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Página de Marcelo Sguassábia em Via Fanzine

 

Todos os textos:

Por Marcelo Sguassábia*

De Campinas-SP

Para Via Fanzine

 

Clique aqui para acessar o arquivo de Marcelo Sguassábia

 

 

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário e colunista de diversos jornais e revistas eletrônicas.

É colaborador de Via Fanzine.

   Seu blog: Consoantes reticentes. E-mail: msguassabia@yahoo.com.br.

 

 

Christmas Evening

 

Certa vez, em tempos aqueles, os dias quase sempre azuis se perfilavam sem noção de que eram a paz da vida acontecendo. Por essa época ela cantava no coral e era comum ver gente com frasqueiras e sobretudos pelo boulevard, vivendo rotinas sem sustos em casas sem adornos, muitos com fones de ouvidos a ilhá-los do universo e cercanias. Já ela ia assobiando a ária que iria cantar na confraternização da associação de bairro. “Maldito Handel, não pensou em mim”, matutava entre uma e outra colcheia escorregadia, aguda além da conta. Talvez tenha feito de propósito, e ela imaginava um caricato Handel profético, compondo com a intenção de maltratar as frágeis gargantinhas do século 21. Aguarda o sinal abrir, o pezinho marca o compasso. Uma rajada de vento, ajeita o cachecol no pescoço chupado na véspera. Era um cavalo confinado, o sujeito. Chegou relinchando desejo e desembestou-se por cima rasgando roupa e lençóis, sem maiores cerimônias. Não queria. Não ontem, quando uma fanfarra desafinada cismou de ensaiar o dia todo no fundo da sua cachola. Dá mais uma volta de cachecol em torno do pescoço. Embora um resfriado agora fosse tudo de bom, desculpa perfeita para faltar ao recital e se meter de vez embaixo das cobertas. Pausa para se pôr nos eixos, degolar mentalmente o cavalo e dar a Handel a merecida banana - a que ninguém ousaria dar ao gênio dos Oratórios. Happy Christmas, mundo. Passe muito bem sem mim.

 

*  * *

 

Agora é hora, ôe!

 

Quem poderia imaginar que, a essa altura da vida, o “Perde Tudo” do “Roda a Roda” ia cair como uma bigorna de desenho animado em cima de mim, este pobre servo de Davi? Má ôe, presente de 80 anos, é pegadinha? Heim???

 

Não dobro a espinha, um judeu da minha ascendência jamais será um decaído sem salvação. Recomeço do nada. Do nada uma ova, tiro proveito da fama que fiz. Volto pra minha banca de capinhas de título de eleitor e de canetas de tinta aguada. Tirava mais dinheiro sozinho que todos os camelôs da Praça da República juntos, apregoando em uníssono canetas muito melhores que as minhas. Pronto, ganho um monte de dinheiro pra mim mas resisto à tentação de ficar abrindo empresas com o tanto que me sobrar. Quando muito abro um novo Baú, mas antes invento outro recipiente. Mais moderno e cibernético. Tem gente que nem sabe mais o que é baú, isso é coisa onde se guardava enxoval de sinhazinha. Acorda, Senor. São novos tempos, funde uma seita, venda a salvação eterna ao invés de carros, lambretas, capas de botijão de gás e bonecas falantes em sorteios semanais – se o freguês estiver rigorosamente em dia com as mensalidades. Venda o que lhe cair às mãos, venda o glacê do bolo e as 80 velinhas como relíquias da grande festa via satélite. Anuncie um striptease seu, a começar pela peruca, no horário mais nobre do SBT e comercialize as cotas de patrocínio a peso de ouro. Pois barras de ouro valem mais do que dinheiro.

 

Não, não. Esquece. Me aposento de vez e deixo o Portiolli no meu lugar, só fico lá em casa mexendo na grade. Mas grade pra mexer em casa só se for a do canil do cachorro, já que a TV está praticamente vendida. A emissora e os aparelhos que tenho na mansão do Morumbi, incluindo a 14 polegadas do quarto da empregada. Preciso fazer dinheiro rápido, ôe. Só espero que o bispo mantenha a oferta e assine o contrato da joint venture para implantar no Mercosul a Igreja do Santo Silvio. Eu entro com a imagem e ele com todo o escopo logístico e de fomento às franquias. Batismos por atacado em piscininhas de lona, dízimos que retornam em mercadorias à sua escolha e títulos de capetalizalização comercializados nos cultos espalhados a cada oito quarteirões. Mas olha eu aí divagando e deixando pra lá a banca das canetinhas. Marrrr volta lá pro seu lugar, Silvio, sai pra lá, sai pra lá, ôe. Foi desse jeito, criando holdings de mil braços, que você se enfiou em camisa de onze varas.

 

Senor, o que é isso, Senor, você pode mais. Você opera milagres, é a própria porta da esperança. Um extenso portfólio de produtos para meus telespectadores e colegas de trabalho. Gotículas de saliva silviosantescas para cura de gagos. Bolsos de ternos que guardavam os aviõezinhos para o auditório, vendidos no Mercado Livre como se fossem indulgências da Inquisição. Kits do Pequeno Silvio Santos para o Dia das Crianças. Autógrafos originais, com firma reconhecida em cartório, cuja concessão é do meu genro, casado com a minha filha número quatro. Chats pagos pra falar comigo a qualquer hora do dia ou da noite. Travesseiros e almofadas com a minha estampa, bonecos de pancada para academias de boxe, para quem não é lá muito afeito à minha pessoa. Silvio, agora para. Para ou continua? Heiiiiiimmmmmm??? Má ôe! Ai, ai, ai, viu.

*  *  *

 

Papai Noel é turco

 

Nada contra os turcos e sua milenar fama, talvez infundada, de muquiranice. Tenho alguns amigos turcos, amizades que perduram por toda uma vida sem exigir nada em troca (o que não é muito comum entre os turcos, dirão os maledicentes de plantão). Mas o fato é que, segundo fontes de reconhecida credibilidade, Papai Noel, ou São Nicolau, nasceu na Turquia – mais exatamente na cidade de Petara, na segunda metade do século III. E isso explica muita coisa. Ou melhor, a falta de muita coisa.

 

. Primeiramente, elucida a triste estatística de que 83,4% da raça humana não recebe um chaveirinho que seja como presente de Natal. De onde se conclui que o tão propalado espírito de fraternidade reinante em cada esquina desmorona-se quando é imperativo meter a mão no bolso. E bolso é algo que não existe nas acetinadas calças rubras de Noel.

 

. Justifica-se, também, a alocação intensiva de mão de obra chinesa na confecção da quase totalidade dos presentes trocados no planeta durante as festas de fim de ano, incluídas aí as confraternizações de amigo secreto.

 

. Ao entrar silenciosamente pela chaminé e a altas horas da noite, o velhote evita que alguém da casa acorde, abra os embrulhos e encha sua cara gorda de sopapos em razão da quase sempre péssima qualidade dos presentes.

 

. Sua imensa e anti-higiênica barba é fruto de economia igualmente porca: é que o bom velhinho não quer morrer com uns trocados na compra de apetrechos de barbear, mesmo que sejam aqueles de marca própria vendidos nos hipermercados.

 

. Repare que ele traja invariavelmente a mesma indumentária. Os mais aguerridos aos rituais natalinos poderão argumentar dizendo tratar-se de tradição. Na verdade ele só tem aquela roupa mesmo, sendo que a dita cuja envelopa sua carcaça gordurenta desde mil setecentos e qualquer coisa.

 

. Suas renas voam porque foram forçadas a desenvolver a capacidade de levitação, já que não são alimentadas pelo dono sovina e não aguentariam nem meio quilômetro de galope.

 

. Por mais que o tempo passe, a única forma de se comunicar com o ilustríssimo turco é através das famigeradas cartinhas. Isso porque nosso anacrônico herói se recusa a adquirir um computador, ainda que de segunda mão, e consequentemente também não possui uma conta, ainda que gratuita, de email.

 

. É de sua autoria a versão alternativa da letra de Jingle Bells, cantada até hoje a plenos pulmões pela gurizada: “Jingle bells, jingle bells, acabou o papel... não faz mal, não faz mal, limpa com jornal”. É claro que, partindo de Noel, não poderíamos esperar coisa mais aproveitável em termos lítero-musicais.

 

. Alguém que nasce na Turquia e muda-se para o Polo Norte é alguém que, no mínimo, merece a desconfiança da Interpol. Quais motivos estariam por trás de mudança tão radical de endereço? Notório inadimplente e toureador de credores, Papai Noel encontrou na ausência de constituição, de tribunais de justiça e de presídios da calota polar o esconderijo perfeito. Ali montou seu QG, onde maneja suas falcatruas sob diferentes nomes, dentre eles Santa Claus, Père Noël, Viejito Pascuero e Babbo Natale. Se tiver qualquer pista sobre o seu paradeiro, ligue para o distrito policial mais próximo. Você não precisa se identificar para formalizar a denúncia.

 

*  *  *

 

Da série 'Agendas Ocultas'

 

Agenda de Pôncio Pilatos, de 24 a 28 de Abril, 33 D.C.

 

Segunda-Feira, 24 de Abril

- Mania de lavar as mãos está ficando crônica. Marcar consulta com especialista em Roma.

- Lifebuoy em oferta na Droga Jerusalém, comprar 6 fardos de 20 unidades. Trazer também buchas vegetais.

- Barrabás! Acabou a água justo na hora em que esfregava a palma da mão esquerda para o jantar em homenagem a Calígula.

 

Terça-Feira, 25 de Abril

- Biga governamental pingando óleo – mandar para a oficina urgente. Aflição só de pensar naquele óleo respingando na minha túnica.

- Três condenados para sexta-feira. Ninguém merece, preciso dividir essa cruz com alguém.

 

Quarta-Feira, 26 de Abril

- Nazareno que diz que é filho de Deus – levantar ficha.

- Dossiê JC na mão. Analisar minuciosamente, investigar relato da ressurreição de Lázaro e caminhada sobre as águas.

- Comprar mais Lifebuoy. Se não tiver, trazer Lux. Do maior, de 90 gramas.

 

Quinta-Feira, 27 de Abril

- Jogo de toalhas Banhão, bem felpudas, oferta no shoptime. Comprar com cartão de crédito oficial.

- Biga voltou da oficina, mas continua pingando óleo. Mandar esfregar o chão empoçado com Omo, no mínimo de hora em hora.

 

Sexta-Feira, 28 de Abril

- Legião de seguidores de JC pressionando a opinião pública e fazendo novos adeptos. Não tomar partido, ficar neutro na parada.

- Controlar o TOC de lavar as mãos, pelo menos na frente do povaréu.

- Confirmar presença amanhã no Baile da Aleluia.

 

Agenda de Judas Iscariotes, de 24 a 28 de Abril, 33 D.C.

 

Segunda-Feira, 24 de Abril

- Aluguel de casa vai subir, recebi hoje o papiro com a notificação. Desse jeito vou ter que me mudar pra periferia de Samaria ou de Cafarnaum.

 

Terça-Feira, 25 de Abril

- Alternativas de reforço de caixa.

- Ver com o mestre se não dá para providenciar uma multiplicação de moedas.

 

Quarta-Feira, 26 de Abril

- Descobrir onde é o Jardim das Oliveiras. Pedir emprestado o GPS do Pedrão. Aproveitar e perguntar pra ele qual a previsão do tempo pra amanhã.

- Tentar negociar um pouco mais de 30 dinheiros pra fazer o serviço. Vou chorar as pitangas, ou melhor, as azeitonas. Não consigo acertar a vida com essa merreca.

- Contar pra eles a história do reajuste do aluguel.

 

Quinta-Feira, 27 de Abril

- Combinar direito com os guardas qual o sinal ou a senha para saberem que JC é JC.

- À noite, na janta, JC descobriu tudo. Não sei como. Disse que era pra fazer o que tinha que fazer. Agora não tem mais volta.

 

Sexta-Feira, 28 de Abril

- Amanhã certamente o mundo todo estará me malhando. Mereço uma segunda chance, quero explicar minhas razões.

- Planejar rota de fuga, urgente.

- Tomar cuidado para não perder as botas.

 

*  *  *

 

Um banquinho, um violão

 

- O pato...

- Seu João, o senhor tá cantando muito baixinho. A gente quase que nem escuta o que diz a letra da música.

- Vinha cantando alegremente, quem-quem...

- Posso fazer pro senhor um caldo forte de gengibre, canela, vinagre e limão. Não me custa nada, é tiro e queda pra deixar a garganta zero bala. Tem que cantar alto, que nem o seu xará João Mineiro, aquele que faz dupla com o Marciano.

- Quando o marreco sorridente pediu...

- Mas que coisa esquisita, parece que canta pra dentro. Enche o peito e solta o vozeirão, homem. Fica nesse nhem-nhem-nhem.

- Olha, se você não ficar quieta eu pego o violão e vou-me embora.

- Mas o senhor tá na sua casa, Seu João. Se alguém tem que ir embora sou eu, que comecei agora de arrumadeira aqui.

- Oi. Alô, é João. Tudo bem? Melhor cancelar o show no Carnegie Hall, não estou conseguindo ensaiar.

- (...)

- Não, não é barulho nem fumaça de cigarro. Também não é ácaro no tapete. É uma arrumadeira que me apareceu aqui, a mulher me desconcentra...

- (...)

- Tudo bem, vou tentar de novo. Mas já vai arrumando aí uma desculpa pro cancelamento.

- Se você disser que eu desafino, amor...

- Diz que o senhor é cantor, né. O porteiro que falou. Mas eu não lembro do senhor nem no “Raul Gil” e nem no “Ídolos”. Senhor fica assim de terno dentro de casa o dia todo, é? Ficava melhor com uns blazer listado, a camisa meio aberta assim no peito e um correntão de ouro saindo pra fora, aí sim ficava com o look nos trinques. O doutor não ia nem parar em casa, de tanto show que ia aparecer. Feira agropecuária, quermesse, comício...

- Saiba que isso em mim provoca imensa dor...

- Seu João, desculpa interromper, mas o senhor podia me emprestar o banquinho pra eu tirar o pó de cima do armário? É só um instantinho, já devolvo já.

- Pois há menos peixinhos a nadar no mar...

- Seu Gilberto, o senhor se incomoda de levantar um pouco os pé do tapete pra eu poder limpar?

- Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim...

- Alô, Bebel, essa arrumadeira... foi Miúcha que indicou, é? Pois eu digo que sua mãe guardou mágoa de mim, hein, filha? Mais quinze minutos aqui com essa mulher e eu abandono a vida artística.

(...)

- Tá, um beijo pra você também.

- Olha, minha senhora, vamos combinar uma coisa. Eu dou agora o seu dinheiro, leva também um autógrafo meu e trata de pegar logo o rumo da sua maloca. Não precisa terminar o serviço. Tá bem assim?

- E eu vou fazer o que com o seu autógrafo? Eu nunca que vi o senhor, ainda se fosse do grupo Molejo, vá lá. O senhor tá se achando. Cresce e aparece, velho metido.

- Nem se aproxime com esta cera! Não tem que passar cera no assoalho, não. O surfactante aniônico da fórmula me aniquila o Lá Bemol e já me deixou afônico duas horas antes de um show no Budokan, em Tóquio. A alcanolamida, que é outra substância que exala da cera, fica em suspensão no ar e interfere na afinação do violão. Não há pai de santo baiano que segure o instrumento afinado. A senhora se afaste, antes que eu lavre um BO contra a sua pessoa.

- Bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim-bim... é só isso o meu baião, e não tem mais nada não...bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim...

- Pois é, ainda bem que o senhor avisa que não vai sair disso mesmo, né? Bim-bom, bim-bom, bim, bim, bim, podia ter uma segunda parte pra mudar um pouco essa lenga-lenga. Ô coisa chata, seu Giba.

- Giba é o diabo que te carregue. Some daqui, Dona.

- Dona Esmeraldina, sua criada. O senhor é que é muito do malcriado, Seu João. Quer dizer, Seu Gilberto.

- Tristeza não tem fim, felicidade sim... Tristeza não tem fim...

 

Táxi, Táxi

 

- Pra onde?

- Pro inferno. Vai pro inferno, meu camarada. Toca em frente, infeliz, no caminho a gente resolve.

- Olha, seria bacana o senhor me tratar com um pouco mais de finesse, caso contrário eu deixo vocês aqui mesmo. Quero ver os dois peladões, a polícia chegando e levando o casalzinho meigo pro distrito por atentado ao pudor. Aliás, o que é que vocês estavam fazendo assim, nuzinhos, em plena Consolação chamando táxi?

- Você se lembra se a maçã era fuji, argentina ou gala, amor?

- Se você que pegou a maçã não sabe, eu é que vou saber? Mulher se liga em cada detalhe, que diferença isso faz agora? Vai se queixar pro Ceagesp ou pro Ceasa? Agora é tarde, minha nega. Já estamos expulsos mesmo.

- Mas o que aconteceu, meu Deus do céu?

- Pois foi o Deus do céu, foi esse mesmo, moço. Acabamos de cair fora do paraíso, ordem de despejo.

- Sei, mas foram expulsos do bairro ou da estação do metrô?

- Não, do paraíso mesmo, meu amigo. Imagina só, a única coisa que o Homão barbudo pediu era pra gente ficar longe daquela maldita árvore. Mas sabe como é mulher, né? Podia ter pego uma jaca, um maracujá, uma meia dúzia de limas da pérsia, chafurdado a fuça numa melancia, sei lá, qualquer coisa daquele pomar lindo, menos a maçã. Ela devia ser expulsa sozinha, a culpa foi dela, caramba.

- Tá bom, e a mordida que você deu? Devia ter recusado quando te ofereci. Aquela serpente era uma víbora, enganou a gente direitinho.

- Agora quero ver o que a gente faz da vida. Você, nuazinha e inteiraça desse jeito, não demora e arruma um dinheiro fácil. Mas e eu, que não sou nenhum Adônis? Como é que eu fico?

- Adônis? Quem é Adônis, Adãozinho?

- Olha, em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, e eu sou só um taxista querendo ganhar a vida honestamente, mas pelo jeito vocês são Adão e Eva. Portanto viveram muito antes desse mitológico rapaz grego, um modelão de beleza – se é que ele existiu de verdade. A Dona Eva tá certa, não tem como vocês terem conhecido ele, não. Aliás, ele é descendente de vocês. E eu também, diga-se de passagem. Somos todos filhos de Caim com não sei quem.

- Moço, explica melhor essa história. Agora bagunçou minha cabeça. Caim é o nosso filhinho!

- É o seguinte: segundo a Bíblia, que começa contando a história de vocês, seu filho Caim matou seu outro filho, o Abel. Sujeito cem por cento, maior ficha limpa. E pra humanidade ter continuado o Caim precisava ter tido uma mulher, que até onde eu sei não consta do Livro Sagrado. A menos que vocês dois tivessem aumentado a prole fora do Jardim do Éden, fato que a Escritura também não deixou claro.

- Aumentado a prole? Acho que não vai ter clima...

- Também acho. A base do casamento é a confiança, e você traiu a minha e a do Criador.

- Dá licença aí, desculpa interromper a troca de gentilezas, mas vou aproveitar que o sinal fechou pra deixar vocês por aqui, viu. Pelado não tem bolso, e onde é que tá a grana da corrida? Alguém pode me mostrar? E já vou avisando que não aceito maçã como pagamento. Ainda mais essa maçã amaldiçoada aí que vocês pegaram.

- Mais respeito, seu taxista. Mais respeito. Não se esqueça que eu sou seu avô, avô distante mas sou.

- Mas avô que se preza não sacaneia o neto.

- Ora, vamos. Seja um netinho obediente. Vou começar a espalhar meu currículo, logo consigo uma colocação e pago o que lhe devo.

- Sei, sei. Se você conseguiu ser expulso do paraíso, imagina de uma empresa...

- Mas já falei, a culpa foi da sua avó!

- Pra fora os dois. Já!

- Neto ingrato. Mas deixa estar. Deus é pai. O Homão barbudo há de fazer justiça.

- Essa é boa, Eva e Adão...

- Repete o que você disse! Repete, seu boca suja!!

 

Lacuna

 

Ficou o lugar vazio acumulando pó, sem um átomo de gente que lhe tomasse assento, me sondando enquanto sondo nele o homem que ali firmou posse, de coroa e cetro, espaçoso como só. O lugar do faltante por direito, sempre dele, cadeira vitalícia que a ninguém é dado herdar. Assim está e ficará ao capricho e ao apetite dos cupins, no mesmo estado em que a deixou. Mourão de cerca socado fundo entre as dobras dos miolos, é bem na horinha da Ave-Maria que escuto o arrastar dos seus chinelos e farejo sua lavanda de após banho, tão sua e dos dias todos que meiamos, criador e criatura. Acordo com o ausente me chamando, raro é quando não sucede desse jeito. E são manhãs cinzas e mudas, que para falar a verdade nem careciam amanhecer mais depois do sucedido.

 

*  *  *

 

Efeito borboleta

 

À exceção do Silvio Santos, que ao que tudo indica nunca assistiu a filme algum, o mais provável é que todos já tenham visto este arrasa-quarteirão, que tem como argumento o fato de que o bater de asas de uma borboleta na favela da Rocinha pode provocar um tufão nas Ilhas Galápagos. Ou seja, amarrar primeiro o cadarço do sapato esquerdo e não do direito, como de costume, pode afetar o desenrolar da história em seus acontecimentos cruciais. É o que também chamam de “Teoria do Caos”, febrilmente estudada e nunca suficientemente compreendida. Pois eu, que tudo presenciei naquela ocasião, pude comprovar na prática o cinematográfico postulado. Não com uma borboleta, mas com um punhado de fubá. E posso dizer, por experiência própria, que o mundo tal qual o conhecemos hoje assim não seria não fosse o fubá nosso de cada dia. Uns oitocentos gramas, se tanto, de prosaico e inocente fubazinho ralo e sem marca.

 

Começou com o milho sendo pilado, na palhoça de colono. Uns grãozinhos maiores no fundo do pilão, ao irem para a sopa, provocaram o engasgo da velha Totonha, que do alto dos seus 103 e já sem forças para clamar por auxílio, veio a óbito solitária e candidamente por asfixia. Não tivesse sido a quirera infortunadamente ingerida, o camburão da funerária não teria passado pela ponte onde, naquele exato instante, um boi cochilava tomando dois terços do leito carroçável. Ao desviar subitamente o veículo, motorista, maquiador de cadáveres e médico legista foram lançados ao ribeirão. Mirinho, filho de Demázio, mais conhecido como Jorjão, tentou puxar o médico legista com um cabo de enxada que jogou na água. Mas acabou caindo também no ribeirão, indo conhecer Nossa Senhora mais cedo em lugar dos outros três, que se safaram não se sabe como.

 

Três meses depois, quis o destino, em seus insondáveis caprichos, que um balão junino caísse nas proximidades da hemeroteca da escola recém-inaugurada com o nome de Mirinho – alçado ao posto de herói municipal por seu azarado gesto de bravura. O foco de fogo alastrou-se para o prédio da câmara de vereadores e consumiu em segundos toda a documentação relativa à chamada “CPI da Biribinha”, que investigava a compra sem concorrência pública de estalos de salão para a Festa de São João organizada pela prefeitura. A literal queima de arquivo despertou o interesse da grande mídia, que para aquele fim de mundo enviou levas e mais levas de repórteres e cinegrafistas a fim de apurar o que se passava. Bastaram cinco dias na cidade para que a imprensa descobrisse que o episódio dos traques superfaturados era só a ponta do iceberg. A partir de denúncias anônimas, a Guarda Municipal local, em conjunto com a Interpol, encontrou no fundo de uma gruta nada menos de 208.880 troncos de pau de sebo sem nota fiscal, já devidamente ensebados e prontos para embarque no Porto de Paranaguá.

 

O assessor do sub-chefe de gabinete do Ministério da Defesa, refestelado em sua poltrona do papai, acompanhava apreensivo o rumo dos acontecimentos pelo noticiário da TV. Ele, que recentemente teve uma avó paterna vítima de engasgo aos 103, por conta de sopa preparada com fubá mal moído.

 

*  *  *

 

Piadabras

 

Piada, anedota ou patacoada, como diziam os mais antigos. Chame como quiser. O que importa é que todos saibam que as piadas não nascem do nada, sem pai nem mãe. Elas existem com o propósito definido de anestesiar o populacho e há uma superestrutura que as orquestra, diretamente subordinada aos altos escalões da administração pública federal. Uma espécie de serviço de inteligência, com a diferença de que não há realização de concurso para provimento de cargos, sendo seus integrantes contratados com base nos critérios de notória competência e especialização. Digo isto de cátedra, pois sou parte desta indústria. Desta desconhecida e desvalorizada indústria. Sim, amigos, as piadas têm autores e os autores têm cotas de novas piadas a conceber, da mesma forma que os boias-frias têm suas cotas diárias de cana para cortar.

 

Não estou autorizado a revelar a localização geográfica da nossa organização. Posso afirmar apenas que ela funciona nas antigas dependências de uma desativada autarquia nos arredores de Macapá, bastante utilizada para a tortura de subversivos nos tempos da ditadura militar. São sete pavimentos que funcionam em três turnos, servidos por elevadores de última geração, ar condicionado central, serviço de buffet e assim divididos:

 

1º andar: Piada de salão;

2º andar: Piada suja;

3º andar: Piada de papagaio;

4º andar: Piada de humor negro;

5º andar: Piadas de português, de turco, de sogra e de loira;

6º andar: Adivinhas, do tipo o que é o que é. De 1982 a 1995 tínhamos dentro deste pavimento o setor “Qual o nome do filme?”, mas a partir de 1996 a fórmula se desgastou e a subdivisão foi extinta.

7º andar: Setor de Reciclagem – piadas velhas são recolhidas, reformadas com outra roupagem e novamente espalhadas. É um valioso dispositivo em tempos de entressafra, quando há escassez de fatos engraçados que inspirem a renovação do anedotário.

 

Engendrada a anedota, o piadista aciona um botão verde ao lado do seu monitor. Em não mais de 40 segundos aparece, movido a patins, um carrancudo do setor de Controle de Qualidade, para aferir se a piada tem ou não o nível mínimo de graça para que se espalhe. Os carrancudos são em geral pessoas nas quais o riso dificilmente aflora – como mutilados de guerra, deprimidos, pacientes bipolares, torcedores do América e gente oriunda de outras categorias de infelizes. Um risinho de canto de boca dessa turma já garante a passagem da piada para as duas próximas etapas de produção: o burilamento e a redação final.

 

Até há pouco tempo dispúnhamos um número quatro vezes maior de contadores, funcionários que saem às ruas para espalhar as piadas recém-paridas, infiltrando-se em rodas de bar, quadras de bocha, cafés, clubes da terceira idade e outros pontos estratégicos de propagação. Com a internet o processo mudou bastante, pois temos bancos de dados gigantescos contendo milhões de mailings com bilhões de nomes, o que faz com que a piada se propague pelo planeta em dez minutos ou menos – dependendo da graça, do arsenal de anti-spams dos destinatários e das mensagens de caixa postal cheia.

 

Ao contrário do que se poderia supor, nossa rotina não tem nada de engraçada. Ganhamos mal, mas em compensação não nos divertimos nem um pouco. Pegue uma piada clássica, como aquela do avião caindo com um brasileiro, um americano, um francês, um italiano e um português, na qual o lusitano salta com um frasco de “Para Queda de Cabelos”. Uma joia desse quilate é resultado de elaboração minuciosa, onde se promovem brainstorms que reúnem até altas horas três, quatro ou até mais piadistas, em mesa redonda e servidos por porções de mandioca frita e doses cavalares de conhaque. Tal rotina, dia após dia, desgasta, adoece e afasta por invalidez. Mas não há outra alternativa.Há décadas que a sociedade não gera por si mesma quantidade suficiente de piadas, por falta de tempo e inspiração. E o baixo estoque delas é, para o sistema público de saúde, um problema tão grave quanto o déficit de sangue nos hospitais.

 

Recentemente foi descoberta uma fraude na liberação de um lote de novas piadas, que estavam prontas para serem espalhadas porém ainda não tinham passado pelo Controle de Qualidade. Um grupo de piadistas inescrupulosos rendeu à força o bipolar de plantão, responsável pelo OK final, e enquanto um dos criadores lia para ele as piadas os demais faziam cócegas em suas axilas e pés para forçar o riso. O escândalo, no entanto, foi abafado e os envolvidos julgados por tribunal interno, que decidiu pelo afastamento temporário de dois deles: o que manipulava a pena de ganso na axila esquerda da vítima e o que contava, com requintes de crueldade, as piadas em alto e bom som.

 

*  *  *

Festa de integração criança-empresa

 

De: Diretoria de Recursos Humanos

Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais

 

Ref: Festa de Integração Criança-Empresa

 

Senhores,

Com relação ao assunto supra-citado, é imperioso frisar que temos apenas 3 meses e 22 dias para definirmos um plano estratégico de ações. Pela complexidade do tema, estamos correndo contra o tempo. Sugiro uma reunião de nossas diretorias para que possamos estabelecer metas conjuntas e criarmos uma comissão executiva, cuja incumbência envolverá os múltiplos aspectos a serem providenciados – do perfil psico-social do homem do algodão doce aos testes de elasticidade e resistência das bexigas.

 

De: Coordenadoria de Assuntos Sociais

Para: Diretoria de Recursos Humanos

 

Perfeitamente, senhor Diretor. Como start do projeto, já temos um croqui enviado por nossa agência de eventos, para ambientação do salão de festas. A nosso ver, é imprescindível uma correção na quantidade de purpurina nas sobrancelhas da Pequena Sereia. No processo licitatório o fornecedor escolhido foi a Purpur-Show, que deverá nos entregar a matéria-prima em tempo hábil para competente aprovação final. Caso contrário chamaremos em caráter de urgência a Mega Brilho Purpurinas – dessa vez sem licitação, por demonstrar notória competência e especialização naquilo que faz. Devo lembrar ao senhor que a Cinderela de isopor da festa de 1997 teve os olhos e o lábio inferior ornados por eles, e até hoje se comenta do furor causado pelo artefato entre os pequenos.

 

De: Diretoria de Recursos Humanos

Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais

 

Tivemos, na confraternização do ano passado, um sem número de reclamações de esposas de colaboradores, argumentando que nos recheios das coxinhas predominava a sobrecoxa, quando historicamente utilizamos o peito desossado. Alguns relatos dão conta de resquícios de moela, o que é ainda mais inadmissível. Fiquem atentos a isso, por obséquio.

 

De: Coordenadoria de Assuntos Sociais

Para: Diretoria de Recursos Humanos

 

Informamos que o responsável pelas coxinhas com frango de segunda está devidamente frito. Ainda para conhecimento dos envolvidos, encaminho a síntese da apresentação em power-point do item 6, sub-item 9, que trata do recheio do bolo.

 

. Primeira camada: leite condensado com ameixa.

. Segunda camada: chantily com morango e cerejas ao licor.

. Terceira camada: massa folhada com creme amarelo do tipo bomba de padaria.

. Quarta camada: a ser definida após consenso entre as nossas diretorias, que nas últimas reuniões vêm divergindo a respeito da matéria. Para que não haja comprometimento do nosso follow-up, uma vez que estamos a apenas 1 mês e 29 dias para o fechamento do escopo estratégico de ações, e em permanecendo o impasse, sugiro que uma instância independente delibere sobre o assunto, sendo sua decisão soberana e irrecorrível.

 

De: Diretoria de Recursos Humanos

Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais

 

Deliberação do dia: garfinhos de madeira de 2 dentes X garfinhos de plástico de 3 dentes.

Fizemos a tomada de preços e constamos que o custo da primeira opção é significativamente menor que o da segunda. Contudo, é forçoso admitir que os garfinhos de dois dentes têm menor desempenho de contenção do bocado alimentar – estudos demonstram que há uma perda de bolo maior no trajeto compreendido entre o pratinho de festa e a boca do conviva. Além do desperdício de bolo em si, teremos ainda um maior acúmulo de resíduos gordurosos no chão, que ocasionarão escorregões e tombos, que significarão fraturas e arranhões, que trarão ônus para o ambulatório da empresa.

 

De: Diretoria de Recursos Humanos

Para: Coordenadoria de assuntos sociais

 

De fato. A Diretoria, com o aval da CIPA, delibera pela compra dos garfinhos de três dentes, do fornecedor Algazarra – Artigos para Festas Ltda. Contudo, há uma pendência a ser equacionada, já elencada na pauta da reunião de quinta próxima: o bexigão-surpresa, cujo estouro e conseqüente avalanche de miudezas infantis é o ponto alto da festa. Urge que a Coordenadoria de Assuntos Sociais saia a campo para uma pesquisa em profundidade junto ao público-alvo para sabermos se adquirimos ou não os mesmos produtos dos anos anteriores e respectivas marcas, a saber: chiclés de bola, balas de goma, cornetinhas, apitos, línguas de sogra, aneizinhos e ioiôs.

 

De: Coordenadoria para assuntos sociais

Para: Diretoria de Recursos Humanos

 

A pesquisa citada em seu último memo já está em andamento. Publicamos também um edital de concorrência para aquisição de talco antialérgico (10 latas de 1kg), a ser acrescentado junto aos demais brinquedinhos no enchimento do citado bexigão, para maior efeito cênico quando do seu estouro. Todos hão de recordar o caso do petiz de tenra idade, que numa das últimas edições da festa quase veio a óbito, por inalar talco não-antialérgico contido no bexigão da época.

 

De: Diretoria de Recursos Humanos

Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais

 

Ótimo, muito bem lembrado. A pró-atividade demonstrada por sua equipe sinaliza preparo para os desafios de um cenário econômico globalizado e de um mercado cada dia mais competitivo. Mas o profissionalismo está nos detalhes, e em dois deles os senhores pecaram:

1.

Há muito tempo as Marias-Moles não estão mais entre os sonhos de consumo de nosso público.

 

2.

Os guarda-chuvinhas de chocolate, marca Ploft, lote 153-06, não atendem às normas de segurança do INMETRO.

 

De: Coordenadoria de Assuntos Sociais

Para: Diretoria de Recursos Humanos

 

Tenham os senhores a certeza de que as mencionadas falhas serão sanadas. A seguir, as sugestões do nosso departamento para os presentes dos guris:

 

Filhos de operários: jogo do mico

Filhos de encarregados: resta-um, pega-vareta e dominó

Filhos de supervisores de produção: dama, xadrez, trilha e ludo

Filhos de chefes: bonecas que falam e carrinhos com rádio-controle

Filhos de gerentes: bicicletas e ursões de pelúcia

Filho do Diretor de Recursos Humanos: Playstation 3

 

De: Diretoria de Recursos Humanos

Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais

 

Ok, aprovado. Podem solicitar os orçamentos para análise do Financeiro. Por último, porém não menos importante: o balão pula-pula. Sugiro que as bolas sejam confeccionadas com as cores do emblema da firma – verde e dourado. O que acham?

 

*  *  *

 

Demorou

 

- Teve uma hora que eu vi o parzinho na íntegra, cara. O vento bateu esquisito, e a blusa dela parecia vela de barco. Quando aconteceu, fez aquele barulhinho de bandeira tremulando. Não tem noção. Foi a cena do bueiro da Marilyn, só que na parte de cima. E eu de cara pregada naquelas duas coisas, iguais e enlouquecedoras.

- E aí?

- Ela viu que eu vi, flagrou o arregalo do olho. Cobriu depressa o patrimônio. Disfarçou, eu não. Uma visão dessa te deixa sem saber o que fazer com as mãos, pra onde correr. Mas correr é a última coisa que passa pela cabeça com aqueles dois olhos de carne te olhando de repente, no susto. Um ar quente e perfumado das lindezinhas guardadas, tesouro abafado posto pra fora. Você não quer que acabe jeito nenhum, quer levar a visão contigo, deixar que te persiga e te incomode. Nunca que a gente acostuma de olhar aquilo sem espanto. O Cara lá em cima inventou esse negócio pra ser mistério mesmo, e pronto.

- Nem. Conta mais aí, reparte direito essa paradinha comigo.

- Foi ir pro céu em dois segundos e voltar, véio. Ninguenzinho, nem de longe, pra cortar o barato. Barulho zero, só umas gaivotas foram chegando ali pelas cinco, quando o sol tava no ensaio e ela já tinha ido embora, me deixando ali largado e pensando no acontecido, daquele jeito de quem quer de novo. A parada foi bem essa. Mingau de sossego e paz, jardim de Alá. Foi por aí, meu. Uma tatoo feita no cérebro.

– Massa... o lance aí te deixou inspiradão, cheio de falar bonito. Quem diria, o rei da biscataiada parado numa mina só.

- Uns gêmeos rosados assim não podem nunca ter câncer, véio. O câncer sonda o material, chapa e desiste de acabar com aquilo. Animal sem pelo, só penugem fêmea e fina, loirinha que nem de neném. A serviço do papai aqui, aquela carninha tenra detona a larica toda que tiver no mundo. Subindo um pouco uma bocaça meio das antigas, batom forte, tipo Rita Hayworth.

- Tô ligado, femme fatale de filme pb. Cara, essa nega desorienta.

- Duas horas com aquilo e eu me acabo. Subo a escadaria da Penha plantando bananeira. E de costas. Fico refém, manda que eu faço.

- Bota meu nome aí, que um filé desse eu não ligo de ficar com o osso, não. A hora que desocupar, me dá um toque.

- Demorou.

 

*  *  *

 

Último movimento

 

I

 

- Dizendo quase nada você entrega o que se passa e não percebe. É impressionante essa sua, digamos, faculdade da transparência.

- O problema é esse. Disfarçar não sei, nem quero. Sou um edifício em construção contínua e onde se vêem todos os andaimes, mal comparando é bem por aí. Quando rio ou choro por dentro é coisa que faço com as mãos, com os pés, com as tripas todas e especialmente com os olhos. Fica muito escrito na cara. Não tenho agenda oculta, meu amigo. Allegro é Allegro, Andante é Andante, Presto é Presto. Tudo o que mais quero agora são menos holofotes, coletivas, autógrafos. Uns dias de folga para tocar o piano de dentro, um mofo bom de estância velha em cama estreita e sem conforto.

 

II

 

- Você sofre com o fato de espalhar brilho por onde anda e a vontade de passar pelo mundo desapercebida. Minueto perdido de Mozart num escombro da Segunda Guerra, no fundo é isso o que você queria ser, uma gema rara mas ao mesmo tempo uma ruína sem chance de descobrimento ou reconstituição. No entanto você existe, foi revelada e está sob uma redoma de relicário há vinte e tantos anos. Não há como voltar atrás nessa aura que acabaram fazendo em torno de você, mesmo contra sua vontade. Você é uma estrela. Assuma o que há de angustiante e de glorioso nisso.

 

III

 

- Eu quero ser o cara que vira a página da partitura, não a diva do piano. O cara que vira a página vive da repetição, eu não posso me repetir. Nem por isso ele passa fome, é bem pago pra ficar virando a página. Satisfaz-se assim e vive no baixo risco, em boa zona de conforto. Ninguém pode condená-lo ou dizer que esteja errado.

- Não é ele, é ela. Usa até trança e é loira, não reparou? E como é imenso o fosso entre a ideia de felicidade dela e a sua. Pergunte a ela se não gostaria de ser você, por meia hora que fosse.

 

IV

 

Chega de calmante, está aumentando a dose e não está se dando conta. Qualquer dia dorme em cima do teclado, no meio do concerto.

- Durmo nada. Calmantes são parecidos com a moça que vira a página, uma rede de segurança. É bom saber que ela está lá, mesmo conhecendo a música de cor. Sem eles eu suaria frio, e as teclas molhadas me fariam errar as notas. Calmantes me põem no piloto automático. Servem de consolo, na falta de cama estreita em estância velha.

- Não é possível que você despreze tanto um dote raro de nascença.

- Artistas de verdade são autodestrutivos, nunca ouviu falar? A música que tenho basta e sobra. E o que sobra eu estou farta em dividir. Cancele a agenda de amanhã ou eu tomo a caixa toda.

 

*  *  *

 

Ata da Assembleia Ordinária

do Edifício Ilha da Gaivota

 

Primeira pauta: Assuntos Gerais.

 

Após os procedimentos iniciais de praxe, e contando com a presença de 39 dos condôminos, o Sr. Rodolfo, do apartamento 41, disse que tinha uma queixa a fazer sobre o comportamento da Dona Maíra, do 42.

 

Segundo ele, ruídos denunciavam práticas diárias de foro íntimo por volta das 21h45, sendo o range-range de sua cama uma afronta aos bons costumes. Indignada, Dona Maíra esclareceu não tratar-se de suposta sem-vergonhice, mas dos exercícios abdominais e de flexão que é obrigada a fazer todas as noites, por indicação médica. E que mesmo que se tratasse da alegada prática, estaria em seu direito e não seria da conta de ninguém o que fizesse ou deixasse de fazer entre as quatro paredes do seu apartamento.

 

Nesse momento, Dr. Élcio, do 74, pediu a palavra dizendo que a falta de isolamento acústico se deve ao fato do prédio ter sido construído com tijolos baianos, motivo pelo qual era capaz de escutar até a reza da Dona Biloca, sua vizinha do 73. Complementou seu aparte afirmando que, quando quer manter intimidade com a esposa, tem de ligar o aparelho de som no último volume para abafar os naturais ruídos da conjunção carnal.

 

Isto posto, foi dada a vez à senhorita Elza, proprietária do apartamento 62, que sugeriu à assembleia a mudança do nome do edifício, já que o mesmo não é uma ilha e muito menos abriga gaivotas. Diante do exposto, o presidente da assembleia interrogou a moradora, dizendo se ela não tinha mais o que fazer, observação que provocou palmas em alguns dos presentes e gargalhadas em outros.

 

Em seguida, o subsíndico introduziu a segunda pauta da reunião: formação de fundo de reserva para a compra de apetrechos natalinos e figuras de presépio para o Natal.

 

Seu Luiz, do 51, 1º Secretário que acumula a função de tesoureiro, apresentou orçamento de três reis magos, mas recomendou a compra de apenas um, por medida de economia. Referiu-se ainda a um Baltazar em oferta num camelô da Rua Duque, e que a compra do mago de biscuit dava direito a um carneirinho de manjedoura grátis. Trêmula e demonstrando não estar de posse de seu juízo perfeito, Dona Geni do 36 foi taxativa ao afirmar que deixaria de pagar o condomínio caso não se adquirisse também uma ou duas vaquinhas malhadas, para fazer companhia ao carneiro junto ao bercinho do Menino-Deus.

 

Após acalorada discussão, a maioria dos presentes decidiu que o fundo de reserva arcaria com um presepinho básico e uma fiada de piscas de 200 lâmpadas para ornar a guarita, o qual seria ligado às 20 horas e desligado às 2 da manhã.

 

Prosseguindo, Dona Carla, moradora do 93, propôs a compra de um novo gira-gira para usufruto do pequeno Rafa, seu filho. Dona Albina, proprietária do 131, disse que “pequeno” era um eufemismo, dada a circunferência avantajada do menino e dos seus 82 quilos capazes de abalar a estrutura de qualquer gira-gira do planeta e arredores, segundo palavras da mesma. O Sr. Eduardo, do 22, argumentou que o gira-gira em questão já era o sexto a ter seu eixo entortado pelo robusto petiz. Ficou decidido solicitar ao Dr. Benício, engenheiro mecânico e morador do 114, um cálculo para determinar a estrutura necessária ao eixo, considerando-se as forças centrífuga e centrípeta versus o peso do garoto.

 

Procedeu-se então à eleição do novo síndico. De imediato o Sr. Waldemar lançou-se candidato à reeleição, argumentando que ao síndico assiste o direito de não pagar a taxa condominial e que, se não permanecesse no cargo, passaria à condição de inadimplente por não ter como honrar a referida taxa, o que seria pior para o condomínio. Assim, todos assentiram que o Sr. Waldemar prossiga em suas funções pelos próximos dois anos.

 

Tomada a deliberação, o Sr. Maurício do 173 cobrou do síndico a prestação de contas referente ao último exercício, ao que o Sr. Waldemar se esquivou, dizendo que precisaria de um apartamento inteiro e vago para guardar todas as notas e recibos da contabilidade predial. Não satisfeito com o argumento, o proprietário do 173 ameaçou o síndico com o dedo em riste, dizendo “ah, isso não vai ficar assim não”. Seguiram-se outros insultos até chegarem às vias de fato, aplicando-se mutuamente sopapos, bofetes, voadoras e outros golpes de natureza semelhante, o que obrigou à convocação de nova assembleia de condôminos, em data ainda a ser determinada.

 

*  *  *

 

Poderes insuspeitos do placebo

 

Síntese de algumas das curiosidades observadas no processo de pesquisa da eficácia e dos efeitos do medicamento Teaminadiaxilina Adulto.

 

Foram monitorados 3254 homens e mulheres, de 20 a 68 anos, divididos em dois grupos de controle. Durante o período da pesquisa, 1627 voluntários tomaram placebo. Os outros 1627 ingeriram placebo do placebo, ou seja, a substância ativa – Teaminadiaxilina Adulto, na dosagem de 250 mg, via oral ou diluída em picadinho de carne moída com pimentão, granola ou doce de jaca, conforme o gosto ou a dieta alimentar de cada voluntário.

 

Dos que ingeriram placebo, 665 cultivavam o hábito de comer filezinho acebolado no palito às quintas-feiras, ao passo que outros 311 faziam o mesmo às sextas, em horários aleatórios. Dentre os que o faziam às quintas, aproximadamente um terço se deslocava em seguida a lojas de materiais de construção para comprar pisos cerâmicos em ponta de estoque, enquanto os demais rumavam para o aconchego de seus lares, não raro com broas de milho debaixo do braço.

 

É importante ressaltar que 100% dos que voltavam para casa após o petisco bovino tinham, em alguma época de suas vidas, tomado contato direto com autoramas e/ou tabuleiros de acarajé sem alvará da vigilância sanitária. Desconhecemos, até o momento, a razão da discrepância entre os dois comportamentos observados (o retorno contumaz à rotina doméstica e a ida aos home centers). Já do grupo de adeptos do filezinho às sextas, contavam-se 54 maçônicos, 12 rosacruzes e 10 simpatizantes de rituais do santo daime, sendo que 8 indivíduos frequentavam religiosamente templos que preconizavam o ateísmo como crença. Dos 8 ateus analisados, três relataram a erupção de brotoejas por todo o corpo, tão logo iniciada a administração do medicamento objeto da pesquisa, ou melhor, do placebo dele.

 

Considerando, entretanto, as atividades cotidianas dos três referidos voluntários, discriminadas hora a hora em planilha padrão, detectou-se que este reduzido universo acompanhava os sobrinhos-netos aos parques de diversões de suas cidades de origem ao menos 4 vezes por semana, inclusive na quaresma e nas épocas de estiagem, a despeito de possuírem todos unhas encravadas e taxa de ácido úrico apreciavelmente elevada para suas respectivas faixas etárias. Tais dados, curiosamente coincidentes e nunca antes constatados em publicações científicas de relevância e credibilidade, denotam claros indícios de que o placebo administrado como sendo Teaminadiaxilina pode provocar reações adversas que em nada guardam relação com aquelas elencadas nos 16 anos de pesquisas laboratoriais que antecederam o estudo ora em pauta.

 

Levando-se em conta os fatos acima dispostos, é forçoso admitir que as pílulas de farinha demonstraram cabalmente uma maior influência sobre o organismo do que o princípio ativo, o que leva a inferir que uma das duas conclusões a seguir enunciadas é verdadeira:

A) A Teaminadiaxilina é inócua enquanto medicamento, na medida em que sua ingestão durante os testes em nada alterou a rotina comportamental ou fisiológica dos monitorados;

B) A farinha utilizada na confecção dos placebos apresenta propriedades terapêuticas até então desconhecidas.

 

*  *  *

 

Pelos vãos desses meus dedos

 

“Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Então quando é que eu, que vivo cercado desses entes de estranheza, poderei dizer quem sou? Só sei que ando à espera e à espreita, no passo da cautela, na boca um riso nervoso. Prossigo perseverante, abrindo na faca o mato e sabendo que é só o começo desse esboço de caminho. Radiestesista a rastrear com pêndulo, sonda do fantasma que não se anuncia e ainda assim marca presença quanto mais se faz ausente. No fumegante da torta, no porta-retrato que cai a cada esbarrão no piano e onde mais se dê ocasião de encontro e espanto. O certo é que espero no portão, da alvorada à lua crescente, estes seres de túnicas iguais e rostos indistintos, o que me põe a postos todo o tempo como um guarda da rainha. Que deixem eles a prova cabal do que de fato são, pois juraram aparecer sempre por esta parte de mim que raciocina e sente – onde dou abrigo a todos, generosamente. A questão é se apresentarem sem sombra de dúvida aos cinco sentidos, tangíveis para virarem foto no velho álbum de família. Mas de costume se embrenham pelos sulcos do assoalho deste salão de fazenda, espertos e escorregadios. O mais das vezes sussurram e vão embora, antes que se tornem coisa que se veja e com quem se fale e se convide para uns bolinhos de chuva e um gole bem servido de cachaça. E assim precipitam-se comigo ao fundo do poço mais fundo, sem dar a mínima esperança de salvação a ninguém.

 

*  *  *

 

A alça, esta esquecida

 

O publicitário e quase psicólogo Humberto de Almeida, co-autor do consagrado “O moço e seus problemas”, surpreendeu há poucas semanas a comunidade acadêmica com ensaio onde discorre formidavelmente sobre a utilidade do cabo em sua dupla função – quer seja, a de empunhadura e/ou apoio para o manejo dos mais diversos utensílios e ferramentas, da panela à enxada. Uma empreitada de fôlego, em que o insigne estudioso alicerça sua argumentação em torno do cabo e sua descomunal influência sobre a história e o comportamento dos caucasianos, dos aborígenes e dos afrodescendentes. Absorto nestas e noutras considerações tecidas por Almeida, me dei conta da ausência de teses e outras fontes bibliográficas que versassem a respeito de sua prima-irmã, tão vulgarizada no âmbito prático quanto relegada a segundo plano no universo teórico: a alça, este prosaico e seminal artefato.

 

Assim, ousaria elencar algumas dentre as muitas acepções da alça que se prestariam como riquíssimos objetos para futuras dissertações e estudos de maior envergadura.

 

. A alça de sacola de feira, suas peculiaridades ergonômicas e sua relevância como agente alavancador especialmente da economia informal, nos grandes e pequenos burgos da América Espanhola;

 

. A alça de trem de metrô, sua evolução ao longo dos anos e seu papel gregário no contexto do transporte coletivo, haja vista que não raro cada alça é dividida – frequentemente em horários de pico - por duas, três ou até mais mãos que nela se apoiam simultaneamente durante o trajeto;

 

. A alça de sutiã e a de vestido, entendidas não apenas como elementos de sustentação das citadas peças de vestuário mas também como fetiches que povoam o imaginário masculino deste tempos imemoriais – independente de peso, estatura ou estado civil (não das usuárias das alças, mas dos admiradores das mesmas);

 

. A derradeira alça, a de caixão. Seu design, material e disposição nas diferentes formas de ataúde espalhadas pelo globo.

 

Há, contudo, algumas exceções que não se encaixam devidamente à função literal da alça:

 

. A chamada alça de mira – que, como todos sabem, não tem nem nunca teve a finalidade de alça nas escopetas, carabinas, metralhadoras e pistolas;

 

. A expressão “mala sem alça”, cunhada originalmente no Reino Unido em meados dos anos 1950 como “Suitcase without handle”, que em geral denomina os doidivanas que pululam à nossa volta e por assim dizer não apresentam serventia para coisa alguma, a não ser aborrecer-nos com sua loquacidade enfadonha e sua avidez perguntativa. Vale enfatizar que o vocábulo “alça” vem caindo em desuso para designar estes estorvos em forma humana, permanecendo apenas a abreviação “mala”;

 

. O verbo “alçar”, de onde deriva a expressão “alçar voo”, que significa decolar por si mesmo, ou seja, por propulsão própria – não havendo, por conseguinte, a necessidade de uma alça para erguer a ave ou a aeronave do solo;

 

. A enigmática e quase hieroglífica definição do Dicionário Houaiss para “alça” como termo de marinha: “estropo adaptado à goivadura da caixa de moitões, cadernais ou sapatas”. Quem puder que lance luz...

 

Por ter atingido os píncaros da glória nas lides freudianas – dedicando-se nos últimos anos tão somente às tardes de autógrafos e às coletivas de imprensa nos simpósios internacionais de que participa, é pouco provável que Almeida consagre à alça a mesma relevância que deu ao cabo em seu antológico tomo. Todavia, fica aqui a sugestão para que outros teóricos de igual quilate arregacem as mangas e se debrucem com o devido afinco a tema tão rico e pouco investigado.

 

*  *  *

 

Terra de gigantes

 

Pimpões, com cara de quem fez e não quer que ninguém fique sabendo, cabelos repartidos e cheirando a sabonete Phebo, pulávamos em nossos pufes. No mesmo quarto em que ficavam os bambis de olhos de vidro - uns de pelúcia curta, malhados de branco e preto, empalhada espécie de duvidoso gosto. Ao menos parecia ser dessa forma que o quadro se definia, já que ninguém tem certeza do que se passa de fato quando se trata de sonho. Fred Flintstone gritava “Wilmaaaaaaaa” entre uma garfada e outra no filé de brontossauro. Tocou a campainha. “Judith de Jesus Bezerra, sua criada” – assim se apresentou aos grandes. E era criada mesmo, pondo-se a espanar os móveis, lustrar com flanela as pratas e agachar-se de um jeito que deixaria os meninos de barba com pensamentos pouco edificantes. Todo dia é dia, toda hora é hora de saber que esse mundo é seu. Pois sucedia que o mundo era posse indiscutivelmente nossa, e nem pensar em dar asilo a estrangeiros de outro quarteirão. O mundo era uma planície de marias-moles e caixinhas de surpresa, que em nada surpreendiam com seus anéis de lata, automovinhos e bichos bobos de plástico. Graça tinha estilingar vidraça, deixar um dos bambis caolhos e mergulhar o órgão extirpado na mousse de maracujá. “Mas quem foi o filho da mãe...” e ninguém era filho de ninguém até que alguém dedurasse, caso tivesse visto. E o sonho corria, e eu me via como se olhasse de uma escotilha vendo o sonho dentro do sonho se estender sem parar mais. O filho do vizinho tocava prato na fanfarra (era mesmo ou só no sonho?) mas tinha que ensaiar para isso, e essa era a pior parte. Raios duplos. Raios triplos. Não quero mais ser pequeno. Um dia ainda tiro carta, aí é que ninguém me pega no meu fusca tala larga. Versão brasileira, Herbert Richers.

 

* *  *

 

A velha não era de se jogar fora

 

Assim que a velha teve o piripaque fatal que a levou dessa para outras e mais interessantes esferas, veio vindo à tona aquele amontoado de estranhas coisas, denunciando que a sua notória avareza era mais grave do que se supunha. Além do estrito controle com a economia doméstica, que a tornou folclórica na vila, descobriu-se que Dona Anacleta Miguelina Ribeiro não se desfazia de nada - ainda que esse nada fossem despojos, utensílios gastos e embalagens vazias.

 

Milhares de tubos de pasta de dente esvaziados até o último milímetro, encaracolados de tão retorcidos, como se uma morsa os tivesse espremido. Mechas de cabelo cortados – provavelmente todas as mechas de todas as vezes em que esteve no cabeleireiro, separadas em sacos de lixo de 120 litros e organizados por anos. Os cabelos ainda castanhos em 1939, grisalhos de 1961 a 1974, branco-lilases de tintura dos anos 80 em diante. Um pote de dois litros de sorvete Yopa guardava o que o esparadrapo na tampa identificava como “Unhas roídas”, enquanto um cartucho de Pringles continha as denominadas “Folhas secas de quaresmeiras, recolhidas próximas às mesmas no outono de 1978”. No criado-mudo, uma latinha oval de pastilhas para garganta há pelo menos sete décadas era o depósito dos dentes de leite e os do siso da recém-saudosa Anacleta, aquela que nada jogava fora. Nem mesmo conversa, pois era por natureza quase muda.

 

O que parecia ser um cubículo de despejo, abaixo da escadaria do casarão, estava abarrotado de zíperes emperrados, botões de camisa partidos ao meio, meias com furos nos calcanhares e algumas centenas de caroços de manga chupados. Palitos de dente usados jaziam simetricamente alinhados embaixo do divã da sala de estar. E havia mais, muito mais. Cotonetes melecados de cerume, depositados num baú de vime em meio a retrozes e agulhas de tricô. Tocos de vela aos montes, cordões umbilicais de todos os porcos paridos na propriedade, restos de sabonete, latas enferrujadas de ervilha e massa de tomate, canetas esferográficas secas de tinta e com as tampas mordidas. Seco também encontraram o poço artesiano, mas não vazio. Ali se amontoavam válvulas de rádio e lâmpadas queimadas, misturadas a maços de cigarro amassados – cujas marcas iam rejuvenescendo à medida em que se aproximavam da boca do poço – Fulgor, Chesterfield, Kent, Continental sem filtro, Minister, Hollywood, Free e Dunhill, pela ordem cronológica. Apontamentos encontrados numa gaveta da cômoda mostravam, dentre outras coisas, um duto de razoável diâmetro que ligava a fossa séptica da propriedade à horta, para que se aproveitasse o “conteúdo” como adubo para a alface tenra que servia à mesa.

 

Encontraram o corpo onde quase sempre se esparramava a maior parte do dia, a assistir televisão. Foi sentindo a vida esvaziar de si, sem revolta ou desespero, deixando apenas o invólucro seco e gasto. Mas antes rabiscou um bilhete, pedindo que não a jogassem fora no grande lixão dos mortos.

 

 

*  *  *

 

Mãe Tinhã

 

- A senhora é que é a Mãe Tinhã?

- Bom, o vidente aqui não é o fio, então eu digo pra fio que eu sou eu, porque fio não é brigado a saber. Mas Mãe Tinhã, que sabe tudo, já tá adivinhando quem fio é.

- Polícia. A senhora tem o direito de permanecer calada e só falar na presença do seu advogado.

- O fio é esquentado demais, e gente assim nunca que vai ser fáci entrá no céu, não sabe? Descomprica e fala língua de gente. Mãe tá pedindo, e pedido de mãe não se enjeita. Senta aí, vai, senta aí e acarma o sangue, eu vou pedir pra Dinorah trazer uma aguinha com açúcar...

- Água com açúcar o cacete, a senhora faz favor de vir comigo, eu não tenho o dia todo...

- Mas não é de dia que fio vai resolvê os complicamento, as atrapalhação e toda essas probremaiada que não deixa fio enxergá as coisa direito. Tem que ser de noite, noite fechada, fio. Ói só, vou falar um adivinhamento pra fio crê de vez na véia. Aquelas cadeira que fio tem em casa, não sabe? Pois então, a guia cigana de mãe tá falando no meu ouvido agorinha que tão tudo elas com encosto – não livra uma. Não sente um perturbamento em casa de fio, uns calafrio de vez em quando que sobe do carcanhá pra espinha e uma leseira que deixa fio bocejando sem pará? É as coisa amarrada com caco de vidro e estopa no vinagre envorvendo vodu de fio, fique crente e ciente.

- Sou da polícia, vim aqui acabar com a brincadeira.

- Mãe Tinhã não brinca com coisa séria, fio. Se veio ver a sorte, mãe não falta com a obrigação e tá aqui pra isso, é missão de Mãe Tinhã, que encarnou pra ajudá o povo. Se não veio, pode virá no pé sem oiá pra trás. Tem gente que não credita, faz pouco de Mãe Tinhã. Vidência de mãe é forte, não carece nem ler a mão, baraio também não uso, Mãe Tinhã dá as profecia na bucha - só de oiá no zóio. E mãe não tem religião, religião de Mãe Tinhã é Mãe Tinhã memo. Fio é ficha limpa, que eu tô vendo. Fio veio procurá mãe por causa de amor com nó ou negócio que não vai pra frente? Mãe desembaraça os enrosco, que nem tá escrito lá na tabuleta em frendicasa.

- Olha aqui, Mãe Tinhã, se você fosse boa mesmo de adivinhação ia saber que eu venho do distrito com mandato...

- Mãe já desconfiava, é coisa mandada e é mulé que fez. E fez bem feito e bem encomendado, tudo com artigo de primeira, azeite istravirge e espumante dos melhor que tem. Mãe tá vendo e fio tem que tomá providença. Tem a loira e a morena, e todas duas tem a ver com a viagem que fio tá pensando em fazê e não é de hoje, némemo? Confirma pra mãe, mãe sabe que é. E depois tem o home, aquele um que fio conhece tanto que eu nem preciso falar, que bota olho gordo e tá doidim pra espirrá com fio lá da firma. Esse tá perdido de sujerada pra limpá em outras vida, vai te que vortá muito e capiná pesado pra tirá o peso das costa. Cuidado com ele, fio, mas mãe pode ajeitá as malquerença se fio der três ajoelhada seguida em cima dos oio de cabra e depois deixá um cheque de caução pra arrumá a simpatia nos conforme.

- Mas será que eu vou ter que pegar a algema?!...

- Ara, ara... fio nem vem com perversão pra cima de Mãe Tinhã. Essas coisa de algema, chicote, máscara é doença das ideia. Mas mãe dá jeito. Fio deixa por conta de mãe, já tá incluído no serviço e não carece se preocupá. É cada um que me aparece...

 

*  *  *

 

Ramificando

 

Deitado na rede, após o almoço, estava naquele limbo entre o sono e um vago estado de vigília. Acima dele, a copa densa da árvore não conseguia filtrar todo o mormaço do dia.

 

As ramificações, do tronco para os galhos maiores, dos galhos maiores para os menores, e destes para outros raminhos minúsculos, despertou nele um paralelo com a própria vida. Refletia em como uma decisão, num dado ponto do tempo, faz o destino ir pra um lado ou pra outro completamente diverso. Os galhos maiores seriam as escolhas cruciais, que determinam os rumos mais importantes. Os menores, as conseqüências que deles derivam. Um esbarrão em alguém no supermercado e pronto - uma série de acontecimentos aparentemente banais vão se encadeando. E aquela garota na gôndola de cosméticos acaba mãe dos seus filhos.

 

Espantou uma mosca, se ajeitou melhor na rede e se pôs a pensar no que poderia ter sido e não foi. Feliz ou infelizmente.

 

Possibilidade 1: ao invés de sair de casa pra cursar Economia, ele fica morando lá mesmo. Lá, naquele fim de mundo onde nunca ninguém merecia ter nascido. Amarga um emprego no banco, depois abre uma loja de ferragens - que se transforma em disk comida árabe, franquia dos Correios e distribuidora de água mineral. Vai levando como pode e toma umas duas ou três todo final de tarde. Gosta de carros antigos, joga futebol de botão sozinho e será candidato outra vez a vereador. Não nega que deve, muito e a muita gente. Mas diz que paga quando puder.

 

Possibilidade 2: seguindo uma inclinação de infância, ele vai para o seminário em 1978. A avó exulta de alegria: que benção um sacerdote na família! Excessos no genuflexório o obrigam a uma operação no menisco do joelho esquerdo, três anos depois. Recuperado, abandona a vocação religiosa. Presta um concurso na antiga Light, e passa em sexto lugar. Solteirão, mora em onze cidades diferentes. Aposentou-se o ano passado e hoje toca uma pousadinha em Guarapari.

 

Possibilidade 3: sua cega paixão pelo The Doors o leva, um dia, ao túmulo do Jim Morrison em Paris. No vôo de volta ao Brasil, senta-se ao lado de um enólogo da Real Companhia Velha, fabricante secular de vinho do Porto, em viagem ao Rio para visitar parentes. Bastam dez minutos para que se tornem amigos de infância. Trocam cartões e se despedem no aeroporto. O distraído lusitano deixa cair a carteira, bem recheada. Ele liga para o enólogo, dizendo que está com ela. A recompensa não tarda: um emprego em Portugal. "Aceitas, ó pá? Morarás numa linda quinta, serás meu braço direito e não terás despesa alguma". Ele topa. Conhece uma rapariga e, pouco tempo mais tarde, enche a quinta de miúdos (crianças, no português de Portugal). Todos os anos, nas férias, ele vai para o Brasil. Fátima, a esposa, fica. Para cuidar dos meninos e degustar o enólogo.

 

Possibilidade 4: Aquele galho (sem trocadilhos) dos tempos de colégio vira namoro e depois casamento. O que seria terrível: a Gracinha ficou gorda e (mais uma vez, sem trocadilhos) perdeu completamente a graça. Sem falar nos cinco meninos que ela teve. Tá certo que se casou com um crente, que não admitia anticoncepcional. Casada com ele, talvez tivesse um filho só, continuasse o balé no conservatório e mantivesse, ainda por uma boa década, toda aquela saúde que fez sua fama na cidade e adjacências. É, podia ser. Podia, só que não foi assim. Vamos pra próxima.

 

Possibilidade 5 (tão bem-arranjada quanto inverossímil): as dezenas 02 - 15 - 16 - 34 - 38 - 49 , a mesma fezinha que fazia há anos, finalmente sairiam numa Sena Acumulada. A bolada seria grande e todinha dele. Ganharia mundo e poderia muito bem estar agora numa tabacaria em Gênova. No lobby de um hotel em Bruxelas. Caminhando por Beirute e ouvindo Mozart no disc-man. Ou então, já desapegado do dinheiro, aprendendo meditação em Nova Dheli. Poderia estar em qualquer lugar. Menos ali, às quinze pra uma da tarde, olhando feito bobo para a copa de um flamboyant.

 

Possibilidade 6...

 

*  *  *

 

O jeito era Jânio

 

Embate político é jogo de vida ou morte. Mas ao que tudo indica, no tempo em que o Jânio Quadros fazia campanha para Presidente a coisa era bem mais tranquila, pelo menos no quesito comes e bebes. O homem chegava ao raio-que-o-parta num fusca caindo aos pedaços, terno com calça pula-brejo e mordiscando pão amanhecido com banana nanica. Um pouco antes de descer do carro, um assessor providencialmente polvilhava-lhe uma caspa de araque nos ombros, deixando o ilustre autor de dicionário exalando a Zé-Povinho.

 

Este ritual diário – quando não várias vezes num só dia – devia ser enfadonho para o célebre proibidor de brigas de galo. Mas pelo menos era seguro, o script não variava. O sanduíche de banana que empunhava era o salvo-conduto do homem da vassourinha para livrar-se de banquetes de Clotildes, até porque deduzia-se estar com o bucho a meio reservatório.

 

Com o tempo, a acolhida aos futuros representantes do povo com leitões, bobós e cozidos foi se tornando praxe como forma de externar apoio às candidaturas. E ai daquele que não limpasse o prato: em remotos rincões eleitorais de Minas, repetir menos de três vezes a galinha ao molho pardo era desfeita a exigir reparação no cano da garrucha. Famoso tornou-se, em meados dos anos 50, o caso Edivair Belenzinho. Disposto a qualquer sacrifício por uma cadeira no Legislativo, foi habitar o campo santo antes do pleito, tamanho o desarranjo advindo num outubro de sol quente em Três Corações, onde passou por uma gincana de cuscuz, rosquinhas de nata e um bolo salgado com cinco generosas camadas de recheio muito, mas muito pra lá de suspeito.

 

Patês de salmonela disfarçados de maionese também têm a fama de conduzir candidatos à presença de Jesus antes da hora, resultado igualmente atribuído às empadas de pupunha densamente povoadas de coliformes. Políticos mais experimentados, em geral postulantes à reeleição, reservam boa parte de sua verba à contratação de provadores – pagos para degustar todo e qualquer acepipe de associação comercial antes que cheguem a suas virginais boquinhas, mais afeitas aos canapés de foie gras de Brasília.

 

Outros, menos endinheirados, põem em prática um velho truque armado com seus guarda-costas. Ao perceberem o poder letal de certas coxinhas ou bolas de rum, chamam o fiel escudeiro para um cochicho ao pé do ouvido. Este achega-se ao patrão já abrindo o bolso do paletó, para onde discretamente escorrega a sinistra iguaria, capaz de levar um SUS inteiro a óbito. Assim, o guarda-costas transforma-se em guarda-comida.

 

Já dos pasteis de feira e das vacas atoladas o escape é bem mais complicado. No caso dos pasteis, em função da luz do dia, das câmeras de TV muito próximas e pelo fato da outra mão já estar, via de regra, ocupada segurando o guri de alguém da distinta freguesia. A vaca atolada, por sua vez, permite pouca ou nenhuma portabilidade para que ganhe o lixo mais próximo, e o volume que toma no prato impossibilita qualquer manobra discreta que a faça desaparecer.

 

Possível saída honrosa é declarar-se de antemão vegetariano, ainda que não seja e se farte o candidato de filé com fritas após os comícios do dia. Mas o risco de verduras, legumes e frutas mal lavadas, oferecidos às baciadas pela vereança correligionária, não tornam esta alternativa muito recomendável. Certo estava o velho Jânio. Aos sanduíches de banana!

 

*  *  *

 

Citrus

 

Deu-se o fato, como das outras vezes, ao sol quase posto das seis da tarde, e foi como se uma mão de força irreconhecível me empurrasse para o pomar das laranjas descascadas. Firmes, doces, sem sementes nem fiapos a se entranhar entre os dentes. Laranjas de Hollywood. Cenográficas, escolhidas e livres de suas cascas, sem um machucado de faca. Todas estranhamente dispostas em seus galhos de nascença, à mercê da humanidade preguiçosa. As melhores não necessariamente se apanhavam nos ramos mais altos das árvores, como nos pomares comuns e para tristeza dos meninos mirradinhos. Muitas das mais suculentas ficavam nas saias das laranjeiras, quase tocando a terra e ao alcance do casal de anões. Fartavam-se ambos, sorvendo até secarem os bagaços, naquele “chup-chup” a lembrarem porcos. Pus-me ali sem querer assustar, e ao verem-me ao seu lado não manifestaram outra coisa senão uma silenciosa indiferença. Ali éramos, somente, sem definido propósito. Dois anões e um intruso de outro tempo, a observar sem compreender, talvez despido das cascas da lógica, do senso de necessária causa e consequência para tudo que exista sob o sol – já praticamente lua, àquela altura do dia 18 de novembro de 1942.

 

*  *  *

 

Altamente mais ou menos

 

COMO É QUE O SENHOR RESUME A SUA TEORIA?

É simples: a felicidade está na mediocridade – entendendo-se mediocridade como patamar médio, não como algo de qualidade sofrível. O ideal é sempre a média, é nela que residem o equilíbrio e a harmonia. Para aprovar ou reprovar um aluno, não tira-se a média de suas notas? E as fileiras do meio, não são as mais disputadas no cinema? Voltando à comparação com o universo escolar: o chatinho de óculos da primeira carteira, que uns chamam de cheira-bunda e outros de lustra-maçã, é um nerd insuportável. O da turma do fundão coloca tachinha na cadeira do professor. E ambos são repulsivos.

 

EXPLIQUE MELHOR.

Vou dar um exemplo: imagine uma maratona ou uma corrida de Fórmula 1. Nada como correr e terminar a prova no pelotão intermediário – nem na tropa de elite, nem no lodo dos retardatários. Os que estão no imenso cordão mediano correm numa boa, porque uma corrida precisa dos que estão no meio para que existam os que acabam nas pontas. É o pessoal que faz número, são os menos cobrados e ao mesmo tempo absolutamente indispensáveis.

 

SIM, MAS...

Os últimos recebem o desprezo e a chacota. Os primeiros, a inveja e a responsabilidade por um desempenho cada vez melhor. Um expoente em qualquer coisa é tão discriminado quanto um retardado naquela mesma coisa. Lembre-se, meu caro: o filé do peixe é aquela parte que fica entre a cabeça e o rabo.

 

SÓ QUE É A CABEÇA QUE COMANDA O PEIXE PARA BUSCAR ALIMENTO, E O RABO É QUEM O IMPULSIONA PARA CHEGAR ATÉ ELE.

Sim, e para quê? Para nutrir o resto do corpo e nos legar o seu filé, aquela parte que fica bem no meio... xeque-mate, senhor repórter!

 

ESTA É UMA FORMA UM TANTO QUANTO CONFORMISTA DE ENCARAR A VIDA, NÃO ACHA?

Pode ser para você, um sujeito visivelmente contaminado pela competitividade capitalista. Que segura trêmulo este microfone na minha cara, olhando a toda hora para o relógio e preocupado em ser o primeiro a levar esta minha entrevista às bancas amanhã. Não é isso mesmo?

 

SE EU NÃO FIZER ISSO, SOU MANDADO EMBORA. MAS, CONTINUANDO: EM DECLARAÇÕES RECENTES, O SENHOR AFIRMA QUE SUA TEORIA TAMBÉM SE APLICA ÀS RELAÇÕES FAMILIARES.

Evidente. O primeiro filho é sempre vítima de uma criação cheia de cuidados excessivos, de bajulações desnecessárias da parte dos pais e dos avós, o que acaba por estragar o indivíduo e torná-lo um parasita sem vontade própria, com traumas que farão as delícias e o sustento dos analistas. Já com o caçula, via de regra ocorre o oposto: a família já está tão de saco cheio de tantos filhos que cria o coitado de qualquer jeito. A vantagem fica com os filhos do meio, que herdam as roupas e brinquedos do primogênito e deixam a sucata para o mais novo da prole. Além disso, eles ficam livres da vigilância ostensiva dos pais – que estão mais ocupados em limpar o cocô do pequenininho e ficar procurando droga na mochila do mais velho. Pode reparar, é sempre assim.

 

FINALIZANDO, O QUE ACHOU DESSA ENTREVISTA?

Mais ou menos. Você não me entupiu de perguntas bestas, nem eu me alonguei muito nas respostas. E estando mais ou menos, para mim está ótimo.

 

Reféns

 

Poderia apertar aquele parafusinho minúsculo e a coisa voltaria a funcionar perfeitamente. Bastaria um quarto de volta em sentido horário, com uma chave philips e pronto. Problema de mau contato. Mas olhei pra cara da freguesa e vi que ela devia usar Lancôme da testa à unha do pé, e que só aquele solitário na mão direita valia mais que a minha oficina inteira. Então pintei a coisa bem preta para valorizar o serviço. Pelo menos três dias na bancada, para testes no voltímetro. Provavelmente era o diodo do transistor com o relê de amperagem em corrente descontínua, e pra trocar a pecinha só substituindo a placa toda – importada do Japão. Seria uma das hipóteses, mas para ter certeza, só abrindo tudo e aferindo cada um dos componentes na oficina.

 

- Olha, dona, por enquanto a senhora acerta comigo a visita técnica. Pode ficar tranquila que só toco o serviço com a aprovação do orçamento. Mas se for isso mesmo que estou pensando, melhor vender como sucata e comprar outro. Também não vale a pena levar à Autorizada, eles vão querer cobrar umas três vezes mais da senhora. Mas olha, pode ficar à vontade, pelo amor de Deus, não estou querendo forçar nada, faça como quiser...

 

Daí a três dias ela liga perguntando se o orçamento está pronto. Valorizo um pouco mais, digo que tenho que baixar o manual de especificações atualizadas do produto no site do fabricante e peço que ligue de novo depois de amanhã, mas que provavelmente é aquilo que lhe disse. Ela torna a ligar no sábado às nove, eu prometo para segunda. Na segunda eu confirmo a morte prematura de todo o circuito impresso. Ela vende para mim mesmo o aparelho ainda na caixa por R$14,50 e já pede que eu encomende um novo. Falo com aquele meu brother da Santa Ifigênia, e combinamos 350% em cima do preço de custo. A título de honorários. Aperto o parafuso da belezinha que me caiu no colo por R$14,50 e passo pra frente pelo preço do novo, para outro cliente.

 

********

 

Está tudo esquematizado, Lontra. A gente começa falando em possibilidade de apendicite - pela alta ingestão de milho verde na véspera associada à estafa física causada por 16 voltas ininterruptas no pedalinho do lago municipal, conforme relatado pelo próprio paciente.

 

Mas vamos devagar para não assustar a família, até porque a gente sabe que o cara não tem nada. Se começar a meter muito medo, eles vão atrás de uma segunda opinião e aí a gente se encrenca.

 

Ratazana libera os trâmites necessários para os exames preliminares, os raios X e os laboratoriais de rotina. Esquema quinze/quinze/quinze pra cada um dos três, como acertado. Golfinho, homem de confiança do Pantera, coordena todo o processo de diagnóstico por imagem (lembrando que aí o esquema é sessenta/dez/dez/dez/dez e que é indispensável a rubrica do Potranca, para a perícia não pegar).

 

Daí pra frente a gente coloca o infeliz num tomógrafo e diz que o milho verde do quiosque reagiu quimicamente no duodeno e seus grãos transmutaram-se em quistos, um caso incomum mas não propriamente raro nos anais da medicina. Aí a gente diz que é necessária uma ressonância para sacramentar o diagnóstico. Como todos sabem, este exame ter de ser no cash. Mas tudo bem, sondei a ficha e vi que o infeliz é fazendeiro em Palmas. Quanto aos honorários fica 50% para mim e a outra metade para dividir com o zoológico, conforme organograma. Peço que o Avestruz envie cópia deste aos demais envolvidos, que deverão deletar esta mensagem assim que lida. Bom trabalho a todos.

 

*  *  *

 

Chegança

 

I

 

Na avidez de dar enfim com o costado no repouso, ele apeou de mala em mãos e um risinho assim assim. Sem mágoa ou quê de remorso, de certo só as incertezas. Tantas, de encher embornal. Arrobas de maus presságios se anunciavam na tez, cheia de pés-de-galinha. Morena em casa não tinha, na tina d’água um cabelo – longo ele era, se via, mas a quem seu pertencer? Caneta tinteiro, umas notas de mil réis, baixela de prata luzia. Luzia, nome de gente, de quem tirava casquinha dia sim, dia não, na casa pegada à quitanda lá no antro de onde vinha. Mas muito sem compromisso, anéis nem mesmo de lata. Pra que sarna a se coçar? Velhas de véu no entorno, e vítrea clareira se inchava pra cima dele, o coitado. Assim passou aquele dia, como passavam-se os outros, no vácuo do haver nadinha. Daquele jeito é que era, melhor que se acostumasse.

 

II

 

De tombo em tombo se rala, no umbral de vela apagada e malho intenso de bigorna. Se luz houvesse, bobagem – coisas não resolveria, e alento para as feridas não havia de ter por perto. No poço bem pouca água, nem erva daninha no pasto se dispunha a vicejar. Dom não tinha, voz calava, ardume ardia e, a horas tantas, até o relógio decidiu não trabalhar. Estica as costas e apanha vento encanado de esguelha, e Deus que ajuda a quem apela trouxe uma pena flanando, só pra lembrar (de mansinho) que ao flanar também se pena. Dura lição aprendida em ponta de faca cega, na agrura do verbo errar. Varre esse mal pensamento, dai-me o céu o que fazer. Credo em cruz, que largo hiato sem segundos que se contem. Rogo ao cão: cadê Luzia?

 

III

 

Luzia diz que vem de jeito nenhum, que hoje é dia de esfrega e não de pouca vergonha. Casa pegada à quitanda, nem pra semana – só mês que entra, e olhe lá. Espere ou vá se catar.

 

*  *  *

 

Ao meu pai

 

Eu ando atrás da palavra, eu juro que ando. A que talvez esteja no dicionário que outro dia mesmo você me perguntou se deveria ter em casa, para seus versos e rimas. Lembra, num dos últimos emails que você me passou, o assunto era o dicionário. Foi quando você – bem a seu modo, sem muita cerimônia – resolveu ficar mudo. E palavras costumam perder serventia quando se emudece.

 

Desde então muitas delas, além de tornarem-se inúteis, ganharam sentido diverso. Se me falavam em traqueostomia, eu entendia seresta. Se me falavam em sedação, eu entendia bravura. Se me falavam em hospital, eu entendia passarinho. Dos raros de voo e trinado. Um Uirapuru, quem sabe? Se me falavam em cateter, eu entendia realejo, num dialeto de Babel que aqueles homens e mulheres de aventais azuis e cheiro de éter nunca compreenderiam. Sabia que havia ali, num canto de boca cheia de tubos e respiradores, o verbo-senha, o pé-de-cabra de um milhão de portas, o código de que você foi guardião por 86 anos.

 

Essa palavra, que você não consegue mais pronunciar, eu seguirei buscando. Vou atrás do tal dicionário, quem sabe eu a encontre por lá. Gritarei sozinho, mas bem alto e por nós dois, essa palavra aos ventos todos. Sei que isso não te deixará menos mudo, mas você não estará tão surdo que não a possa escutar.

 

*  *  *

 

Abbey Road

 

LADO 1

 

- Vou começar bem fácil, depois a gente vai esquentando.

- Manda.

- Faixa dois do Let it Be?

- Dig a Pony.

- Quantas músicas tem o Álbum Branco?

- Trinta.

- Qual o fotógrafo da capa do Rubber Soul?

- Robert Freeman.

- Quem era a Martha, da música Martha My dear?

- A cadela do Paul McCartney.

- Quem inspirou Something?

- Pattie Boyd.

- O que Tia Mimi disse para John Lennon, quando ele comprou a primeira guitarra?

- "Você nunca vai ganhar a vida com isso".

 

Não tinha jeito, ele sabia tudo. Era capaz de dizer nome completo e endereço dos avós da Barbara Bach, mulher do Ringo.

 

Gabava-se de conhecer e catalogar, num caderninho surrado com o selo da Apple na capa, todas as mensagens cifradas e alusões a drogas do Revolver e do Sargeant Peppers. As bem manjadas e as que ele, sozinho, jurava ter descoberto. Sabia também que Paul estava vivo, e bem vivo. Ele mesmo o tinha visto num show em 1990 no Maracanã. Ainda assim conhecia 72 pistas que indicavam o contrário.

 

Tal pai, tal filho. E o menino, de 8 anos, ia pelo mesmo caminho.

 

- Quanto é 64 dividido por 16?

- Four. Como os Beatles.

- A capital da Inglaterra?

- Londres, uma cidade que fica perto de Liverpool.

- Dê um exemplo de sujeito simples.

- George Harrison.

- E de sujeito composto?

- Lennon & McCartney.

 

Dos discos todos, o favorito era Abbey Road - o célebre álbum com os quatro na rua homônima, passando pela faixa de pedestres. Se além de tocar o seu Abbey Road falasse, teria muito o que contar. Idas e vindas, festinhas na garagem, quedas nas mãos de bebuns, mudanças de casa. No tempo da faculdade, foi com ele pra república. Fiel escudeiro, trilha sonora de bons momentos e maus bocados. Era com ele que espantava o sono nas vésperas de prova e embalava os sonhos nas vésperas dos encontros. Cheio de estalinhos, riscado no começo do "Come Together" e no fim do "Golden Slumbers", era sempre ele que encabeçava a pilha, com o papelão da capa já esfarelando. Uma marca de copo, em cima da cabeça do Ringo, formava uma espécie de auréola. Santo Ringo, que soube segurar a onda nas brigas e ameaças de separação. De tanto entrar e sair do prato da vitrola, o furo foi abrindo, laceando, ficando quase oval. Lá pelos anos 80, quando tinha aquele 3 em 1 da National, cansou de gravar suas músicas em fitas cassete para os amigos. Uma vez foi de empréstimo pra casa de uma paquera. Voltou com uma carta perfumada dentro. Almíscar. O perfume durou pouco, a paquera menos ainda. Mas o velho Abbey continuou lá, igual aos Beatles - forever. Com o tempo, foi virando relíquia. Era a primeira prensagem brasileira, edição rara. Passou a guardá-lo no fundo do maleiro e comprou uma outra cópia mais recente. Em vinil, é claro.

 

LADO 2

 

Londres, 2004.

- Não é essa a rua, pai. A gente deve ter errado o caminho.

- Como não? Olha o mapa, é aqui mesmo. Abbey Road, aqui estamos nós!

Não queria dar o braço a torcer, mas a dúvida do menino era sua também.

Viu que o lendário fusca branco, placa 28 IF, estacionado à esquerda na foto da capa, não estava mais lá. Ele pensou alto:

- E nem poderia estar...

- Falou alguma coisa, pai?

- Nada não, filho.

 

Notou que faixa de segurança era igual a todas as que ele já tinha visto. Que quase nada restava daquele cenário mítico. A maçaneta da porta do estúdio, que a Rita Lee lambeu com adoração devota, provavelmente já tinha sido várias vezes trocada. Com a capa do bolachão nas mãos, ele comparava a foto com aquilo que via agora. As árvores certamente deviam ser outras, o trânsito era mais intenso. O céu também não era azul como naquele agosto de 35 anos atrás. Tirou os sapatos, para sentir a textura do asfalto e alcançar o estado de graça que tanto ansiava. Estava lá, exatamente onde eles estiveram. Em frente ao estúdio onde gravaram quase toda a sua obra, e nada de atingir o nirvana. O coração não disparou, ele não suou frio, as pernas não tremeram. Percebeu que perto da sua casa existiam ruas mais parecidas com a Abbey Road do que a própria Abbey Road. Por alguns minutos ficou ali, parado, como que esperando uma resposta ao próprio desencanto. E deu-se conta que Abbey Road era uma rua que ele mesmo havia pavimentado, ligando os Beatles às suas vísceras.

 

Entregou a câmera para o filho e pediu que ele clicasse no momento em que atravessasse a rua. Esperaram que alguns carros passassem e fez o mesmo com o menino. Mas bem rápido, porque um bando de turistas barulhentos, trazidos por um guia de sobretudo marrom, já tomava conta de toda a faixa.

 

*  *  *

 

Quem quiser que conte outra

 

Num reino muito distante vivia Branca de Neve, que, já beirando os 50, entraria com uma denúncia no Procon ao constatar que não seria feliz para sempre coisíssima nenhuma, conforme prometera o estúdio de animação. Frustrada com o casamento, enganaria rotineiramente o príncipe sem maiores dramas de consciência, cada dia da semana com um anãozinho – mas sempre com camisinha. No caso, camisinhazinha.

 

O príncipe, ao cavalgar pelos arredores do reino enquanto era corneado, avistou um dia a casa de Prático, o mais esperto dos três porquinhos. Papo vai, papo vem e o futuro monarca convenceu o suíno a firmar sociedade com ele num frigorífico para produção de bacon sem colesterol e 0% de calorias. Mas Prático não foi esperto o suficiente para desconfiar que ele entraria com o bacon. Pensava que sua participação se restringiria à gestão estratégica do empreendimento, por conhecer a fundo o produto desde leitãozinho.

 

Emitido o atestado de óbito – e de burrice, o príncipe contrata o marceneiro Geppeto para fazer o caixão de Prático, cujo velório se realizaria após a missa de porco presente. Foi quando Pinóquio resolveu meter o nariz na história: “Meu faro diz que esse negócio de bacon light é muito promissor”, comentou ele com o napolitano vovozinho.

 

“Sou o sócio que todo empreendedor pediu ao Sebrae”, argumentou Pinóquio ao visitar o príncipe em sua fabriqueta de toucinho. “Se mentir ou tentar enganá-lo, meu nariz me denunciará”. Mais que convincente, o argumento era irresistível. Tinha à sua frente o sócio ideal: um sujeito compulsoriamente honesto!

 

Mas se associar empresarialmente ao príncipe não significava garantia de recursos fartos. A arrecadação de impostos no reino se resumia a umas poucas patacas, graças à inoperância da máquina administrativa. O jeito era arrumar um terceiro sócio – o capitalista. De imediato Pinóquio lembrou-se de Dona Baratinha, a que tem fita no cabelo mas jamais deixaria o dinheiro na caixinha: todos sabiam que aplicara tudo, incluindo o espólio de João Ratão, num fundo de investimento agressivo para ter lucro rápido e desbaratinar, pegando onda em Saquarema. (A título de curiosidade, João Ratão empanturrou-se até a morte com o bacon de Prático, um dos muitos pertences da substancial feijoada da Senhora Baratinha).

 

Ao ser consultado para aceitar a proposta, o famoso inseto da família dos blatídeos esquivou-se, alegando os planos de desbaratinamento acima citados e que já estava de malas prontas para a paradisíaca cidade fluminense. Mas indicou o Gato de Botas como parceiro no projeto, embora o felino tivesse sido um perseguidor implacável do seu amado João Ratão, nos porões de uma repartição pública.

 

Longe há muitos anos da burocracia estatal, o Gato de Botas andava agora de rabo preso ao jogo do bicho. Com as patas sobre a mesa do seu bunker e cofiando calmamente seus bigodes, recusou com polidez a oferta de Pinóquio e do príncipe: “O convite é tentador, mas não é zoológico abandonar nesse momento os meus negócios. Já falaram com o Shrek? Também ouvi dizer que a Cinderela, com aquela carinha de santa, tem cem mil contos de fada depositados na Suíça. Aposto que não sabiam disso, né. Um verdadeiro golpe de mestre...”

 

- Mestre... claro, o anão! Como não pensamos nele antes? Bem debaixo das minhas barbas! – retrucou o príncipe.

 

- E do meu nariz!, complementou Pinóquio. Com o trabalho nas minas, deve ter muito dinheiro guardado, o bastante para fazer do Diet Bacon um fenômeno nas gôndolas. Vamos já para o seu reino, príncipe.

 

Como a Lei de Murphy impera sempre, inclusive no mundo do faz-de-conta, aquele era o dia do Mestre dividir os lençóis com a insaciável Branca. Ou melhor, os maus lençóis: o príncipe e Pinóquio flagraram Branca de Neve no sofá, em sensuais preliminares com o Mestre, o Patinho Feio e a Bela Adormecida, que na ocasião parecia mais acordada que nunca.

 

Gritos, pancadas, tiros, golpes de espada, sangue derramado.

 

Até que chegou o soldadinho de chumbo, dando voz de prisão a todo mundo.

 

(Continua qualquer dia desses).

 

*   *  *

 

Zeus assim o quis

 

(Pequeno exercício de escrita automática)

 

Zeus, num raro acesso de generosidade, resolveu dar permissão. Sim, o barbudão de pouca prosa e nenhum riso, imagine. Licença concedida, abrimos a golpe de faca o compartimento estanque, guardado a segredo de cofre e venerado feito sudário. De cara um fusca 74 nos esperava além de longe, desde meados de nunca. E esperava inerte qual relógio da matriz velha, com os dois ponteiros soldados pelo zinabre dos anos, aqueles da antitristeza das balas de coco geladas, da bola nova cheirando a couro e com a etiqueta de preço, do chenile do sofá na sala imensa de estar e ser, e estando lá, permanecer até o findar da tarde e o chegar do sono. A vizinhança toda em seu rodar de carrossel, natais se anunciando desde outubro com seus piscas, torresmos defumando vinte alqueires de sertões. E você lá, branca das parafinas de crisma e de primeira comunhão, crescendo a cinco centímetros por hora e tomada do desejo de correr países outros de fronteiras bambas, montada em bicho de zanga - belo e premiado produtor de estrume azul, uma coisa quase que da estimação do mundo de tão lindo que era. Aproveitamos a chance enquanto Zeus deixava. E Zeus deixou mais um pouquinho, porém não mais que o estritamente necessário.

 

*  *  *

 

Salve-se quem puder

 

- Pronto, Centro de Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois nossas linhas estão congestionadas.

- Tô sem vidas pra salvar. Antes tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?

- Entendo sim. E como entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje. Ontem foram trinta e cinco.

- Ninguém tá precisando ter a vida salva, moça. Mar calmo, banhistas felizes com Sundown 45 besuntado até no cofrinho, nenhum desavisado se debatendo na rebentação. Um tédio. Gosto de viver perigosamente, pra isso escolhi essa vida de salvar a vida dos outros.

- Relaxe, pense que poderia ser pior. E se tivesse que resgatar dez vovôs gordos e sem preparo físico se afogando ao mesmo tempo? Daqueles que levam melancia, torta de sardinha e papagaio pra praia, já pensou?

- Mas pelo menos eu me sentiria útil, ainda que conseguisse salvar um gordo só. Bem ou mal estaria honrando o salário no fim do mês. O duro é ficar tomando sol o dia todo naquela cadeira em cima da escada. Me sinto um usurpador, um verme sem serventia, um chupim do orçamento da prefeitura. A senhora, como contribuinte, não se sente explorada? Por favor, me ajude, faça alguma coisa.

- Meu amigo, por acaso a culpa é sua se está tudo bem? Você saberá cumprir o seu dever, caso aconteça alguma coisa. Por que você não faz um curso de aperfeiçoamento, um módulo mais avançado pra sua função? Sei lá, ou então abra-se a novas possibilidades de relacionamento... uma respiração boca-a-boca com alguém atraente do sexo oposto, sabe como é, salva-vidas também é gente.

- Sei, sei. Vem ver as coisas que me aparecem pra salvar, vem ver. Isso quando aparece, né. A praia aqui é de periferia, minha filha. É a maior relação dentadura por banhista da América Latina.

- Você também podia pedir transferência pra algum lugar com mar mais agitado, tipo aquelas praias de surfistas em Saquarema.

- Mais alguma alternativa?

- Temos sugerido com frequência a pintura de paisagens marinhas em aquarela. O único problema é o salva-vidas se distrair demais com o hobby e não prestar atenção ao serviço.

- Chega, essa foi sua última chance. Não me convenceu, o buraco no meu caso é mais embaixo.

- Pelo amor de Deus, mude de ideia. Se não por você, pelo menos por mim.

- Como assim?

- Nosso índice de reversão das tentativas de suicídio nos últimos seis meses é de apenas 4,9%. Caso não consigamos melhorar esta estatística, nossa equipe toda será demitida. Você não está mesmo querendo salvar vidas? Pois então, sua oportunidade é agora. Salve a nossa, moço!

- Jura que é verdade? Não está dizendo isso só pra dar uma levantada na minha autoestima? Este argumento está me cheirando a script decorado aí da equipe de atendimento.

- Onde você está no momento?

- Estou aqui, no meu posto de observação, falando do celular. Mas com um cano de revólver enfiado no outro ouvido. Tem até um pessoal lá embaixo olhando desconfiado pra mim.

- Calma, segura a onda.

- Bom, isso é tudo o que eu queria, se houvesse alguma pra segurar.

- Moço, olhe pra trás. Guardas-noturnos, ex-boxeadores, enroladores de bobinas de transformador, mulheres barbadas de circo e outros suicidas contumazes bem que gostariam de estar no seu lugar, só aí, de frente pro mar... considere-se um privilegiado.

- Poupe o seu latim para um caso menos perdido que o meu. Além do mais, meu crédito está acabando.

- Me dá seu número que eu ligo!

- Vai dar caixa postal.

*  *  *

 

Serafim e Querubim

 

- É, Querubim. Esse negócio de aquecimento global é o assunto da vez lá embaixo. Agora mesmo passou uma onda de rádio de raspão na minha nuvem, falando disso de novo.

- Ainda se o problema fosse só deles, mas sobra pra gente também. O calorão bate primeiro aqui, no nosso costado. E costas de anjo, convenhamos, são bem mais sensíveis. Lá na Terra até vale a pena ter as costas quentes, mas em âmbito celeste não tem serventia nenhuma.

- Um bloqueador com fator de proteção solar de 350 seria o céu pra gente.

- Ô. E nem precisa tanto, viu. Um bom guarda-sol já ajudava. É engraçado, Serafim, a gente sofrendo aqui e aqueles terráqueos imbecis com uma ideia totalmente deturpada a nosso respeito. Quando eles dizem que estão nas nuvens, é porque atingiram o auge da felicidade. Só a gente pra saber que a nossa vida não é tão molinha assim.

- É que eles não viram o estado de nossas túnicas com fumaceira do vulcão da Islândia. Lá é fácil de resolver, eles cancelam os voos e pronto. Mas aqui não tem como escapar.

- E nada de chover pra tirar o grosso da sujeira. Essa é outra desvantagem de viver em cima, e não embaixo das nuvens. Você bem que podia usar o seu poder de influência e fazer alguma coisa pra tirar a gente dessa. Vamos lá, Serafinzão, mexa os pauzinhos...

- Realmente, nós Serafins impomos respeito e conquistamos merecida admiração. Tanto que tem muita gente que se chama Serafim lá na Terra. Já Querubim, não me lembro de ter nascido ninguém com este nome.

- Tudo bem, mas nem por isso todos os seus xarás são anjinhos. Conheço muito Serafim traficante de droga, sequestrador, estelionatário...

- Veja lá como fala. Na hierarquia dos anjos, você está abaixo da minha autoridade. Comporte-se.

- Que é, vai me prender? Serafim que seja delegado pra mim é novidade. Mas tudo bem, xerife, não abro mais minha boca.

- É bom mesmo, porque para o meu gosto e pelo seu pouco tempo aqui, você anda pondo muito as asinhas de fora. Se continuar vai ter que rezar dez mil Pai-Nossos e vinte mil Ave-Marias.

- Isso pra anjo não é castigo.

- Mas você ainda não é um anjo no sentido pleno da palavra. Se fosse, não cometeria o pecado de falar comigo desse jeito. Fique sabendo que perto da minha ficha de bons serviços prestados você não passa de um noviço, um reles calouro nos domínios de São Pedro.

- Dá um desconto, chefe. O senhor tá acostumado, deve ter uns quatro ou cinco séculos montando guarda no pedaço. O problema é que é cansativo ficar deitado eternamente nesse berço esplêndido de flocos. É claro que com o que é bom a gente sempre acostuma, mas às vezes dá um tédio que não tem jeito. Tirando as nossas aulas de harpa às terças e quintas, não sobra mais nada pra fazer de prático.

- Prático tem que ser o pessoal lá do vale de lágrimas. Nossa missão é outra, temos que ficar nos louvores e na vibração positiva. Entenda uma coisa, meu questionador Querubim: esse seu desejo de sentir-se útil é herança dos círculos inferiores e típico de quem ainda não tem o domínio da função. Com o tempo você se adapta e passa a tomar gosto pela adoração e pela vida contemplativa.

- Pois é, mas ainda se houvesse algum programa de integração, tipo “Conheça seu companheiro de trabalho”. Ou de descanso, no nosso caso... sei lá, mais anjos pra trocar uma ideia, entende, fazer novas amizades.

- Minha companhia não basta?

- Espera aí, não foi isso que eu quis dizer.

- Contenha a sua insubordinação, ou terei que relatar seu caso a outras instâncias.

- Calma, Serafa, calma...

- Calma coisa nenhuma. Providenciarei agora mesmo um relatório bem detalhado. Aí sim, quero ver chover na sua nuvem.

 

 *  *  *

 

Nothing Man

 

Na verdade, o que irritava demais era que o sujeito parecia uma caneta muito gasta e quase seca, de design ultrapassado, tampa mordida e serventia duvidosa até para a própria mãe, os irmãos e os vizinhos da frente que o ajudaram a criar.

 

Dava aflição e pena só de passar o olho no sempre esticado ser humano, mole ali no sofá mais mole ainda, feito boi na engorda – com a diferença que o quadrúpede, ao contrário dele, costuma passar a maior parte do tempo de pé. E não é mentira dizer que bastava terminar o almoço pro elemento já ir tratando de cavar espaço no bucho pra caber a janta, na adivinhação do que teria à mesa pra se refestelar até que não houvesse mais vaga disponível para um tremoço ou uma mísera azeitona sem caroço.

 

Com essa vida sem prestança o moço durou pouco sendo moço e logo logo rendeu-se ao definhamento, pelo uso muito continuado de certas partes do corpo e pelo desuso completo de outras. Ficou aquele velho que é ancião de tenra idade, acabado antes da hora, alvo de comentário e exemplo de mau exemplo. Do jornal só lia horóscopo, e nele se fiava mais que nos profetas do Antigo Testamento, mais do que no pronunciamento do presidente do Banco Central sobre a taxa de juros e mais até do que em fofoca de tia viúva – e dessas tinha duas que valiam por dúzias. Ô velhas mexeriqueiras, que quando apareciam com seus tupperwares lotados de biscoitos de nata traziam junto sacolas de injúrias e difamações sobre todo ser vivente da cidade, especialmente a parentada da zona norte. A sorte é que ambas, Aurora e Lélia, só muito de vez em quando surgiam e logo caíam fora após alguns jorros caudalosos de infâmia, deixando-o novamente às voltas com os botões do seu pijama.

 

“Esse cara aí é herdeiro de cartório”, diziam alguns à primeira vista, vendo aquele monumento à preguiça zapeando a tarde toda entre desenhos animados e alternando o trabalho das mandíbulas entre sacos de balas chita e bolinhos de chuva. E a chuva caía mansa como ele nas paragens que habitava, tão sem vontade de cair que em sua moleza o levava a meditar, pra descansar um pouco do estafante esforço de fazer coisa nenhuma.

 

 

Duelo à frente de um prato de coxinhas

 

- Tim-tim!

- Saúde!

- Bom, onde é que a gente tinha parado mesmo?

- Sócrates e seus seguidores.

- Ah sim, claro. Numa perspectiva hedonista, é evidente a influência do iluminismo como mola propulsora da morfologia intramolecular...

- Ok, da qual derivou, décadas mais tarde, a hermenêutica mineira contemporânea. Tudo bem, isso é óbvio e incontestável para qualquer guri de 5 anos. Mas daí você generalizar, atribuindo a Cervantes a fundamentação da hidrofobia, vai uma enorme distância...

- Permita-me discordar. Veja por exemplo a exegese adstringente dos sonetos de Petrarca. No estrito sentido do léxico, conjectura-se ser pura fenomenologia endógena, pelo menos numa primeira análise.

- Em termos, em termos. Afinal, Donaldson é quem efetivamente fez a ponte entre o parnasianismo tardio e Paulo Coelho. Isso dentro da retórica fonética do ser, enunciada por Kant com muita propriedade.

- Contanto que fosse uma suposição empírica, comumente compreendida na estética gamaglobulínica.

- Mas as mutações no tecido social sempre prevalecem sobre a silepse antropológica. Silepse que, aliás, tem em Nietzsche seu mais ferrenho defensor. Te peguei, hein. Sai dessa agora!

- Por mais que a ciência lance luz a essas indagações, a ablação cinética do conservadorismo sempre será objeto, na acepção anímica, de um redesenho neo-positivista que age antagonicamente aos receptores de protease. Ficou clara a diferenciação?

- Na realidade, Pound, em toda sua obra, contextualiza a intersecção geomórfica, ainda que de forma veladamente dúbia, se tomarmos como parâmetro o determinismo puramente iconoclasta.

- Veja bem, o que eu defendo, do ponto de vista enunciado por Homero na Ilíada, é que a bissetriz não tangencia a prosódia de Lacan, qualquer que seja a natureza do objeto em questão.

- Alto lá, meu amigo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se Hahnemann, ao lançar as bases da homeopatia, não tivesse uma mãozinha do Padre Vieira, como explicar a queda da Bastilha enquanto divisor de águas no estudo das pororocas ? E digo mais: se fôssemos levar essa sua premissa como verdadeira, estaríamos admitindo o Molibdênio e seu número atômico como desencadeadores do efeito estufa. O que, convenhamos, é uma sandice.

- Discordo redondamente.

- É desanimador sentir o colega tão refratário à lógica quântica.

- Não tenho culpa se você é retrógrado e insiste em defender a representação metafórica, que extrai da identidade do objeto racional sua própria subjetividade transcendente. Ou você vai continuar negando que o Recôncavo Baiano na verdade é Reconvexo?

- Sim como aforismo. Jamais como axioma.

- Não, não. Você não entendeu aonde eu quero chegar. Tome, por exemplo, essa coxinha que repousa gordurosa à nossa frente. É uma reles coxinha, que não se sabe coxinha. Não tem a consciência de sua “coxinhicidade”, ou sua essência salgadística, entende? É o eterno conflito entre Eros e Tanatos, Sísifo e Prometeu.

- Deixe de ser simplista. A dicotomia aristotélica não se abstrai assim, num maneirismo niilista de contornos platônicos.

- Então, mas...

- Espera aí, deixa eu só concluir o raciocínio. A ambivalência, no contexto glauberiano, pode e tende a ser congruente. Caso contrário, a catarse sinóptica de Eleonora Duse lançaria por terra essa sua teoria. Ou melhor, sua falácia.

- Sei. De onde se supõe uma retomada da síntese diastólica.

- Então, é justamente esse o ponto. Taí a signagem termo-acústica que não me deixa mentir.

- E que não te deixa raciocinar, pelo jeito.

- Está partindo pra ignorância?

- É. Quem sabe assim você me compreende...

- Olha a baixaria!

- Ora, defenda-se com argumentos. Válidos, racionais, insofismáveis. Ou então, renda-se. Tenha a humildade de abandonar a partida ao antever o cheque-mate.

- Seguirei seu conselho. Tô indo embora.

- Ei, espera aí. A gente combinou de rachar a conta.

- Parafraseando Schopenhauer, te vira Mané. Tchau mesmo.

 

É o amor

 

- Tá fazendo 12 graus e esse ar condicionado ligado no extra cool. A ideia é me matar mesmo, docinho de coco?

 

- Se quisesse te matar de verdade usaria um expediente mais assertivo e de curto prazo, uns três ou quatro comprimidinhos de alta eficácia diluídos no seu Martini das seis e meia ou algo assim. Pra que ter que aguentar você reclamando, balbuciando um discurso patético antes de morrer? Uma pneumonia, se instalada, custaria a te matar. Não, não. Prefiro uma estrebuchada só, sem muito resmungo.

 

- Bom, se ainda te sobrar um quezinho de cavalheirismo e puder me dar a chance de escolher, espere que eu durma e meta-me de uma vez um tiro no ouvido. Pelo menos é indolor. Li numa reportagem que nesta modalidade não dá tempo do cérebro da vítima ordenar para que o organismo sinta dor. Você se livra de mim, mas não me faz sofrer. Tudo bem assim?

 

- Ok, e você acha que a essa altura da nossa falência afetiva ainda há espaço para direitos humanos? Morrer tem que ser doloroso, pelo menos em se tratando de você. Tem que ser sentido até o estupor dos nervos. Eu quero que a sua derradeira experiência seja vivenciada na plenitude, se é que a morte pode ser vivenciada, entende? Mas também não pode demorar muito, não. Jogo rápido. Eu não agendaria o dia todo pra uma tarefa tão reles.

 

- O que eu não entendo é porque você se preocupa tanto com os requintes de crueldade. Ainda se eu tivesse um mínimo de importância na sua vida, vá lá, mas não é esse o caso. Você dá a mim uma relevância imerecida. Menos, por favor, menos. Guarde seu ódio pra quem seja digno dele.

 

- Discordo, amor. Você faz jus a procedimento VIP. Não tente tornar simplório o desfecho de uma relação tão complicada quanto a nossa. O pouco tempo que eu me disponho a perder com o servicinho tem que ser bem aproveitado, a experiência precisa ser gratificante. Consideremos um histórico gran finale, não menos que isso. E depois tem a trabalheira toda em sumir com o corpo, não deixar pistas, tudo isso vai me tomar horas de calculada logística e é razoável que eu seja recompensado de alguma forma. Você precisa entender que a sua morte, pra mim, tem que ser uma grandiosa e inesquecível experiência de vida. São segundinhos preciosos que eu quero saborear como quem degusta um Chateau Petrus num castelo da Normandia. Mas isso tudo estaria em pauta se eu quisesse te matar de verdade, só que por enquanto ainda não cheguei a este extremo.

 

- Fico sensibilizada, e é pena não poder dizer o mesmo.

 

- Seja mais explícita.

 

- A pizza de agora há pouco. Aliche estragado, dependendo do estrago, é fatal. E a minha metade era só de escarola. Fresca e saudável escarola. Sorry.

 

Dúvidas frequentes (FAQ) sobre nossas correntes

 

Pergunta

Para mim, esse negócio de corrente é ignorância e falta do que fazer. Ninguém vai morrer, perder o emprego, levar uma série de bofetões, desenvolver micose nos calcanhares ou engasgar com o palito do bife a rolê se interromper a brincadeira, concorda?

 

Resposta

Eu não estaria tão certo disso. Aliás, se você estivesse convicto da própria imunidade não estaria escrevendo para o FAQ, o que demonstra uma certa aflição sua em relação ao assunto. Não quero assustá-lo, mas citarei um exemplo, dentre muitos dos que se tornaram vítimas do pouco caso. Joaquim Alfredo Parnaso recebeu uma corrente e em seguida saiu de casa, no dia 12 de maio de 1978, para comprar 750g de tilápia. Não retornou até agora. O local onde funcionava a peixaria desde então já se transformou em casa de fogos, lotérica, sorveteria, Auto Elétrica Zé Chupeta e fábrica de fios de ovos, e nada do Joaquim voltar. Faz tanto tempo que a tilápia, abundante em qualquer córrego da época, hoje está quase extinta naquela região.

 

Pergunta

Recebi uma corrente me ameaçando de morte súbita caso não encaminhasse a mesma, em até 48 horas, a 20 amigos. Ocorre que 3 dos 20 emails voltaram, e só vi isso após as 48 horas regulamentares. Corro risco de vida, ou melhor, de morte?

 

Resposta

Corre. E corre pra enviar a corrente para outros 3, por garantia. Vai que...

 

Pergunta

Quando repasso uma corrente, um sujeito chamado Undelivery me manda o email de volta. Como dar um corretivo nesse safado?

 

Resposta

Esse tal de Undelivery é um dos maiores quebra-correntes que a internet já conheceu. Centenas de milhares de correntes são interrompidas por este sacrílego fanfarrão, que não parece temer a ira divina. Saiba que estamos empreendendo buscas no sentido de capturá-lo ou pelo menos de repreendê-lo sobre o péssimo hábito de retornar o email a quem o enviou.

 

Pergunta

Estava passando pra frente uma corrente quando houve um apagão. Na caixa do outlook, consta como item enviado. Posso confiar cegamente de que cumpri minha parte?

 

Resposta

Pode. Se o corte de energia afetou o recebimento do(s) destinatário(s), o problema é com outro tipo de corrente, a corrente elétrica. Assim, o castigo vai recair sobre a concessionária e seus (ir)responsáveis.

 

Pergunta

Outro dia chegou uma corrente pra mim e esqueci de enviar. Comigo não aconteceu nada, mas uma tia minha teve toda a metade esquerda do corpo amputada, do dia pra noite.

 

Resposta

Parentes são entes queridos, e isso é sinal de castigo para você. Mas antes meia tia que tia nenhuma. Da próxima vez repasse o email, para que a outra metade permaneça intacta. Aliás, já ouviu falar da expressão “meio parente”? Acho que é nesta categoria que se encaixa sua infortunada tia, doravante.

 

Pergunta

Recebi no email da firma, às 9h45, uma corrente dizendo que, se desse andamento na coisa até mais tardar na hora do almoço, receberia um grande e inesperado volume de dólares. Fiz direitinho e até agora nada. Como é que fica?

 

Resposta

Provelmente você mandou por mandar, por desencargo de consciência. Assim não vale. Tem que ter convicção, acreditar que vai acontecer para que a coisa de fato vingue. Além disso, os dólares não chegarão até você via Sedex, meu camarada. Fique atento às oportunidades de negócios, às intuições no jogo do bicho, às propostas de sociedade que venha a receber. Sua fortuna pode estar nestes avisos do destino e você nem perceber.

 

Pergunta

Às vezes eu recebo a mesma corrente vinda de 3 amigos diferentes. Se eu passar adiante as 3 ao invés de só uma delas, terei o triplo de bênçãos? Acho que seria o justo, pois tive 3 vezes mais trabalho, concorda comigo?

 

Resposta

Boa pergunta. E mereceria uma boa resposta, se a tivesse. Nem eu nem ninguém pode garantir a tríplice bem-aventurança, porém, a julgar pela lógica corrêntica, se passar pra frente as 3 com certeza terá 3 vezes menos chance de ser amaldiçoado. Já ajuda.

 

Observação da equipe FAQ das Correntes: o não encaminhamento destas instruções poderá ter conseqüências desastrosas. Repasse-o a pelo menos 3 centenas de amigos. Só a consciência e a mobilização coletiva poderão evitar o derramamento de sangue causado pela omissão preguiçosa e pela negligência.

 

Bumbum assassino

 

Estávamos em meados de fevereiro do ano passado quando disse-me meu amigo, em reserva, que considerava suas nádegas de uma formosura extrema e inigualável, bem mais vistosas, fornidas e desejáveis que a média dos assentos das moças da sua idade. Concordei por concordar, sem muita convicção e sem saber que aquela observação picante era o começo de um caminho sem volta, o primeiro capítulo de uma novela de trágico final.

 

Não exagero. Este amigo, que prefiro não citar o nome, acabou indo parar no hospício por sua causa. Ou, melhor dizendo, por culpa de sua região glútea. Um pouco antes de ganhar camisa de força, era triste vê-lo ao telefone rabiscando indecorosamente o seu traseiro num bloco de anotações enquanto conversava com a mãe, que do outro lado da linha, em João Pessoa, jamais poderia imaginar a compulsão que assolava o filho. O seu popô, minha cara, era invariavelmente o assunto único, da mesa de trabalho à mesa de bar, passando pela arquibancada do estádio, pelas conversas no ônibus e até pela sessão espírita. Convertido devotamente à carne que a senhora faz questão de avantajar com suas calças apertadas, é lógico que o meu amigo teve desmoronados os alicerces da moral e da religiosidade. E ergueu em sua casa um altar, o mais profano dos altares, onde ultimamente ele passava as 24 horas do dia ajoelhado, cultuando seus fundilhos através de uma foto digital fora de foco que ele conseguiu tirar às escondidas de sua formidável parte, num dia em que a senhora passava distraída com uma sacola de laranjas na mão e um chumaço de algodão doce na outra, a caminho sabe-se lá de onde.

 

Homem casado – e bem casado, de papel passado e tudo aqui no Cartório de Barbacena – admito que vez ou outra também olhava de soslaio à sua passagem. Porém com olhar clínico e crítico, de quem olha para fazer o reconhecimento do objeto que desgraçou a alma e a vida digna de um inocente, um sujeito que até o seu aparecimento considerava a nádega uma parte anatômica como outra qualquer, com funções fisiológicas bem definidas (muitíssimo bem definidas, para se dizer a verdade, em se tratando do seu caso). E não havia mulher e respectivo traseiro que substituísse a senhora e o dote que o Criador lhe concedeu na ambição e na imaginação do infeliz. O sentido da vida começava e terminava ali, onde a senhora tem o cóccix.

 

Aquela sua coisa, que o Mussum chamava em rede nacional de “forévis”, selou para sempre o destino do meu amigo. E seu tenro lombo recebeu um número incalculável de homenagens solitárias da parte do adorador supracitado, às vezes dezenas ao dia, tributos que ele ia computando com risquinhos de pincel atômico nos azulejos dos banheiros – os vários a testemunharem aquele ritual escravizante. Renunciava à conjunção carnal com quem quer que fosse, em favor de mais e mais adorações onanistas. A situação se agravava a cada dia, e ia tomando proporções jamais relatadas nos anais da psicologia ou da literatura médica. Ao entrar na casa do meu amigo para buscar o pijama e levar ao sanatório, deparei-me com outras excentricidades. Sua poupança ilustrava tanto o papel de parede do quarto quanto o do computador, e uma reprodução do seu playground ganhou moldura e lugar nobre na sala de estar do coitado. Debaixo do travesseiro encontrei um envelope, com algumas poucas instruções caso acontecesse algo que levasse meu amigo deste mundo. Dentre elas, a forma e as curvas inusitadas que deveriam ter o seu túmulo.

 

Chega de saudade, Copacabana

 

Aconteceu num sábado de quaresma. O primeiro achado das escavações foi sendo içado lentamente de sob a areia de Copacabana. O ébano dos sustenidos e bemóis ganhava a superfície refletindo o sol da manhãzinha, depois as 88 teclas de marfim e em seguida todo o piano de cauda. Na banqueta, um tanto estreita para duas pessoas, Villa lobos e Ernesto Nazareth tocavam a 4 mãos, ambos de fraque e sorrindo um para o outro. O charuto de Villa incomodou Elizeth, que passava de maiô e com o LP “Canção do Amor Demais” embaixo do braço. Aproveitava o mar enquanto não chegava a hora de brilhar no palco de uma boate da zona norte do Rio. Muito além da rebentação, e com a água já pelo pescoço, Vinícius contava os peixinhos a nadar no mar para saber se eram menos que os beijinhos que dera há pouco na boca da amada. E o guindaste abria alas puxando uma Chiquinha Gonzaga meio sem jeito e assustada, violão numa mão e arrastando Caymmi pela outra, um Dorival ranzinza a reivindicar que aquela não era a areia de Itapuã e que andara de fato morto, mas de saudade da Bahia. Uma outra prospecção trouxe dessa vez tenra e gorda coxa de frango assado. E como atrás de toda coxa de frango assado sempre vem um Dom João VI, lá estava o monarca a reboque, os dentes cravados na iguaria e ameaçando colocar a Guarda Real no encalço da Carla Camuratti, pelas supostas infâmias contra Dona Carlota Joaquina. Ao meio-dia e quinze foi a vez de Nelson Rodrigues, com as olheiras fundas do sono eterno, batucando freneticamente numa Remington descascada pela maresia os originais de “A morte como ela é”. Acendeu um cigarro e, de onde estava, acenou para Vinícius, que entretido com a contagem de peixinhos deixou o autor de “Vestido de Noiva” a ver navios. E junto com as pessoas vinham coisas – mesas de telefone com pés de palito, fonógrafos da Casa Edson, sopas ainda fumegantes para os ressaqueiros do Café Nice, lampiões da Rua do Ouvidor. Mas eis que depois de um tempo o guindaste já não precisava trabalhar, pois objetos e ressuscitados eram cuspidos violentamente pela areia e ganhavam os ares como gêiseres, alguns deles à altura do Corcovado. O espetáculo maior se deu com a erupção de Carmem Miranda, do Bando da Lua e de boa parte do elenco da Rádio Nacional. Em meio a eles flanavam, como freezbes, discos de 78 rotações, bananas, abacaxis, balangandãs, batas rendadas, pulseiras de ouro e tudo o mais que baiana tem – ou tinha, no auge da sua glória.

 

Ao fenômeno inusitado ninguém na orla ficou indiferente, nem mesmo a estátua de bronze de Drummond. De pernas cruzadas no banco do calçadão, o poeta se virou para observar melhor o que estava acontecendo. E deu de cara com Machado em carne e osso às suas costas, as barbas cheias de areia, a olhar intrigado para a fileira de prédios da Avenida Atlântica. Invocando memórias póstumas, perguntou a Carlos:

- Por acaso o amigo sabe se o bonde para o Cosme Velho já passou?

- Se passou, lamento informar que não vi. Roubaram-me os óculos de novo.

 

Assim não. Melhor assado.

(A resposta dela ao post anterior)

 

É, melhor assado. Melhor vê-lo assado numa travessa de prata e com uma maçã na boca do que vivo, como um ser humano normal. Alguém que se esconde como você, atrás de um avatar sem graça e de baixa resolução, não merece mesmo sair do anonimato. Ou quem sabe tenha motivos escusos para insistir em mantê-lo, o que me parece ainda mais assustador e deprimente. À sua sugestão de um “escaneia, mulata, escaneia” na casinha de pau a pixel eu respondo com a boa e velha Clementina e seu “ensaboa, mulata, ensaboa” no meu vinil e na minha vitrola de átomos de verdade. Cercada por minhas paredes de sólida alvenaria, que mesmo com a pintura descascando, valem mais e me fazem mais proveitosa companhia do que você, cybercovarde.

 

Fique o senhor sabendo de pelo menos uma parte do estrago que fez. Meu tio-avô Anacleto estava nas últimas lá em Carazinho e arribou do seu leito de morte quando soube que eu tinha arrumado um pretendente. Minha mãe já acomodou o enxoval na charrete e tá com a buchada de bode no fogo, só esperando que dê o ar da graça e peça minha mão ao mano Juvêncio, pois meu pai é falecido de barriga d’água desde 1997. O que é que eu vou falar pra eles? Tem mais: faz duas semanas que pedi as contas da firma e tranquei a matrícula do curso de secretariado, me fiando em sua promessa de encher a casa de meninos tão logo tivéssemos a benção da Santa Madre Igreja. Meninos com ranho escorrendo, cascão atrás das orelhas e estilingue na mão atrás de pardal. Guris de sangue nas veias, meu caro embusteiro virtual, que nos acordassem de noite com seu choro e enchessem de pocinhas o assoalho com seu mijo. Mas a vida assim, do jeito ela é, passa longe da sua retórica internética e do chiqueiro que decerto o senhor ocupa em Farmville. Fique com seu Windows que eu fico aqui sonhando com janelas de venezianas largas, onde o sol bata de manhã e o vento fresco sopre de tarde, estofando o voal como se fosse um véu de noiva. Noiva que você, seu vírus destruidor de HD, jurou que logo eu seria.

 

Com vocês, Walderley Camargo

 

- Walderley Camargo é WC. Só podia dar merda...

- Do jeito que você fala, parece que a culpa é só minha. Se tem um culpado nessa história é o Dezão da rádio. Ele jurou que o besta era um arrasa-quarteirão, que juntava 20, 30 mil na praça facinho e sem propaganda nenhuma.

- E o cara, além de não vender ingresso, ainda pendurou um monte de despesas no nosso nome. Era tudo o que a gente precisava, começar o ano na lista do Serasa. O pior é a desproporção – os extras dão quase quatro vezes o valor dos cachês.

- É, mas isso não tem jeito, estava no contrato. A gente sabia desde o começo que era R$750 do cachê do Walderley, R$230 dos músicos mais as despesas de hotel e alimentação.

- Fora o pedágio, que de Presidente Epitácio até aqui deu mais do que a bilheteria toda. Tamo na roça, mano. E tem o aluguel do ginásio de esportes, mais 12 copinhos de água Prata, mais uma caixinha de tic-tac, mais uma dose de Fernet com mel, mais cinco marmitex do Skinão da Costela... de onde é que vai sair o dinheiro?

- Estaria bom se a coisa parasse por aí. Diz que o Walderley levou uma diarista pra dentro da Variant dele e fez o serviço na pobre, assim que acabou o show. Agora a mulher anda dizendo que está grávida e que assim que a criança nascer vai fazer o exame de paternidade pra provar que o Wal é o pai dela.

- Perda de tempo. Vai exigir o que daquele sujeito? Alguém tem que falar pra ela que metade de nada é nada...

- Negócio tá sério, Mano. Daqui a pouco chega intimação do delegado no escritório, decerto a gente vai ter que depor sobre o caso.

- Walderley Camargo, clone do Wanderley Cardoso... onde é que a gente estava com a cabeça, meu Deus do céu? Até o Lindomar Castilho Cover era melhor que isso.

- A gente quase escolheu o show do Herondilson, lembra? Primo-irmão do Herondi, aquele da dupla.

- Então, mas ainda se a Jane viesse junto. Ou a prima-irmã dela, que fosse. Ficava o parzinho, né.

- Mas foi aí que a gente se ferrou. Miopia de marketing, mano. Olha só: Wanderley Cardoso, Lindomar Castilho, Jane & Herondi, esse povo aí tá animando baile no retiro dos artistas. Quem curtiu essa turma é tudo vovó, que não sai mais de casa por causa do reumatismo. Por isso é que estava baratinho. Vai ver quanto é que custa a Ivete Sangalo, vai lá ver...

- O jeito vai ser passar o mico pra frente. Apareceu credor a gente manda pro Dezão, não foi ele que fez a gente trazer esse bosta pra cá?

- E com certeza ainda levou bola do cara. Dos setecentos e cinquenta do cachê, uns quinzinho o Walderley separou pra ele.

- Daí pra mais.

- É, daí pra mais.

- Da próxima vez, se houver próxima, a gente tem que investir na certeza. Eu por mim trazia o “Indicador”. É tudo ao vivo, não tem nada de playback, e os caras ainda trazem umas quinze menininhas de perna de fora, mais gelo seco, canhão de luz igual o do Orlando Orfei, globo espelhado. Superprodução, mano, até ônibus os caras têm.

- Tá vendo só, se deixa você já apronta outra besteira. “Indicador”, o cover do “Polegar”? Tenha dó, meu. Eu vou interditar você, mano, você solto na praça é uma ameaça à economia popular.

- Mas esse não tem erro, vai por mim. E com a grana que der a gente cobre o prejú do Walderley. Aí pronto, a coisa entra no eixo de novo. Melhor negócio que isso, só abrindo um xerox do lado do Fórum. Heim, que me diz, heim???

 

Duña convida

 

Sua Eminência, o Duña, comunica à população em geral, e aos bípedes de fé vacilante em particular, que estará realizando Retiro Espiritual entre os dias 13 e 16 do corrente, em sítio ainda não escolhido. Os interessados deverão preencher formulário de inscrição próprio, disponível na sede da Associação das Testemunhas da Glória Duñesca, em três vias de igual teor, anexar comprovante de residência e aguardar chamada para o Processo Seletivo – já que inevitavelmente, a exemplo do ocorrido em Carnavais anteriores, a quantidade de interessados em muito excederá as 857 vagas oferecidas.

 

O Mestre aproveita este comunicado para alertar sobre fanfarrões agnósticos que vêm comercializando, pelo universo e adjacências, formulários falsos e sem o lacre de cera vermelho, que traz estampada a silhueta do Venerável em posição de Lótus. Alguns desses excomungados meliantes têm ainda o atrevimento de vender o gabarito da prova de admissão, por valores que chegam à casa dos R$ 59,07. “O acesso a esta rara oportunidade de iluminação deve ser meritório, e jamais objeto de conchavo, barganha e corrupção”, adverte o Sábio dos sábios. E conclui: “Tal conduta é abjeta aos cânones vigentes e trará como conseqüência a condenação das partes envolvidas à danação eterna, quando inalarão enxofre até que explodam de náusea”.

 

Na impossibilidade de participar do Retiro, e sendo o fiel coagido a se embrenhar na folia pagã, seja de salão ou de rua, este poderá – e deverá – paramentar-se com a máscara do Duña, produzida e comercializada sob supervisão de Duña Participações Entertainment Inc.,, encontrável facilmente nos bons semáforos do ramo nas versões de papelão, borracha e plástico injetado. Opcionalmente, poderão os seguidores do Mestre se organizar em blocos, confeccionando estandartes de 2,5m por 1.5m com a efígie do Duña, ladeada por alguma de suas tantas frases lapidares. O ato pecaminoso, neste caso, se converteria em trabalho missionário, pois contempla a divulgação da palavra redentora aos frequentadores do inferno.

 

Mas lançar a boa semente em latifúndios de Satã é empreitada heroica. Faz-se necessária, portanto, a leitura prévia e de joelhos do chamado “Trio Momístico”, obra capital que compreende os seguintes volumes:

. “Transformando o aval da carne em libertação do espírito”, disponível em bibliotecas públicas e na seção de livros do Extra Hipermercados;

. “Transcendendo o chacoalhar das nádegas – o dez passos da autoflagelação purificante”;

. “Se a vida lhe der uma serpentina, faça dela uma mandala” (por Mestre Duña e Beato Lindemberg), 3ª edição, revista e atualizada pelos autores.

 

Além de roupas suficientes para o período, pede-se trazer os víveres abaixo listados.

 

Homens: Protector elétrico, aparelho Prestobarba Maxiaction Plus III, urinol (também conhecido como penico), escova de cabelos e sabão de coco.

 

Mulheres: toalhinhas higiênicas para eventual ocorrência de regras, uma quantidade razoável de prendedores de porta em formato esférico, 750 ml de Água Sanitária de boa procedência e 16 (dezesseis) esponjas do tipo Scotch-Brite.

 

Crianças não serão admitidas. O staff organizador do evento confiscará quaisquer gêneros alimentícios trazidos pelos participantes, devendo o jejum imperar até as 12 horas da quarta-feira de cinzas.

 

*  *  *

 

Provador no analista

 

O PROVADOR

 

O emergente nicho de provadores é um mundo à parte. Muito à parte. Imune às oscilações do mercado de trabalho, ao desempenho dos fundos de renda fixa e ao terremoto do Haiti, não consta até hoje nem nas Delegacias Regionais do Trabalho nem na Caixa Econômica um único pedido de seguro-desemprego dessa categoria profissional. Ultraespecializados, sua sensibilidade peculiar em um dos cinco sentidos lhes garante a chamada jornada 8 x 4 – oito meses de trabalho e quatro de Club Med em sistema All Inclusive.

 

A habilidade inata para uma coisa só os torna, não raro, insensíveis a todas as outras. O resultado é uma autoestima exacerbada que fatalmente desencadeia algum distúrbio emocional ou neurológico. Basta citar as multidões de provadores de cerveja, vinho, perfume e sopa de cebola nos consultórios dos psicanalistas, alguns deles pagando fortunas por um encaixe emergencial na quarta-feira às 12h30.

 

À parte o egoísmo natural ou adquirido, são extremamente sociáveis. Entre eles, bem entendido. Possuem comunidades no Orkut, seguem uns aos outros no Twitter e organizam encontros na vida real várias vezes ao ano. No mais recente, realizado em Boiçucanga, fizeram até uma camiseta com os dizeres: “Encontro de Provadores 2009. Provei e aprovei!”. Foi vestindo uma delas que Sara chegou para sua consulta na clínica da Dra. Maria Carolina.

 

NO ANALISTA

 

- Fale-me mais sobre ele.

- É provador de café. E sofre de insônia, obviamente. Fico imaginando a cesta básica que a empresa dá para o cara todo mês. Deve ter Frontal, Valium, Dormonid, Rivotril, tudo quanto é tarja preta. A última vez foi horrível, doutora. Depois de um sexozinho bem Nescafé aguado, que tive que fingir ser um autêntico Arabica Coffee, ficou a noite inteira falando de um colega seu italiano, também provador de café, que fez um seguro da própria língua por 10 milhões de libras. Eu morrendo de sono e ele falando que no seu caso as papilas gustativas são tão importantes quanto as pernas para um jogador de futebol e as mãos para um pianista. E que eu, como provadora de perfume, tinha que fazer uma apólice do meu nariz...

- Prossiga.

- Então, mas no começo era bem diferente. E a doutora nem imagina onde tudo começou.

- Onde?

- No provador da M.Officer. Rolou o maior amasso. No auge da coisa, me segurei na cortininha e as argolas foram arrebentando uma a uma, descortinando tudo.

- Isso parece “Psicose”.

- Tá me chamando de louca?

- Não, tô falando da cena do chuveiro do filme do Hitchcock.

- Bom, mas aí ele começou a falar que na outra encarnação ele queria nascer classificador de pintos.

- Como é que é o negócio?

- Não deixa de ser uma espécie de provador. É um sujeito que usa a ponta do indicador esquerdo para determinar se o pintinho recém-nascido é galo ou galinha. Só de passar o dedo na genital do bichinho ele já sabe. A margem de acerto de um profissional de primeira linha é de 98 por cento, contra 76 por cento dos classificadores visuais. Vivem viajando mundo afora de granja em granja, ganhando o que querem. No Brasil tem um japonês famoso, que só faz isso. Três da manhã e ele me dizendo essas coisas...

- Ah.

- É estranho esse seu risinho de canto de boca. Parece até que você conhece o Diogo.

- E conheço mesmo, só não sabia da história do classificador de pintos. Aliás, ele tem consulta comigo amanhã.

 

Porcos marcados com batom

 

Havia um certo desconforto, sim, ali na cabine da máquina do tempo. Mas os cockpits dos F1 também são duros e apertados, e nem por isso deixam de levar seus ocupantes a uma realidade privilegiada – pensava ele, com o indicador direito pronto para acionar a data da aventura. O ano, o mês e o dia exato que escolhesse para ir para trás ou adiante do presente. Em segundos se desintegraria para se reintegrar em outra dimensão, quem sabe num lugar onde a morte não fosse tão definitiva ou talvez tivesse sucumbido à morte de si mesma.

 

Uma questão não resolvida, e à qual só teria resposta fazendo uma primeira experiência, era se manteria a forma e a idade do presente para onde quer que fosse. Poderia ser mais velho, mais novo ou permanecer nos 32. Trazia os bolsos cheios das coisas de agora, utensílios contemporâneos para embasbacar os do passado ou fazer rir os do futuro. O mais difícil já estava resolvido: a engenhoca teoricamente estava pronta pra funcionar. Foram 9 longos anos de cálculos e recálculos, que esperava recuperar com a recompensa de domar o tempo.

 

Tudo estaria muito bem não fosse a aparição de uma freira, vindo ofegante em sua direção.

 

- Você não sabe quem sou mas estou vindo de lá, para onde você foi e atrapalhou tudo. Viajei também no tempo e estou aqui para evitar sua ida.

Confuso com a intervenção, argumentou:

 

- Como pode provar que fui se não tenho lembrança de onde estive e, pra falar a verdade, nem escolhi ainda pra onde vou?

 

- Aposto que este revólver, aqui no bolso do meu hábito, também não lhe diz nada porque neste momento você não tem como saber o que já fez, mas o que fez ainda pode deixar de ser feito. Isso se você me permitir agir rápido e não fizer muitas perguntas.

 

- Mas se deixar de fazer o que está pra ser feito você nunca poderia estar aqui, porque o que foi feito não teria ocorrido e, portanto, não teria motivado sua vinda até aqui pra me impedir de fazer seja lá o que for. Consequentemente, eu tenho que fazer o que penso em fazer. Caso contrário você é uma alucinação, alguma brincadeira do Amílcar, o único cara que sabe que eu estava construindo a máquina.

 

- Se você me deixar explicar, tudo pode ficar mais fácil.

 

- Bom, já que você quer explicar, me diga como é que você veio pra cá com a máquina do tempo se a máquina está aqui? Por acaso a irmã desenvolveu uma réplica lá no seu convento?

 

- “Porcos marcados com batom”, talvez se lembre de algo assim...

 

- Irmã, meta-se com seu tempo que eu cuido do meu. Seja você do passado, do futuro ou muito pelo contrário. Até porque pra mim você é do presente mesmo, alguma conhecida do Amílcar fantasiada de freira.

 

Nem acabou de dizer isso quando viu aproximar-se alguém que deveria ser ele próprio, uns quarenta anos mais velho, careca e de barba grisalha, alertando:

- Ignore a freira, idiota. Ignore! “Porcos marcados com batom” é a senha para...

 

Nisso a freira sacou o revólver e disparou quase à queima-roupa naquele que parecia ser ele depois do derrame. Enquanto pensava no que faria, apareceu uma biga vindo em sua direção, com um gladiador açoitando ferozmente os dois cavalos. Sentiu o coice violento na cabeça e quando abriu os olhos estava numa cama de hospital. Olhou pela janela e viu Pilatos ao longe, lavando as mãos.

 

Inviolável

 

Ali, todo oferecido, o buraco de fechadura a se devassar a quem se dispusesse. Mais que suspeitos, os ruídos lá de dentro entregavam a indecência que nenhum dos dois (seriam só dois?) se preocupava em abafar. O certo é que por aquela fresta ninguém veria nem borboletas voando nem fiéis em novena, mas quem do lado de cá para o gesto condenável, para curvar a espinha e confirmar que não eram mesmo nem novenas, nem borboletas?

 

À porta, juntava gente. Curioso, alguém desce à recepção e confere a lista de hóspedes. Ninguém naquele quarto. Já agora os uivos do sexo bruto são gritos de guerra civil. Crianças que vomitam ao cuspe das metralhadoras. No 306B, com suíte, sacada e vista para a praça, se encerra o mundo de quem não se tem ideia. E a guerra de há pouco vira algo próximo de pregão da Bolsa, depois de programa e auditório, em seguida de previsão do tempo e enfim de coral de igreja.

 

- Arrombemos, arrombemos – dizem os alguéns vários em uníssono.

 

Lá dentro, a TV ligada e um cão. Com o controle remoto na boca.

 

Ocorrências policiais da província - parte II

 

Por Laudilene Elizandra,

da Reportagem Local

 

Um prato raso de fios de ovos e uma porção de lasanha à bolonhesa por pouco não levam à morte dois dos nossos mais respeitáveis munícipes – o Dr. Draconiano de Campos Pimentel, chefe do Posto de Arrecadação Tributária local, e o conhecido “Ditinho Puxa-Uma-Perna”, dono da fábrica de gatilhos.

 

Após chegarem às vias de fato em plena Praça da Matriz, por motivos até aquele momento não elucidados, as partes beligerantes dirigiram-se engalfinhadas à sede da “Tribuna Varonil” e transformaram em ringue a redação deste matutino. Os sopapos e insultos de baixo calão comeram soltos até a chegada o cabo Edélcio, que convertido ao islamismo tentava apaziguar os ânimos segurando numa das mãos o Corão (pela capa dura e espessura do volume, era quase um escudo à prova de balas) e na outra um par de algemas em aço temperado de marca Alcatraz.

 

Acender velas e entoar ladainhas talvez pouco valesse nessa hora de fúria cega e juras de morte, mas ainda assim se tentou. Dona Benedita, cônjuge do Dr. Draconiano, armou um altarzinho improvisado entre a mesa do editor adjunto e a do revisor. Terço à mão, entoava em rodízio Ave-Marias e Salve-Rainhas, invocando a intercessão do Santo Espírito ou de alguém em carne e osso, com osso e carne suficientes para apartar os dois desafetos.

 

Visivelmente consternada e com o raciocínio turvado pelas fortes emoções, Dona Benedita posteriormente relatou à reportagem a causa da desavença.

 

Como é de conhecimento geral, a indústria de “Puxa-Uma-Perna” andava tão claudicante quanto o seu malfadado proprietário. De acordo com Dona Benedita, a crise no setor de armas atravessa uma reação em cadeia. Do coldre ao cão, da alça de mira ao tambor – passando por uma infinidade de projéteis de calibres variados - um fornecedor vai transferindo o calote ao outro. O resultado são pistolas, rifles e metralhadoras com canos mas sem gatilhos, com tambores em perfeito estado mas sem balas que os alimentem. Dono de um estoque de 24,5 toneladas de gatilhos, e mantendo o quadro de funcionários em férias coletivas desde julho do ano passado, Ditinho não teve outra alternativa a não ser recorrer a subterfúgios emergenciais de sobrevivência. Foi quando lhe ocorreu a ideia da rifa, pomo da discórdia dos quase-óbitos. Ofereceu em permuta ao Buffet da Dinorah 750g de gatilhos em troca das porções de fios de ovos e de lasanha para serem rifadas junto aos moradores, à razão de 5 reais o número. Quando da divulgação do resultado, na quinta-feira passada, “Ditinho Puxa-Uma-Perna” anunciou que o contemplado era ele mesmo, que empenhara os últimos 5 reais que tinha no bolso para fazer também sua fezinha.

 

“Não tenho culpa se fiquei com o prêmio. Não existe no regulamento das rifas cláusula que impeça o próprio rifador de adquirir um ou mais números para si próprio”, justificou-se ele ao nosso jornal. Chamado de “cafajeste” e “ordinário” pelo coletor de impostos, “Puxa-Uma-Perna” retrucou o insulto com uma risadinha sarcástica. Num acesso de desatino, Dr. Draconiano sacou de sua garrucha, absolutamente íntegra por ter sido fabricada antes da crise da indústria bélica. Ditinho teria visto Nossa Senhora mais cedo não fosse o tambor descarregado da arma do Doutor. A risadinha do rifador transformou-se em gargalhada, que acabou por contagiar todas as testemunhas da cena. A humilhação fez com que o Dr. Draconiano partisse para a luta corporal, única forma de reverter a peleja a seu favor.

 

O caso está nas mãos do Juiz de Pequenas Causas, que deverá dar seu parecer quando da volta de suas férias na Praia Grande. Mais notícias na próxima edição da “Tribuna Varonil”.

 

Moacyr Mantovicci, ímpar entre os ímpares

 

Logo após marcar a ferro e fogo as duas dezenas de bois recém-chegados, Moacyr Mantovicci banhou-se, enfiou como de hábito a cara nos livros e compreendeu finalmente a diferença geográfica entre o clima semiárido das regiões setentrionais e a depressão marginal Sul-Amazônica. Em seguida pensou triunfante, estalando os dedos e exalando sabonete barato, que eram quinze os volumes sobre a mesa e que nenhum deles revelaria o que de fato levou Gutenberg à descoberta da imprensa – se o amor à evolução da humanidade ou se a solidariedade a um seu primo em segundo grau, monge copista com sérios problemas de coluna e início de catarata. Estas e outras conjecturas não contempladas pela história oficial, quando se apresentavam à sua reflexão, tomavam boa parte do seu dia e não raro avançavam pela noite, deixando-o insone a rabiscar apontamentos.

 

Nas raras ocasiões em que se punha a falar pelos cotovelos, reunindo seleta audiência à varanda da fazenda, mostrava que a modéstia estava a léguas do seu elenco de virtudes. Batia no peito alardeando as centenas de ideias que concebera em prol das populações desassistidas, como o sistema de pesca em mutirão e a moagem extra-rápida de milho – via aperfeiçoamentos nas rodas d’agua e na mecânica dos moinhos. Aos gritos de “Bravo, Bravo!”, seu nome era cogitado à vereança e até mesmo ao posto mais alto do Executivo Municipal, embora alguns dos vizinhos correligionários não vissem em sua estampa suficiente carisma para inflamar as massas e resultar em consagradora vitória nas urnas.

 

Acompanhando a notável imodéstia, era flagrante em Moacyr uma ambição avassaladora, explícita na forma como olhava para as notas de 50 e imaginava seu rosto nitidamente delineado em bico de pena no lugar do desenho da onça. Esta sim, a pretensão suprema: mais que ter dinheiro, ser dinheiro. Seria literalmente proclamar ao mundo, a todo instante, o seu valor. No afã de fama a qualquer custo, antevia detalhes fisionômicos talhados nas estátuas em bronze que se ergueriam, em cada esquina, homenageando sua pessoa.

 

Uma estranha herança carregava de nascença o nosso herói, esta absolutamente sui-generis: tinha estrelas gravadas em relevo na palma da mão direita, ornando a longa e bem traçada linha da vida. Além de matéria exclusiva no “Fantástico” da época, uma equipe médica da Organização Mundial de Saúde teve acesso à Santa Casa local para apurar melhor o fenômeno. Inconclusivos, os estudos foram repassados a uma junta internacional de ufólogos, que também abandonaram o caso ao cabo de três semanas. O dossiê, de 71.000 páginas datilografadas em espaço dois, foi entregue ao rabino Petrushka Schnaidermann que o vendeu como sucata ao popular “Mudinho”, coletor de recicláveis.

 

Paradoxal por natureza, ninguém como Moacyr Mantovicci para num dia se fartar de empadinhas de anteontem e noutro exigir lagostas gratinadas ao molho de caviar russo. Numa das ocasiões em que degustava lentamente esta segunda iguaria, pediu a palavra aos convivas, levantou-se e, passando o guardanapo de linho nos lábios, proclamou a máxima que o marcaria para a posteridade: “Senhores, é forçoso admitir que nenhum ser humano é tão humanamente falho a ponto de errar cem por cento das vezes”. Estes e outros fundamentos filosóficos dizia ele a quem se aproximasse, estando ou não desencapando rolos e mais rolos de fio de cobre – para ele um misto de passatempo e ganha-pão.

 

 

O Zen necessário

 

Bem, ao que tudo indica o seu caso é bastante simples, embora as abordagens mais recentes recomendem uma conduta multidisciplinar com observação constante e rigorosa. Comece com três horas semanais do velho, bom e inescapável divã, nas velhas, boas e inescapáveis sessões de 50 minutos cada. Olhando para o teto, a parede, a micose na unha do mindinho ou qualquer outra coisa que não seja a cara do analista, vá desembuchando o que der na cachola. Mesmo que em doses homeopáticas, lembrando que homeopatia séria exige acompanhamento de médico habilitado e uma farmácia de manipulação de absoluta confiança. Acredite no que a numerologia e o baralho cigano profetizam para os seus próximos dez minutos de vida, transcenda os véus ilusórios da razão e visualize o terceiro chakra cercado de runas e patuás de Oxóssi por todos os lados. Caso não consiga visualizar nitidamente, é aconselhável consultar um iridólogo que prescreva shiatsu e florais concomitantemente à terapia de vidas passadas. Leia o Livro dos Espíritos da página 129 até a 354 no mínimo duas vezes ao dia, logo após o Bhagavad-Gita, enquanto banha-se de luz azul num ofurô de bom tamanho - mantendo obviamente a face voltada para Meca e o pensamento focado  em Buda. Inspire pelo nariz e expire pela boca, em movimentos abdominais ritmados e profundos, tendo em mente que o alcaçuz in natura apresenta propriedades terapêuticas conhecidas desde os tempos do império asteca, o que pode ser particularmente benéfico no seu caso. Repouse suavemente os braços sobre as pernas, diga “OM” enquanto faz do-in e conserve atitude positiva diante dos percalços, ainda que você deva estar o tempo todo sem sapatos para captar da terra a energia telúrica. Contudo, jamais encare descalço o Caminho de Santiago, mesmo que o referido caminho seja para você uma excursão de 3 dias para a capital do Chile, com traslado, café da manhã e city tour. Em seguida, para saber se está ou não sob efeito hipnótico, ordene que sua mão esquerda comece a formigar. Formigando, junte-a com a direita em posição de prece acima da cabeça, mantendo a postura de lótus e o ambiente aromatizado com incensos de sândalo, rosa branca e limão cravo. Qualquer que seja a resposta do organismo, a radiestesia xamânica é não apenas útil como enfaticamente recomendada, tanto pelos monges tibetanos quanto pelos frades da Ordem Terceira do Divino Sacramento. Terminado o procedimento e feita a pós-assepsia prescrita na segunda série de exercícios de pilates, repita a operação todas as vezes em que, a leste da constelação de Andrômeda, surgir uma estrela âmbar. Persistindo o estado inicial, é hora de lançar mão do reiki, da yoga, do feng shui, da mandala, da massagem ayurvédica, da cabala, da cura prânica, da terapia holística, do mapa astral, do tarô, da gnose, da massoterapia e da acupuntura, necessariamente nesta ordem. Ou não, se assim sentir-se mais confortável.

 

Minha homenagem ao Jornalzen, que há 5 anos vem conseguindo colocar ordem e sentido na bagunça aí de cima.

 

Santa Letícia

 

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.

  

Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter. 

 

Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares e o samba-enredo dos blocos e escolas no carnaval. Recebeu, da câmara dos vereadores, o título de Cidadã Benemérita, mesmo não tendo feito benemerência alguma. Nos dias cívicos, subia ao palanque e fazia sombra ao poder constituído. Sem que soubesse, pois provavelmente a coisa se articulava na surdina para lhe fazer surpresa, era tida como certa a aprovação da mudança do nome do município para Leticiópolis. 

 

Para Letícia, só boas novas. Que não viessem a ela com problemas e aborrecimentos. Poupassem-na de boletins com notas menores que dez, da morte súbita de entes queridos, do furacão em Guadalupe e suas 2774 vítimas. Para o olhar e a degustação de Letícia, só as bem-aventuranças, os objetos desinfetados e as obras-primas consagradas pelo tempo. Só os heróis condecorados por ações de bravura, só o mais entorpecente incenso da Pérsia. Conhecer Letícia e jogar-se sem reservas aos seus pés era o ticket para o paraíso. Para isso organizavam excursões e vigílias à sua porta, na esperança de vê-la de relance. E nessa tietagem havia respeito, pois ninguém ousaria pedir-lhe um autógrafo ou uma foto ao seu lado. Sabiam que Letícia era exclusiva das molduras e altares, a ela faziam novenas e promessas embora ninguém a tivesse nomeado padroeira ou benfeitora. Na verdade, daquela boca de 28 anos quase ninguém ouvira palavra, e quanto mais muda Letícia mais ensurdecedora era a sua adoração. 

 

Quando souberam que naquela manhã havia sido vista, sem motivo aparente e por um cochilo do querubim estrábico, nas imediações da estação ferroviária, correram esbaforidos o bispo, o promotor de justiça, o prefeito safenado, o grão-mestre, o diretor do colégio e o presidente do clube. Mas o trem chegou mais rápido e a encontrou nua, deitada nos trilhos.

 

Ceias

 

I

 

Ana Carolina parecia particularmente bela naquele Natal. Havia algo na proximidade do advento que lhe dava um frescor extra, de imediato percebido até pelos cachorros da vizinhança. Olhava sua imagem disforme numa das bolas da árvore, e só nas bolas da árvore se via deformidade. Ela, a perfeitíssima da vez, tenra como um tender. Era só a polpa da carne do mundo, mas uma carne casta de 14 anos, que até o Natal passado ainda acreditava no bom velhinho. O mesmo Papai Noel oficial do quarteirão que agora cofia a longa barba com olhares pouco cristãos para suas pernas. Ho, ho, ho, que ceia – pensa quase em voz alta.

 

II

 

Por mais bem feito que seja, o melhor dos pudins comuns não iguala o pior Christmas Pudding, alteza das mesas todas, de South Kensington a Windsor. Mildred e Richard dividem o sofá, aprumados e solenes como numa foto de colégio. Todos os botões fechados até os pulsos e pescoços, pelo frio e pelo recato. A guirlanda na porta data da primeira grande guerra, quase um escudo de família. As 18h16, na Abadia para os ofícios litúrgicos, honrariam a tradição dos McCalister. Nunca em mais de 800 anos alguém do clã deixou de comparecer, à noite e na missa solene pela manhã, já com o Jesus nascido e sorrindo para as vaquinhas. Enquanto isso, ele a ler e ela a tricotar. Sobravam nozes, mas faltavam dentes. Fome também não havia.

 

III

 

Damasco seco seria azia na certa. Melhor evitar. Para uma véspera de Natal, a temperatura nunca esteve tão amena em Roma. Junte esse calor inesperado com os holofotes cegantes, o mundo em torno dele dentro de uma hora e meia. Precisava se paramentar, mas deixava-se ir ficando um pouco mais sob os linhos. Este sucessor de Pedro é humano antes de ser qualquer outra coisa. Um frango grelhado com arroz branco, e mais não queira inventar, Bento. A noite e a idade já vão avançadas. Cheio de vida, hoje, só o filho de Deus que nasce daqui a pouco para a redenção da humanidade.

 

A/C do Setor de RH

DADOS BIOGRÁFICOS

 

Março 1985

Primeira comunhão, no dia 16 do mês em epígrafe, tendo como orientadora a catequista Irmã Luiza Habemus. Em 1983, no decorrer do quarto ano de preparação, conquistei monitoria na matéria “Pecados Veniais – II”.

 

Junho 1974

Batizado, no dia 30 do mês em epígrafe, na Igreja São Judas Tadeu, seguido por recepção aos convidados no salão de festas da mesma. Camafeus de nozes e barquinhas de maionese foram fornecidos pelo “Buffet da Rosa”. Celebrante: Padre Zebedeu Dias.

 

Fevereiro 1974

Nascimento, no dia 12 do mês em epígrafe, na Santa Casa de Misericórdia Imaculada Conceição. Modalidade de parto: cesariana. Médico responsável: Dr. Aderbal Loureiro da Mota Diniz.

Período de incubadora:11 dias. Data da alta: 23/02/1974.

 

FORMAÇÃO ACADÊMICA

 

1995

Academia Best Body: prática de Step, Esteira e Natação, sob a orientação dos professores Michael e Benevides.

 

1992

Invicta Academia de Ginástica: frequentador eventual em aulas de hidroginástica.

 

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

 

2006

Trainee na “Pipocas Nhac S/C Ltda”. Participação ativa na padronização de processos durante a etapa de silkagem das embalagens de pipocas doces. Detectei um ângulo fora de especificação na letra N de “Nhac”, fato que desencadeou a realização de recall para recolhimento do lote defeituoso.

 

2002

Estágio na Petrobras – Petróleo Brasileiro S/A

Realizado ao longo de seis meses em seu Posto Autorizado, localizado à Rodovia Raposo Tavares, km 118.

Gerenciamento e execução dos serviços de calibragem de pneus, dianteiros e traseiros, em pressões que variavam de 26 a 32 libras.

 

1991

Fábrica de travesseiros de penas de ganso “Gansono”.

Função: auxiliar de depenação de aves, responsável pela fervura da água para amolecimento das penas. Participei do concurso interno de sugestões sobre o que fazer com o resto do ganso após o abate, ficando com menção honrosa.

 

CONCURSOS E PREMIAÇÕES

 

2008

Vencedor da rifa de ovo de páscoa, organizada pela panificadora “Grano D’Ouro” na qual concorreram aproximadamente 2876 pessoas, entre homens, mulheres, crianças de colo, guris maiorzinhos, pré-adolescentes e jovens de ambos os sexos. O prêmio foi imediatamente doado por mim à “Creche Mãe Crioula”, que promoveu nova rifa com a doação. Soube posteriormente que o vencedor desta segunda rifa doou o ovo ao “Lar Escola Farol de Alexandria”, para que fizesse uma terceira rifa, mas a instituição infelizmente recebeu o produto já com o prazo de validade expirado.

 

1997

Contemplado na Promoção “Palito Premiado Yopa”. Obtive um total de dois palitos, com os quais fiz jus a dois novos picolés. Para efeito de comprovação, se necessário posso escanear os palitos, autenticar o documento em cartório e enviar ao profissional encarregado do Recrutamento e Seleção.

 

PARTICIPAÇÃO EM SEMINÁRIOS

 

1994

Seminário Bom Jesus dos Aflitos – Pata-Choca /MS. Cursei até o terceiro ano, vindo a trancar matrícula no primeiro trimestre do ano seguinte.

 

1993

Convento da Ordem Inferior dos Beneditinos Descalços – Cantilena /TO. Desliguei-me após sete meses de noviciado para montar uma fábrica de sandálias artesanais em couro, tendo o próprio Convento como cliente.

 

PALESTRAS

 

2009

“O que engorda o gado é o olho do dono”, abordando a influência da obra de Adolfo Bioy Casares sobre a pecuária dos pampas e seu sistema de gestão.

 

1982

“Amar amorosamente: uma abordagem holística” – Espaço Transcendental Guaxinim.

 

PRETENSÃO SALARIAL

A combinar.

 

Chegou nada. Era tudo o que faltava!

 

Você nunca viu nada igual a Nada. Nada é tudo o que você sempre sonhou para satisfazer suas múltiplas, específicas e metafísicas necessidades. Chega de fórmulas milagrosas e soluções instantâneas que prometem e não cumprem. Nada resolve mesmo. O resto, de nada adianta.

 

NADA É DE QUALIDADE

Da escolha das melhores matérias-primas ao produto final, todo o processo de produção de Nada passa pelo mais rigoroso controle de qualidade. Isso assegura resistência, durabilidade e altíssima performance em condições extremas de utilização, fatores importantíssimos num produto dessa natureza.

 

TAMBÉM DISPONÍVEL  EM REFIL. MAIS ECONOMIA  E PRATICIDADE PARA VOCÊ

Não, você não precisa comprar um novo Nada quando ele chegar ao fim. Basta um refil e pronto: você tem toda a ação de Nada sem ter que adquirir outro aparelho.

 

OFERTA ESPECIAL DE LANÇAMENTO

Por um precinho de nada você leva seis kits e só paga cinco. Cada um dos kits contém 30 unidades, quantidade suficiente para um mês e meio de uso individual ininterrupto (tomando-se como base uma pessoa de 80k, de hábitos regulares, ossatura robusta e sem vícios desabonadores).

 

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Não deixe Nada para depois. Ligue agora para 0800 00 00 00 e junte-se aos milhares de consumidores que tiveram suas vidas transformadas por Nada. Se preferir, faça seu pedido pela internet através do site www.nadaonline.com.

 

ATENDEMOS TODO O BRASIL

Esteja onde estiver, a tecnologia e a inovação de Nada vão até você. Um bem estruturado departamento de distribuição e logística, em conjunto com nossos promotores de vendas, garantem Nadas sempre fresquinhos nas prateleiras e quiosques de degustação. Através do Nothing Delivery, despachamos Nada para todo o território nacional, sem custos de frete.

 

NADA AGRADA COMO PRESENTE

Com Nada nas mãos você tem certeza de agradar  em cheio. Vai  bem como lembrança de aniversário, presente de casamento, Crisma, Dia dos Pais ou mesmo de amigo secreto, nas festinhas de confraternização da firma.

 

AS NOVAS VERSÕES DE NADA

 

NADA KIDS

E para os baixinhos, nadinha? Claro, eles também têm vez. A gurizada vai se divertir a valer com Nadas de espuma, cores cítricas e cantos arredondados, de acordo com as normas de segurança e os padrões ABNT.

 

NADA LIGHT

Todo o sabor, a crocância e as propriedades nutritivas de Nada sem nada de calorias e colesterol.

 

TAMANHOS P, M, G, GG, XG*

Além das versões acima, também disponibilizamos Nada em tamanhos especiais, confeccionados sob medida. Consulte-nos! Nossa equipe está a postos para fazer os ajustes na hora, por uma pequena taxa adicional.

 

*O design, as dimensões e as especificações técnicas estão sujeitos a alterações sem prévio aviso.

 

RECOMENDADO PELA COMUNIDADE CIENTÍFICA INTERNACIONAL

Estudos clínicos realizados por equipes multidisciplinares nos cinco continentes demonstram que Nada tem ação cientificamente comprovada. Seus efeitos benéficos sobre a epiderme, as sinapses e como catalisador ortomolecular, já amplamente conhecidos pelos orientais há mais de 4000 anos, fazem de Nada um verdadeiro divisor de águas no contexto da terapêutica alopática tradicional.

 

INSTRUÇÕES DE USO

Retire Nada da embalagem. Rosqueie, no sentido horário, o exclusivo bico dosador localizado ao lado do suporte inferior esquerdo (entre a arruela de fixação e o bocal bi-volt). Agite um pouco antes de proceder à aplicação. Você também pode levar Nada em suas viagens de férias ou passeios de fim de semana. Basta conectá-lo ao acendedor de cigarros do carro. Funciona ainda com 9 pilhas médias, não inclusas. Nada é item indispensável nos seus roteiros internacionais. Nesse caso, recomendamos solicitar à nossa central de telemarketing o plug conector de Skelfin com casador de impedância (opcional). Para informações mais detalhadas, vide manual do proprietário.

 

NADA GARANTE A SUA SATISFAÇÃO

Caso não corresponda às suas expectativas, Nada pode ser devolvido. Dúvidas de manuseio, lubrificação e ajuste do termostato poderão ser dirimidas junto à Rede de Serviços Autorizados. São mais de 1500 postos de Assistência Técnica espalhados pelo país. Um deles aí, pertinho de você.

 

ONDE ADQUIRIR NADA

Embora Nada seja encontrado em múltiplos pontos de venda, de feiras livres a hipermercados e lojas de conveniência, recomendamos a compra em casas especializadas, que dispõem de pessoal treinado na manipulação correta e ecológica do produto.

 

CARTÃO CLIENTE NADA FIEL. QUANTO MAIS NADA VOCÊ COMPRAR, MAIS NADA IRÁ GANHAR

Suas compras de Nada valem Nadas extras. Nada mais justo: quem compra Nada, e ainda paga por isso, merece de alguma forma ser recompensado.

 

Elvis - direito de resposta

 

Estou morto, muito morto mesmo. Diria que nunca estive tão morto em toda a minha vida. Na verdade, estou mais morto que Janis Joplin, Charles Chaplin e John Kennedy juntos. Enfim, ou estou morto ou não me chamo Elvis.

 

Semana passada John Lennon enviou uma mensagem a vocês, terráqueos, insinuando que eu não tinha ainda batido as botas. Logo eu, que cheguei por aqui 3 anos antes dele. O fato é que John tem lá seus motivos para inventar coisas a meu respeito. Mesmo sendo quatro disputando comigo sozinho, os Beatles não conseguiram tirar minha coroa de rei do rock, pois é assim que continuam me chamando aí embaixo, certo? Isso pode ter mexido com os nervos de John, embora não seja frequente nos mortos o destempero emocional.

 

John afirma em seus garranchos psicografados (que já devem estar indo a leilão na Sotheby’s por milhões de libras) que eu não morri coisa nenhuma ou devo estar nos quintos dos infernos comendo sanduíche de pasta de amendoim. Estou sim, devorando essa iguaria, e por isso mesmo estou no céu, pois é minha comida favorita. Aliás, aproveito para dizer que foi a pasta de amendoim que me tornou gordo nos últimos anos, e não o coquetel de tranquilizantes – que erroneamente atribuem como desencadeadores do meu inchaço e de minha causa mortis.

 

Tempo houve em que os Beatles formavam um verdadeiro fã-clube deste que vos fala. Lembro nitidamente daqueles quatro cabeludos chegando embasbacados à minha mansão em Los Angeles, ansiosos por me conhecerem de perto e me adorando como se eu fosse um profeta do Antigo Testamento. Estava dedilhando meu contrabaixo deitado no sofá e nem dei muita bola quando anunciaram sua chegada e os despejaram no meio da sala. Continuei tocando e olhando a TV, de chinelo e bermuda, alheio completamente ao que se passava, como se eles fizessem parte da mobília ou da criadagem. Contaram umas piadas, tocaram umas musiquinhas, olhando pra mim com cara de quem aguarda a aprovação paterna. Na tentativa de quebrar o gelo, o mais narigudo deles (esqueci o nome) ficou fazendo uns malabarismos com as baquetas, até que eu disse: “Puxa, você é bom mesmo nisso. E o que mais sabe fazer?”. Ficaram mais um tempo e enfim se escafederam, depois que eu olhei para o relógio e disparei sem pestanejar: “Bem garotos, se me dão licença, eu não tenho o dia todo...”.

 

Falar é fácil. O que Lennon não disse é que ele e George tentaram formar um trio comigo, por esses rincões celestes. Recusei polidamente: “Forget about, acho que nossos estilos não se bicam”. George entendeu, mas John me pareceu indignado com a recusa e inventou essa coisa toda de que não me viu por aqui.

 

O que interessa é que meu túmulo está lá em Memphis, e meus ossos podem ser exumados a qualquer momento. E você, John? Onde está seu túmulo? Para quem não sabe, John não tem túmulo, suas cinzas foram espalhadas sei lá onde. Isso significa que, se há alguém nessa história que pode ter sua morte questionada, esse alguém é John. Quem me garante que ele não continua firme e forte em seu apartamento no Dakota, sem botar a fuça pra fora de casa, isento das responsabilidades e obrigações que pesam sobre qualquer encarnado e deixando tudo a cargo de sua gueixa septuagenária?

 

É, John, mesmo morto devo admitir que você foi vivo, mas ninguém há de cair na sua conversa. Quanto a vocês, mortais, continuem mandando suas orações e fazendo suas peregrinações anuais a Graceland.

 

Pequeno Albert

 

Sempre que acordado pelo barulho dos marrecos, o pequeno Albert passava o resto do dia de mau humor. Não era incomum que nessas ocasiões, só de pirraça, misturasse deliberadamente moela com chantilly no café da manhã e usasse seu suéter furado. Furado, aliás, por uma bicada de marreco, numa véspera de Natal em que um deles também acordou de ovo virado.

 

Nada pode garantir de maneira categórica que o interesse do pirralho pelos buracos negros datasse dessa época do furo na blusa, mas há fortes evidências que reforçam a tese. Foi também à mesa de refeições que, certa feita, gotículas de leite quente espirradas do bule despertaram no futuro grande físico a obsessão pela via láctea e seus mistérios, segundo depoimentos de vizinhos de cerca. Daí foi um passo para a formulação das primeiras teorias e equações. A modorrenta rotina da fazenda e a falta propriamente do que fazer turbinavam a imaginação do menino, que punha-se a disparar enunciados bucólico-científicos aos quais ninguém então dava crédito, exceto os sargaços, alguns esquilos e Copérnico, seu poodle de estimação.

 

É nesse limbo pouco estudado, quer seja, o tempo do Albert imberbe, que a história deveria se debruçar com acuidade investigativa e faro de paleontólogo. Se o fato de pouco sabermos da vida de Cristo enquanto criança pouco prejuízo trouxe à disseminação do Cristianismo enquanto doutrina, o mesmo não se pode dizer em relação à infância do nosso herói e suas consequências sobre a maior de suas descobertas: a Teoria Geral da Relatividade.

 

Explico e dou exemplo. É sabido que Albert foi taxado como débil mental por um professor. Como revide ao mestre, o mirim impôs-se o propósito de sobrepujar os achados de Newton no campo da Física. Assim, aos 12 anos, deitou-se debaixo de uma árvore aguardando inspiração idêntica à que fez o sagaz Isaac descobrir a lei da gravidade. A lerdeza de raciocínio atribuída ao menino explica o fato de não ter se dado conta de que a árvore sob a qual se deitara era uma jaqueira. Para não contrariar outra lei, a de Murphy, é claro que uma das jacas o atingiu em cheio. A queda do fruto fez abrir, literal e figurativamente falando, a cabeça do garoto, que ficou com o hipotálamo e o cerebelo em posição invertida à normalmente encontrada nos comuns dos mortais. Além disso, é de conhecimento público que seu cérebro, dissecado e estudado após o óbito, fez os cientistas concluírem que este era maior e mais denso que a média. De onde se deduz que a suposta anatomia privilegiada devia-se ao inchaço causado pelo impacto da jaca sobre a caixa encefálica, constatação infame demais para constar com dignidade num relatório científico – o que justifica a omissão do ocorrido até a presente data.

 

Mais grave ainda é a também desconhecida demanda jurídica daí originada, movida por um japonês de sobrenome Kobaiashi, o antigo proprietário da fazenda onde os Einstein residiam. Entendia o produtor hortifrutigranjeiro que, se não houvesse plantado a jaqueira quando administrador da propriedade, o desenvolvimento fenomenal do garoto não ocorreria, e consequentemente a Teoria Geral da Relatividade não teria sido formulada. Assim, seus herdeiros pleiteiam até hoje uma revisão histórica onde se atribua a co-autoria da TGR ao antepassado nipônico, passando doravante a denominar-se “Teoria de Einstein / Kobaiashi”. O processo encontra-se tramitando atualmente no Fórum da Comarca de Cotia.

 

Deletador de saudade - manual do usuário

 

No Menu Principal do programa, escolha “Definir Saudoso”. Aparecerão na tela os modos: amigo(a), namorado(a), noivo(a), cônjuge, pai, mãe, filho(a), amante, caso, rolo e ficante. Escolha e dê Ok.

 

Em seguida, maximize o box “Características Físicas”. Preencha os campos Idade, Altura, Peso, Cor de pele e de cabelo, Estilo de roupa, Classe Social, Escolaridade, Convicções Ideológicas e nº do Pis/Pasep.

 

Vá até a janela “Sinais particulares”. Se houver algum, marque e indique a parte do corpo onde se situa: Cicatriz, Pinta, Tatuagem, Piercing, Botox e Silicone.

 

Escreva no editor de textos frases que a pessoa falaria com mais freqüência para você. Para que as falas tenham sotaques e inflexões personalizadas, vá até Opções, selecione Definir Modulação de Voz, escolha a mais conveniente e clique em Aplicar. De quinze em quinze minutos as frases soarão no alto-falante do computador, em ordem aleatória ou mediante programação específica. Exemplo: mãe falando “Tá na mesa!!!” ao meio-dia e às sete da noite.

 

Inserir final de frase. Recurso interessante, não disponível na versão 6.2 do programa. Você pode escolher entre: “Né?”, “Entendeu?” “Certo?” “Ok?”.

 

Ainda no editor de textos, liste uma agenda básica com os compromissos do seu dia-a-dia. Esses dados serão automaticamente transferidos aos nossos servidores. Para que fique realmente próximo em todos os seus momentos, o ente distante saltará na tela como uma janela pop-up, lembrando cada um dos afazeres programados.

 

A área de trabalho do computador – ícones, papel de parede e descanso de tela, também pode ficar com a cara do sumido. Além disso, o programa permite a instalação de “Oi” e “Tchau” da pessoa, quando da inicialização e do fechamento do sistema operacional.

 

Nosso programa enviará a você e-mails em nome do saudoso. Para que não falte assunto, é preciso preencher o menu “Áreas de Interesse”. Selecione as mais adequadas. Você pode responder aos e-mails. Só não conte com a resposta da resposta, porque aí também já é demais.

 

O Menu Privé é acessado mediante senha, e deve ser utilizado por usuários que mantenham ou mantinham relações carnais com o ausente. As opções vão desde “Não, hoje estou com dor de cabeça” até “Foi bom pra você?”, passando pelo indefectível “Caramba, isso nunca aconteceu comigo antes”.

 

Lembramos que o nosso revolucionário produto deleta a saudade através de três níveis de operação: Ar da Graça, Presença Marcante e Repulsa, sendo que o modo Repulsa possui a função de transformar a saudade em reação alérgica ao saudoso, pela superexposição de sua figura no computador do cliente.

 

No menu Opcionais, você encontrará as alternativas “Sachet Chulé” e “Kit Hálito”, que serão entregues em sua casa no prazo máximo de três dias úteis. O sachet é um simulador de chulé do dito cujo. Clique em Suave, Médio, Forte, Extra-Forte ou Deus-me-livre. O Kit Hálito disponibiliza as modalidades Vinagrete com alho, Vinagrete sem alho e com bastante cebola, Cachaça, Uísque 12 anos, Uísque 8 anos engarrafado aqui, Cerveja, Cigarro, Pasta de Dente, Café, Mexerica e Amendoim Japonês.

 

Você pode desativar temporariamente o programa ou cancelar a assinatura do serviço a qualquer tempo. Para maior segurança, mesmo que o usuário mova o saudoso para a lixeira, um clone do mesmo permanecerá oculto no HD. Para habilitá-lo, clique em “Ajuda” e selecione “Volta, vem viver outra vez ao meu lado”.

 

Ghost Writer da igreja nacional do santo testemunho

 

O Senhor dos aflitos esteja ao meu lado nessa hora. Que todos os santos me amparem, ainda que ninguém aqui acredite em santo. Mais 16 depoimentos pra criar ainda hoje. Vão ao ar de madrugada. Quero ver outro no meu lugar dizendo sempre a mesma coisa e tendo que falar de outro jeito. É o desgraçado que estava no fundo do poço, com a vida derrotada, endividado até o pescoço, bebendo, tomando droga, socando a fuça das crianças, chifrando a esposa, amante fazendo vodu. Chega o parente que é da igreja, leva ele pra assistir o culto, mergulha a cabeça dele na piscina de plástico, vem a transformação instantânea e daí a um mês a vida abençoada, empresa com dinheiro saindo pelo ladrão, viagem para Bora-Bora, três apartamentos, uma casa de praia, frota de Pajero na garagem.

 

O pior é que tem que redigir também a fala do pastor. O desencapetamento, as perguntas que ele vai fazendo pro convertido responder. Outro dia tinha um post-it do bispo aqui em cima da mesa me dando o maior esporro, dizendo que estava tudo muito igual. Mas fazer diferente de que jeito? Se eu troco “fundo do poço” por “fim da linha”, eles corrigem o texto e mandam falar “fundo do poço” de novo. Se eu falo em “falta de perspectiva” volta pra “vida derrotada”, assim não dá. E o dízimo? Agora a imprensa está pegando no pé dizendo que os pastores são ostensivos, que batem carteira na cara dura. Veio ordem pra maneirar no roteiro, pra pegar mais leve na hora de pedir o dinheiro e dar o número da conta, deixar uma coisa mais velada.

 

Ainda se fosse só o texto, ficava fácil de resolver. Mas tem o problema dos atores, quer dizer, dessas toupeiras de teatro amador que falam tudo decorado, como se estivessem olhando o teleprompter. Eles tinham que ler o script e falar do jeito deles, pra ficar mais natural. Já disse isso não sei quantas vezes nas reuniões de pauta, mas na hora da gravação é aquela coisa mais falsa que perfil do Lula no orkut. Quando dá, já sento direto aqui no computador e deixo as falas prontas já pra uma semana ou mais. Aí entra o horário eleitoral de algum partido ou então mais comerciais por break e tenho que enxugar tudo de uma hora pra outra, pra caber no horário do programa.

 

O calvário prossegue na hora da cura. E quem opera o milagre é este escriba mal pago. Já comprei por conta um tratado de moléstias e fico caçando enfermidades para adoecer o moribundo de araque, conforme o jeitão do freguês.

 

Tudo bem que é meu ganha-pão, eu devia torcer pra audiência subir. Mas, se sobe, eles ligam de madrugada em casa, pedem pra ir voando pra ilha de edição do programa e fazer render a enganação redentora. “Força a mão aí, meu camarada, capricha no exorcismo porque o ibope tá lá em cima, não deixa despencar não”. Teve um dia que nem dava tempo de escrever pra mandar pro engravatado que estava comandando o programa, eu ia falando os textos de improviso direto no ponto dele. Ah, minha mãe. Se me dá um branco a farsa toda desmorona, despenca o cenário dos querubins tocando trombeta, é capa de “Veja” na certa. E o pior é remoer essa adrenalina sabendo que o bispão manda-chuva tá lá no palácio dele, onipotente no seu trono Luiz XV, vendo tudo ao vivo e já dando feedback por celular para o diretor do programa. Muda ali, muda aqui, repete em câmera lenta a cena do cara que jogou longe a muleta e invadiu correndo o palco.

 

Eu tenho o poder e o dom, a ira santa, o fogo sagrado que destroi a iniquidade e manda pro fundo do inferno os devassos e os incrédulos. E o que eu quero agora é mandar pro ar este texto. E vai desse jeito mesmo, no calor da hora. Estou sozinho aqui na técnica, é só apertar um botão. O templo ruiu. O Cristo de verdade apareceu para expulsar os vendilhões.

 

Flash Pizza

 

Flashback chegando assim, na asa do desaviso: no céu e no assoalho da boca, a língua de um se contorce na prospecção de outro, e limpa com a ponta os dentes cheios de restos dos sonhos de ontem. Como ontem foi há muito, ambos carregam, por onde se atrevam, uma boa porção de momentos gostados, em providencial caixa de primeiros socorros.

  

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Não é impossível que um dia sejam batidas as estatísticas da época, quando impuseram um novo patamar nos escores de Eros. Mas duvido que haja casal como o que foram – pura labareda – com gana e técnica para quebrar o recorde. Bom, o disk pizza chegou e o puxa-puxa do queijo não espera muito tempo. A seguir, cenas dos próximos capítulos do vale a pena ver de novo.

  

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Falar em pizza, virgem só o azeite naquele reino permissivo, já que os dois, além dos dois, foram de muitos. E consumiram-se em devassidão até enjoarem e firmarem pacto de par hermeticamente isolado, naquele destilador de ciúme em que se meteram e de onde sairiam mutilados. Testemunhas avalizam que, desde então, as olheiras não eram mais da carne acesa até altas horas.

  

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Assim fiquei, voltando aos dias daqueles dois, até que o sono me rendesse. A pizza, ao meu lado, fria. Meia mofo, meia bolor.

 

 

Zoraide Propaganda

 

Tudo começou quando fui servir suco para o Dr. Célido e o Diretor Comercial na sala de reunião. Vi os dois falando sobre o anúncio que vocês criaram e dizendo que carecia aumentar o elefante no layout e enfiar uma tarja alaranjada perto da tromba dele, dizendo “últimos dias, aproveite” ou algo parecido. Não entendi patavina dessa história de retrato de elefante no reclame, já que até onde eu sei a empresa trabalha com fibra ótica e eu acho que tem que mostrar as coisas que a fábrica faz, quanto é que custa e colocar depois o endereço, que é pra pessoa se orientar e saber onde é que tem que ir pra comprar os negócios que a propaganda fala.

 

Vocês inventam umas doideiras, se sai uma propaganda dessa vão achar que é anúncio de circo. Só sei que eles continuaram até tarde trancados lá na sala, às vezes dando berros e rabiscando inteirinho o layout que a moça que trabalha aí com vocês trouxe anteontem. Depois vi que cada um ficou fazendo uma lista de frases, também pra colocar no anúncio, e ficavam falando sobre trocar de agência, que qualquer coisa era melhor que essa porcaria que vocês fazem. Desculpe a dureza das palavra, mas era desse jeito que eles falavam, e acho bom vocês ficarem sabendo logo da verdade verdadeira pra tomarem cuidado e já irem esperando pelo pior.

 

Mas, continuando, depois chegou a dona Izildinha do RH com sua meia preta desfiada e começou a dar um pitaco atrás do outro, com aquela vozinha esganiçada, falando que por ela tirava o elefante e punha no lugar uma porta de carro amassada com uns dizeres sobre tráfego seguro de dados, que era legal uma amalogia (é assim que fala?) de trafegar em alta velocidade e trânsito, e aí então falar da fibra ótica, etc etc. O Diretor Comercial disse pra ela fechar o comedor de lavagem e que ela só entendia de recrutamento e seleção e coisa e tal. Aí ela começou a tremer o lábio de nervoso e jogou o copo de suco na cara dele. Depois pegou a bombinha de ar dentro da bolsa e começou a se borrifar pra acalmar a asma, enquanto eu fui buscar um pouco de água com açúcar.

 

Veja bem minha situação, eu não quero de jeito nenhum meter minha colher nessa cumbuca, mas é que a minha irmã, que me arranjou emprego aqui, é faxineira de vocês, e acho que falando essas coisa eu estou ajudando ela também, pois com certeza a Crô vai pra rua se vocês se ferrarem de verde e amarelo. E a chance de vocês se darem muito mal é grande demais, a não ser que apareçam logo por aqui com anúncios bem chamativos, como por exemplo “A sua melhor opção de compra”, “O gerente ficou louco”, “A gente faz aniversário e quem ganha o presente é você” e outras frases de efeito que façam o sujeito se convencer que os nossos produtos são realmente ótimos. E deixaria o emblema da firma altamente enorme, com os produtos da fábrica em volta dele, parecendo o sol com os planeta girando em torno, sabe, acho que desse jeito funciona pois a pessoa enxerga de cara o que interessa. Mas agora chega de palpite que eu já estou parecendo a dona Izildinha.

 

Voltando ao Dr. Célido, ontem mesmo ele comentava pelos corredor que todos vocês aí na agência são uns malas sem alça, e que armaria uma embroscada gastromônica, uma intoxicação coletiva com queijo roquefort estragado. Aí o Diretor Comercial teve a ideia de sabotar o jatinho que vai levar o pessoal da agência até a próxima convenção de gerentes da firma, em Monte Mor. Segundo ele, seria uma boa forma de ver vocês todos mortinhos da silva de uma tacada só.

 

Lá pelas tantas, e na terceira rodada de Tang de uva na sala de reunião, começaram a falar da proposta que a firma recebeu de uma tal de “Tiro Certo Propaganda e Marqueting”. É bom vocês saberem que os caras já mandaram portfólio, meia dúzia de broche em formato de espingarda com o slogan “A gente acerta na mosca” e mais um ramalhete de flor pra recepcionista, a Dorinha.

 

Pouco tempo depois, pude ver pelo vão da porta o Dr. Célido sapateando em cima do reclame com seu Vulcabrás modelo Antônio Ermírio, juro que o homem parecia um pai de santo no auge da incorporação. É engraçado, quando ouvi pela primeira vez o nome Vulcabrás pensei que fosse uma estatal que cuidasse dos vulcão, mas aí lembrei que no Brasil não tem vulcão, pelo menos ativo. Só aposentado. E vulcão de estatal deve aposentar com salário integral, não é? Mas deixa pra lá, é só um comentário bobo de uma copeira sem estudo nem noção, e nem sei porque estou falando isso agora. O importante mesmo é que vocês precisa tomar cuidado. Quem avisa amiga é.

 

Vide bula

 

INFORMAÇÃO AO PACIENTE

 

Estudos atualíssimos, patrocinados por alguns dos maiores nomes da indústria farmacêutica mundial, dão conta de que nada pode ser mais frio e impessoal que bula de remédio. De onde se conclui que sua elaboração, doravante, deve contemplar uma abordagem lúdica e interativa com o usuário, em linguagem simples, objetiva e sobretudo inteligível.Ou seja, a ideia não é que se doure a pílula, mas a bula que a acompanha. Nossa intenção é elevar a temperatura corpórea do paciente, promovendo maior calor humano entre nosso laboratório e o consumidor.

 

APRESENTAÇÃO

 

Olá, amigo(a)!! Meu nome é Cilantilopidatreil, e de agora em diante serei seu companheiro inseparável. Estaremos juntos pelo menos 3 vezes ao dia, após as refeições. Tudo bem que você vai ter que me engolir, mas espero que isso não seja motivo para você me partir ao meio.

 

COMPOSIÇÃO

 

Letra de Helmut Pfizer. Música de Ed Roche e Sebastian Bayer. Originalmente concebida para execução em Lá Maior, acompanhada ou não pelo Regional do Capsulinha – às segundas, quartas e sextas - e pelo Renato e suas Blue Cápsulas, às terças, quintas e sábados.

 

INDICAÇÕES

 

Siga rigorosamente a seguinte orientação médica: na segunda quadra, vire à direita. Ande mais cinco quarteirões e, assim que encontrar a agência do Bradesco, pegue a sua esquerda e vá em frente, até o terceiro semáforo.A farmácia fica bem ao lado da banca de revistas.

 

AÇÃO FARMACOLÓGICA

 

Espasmos involuntários nos músculos da face, contrações abdominais de natureza aguda, perda progressiva do fôlego, do senso crítico e do guarda-chuva no cinema, em casos mais graves.

 

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

 

Cilantilopidatreil não deverá ser administrado simultaneamente com moquecas em geral, pastilhas Valda e lança-perfume de fabricação caseira. A administração pela burocracia estatal também poderá trazer sérios danos ao moribundo, por provocar sonolência excessiva.

 

REAÇÕES ADVERSAS

 

Variam de discretas erupções cutâneas até o óbito, relatado em 95,7% dos casos. Por provocar diminuição da libido, o coito deve ser interrompido tão logo se inicie. Raciocínio desconexo, amnésia irreversível e descamação atípica no calcanhar direito foram efeitos detectados nos grupos de controle, durante a fase de testes do produto.

 

PRECAUÇÕES

 

Sob o efeito de Cilantilopidatreil, manetas que dirigem máquinas operatrizes precisam ser permanentemente monitorados por familiar responsável, devidamente habilitado e com CNH dentro do prazo de validade.

 

PACIENTES IDOSOS

 

Pesquisas recentes constataram episódios de disritmia na bateria da Velha Guarda da Portela.

 

CONDUTA NA SUPERDOSAGEM

 

Caso ocorra, seja ela intencional ou acidental, raramente acarreta risco de vida – apenas de morte. Quando associada a depressores do Sistema Nervoso Central, como o álcool e seus derivados, induzir o vômito ou realizar lavagem gástrica, ainda que o álcool em questão seja um Johnny Walker Blue Label.

 

Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças, inclusive Melhoral Infantil, e dos hipocondríacos. Conservar em local seco e fresco.

 

Aguarde na linha ou ligue mais tarde

 

Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.

 

O Palácio da Alvorada é patrimônio do Brasil, um país de todos. Faça uma doação e ajude a manter seus mármores e vidros em perfeito estado. Para doar R$150.000,00, ligue 0800 80088 150. Para doar R$250.000,00, ligue 0800 80088 250. Para doar R$500.000,00, ligue 0800 80088 500. Para doação de grandes valores, tecle asterisco (*) três vezes e aguarde na linha.

 

Se você deseja assistir em tempo real a todos os passos do Presidente, acesse www.presidente.com/webcam. Adquira o pacote completo (Combo Planalto/Alvorada/Granja do Torto), com um total de 98 câmeras transmitindo 24 horas por dia. Há opções também para o pacote meio período, com 42 câmeras transmitindo das 5 da tarde às 5 da manhã, ou o pacote fim de semana, com tudo o que acontece no cafofo presidencial no sábado e no domingo. Fale com nossas atendentes e faça sua compra pelos cartões Visa ou Mastercard.

 

A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.

 

Você sabia que só em noz moscada o Palácio da Alvorada consumiu no último mês um total de R$197.532,34, contra apenas cinco libras e noventa centavos gastos no mesmo período em Buckingham? É o Brasil mais uma vez mostrando a grandeza de seus números e sua definitiva inserção no primeiro mundo.

 

O Palácio da Alvorada foi o primeiro prédio construído em Brasília, possui três pavimentos e o desenho das colunas de sua fachada inspirou o brasão da cidade. O setor do palácio mais visitado pelo Presidente é a adega, e o menos freqüentado é a biblioteca. Dentre os seus mais de 70 empregados constam inclusive médicos, e estudos extra-oficiais apontam que os plantões do corpo clínico guardam estreita relação com a assiduidade do senhor Presidente às dependências da adega.

 

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A sub-chefia do Cerimonial da Presidência comunica aos interessados que está promovendo visitas guiadas ao interior do Palácio da Alvorada. Organizados em grupos de até 300 pessoas, os turistas terão acesso a todas as dependências, incluindo a suíte presidencial de 120 m² e o cinema, onde poderão assistir a um documentário que narra a história do Palácio e os detalhes construtivos do monumental projeto de Oscar Niemeyer. As visitas exigem retirada antecipada de senha e estão condicionadas às datas em que o senhor Presidente da República estiver em viagem oficial, ou seja, de segunda a domingo.

 

O espelho d’água sobre o Lago Paranoá dá a ilusão, ao visitante, de que o Palácio boia em sua a superfície. Trata-se de uma alegoria arquitetônica à população flutuante de Brasília, que abrange a quase totalidade dos habitantes da capital federal – a começar pelo mandatário supremo da nação.

 

A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.

 

Para obter o edital de concorrência para fornecimento de trufas negras de Périgord à Chef de Cuisine do Palácio, tecle 2. Para detalhes sobre a licitação de compra de jogos para playstation, tecle 3. Para informações sobre o processo seletivo de contratação de ghost writer de discursos, tecle 4.

 

Já ouviu falar da Alvorada Mega Store? Lá você encontra uma linha completa de presentes e souvenirs temáticos do Palácio da Alvorada. São milhares de itens para toda a família e para você presentear seus parentes e amigos.

 

Na compra de três ou mais cartões postais de Brasília você concorre a uma sunga para um mergulho na piscina olímpica do Presidente.

 

Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.

 

Parada da Independência 

 

A mãe para o fluxo incessante das memórias dos seus anos de internato, independente do chá de laranjeira a arrastá-la em torvelinho para o pó do giz e o álcool do mimeógrafo. A maçaneta para de levar quem se habilite ao cômodo contíguo, independente de ser ou não este outro cômodo o cenário dos enredos que fascinam. O caqui para de se abrir em seiva doce e reluzente, independente da ressequida goela dos colonos. O instinto de sobrevivência para a imobilidade aleijante, independente de todos os esforços para que nenhum esforço se faça em qualquer sentido que seja. Os segredos maçônicos param de ser segredos e vazam dos iniciados, independente do empenho dos Grão-Mestres em detê-los. Dirce de Oliveira Sales Camarinha para de arquitetar intrigas no seio doméstico, independente da quantia sumida da gaveta apontar como suspeito o arrimo da família, desafeto do cunhado que a nora da sua sogra batizou em Monte Alegre. A chuva para por inadimplência de São Pedro com a Sabesp, independente das inúmeras tentativas de negociação do débito para evitar o corte. O moço que todos juram que é irmão do Wando para de chutar nos testes de múltipla escolha, independente do seu QI recomendar o chute em 100% das ocasiões. A girafa do zoológico de Michael Jackson para de dormir de pé, independente do fato contrariar frontalmente a natureza das girafas. O Rio de Janeiro para na Rocinha de ser lindo, independente da música desde 1969 vir insistindo no contrário. O dono do celular pré-pago para de dar crédito às ofertas da operadora, independente das tarifas imperdíveis e do saldo da promoção “Recarga Premiada”. O santo para de atender os pedidos do dia, independente da urgência do devoto. O carrinho da montanha russa para no meio da descida, independente da força da gravidade funcionar regularmente. O relógio para de marcar os minutos, independente do ponteiro das horas obedecer à trajetória original de fábrica. A megasena para de acumular, independente do último sorteio não ter contemplado ninguém. A vergonha na cara para de ser nenhuma e consegue ser alguma, independente de todas as tentativas, nas três esferas do poder, para que no máximo seja mínima. O Cony para no terceiro parágrafo do texto em busca de uma palavra, independente de não levar mais que oito minutos para concluir suas crônicas. O pastor alemão da polícia militar para no decorrer do desfile e defeca na frente do palanque presidencial, independente do visível constrangimento do capitão e da câmera exclusiva da Globo.

 

À janela

 

São sortidos e peculiares os flagrantes vistos daqui, deste camuflado e geograficamente estratégico terceiro andar. Quase sete da manhã e nada nem ninguém deterá que a cópula bissemanal no apartamento à frente se dê de forma clínica e burocrática, com a resignação de quem paga uma promessa. A silhueta dos dois denuncia a posição de missionário. Três minutos, quando muito, e resolvido. Ao banheiro para a ducha, à mesa para o café, ao beijo na testa das crianças e pronto – estão ambos devolvidos à faina esmagadora das repartições e a seus amantes fixos e eventuais, com quem exercitam prazerosamente todas as variações do bem-bom.

 

O que vem nas sequência é não menos previsível: “Pizzicato Polka” e o prelúdio de “Tristão e Isolda”. Até hoje custa-me entender como um mesmo gosto acolhe peças esteticamente tão inconciliáveis. E a música surge de ponto impreciso, não dá para identificar se o epicentro é na rua ou na cobertura do prédio. Não é impossível que brote espontaneamente dos arredores, composição do asfalto em parceria com os semáforos, trilha sonora por excelência daquele trecho de city.

 

Nada de anormal ou suspeito lá embaixo, na lida dos homens-formigas com suas pastas de documentos e protocolos. Ainda assim me ocorreu fazer um instantâneo deste nada para a posteridade, retrato comum de momento neutro, tão desinteressante quanto esta pastilha solta no parapeito da janela - indício seguro que há anos a faxineira não passa um paninho com Veja Multiuso por aqui. Se passasse ela despencaria e talvez caísse no capô do fusca amarelo-gema do Nelson, porteiro do prédio. Mas isso também não traria consequência que alterasse esse arrastão de coisa alguma, nem seria o caso de acionar o condomínio para saldar a conta do Martelinho de Ouro.

 

A TV ligada no canal do senado alça o demônio a anjo, arquivando a montanha de processos que pesa sobre sua figura repulsiva e recendendo a putaria. Velhacão experimentado, tão ou mais hipócrita que o casal do prédio em frente na posição de missionário. Violo a sepultura das velhas aulas de Educação Moral e Cívica para exigir reparação e ressarcimento de tempo perdido, ao som de um carro de bombeiros que dobra a esquina com a sirene a toda. Pode ser um trote. Este país é um trote. Porém o sujeito que liga para os bombeiros alardeando fogo falso não é mais criminoso que esses engravatados que ganham por fora para que o meu dinheiro seja usado na compra de mais um naco do Maranhão ou para pagar o salário do Secreta (parte dele, bem entendido).

 

Se é possível em tese viajar para o futuro, como comprovou Einstein, em algum ponto do espaço o filho do casal que copulou agorinha já é longínquo e esquecido tataravô de alguém. Este prédio já ruiu, com pastilha solta e tudo, há centenas de anos. O impune senado da república terá sido condenado necessariamente ao pó, com seus cadáveres de esquerda, direita e centro formando camadas fósseis, que hão de jorrar petróleo. Mas, para que jorre caudaloso, já avisam antecipadamente: só com um agradinho de 10%. E em espécie.

 

Conflito de encarnações

 

- Oi, amor.

 

- Ichi, atrasou um minuto e trinta hoje, hein. Cheguei a alimentar a esperança de que não viesse mais.

 

- Imagina, quem é morto sempre aparece.

 

- Dá pra falar sério ou vai continuar com a brincadeira?

 

- Brincadeira por brincadeira, foi você quem começou com aquela do copo. Não se deve invocar espíritos levianamente. Você perguntava, eu respondia. Foi assim uma semana inteira, toda noite, lembra? Você xavecando, querendo saber da minha vida e da minha morte, cada vez mais interessado. Não tem por que estar reclamando agora. Quem devia reclamar na verdade era eu, pois me comunicava por uma porcaria de um copo de extrato de tomate com uma crosta de sujeira no fundo e trincado na borda. Bem ao seu estilo, diga-se de passagem. Macho, desleixado, com noções precárias de higiene e ainda por cima encarnado. Arghh!

 

- Pois então não viesse. O que você queria, taças de cristal da Bohemia? Eu diria que o copo utilizado estava à altura da sua elevação espiritual. Aliás, eu já devia ter desconfiado do seu nível quando, ao falar sobre espíritos obsessores naquela tábua com as letras do alfabeto, você escreveu obsessão com c cedilha. O Aurélio está à disposição em algum lugar do céu, você podia tomar umas aulas particulares com ele.

 

- Ah, só faltava você me jogar essa na cara. Aqui no mundo dos espíritos ninguém precisa se preocupar com ortografia, bastam as boas vibrações. Coisa que você há muito tempo não vem emitindo pra mim. Já cansei de explicar pra você que somos almas gêmeas e que estamos juntos desde que o mundo é mundo. Só nos separamos temporariamente por um desencontro de encarnações...

 

- Olha, por mim eu deixava esse desencontro desencontrado pela eternidade afora. Quando eu for dessa pra melhor você estará encarnando de novo, e assim sucessivamente. Vai ser melhor pra nós dois. Com tanto fantasminha simpático aí em cima, logo você esquece de mim.

 

- Ledo engano, meu charmoso boneco de carne. Estarei sempre ao seu lado.

 

- Tá, e a minha privacidade, onde fica? Hein? Falar em privacidade, nem na privada tenho sossego, até no banheiro você dá o ar da graça querendo discutir a relação. Tenha dó. Quero mais é que comece logo o horário de verão, já que escurece mais tarde e eu ganho uma horinha antes de você baixar pra me encher a paciência.

 

- Ok, prometo ser mais discreta em minhas aparições daqui pra frente.

 

- Melhor ainda se limitá-las a umas duas vezes por semana, quando muito. E dê preferência aos dias de faxina, quando eu não estiver em casa.

 

- Bom, eu não desci aqui pra brigar com você. Mudando de assunto, como estou hoje?

 

- Com toda certeza, mais pálida que o costume.

 

- E lhe agrada? Musas geralmente são pálidas.

 

- Embora a palidez nesse caso seja da natureza cadavérica. E decididamente não sou chegado em necrofilia.

 

- Que é isso querido, não curte uma alma pelada? Imagina nós dois num caixão de casal, com rendinhas negras e colchão de água...

 

- Não fala assim que é pecado. Na condição de espírito você devia dar o exemplo.

 

- Ai, que santinho. Leio seus pensamentos o tempo todo e sei que você é um devasso. E se continuar assim, vai direto pro inferno.

 

- Deus me livre. Pra encontrar você lá?

 

Notícias frescas do venerável Duña

 

É certo que alguém de sua envergadura moral, investido da autoridade esotérico-telúrica com que foi agraciado pelo Olimpo, jamais deveria ser visto por aí de testa franzida, espinha arriada e olhar embaçado, sem o brilho via-lácteo de outrora. Não obstante, é assim que o Duña vem se apresentando a quem o vê em seu vagar errante por entre hortas e granjas da nossa zona rural, a esmagar rabanetes e pintinhos de um dia.

 

Decididamente, este guardião das verdades eternas há muito não é mais o mesmo. Eu, que tenho o privilégio de privar de sua intimidade, habitué que sou dos longos serões na sua choupana, afianço-lhes que a situação assim se configura e tende a agravar-se. Tantos são os pedidos de autógrafos e fotos com criancinhas ranhetas, as prescrições de rezas-bravas, os conselhos, unguentos, bênçãos, imposições de mãos sobre feridas e aleijões que já não lhe resta tempo nem de remover discretamente uma cera do ouvido, quanto mais de usufruir de reparador banho de imersão nas Thermas ou de deliciar-se com duas ou três bagas de jaca ao molho barbecue, receita de família que o mestre tanto adora preparar e deglutir.

 

Tenho cá para mim que seu lado humano clama um tanto pelo ócio criativo a que os comuns dos mortais têm direito. Coisas triviais como coçar uma frieira, dar umas baforadas em seu cachimbinho de jacarandá olhando o firmamento ou trocar um dedo de prosa com seu dileto amigo Silas, discípulo desgarrado e hoje carteiro em vias de se aposentar.

 

O Duña também é gente, é bom que não esqueçamos. De carne e osso se apresenta à pecadora humanidade, que lhe ergue bustos sem cessar, de bronze e mármore de Carrara, nas praças das grandes, pequenas e particularmente das médias cidades. Talvez a causa do desalento seja faltar ao Oráculo um superior, um outro Duña ainda mais onipotente em quem se espelhar para inspirar seu sacerdócio. Imaginem vocês o quanto deve ser solitário amparar a todos e não poder lançar-se ao colo de quem quer que seja para um providencial cafuné. Ou ter de aturar um arrastão de sacripantas, batendo à sua porta às 3 e meia da madrugada, ávidos por um palpite para o próximo sorteio da Mega Sena acumulada.

 

É hora de retribuir, ao fulgurante ser duñesco, uma centésima parte das bem-aventuranças e dos casos instantâneos de cura de que nos servimos a um simples toque na sua túnica, nos bons tempos em que era moço e com a longa barba ainda ruiva. Não deixemos que a esplendorosa criatura renda-se ao poço da depressão incapacitante, que nos privaria irremediavelmente dos borbotões de enunciados, teoremas e máximas que há gerações jorram de sua boca para influenciar os destinos do planeta. Sugiro que o deixemos em paz nas suas meditações fecundas, para que dessa inércia restauradora ele ressurja em seu viço de líder espiritual. E para que possa, novamente, dirimir as indagações comuns aos gurus de sua estirpe: Qual o sentido da vida? De onde viemos? Para onde vamos? Por que os jalecos dos mecânicos irlandeses apresentam mais manchas nos cotovelos que os de seus colegas hondurenhos?

 

Você era

 

Você era uma lacuna. Toneladas de vazio se ergueram nos arredores, demarcando seu lugar. Por essa fenda a alargar-se, um cão vaga até hoje em inanição a farejar seu rasto e a vasculhar arestas.

 

Você era uma borracha. Das verdinhas e macias, que a gente levava no estojo, quando nem me passava pela cabeça te tirar para dançar. O fato é que um belo dia, sozinha a ouvir Rubber Soul, você apagou o meu rosto no caderno de espiral. E exultou, ainda por cima, rindo-se do meu sumiço.

 

Você era um exaustor. Sugou o ar carregado de vagabundagem e os restos de festa que haviam. Lançou para fora do apê todas as cinzas e cacos, que devem jazer amorfos em algum bueiro da pólis. O que sobrou, se sobrou, respira com a ajuda de aparelhos.

 

Você era uma pílula de placebo com validade vencida. E eu a sentir seus efeitos me fiando no seu rótulo. Depois veio a rebordosa, que deixou tudo mais seco que verso de João Cabral.

 

 

Aleatoriamente 

 

Ausência de criatividade pode não significar falta de aptidão para a coisa; talvez seja simplesmente desconhecimento de técnica. Às voltas diariamente com o dilema criativo, por questões profissionais, acabei caindo recentemente num site muito interessante sobre estratégias mentais.

 

Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “Random word”, também conhecida como “Estímulo Aleatório”. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a ideia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim paralelos e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.

 

Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “Brotoeja”. Caramba, brotoeja... Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas a aleatoriedade poderia ter sido um tiquinho mais camarada. Tentei de novo. Apareceu a palavra “Empada”. Pra achar alguma liga entre “Empada” e “Inspiração”, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica...

 

Ainda assim, fui em frente. Caí no termo “Tubo”. Relacionando “Inspiração” a “Tubo” fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à combinação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com esse argumento de tirar o fôlego. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável manancial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!!

 

Optei pela caminhada. Coloquei bermuda e tênis e pus-me em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por remota associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros de Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de “Hollywood” por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao “Mistério de Irma Vap”, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. O tear me lembrou “tears”, das lágrimas surgiram o colírio, que me abriu os olhos e me fez parar com a brincadeira. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última ideia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.

 

O fato é que cheguei a 3556 caracteres, contando espaços - o que está de bom tamanho para o texto semanal. Se vai agradar ou não, é outra história. Mas valeu ter chacoalhado a macieira.

 

 

Bicicleta ergométrica:

guia prático de convivência pacífica

 

Trapacear a si mesmo arrumando outra desculpa seria infantil: você jurou que começava na segunda, e segunda é um dia que sempre chega antes do que a gente espera. Olhe só pra ela: novinha, reluzente, a nota fiscal sobre o selim ainda coberto de plástico-bolha. Dizem que vendo TV enquanto pedala o sacrifício fica mais fácil. O problema é que, pra arrumar um lugar pra sua TurboBike Magnetic Flash, você teve que tirar a TV do quarto. E poderia ser pior: um centímetro a mais e a cama também teria que ir parar no corredor.

 

Uma bicicleta ergométrica é, literalmente, fria e calculista. Fria por ser metálica (no inverno é particularmente repugnante chegar perto); calculista pelo display multifunções que ostenta no guidom, se é que se pode chamar de guidom aquele troço que não vira nem pra esquerda nem pra direita. Enquanto você veste o agasalho esportivo, ela parece dizer: "Vem, amorzinho, monta com vontade. Prova que você é macho de verdade, vamos perder juntinhos aquela pizza 4 queijos que você ganhou ontem".

 

Você até pensou em comprar uma bicicleta comum, dessas de 18 marchas. Observando a paisagem a coisa ficaria mais lúdica e pitoresca, com a vantagem de mostrar pra vizinhança que você cuida da forma. Mas agora é tarde, e o que resta é lidar da melhor maneira com seu novo algoz. Aí vão algumas dicas:

 

- Meia hora parece meio mês quando se está em cima de uma ergométrica. Melhor não ficar olhando a cada dois minutos para o indicador de tempo de exercício. Experimente a nova técnica denominada “bike meditation”: aprumando a coluna no banco, feche os olhos, respire compassadamente e imagine-se a pedalar no Caminho de Santiago. Faça da tortura algo sagrado e redentor, um instrumento de purificação da alma.

 

- Não tente ler jornal enquanto pedala. Além de trepidar com o movimento - o que é péssimo para a vista, em minutos seu exemplar estará empapado de suor - o que será repulsivo para quem folheá-lo depois de você.

 

- Evite pensar no esforço a ser feito - concentre-se nos conseqüentes resultados. Imagine-se com os pneus devidamente esvaziados, a região glútea fortalecida e os bíceps schwarzenegicamente anabolizados.

 

- Disfarce a aversão: seja amigável com ela. Cumprimente-a pela manhã, alise-a, pergunte como estão suas catracas. Faça dela sua aliada. Afinal de contas, ela estava muito bem lá na loja. Foi você quem inventou de trazê-la pra casa. E, como dizia o Pequeno Príncipe, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

 

- Com o passar dos meses, o mecanismo começa a ranger. Isso é mortalmente irritante. Para contornar o problema, assovie sua música predileta. Ou mantenha à mão um óleo lubrificante de boa qualidade, para não acordar os vizinhos de cima e de baixo do seu apartamento.

 

- Conforme-se com uma série de sacrifícios heroicamente praticados mundo afora, sem benefício algum para a saúde. O faquirismo, a auto-flagelação, as caminhadas sobre brasas, as filas nas repartições públicas. Você verá que, mesmo montado numa ergométrica, é feliz e não sabia.

 

*  *  *

 

Auxílio-jaquetão e outras providências

 

Bendita a hora em que tomei a deliberação de alocar o Jervoilson, Assessor D.A.S. 6 e apaniguado há sucessivas legislaturas do Bergoncildes Canastra, para organizar minha biblioteca da fazenda. O pobre andava mesmo enfastiado da chupação de lápis na sub-comissão de transcrição para braile dos discursos parlamentares, e com esse afazer pode ocupar melhor os seus dias e amealhar de lambuja umas horinhas extras. No total são 1.587.313 exemplares do “Marimbondos d’Água” entulhados no paiol, em edições patrocinadas pela Prefeitura de Santa Luz, pelo Governo do Estado do Maralhão e pela gráfica do Senado, que honrou-me com 38 edições anuais e consecutivas para distribuição a ONGs e escolas públicas brasileiras e do Mercosul.

 

No mais, devo admitir que foi bastante puxada a semana que passou, com variadas emendas apresentadas e favas contadas para aprovação. A primeira delas dispõe sobre a dispensa dos senhores senadores e suplentes de suas atividades legislativas no dia de seus respectivos aniversários. Permanecendo em suas bases eleitorais, os mesmos poderão receber, no recesso de seus lares, os merecidos parabéns dos correligionários.

 

A segunda emenda diz respeito à inclusão do Arroz de Cuxá, iguaria da qual não consigo me privar, no cardápio do restaurante do Senado. Já agendei uma degustação no plenário ao som de Alcione, glória maralhense, acompanhada da Banda de Pífaros de Coroatá.

 

Já a terceira emenda só passa em primeira votação à força de conchavo e de marcação homem a homem, com os aliados da base governista caçando apoiadores na unha: a criação do “Auxílio-Jaquetão”, com verba inicial de R$ 2.600,00 inclusa no contracheque e isenta dos descontos de praxe. Modéstia à parte, considerei memorável o meu discurso, onde defendi a indumentária como sendo alternativa salutar ao calorão do cerrado, facultando o seu uso em substituição ao terno e gravata protocolares. Foi deferido ainda o encaminhamento, sem necessidade de licitação, de estudo de figurino feminino do referido jaquetão, para que as senadoras também sejam contempladas pelo benefício. O ilustre senador Filinto Mangol fez um aparte muito a propósito, sugerindo que a versão feminina contivesse estampas de florzinhas nativas das regiões de onde as legisladoras são oriundas.

 

Por tratar-se de assunto correlato, fiz constar nas discussões do mesmo dia outro projeto de minha autoria: a “Licença-Abotoadura”, que torna não-obrigatório o uso do adorno nas sessões plenárias, pelos mesmos motivos expostos para adoção do jaquetão, quer seja, a tórrida temperatura brasiliense. Adicionalmente, nossa Casa de Leis ganharia um fortalecimento da sua imagem perante a opinião pública, já que sem as abotoaduras se tornará mais prático o procedimento de arregaçar as mangas no batente.

 

Concluindo, o projeto denominado “Seguro-Jeton”, que estabelece o recebimento do adicional por assiduidade ainda que o Senador ou suplente não seja propriamente assíduo às sessões. Ninguém desconhece que a existência do Jeton é expediente criado para reforçar a remuneração básica, e o seu não recebimento seria motivo de dissabor e desconforto, tanto na Câmara quanto no Senado. A apreciação da matéria se dará em caráter de urgência urgentíssima, havendo ou não o quórum regulamentar.

 

Batata quente

 

A felicidade apareceu sem avisar que vinha, e aparentava ser daquelas que quase ninguém merece, mornas e duradouras. Assim que me assegurei ser ela mesma, fiquei na encolha só olhando as boas-vindas à hóspede.

 

De tão esperada, quando enfim presente não souberam o que fazer dela. Eduardo pensou em ciceroneá-la, apresentando à felicidade o que era o seu oposto: a lástima em que se debatiam. Lídia conseguiu demovê-lo a tempo, argumentando que a visitante se horrorizaria e jamais voltaria para visitá-los. Talvez nem tirasse as bagagens do carro, ela que veio com destino certo, mala e cuia para ficar boa temporada. E era o olhar de um a outro, a se perguntarem mudos em estalares de dedos e tremores de mãos: e agora?

 

Depois não vi mais nada: abandonei meu posto de observação no auge do impasse, enquanto a criada perguntava da janela se era para colocar ou não mais um lugar à mesa.

 

Exílio de zoólogo

 

Eu queria lhe contar das brigas que não ando tendo com ninguém mais, por não ter mais ninguém ao lado com quem implicar de forma assídua e enriquecedora, como devem ser as Implicações de verdade, com “I” maiúsculo.

 

Nem tente dimensionar o quanto é gratificante essa opção que fiz de conviver com os pinguins e dedicar-me com afinco à minha variada e já até esquecida biblioteca itinerante. Pois é, eu que vivia correndo atrás do rabo, assumo o almejado posto de rato de livros, vocação que sufoquei por longas décadas. Tempo agora não me falta para, entre um içar de velas e uma ancoragem num cais de gelo, devorar de orelha a orelha “Os mecanismos de defesa imunológica do macaco-prego”, em edição revista e atualizada, “Focas não voam porque não têm asas”, “O pelo do hamster do vizinho é sempre mais liso que o nosso (digo, do nosso hamster)” e outros tantos volumes preciosos da moderna zoologia capixaba.

 

Não obstante tão fenomenal conteúdo a fazer-me prazerosa companhia, fica um vazio que busquei e do qual andava mesmo muito precisado. E digo que esse vazio inclui (se é que é possível o vazio conter alguma coisa) a ausência de cigarras de dia, de grilos à noite e até mesmo das quase inaudíveis pegadas de um suposto abominável homem das neves – que alguns juram vagar por essas redondezas muito abaixo de zero.

 

 

Mas deixemos um pouco de lado o reino dos insetos e dos seres de existência duvidosa. O fato é que estar aqui, no seio branco da madrasta Antártida, é “marolinha”, como diz o presidente que larguei aí com você e sua turma, no país dos Simonais que submergem e vêm à tona conforme os caprichos da mídia. Difícil mesmo vai ser quando acabarem os tocos de vela e as poucas folhas de papel pardo que restam na improvisada escrivaninha da embarcação. Aí não poderei mais lhe escrever, mesmo sabendo remota a possibilidade de vir a receber esses garranchos, já que muito provavelmente o derradeiro dos 17 pombos-correio que trouxe comigo não aguentará a jornada até a Terra de Santa Cruz. E ainda que chegue não terá fôlego para trazer a resposta, o que torna esta narrativa um enfadonho monólogo por escrito.

 

Você, amiga íntima dos meus desafetos, sempre me teve na conta de sujeito de raciocínio um tanto quanto ornitorríntico, de acordo com suas próprias palavras. Saiba que me é impossível atinar com a razão dessa blasfêmia. Exceção se faça, contudo, ao meu vício de imitar gansos cansados, coisa da época em que nos implicávamos, e que de fato poderia sugerir um distúrbio neurológico latente a quem não me conhecesse suficientemente bem. Sempre primei por deixar transparecer uma imagem de sujeito simples e dócil no trato, tão fácil de lidar quanto um lhama da Cordilheira dos Andes. E disso todos os dálmatas do quarteirão eram fidedignas testemunhas. Mas, tudo bem, seja ou não feita justiça à minha pessoa, não estou aqui por sua causa e nem lhe peço satisfações de qualquer ordem. Fique aí ao calor dos trópicos, abusando dos decotes e arrastando no seu cio todas as espécies da sua raça. De minha parte, enquanto houver alguma condição de sobrevivência, vou ficando por aqui, entre os pinguins.

 

Pedrão solta o verbo

 

Pobres infelizes, até parece que vão conseguir alguma coisa a mais comigo por conta desse foguetório todo. Não posso falar pelo Antonio e pelo João, menos turrões e mais misericordiosos, mas da parte do Pedrão aqui podem tirar o cavalinho da chuva e esquecer qualquer ajuda extra. Além do mais, ninguém lembra de verdade da gente, servimos mais pra dar nome à efeméride do que pra qualquer outra coisa. Ultimamente, nem isso: é festa junina pra cá, festa julina pra lá e o santo homenageado fica de sonso na história, batizando um rega-bofe que compromete seriamente a sua honrada biografia.

 

Tem coisas que só dando risada. O que eles chamam de pau-de-sebo, este eucalipto toscamente besuntado e com a minha figura lá em cima, para mim só pode ser efeito desse friozinho de inverno sobre o cérebro, façam-me o favor. Que cheguem a mim pela caridade, pela oração e não por essa escalada anti-higiênica, que aos vencedores rende um prato de pé-de-moleque amanhecido ou prenda ainda mais reles, jamais o reino dos céus.

 

Deviam aproveitar essa fogueira enorme armada aí embaixo para queimar os hereges dessa pândega sacrílega. E como há gente, com esses inocentes vestidinhos de chita, calças de grife falsamente remendadas e dente pintado de preto, que merecia uma inquisiçãozinha daquelas, ao melhor estilo medieval. Não exagero, não. Eu é que sei como é que a coisa termina, eu é que vejo o ritual nada católico atrás da tulha do rancho e cafezal adentro, sob efeito do quentão e da vitamina E do amendoim torrado. Já vi um casalzinho – o padre e a noiva da quadrilha, por sinal – que findo o arrasta-pé fez o que tinha que ser feito escorado no já citado pau-de-sebo, sendo que o sebo acabou servindo para um expediente que nem estando nos fundos dos infernos eu ousaria narrar. Pelas túnicas de Barnabé!

 

Vejo pais de família e gente de moral insuspeita furtando paçoca, desviando rojões para soltá-los no próximo jogo do seu time, superfaturando cachê de sanfoneiro. Em tudo quanto é quermesse vejo barracas da pesca com anzóis viciados (sei por experiência própria porque de pesca eu entendo), envelopinhos de correio elegante com cocaína dentro – tudo em nome da devoção a este que vos fala. Fora as calúnias envolvendo minha pessoa que entoam abertamente por toda parte, dizendo que eu fugi com a noiva na hora de ir pro altar. Brincadeira inconsequente com o sacramento do matrimônio! E ainda falam que a dita cuja era filha do João, com quem o Antonio ia se casar. Aí já é demais, me poupem. São Pedro cobiçando a mulher do próximo, sendo que o próximo é outro santo!!!

 

Pergunto: que tem tudo isso a ver com este velho Pedro que andou com o Mestre sobre as águas, que infortunadamente o negou por três vezes, que tem as chaves do céu? Milho verde, pipoca, canjica, lá na Galileia nunca teve nada disso. E o delírio prossegue com mais uns outros termos sem pé nem cabeça, que um sujeito fica entoando no microfone enquanto os caipiras de fachada saracoteiam aos pares: caminho da roça, balancê, a ponte quebrou, olha a cobra...

 

Vou é fechar o tempo e mandar uma chuva pra acabar com tudo.

 

Cine Luxor

 

Vinte e quatro quadros por segundo. A ilusão do movimento no seu olhar desiludido, em jogos de luz e sombra. Veio porque é domingo, depois da igreja e do almoço só pode haver o cinema. As manhãs preguiçosas do domingo, as tardes estéreis do domingo, as noites insuportáveis do domingo trazendo o nojo inevitável da segunda.

           

Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.

 

Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.

 

Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.

 

Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.

 

A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.

  

Mais não peço

 

Eu olho para o seu retrato na carteira, em meio a esse Vietnam particular, e sinto o quanto tem valido a pena voltar para casa tendo morto e debaixo do braço o leão do dia, o troféu que lhe entrego em permuta de um sorriso, o costumeiro, não mais do que aquele protocolarmente aberto junto com as venezianas às sete da matina, sua hora predileta.

 

Não importa que no decorrer do período me falte o eixo pela pressão baixa e o discernimento para o que quer que esteja a um palmo do meu nariz: o que posso lhe assegurar é que sempre prevalecerá a devoção incondicional e espontânea, oferecida de bom grado para que as coisas continuem simplesmente assim, sendo o que até agora foram, pois mais não peço por não ter direito nem merecimento. Eu me contento com a janta escassa e racionada, uma beirinha que me caiba é o bastante, dá de sobra.

 

Que eu lhe seja provisoriamente útil como um calço de mesa é ideia a que já me acostumei, não tenho em mim qualquer pretensão além de compor a série B do seu time de soldados descartáveis. Escolhi assim quando lhe vi me vendo, com olhos mais curiosos que propriamente interessados, apenas acolhendo meu espanto e deixando governar sua vontade sobre a minha, sentenciando a sina que desde então vai se perpetuando. Suas esporas e botas de cano alto fazem verter o sangue, mas não machucam mais.

 

Mesmo que a você não diga muita coisa o fato de estarmos juntos, do marco zero espero que possa estar lembrada, com uma mínima ponta de nostalgia. Era então naqueles dias do começo, o reconhecimento tátil que permitia quando muito a mão na mão e uma ou outra palavra dita só no intento de dizer alguma coisa, não que houvesse precisão. No mais das vezes o silêncio era servido e se bastava, em tons de um cinza azulado. Quanto às urgências do sexo e outras do amor sabia por ouvir falar, ou das lições da rua ou das besteiras escritas e ditas em caráter de segredo nos banheiros de escola - repertório nulo quando dei pelo seu corpo, meses depois do reconhecimento inicial, pois nada do que fantasiei como sendo de proveito se encaixava no campo de pelos e carnes de verdade, o que para mim foi outro e envergonhado susto. E de que forma estranha você ria de mim e de minha imperícia, nem um pouco complacente com este aprendiz nos seus braços.

 

Em seguida vimos nós dois, se impondo no sítio da cama, um desajeito cerimonioso seguido por um modo todo seu de olhar o desenho da serra como se houvesse um outro e oculto contorno por trás dele. Coisas que ia percebendo e ruminando quieto após o seu cansaço, pressentimentos que não lhe contava para que nesse homem das trincheiras você não enxergasse um covarde cheio de dedos. O que seria uma injustiça – logo eu que saio à luta a despeito de inimigos tão mais fortes, ansiando uma comenda de bravura.

 

De espanto em espanto não restou para mim um palmo de conforto, o suficiente para que pudesse me sentir, um dia que fosse, num lar e na intimidade da mulher da minha vida – ainda que não seja nem de longe o homem que você imaginou para a sua.Mané, saudoso Mané

 

Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

 

Mané, saudoso Mané

 

Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

 

Dizia o Mané:

 

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

 

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

 

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

 

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

 

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

 

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.

 

Drops paternos

 

Me corrija se estiver errado, mas tenho sentido você um tanto desiludido, mais cabixbaixo e indolente que o costume. Filho, não se deixe abater, você não tem motivos justificáveis para entregar a rapadura. Lembre-se daquele antiquíssimo ditado hindu, que o passar do tempo só reforça sua sabedoria e validade: “O espelho da vida é a sombra do infinito”. Nos momentos de desânimo e depressão, devemos nos agarrar ao bálsamo reconfortante destas palavras, que o seu padrinho, o palhaço Estrepolia, repete religiosamente antes de subir ao palco. Sabe, me sinto muito mais à vontade em falar assim com você, por bilhetes. Como alguém que não se furta em dar o ar da graça, mas tem horror de parecer inconveniente ou arriscar um cafuné em hora imprópria. Você compreende, é meu estilo. Seu avô, o príncipe dos malabares, também era assim.

 

********

 

Ainda tem um pouco de mingau de maizena na geladeira, dá uma esquentada no microondas quando chegar. Domadores de leões como você não costumam prescindir desta iguaria, tão rica em complexo B. Meu garoto, não tente achar tanto sentido nas coisas que te disse ontem, quando conversamos a sós no picadeiro. É só a minha visão pessoal, que pode ou não ser considerada, dependendo do conceito que você tenha de mim enquanto pai. Ser pai é fácil, basta um momento de inconsequência ou de esquecimento na hora do bem-bom. Quero que a minha autoridade sobre você seja aceita pelo que digo e faço, não pelo que represento na hierarquia familiar. O fato de ser mais velho não significa que seja mais sábio que você ou que tenha me tornado menos louco com o passar do tempo. É mais do que notória a minha fama de zureta, e é impossível que tanta gente esteja errada ao meu respeito. Portanto, siga meus conselhos, mas com uma certa reserva.

 

********

 

Esfrie a cabeça, literalmente: caia n’água, pegue uma piscina. Já tive lampejos mirabolantes entre uma braçada e outra, vale tentar. Estar desorientado em questões vocacionais é normal em sua idade, comigo não foi diferente. Antes de optar de vez pelo trapézio, fui corretor de ações da malfadada Fazendas Reunidas Boi Gordo, me embrenhei alucinadamente na venda de jazigos para cães e até uma fabriqueta de troféus e medalhas já passou por minhas mãos. Em todas estas investidas admito ter quebrado a cara – o que, contrariando todas as óbvias expectativas, jamais aconteceu comigo sob a lona de um circo. É, meu filho, a vida tem dessas coisas. O que parece seguro esconde grandes ciladas, e vice-versa.

 

********

 

Pelo menos nos quinze ou vinte primeiros encontros, uma mulher só se sentirá segura em seus braços se seus braços não forem além do que ela julgue razoável. Entende o que quero dizer? Seja tolerante, extravaze os hormônios solitariamente por enquanto. Uma garota que aceita carícias naquelas partes logo de cara não serve para ser mãe dos meus netos. Ainda mais em se tratando da filha da engolidora de fogo, aquelazinha de índole duvidosa. Vou lhe fazer uma confissão: só desembrulhei completamente a senhora sua mãe na noite de núpcias, e ainda assim depois de certificar-me que seus instrumentos de trabalho não estavam ao alcance da mão. Você sabe, ela era atiradora de facas no Stankowich, onde trabalhávamos na época. Bem, chega por hoje. Nos vemos amanhã, após o espetáculo.

 

Vestibulando

 

Que alívio, crenças e rezas não foram vãs. O além parece existir mesmo, nada indica que isso seja uma alucinação da anestesia.

 

Do outro lado estou só e nu. Nem asas nem túnicas translúcidas e afins, o que atribuo ao fato de ser noviço na função, prestando um vestibular que me dará uma vaga no céu, no inferno ou noutro paradeiro não catalogado pela Bíblia. Faltou, por enquanto, o que sempre disseram que havia: o túnel luminoso que puxa irreversivelmente o recém-presunto, os parentes que já se foram aguardando com bolo, guaraná e faixa de boas-vindas, a vida do lado da carne passando como um filme rápido enquanto desligam as máquinas e decretam morte cerebral.

 

Ao invés disso, eis-me aqui a poucos metros de quem fui, quase à altura do teto, feito astronauta num treino sem gravidade, sem noção precisa do que sucedeu e muito menos do que está por vir. Bóio no corpo, se é que assim ainda posso chamá-lo, e no entendimento. Vai acontecer o que está fadado e que não me cabe saber, embora sinta o poder insuspeito do arbítrio mais livre, que me permitiria, se quisesse, fechar os olhos e abri-los um segundo depois na ponte do Brooklin ou em Jacarta. Tão inédita quanto mágica, essa nova faculdade não me seduz como seria de se supor. Prefiro estar aqui em cima e assistir ao que farão de mim e do espólio quase nulo a ser em breve repartido.

 

A estranha rédea sobre a consciência reforça a desconfiança de que esteja ligado debilmente à minha carcaça, e viva agora um impreciso devaneio de que me livrarei em poucas horas, reassumindo o sujeito com CPF, RG e obrigações a cumprir. Ninguém me assegura que não seja isso, e essa ausência de governo e coordenadas me perturbam. Mexem agora num tubo ligado ao meu braço, mas não vejo nenhuma tentativa de ressuscitação. A enfermeira anota alguma coisa na prancheta que nem tento decifrar, os óculos que usava parecem continuar fazendo falta.

 

Previsíveis providências a serem tomadas nos próximos minutos: avisar a família, preencher os prontuários de rotina, acionar o pessoal da remoção, retirar toda a tripa – inclusa aí a meia portuguesa/meia aliche devorada antes do acidente, completar o vazio das vísceras com algodão embebido em formol, costurar, vestir e meter o infortunado que vos fala (ou vos falava) num modelito clássico de mogno maciço. Cubro o rosto daqui de cima para não ver o rosto de baixo escondido até a testa com o lençol azul. “Near death experience”, uma vez entrei num site que falava sobre isso. Se retornar posso dar meu testemunho, já engrossando as estatísticas dos que quase foram. Mas pelo jeito fui mesmo, embora sem garantias de ter ido ao certo, estando assim até segunda ordem nesse lodo movediço.

 

A televisão do quarto fala sobre mim, mostrando uma foto antiga em que ainda tinha barba. Ou foi muito feia a causa mortis ou era famoso e não me recordo. A enfermeira cruza minhas mãos sobre o peito e aumenta o volume do aparelho para ouvir a reportagem, ao mesmo tempo em que a imprensa vai invadindo o quarto e disparando flashes.

 

Deliberação

 

Tendo em vista que:

 

De acordo com os pressupostos da numerologia, John Lennon e Paul McCartney jamais teriam se cruzado nas ruas de Liverpool caso se chamassem John McCartney e Paul Lennon;

 

A leitura incessante de listas telefônicas, na forma como é comumente praticada pelos tocadores de zabumba, é considerada procedimento enfadonho pela maioria absoluta da humanidade;

 

A grosso modo, não se deve julgar quem quer que seja pela aparência, salvo em se tratando de concurso de beleza;

 

É perfeitamente plausível haver, entre o si e o dó, um intervalo musical não captado pela audição humana, mas sim pela dos gafanhotos;

 

Mestre Duña há de voltar para a redenção do empirismo em sua plenitude, consolidando o método da tentativa e erro como sustentáculo da ciência em seus variados ramos;

 

A falta de quórum para aprovação da lei que estabelece mudanças na concessão do auxílio-paletó acarretará em nova sessão plenária, em data ainda a ser determinada por instrução normativa;

 

Desde os tempos de Leogivildo, o visigodo mais enaltecido pela história, não se vê tanta incompreensão e intolerância permeando as relações humanas, incluindo entre as ditas relações o coito interrompido;

 

Há em geral nos retratos antigos a evocação de ocorrência que não volta, e que portanto é de escassa serventia a sua guarda e eventual contemplação;

 

Não deixa de haver certo risco no intervalo compreendido entre os movimentos de inspiração e de expiração dos seres vivos, notadamente os mamíferos;

 

A interceptação de corpos celestes em rota de colisão com a Terra vem sendo realizada desde os tempos da guerra fria, à revelia da alta cúpula do governo cubano;

 

Fica decidido, à luz dos fatos acima expostos, que não há mais nada a fazer a não ser solicitar o serviço de informações para saber aonde se dirigir ou que providência tomar.

 

  

Uma piscada mais lenta que o normal, um micro-cochilo em meio à reta que teimava em inacabar e dou por mim com o carro quase ralando o guard-rail. Quanto em segundos durou o descuido é tão incerto quanto o que me fez acordar a tempo.

 

Estou indo para o abrigo tão antigo e permanente como o firmamento e o sentimento de dever cumprido após a missa. Lá ainda se trocam cartas e há mais que um ou outro de chapéu pelas ladeiras. A preguiça tem função e é exercida ritualmente, pede-se a benção e sente-se a mão de pai e de mãe com força de viga e de lei. É âncora de respeito, o que pai falou não se questiona. Da mesma forma ninguém desdiga o que mãe diz para ser feito, ainda que lhe falte uma beira de razão pelo avançado da idade.

 

Acelero para o oco do tempo atrasado, onde o asfalto dessa pista ainda não passou perto, meca dos centros de mesa de crochê, cucos e bolinhos de chuva, onde as mágoas da véspera saem na água do banho sem maiores dramas. Não levo nada além desta carcaça em descuido a pedir arrego, reza de proteção e cuidados redobrados. Lá ainda lembram de mim como o caçula de meu pai, no corpo novo que fui, e não serei eu a roubar-lhes a ilusão. Se não me reconhecerem, que vejam em mim um sujeito outro e distinto da imagem, agora sépia, de alguém com o cabelo em desalinho e o olhar tolo de quem não tinha noção do que teria de enfrentar.

 

Lá é um sempre que cismou de sempre ser, os incomodados que se mudassem, corressem para outras freguesias, despencassem dos penhascos e ganhassem rugas por esse mundo além-montanha, de onde nada de proveito haveriam de trazer. Quando muito esses zumbis, dos quais provavelmente eu sou o chefe, retornam trazendo o desespero dos anos idos longe dali e muito mal aproveitados, pois foram anos em lugares outros espelhando nesses lugares outros o casulo de nascença, a cidade das paredes que descascam mas permanecem paredes em seu vigor vitalício.

 

Limite de município. Falta pouco para o triunfal retorno dos vencidos e mutilados de guerra, aqueles que voltam sem medalha de bravura no pescoço. De soslaio os olhos passam pelo retrovisor, e por um instante os vejo sem papadas e livres da catarata que embaça a vista e o entendimento.

 

No lugar que não me aguarda com faixas de boas-vindas, vilarejo das coisas que são como se acostumaram, haverá decerto um povo arraigado em seu sossego a rotular-me forasteiro ou desertor, que ficará indiferente ao choro que não segurarei quando de novo embaixo da velha árvore.

 

Das últimas vezes, nesse trecho, não haviam lombadas no caminho, a bem dizer quase nem caminho havia, nem tantos carros, nem placas que falam de loções cremosas e hambúrgueres. Os velhos de então se foram e o neo-velho que chega encontrará, passado este sinal vermelho, o enigma das gerações que se sucederam sem que pudesse acompanhar. É o preço a ser pago, assistir ao sumiço das quitandas e alfaiates ao mesmo tempo em que se sente a perda de massa dos músculos e o fim como perspectiva próxima.

 

Engasga o carro. Veja se isso é hora de acabar a gasolina.

 

Um para o outro

 

Tá certo que ele não era nenhum conhecedor profundo do moderno cinema iugoslavo. Mas ela também não era nenhuma marchand francesa especializada na fase azul de Picasso ou nas esculturas de Rodin. Tá certo que ele não era nenhum master-franqueado do Instituto Kumon, com 25 unidades só no Centro-Oeste e ótimas perspectivas de expansão. Mas ela também não tinha propriamente onde cair morta, e se tinha não sabia o número da sepultura nem o cemitério.

 

Tá certo que ele não era nenhum prodígio musical, capaz de assobiar as 32 sonatas de Beethoven de trás para a frente e em ordem cronológica de composição. Mas ela também não arriscava nem o “Atirei o Pau no Gato” debaixo do chuveiro e sem ninguém em casa.

 

Tá certo que ele não era nenhum Tom Cruise, ainda que seu convênio médico cobrisse cirurgia para correção de astigmatismo congênito em grau severo. Mas ela também era um estrago natural à prova de photoshop, e estava a léguas de distância da última colocada no Miss Birigui 1978, edição do evento especialmente pródiga em mulheres corcundas e fora do peso.

 

Tá certo que ele não era nenhum espertalhão pronto a dar o bote, sendo notória sua semelhança fisionômica com Mister Bean – com a diferença que este último amealhou uma montanha de dinheiro com sua cara de idiota. Mas ela também não era nenhuma megera movida a terceiras intenções, e não consta na delegacia boletim de ocorrência envolvendo seu nome.

 

Tá certo que ele não era nenhum iogue indiano, evoluído espiritualmente a ponto de ingerir um basculante de estrume com um sorriso nos lábios, em piedoso sacrifício pelo bem da humanidade. Mas ela também não nascera Madre Teresa de Calcutá, e trocaria sem pestanejar sua alma por um naco de quebra-queixo, desde que com bastante gengibre.

 

Tá certo que ele não era nenhum exemplo de autoestima, se considerarmos as três ou quatro vezes em que foi encontrado com o gás ligado e a cabeça dentro do forno, além de outras tantas em que o flagraram ouvindo a Perla no volume máximo (e no banheiro, onde o perigo é maior devido ao eco). Mas ela também não tinha motivos para nutrir por si mesma a mais remota simpatia, tanto que uma não olhava para a cara da outra quando se cruzavam no espelho.

 

Tá certo que eles não eram nenhum casal modelo. Ainda assim apaixonaram-se, casaram-se e previsivelmente não foram nem um pouco felizes. Mas também, antes mal acompanhados do que sós.

 

Encountry o sucesso

  

Valdivino & Laudislano são um estouro nas paradas. Um sucesso talvez maior que mil estouros de boiada, coisa que nenhum dos dois viu de perto na vida, embora se proclamem cantores sertanejos como Januário & Vespertino, com seus cinturões dourados comprados numa excursão ao Mississippi. Dupla que por sua vez, a exemplo de Furacão & Hurricane, está com a agenda de shows lotada até julho de 2010 em feiras agropecuárias onde não há agricultura e muito menos pecuária. Talentos que não ficam nada a dever a Christóvão & Christino, que quase largaram a estrada com ameaça de gangrena nas pernas, fato idêntico ocorrido a Juanito & Ranulfo, por causa da compressão das calças excessivamente agarradas.

 

Essa maciça e inconteste consagração popular faz lembrar os trinados rouxinolescos de Joracy & Jurabel, guardiões da nossa legítima música de raiz, ainda que a única raiz que conheçam seja a raiz forte servida no restaurante japonês caríssimo que frequentam nos Jardins. Os mesmos Jardins que abrigam os empresários artísticos de Tiago & Risério, Suzano & Bebeto e Wilson José & José Wilson, reis absolutos do cancioneiro arranca-toco, sem que jamais suas caminhonetes 4x4 cabine sêxtupla tenham passado perto de um caminhão de bóias-frias. Frutos consagrados da roça como Alexandrino & Dito da Tulha, com suas taperas e ranchinhos fincados em Alphaville, suas aparições compradas nos programas de auditório e suas cotas de 48 páginas/ano de fotos no Castelo de Caras.

 

Nenhum outro duo, todavia, tem levado tão a sério o trabalho de preservação das tradições caipiras quanto Caio Morotti & Feliciano, cujas reboladinhas country e solinhos de banjo resgatam às novas gerações o folclore de Kentucky e Massachusetts. Ídolos que sofreram forte influência dos inimitáveis Osmar & Arsênio, dupla com apresentações-surpresa e merchandising garantidos até a edição 15 do Big Brother Brasil, aquele reality show roteirizado pela equipe de redatores da Rede Globo.

 

O fato é que o Olimpo da autêntica moda de viola é pródigo de estrelas. Só mesmo alguém com estrume na cabeça poderia deixar de reconhecer a contribuição decisiva de Bruna & Torrone, Aladin & Lâmpada Maravilhosa e Andrezinho & Rodrigão para o sucesso dos leilões de gado empreendidos por esse Brasil sem porteira. O caviar russo e as doses cavalares de Blue Label ali servidos de nada adiantariam sem os megashows dessa turminha rural – que verdadeiramente embala e alavanca os lances mínimos de 500 mil reais por uma colher de sopa de sêmen de zebu premiado.

 

Meu amigo, eu diria que esse é o lado maravilhoso da chamada globalização: o Texas fica em Pindamonhangaba e vice-versa. Dá orgulho ver os nossos jecas e matutos tornando-se tão idênticos a um farmer anglo-saxônico, ainda que só na roupitcha. Cabe a nós valorizar e levar adiante essa bandeira multicultural. Às vezes ouço falar, meio por alto, de outros nomes menos conhecidos: Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho, Cascatinha & Nhana, Pena Branca & Xavantinho. Confesso minha ignorância. Seriam novas duplinhas country? Se tiverem mesmo talento, logo logo estarão na TV. É esperar para ver.

 

 

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário e colunista de diversos jornais e revistas eletrônicas.

   Seu blog: www.consoantesreticentes.blogspot.com.E-mail: msguassabia@yahoo.com.br.

 

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