boas razões para tanto. E nessa obra de Clarke, temos justamente a oportunidade de refletir sobre isso; de o homem se tornar o invasor do espaço alheio, embora movido por sórdida motivação.
Científica e inevitavelmente, um dia o planeta Terra falecerá como ambiente catalisador da vida que o foi durante as longas noites dos milênios. E Clarke sugere que, apesar disso, se estiver atentamente programado desde séculos antes, o homem poderá triunfar ao tomar rumo definitivo ao espaço. Queiram ou não, em questão de tempo, surgirá a hora certa de abandonar seu doce planeta para se submeter à opressora condição em que tanto nossa humanidade descreveu em suas obras ficcionistas: a de temíveis alienígenas invasores, sempre dispostos a deturpar a cultura, a perturbar a rotina, usurpar a tranquilidade e a retirar a paz de povos que, também em processo de evolução, já lutam contra as suas próprias intempéries naturais.
Ainda da introdução do livro, uma incógnita fica no ar: “A chegada de Magalhães a Thalassa fatalmente abalaria a calma e segurança dos nativos: a astronave estaria só fazendo uma escala em sua jornada para uma estrela mais distante, como alegou a tripulação, ou a intenção era ficar e estabelecer os passageiros naquele cenário divino?”.
“As Canções da Terra Distante”, de Clarke, além de nos levar a refletir sobre nossa condição como invasores planetários, sugere ainda a existência de vida inteligente fora da Terra, mesmo que ela tenha sido semeada, bem antes, por nós próprios.
As canções da Terra Distante NOTA DO AUTOR
As canções da Terra Distante Editora Nova Fronteira - Brasil.
Este romance baseia-se numa ideia que desenvolvi há quase trinta anos, num conto do mesmo nome (agora incluído na coletânea O outro lado do céu). Entretanto, a presente versão foi direta - e negativamente - inspirada pelo recente surto de space-operas nas telas de televisão e do cinema. (Pergunta: qual é o oposto de inspiração - expiração?).
Por favor, não me interpretem mal: apreciei enormemente o melhor da série “Jornada nas Estrelas” e dos épicos de Spielberg/Lucas, para mencionar apenas os exemplos mais famosos do gênero. Entretanto, estes são trabalhos de fantasia, não de ficção científica no sentido estrito do termo. Atualmente, é quase certo que no universo real nunca venhamos a ultrapassar a velocidade da luz. Assim, mesmo os sistemas estelares mais próximos estarão sempre a décadas ou séculos de distância. Nenhuma Dobra Fator Seis poderá levar-nos de um episódio a outro a tempo do capítulo da próxima semana. O grande Produtor no céu não estruturou a sua programação desse modo.
Na última década aconteceu também uma mudança significativa e um tanto surpreendente na atitude dos cientistas com relação ao problema da Inteligência Extraterrestre. O assunto só se tornou sério (exceto entre personagens duvidosos, como autores de ficção científica) a partir da década de 60: a publicação de A vida inteligente no universo de Shklovskiy e Sagan (1966) foi um marco.
Mas agora houve um recuo: o fracasso da tentativa de encontrar algum vestígio de vida neste Sistema Solar, ou de captar os sinais de rádio interestelares que nossas grandes antenas deveriam detectar facilmente, levou alguns cientistas a argumentarem que "talvez estejamos sozinhos no Universo...". O Dr. Frank Tipler, o mais conhecido defensor desse ponto de vista, irritou (propositadamente, sem dúvida) os saganitas, dando a um de seus trabalhos o título provocador de "Não existem extraterrestres inteligentes". Carl Sagan e outros (e eu concordo com eles) argumentam, por seu lado, que ainda é muito cedo para se chegar a conclusões tão amplas.
Enquanto isso, a controvérsia se intensifica, costuma-se dizer que qualquer uma das respostas será espantosa. A questão só pode ser decidida com provas concretas e não pela lógica, por mais plausível que seja. Eu preferiria ver esse debate tolerantemente esquecido por uma década ou duas, enquanto os radioastrônomos, como garimpeiros bateando na beira de um riacho, peneiram com calma as torrentes de ruído que se derramam do céu.
Este romance é, entre outras coisas, minha tentativa de criar uma obra de ficção inteiramente realista sobre o tema interestelar. Exatamente como em “Prelúdio para o espaço” (1951), eu usava a tecnologia conhecida ou previsível para descrever a primeira viagem da humanidade além da Terra. Não há nada neste livro que desafie ou negue os princípios conhecidos, a única extrapolação realmente extravagante é a "propulsão quântica" e mesmo esta tem uma origem bastante respeitável. Se ela se revelar uma ideia impraticável, existem várias alternativas possíveis. E se nós, os primitivos do século XX podemos imaginar isso, então a ciência do futuro descobrirá, sem dúvida, alguma coisa muito melhor.
Arthur C. Clarke - Colombo, Sri Lanka, 03 de julho de 1985.
* Pepe Chaves é editor do diário digital Via Fanzine e da rede VF.
- Nota: Com trechos de “As Canções da Terra Distante” (The Songs of the Distant Earth), Editora Nova Fronteira, tradução de Jorge Luiz Calife. À venda nas melhores livrarias e lojas virtuais da internet.
- Imagens: www.sciencedaily.com / arquivo VF.
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