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Carl Sagan e o futebol: Esferas da Terra e do céu O renomado astrônomo também se ligou nas velozes esferas orbitadas por 22 homens em gramados terrestres.
Por Márcio R. Mendes Dois Córregos-SP Para ASTROvia
Além de estrelas, Carl Sagan procurou compreender o futebol.
Curiosamente, dias atrás, quando olhava a tabela dos próximos jogos da Copa da África do Sul 2010, descobri que nesta edição teremos pelo menos três jogos do tipo "Colonizadores x Colonizados". No dia 12/06 EUA x Inglaterra, dia 25/06 Brasil X Portugal e dia 26/06 Chile x Espanha.
Logo me lembrei de um tópico sobre futebol, descrito por Carl Sagan. Isso mesmo; está no seu livro "Bilhões e bilhões", pág.30, capítulo 3. “Não podemos evitar. Nas tardes de domingo e nas noites de segunda-feira, no outono de cada ano, abandonamos tudo para observar as pequenas imagens em movimento de 22 homens - colidindo uns com os outros, caindo, levantando e chutando um objeto alongado feito com a pele de um animal. De vez em quando, tanto jogadores como os espectadores sedentários são levados ao êxtase ou ao desespero pela evolução do jogo. Em toda parte, nos Estados Unidos, as pessoas (quase exclusivamente homens), paradas diante das telas de vidro, torcem ou resmungam em uníssono. Descrito dessa forma, parece estúpido. Mas, quando se adquire o gosto pela coisa, é bem difícil resistir, e falo por experiência própria”, descreveu o astrônomo.
E por aí vai... Passando pelo que não é novidade para nenhum entendido em esportes, “Há craques dos esportes que ganham cinquenta vezes o salário anual do presidente; outros que são eleitos para altos cargos depois de aposentados. São heróis nacionais. Por que exatamente? Há algo nessa questão que transcende a diversidade dos sistemas políticos, social e econômico. Algo primevo que nos atrai”.
Mais adiante, Sagan começa a se justificar e colocar seus pontos de vista, “A maioria dos esportes mais importantes está associada a uma nação ou cidade, e eles contém elementos de patriotismo e orgulho cívico. (...) Os esportes competitivos são conflitos simbólicos, mal disfarçados. Os cherokees chamavam sua antiga forma de lacrosse de 'o irmão pequeno da guerra'... Na realidade falamos de ganhar ou perder uma guerra tão naturalmente como falamos de vencer ou perder um jogo”.
E segue, intercalando algumas entrelinhas, “A conexão entre o esporte e o combate fica bem clara. Sabe-se que os fãs (a palavra é abreviatura de 'fanáticos') do esporte tem cometido agressões, e às vezes homicídio, quando escarnecidos por causa de um time perdedor; ou quando não podem torcer por um time vencedor; ou quando sentem que o juiz cometeu uma injustiça”.
A partir daí, Sagan sugere a situação bem natural de quando estamos mexendo a esmo no seletor de canais (trocado hoje pelo controle remoto) e, inesperadamente, nos deparamos com um jogo em andamento. Vez ou outra, os times que se enfrentam nem são os ‘nossos’, mas, instala-se quase que instantaneamente uma postura de torcer por um ou por outro; e vem a questão: por que não se divertir apenas assistindo o jogo? Queremos tomar parte na competição. Queremos nos sentir membros de um time e esse sentimento, simplesmente, nos arrebata. Mas, às vezes torcemos pelo time que está perdendo; às vezes, vergonhosamente, até viramos casaca, abandonando o perdedor e torcendo pelo vencedor... O que procuramos é a vitória sem esforço. Desejamos ser envolvidos em algo parecido com uma guerra pequena, segura e bem sucedida.
E o autor segue pelo capítulo inteiro, divagando sobre as "raízes" dessas tendências típicas do comportamento humano, chegando mesmo a listar em páginas e páginas, os times e 'totens' associados e separados por modalidades esportivas.
De qualquer forma, pouca gente reflete sobre isso; muito menos agora, quando as rodadas da Copa estão para começar e, certamente ganharão a atenção geral do mundo todo. Portanto, neste período, que se dane as reflexões...
Vai, Brasil, que a bola é sua!
* Márcio Mendes é físico, professor em Dois Córregos/SP, astrônomo amador, membro da REA (Rede Astronômica Observacional) e consultor de Astronomia para os portais Via Fanzine e ASTROVIA.
- Imagens: Acervo Carl Sagan/fotomontagem VF.
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