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 FIGURAS IMORTAIS

 

Da Argentina para São Tomé das Letras:

Dom Juan e seu voto de pobreza - Juan Uviedo

Me falaram que o homem era muito interessante e curador muito competente, fui lá conferir. E bota interessante nisso!

 

Colaboração de

Flávia Mari Klc*

De São Tomé das Letras-MG

04/12/2018

 

Dom Juan, quase aquele do Castañeda.

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O homem casou 6 vezes e tem 14 filhos (casou a primeira vez com 18 anos). Rodou o mundo, visitando tribos indígenas e estudando e dando aula em Universidades da Europa e dos Estados Unidos. Morou junto com o Carlos Castañeda, na Universidade de Berkeley, onde os dois davam aula. Dirigiu peças de teatro, na Broadway, na Europa e também aqui, no teatro Ruth Escobar. Faz um trabalho para crianças em São Tomé das Letras, sustentando e educando 30, mantendo uma brinquedoteca e fazendo doações de cestas de alimentos e presentes de Natal para mais outras 150 crianças. E pasmem: o homem fez voto de pobreza!

 

O homem é Juan Uviedo, 78 anos, argentino e cidadão do mundo, xamã e estudioso da ciência, psiquiatra formado em Paris e criador de um jogo das pedras, curador e fumante. Enfim Juan tem uma série de qualidades que eu quero ter quando crescer (já disse isso de outros entrevistados, me desculpem, mas só entra gente muito interessante nessa minha vida de entrevistador).

 

Entro no apartamento do Juan, aqui em São Paulo (ele mora em São Tomé, vem aqui para atender pacientes), e já começo a achar engraçado. O apartamento é duplex, a sala não é muito grande, mas quase não tem móveis, só uma mesa e duas cadeiras. Mas é um apartamento respeitável para um xamã. Ele percebe logo e vai dizendo: “Não estranha o apartamento, não é meu, não. O dono quer me dar, mas eu não posso aceitar porque fiz voto de pobreza há alguns anos. Venho aqui para atender pacientes e de tudo que eu ganho fico com 10% para distribuir pelos 4 filhos menores (19 a 31 anos, ele explica depois) e o restante vai para o trabalho da Associação Viva Criança, de São Tomé.”

 

Observo-o melhor e começo a achar o Juan um figuraço. Muito bem fisicamente, rosto sorridente e muito expressivo, todo vestido de branco, roupa bem folgada e descalço. E ótimo contador de histórias. Julguem vocês.

 

“Nasci quando minha mãe já tinha mais de 50 anos e um monte de filhas, só mulheres. Com 16 anos, pouco mais, já estava correndo mundo, tanto conhecendo tribos indígenas – conheci muitas pela América Latina -, como viajando pela Europa e pelos Estados Unidos. E a experiência mais fantástica, e o maior aprendizado, foi com os jivaros, aqueles índios do Equador que encolhem cabeças e são canibais. Fiquei lá 9 meses e só voltei porque eles me drogaram e colocaram numa canoa dentro de um rio e lá fui eu. Sem nenhuma roupa, aliás”.

 

‘Cola’ xamânica

 

“Me formei em Psiquiatria e Psicanálise em Paris, mas só estudava aquilo que eu gostava. Por exemplo, em Anatomia e Fisiologia eu só gostava de cérebro e coração e só estudava isso. Como já conhecia um pouco de xamanismo, sabe o que eu fazia? Escrevia na sola dos pés essas palavras – cérebro e coração – e depois batia os pés no chão, como eu tinha aprendido com os índios. E nas provas só caía isso, não dava outra”.

 

“Dei aula em várias Universidades da Europa e dos Estados Unidos e continuei visitando tribos e aprendendo com os índios. Em Berkeley, no campus da Universidade, eu morei com o Castañeda, e aprendi muito com ele. E ele dizia que também aprendeu algumas coisas comigo. Ele tinha fome de saber, e também uma fome física incrível...”.

 

“Às vezes eu chegava em casa querendo comer alguma coisa, abria a geladeira e... nada. O Castañeda tinha zerado tudo. Alguns amigos brincam dizendo que eu sou o Dom Juan do Castañeda, mas não é nada disso. O Dom Juan não existe como pessoa, o Castañeda era um excepcional antropólogo e tinha uma sabedoria imensa – nós achávamos que ele não era deste planeta e sua ‘morte’ ou desaparecimento meio que comprovou isso. Então Dom Juan personificava todo esse conhecimento do Carlos, intelectual, arquetípico, intuitivo e outras sabedorias.”

 

E aí, São Tomé das Letras...

 

“Depois de uma caminhada de muitos dias, cheguei em São Tomé das Letras e logo concluí que ali era a parada final. Sentei na montanha e meditei muito tempo e tudo foi se aclarando. Não só percebi que ali era o meu lugar, como descobri qual era de fato a minha missão nesta vida: cuidar de crianças. Eu tinha 14 filhos, resultado de 6 casamentos, mas nunca tinha sido grande pai”.

 

“Engraçado é que poucos dias depois me entregaram um menino para criar, e esse menino é hoje presidente da associação para crianças que eu fundei e para onde vão os 90% do dinheiro que eu ganho”.

 

“Dias depois de chegar a São Tomé liguei para minha mãe. Eu disse o nome da cidade e ela falou que eu tinha chegado ao meu destino – outra curiosidade é que eu nasci numa cidade chamada San Tomé, na província de Santa Fé, na Argentina. Poucos dias depois minha mãe faleceu, já bem perto dos 100 anos. Parece que ela estava esperando eu chegar a São Tomé”.

 

“Tempos depois, comprei a montanha onde tinha sentado quando cheguei e tive as revelações. O povo da cidade ficou me olhando assim como se eu fosse bobo, porque todo mundo na cidade dizia que na montanha não havia água. Pois é, até agora eu já achei 5 nascentes na montanha...”. Juan diz ainda que já obteve autorização para ser enterrado na montanha, exatamente no lugar onde se sentou pela primeira vez e onde medita até hoje.

 

Juan tem ideias curiosas também sobre como acabar, ou pelo menos diminuir, com a violência. “Sabe o caso do menino agora no Rio? A solução que eu daria era prender todos os parentes dos criminosos, além deles, claro. Prende pai, mãe, avó, filhos, tudo... Violência é sempre uma questão familiar, de educação e de karma... Os índios fazem assim e muito raramente há problemas nas tribos. Na Associação, nós também fazemos a divisão da responsabilidade em grupo. Se um garoto tira nota baixa na escola, os 3 ou 4 colegas de quarto são punidos junto com ele... Se alguém não faz a sua tarefa do dia e da semana, ninguém tem folga no fim de semana... E tudo funciona muito bem”.

 

Dom Juan faz atendimentos e leituras xamânicas e com o jogo das 64 pedras aqui em São Paulo, para onde vem todos os meses. E faz mais um mundo de coisas, até casamentos xamânicos. E a Associação Comunitária Viva Criança tem diversas atividades em São Tomé das Letras, desde a Montanha onde vivem, estudam e aprendem profissões cerca de 30 crianças, até a Brinquedoteca, a Biblioteca, o Mercado de Trocas, a Rádio Escola e vários eventos específicos.

 

Juan Uviedo faleceu no dia 16/11/2009 em sua casa na Montanha e foi enterrado ali mesmo conforme o gráfico que nos deixou, sentado mirando ao Sul com seu jogo de pedras na cabeça. Ele faleceu a exatos 7 dias de terem se acabado as filmagens do documentário “El Provocador (a mentira é a estratégia da verdade)”, filmado com o apoio do INCAA (Instituto de Cine e artes audivisuais) de produção argentina.

 

* Flávia Mari Klc é natural de Buenos Aires/Argentina, estudou música, teatro, medicina, jornalismo e história, atualmente trabalha com Cosmologia Xamánica em São Tomé das Letras-MG. É editora do blog https://cosmologianovaciencia.blogspot.com/.

 

- Foto: Cosmologia Nova Ciência.

 

- Para saber mais sobre a Associação Viva Criança STL, clique aqui.

 

- Esta matéria foi publicada originalmente no blog Cosmologia Nova Ciência.

 

- Extra - Assista aos vídeos com Dom Juan Uviedo:

Psicodrama - Don Juan Uviedo (teaser 1)

Todos os caminhos levam à Juan. Os caminhos de Alices 5 . O encontro com a lagarta

A Escola Invisível

 

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- Produção: Pepe Chaves.

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