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Página de Marcelo Sguassábia em Via Fanzine - ARQUIVO
Todos os textos:
Por Marcelo Sguassábia*
De Campinas-SP
Para Via Fanzine
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* Marcelo Sguassábia é redator publicitário e colunista de diversos jornais e revistas eletrônicas.
É colaborador de Via Fanzine.
Seu blog: www.consoantesreticentes.blogspot.com. E-mail: msguassabia@yahoo.com.br.
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Noturno em dó
Ai meu Deus, o sono que carecia, nenhuma sombra de gente dando sinal de chegar. Virou-se para o outro lado. O toque fresco do lençol grosso de linho, o bafo dessa noite quase dia. A franja do cobertor, as cócegas no queixo, a pena de gastar a vida assim nesse sei lá.
- Mamãe, papai, Oscar, vocês prometeram que não iam demorar. Eu contava as horas, eu roia tanto as unhas. Fazia como os presos, cada dia um risquinho na parede.
Esse nada que não cessa, o baile de debutantes, bocas e colos, gravatas e vestidos longos. Era a última coisa que conseguia lembrar, o baile.
- Não resisto mais um dia. Quanto quero vocês todos, se soubessem. Parecia agora não ter ossos, uma larva sobre o leito. Flash, fast rewind. Alguém de chapéu panamá chegando, o couro do cinto, os vergões e a vergonha. Tinham-lhe aplicado uma injeção, quando deu por si estava ali, coisa solitária e quase sempre insone. Deus, de novo. O padre chegando para a extrema unção. Os olhos que a terra há de comer já podiam ver os vermes avançando sobre as íris. De novo o baile e seus cacos liquidificados. Éter e clorofórmio, o lança no lenço, lá pelas tantas a big band. Foi assim, ou assim lhe pareceu. Para chamarem uma ambulância era porque estava mesmo na pontinha do penhasco. Via caras que vinham, olhavam e voltavam dando lugar a outras caras, todas desconhecidas. Nem papai, nem mamãe, nem Oscar. Cadê vocês, onde um tiquinho de alento, uma placa indicativa?
Aquela mulher a quem nomeara mentalmente de Izildinha Sobe-e-Desce, embora tivesse um enorme “Frida” escrito no crachá. De pegnoir, archote na mão e diamantes cavalares no pescoço, fazia rabanadas e ia servindo-as com chocolate quente às esculturas do jardim. Gargalhava, escarnecia e expunha-se ao escárnio. Os anões de cimento, cinzentos e mofados pela chuva em seus lombinhos. Elementais sem bucho e suco gástrico, sem hálito ou papilas gustativas, comendo freneticamente como se o mundo fosse acabar daqui a pouco. Pensava agora em anotar o que ocorresse aí por diante. Fazia sentido: as palavras disparando o gatilho da memória, um passo à frente dos risquinhos na parede. Mas temia que o amontoado de relatos não guardasse relação com o que a mente arquivasse. Seria como olhar para o barbante no dedo e se perguntar: isso era pra lembrar do quê?
Em posição fetal, espera. Não demora e vem o homem com o copo d’água, o comprimido, aquela camisa que aperta, o banho de sol.
Propriedade
- Tem namoradinho rondando Lídia Isadora, moço bem apessoado. - Quê? - É o que lhe digo, não queria trazer preocupação para o senhor meu marido, mas...
Franzindo o cenho, o coronel tranca o ferrolho. Fecha questão em definitivo. É o sinal de que não pode, a filha envolta em vestidinho branco é imaculada até disposição em contrário e expressa ordem do dono, e essa ordem não virá. Filha da Igreja antes de ser sua filha. Essa não tem jeito, é prometida pra Jesus. Quase natimorta, escapou Deus sabe como. Fez promessa se vivesse, era dever cumprir. Nunca um desejo de carne havia de tirar o sossego desse corpo magro de menina. Não da minha menina, que essa é pra convento de clausura. Vai comer moela às vezes e jejuar quase sempre por amor de Nosso Senhor, assim seja e há de ser, ou não me chamo Juvenal.
De domingo, a imbuia dura onde ajoelha, veludo roçando a maçã lisa do rosto. A paz da capela, o padre escuta e não encara.
- Não que eu tenha pecado, padre, mas no descuido deixei entrar no juízo uns pensamentos descarados. Um moço vem querendo coisas, olha fundo no olho, se achega sem convite. - Menina, você tão nova. Que mais? - Não sei se conto ou não conto, não virou acontecência, ficou no quase. De todo modo...
Pai vem vindo, barulho de molho de muitas chaves. Coronel de porte e pose de dono de capitania. Pisa mais forte que o costume, sinal de que a vara de marmelo vai cantar.
Demorou nadica. Uma vergastada, duas, três. Acolhe calada o castigo, os olhos revirando sem chance de revide ou de explicação.
- E você, mulher, vigie de perto e me avise de abuso, que boto jagunço no rasto do desaforado.
Tem duas mães, a menina. A de verdade, zanzando desnorteada, sem ação de serventia. E tem a Dita, ama de leite cheia de simpatias e rezas, mãe postiça que não deixa ao deus-dará.
- Passa um bife, Dita, ela tem fome. Trincheira providencial, a Dita, na hora de evitar surra de rabo de tatu. Se acontecia de não conseguir, vinha com a salmoura, junto com afago e colo.
Tirava o avental molhado e chegava acudindo de toalha felpuda numa mão e bacia de lenitivo na outra, e era bom ser filho de criação da Dita e estar inteiro sob a tulha de seus braços. Assim, nesses bocados, a sova ia caindo mais fácil no esquecimento. Lenta mágoa desmanchando pela noite na fazenda, também lenta, onde só grilo se escutava no adiantado da hora.
A toda purinha, atrás dos óculos de fundo de garrafa, pedia a Deus o perdão ao pai, defensor do feudo e da honra da família. Que dessa porteira pra dentro não passe nem a miséria, nem a desgraça, nem a tentação. Se a ira divina se abater sobre essa roça, que seja eu a levada para purgar o pecado que quase nem cometi.
Na varanda, o coronel não se ressente, fez o que pai que se preza tem de fazer nesses casos. Pica o fumo e balança na cadeira, pensando no preço da arroba do boi.
Assim acontecia de ser sempre, naquela lonjura que não se chega, margeando o cafundó.
Muambeiros unidos jamais serão vencidos!
Da Reportagem Local
A greve dos vendedores ambulantes prossegue em seu décimo sexto dia, sem perspectiva de consenso entre os representantes da categoria e as autoridades constituídas.
O sindicato dos muambeiros, camelôs, sacoleiras e similares reivindica a licença para a venda de produtos da chamada linha branca (assim denominados por não possuírem nome ou marca fantasia em suas etiquetas de identificação), a poda imediata de um abacateiro no meio do camelódromo, o aumento do número de banheiros químicos de 3 para 27 e a reintegração da “Banca do Lorpa” ao circuito alternativo de compras – banida recentemente pela Guarda Municipal por comercializar Viagra genérico e cartilagem de lambari como sendo de tubarão.
Jorginho Bicicreta, há doze anos estabelecido ao lado da referida banca, falou à reportagem. “O Lorpa é gente boa que só vendo, tem um filho com problema, uma mulher que costura pra fora e uma sogra que nem o tinhoso merecia. Se a situação continuar desse jeito, ele disse assim que volta lá pra Três Corações. O camelódromo sem a Banca do Lorpa não é mais o mesmo, é uma loja âncora, chama gente pacarai (sic)”.
A Guarda Municipal, por sua vez, argumenta que a idéia era lacrar a barraca até que se concluísse o processo investigatório, que comprovaria ou não as irregularidades. De acordo com o Capitão Xexéu Vieira, a lacração não foi possível pelo fato do estabelecimento não possuir portas, paredes, tapumes ou qualquer outra estrutura física que lograsse o intento. Então a alternativa foi o recolhimento das instalações desmontáveis e a apreensão dos lotes do Viagra meia-bomba e das cartilagens de tilápia. Questionado pelo nosso repórter Paranhos se as cartilagens não seriam de lambari, conforme noticiado extra-oficialmente, o Capitão esclareceu que o exame microscópico revelou serem as mesmas de Tilapia Galilaea, até porque os lambaris não são dotados de cartilagens em sua constituição.
Caso não tenham atendidas as suas reivindicações, os autônomos não-estabelecidos ameaçam com a legalização plena de suas atividades e mercadorias comercializadas, emitindo as respectivas notas fiscais em três vias e procedendo ao recolhimento de todos os tributos em vigor nas esferas municipal, estadual e federal. Jorginho Bicicreta argumenta: “Aí é que eu quero ver a porca torcer o rabo. Que pai de família hoje consegue comprar DVD, pen-drive, notebook, carregador de pilha e boneca que faz xixi com o preço incluindo tudo quanto é imposto? Heim, me fala??? Nós cumprimos uma função social. Veja bem, o muambeiro e a sacoleira hoje precisam os dois serem ambos igualmente valorizados”.
Ao tomarem conhecimento da greve, ambulantes de várias cidades da região desembarcaram em massa na estação rodoviária e começaram a ocupar os espaços deixados pelos camelôs grevistas. Um deles, que não quis ser identificado, pronunciou-se: “Precisamos aproveitar rapidamente esse nicho de mercado. A população pode ficar tranquila que continuará tendo o que tinha antes, com maior variedade e preço ainda mais baixo. Essa greve dos camelôs locais mostra a força do cartel da muamba, que só quer defender seus privilégios e impedir a livre concorrência”.
Ad eternum
Eis que de novo me deparo com a nada consoladora ideia de que o sistema solar é espantosamente semelhante a uma estrutura atômica, e que a diferença não passa de uma questão de proporção e de velocidade. E se a Terra for um dos elétrons de um dos milhões de átomos de uma ponta de lápis sobre a mesa de um escritório, numa outra e gigantesca Terra?
Largo Newtons, Galileus e Sócrates deitando postulados pelos cotovelos e me agarro ao manto de Abraão e ao cajado de Moisés, no pasto verde das verdades simples. Ovelha, deixo que me conduzam por dogmas que se bastam, convertido ao fato de que existem mesmo as moradas celestes, onde nem traça ou ferrugem, epidemias ou bandidos roubariam o sossego dos descendentes de Adão. Onde, indefinidamente vivos, habitaremos gratos. Cada família em sua casa de grossas paredes fincadas no éter. Mansões onde, após banquetes generosos, tem-se o sagrado direito à sobremesa predileta, que por também ser eterna se reconstituiria a cada mordida, para a glória das gulas.
Pais e mães tomando perpetuamente conta de seus rebentos, com muitas rugas a menos por saberem que suas crianças serão poupadas no juízo final, mesmo porque o juízo final não será tão final assim. A vida se espreguiçando infinito afora, o beijo mais sorvido se alongando até a exaustão, se exaustão houvesse no mundo lá de cima. Todos volitando com trechos de salmos impressos nas túnicas, Beethoven escorregando num tobogã clave de fá, nenhum passarinho preso, sinos aos montes dobrando e marcando a hora de lembrar que nunca é tarde.
Tempo e espaço se liquefazendo, Van Gogh de velocípede a ziguezaguear por latifúndios de girassóis. Cada um se lambuzando de sua Pasárgada privativa, desobedecendo zombeteiramente as recomendações médicas, sem noção de comedimento e sensatez, metendo os pés pelas mãos, fazendo tudo o que faltou ser feito quando envolto pela carne. Se convencer de que a Terra é plana, de que aconteceu o dilúvio, de que tudo foi criado em exatos 6 dias, sem nenhuma hora extra ou percalço que desanimasse o Maioral. Ter a confiança dos que se sabem amparados, e saltam sem se preocupar se o paraquedas vai abrir. MangiareA mesa posta é cama feita. Lombos e salames vão sugerindo indecências, o sol de mezzogiorno deflora as fogazzas. O ventre e a vitela ao mesmo tempo, um mesmo pasto. Carnes em lanhos atiçam o quase incesto, a desonra. Não tarda o ataque, por baixo da toalha, às coxas esguias. Ele a belisca, é a senha de que a aguarda no caramanchão.- Que a nonna não nos veja.- Ela ora sua novena, se abana e reza, reza que só ela... terminou mais cedo o almoço, daqui a pouco começa a tarantela e ninguém mais escuta niente.- Perdido, immondo. Somos primos.Um peito mínimo na palma da mão, o outro dá-se al sugo. Più perfetta Sofia. Pingo de vinho na blusinha branca, sorve-se ali, de pé e na pressa, o cálice da tentação.- Sporcaccione maledeto.- Cala que te arranco a língua, tão feita pra se enroscar na minha, un vero desperdício.- Animal, svergognato. Madonna mia.Primo e prima, due al dente. Pronto, é manchado o brasão virtuoso dos Tartini. Além do falatório ao longe, o único sinal da famiglia é a fumaça do cachimbo do nonno, entre um bocado e outro das carnes se comendo no caramanchão.
Demasiado humano
Atlas levava o mundo nas costas, e eu inadvertidamente acabei me transformando na versão atualizada do personagem mitológico. A diferença é que Atlas não tinha cobrança, nem a mídia no encalço, nem uma crise que pegou o atlas – desta vez geográfico - inteiro no contrapé. Tudo bem, eu quis que fosse assim, eu escolhi esse objetivo e exauri as forças que tinha e as que não tinha para alcançá-lo. Fiz acordos, abri concessões, renunciei a mim para ser o que agora sou.
Como eu já imaginava, é mesmo muito solitário ser tão absurdamente poderoso. Solitário a ponto de você não se conceder o direito de pensar um pouquinho com seus botões sem que de imediato apareça um arsenal de costureiras para pregá-los.
A uma entidade messiânica como eu não se dá a prerrogativa de estar a sós com quem quer que seja, nem comigo mesmo. Esta é a questão, ou talvez a contradição: a solidão do poder é tamanha que não abre a possibilidade de se ficar sozinho, nem para ir ao banheiro. Você é isolado do cotidiano feito um vírus no laboratório, mas junto com 150 cientistas que não tiram o olho do tubo de ensaio.
Sou o ícone de uma sociedade que não admite que eu me socialize espontaneamente e seja simplesmente um homem de bem, vacinado, protestante e pagador dos meus impostos. Imagino que haja milhares de pessoas pelos quatro cantos do planeta rezando neste momento pelos meus futuros atos. Só eu não posso ter carne e osso e pedir por mim - alguém certamente estará na escuta, ainda que seja inaudível a prece.
Eu posso criar e destruir fronteiras com a mesma caneta que, se dependesse de mim, estaria agora fazendo palavras cruzadas, o jogo da velha ou qualquer outra bobagem que não me forçasse a mudar a vida de ninguém. Confesso que durante o pronunciamento de ontem, enquanto falava solene e pausadamente para a câmera, tinha a mão direita dentro da gaveta de minha mesa. Segurava firme a foto em que estou no colo de mamãe, era uma maneira de me sentir forte, como se o retrato fosse uma âncora a me salvaguardar no mar intempestivo.
Sou um emblema, um deus de ébano pretensamente redentor dos males da humanidade, e transformei a rotina anônima e sem ostentação de minha mulher e de minhas filhas no filé dos paparazzi. Abro meu laptop e tenho vontade de deletar sem ler, como se fosse spam, o mais recente relatório confidencial enviado pelo Secretário de Defesa.
Queria muito, como todo americano praticante de golfe e comedor de pasta de amendoim, jogar paciência durante o expediente sem ser visto pelo chefe. Pois juro, como jurei sobre a Bíblia outro dia, que meu sonho de supremo mandatário é ter um chefe a quem seja obrigado a prestar contas de meia em meia hora, que perca as estribeiras comigo, que me xingue de incompetente e corpo-mole, mas que pertença a uma instância superior à minha e me diga o que deve e o que não deve ser feito. Estar no topo do organograma pode muito bem ser pior que estar abaixo da linha de miséria. Náuseas de tudo e ânsia de ser Barack, e só Barack de novo.
A Hora H
Homero na mesa 8. Helena na mesa 12. Homero enfim está de volta. Helena não está à espera. Homero saiu e ganhou mundo. Helena nunca arredou pé. Homero guarda as cartas todas. Helena jogou todas fora. Homero pode explicar tudo. Helena não quer saber nada. Homero só pede um minuto. Para Helena, agora é tarde. Homero olha para ela. Helena finge que não vê. Homero acende um cigarro. Helena odeia fumaça. Homero atende o celular. Helena retoca a maquiagem. Para Homero, ela ficou bem de óculos. Para Helena, ele anda mal vestido. Homero pensa: duas décadas. Helena acha que foi ontem. Homero é reticente: Peixes. Helena é incisiva: Áries. Homero acena a um velho amigo. Helena puxa a cinta-liga. Homero chama outro whisky. Helena mexe o Dry Martini. Homero lembra do dia em que a viu pela primeira vez. Helena não esquece do dia em que tudo terminou. Homero não está mais na bolsa dela. Helena continua na carteira dele. Homero ganhou doze quilos. Helena, vinte e uma estrias. Homero se rói de aflição. Helena não move uma palha. Homero tem seu telefone. Helena não vai atender. Homero, cheio de apetite. Helena, pronta a vomitar. Arrependido, ele só teve uma outra. Pra ir à forra, ela teve quantos quis. Homero quer dizer a Helena que promete se emendar. Helena jura que a emenda será pior que o soneto. Homero está muito abatido. Helena está a fim de abater. Homero anda atrás de um norte. Helena quer desnortear. Homero insinua. Helena deixa claro. Homero almeja. Helena se esquiva. Homero, vassalo. Helena, senhora. Homero acata. Helena ataca. Homero contém. Helena extrapola. Homero quer deleite. Helena, deletá-lo. Homero ata. Helena desata. Homero gagueja. Helena triunfa. Homero, a Sonata Patética. Helena, Carmina Burana. Homero jaz. Helena, jazz. Homero, peteca. Helena, squash. Por ele, os dois voltavam no tempo. Por ela, seria tempo perdido. Homero, o sonho. Helena, o ato. Homero, o ninho. Helena, a arribação. Homero sem ação, sem noção, sem tábua de salvação que o remova do embaraço. Helena segura, liberta, com alta há muitos anos do analista. Homero se sentindo adoecer. Helena quer que doa a quem doer. Homero pulsa. Helena o repulsa. Homero pede paz. Helena, em pé de guerra. Homero recorda seus seios. Helena anseia vingança. Vacilante, Homero caminha até ela. Altiva, Helena olha com desdém. Homero a tira pra dançar. Helena atira pra matar.
Trema desempregado, mata-borrão inválido, dedal desalojado
- Eu caí.
- Caiu onde, de que jeito? E nem tá machucado, do que tá reclamando?
- Não ouviu falar que acabou o emprego do trema? Então, estou na rua.
- Fica tranquilo, trema. Pra tudo tem solução nessa vida.
- Dedal, amigo velho, como é que eu posso ficar tranquilo se tranquilo não tem mais trema? Estou liquidado – e liquidado sem trema.
- Tem certeza? - Tá na regra, pode conferir.
- Conforme-se, veja você o que fizeram comigo. Eu era encontrado em vários modelos nas boas lojas do ramo. Vivia nas mãos das moças mais lindas, que passavam o dia bordando e tocando piano. E hoje, olha minha situação. Se nem costurar mais se costura, quanto mais usar dedal. Meu caso é mais grave que o seu, porque minha obsolescência é em escala mundial. Você ainda pode se mudar pra Alemanha, por exemplo. O que tem de trema por lá não está escrito, todos muito bem empregados. Concorda comigo, Mata-Borrão?
- Eu acho que nesse caso tem que usar a criatividade. Se ao invés de deitado você ficar de pé, vira dois pontos. E até onde eu saiba, os dois pontos continuam em pleno vigor, certo? É o tal do jeitinho brasileiro, meu camarada. Eu mesmo, pra te falar a verdade, também não sei como fica minha situação, se fico ou não com o hífen. Também tanto faz, até porque ninguém mais escreve “Mata-Borrão”. Pior: não há quem escreva mais a mão, muito menos com caneta-tinteiro. Maldito computador, matou de vez todos os borrões! Agora, mudando de assunto, Dedal: eu nunca entendi o fato de você ter esse monte de furinhos se foi inventado justamente pra evitar os furos.
- É, acho que temos aí um paradoxo, Mata-Borrão.
- Chega de conversa mole, gente. Podemos, os três juntos, botar a cabeça pra funcionar e achar uma utilidade digna pra nós.
- O setor de brinquedos me parece um filão interessante. Brinquedo se compra por impulso, a meninada inferniza os pais até que eles entreguem os pontos. Como Mata-Borrão posso me transformar em gangorra para soldadinhos e índios de Forte Apache. E você, Dedal, pode virar copinho na mesas das casas de bonecas. O que acham?
- Péssimo, Mata-Borrão. Péssimo. Vai ver se a molecada de hoje brinca de Forte Apache, de gangorra e de casinha de boneca. Ficam direto na frente do computador, véio, se liga.
- Exatamente. Ficam batucando o dia inteiro no teclado, e o Dedal pode se arrumar aí. Poderemos lançá-lo com o pomposo nome de Protetor Articular para Digitação, prevenindo LER e tendinites diversas. Quanto a mim, saibam que minha despedida do mercado editorial será nos manuais que andam imprimindo agora, com a grafia antiga e a atual, depois da reforma. Tá certo que vou aparecer só na coluna da grafia velha, mas já é alguma coisa. A saideira, né...
- Você disse saideira, e me veio um insight redentor para o seu caso. É que saideira me lembrou bebida, que me lembrou Caninha 51, que me lembrou...
- Lembrou o quê, criatura?
- O trema permanece em Müller e em outros nomes próprios. O fabricante da Caninha 51 chama-se Companhia Müller de Bebidas. Pronto. Você será impresso nos rótulos de milhões de garrafas de pinga, e ainda vão te mandar pro mundo inteiro. Tá empregado, é só enviar seu currículo com foto recente pra verem que você é o trema mesmo.
- É... boa ideia (sem acento agudo).
Bom princípio
Sou o seu leiturista de água. Você não me vê nunca eu nem bato na porta nem nada, mas eu leio direitinho o seu relójo uma vez por mês e sou amigão dos cachorro, trato tudo eles que nem gente. A caixinha de natal é o momento cristão e bem-vinda de coração e alem do mais ajuda na leitura certa o resto do ano. Data da próxima leitura e entrega do ano bom: dezessete do corrente, tenho o crachá pessa que eu mostro. Agradecido Zezão em ritimo de gingobel
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Não se confunda com outros que fazem passar-se por nós, os seus lixeiros de todos os dias inclusive feriado e finado. Por isso pedimos e meressemos o bom princípio. Somos os lejítimos Janelson, Totonho, Rudisson e Rixacleiderman (o popular Rixa). Se outros baterem, faça que não escuta e espere nós passar (lembramos que passaremos dia 23 de manhã como costume).
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Desejamos um feliz natal E um ano novo muito agradável São estes os sinceros votos dos seus coletores de lixo reciclável
Não se esqueça do nosso bom princípio. Faremos a coleta amanhã.
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O senhor ja parou pra pensar, bem como sua(s) dignissima(s) família(s), como seria sua vida sem ver as oferta do supermercado e do varejão, pois é muito sem graça que seria sem os folheto que eu deixo na caixa de correspondença. Fico feliz com o presente vosso pode ser moeda.
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A boa notícia pra mim vai ser receber uma caixinha bem gorda. Conto com você do mesmo jeito que você conta comigo pra receber o seu jornal de todos dia. Ari, o entregador
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Fui eu que cubri as féria do Ari, no mês 6 do corrente. Espero ganhar pelo menos o valor de um doze avo do tanto que você vai dar pra ele. Esse é o desejo do Jonas, o entregador que vem no lugar do Ari nas féria e tamem quando ele bebe muito e não concegue levantar cedo.
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Sou o dono da gráfica rápida que fez os cartões. Espero que o ano que se inicia comece magnífico e termine espetacular e aproveitamos o ensejo para divulgar que o milheiro de cartão de visita está em promoção especial de 49,90.
O melhor da festa
É esperar por ela. Assim o velho ditado, assim Priscila deitada. Olha pela janela grande do quarto e vê um cinza chumbo empurrando no céu o carneiro de nuvens. Não demora e a chuva vai regar as bostas das vacas lá no morro, que gratas pelo frescor retribuirão com cogumelos a quem quiser colher, chapéus de sol que dariam cores e sons insuspeitos à festa de logo mais. Isso se Priscila fosse de se alucinar. Qualquer uma menos ela, aluna de internato, sem chance, nem vinho de missa conhecia. A uma mulher dessas bastaria uma taça de espumante leve para destravar um vagão de cismas e magoas. No caso dela a lucidez já era, a seco, a perda do juízo e o delírio extremo. Estava há meses a 220, trêmula. Mas a festa daria jeito nisso. A festa prometia e ela acreditava.
Busca Priscila a si mesma na cama. Não acha. Já tentou o Google? O que o Google não acha, não existe. Se o Google não achou Deus, Deus inexiste. Google talvez seja Deus, sendo Deus uma busca como muitos dizem. Se julga Priscila um mosaico de desenho incerto, definido a esmo, sem traçado prévio. Ao resto do mundo o merecido estrago, todas as maldições juntas do Antigo Testamento. Que a ira divina varresse tudo, poupando apenas deleites pequenos mas insubstituíveis, como tentar adivinhar o que teria de almoço ou espreguiçar em fronhas frescas pra espantar o mormaço.
Cadê os headphones? Ouvir música até perder-se em meditação profunda, talvez aquele movimento mais lento da Pastoral, iria bem hoje como nunca enquanto a hora não chega.
O que passou não volta por nada e será sempre muito melhor do que o que é. Sua mecha de cabelo adolescente, guardado no porta-jóias, será infinitamente mais sedosa e interessante que esse grisalho que chega dizendo que veio de vez, para o resto da vida. Mas deixa ele vir, nunca será um susto tão grande quanto o daquele dia em que teu pai, Priscila, te pegou fumando no quintal, lembra? Fumando pela curiosidade, não pelo vício ou por achar charmoso. Um cigarro é um corpo estranho no canto da tua boca sem malícia.
Ela ouve a água passar pelo latão da calha, misturada com a música do Roberto Carlos tocando no vizinho. Ele também vai à festa. Todos vão à festa. No quarto o cheiro de pastilha de eucalipto insiste. Gripe mal curada, quer estar inteira para logo mais.
O que sente agora, partindo do estômago até a lua mais próxima, é como um cordão de prata e néon azul, que Ludmila chamaria de perispírito. Agora é o exato instante em que o mormaço é vencido pela aragem do morro, que sem querer acabou trazendo o cardápio do almoço, agora não mais surpresa: omelete acebolado. Mas comerá só um pouco. À noite tem a festa.
Cabines de Natal
Naudisléia, cobradora de cabine de pedágio. Vandercleyson, porteiro de prédio. Namorados, falam pelo celular na noite de 24 de dezembro.
- Né mole não, amor. Todo mundo enchendo a cara, se entupindo de uva passa e eu aqui, plantado nessa cadeira com meu radinho. Luzinha de Natal pra mim é esse painel piscando com os número dos apartamento, compreende? E ainda tem que prestar atenção em tudo pra nada estragar a festa dos bacana.
- E eu não sei, Vandercleyson? Cê ainda tem o rádio pra escutar, aqui nem isso eles deixa. Nós rala e o povo se mandando pra praia, com os porta-mala cheio de malancia e peru.
- Daqui a pouco, que nem igualzinho todo ano, um ou outro desce com um panetone na mão, aquele seco e sem gosto que ninguém quis, que sobrou da cesta da firma, pra me entregar com um vinho bem sem-vergonha. A Dona Letícia do 67 até uns ano pra trás mandava um pratinho com umas fatia de tender, coberto com papel toalha. Das vez vinha também pudim de noz, empada de massa podre. Mas agora faleceu-se, a coitada. Nesses dia aqui no prédio fica tudo eles bonzinho, rindo e desejando boas festa. Daqui um tempo começa a chegar os carnê do IPTU e vira tudo bicho de novo. Ninguém olha mais na cara, até vim o Natal outra vez.
- Ah meu nego, liga não. Mudando de assunto, eu acho memo é que a gente anda muito precisado de um diazinho de xamego e vadiação. Só nós dois, pensou? Aí depois eu ainda fazia um macarrão caprichento... Seu recibo, moço. Boa viagem.
- Sabe, amor, aqui tá tocando aquela música que fala “Pobrezinho, nasceu em Belém”, ói só que mundo pequeno, Naudisléia, o Menino Jesus também é lá de Belém do Pará... vai ver a minha mãe até conhece a família.
- Peraí que eu não tô te escutando, caminhão barulhento demais, sô. Fala mais alto, mor... É sete e quarenta, moço... tem quarenta centavos, pra facilitar o troco?
- O quê? - Não, tô falando com o motorista pra vê se tem moeda. Pronto, continua, bem. - Tava falando do Cristo, conterrâneo nosso... - Não tô entendendo patavina. - Quer que fala mais alto, é? - Não, essa história de conterrâneo eu não entendi nadica. - Deixa pra lá. Até que hora vai o serviço aí no pedágio? - O ônibus vem pegar nóis às duas e meia da manhã, aí já vem a moça do outro turno. Daí só pego de novo dia 26 às dezoito e trinta.
- Naudisléia, espera um pouco, güenta aí que eu tô falando com o doutor do 43 aqui no interfone. Então, doutor, tem um pacote embrulhado pra presente que deixaram aqui na portaria pro senhor. Ahn... ah, não sei o que é, não senhor. Chegou faz uns par de hora viu, um crioulinho de motocicleta que veio trazer. Sei... tá certo, depois o senhor pega aqui comigo.
- Mas esse interfone não pára, heim? - Então, Léia, eu fico pensando na vida injusta que a gente veve. Como é que você, vendo tanto carro passar o dia inteiro na tua frente, tem que andar de ônibus, eu queria entender essas coisa que o homem lá de cima deixa acontecer, mesmo em noite de Natal, que é aniversário dele. Podia dar um refresco só hoje, que era bem merecido, né não?
(Campainha)
- Ô meu Deus, outra entrega... um instantinho, Naudisléia. Alô, Seu Afrânio? Tem encomenda aqui de leitão, dois cupim e mais uns saquinho de farofa com miúdo, pode mandar subir? Ah, e veio junto uma pet daquelas de 2 litro e meio de guaraná. O quê? O pisca? Ah, então, deixa eu explicar pro senhor. É que o síndico falou assim que é pra eu desligar os pisca tudinho depois da meia-noite, pra não gastar muita força, compreende? Qualquer coisa o senhor fala com ele.
Ô Léia, tá me escutando? O que eu ia te dizer é que eu acho que cê tá trabalhando demais, moreco. Doze hora e meia sem descanso, cheirando esse óleo dísio... eles abusa demais docê. Tá certo que o sirviço aqui no prédio não é nenhuma maravilha, mas pelo menos não estrago com a saúde, compreende? Ih, olha só, tem um Papai Noel dos gordo aqui na frente da guarita falando hohoho e dizendo que vai distribuir bala. Cada figura... não, quê isso Papai Noel, vira esse negócio pra lá, calma... ai... ai... Naudisléia, me vinga... Naudisléia, dá o troco!
- Seu troco, moço. - Fica pra você, querida, caixinha de Natal. - Ô, coisa boa. Brigado. Vai com Deus e boas festa. - Então, Vandercleyson... Vandercleyson... fala comigo...
Recanto da paz
Antes de mais nada, é nosso dever informar que vocês não estão num Hotel Fazenda, como o nome pode supor aos distraídos ou àqueles mais apegados às fraquezas da carne. Apurem os sentidos e perceberão que não há boi algum mugindo, nem sabiá cantando, nem cheiro de torresmo pururuca frito no fogão de lenha. Saibam os senhores e senhoras que se encontram no paraíso, passaram de onde estavam para melhor e é bom que aceitem logo isso para que seu processo de adaptação seja menos traumático. Nossos enfermeiros e assistentes sociais não agüentam mais repetir a mesma história para cada um que chega aqui. Portanto, queimemos etapas: vocês bateram as botas, isso é um fato.
Embora a população na crosta terrestre cresça exponencialmente e já esteja na casa dos 6 bilhões, no cômputo geral há muito mais mortos que vivos. E é um reconfortante consolo lembrar que os seres humanos mais interessantes são aqueles que já estão por estas bandas – os grandes gênios, os maiores heróis nacionais, ídolos de bandeiras ideológicas variadas, entes queridos, amigos e colegas que deixaram saudades. E quem ficou lá embaixo, não demora muito e vem para cá também. É só uma questão de tempo. Eternamente falando, de pouquíssimo tempo.
Aos suicidas, lamentamos o inconveniente de decepcioná-los. Existe vida após seu ato extremo, e não há nada que vocês possam fazer para reverter essa situação. O inconformismo diante de sua nova realidade não levará a nada, não adianta se jogar pela janela de seus aposentos celestiais. O máximo que pode acontecer é vocês voltarem para cá e recomeçarem a leitura deste quadro de avisos.
Tentativas de amotinamento e de retorno ao vale de lágrimas de onde vieram serão imediatamente sufocadas pelos superiores de sua ala. Amantes de sexo, drogas e rock and roll serão gentilmente forçados a se adaptarem à castidade, à abstinência e às harpas e corais de querubins, que só lhes farão bem ao espírito – lembrando que o espírito é a única coisa que lhes resta.
A enorme legião de beatlemaníacos poderá deliciar-se com shows diários de George Harrison e John Lennon em nossa praça principal. Solicitamos aos mesmos um pouquinho de paciência até que a banda se complete. O que ocorrerá em breve, pois Paul Mc Cartney está com 66 e Ringo Starr fez 68. Considerando que os dois vivam até os 100, dentro de pouco mais de 30 anos o slogan “Beatles Forever” deixará de ser uma utopia. O mesmo se aplica aos fanáticos pelos Rolling Stones, que a despeito de sua língua de fora e sua simpatia pelo coisa-ruim, farão turnê por aqui logo logo, reintegrando finalmente o Brian Jones ao conjunto – nosso hóspede desde 1969.
Orações por intenção de suas respectivas almas serão detectadas por nossas estações de captação vibratória e enviadas em tempo real para seus fones de ouvido, cujo controle de volume, graves e agudos encontra-se na parte interna da asa esquerda dos senhores. Já as orações-spam (aquelas genéricas, formuladas indistintamente para o bem de todas as almas) não serão enviadas, por serem muitas e perturbarem o descanso eterno de que são merecedores.
Em defesa de um administrador injuriado
Creiam-me: José Denárdio da Figueira Paranhos é inocente. A acusação maldosa de que tem sido vítima explica-se pela indisfarçável inveja de seus adversários, em face do que fez e ainda fará por nossa terra.
Imputam-lhe como crime a compra de 2,5 toneladas de canjica sem licitação. Ora, senhores, não estamos falando de concorrência pública para aquisição de mísseis, turbinas para hidrelétricas, cápsulas espaciais e outros itens de pouca importância e custo unitário irrisório, tão irrisório que a própria sociedade se envergonharia em investigar os meandros de compra. Falamos de canjica e seus essenciais derivados, e do caos que poderia advir com sua escassez. Daí ser plenamente justificada, neste caso, a dispensa de licitação, até porque um único fornecedor demonstrou suficiente competência técnica no manejo e distribuição do insumo precioso aos entrepostos públicos.
E como é precioso. Dentre miríades de aplicações cotidianas, podemos citar a farinha de canjica enriquecida com ferro, vitaminas e ácidos graxos, comprovadamente mais eficaz que o óleo de fígado de bacalhau no combate às hipovitaminoses A e D. A canjica em flocos, processada, embalada e distribuída simultaneamente pela Canjesp, Canjerj, Canjemg, Canjesc e Canjenorte às escolas de suas respectivas redes de ensino, com ação clinicamente demonstrada no incremento da memorização de números de telefone, incluindo DDD e independente do prefixo da operadora. (E aqui abro um parêntese para louvar a canjica como instrumento de integração nacional e de desenvolvimento de nossas telecomunicações).
Continuando, citemos a canjica em pasta, que utilizada em conjunto com a fécula de mandioca gera poderoso grude para colagem de pipas, papagaios, pandorgas, maranhões e outras incontáveis denominações popularmente atribuídas a esse artefato tão estimado pela gurizada. Temos ainda a canjica moída e desmembrada em suas moléculas e átomos, recentemente aprovada pelo Ministério dos Esportes para utilização como antiderrapante em barras assimétricas. E, logicamente, a canjica in natura, largamente empregada como substituta do feijão para marcar os números sorteados nas cartelas dos bingos devidamente regularizados.
Tão rica é em possibilidades esta nossa glória verde e amarela que nada menos de 14 laboratórios farmacêuticos multinacionais pelejam junto à OMS a quebra de sua patente, argüindo como justificativa os bilhões de potenciais beneficiados ao redor do globo com seu manancial de utilizações farmacológicas – incluindo-se aí um revolucionário tônico para calvície e um regularizador de disfunção erétil capaz de deixar o azulzinho Viagra vermelho de vergonha.
Tecidas estas considerações, destaco também em defesa de José Denárdio seus inequívocos sinais exteriores de pobreza, ou de empobrecimento lícito, como a posse de um tupperware rachado e colado com durex e a constatação de um taco solto em sua sala de estar, com um volante da loteria esportiva de 1973 servindo de rejunte provisório – ou permanente, pela longa data da gambiarra. A única, aliás, que o incorruptível caráter do acusado poderia conceber. Coragem, José Denárdio, mantenha a cabeça erguida. A história lhe fará justiça.
Salvem os ímãs de geladeira!
A atual crise econômica em que todos nós terráqueos estamos metidos não vem deixando pedra sobre pedra. Até mesmo setores historicamente imunes às oscilações monetárias e blindados contra o vacilante humor de Wall Street andam combalidos, à cata de uma solução messiânica que os façam sair do buraco. É o caso do pujante comércio de rapé, commodity cujo preço mínimo internacional caiu a níveis aviltantes, forçando os produtores da região de Barra do Garça, considerado o Vale do Rapé, a trocarem seu cultivo pelo do alpiste.
A indústria de conta-gotas é outra duramente atingida pelo tsunami econômico. Fábricas de renome, algumas com mais de 122 anos e meio no mercado, vêm adaptando seu maquinário e utilizando sua capacidade ociosa para a produção de carimbos de bichinhos e capas de banco de bicicleta com estampas de times de futebol.
E que dizer do nosso parque industrial de benjamins, também conhecidos como “Tês”, dependendo da região em que são comercializados? O desalento beira o caos. No último dia 23, a cotação do produto nas bolsas de São Paulo e do Rio variava entre R$ 1,94 e R$ 2,26, fechando a R$ 2,15 e perdendo definitivamente a paridade com o dólar, mantida intacta há décadas. A mercadoria era tão firme na bolsa que os operadores do pregão apelidavam sua cotação de “dólar-Tê”, servindo inclusive como indexador de contratos.
As lojas de armarinhos também aos poucos vão se adaptando ao novo quadro, acrescentando ao seu já extenso mix de quinquilharias os próprios armarinhos, que sempre deram nome às lojas desse gênero mas que estranhamente nunca foram comercializados por elas. Juarez Afrânio Ling, dirigente lojista, explica: “Estamos focando no nosso negócio principal, a nossa vocação verdadeira: o armarinho. Com puxadores de metal, de madeira, com gavetas e divisões internas, mas sempre armarinho. É um nicho de mercado altamente promissor, a que estávamos desatentos em face da diversificação crescente em nosso segmento. Eu diria que é uma volta às origens”.
Na esteira da desgraça, os fast-foods reclamam de barriga vazia. Uma das maiores redes do país teve que cortar na carne e eliminou o hambúrguer do cheese-salada, mantendo apenas o cheese e a salada. Uma saída criativa e honesta para a crise, já que o produto, ainda que diminuído, oferece ao consumidor exatamente o que promete.
Ruim para produtos, pior para serviços. Desde o estopim da turbulência, os pontos de charrete estão às moscas, e nada parece reverter essa tendência a médio prazo. A majoração do feno e da alfafa no mercado internacional ainda não chegou ao consumidor, que por sua vez vem migrando para a carroça e o metrô como alternativas de transporte. O serviço de carpideiras vem sendo particularmente muito penalizado. Quase todas choram dolorosas perdas. Laurentina Benite Lemos, presidente do sindicato da categoria, desabafa: “É um paradoxo. Nunca choramos tanto, contudo não estamos ganhando mais com isso. Alguém pode me explicar essa situação?”
Num catastrófico efeito dominó, a quebradeira ameaça os mordedores pediátricos, a macaúba em coco e em gosma, as lixas de unha, os dadinhos de amendoim, as tampas de pia, os alfinetes de cabecinha, as cantoneiras de fotografia, as lousas verdes e negras e mais uma infinidade de gêneros vitais ao dia-a-dia do brasileiro. Oremos para que ao menos os ímãs de geladeira escapem ilesos desse furacão. Oremos!
La gran mansión de los asombros
- Baita sustos, brasileños, entrem cá. Garantizo baita sustos e también leio sus manos... dos servicios en una sola casa... la gran mansión de los asombros, entrem cá! Grupos ganham empanadas al final de la sesión, aproveitem.
Valha-me Dios, como está fraco o movimiento hoy.
Es triste ninguém querer ser assustado ou tener las manos lidas, antes las personas deixavam-se seducir fácil por atraciones así. E mira que cobro um pesito de nada, valha-me Dios. Mas pensando bien, Gersina, se estivesse aqui a passeo ia gastar su plata nesse programa estúpido? Dicem que en Brasil são más comuns os trens fantasmas e La Monga, um juego de espelhos que cambia mulher em gorila. Se um desses brasileños me levasse embora, ia vivir virando Monga de quermesse em quermesse, en la provincia de San Pablo, Minas Generales, quien sabe Marañon. Dá para entrar trinta de una vez para testemunhar la espectacular transformación. A cinqüenta centavos por persona, quanto dinero iria juntar no fim do mês?
Ih, lá vem a vagabunda dançarina del tango a encojar otro hombre acompanhado e tirar foto de recuerdo de Caminito. Está é deseosa de levar unos tabefes da esposa del bofe, com essas piernas e más alguna cosa de fora. A encoxada é certa, incerto es la plata pela dançadinha con el turista e pelo retrato. Entre não ganar nada lá e aqui, prefiro ficar aqui mismo. Mira, que tonto esse hombre agora. Parece borracho. Dejó cair metade do alfajor com o encontrón que o Rey de los Cueros deu nele, já empurrando o coitadito adentro da loja. Cuero, ainda vá lá. Mas salir carregado de traquitanas de Gardel y postales del Obelisco, ora por favor. Tonterias...
Que venga um hombre rico, em terno verde de dólares, querer um susto caprichado o um destino encantado en las cartas dessa vieja decadente. Venga, brasileño abonado, com sus niños, sentir o frio en la espinha com los objetos que se movem misteriosamente, os ojos de los retratos que acompanham los visitantes. Es la última mansión de los asombros que se preza, em toda a Capital Federal. Temos aqui la exclusiva Evita que se levanta del ataúd e faz um playback bonito de “Don’t cry for me, Argentina”. Está frío e o aluguel es caro, el gobierno manipula a inflación, há desvalidos de Mendoza dormindo debajo das colunas do Banco de la Nación, vivendo de vino barato e pão amanhecido. Donde está la gloriosa Argentina? Solamente en los antiquários de Santelmo? No, no, soy contra esse estado de cosas.
Precisam de balconista em una libreria na Corrientes, vi num clasificado del Clarin de ontem. Em meio a libros, mejor que manos lidas e sustos que no atemorizam nem perros desmamados. Bastam los sustos reales de la vida, quem há de querer más, sustos forjados no tienen efecto.
Si, puedo vê-la agora, Evita, não chorando por la pátria, mas por mi miséria, compadecida. Evita de verdad, musa del pueblo. No la falsa Evita, essa do ataúd de la mansión de los asombros, pero la redentora, la verdadera. E te levaria à Recoleta de hoy, donde dormes há décadas. E después te entregaria a Perón, defunto ressurgido, en la catedral metropolitana, para nuevas e eternas núpcias. Perdona mi portuñol casi incompreensível, é de tanto hablar con brasileños, são casi tantos quantos los argentinos por Montserrat y Palermo, batendo piernas por Cale Florida, os más espertos e os que são ludibriados, comprando casacos y carnes do Rio Grande del Sur pensando serem de cá. Valha-me Dios! Entonces la gran mansión de los asombros resistirá, como resistem las madres de mayo. Como resiste tu e tus encantos, na gloriosa Argentina, que chora até hoy por ti.
A quem interessar possa
O plano de saúde Uniduni faz saber a todos os seus associados que suspendeu a cobertura a transtornos digestivos de usuários que praticam regularmente a caça ao pato de pena rajadinha, e que porventura venham a digeri-la como refeição – seja o seu preparo frito, cozido ou assado, ao molho pardo e a passarinho. É por demais sabido que a carne do referido animal, arroxeada e de odor próximo ao da lontra nórdica, costuma atacar enzimas pancreáticas vitais ao processo de síntese protéica, acarretando cólicas incontroláveis. Além disso, a assessoria de imprensa da empresa argumenta que os adeptos dessa prática incorrem em ato ambientalmente condenável, portanto passível de julgamento e punição pelas esferas competentes, salvo nos meses em que a caça ao pato de pena rajadinha é permitida e regulamentada pelas normas dos nossos bosques e parques florestais. Na ocasião, o plano Uniduni comunicou oficialmente o lançamento do produto Salamê Mingüê, modalidade de assistência médica criada especialmente para a faixa etária de 0 a 4,8 anos.
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A fábrica de encordoamentos de nylon para bandolim “Irmão & Irmão” esclarece que o recall a que procedeu recentemente teve sua validade estendida até junho do próximo ano, devido ao fato de apenas 37,6% dos compradores dos lotes danificados terem procurado o Serviço de Atendimento ao Cliente para efetuar a troca do produto. O recall se deu após os laboratórios da empresa detectarem, em testes de resistência e fadiga de matéria-prima, um defeito de fabricação na corda Mi, que poderia provocar calejamento precoce nos dedos indicadores esquerdos dos bandolinistas. Em sendo o bandolinista também médico urologista, o defeito apontado causaria ainda perda de sensibilidade do dedo na execução de exames de toque, gerando falsos resultados positivos e negativos nas investigações de anomalias malignas na próstata de seus respectivos pacientes.
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“Não há motivo para pânico”. Assim reagiu o diretor para assuntos comunitários da Prefeitura ao ser indagado sobre as manifestações populares decorrentes da súbita mudança do fornecedor de saquinhos de balas da bombonière do nosso glorioso Teatro Municipal. O alvoroço se deu após um grupo de freqüentadores daquela casa de cultura se dirigir até a redação do nosso jornal para um protesto, onde em uníssono alegavam que a troca de fornecedor – ocorrida sem concorrência pública – ocasionou um nível de decibéis acima do costumeiro, quando da manipulação dos saquinhos de guloseimas pelos espectadores, o que prejudicaria seriamente o entendimento dos diálogos travados pelos atores no palco. Um dos cidadãos presentes acrescentou que o problema não se restringia aos diálogos, mas também – e sobretudo – aos monólogos. Após a denúncia à imprensa, o grupo, munido de faixas, partiu para um amassamento coletivo de saquinhos à frente da residência do secretário municipal de cultura, que com o barulho ensurdecedor não conseguiu mais conciliar sono. “A um bom administrador não pode faltar a coragem de admitir o erro e voltar atrás”, concluiu a insone autoridade, prometendo à reportagem d’A Notícia firmar novo contrato de fornecimento com o antigo fornecedor, denominado Papelucho Artigos de Papel e Papelão ME. Não se perca de mim, não desapareça Naqueles idos, diziam que a cerveja subia mais rápido se tomada no gargalo. Coisa estranha, de que jeito se a cerveja era a mesma, no copo ou na garrafa? Gargalo não era vara de condão. Via o baile lá de cima, no último lance da arquibancada do ginásio. Preferia assistir, só ia pro meio da bagunça quando Momo fazia o cerco, brandia o cetro e exigia rendição.
Te quero às pressas, mas com luz forte e quente iluminando o espetáculo. Ver é bom, a dança a dois e às claras é bem melhor que o baile e suas máscaras, suas mesas reservadas, seus pais zelosos com as filhas em flor. Nada de joguinhos de sedução mal resolvidos, a vida é curta pra ficar dando a entender. Insinuação tem hora, e a hora é de saciedade. Reparar e curtir os defeitinhos do corpo revelados de manso, isso sim pode ser, mulher gosta dessas coisas. Mas só se for depois do crescei e multiplicai-vos. Saiamos do clube assim, jogando a roupa fora, afoitos para a luta corporal. Não temos retoque, somos tais e quais e isso é benção, a única maquiagem é um discreto contorno de lápis deixando seus olhos mais lindos pro mundo. Como se precisasse.
E tudo seria se você houvesse, mas você não havia. Não havia você nem baile a dois, só aquela horda de suados se acotovelando lá embaixo. Tão longe do ilusório onde você mandava e desmandava, tomada de empréstimo dos seres imaginários. Eu não só te dava forma mas compunha teu futuro. Acontecia de te fazer mãe de um monte de crianças minhas, como se a vida conjugal fosse o destino inescapável, sepultando a carne na rotina dos carnês. Casal de meia idade na matinê da província, levando os meninos de pirata e colombina, você trocando receita com a comadre Rose. Que tacanho.
O bloco dos monges sacanas, cordão berrando as marchinhas, em punho os lenços de lança. Você entra no banheiro das damas com uma amiga, quem sabe a futura comadre Rose. Então me enxerguei compadre do marido dela, que nem tenho idéia de quem poderá ser. Esgano com a serpentina essa possibilidade. Mais um trago de cerveja no gargalo.
Pode ser que você volte do banheiro, a maquiagem retocada e resolvida a me sufocar com um beijo e me oxigenar de vida, dando corda a esse improvável filme B de nós dois na minha cabeça. Como também pode ser que no caminho aqui pra arquibancada já tenha flertado com outro, e nesse outro projetado seus melhores e próximos anos, me deixando aqui até que surja uma odalisca que ninguém quis, implorando o calor que era pra você.
Há de sentar-se ao meu lado, o tule da fantasia roçando meu braço esquerdo. E perguntará por que eu tomo cerveja no gargalo, se existe copo pra isso.
Um frevo emendou na marchinha e me trouxe de volta, um pouco mais convicto de que tem mesmo alguém na supervisão lá em cima, ainda que manipulando a esmo as cordas dos marionetes, encontrando e desencontrando gente do jeito que der na telha.
Não digo que seja um deus, mas alguém acima da raça dos suados que se acotovelam. E que a uma hora dessas pode muito bem estar tomando cerveja no gargalo e dando nós nos fios que nos governam.
AA - Anônimos Anônimos
- Central de atendimento do AA – Anônimos Anônimos, boa tarde. Com quem eu falo? - Pergunta besta. É lógico que não vou dizer. - Ah, é um dos nossos. Qual o problema, alguma recaída? - Claro. Por que acha que estou ligando? Pra ficar falando de mim, que eu sou o máximo, que eu faço e aconteço? Se telefonasse pra isso seria um indício de cura, e conseqüentemente não precisaria ligar para o plantão. Na verdade, não é bem uma recaída. É uma reclamação. - Ok, senhor. Pode falar. - Vou falar, mas o mínimo necessário. O suficiente pra que você me entenda e aconselhe. Na última reunião do AA vocês vieram com uma conversa que eu tinha de passar por uma prova de fogo: tirar minha carteira de identidade. Bom, num esforço sobre-humano, saí pra providenciar. Aí o sujeito lá do Poupatempo apareceu com um formulário que era um verdadeiro inquérito pra cima de mim. Queria saber meu nome, endereço, local de nascimento, disse que precisava tirar foto... imagina o absurdo, tirar fotografia! Depois de 54 anos incógnito. - Mas o senhor tem 54 anos e até hoje não tem identidade? - Meu anonimatismo é severo, grau 5 – quase 6, minha filha. - Sim... prossiga, estou anotando. - Anotando? Anotando o quê? Exijo que rasgue imediatamente seus apontamentos. Se alguém lê pode identificar o problema relatado com a minha pessoa, e aí eu me torno conhecido. Respeite meu direito ao anonimato. Não se esqueça que essa regra consta no código de ética dos Anônimos Anônimos. - De fato, senhor. Desculpe a indiscrição. - É bom que me respeite mesmo. Meu avô foi um Sicrano inveterado, meu pai foi um Beltrano de marca maior e eu sou um Fulano com F maiúsculo. Três gerações de gente que graças a Deus passou despercebida por este mundo de pessoas que só querem aparecer. Uma célebre dinastia de desconhecidos, da qual nunca ninguém há de ouvir falar. - Tudo bem, Sr. Fulano. Pode continuar contando o seu problema. - Alto lá. Um anônimo que se preza não conta coisa nenhuma a quem quer que seja, ainda que a senhorita seja também uma anônima para mim. Sabe como é, as paredes têm ouvidos, os telefones têm grampos e há poucos lugares no planeta não esquadrinhados por uma câmera de segurança. Talvez estejamos ambos, no momento, sendo vigiados por um terceiro. Quem sabe um quarto, quiçá um quinto... só de falar já me apavoro. - Mas senhor, é preciso convir que anonimato tem limite. - Limite? Só se for pra você. O anonimato é a liberdade extrema, é justamente a ausência de limite. Ninguém me cobra nada – nem deveres, nem favores, nem prazos, nem satisfação de coisa nenhuma. - Mas o senhor não tem amigos, não trabalha? - Trabalho numa Sociedade Anônima. Não tenho a menor idéia de quais são os meus sócios e tudo vai muito bem assim, do jeito que está. Até pouco tempo atrás só aparecia lá na empresa pra assinar o pró-labore. Ia disfarçado de mulher, mas desconfiei que estavam me reconhecendo. Agora arrumei um testa-de-ferro que cuida de tudo, se passando por mim para que eu continue passando em brancas nuvens. Igualzinho o cara que assina este texto. Pra quem não sabe, ele não existe. É pseudônimo.
Vou-me embora pra mim mesmo
Brevíssimas olímpicas
Notas do nosso correspondente enviado a Pequim
Meu leal e benevolente leitor, posso até vê-lo daqui, do outro lado do mundo, à frente da sua TV adquirida em suaves parcelas nas Casas Bahia, acompanhando os certames de Pequim e detonando sua porção de pipoca de microondas com a voracidade de um leão a destroçar o alce. Adivinho também que o amigo deva estar no momento com ambas as mãos ocupadas, uma pilotando o controle remoto e outra segurando o copão de coca ou cerveja, o que me faz supor que se encontre com a cara enfiada nos piruás que ficaram lá no fundinho da tigela, tal qual ruminante no cocho.
Pois não seja eu a perturbar o seu televisivo espírito olímpico com minhas dispensáveis notas, tão sem encanto e interesse. Contudo, aí vão algumas delas, que sou forçado a parir por estar sendo (mal) pago para isso.
No cálculo em altura, deu a lógica: dona Oberici Guedes da Costa, angolana naturalizada portuguesa, que o Guiness Book of Records aponta como o ser humano do sexo feminino com maior quantidade de sardas por centímetro de pele, ficou com a medalha de ouro em conta de dividir com três casas decimais depois da vírgula – a sua especialidade, juntamente com a recitação de cor e salteada dos números primos até 859.663.002.984.351.935. Tal feito deixou boquiaberta toda a platéia do Ninho de Pássaro, naquela altura do campeonato já totalmente salpicado por cacas de pombas de variadas nacionalidades.
Grande expectativa marcava a final dos bocejos de praia, masculino e feminino. O público que lotava as arquibancadas ia ao delírio frente ao hipopotâmico esgarçar de mandíbulas dos moços e moças de Gana, que em espetaculares jogadas ensaiadas deixava os adversários desconcertados. Causou consternação geral o momento em que os medalhistas de prata deixaram a quadra de bocejos aos soluços, enxugando as lágrimas com a bandeira de seu país (que a bem da verdade não me lembro exatamente qual era).
Seria este repórter um relapso se deixasse de registrar a zebra por excelência destes jogos, no revezamento 4 x 400 sem barreiras. Como é do conhecimento de todos, essa prova consiste na participação de 400 atletas a percorrerem uma distância de 4 metros cada um, passando o bastão para o próximo, que corre seus 4 metros e assim sucessivamente. Os fundistas do Cazaquistão, favoritos pelo exímio preparo físico, foram vencidos pela equipe da Guiné Bissau, que no entanto teve que devolver as medalhas duas horas depois por dopping. Resultado: a China sagrou-se vencedora, sendo esta a única láurea conquistada pelo país anfitrião.
Last but not least, o nada sincronizado foi a modalidade de maior audiência do evento, calculada na fase eliminatória em 6,5 bilhões de pessoas ao redor do globo. Tivemos uma final arrebatadora, onde, em impecável sincronismo, 87 atletas nada faziam durante as cinco horas e trinta e cinco minutos de duração da prova. Um acontecimento que ficará gravado para sempre nos anais da história e que honrou sobejamente o ideal olímpico do Barão de Coubertin. Agora, é aguardar Londres 2012, onde juntos estaremos mais uma vez – se a sua paciência suportar e se de novo cometerem a imprudência de me enviar para a cobertura.
Aula de relaxamento
VAMOS LÁ, PESSOAL. INSPIRANDO... EXPIRANDO... SENTINDO CADA MÚSCULO DO CORPO TOTALMENTE RELAXADO, MOLE COMO MACARRÃO COZIDO...
É, macarrão pode ser uma boa pro almoço. Não dá tanto trabalho, abro uma lata de molho e pronto. Latitude e longitude, tenho que lembrar a definição certinha pra ajudar o Júnior na lição. O computador está no conserto, preciso pesquisar em outro lugar.
VISUALIZEM AGORA UMA LUZ AZUL, SUAVE E REPOUSANTE, ENVOLVENDO TODO O SEU SER...
Quando estava no ginásio era tudo na munheca, copiando a lápis da Barsa. E tinha que ser na biblioteca. Bem incômodo, mas pelo menos os livros não pegavam vírus. Quando muito, umas traças.
CONCENTRANDO O PENSAMENTO EM UM MANTRA OU UM OBJETO. UMA VELA COM A CHAMA ACESA, POR EXEMPLO. QUIETUDE TOTAL...
Esse eco de academia. Que quietude é possível? O mundo quieto, cale-se, Chico Buarque. Dizia tudo falando em código. Ditadura. Julinho de Adelaide, o pseudônimo que ele adotou pra burlar a censura. Nossa, eu lembro disso. Tinha uns 14 na época. Cale-se, vai. Vê se presta atenção na aula, Denise.
A IDÉIA É APAZIGUAR O CÉREBRO, AFASTAR IDÉIAS FIXAS E OBSESSIVAS...
De novo aqueles montinhos pretos e malcheirosos na minha grama. O cachorro é dela, caramba, ela é que tem que dar um jeito nessa situação.
SINTA-SE LEVE, IMAGINE-SE PAIRANDO ACIMA DO CORPO...
Leve, é? Sei, sei. É dieta, caminhada 4 vezes por semana, e vai ver... Fora as pelancas. Agorinha, quando baixei a cabeça, senti a pele do rosto se desprendendo dos ossos, cedendo à lei da gravidade. Ai, meu Deus, comigo não. Não está acontecendo, livrai-me.
NESSE ESTÁGIO EM QUE ESTAMOS, AS ONDAS CEREBRAIS ENTRAM EM OUTRA FREQÜÊNCIA...
Terça que vem é aniversário do Jonas. Afilhado não é filho, vai uma lembrancinha de 1,99 mesmo. Melhor já comprar no caminho de volta.
LEMBREM-SE QUE 12 MINUTOS DESSE EXERCÍCIO EQUIVALEM A 4 HORAS DE SONO PROFUNDO...
Espera aí, tinha mais uma coisa pra fazer. Café e mussarela na padaria, a pilha do portão eletrônico, água oxigenada pra clarear esses pêlos pretos do antebraço... Malditos pêlos, devia ter nascido homem. Tudo muito mais prático. Que mais que tinha que fazer mesmo?
O STRESS, AS PREOCUPAÇÕES, A ANSIEDADE, NADA DISSO EXISTE AQUI. JUNTOS ESTAMOS TRANSCENDENDO O COTIDIANO ASFIXIANTE E MESQUINHO. ENTRANDO NUMA NOVA DIMENSÃO PLENA DE PAZ, TRANQÜILIDADE E HARMONIA...
Lembrei: o Lexotan! Ah, não... esqueci a receita lá em casa.
Mundo cão
I Foi uma alegria quando o Seu Totó apareceu com o humaninho em casa. Uma graça - de terninho, gravata e sapato preto de bico fino. - Qual a raça dele, pai? - Não sei direito, Lassie, mas parece que é lavrador. Estava abandonado num caminhão de bóia-fria. Que judiação, deu uma pena. Não resisti e resolvi adotar. Não era você que ficava me infernizando, pedindo uma humaninho? Pois então.
II - Vamos ter que passar no human-shop pra comprar arroz e feijão pra ele, disse Dona Lulu. - Não precisa ser no human-shop, querida. Hoje em dia tem seção de produtos pra ser humano em tudo que é supermercado. Podemos dar uma olhada no Cãorrefour, no Rextra ou no Cão de Açúcar. - Nada disso, papito, melhor uma loja especializada. Aí a gente já aproveita e compra escova de dente, desodorante, talco de chulé, uns maços de cigarro e uma garrafa de pinga. - É, e também não pode demorar muito pra vacinar, disse o Tobi. Paralisia infantil, sarampo, catapora, tétano... - Pera aí, cachorrada, assim não é possível. Se for comprar tudo o que inventam pra criação de gente o meu salário na Purina não vai dar. Tem até psicólogo e academia de ginástica pra esses bípedes sem rabo. Não há dinheiro que chegue.
III - Mami, olha só, o humaninho não pára de falar. O que será que ele quer latir com isso? - Eu sei lá, o que eu sei mesmo é que não quero saber de bagunça aqui dentro de casa. - E alguém pode me dizer se os humaninhos mordem? - Ouvi falar que não, mas ficam mordidos quando estão sem dinheiro. Grana pra eles é a mesma coisa que osso pra nós, Lassie. - Ah, isso é verdade, ô se é. Outro dia lá na escola o Pedro Pintcher apareceu com um saquinho de dinheiro. Aí a gente ficava jogando notas e moedas pro humano de estimação do Diretor. Ele saía correndo que nem louco atrás, precisava ver! E nem era adestrado, o danadinho.
IV - Humanos também adoram televisão. - Igual a que a gente tem aqui, com os franguinhos girando? - Claro que não, eles não raciocinam. Gostam de novela, grupos de pagode, programas idiotas de auditório e outras atrações onde as fêmeas humanas abanam os rabos e os machos ficam arfando, com as línguas de fora. Isso é o máximo que o QI deles alcança. - Tobi, meu filhote, já colocou o jornal lá fora pra ele fazer xixi? - Já coloquei agorinha, mas ele pegou o jornal e começou a ler. Vê se pode. - Ué, tá negando a raça? Menos mal, enfim um humano se instruindo. Só espero que a leitura não se reduza ao horóscopo. - E que nome vamos dar pra ele, heim? João, José, Antonio, Daniel, Orozimbo... - Que tal Praxedes? - Lindo. - É, Praxedes tá legal.
V Exausto com o alvoroço do primeiro dia, Praxedes se espreguiçou na casinha e tentou dormir, mas o sono não vinha. Ligou a TV que instalaram pra ele, no cercadinho. Como sempre, só havia pastor em todos os canais. Pastor alemão, pastor belga, pastor capa preta, pastor com pedigree, sem pedigree, filhotes, adultos. Zapeando pela programação, pôs-se a imaginar um mundo menos cão e mais humano, onde os animais domésticos fossem os cães e não as pessoas. E viu-se dono de uma próspera rede de pet-shops, morando numa casa de três andares e cheia de cachorros no quintal.
Testemunha capilar da história
Eram confissões inconfessáveis, sobre os maridos e sobre si mesmas. Aquilo, vindo a público, seria Hiroshima e Nagasaki à enésima potência sobre o sossego respeitável do distrito de Azinhão. Podres de filhos drogados, performances vacilantes de amantes na cama, abortos de bastardinhos, desvios de verbas municipais, além, é claro, de miríades de comentários e maledicências menores sobre a vida alheia, sem força de escândalo.
Tinha deixado o gravadorzinho escondido, preso com superbonder embaixo da bancada repleta de tesouras, escovas, esmaltes e cremes. Acionou o Rec em Extended Play, o que significava no mínimo doze horas e meia de gravação digital ininterrupta. Todas as maxiperuas da city se aprontando para o casório do ano, fazendo unhas e pés, aparando as cabeleiras e disfarçando os buços. E doze horas dava bem pra várias levas de peruas, tendo-se em conta que ficavam quando muito umas três horas ali, tempo suficiente pra se botarem apresentáveis e darem lugar à leva seguinte de falastronas.
Havia detalhes, nomes e sobrenomes de praticantes de pecados a escolher, de todo porte e gravidade - veniais, capitais e mortais. A coisa era séria, material que usado em chantagem renderia bom pé de meia, daqueles de garantir o futuro dos netinhos.
Assim arquitetava enquanto varria o salão, juntando num só balaio capilar as variadas mechas do dia. Estava feita. Sairia do serviço e, hoje à noite mesmo, faria os telefonemas necessários para estragar a festa de todo mundo. Não tinha discussão: era botar o trecho comprometedor pra madame escutar e estabelecer preço pra manter a coisa inédita.
Sim, Deuzilleide enfim embarcaria na primeira classe para todos aqueles lugares que conhecia só dos calendários de quitanda ou de tanto ouvir as peruas falarem. Era direito, era justo. Pegou todas no contrapé, azar, fazer o quê. A dona Jade, por exemplo. Custava ser mais discreta, não passava pela cabeça que alguém podia espalhar a difamação que ia destilando, entre uma e outra pincelada de esmalte? Danou-se, tarde demais.
E o melhor é que a entrada de dinheiro seria vitalícia, um esparrame sem fim de dinheiro entrando na conta. Isso porque não reuniria todo o madamório pra mostrar as gravações de uma vez só, destruindo o aparelhinho mediante o pagamento. Afinal, quem garantiria que já não tinha outras cento e cinqüenta e oito cópias do conteúdo comprometedor guardadas a sete chaves em cento e cinqüenta e oito esconderijos diferentes? O plano era perfeito. Já se via ligando: “Dona Mafalda, meu sigilo pelos próximos seis meses tá vencendo hoje. É tanto. Pode fazer o depósito”. Gravadorzinho redentor, salvação da lavourinha de Deuzileide. Bastava agora descolá-lo da bancada.
- Ai que duro, acho que exagerei na cola... força, força, força... mais um pouco... agora vai...
Ploft. Deuzileide do céu, de um golpe o precioso submergiu no balde da faxina. Valha-me, Nossa Senhora. Ficou passando pano seco, mas nada do bichinho dar acesso às suas entranhas. O Power nem acendia. Quem sabe colocando debaixo do secador. Com mil penugens eriçadas, olha a cena... Deuzileide passando secador de cabelo no gravador carequinha. Se alguém entra e vê isso, é rua.
- Seca, seca, meu benzinho... seja um bom menino pra mãezinha Deuzileide, seja.
E ele foi. Virou a mais madame de todas, tem oito franquias do Bob’s, duas lojas de conveniência, Jaguar com motorista, cobertura novinha no melhor bairro da cidade e um salão de beleza. Aquele em que trabalhava.
Não me venha com firulas
Certo, muito certo quem diz que em boca fechada não entra mosquito – embora, dizendo isso, já esteja o dito cujo contraditoriamente abrindo a boca. Derivo a expressão popular para o papel e afirmo que página em branco quase sempre em branco mereceria ficar, abortar a idéia de um texto esquecível é um fardo a menos que se leva e que se impõe a quem lê, é uma contribuição que se dá para que o mundo continue sendo um lugar razoavelmente prático de se viver.
Pois digo, feitas estas considerações, que viva o café da manhã e sua função de alimentar, viva a aula de geografia e sua função de instruir, viva o sexo a intervalos regulares e sua função de procriar, liberar endorfinas, tornar os dois humanos envolvidos provisoriamente saciados e com baixos teores de neurose no trato social.
De que serve, convenhamos, a insistência em coisas sem serventia, que não caibam no porta-malas envoltas em plástico-bolha, não tenham manual do proprietário e não se ponham a acender seus leds indicadores de funcionamento quando pressionado o botão esquerdo do painel frontal?
Viva o pai que se engravata e sai à caça do leão de cada dia para sustentar as bocas que tem em casa, viva a mãe com suas panelas na fervura e seus tupperwares no freezer, viva a solidariedade providencial dos vizinhos a nos suprir com suas xícaras de açúcar.
Louvado seja o Louva-Deus em sua silenciosa missão na cadeia alimentar, bendito seja o Benedito, primo-irmão do Juvenal, aquele que entrega em mãos as contas do Credicard. Ergam-se bustos e confiram-se títulos de cidadãos beneméritos aos carrancudos engenheiros debruçados em cálculos e estruturas, a projetar pontes para que as hordas dos desocupados possam vagar com segurança.
Soem todas as trombetas em honra e glória à barba bem escanhoada, ao dízimo recolhido pontualmente, às revisões automotivas feitas nos prazos previstos, aos sapatos que espelham o asseio do dono, aos esquecidos hábitos de levar um lenço ao bolso e trazer sempre um guarda-chuva à mão.
Corra assim o real da vida, ainda que tosca e sem quinhão de alento, mas vivida em carne viva. Rude que só vendo, regida pelas estações mal definidas, greves, partos prematuros e buracos na pista.
Abaixo a cantilena estéril dos poetas, a troca que o ator tem com a platéia, os compêndios filosóficos e as notas de rodapé. Exceção se faça a Los Hermanos, me dizendo agora, em meu dispensável MP4, que “sem você sou pá furada”.
Prolixo
Coloco sem pestanejar o meu cargo à disposição e a minha honra em jogo se não for a pura expressão da verdade o que irei narrar nas linhas que seguem.
Juro, com a mão direita sobre a Bíblia, perante a justiça de Deus e a dos homens, que nada omitirei ou acrescentarei à bombástica e reveladora sucessão de acontecimentos de que fui testemunha, afirmando que os mesmos têm efetivamente o poder de mudar o curso atual da história e afetar de forma indelével e contundente a vida de um terço da humanidade, numa projeção bastante conservadora e tomando-se por base a parcela economicamente ativa da população.
Alerto, de antemão e a quem interessar possa, que me encontro munido do necessário arcabouço jurídico para defender-me daqueles que, maldosa e levianamente, tencionarem levar-me às barras dos tribunais por provocar-lhes eventuais infartos do miocárdio, colapsos nervosos, palpitações, tremedeiras, espasmos e outros fenômenos de natureza semelhante e conseqüências potencialmente fatais, advindos das revelações a serem por mim anunciadas.
Ainda que se argumente que tais revelações não se caracterizem em si mesmas, numa análise fria e cartesiana, como capazes de insuflar o pânico nas massas e manifestações de protesto das categorias profissionais mais articuladas, seus insondáveis desdobramentos levariam a resultados a bem dizer catastróficos. Políticas internas e relações internacionais, economias capitalistas e socialistas, transportes coletivos e individuais e até mesmo a sintaxe dos idiomas atualmente falados no planeta seriam mortalmente abatidos e cruelmente dizimados de forma truculenta, impiedosa e avassaladora, mesmo que empreendidos todos os esforços em contrário.
Do ponto de vista da prudência e do instinto de auto-preservação, não há dúvida de que deveria este escrevinhador desviar a pauta para assuntos mais amenos, que em nada lembrassem o messianismo e a responsabilidade imensa de que forçosamente estou imbuído, na qualidade de guardião de um segredo capaz de deflagrar centenas de revoluções simultâneas nos quatro cantos do mundo. Algo, porém, lá no fundo da alma e da consciência, clama para que a verdade venha à tona, custe o que custar e doa a quem doer. Mesmo que possa ganhar legiões de inimigos, que seja injustamente chamado de anticristo e taxado pelas esquinas de pomo da discórdia, não renunciarei ao me direito de livre expressão e ao meu dever de alertar a comunidade do iminente perigo que corre.
Expostas estas indispensáveis considerações, iria finalmente elencar os fatos, não fosse ter percebido nesse exato instante (uma e meia da madrugada, horário de Brasília) que o limitado espaço que possuo (três mil caracteres, no máximo) ora se esgota, à minha revelia e ante a justificada ira de meus dois ou três leitores. Por serem assim tão poucos, creio não correr sério risco de vida. Até porque, se me matarem, aí é que não saberão mesmo do que afinal se trata aquilo que estou falando – assunto ao qual prometo voltar tão logo me seja possível.
Scanning Lispector
Era a sangria desatada, e se esvaía em tinto vinho a coitadinha sem consolo e sem abraços de ninguém. Restava só resgatar o seqüestrado, o pouco que fosse possível. Vanessa ia digitalizando o remoto do que houvera e não passara, velhas fotos de família já sem família nenhuma. O scanner, em vai e vem, levava e trazia a luz cegante, que em nada clareava a treva que insistia.
Clarice Lispectorava tudo até ontem à tarde, era abrir uma página sua ao léu e pronto, paraisava-se paralisando-se. Mais um gole, talagado. Grande vinho. Essa escritora e sua escritura é o que coça, incomodando. É o que arremessa cálculos, conclusões e latitudes ao abismo irremediável, sem negociação que dê trégua e alívio. E cavuca o saco sem fundo quem se atreve a lê-la, e lendo-a se atreva a escaneá-la, como as fotos em farelos sobre a mesa. Mais antigo é o mistério de Clarice, a que ficou em tomos pelas prateleiras a quem interessar possa e queira, mesmo conhecendo os riscos de se afogar no que deixou.
Mas nada de conseguir voltar atás – era a sangria, que assim sendo prosseguia. Abusada. Clarice ou ela? As duas, no abuso de libertar-se pela fala inestancável, o verbo mudo do livro. O pretérito imperfeito na imperfeição dos retratos: avó ensaboando, torcendo, criando a escoliose no tanque. Mãe ralando queijo, lavando louça, os muitos pequenos à volta. E ela escaneando agora os restos disso. Da vida nada se leva, do dissabor se leva tudo – a herança inteira, legada em cartório com firma reconhecida. O sem calor, cheiro ou valia.
O mundo vegeta, em moribunda indiferença a ela. Ao telefone não se dê ouvidos, à TV ligada não se dê atenção, ao inodoro e ao insípido dos dias, que nessa toada dão-se adeus uns aos outros, não se dê valor algum. Reze-se, pois. Novene-se, peça-se ao Supremo.
O scanner pára. Queimou a luz. Fiquem os mortos com os mortos, hora de Vanessa deitar-se. Não sem antes uma boa colherada do nunca contra-indicado lenitivo, que os cartazes insistentes apregoam: “para o peito cheio de aflições e conflitos, Lispectorante Clarice”. Ainda que não resolva, só alivie os sintomas.
Relato de priscas eras
A José Saramago, pela inspiração.
Por um decreto natural, sem prévio aviso, abriu-se uma fenda de fora a fora do mundo, que engoliu aquele tempo e aquelas coisas do jeito que eram para continuarem indefinidamente sendo daquela forma. Das duas margens do grande racho foram tragados homens, mulheres e crianças, abajures, carros, telefones, estantes de livros e mesas de variados feitios e estilos. Essas coisas e seres, eleitas ao acaso pelo capricho do vale que se abria, permaneceram imunes ao estrago e à velhice. O tempo deixou de exercer sua ação sobre eles e instaurou-se o caos, embora seja sabido que chegou a existir uma constituição, um hino e até uma bandeira da pátria atemporal - ainda que ninguém tenha efetivamente testemunhado o hasteamento da mesma.
Multiplicavam-se os humanos entre as dois blocos rochosos, por não terem muito o que fazer exceto procriar e observar a fenda abrir-se mais e mais, tanto em largura quanto em profundidade. E os bebês uma vez nascidos perpetuavam-se bebês, com a idade de um dia, já que o passar das semanas, meses e anos havia se interrompido. Assim, os copuladores que ali estavam não mudavam de feição nem enrugavam, não perdiam cabelos nem a virilidade, se entretinham somente em mais e mais copular e cuidar dos eternos bebezinhos.
Além dos limites da fenda mágica, a vida corria e as gerações se sucediam normalmente, com a passagem do tempo seguindo seu curso inalterado. Não demorou para que o estranho Grand Canyon virasse atração turística, com hordas de visitantes acompanhados de seus guias a espreitarem de binóculos e lunetas os eternamente jovens que acenavam lá de baixo, tendo em seus colos três, quatro ou mais bebês de um dia.
Tal quadro era a glória para as mulheres de natureza promíscua, o alívio para aqueles que contraíram dívidas antes de serem tragados e o refúgio perfeito para os procurados pela polícia. Mas havia os alcoólatras que lá de baixo gritavam desesperadamente por uma garrafa de bebida, os fumantes que clamavam por uma bituca que fosse de cigarro, os saudosos aflitos por tornarem às suas casas e afazeres.
Organismos internacionais e ONGs envidavam todos os esforços para manter a situação no fosso dantesco sob controle, despejando diariamente no sulco basculantes de comida, galões de água, remédios e carregamentos colossais de leite em pó para os bebês de um dia, que se aglomeravam e formavam em poucos meses uma população centenas de vezes maior que a dos seus genitores.
Até que a fenda deixou de alastrar-se, iniciando um inédito movimento geológico de contração, que, inversamente ao fenômeno inicial, ia expelindo os humanos de volta à terra firme. Não é difícil supor que muitos foram os bebês de um dia e os adultos procriadores esmagados pelo efeito morsa, formando um mar de sangue e vísceras em torno daqueles que a custo se debatiam para alcançar a superfície e sobreviver.
Por serem em muito maior número, foi no grupo dos bebês de um dia que se computou a quase totalidade dos sobreviventes. E uma vez fora do fosso passaram a sofrer os efeitos normais do tempo e se tornaram adultos, habitando as cidades, os países e os continentes da forma como os conhecemos hoje. Por ser verdade, eu, escrivão autorizado, firmo o presente relato como documento fidedigno para estudos futuros.
Homenagem à Vó Tinhoca
A Vó Tinhoca era uma velha muito da xexelenta e da maledicente. Do tipo ranzinza que ronca e fuça, que estorva e bisbilhota onde não é chamada, onde não é desejada e muito menos útil. Seria em seu tempo o que hoje designamos “mala”. Uma mala gasta, feia e abarrotada de tudo o que possa existir de odioso na face da terra.
Nascida Antônia Leocádia di Piero Vantruz, nossa homenageada viveu 97 longos anos a serviço único da fofocaiada rasteira, incumbência a que se entregava com prazer e sofreguidão. O boato era sua vida e sua cachaça, e a esse vício era de tal forma dedicada que abdicou de marido e filhos para fazer dele o seu sacerdócio.
Filha de Maria, ostentava uma beatice de fachada, mas que lhe valia certo verniz de honorabilidade e lhe franqueava o ingresso a alguns salões mais exclusivos e bem freqüentados, de onde retirava valiosa matéria-prima para produzir injúria.
Não obstante a manipulação sacrílega que fazia da religião, tinha lá seus santos no oratório doméstico, e era bom mesmo que tivesse para se aliviar de tantas e pesadas culpas. Mas quem conheceu a velha a fundo jura que ela abusava de São Tomé e de São Jorge para coisa bem diversa da remissão dos pecados e do alívio da consciência. Na verdade, apoquentava as figurinhas de gesso com promessas para descobrir segredos de alcova da vida alheia, escândalos iminentes, calotes insuspeitos, amores clandestinos, passos em falso de figuras ilibadas da sociedade jacutirense. A delícia da desdentada era dar com a língua na banguela, destilando febrilmente seu veneno nas casas de comadres, em infindáveis diz-que-diz-ques guarnecidos por suspiro e suco de pitanga. A velha era uma “véia”, e é preciso que se diga que entre velha e “véia” há uma colossal diferença de sentido. Quem é da região do Vale do Jequitinhonha, berço e túmulo de Tinhoca, sabe bem do que estou falando.
O fato é que nossa heroína ia aniquilando reputações de casa em casa, os olhos esgazeados e a boca murcha, com batom fora do contorno, tremendo de gozo a cada vez que explodia a “bomba” da ocasião no ouvido alheio. Feito o serviço, ria seu riso rouco e desafinado de bruxa da carochinha, sacudindo os peitos derrubados debaixo da papada gorda e cheia de dobras.
Tamanha era a ânsia em passar adiante a fofoca fresca que ela, com a jugular pulsando e a respiração entrecortada, respingava doses cavalares de saliva sobre o ouvinte, o que lhe granjeou, além da mais do que justificada fama de candinha, a alcunha de “Tinhoca Chuvisco”. Dependendo do teor da novidade, Tinhoca era um verdadeiro aspersor, capaz de estancar a seca do sertão com meia hora de mexerico.
Dito isso, você, leitor complacente, me pergunta: “Sim, mas e daí?”
E daí que era só isso o que eu queria, pintar um retratinho pálido e despretensioso da velha Tinhoca, essa verdadeira indústria de calúnia e difamação. E homenageá-la falando um pouco mal dela, que é o que ela mais gostava de fazer com todo mundo. Mas, pelo amor de Deus, que isso fique só entre a gente, heim? Não vai espalhar.
Mim Tarzan, You Tube
Definitivamente, Tarzan não estava em seus melhores dias. Chegou à repartição meia hora depois do cacique, derrubou pó de guaraná na camisa branca e, como se não bastasse, o programa travou no meio da planilha. O relatório precisava estar pronto dali a duas luas, no máximo.
Ficou olhando impotente para o mico computador, contando até 10 para não esmurrá-lo. Era todo de jacarandá, com uns detalhes em peroba rosa. Talvez por isso desse pau o tempo todo. Comprado de contrabando, veio escondido debaixo de um carregamento de mogno vindo do Amapá. O gabinete de Tarzan era no décimo oitavo andar da palmeira imperial 15, Asa Sul de Bem-Te-Vi.
Lá vem ela: Jane. Aquilo não era uma mulher, era uma reserva natural paradisíaca. Assim ficava difícil se concentrar no trabalho. Funcionária nova, chegara ali transferida da Funai, depois de ter servido oito anos na Sudam. Se aproxima insinuante e pergunta qual o melhor caminho pra voltar pra casa.
Meu Santo, Daime forças pra resistir à tentação. Seria uma inesquecível transa amazônica...
Tarzan explica que o caminho mais fácil é pegar o cipó 12, passar três estações, fazer conexão com o cipó 35, saltar na Avenida Vitória Régia e dali ir de canoa até sua oca.
Com vestido de chita essa Jane fica um arraso, ele pensa. Mas, se abatesse a presa, teria que ser mais cauteloso do que com aquela gata vestida de oncinha, que levou para o meio do mato na semana passada. Por um descuido a conta do Moita’s Hot Night foi parar na fatura do cartão de crédito. Pra explicar em casa não foi nada fácil, o couro de jacaré comeu solto quando chegou na cabana.
A reunião com a diretoria foi demorada. Pauta do dia: Alternativas para livrar a selva de pedra da extinção, detendo a devastação da cidade pela floresta e preservando os mananciais de CO2. O crescimento desordenado da mata nativa vem engolindo impiedosamente as chaminés das fábricas. Se não fizermos alguma coisa agora, não vai sobrar uma fumacinha para as próximas gerações, argumentava colérico o gerente de assuntos institucionais. E aí a discussão se estendeu com todo aquele papo de sustentabilidade, de responsabilidade ambiental, que a empresa precisa se mobilizar pra calar a imprensa e aplacar os ânimos da opinião pública, etc. Ao final, tudo combinado e nada resolvido. Saiu esgotado do blá-blá-blá e parou no bar para um Gin das selvas. Duplo.
De volta à cabana, acessou amazon.com e encomendou o último lançamento do Ramos de Carvalho, que o Campos Nogueira havia recomendado para seu primo, Pinheiro da Serra. Aproveitou e comprou também um ensaio do Florestan Fernandes e um CD da Vanessa da Mata.
Já na rede, pegando no sono, o celular toca. Era o Aníbal pedindo que lhe quebrasse um galho. E toca o tonto do Tarzan a se embrenhar floresta adentro, com a moto-serra nas costas, pra resolver o problema do amigo.
Nisso já clareava o dia. Parou na banca de jornais, comprou a “A Voz Nativa” e leu a reportagem sobre um projeto voluntário de crianças que derrubavam árvores para transformar em roçados de arroz e soja. A matéria também falava de um grupo de adolescentes que drenou um rio e seus peixes para enchê-lo de asfalto. As fotos mostravam as mães dos meninos chorando de emoção, o jornal elogiava o exemplo de cidadania, um representante da ONU veio condecorar a escola e os alunos pelo feito inédito e inspirador.
Com os olhos marejados, dobrou o jornal e seguiu direto para a repartição, exausto e sem banho tomado, mas com o gratificante sentimento de que nem tudo estava perdido nesse mundo.
Flagrantes londrinos
Flagrante Um
As perdizes grelhadas, ao molho de damasco e nozes, estavam particularmente tenras. Her Majesty Elizabeth passa placidamente o fio dental, removendo um resíduo de alecrim alojado entre dois molares da arcada superior. À sua esquerda, um assessor de terno risca-de-giz relembra a pauta a ser discutida com a delegação do governo australiano, já a caminho de Buckingham. Em 12 minutos terá início a audiência, e dois furgões da BBC rondam há horas pelas proximidades. Um discreto muxoxo e um sinal de desaprovação com a cabeça deixam claro ao estilista real que os oito modelos de chapéus sugeridos não agradaram. “More options, please”.
A rainha quer um tempo. Tranca-se em seus aposentos, afasta um dos quadros da parede, abre o cofre e dele retira sabe-se lá o quê. Jamais súdito algum, nem membro do cerimonial, quiçá o Príncipe Philip saberá do que se trata. Acaricia o que tem em mãos e suspira fundo. Beija o misterioso objeto como se fosse relíquia e o recoloca onde estava.
Em outra ala do palácio, Philip espreguiça-se no divã. Antes de ferrar no sono, olha para a garrafa de bebida na mesinha ao lado e lê no rótulo a tradicional inscrição: “By appointment of Her Majesty the Queen”. As letras começam a dançar ao piscar lento das pálpebras. “Grande porcaria”, ele pensa. “O que ela entende de gin?”
Flagrante Dois
Membro da Guarda Real desde 1997, ano da morte de Lady Di, David Mansfield está impassível em sua guarita na entrada principal de St. James Palace. Mesmo sem o glamour de outros tempos, o palácio ainda é muito assediado por turistas. Há câmeras por todos os lados, e qualquer movimento seu estará sendo registrado. Preferia o inverno e o vetusto uniforme cinza que o escaldante mormaço daquele dia, ainda que o figurino ficasse mais atraente ostentando a vistosa farda vermelha. Como sempre, os grupos de excursões se sucedem à sua frente. Querem fotos junto à estátua humana. “Mãe, o olho dele não mexe mesmo. Nem pisca”. “Tira uma foto minha que depois eu tiro uma sua”. Até chifrinho atrás do capacete de pêlo de urso ficavam fazendo. Um golpe mais forte de vento acabou por levantar a mini-saia da mocinha à sua frente. Foi quando teve uma reação fisiológica involuntária, que esperava não ter sido documentada pelas câmeras.
Flagrante Três
Richard Smith avistou Dorothy Lester pela primeira vez às nove e quinze da manhã de uma cinzenta quinta-feira. Richard é supervisor de manutenção do ponteiro de minutos do Big Ben; Dorothy, do ponteiro de horas. Guardiões da pontualidade britânica, ambos estavam agarrados aos seus respectivos objetos de trabalho, lustrando e tirando o pó a dezenas de metros do chão.
- É nova por aqui? -, gritou Richard.
Sorrindo encabulada ela disse que sim, mas tão discretamente que ele nem percebeu. Os minutos foram passando e eles foram se aproximando. “What a lovely girl”, pensou Richard, zonzo pela vertigem da altura e pelo encantamento de Dorothy sobre ele. Às nove e meia, se entreolharam e sorriram cúmplices. Às vinte para as dez, ponteiros mais próximos, começaram a namorar. Cinco minutos depois, quase coladinhos, noivaram. Ao meio-dia em ponto, Dorothy ficou grávida. Os sinos do histórico relógio do parlamento badalaram de alegria. Quando desceram, a Abadia de Westminster já estava cheia de amigos para assistir ao casamento.
Obrigado, mamãe...
A natureza sempre mostrou-se pródiga ao nos brindar com plantas para todas ou quase todas as moléstias, de quadros irreversíveis de Parkinson a furúnculos de ocasião. Assim foi durante séculos com o chá de couve-manteiga, que não obstante o nome frágil da verdura era capaz de dinamitar em minutos a mais titânica pedra no rim. O mesmo se pode dizer do alecrim, célebre por sua propriedade de deter a leucemia em estágio avançado, pelo menos entre os eunucos da Ásia Setentrional, que em número de 47 serviram como grupo de controle nos estudos levados a efeito pelo “The New England Journal of Medicine”. Há que se citar também o alívio que o reino das ervas oferecia ao masturbador contumaz, que em 97,3% dos casos relatados lograva aplacar o vício solitário com a ingestão diária de três cápsulas de semente moída de tangerina anã, até então empregada com sucesso enquanto antídoto e estancador do priapismo provocado pela catuaba.
Mas os tempos são outros, e a camomila, a hortelã, a erva-cidreira, o boldo, o sapotizinho do mato e a babosa espinhuda já não abundam nos quintais das tias velhas. Por seu turno, os congêneres de saquinho, vendidos nos supermercados, são sabidamente de efeito retardado e duvidoso. E confirmando Lavoisier em sua máxima de que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, o fato é que ela hoje nos oferece substitutos tão ou mais eficazes em sua ação curativa e profilática. Como o espaço de que disponho e a paciência do leitor não me permitem citá-los todos, aí vão alguns que me acorrem de momento para ilustrar minha tese.
O chá de pneu em lascas, que para gagueira é tiro e queda – seja ela de manifestação congênita, hereditária, patológica ou psicossomática, entre as pessoas que cantam e as que mal sabem assoviar. Encontráveis facilmente às margens de qualquer banhado ou ribeirão, sua contundência terapêutica observa-se também na forma de ungüentos e emplastros, contanto que associados à ingestão intermitente de papéis de bala Juquinha. Temos ainda a infusão tríplice de tocos de cigarro, pet Bacana 2 litros e preservativos usados, largamente prescrita pelos plantonistas do SUS de Xique-Xique para as luxações de cadeirantes, sendo opcionalmente aplicada como escalda-pés.
Os florais formulados com extrato concentrado de níquel-cádmio, oriundo de baterias as mais diversas, cuja seiva escorre a se perder aos pés das árvores, sem que o homem saiba aproveitá-la devidamente para a cura de “n” gêneros de enfermidades. O xarope caseiro de isopor e mercúrio, que muitos erroneamente renegam a crendice ou mera simpatia, contradizendo centenas de relatos avalizados por baluartes da ciência que indicam seu uso nos casos de astigmatismo e transtorno bi-polar. A garrafada feita com folhas de papel alumínio e cartucho de impressora, também chamada de “Levanta-Defunto”, responsável pela reabilitação de inúmeros casamentos no interior do Piauí. Enfim, é infinita a generosidade de mamãe natureza a nos presentear, em quantidades cada vez maiores, com estes e tantos outros santos remédios. Bálsamos mágicos a que todos devemos ser gratos e saber retribuir, repondo em dobro aquilo que extraímos.
Cismei de ir
Encasquetei, parti pra cima de mim e já fui logo ameaçando: eu vou. E quem sou eu pra discutir comigo? Acatei obediente. Não é de hoje que me devo essa viagem. Mas quero ir sem aviso, chegar se supetão é bom demais da conta. Pego a vida acontecendo de rédea frouxa, no passo lento, sem nada arrumadinho aguardando chegada.
A linha da vida na mão do negro Milton aponta a vereda pra que se chegue a Minas são e salvo, assobiando em lombo de pangaré. Tia Júlia espera com o doce no tacho, mexendo em fogo brando o que éramos. Lá na cidade, cervejas no copo espumam sobre a mesa meio bamba. Os Guedes e os Borges todos, o clube em sua esquina repleto de Brants, Bastos e Tisos, que vão parindo Nascimentos tantos pela tarde afora. Três Pontas. O sol na cabeça. Minas é dura, de pedra e de ferro, não poupa ninguém do suor na ladeira.
São sete flautas cansadas a saudar nossa chegada. Tia Júlia espalha o sal da terra na massa do pão de queijo. Há um ritmo de monjolo que orquestra tudo ao redor, do cuco ao crepitar da lenha. Milton, braços cruzados, monta sentinela na plataforma da estação que é a vida do seu lugar. Beto, ao sol de primavera, passa a mão pelos cabelos, ri pra dentro, fala baixo. Receia olhar nos olhos, se basta consigo mesmo.
Que notícias me dão dos amigos? Antonia casou. Gersinho tá pra Belzonte. Os outros sempre por aqui mesmo, do jeito que você deixou quando se foi sem mais aquela. Tudo com filho criado, agora. Mas magoados contigo. Quando você foi embora, fez-se noite no viver. Eita que doeu em todos não te ver jamais. Montanha pra riba, montanha pra baixo e nada de te encontrar. Se achegue que o café saiu agorinha. E não se moleste aí, conferindo as horas como se houvesse precisão de não atrasar compromisso. O tempo aqui, é bom que te lembre, é trem que custa pra passar.
O ciclo do ouro no nome de Minas. Depois do almoço, no quarto da tia, a rede que range. A sesta da velha, a cesta de ovos, pilão pilando fubá e o sol a pino nos costados lá de fora. Libertas Quae Sera Tamen, mineira, liberta esse viço que não cansa os olhos nem descansa o apetite. Me diz inconfidências, mineira, que me deixem vermelho que nem goiabada. Que nem o triângulo da bandeira. Que nem a chita do teu vestido.
Depois do amor, a fome. O doce escorre da colher aos teus mamilos. Amor de Minas é bom e manso. Espreguiçado assim, desse modo esparramado em linho branco. É pena que logo tenha que dar nos cascos, antes que chegue o teu dono oficial, ameaçando de morte essa vida que ganho nos teus braços lisos. No inverno te proteger, de manhã sair pra pescar. Verde lugar, paisagem desse caminhar.
Ixe, nem te conto o que acontece. Senta pra não cair de costas. Jaca madura, quase passada, pedindo corte. A seiva adocicada esculpe no ar o que Minas tem de muito mole, que a bem dizer é quase tudo no embalar das indolências. Sem pressa, como convém, no toco fiz singrar o canivete, era pequeno mas lembro, faz tantos anos e foi ontem, sou capaz de te jurar.
- Minino, vem rapidim pa drento que tá sereno.
Frases que o vento vem às vezes me lembrar. Tralhas entulhadas, secos e molhados, Minas em geral.
* Marcelo Sguassábia é redator publicitário e colunista de diversos jornais e revistas eletrônicas. Seu blog: www.consoantesreticentes.blogspot.com.E-mail: msguassabia@yahoo.com.br.
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