ARQUEOLOVIA ASTROVIA DORNAS ITAÚNA J.A. FONSECA SÃO TOMÉ UFOVIA VIA FANZINE           

 

 

 Meio Ambiente

    

Agrotóxico em São Tomé das Letras:

A guerra contra a vida

Uma calamidade global também faz vítimas em nosso município

 

Por Rafael Vidal*

Para Jornal São Tomé Online

18/01/2023

 

 

Pulverização de agrotóxico no bairro rural da Lagoa, em janeiro de 2022.

Leia também:

Outros destaques no Jornal São Tomé Online

Outros destaques em Via Fanzine

 

A guerra na Ucrânia se iniciou em 24 de fevereiro de 2022, chocou o mundo e está próxima a completar um ano. Se estima que se tenham perdidos 98 mil militares russos, treze mil militares ucranianos e sete mil civis.

 

A guerra do Vietnã de 1954 a 1975, levou a vida de 3,4 milhões de pessoas em uma média de 160 mil por ano. A Guerra ao Terror depois de 11 de setembro de 2001 - envolveu mais massivamente Iraque, Afeganistão e Paquistão, mas no total envolveu 76 países - estima-se ter matado quase um milhão de pessoas, se prolongando por 20 anos podemos estimar uma média de 50 mil pessoas por ano.

 

Muitas são as tragédias da humanidade, porém as guerras citadas acima não superam a taxa de mortos cada ano por agrotóxicos. Uma média de 200 mil pessoas todos os anos são vítimas de intoxicação aguda por agrotóxicos, segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU.

 

Batatas em Sobradinho

 

Em 2019, o município de São Tomé das Letras aprovou a lei número 1.505, de autoria do então vereador Adriano Jiló (PV), após o surgimento de várias plantações de batata no distrito de Sobradinho. Os munícipes procuraram as autoridades da Saúde e legislativas do município, pois estavam sendo vítimas de intoxicação pela exposição aos aerossóis. Sendo assim, em acordo com a lei municipal, foi estabelecida uma distância mínima entre a plantação, as residências e cursos d’água.

 

A batata deixou o município, mas o problema não está resoluto. Outras culturas com toxidade semelhante que também fazem aplicação de agrotóxicos vieram preencher o vácuo deixado. Em 2021, no bairro rural da Lagoa, novos casos de intoxicação vieram a ocorrer. Na ocasião, cinco moradores com quem conversamos sobre o caso tiveram sintomas semelhantes entre si, como diarreia, náusea, vômito e dor de cabeça, que tiveram início junto às aplicações em novembro daquele ano.

 

Os moradores buscaram o poder público a primeira vez em fevereiro de 2021, preventivamente à plantação para que alguma providência fosse tomada. A plantação, no caso soja, está situada a menos de 500m de 50 residências e a menos de 200m de cinco nascentes. Embora o cultivo não seja de batatas, a cultura causa danos muito semelhantes e pela falta de curvas de nível e contenção as enxurradas na vasta terra arada está prejudicando ainda mais os rios - que são fonte de água para os moradores - além de estar assoreando e abrindo valas nas estradas da região.

 

No ano de 2022 tivemos em novembro cinco famílias que não conseguiram bombear mais água para suas casas por 19 dias, tendo que acionar a Defesa Civil. O problema ocorreu por causa de uma enxurrada que desceu da plantação de soja e carregou mais de uma roda d’água no caminho. Também houve o assoreamento de lagos destinados à criação de peixes, um prejuízo ainda não calculado pelo proprietário dos lagos que havia recém adquirido o imóvel.

 

"Lei só existe para batata"

 

Essa situação deixa claro que a lei restrita apenas ao plantio de batatas não cumpre a sua função social primordial, que é garantir uma distância apropriada entre os moradores e fontes de água para com os cultivos que utilizam venenos. Para que seja eficiente, deveríamos fazer uma interpretação extensiva da mesma lei e incluir todo tipo de cultura vegetal que utilize agrotóxicos, pois se entende que a tentativa de proteção aos moradores foi burlada com uma troca da espécie cultivada, sem resolver o problema da contaminação.

 

Os moradores da Lagoa, vítimas do agrotóxico, seguem mobilizados há quase dois anos no município pedindo pela garantia do direito de acesso à água de confiança para que não façam parte das estatísticas em um futuro próximo.

 

Como já é recorrentemente documentado em diversos países, a exposição constante aos agrotóxicos tem desencadeado surtos de diversas doenças. A DW alemã lançou em 2021 um documentário chamado “O Surto Rural de Parkinson” (“The Rural Rise of Parkinson”) no qual mostra como dobraram os casos da doença no país, desde 1990. E como esses casos se concentram nas pessoas que “buscaram uma suposta vida saudável no interior entre pomares e vinhas”.

 

O glifosato, agrotóxico base para as pulverizações, está ligado ao surto de anencefalia em Washington e o aumento de diversas outras doenças nos Estados Unidos. São elas: câncer de fígado e no ducto biliar intra-hepático, câncer de rim e na pélvis renal, câncer de tireoide, câncer de bexiga, hipertensão, derrame, obesidade, diabetes, desordem do metabolismo lipoproteico, estágio terminal da doença renal, falha renal aguda, doença inflamatória intestinal, altismo, demência senil, Alzheimer, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica, prion e doença celíaca.

 

Ante o exposto, se vê a suma necessidade de uma repaginação da lei vigente para que se enquadre à realidade do município e atenda às necessidades da população visando que as atividades agrícolas não prejudiquem os vizinhos. Os aerosóis podem, dependendo da intensidade e direção do vento, viajar até mais que os 500m previstos na lei, sendo a distância também não o suficiente para evitar totalmente a contaminação.

 

Tecnologias como barreiras de árvores deveriam ser incorporadas para complementar essa medida, além de enfoque em melhor preservação dos corpos d'água. Como o "novo ouro" e bem da União, a água descontaminada é essencial para a preservação da saúde tanto dos habitantes como do próprio ecossistema.

 

Diretos básicos das populações

 

Água, saúde, vida e moradia são reconhecidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição Brasileira como direitos básicos. Porém, vem se tornando uma questão de escolher quais desses direitos universais os moradores querem contemplados para si: se permanecem nas moradias próximas às plantações sabem que não terão acesso à água de qualidade e por meio da água e dos aerossóis presentes no ar terão sua saúde comprometida; o que pode vir a agravar, se tornando uma fatalidade como é comum em casos de intoxicação, tanto pela intoxicação aguda, quanto pela perda de imunidade por uma exposição prolongada; a outra opção seria abrir mão do local aonde reside e buscar se acomodar em outras regiões, como alguns moradores já fizeram.

 

O movimento contra os agrotóxicos vem ganhando força no município: se uniu ao movimento Todos Pela Água que há oito anos luta por causas semelhantes, tendo participado de reuniões do CODEMA; de duas Tribunas Livres na Câmara Municipal e se reuniu esta semana com o prefeito Tomé Alvarenga, sua assessora jurídica Isabela Castro e o técnico agrícola da Emater, Rogério Ferreira para discussão do caso na segunda-feira (16/01).

 

Soluções podem ser esperadas em um futuro próximo, mas tanto a eficiência como a agilidade destas dependem intrinsecamente de engajamento popular e divulgação da causa defendida. Nenhuma batalha é fácil, mas estamos muito próximos das catástrofes irreversíveis das mudanças climáticas.

 

Depois de 65 milhões de anos da Quinta Extinção em Massa, estamos desencadeando a Sexta Extinção em Massa pela nossa própria atividade na Terra. Hoje já temos uma média, segundo a ONU, de 150 espécies extintas por dia. Estamos colocando em risco não somente as outras espécies no planeta como a nossa própria.

 

Enquanto cidades se preparam para receber refugiados do clima, as decisões tomadas para frear as mudanças climáticas são insatisfatórias e não têm perspectivas nem com muito otimismo para se evitar problemas extremos decorrentes.

 

Os agrotóxicos também têm o seu papel nessa calamidade, pois, não apenas matam os polinizados essenciais para a continuidade das angiospermas, mas também afeta a vida microscópica que é responsável pelo ciclo de nutrientes.

 

Estão diretamente ligados à perda da biodiversidade nas proximidades da plantação, o que se agrava, pois, a vegetação de altitude, aonde se encontra nosso município, é pela Constituição do Estado de Minas Gerais uma área de preservação especial, contendo fauna e flora bem peculiares e sendo berço de águas para a bacia da região.

 

* Rafael Vidal é membro do Movimento Todos Pela Água / STL-MG.

 

- Foto: Jornal São Tomé Online.

 

- Extra: Ajude-nos a tornar o município mais orgânico e a proteger a vida e a saúde da população ameaçada pelos agrotóxicos em São Thomé das Letras, clique aqui para apoiar nosso abaixo-assinado contra o uso inapropriado de agrotóxicos.

 

- Referência externa:

 

Estatística das guerras:

 

https://www.ibtimes.com/ukraine-war-russian-death-toll-exceeds-98000-590-more-die-one-day-3648579

 

https://www.britannica.com/question/How-many-people-died-in-the-Vietnam-War

 

https://www.brown.edu/news/2021-09-01/costsofwar

 

 

Agrotóxico:

 

https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2017/03/08/a-cada-ano-200-mil-pessoas-morrem-no-mundo-envenenadas-por-pesticidas.htm

 

https://www.dw.com/en/poisoned-land-the-rural-rise-of-parkinsons/video-59284998

 

https://ecovirus.org/arquivo/agrotoxico/O%20surto%20de%20doen%c3%a7as%20relacionado%20ao%20glifosato%20nos%20Estados%20Unidos.pdf

 

https://youtu.be/rEBL2mI0BDk (ONU: agrotóxicos matam 200 mil por ano)

 

https://youtu.be/9OW5RAD2PN0 (Câmera Record mostra como o uso de agrotóxicos tem provocado doenças em produtores rurais)

 

https://youtu.be/XP20OJto0Xs (Greenpeace Brasil: A verdadeira história dos agrotóxicos) 

  

Leia também:

Outros destaques no Jornal São Tomé Online

Outros destaques em Via Fanzine

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2023, Pepe Arte Viva Ltda.
 

Ir para a página principal

 

ARQUEOLOVIA ASTROVIA DORNAS ITAÚNA J.A. FONSECA SÃO TOMÉ UFOVIA VIA FANZINE           
© Copyright 2004-2023, Pepe Arte Viva Ltda.