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 Crônicas de São Tomé

    

Primeira crônica:

De Sant’Ana a São Tomé acima

Nesta primeira crônica apresento um pequeno resumo das cinco viagens como turista, até a sexta e definitiva, quando me tornei morador de São Tomé das Letras.

 

Por Pepe Chaves*

Para Jornal São Tomé Online

05/12/2018

 

São Tomé das Letras é uma cidade que mistura o ortodoxo católico com uma imensa gama de culturas modernas e não religiosas.

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Cheguei primeiramente nestas paragens da Serra da Mantiqueira no final de dezembro de 1996, para a passagem do ano novo de 1997. Fui levado a São Tomé por uma pessoa muito querida na época, que gostou do lugar e me indicou. Estive acampado no Camping Pico do Leão (atualmente extinto, cujo terreno integra hoje o Parque Municipal Antônio Rosa) e por uma semana permaneci na cidade. Ali conheci pessoas do Rio e São Paulo e por alguns dias, vivemos numa perfeita comunidade de barracas.

 

Nesta semana, eu pude conhecer alguns pontos turísticos como o Parque Municipal Antônio Rosa, a Casa Pirâmide, as cachoeiras do Flávio, Eubiose, Véu da Noiva, Paraíso, Lua, Sobradinho, Vale das Borboletas e Shangri-la, além de outros locais. Também tive a oportunidade de adentrar vários metros no interior da Gruta da Bruxa e da Gruta do Carimbado (hoje interditada), locais de difícil acesso, além da Gruta de Sobradinho, que é de fácil acesso. Tudo o que vi na natureza desse lugar me fascinou, apesar da aparente depredação causada pela indústria da pedra (base da economia letrense) em alguns locais do município.

 

O clima serrano, com sua neblina que aparecia e desaparecia em segundos diante dos meus olhos me fascinou. Os ventos fortes, chuva e sol se alternando, e à noite um céu de brigadeiro quase sempre nos cobria. Desde a primeira vez que pus os pés nestas pedras, ainda naquele ano de 1996, eu pensei: “um dia quero morar aqui”. Nasci em Itaúna-MG, terra de Sant’Ana de São João Acima, Centro-oeste de Minas, cidade que tanto amo e possui uma população 12 vezes maior que São Tomé, porém, com a metade da altitude daqui, por isso, fui criado em um lugar bem mais quente e de clima até incômodo nalgumas partes do ano.

 

Detalhe da Cachoeira do Flávio.

  

Retornei à cidade sul-mineira um ano depois, no reveillon de 1997/1998, com amigos (entre eles, os irmãos André Luiz e Fábio Lúcio Gontijo, e o Anderson, todos de Itaúna). Naquela ocasião eu quase (mas quase mesmo...) me afoguei na Cachoeira Véu da Noiva. Fui salvo no último segundo pelo meu amigo Anderson, quando minhas vistas já haviam escurecido e eu vi que ia submergir...

 

Sempre nadei até bem, mas senti um estresse muscular em um local profundo (era cheia) e naquele instante pensei que ia me afogar mesmo, pois não conseguia me mover. Já havia perdido as forças e estava pronto para afundar, quando um braço amigo me puxou para sobre uma grande pedra, já exausto... Ali eu renasci, gastei minha "vida reserva" e sou grato  para sempre ao Anderson, a quem entendo que devo-lhe a minha vida. Apesar do pânico vivido (o mais próximo que cheguei da morte), não vi esse fato como um terror ou algo negativo, mas soou como um profundo aprendizado. Prestes a me afogar, eu vi de frente os olhos da morte e ali, ela me sorria... Essa foi e sempre será uma experiência única, que só eu saberei interpretar.

 

Este autor na Cachoeira Véu de Noiva, onde quase perdeu a vida.

 

Então, voltei à cidade pela terceira vez somente 18 anos depois, numa viagem solitária partindo de Belo Horizonte em 2015, quando a encontrei (urbanisticamente falando) bem diferente daquela da década de 1990. Agora, a área urbana “se encostou” na Pirâmide, cujos arredores eram compostos somente por matas e não havia construções próximas. Naquela ocasião eu compus uma matéria para Via Fanzine intitulada “São Tomé das Letras: Lugar onde o tempo poderia parar”, falando um pouco destas mudanças, entre outros aspectos locais. Nesta ocasião eu fiquei hospedado no Camping Xamãs, na zona rural e também pude percorrer outros locais interessantes que ainda não conhecia.

 

A quarta visita à cidade foi em abril de 2017, também com amigos, quando ficamos apenas 24 horas em São Tomé, hospedados no Camping e Pousada Candeia, no centro da cidade. Foi tempo suficiente para eu conhecer uma pessoa (hoje minha amiga), através da qual, na próxima vinda minha, eu conseguiria um domicílio na cidade, como explico mais adiante.

 

Pessoas contemplando o por do sol na Casa Pirâmide, um dos mirantes da cidade.

 

E a última visita como turista foi em junho de 2017, quando pude assistir a um inesquecível show da banda 14 Bis em praça púbica. Dessa vez, fiquei novamente hospedado no Camping e Pousada Candeia por uma semana. Esta vinda foi à procura de um lugar para morar e montar meu escritório. E como por um milagre, minutos antes de retornar à minha cidade sem sucesso, eu encontrei a pessoa (através daquela citada lá no início), que me indicou um lugar onde consegui morar, o que não é fácil por aqui. Por pouco meu destino teria sido outro, mas não foi.

 

Já morei em outras quatro cidades, nas quais também fui muito bem recebido pelas respectivas comunidades, mas São Tomé das Letras foi a única que escolhi para morar. Nas demais, fui levado pela correnteza do meu destino natural, por força da vida ou do trabalho, mas aqui deste chão de pedra fiz agora o meu colchão. Aqui passei a conhecer algumas cidades vizinhas também de belas paragens que, indiretamente passaram a fazer parte de minha história, como Três Corações, São Bento Abade, Cruzília e Luminárias.

 

Detalhe da Cachoeira do Paraíso.

 

No total foram cinco viagens a São Tomé, até a sexta e última, quando pude vir de "mala e cuia", aqui chegando em 27 de agosto de 2017. Acredito que nada é por acaso, não creio que alguém vá integrar uma comunidade, se não for pra somar, para compartilhar e contribuir para o seu crescimento social. Toda sociedade é o retrato de si própria, e aqui não é diferente neste sentido. A diferença que eu poderia apontar, das demais comunidades brasileiras, é que aqui há uma grande efervescência de pessoas com pensamentos bastante distintos entre si.

 

Contudo, de modo geral, todos se entendem muito bem neste “saco de gatos”, apesar das diferenças, como aptidões, vestimentas e gostos tão extremos! Desde os mais ortodoxos nativos católicos até os desarvorados ateus e as mais loucas tribos urbanas que aportam por aqui, nota-se que reina um grande respeito e tolerância mútua.

 

Detalhe da Cachoeira no Vale das Borboletas.

 

E, generalizadamente, o letrense da nata, chamado carinhosamente de “nativo” é uma pessoa atenciosa, humilde, solidária e extremamente honesta em suas relações. Para esta, vale mais a palavra saída da sua boca do que uma assinatura num papel registrado em cartório. Por vezes, costuma dar a mão a quem vê que merece ou necessita, mas também não perdoa quem não tem bom coração; estes costumam ser extirpados do lugar, naturalmente ou não... Parece ser uma lei vigente e silenciosa em São Tomé, soando como se a comunidade lhe dissesse: “Seja bem-vindo, se você é bom, mas dê meia volta se for mau...”.

 

Muitos pensam, mas São Tomé das Letras é nenhum "paraíso". Ou seja, nem tudo aqui é maravilhoso ou paradisíaco. Temos cá, também, os nossos problemas municipais, sociais, econômicos e humanos. De modo geral, qualquer tipo de emprego é difícil por aqui, a cidade é pequena, enquanto grande parte da população é flutuante, surgindo especialmente nos feriados ou finais de semana, sendo composta por milhares de turistas. Mas tenho visto algumas louváveis ações comuns brotarem no seio da comunidade, pois há determinados trabalhos sociais essenciais sendo desenvolvidos aqui pelos poderes constituídos, como também pela iniciativa privada, bastante altruísta. E da nossa parte, também pretendemos contribuir e somar à esta sociedade, humildemente e atendendo com atenção a todos que nos procuram.

 

O anoitecer em São Tomé das Letras.

 

Aqui temos uma comunidade que se desenvolve com base na mistura das raças, das ideias e das mais distintas culturas e ideologias mundanas. E pelos desígnios me apresentados eu venho compartilhando a vida com os amigos que tenho feito por aqui, convivendo com os diversos setores dessa comunidade, sobretudo, agora, editando o Jornal São Tomé Online. Claro, contando com o apoio de todos em meu ofício, que é informar. Desta maneira, procurando dar voz aos anseios dos moradores, difundindo ou registrando nossas histórias, personalidades culturais, figuras públicas, manifestações, artes, causos, ocorrências e tantos valores escondidos nestes rincões montanhosos das Gerais.

 

E assim, pretendo continuar trazendo minhas particulares impressões desse lugar simples, mas sagrado para muitos, através destas “Crônicas de São Tomé”, publicadas nesta página semanalmente - ou quando for possível. Espero assim, que os nossos leitores as apreciem e sigam prestigiando o nosso modesto, mas honesto trabalho. Obrigado, São Tomé.

 

* Pepe Chaves é jornalista e editor dos portais Via Fanzine, Jornal São Tomé Online e da Rede ZINESFERA.

 

- Fotos: Pepe Chaves/Arquivo Jornal São Tomé Online.

 

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- Produção: Pepe Chaves.

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