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CONTOS & LENDAS

 

 

Um homem me contou:

São Tomé dos Cachorros

“Estes cachorros que hoje você vê nas ruas de São Tomé, são antigos moradores daqui que faleceram e suas almas voltaram nos corpos destes animais”. Ao falar isso, fiquei sem saber o que pensar ou dizer...

 

 

Por Pepe Chaves*

De São Tomé das Letras

Para Jornal São Tomé Online

31/03/2020

 

"Os cães de rua são velhos conhecidos meus. Quando eram homens e mulheres pude conhecer muitos de perto", afirmou ele.

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Era uma sonolenta tarde de domingo e eu estava só, andando por entre os arbustos do Parque Antônio Rosa. Esperava o sol baixar pra fazer algumas fotos do anoitecer, sempre que posso, gosto de registrar a luz crepuscular em fotografias.

 

Ao passar ao lado de uma candeia, eu vi um homem sentado no chão. Eu nunca tinha o visto na cidade e nem voltei a vê-lo. Do seu lado havia um cachorro preto e grande esfarelando um resto de pão de sal seco. Ao me ver ali, aquele homem me perguntou se eu tinha isqueiro. Prontamente eu o emprestei e ele acendeu um cigarro de palha, perguntando se eu era daqui. Disse que estava sendo, mas que não nasci nesta cidade.

 

Ele tinha um sotaque de língua espanhola que já falava um português quase perfeito. Eu perguntei seu nome, ele disse que era João do Norte e lhe falei o meu. Perguntei-lhe: “De que Norte você é?”. E ele respondeu: “Do lá de cima”.  Perguntei se estava morando ou se visitava a cidade, ele me disse que estava de passagem, como “sempre estive”, afirmou. Vi que perto do cachorro havia uma grande e surrada mochila, e de fato, ele parecia estar de passagem.

 

Estranhamente, João me perguntou o que eu achava dos cachorros de rua de São Tomé. Estranhei a pergunta, mas disse que gostava deles, apesar de alguns me perseguirem de moto, pois sempre criei e gostei de animais. Também disse a ele que eu admirava o trabalho de alguns voluntários da cidade em prol do bem-estar desses animais indefesos. Ele então me disse que sabia porque eles não gostavam de motocicletas e que poderia me contar o porquê disso, caso eu quisesse ouvir sua história sobre os cães de rua de São Tomé das Letras.

 

Sentei-me do seu lado e disse: “Claro, quero ouvir, conte-me, por favor”. Ele então me contou que considerava qualquer cachorro da mesma maneira que considerava um ser humano. “Todas as almas são iguais”, falou. Disse que, uma vez que todos receberam o mesmo sopro vital, nem o homem, nem o animal teria prioridade um sobre o outro perante à vida; que ambos eram igualmente “criações divinas” e de mesmo valor espiritual para o Criador.

 

Contou-me que costuma ficar há tempos sem vir à cidade, mas, sempre que vinha era reconhecido por muitos dos “nossos” cachorros de rua, porque, “Toda vida eu os tratei bem”. E seguiu dizendo, “Eu já os tratava muito bem, mesmo antes de serem esses cachorros de hoje”. Não entendi o que ele quis dizer e o perguntei: “Como assim?”.

 

“Estes cachorros que hoje você vê nas ruas de São Tomé, são antigos moradores daqui que faleceram e suas almas voltaram nos corpos destes animais”. Ao falar isso, fiquei sem saber o que pensar ou dizer... Até considero a possibilidade de reencarnação, mas somente entre os humanos, como prega o kardecismo. Em animais seria outra história. E ele continuou dizendo: “Você como morador daqui, depois que falecer poderá um dia renascer numa dessas ruas, do ventre de uma cadela”. Ao dizer aquilo, eu sorri timidamente e disse: “Bom, se isso faz parte do processo espiritual, que assim seja”.

 

Ele então contou que esta cidade teria um compromisso espiritual com a metempsicose, como é chamada a reencarnação de almas humanas em corpos de animais, como prevê o Budismo e outras crenças orientais. Ao aprofundar neste assunto eu tentei identificar se ele estaria sob efeito de alguma droga, ou delirando por algum motivo. Mas seu semblante estava firme e normal, seu olhar era profundo e quando falava ele fitava fixamente nos meus olhos.

 

Eu lhe perguntei então o que o levava a pensar daquela maneira. “Eu não penso sobre isso, eu vivo isso. Os cães de rua são velhos conhecidos meus. Quando eram homens e mulheres pude conhecê-los muito de perto”, disse.

 

E então ele me contou porque grande parte dos cachorros de rua da cidade tem a mania de perseguir motos, e até morder motociclistas. De acordo com ele, há décadas atrás, um cachorro foi atropelado e morto por um motociclista que vivia na cidade. E ao morrer, a alma desse cachorro conclamou às demais a se revoltarem contra as motocicletas. “Todos os cachorros que você vir avançando em moto faz parte deste clã, que resolveu vingar a morte daquele que foi atropelado”, contou ele.

 

Após admirar um certo espanto que manifestei, João do Norte me disse que precisava descer. Apertamos as mãos, nos despedimos e ele desceu com o cão preto que estava do seu lado, enquanto eu segui na direção do Mirante.

 

Eu nunca tinha ouvido uma história tão estranha. E jamais poderia pensar em algo assim. Logo depois, pesquisei um pouco sobre a crença na transmigração das almas pela metempsicose, propondo que os humanos poderiam se reencarnar em animais, plantas ou minerais e não somente na forma humana. E não deixa de ser uma hipótese interessante, a qual eu nunca havia levado em consideração...

 

Essa é mais uma das muitas histórias que ouvi aqui em São Tomé das Letras, se isso é mesmo verdade, creio que não saberei, mas fica o registro por ter sido algo espontâneo e muito interessante.

 

*  Pepe Chaves é jornalista e editor do diário digital Jornal São Tomé Online e da ZINESFERA.

 

- Imagem: Pepe Chaves/Jornal São Tomé Online.

 

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