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 Musical 
 
 

Entrevista:

Guilherme Arantes fala sobre o Moto Perpétuo*

A sonoridade pode ser comparada ao som progressivo feito pelo Yes ou pelos Mutantes na época,

além de nomes como Clube da Esquina, Secos & Molhados, Genesis, King Crimson, O Terço

e outras influências que o próprio Arantes citou, como algumas bandas progressivas italianas. 

 

A banda Moto Perpétuo introduziu o jovem Guilherme Arantes na música profissional.

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Antes de começar uma carreira solo repleta de hits emplacados em rádios e novelas, Guilherme Arantes explorou uma veia roqueira como vocalista, tecladista e principal compositor na banda Moto Perpétuo. Ao lado de Egydio Conde (guitarra e vocais), Diógenes Burani (percussão e vocais), Gerson Tatini (contrabaixo e vocais) e Cláudio Lucci (violões, violoncelo, guitarra e vocais), ele gravou o álbum homônimo da banda, lançado em 1974. A sonoridade pode ser comparada ao som progressivo feito pelo Yes ou pelos Mutantes na época, além de nomes como Clube da Esquina, Secos & Molhados, Genesis, King Crimson, O Terço e outras influências que o próprio Arantes citou, como algumas bandas progressivas italianas. 

Agora, o álbum acaba de receber uma reedição em CD, já disponível nas principais lojas do Brasil e com todas as faixas que compunham a obra original, como “Mal o Sol”, “Verde Vertente”, “Matinal”, “Duas” e “Turba”. Para celebrar o relançamento e o momento de redescoberta desta pérola perdida na história do rock brasileiro, Guilherme Arantes conversou com a gente sobre detalhes de tudo que aconteceu nesta fase que ele lembra com carinho e define como “a infinita beleza do idealismo”. 

 

O cantor, compositor e instrumentista Guilherme Arantes completou

50 anos de carreira e conversou com a Equipe da Warner Music Brasil.

 

A entrevista:

Você e Cláudio se conheceram na faculdade de arquitetura, certo? Como foi a aproximação com Egydio, Diógenes e Gerson? O que moveu vocês a montarem a Moto Perpétuo?


Diógenes foi o primeiro que eu conheci, alguns anos antes, precisamente na peça Plug, na Sala Galpão do Teatro Ruth Escobar, uma peça produzida pelo meu primo Solano Ribeiro, importante produtor dos Festivais da Record e FIC da Globo. Com Diógenes e com Rodolfo Grani Júnior, eu tocaria com Jorge Mautner no Teatro Ruth Escobar e no Teatro Treze de Maio, em São Paulo. Quando entrei na faculdade de Arquitetura da USP, logo me aproximei da turma mais aficionada pela música, e Cláudio Lucci já tocava e lecionava violão clássico, além de estudar cello.Com as afinidades no progressivo (Yes, Emerson, Lake & Palmer, e as bandas italianas Le Orme, e especialmente Premiata Forneria Marconi) a gente começou a querer montar um grupo. Eu já andava com repertório extenso, muitas influências do Clube da Esquina mineiro, que era “bola da vez” aqui no Brasil. Ao apresentar Cláudio para o Diogenes, aconteceu uma química muito poderosa, porque Diógenes sempre foi muito carismático, e assim começamos como um trio desonhadores.Logo Diógenes sugeriu o baixista Gerson Tatini, que morava na Aclimação, muito técnico e muito britânico em suas influências, especialmente do Gentle Giant, que era sua paixão maior.Gerson, por sua vez, nos trouxe a indicação de Egydio Conde, que tinha muita afinidade com o blues, com Eric Clapton e com David Gilmour, então a banda estaria completa.


Quais foram as bandas ou artistas que inspiraram vocês a chegarem na sonoridade do disco lançado em 1974?

 

Milton Nascimento, Som Imaginário, o movimento Clube da Esquina de Milton, o Gil do “Expresso 2222”, Taiguara do disco “Fotografias”, Walter Franco, e todo o Progressivo mundial (Yes, ELP, King Crimson, Genesis, e muito fortemente as bandas italianas Le Orme e Premiata Forneria Marconi. O Moto Perpétuo era na verdade uma italianada, e ainda fomos ensaiar numa casa no Brás, então éramos chegados a essa italianice.


Como funcionava o processo de criação dos sons que você compôs para o disco? Você já mostrava as músicas com suas estruturas definidas e mais próximas do resultado final, ou a banda ainda tinha uma participação massiva nessa construção?


O grosso do repertório eu já tinha alinhavado sozinho (“Mal o Sol”, “Verde Vertente”, “Conto Contigo”, “Matinal”, “Turba”, “Os Jardins”). Mas uma vez incorporados os demais músicos, houve uma inter-relação criativa muito forte, pois os caras eram muito bons, e muito superiores a tudo que eu já havia participado, então eu comecei a compor mais e mais canções como “Sobe” e “Duas”, que já incorporavam os elementos dos demais. Cláudio, por sua vez, já tinha composto  sozinho “Três e Eu” e “Seguir Viagem”.


Você lembra de quais pianos utilizou nas gravações?


As gravações foram no estúdio da Sonima, na Av. Rio Branco, Barra Funda, São Paulo, sob a produção de Peninha Smith. Havia um piano de meia-cauda de qualidade regular, possivelmente um Essenfelder (é o que eu me lembro) ou talvez um Gotrian-Steinweg... Usei ainda um Fender Rhodes, uma Echoplex, um Phaser Shifter Maestro, e um órgão Hammond, todos alugados da Transassom.

Como você vê o papel do produtor Moracy do Val no resultado do disco?

Moracy foi fundamental para conseguir nossa aprovação na Continental, com o queridíssimo Byington (presidente) e com o insuportável Rodrigues (gerente de vendas). Sem Moracy, não haveria nosso LP em 1974. Moracy foi também influenciador com suas ligações literárias, citações de Ezra Pound, Poe... sempre foi um personagem culto, e que vinha embalado pelo sucesso dos Secos & Molhados, que tinha esse viés literário e poético muito forte. Mas Moracy já experimentava o desmonte dos Secos, a briga interna da banda, e isso prejudicou muito o Moto Perpétuo, pois ficamos perdidos com a ausência absoluta de Moracy, que não tinha muito o que fazer por nós. Depois de um único show no Teatro 13 de Maio, nada mais Moracy pode fazer pelo Moto Perpétuo.

Considerando que você compôs a maior parte das faixas do álbum, qual você acha que foi a principal diferença entre o processo de criação dessas músicas para o mesmo processo em sua carreira solo,  que começou na sequência?

Falando muito pessoalmente, a principal diferença seria a minha libertação da camisa-de-força que representava a ideologia do que se chamava “rock”. Essa definição era muito importante na época, era como se houvesse um código de honra para se pertencer a um “movimento” e se enquadrar no show-business incipiente que engatinhava nesse setor da música. Enquanto isso, o Brasil dos auditórios, tradicionalmente romântico, seguia com os sucessos de novelas nos programas de televisão. Eu vivia dividido, aliás como todo mundo, entre a realidade nua e crua do dia a dia de um país atrasado, e os sonhos mirabolantes de uma moda (o rock progressivo) que vinha de países tecnológicos com uma cultura totalmente diferente do primeiro mundo. Esse choque pra mim já havia nascido resolvido: eu sempre preferi a televisão, o povão, o romantismo, então resolvi mergulhar com tudo quando a chance aconteceu. Passei a compor focado na realidade, virando cantor popular. Mas nunca deixei de gostar do progressivo e o Moto Perpétuo sempre foi e sempre será uma banda excelente, um trabalho belíssimo, que fica para ser avaliado pelas novas gerações.


Você considerou a hipótese de reunir a banda com os seus integrantes originais alguma vez depois do disco? 


Não. Nunca gostei da ideia. O Moto Perpétuo foi um grupo muito paradoxal, com muitos conflitos de base. Veja só: o rock progressivo era uma estética aristocrata, devido à erudição musical, um dos seus principais alicerces. O Moto Perpétuo tinha esse viés estético de italianada do Brás, vivíamos em linhas de trens, indo para o ABC – coisa que herdamos do Cláudio Lucci, que passou a ter essa liderança junto com o Diógenes. Eles se tornaram mais líderes do que eu. Só que essa exacerbação da italianada induzia a uma estética operária: uma banda progressiva-operária? Peculiar demais. Segundo conflito de base: a androginia era a bola da vez no mundo, questionamentos de sexualidade numa era de Alice Cooper, Lou Reed, T-Rex, Secos e Molhados, Dzi Croquettes... e o Moto Perpétuo era uma banda sem a menor vocação pra esse tipo de componentes na estética. Mais um motivo pra gente não receber destaque nenhum de mídia alguma. Todo mundo era andrógino, menos a gente. Só levávamos pedrada porque éramos altivos e nos achávamos especiais em tudo. Olhando bem hoje, acho que éramos de fato.


O rock progressivo setentista brasileiro de bandas como o Moto, O Terço, Módulo 1000 e Os Mutantes, de tempos em tempos é revisitado e redescoberto por novos amantes da música. Como você acha que o público mais jovem pode reagir a esse trabalho hoje em dia? 


O progressivo brasileiro é muito bom, assim como o da Itália, da Argentina... é um movimento de muita qualidade mas com um foco muito forte na técnica musical, o que o fez não ter uma compreensão plena da crítica, especialmente a crítica escrita, que sempre tem uma afinidade maior com a literatura, a poesia. De um modo geral, em termos mundiais, o progressivo não era forte em letras e versos porque privilegiava o som, o instrumento, o virtuosismo. Mas mesmo aqui havia exceções, como o grupo A Barca do Sol, que tinha Geraldinho Carneiro para escrever (bem).



Você tem alguma faixa favorita no “Moto Perpétuo”? 


“Turba” e “Três e Eu” são as minhas favoritas. Mas o disco todo é de uma beleza, de uma pureza extraordinárias. Tínhamos 20 anos de idade!


Que lembrança ou sentimento você guarda com mais clareza dessa sua fase musical?


Lembro de muitas angústias, de uma luta constante contra tudo e todos, mas acima de tudo, a infinita beleza do idealismo. Isso está estampado claramente na capa, muito linda em silk screen, de autoria do nosso amigo Marcus Campacci. Isso ficará: a infinita beleza do idealismo. 


O álbum “Moto Perpétuo” (1974) é uma audição obrigatória para os fãs do rock de qualidade feito em nosso país e está disponível em CD nas seguintes lojas:


Saraiva: http://bit.ly/2oDIe9W

Livraria da Folha: http://bit.ly/2o3yW74

Cultura: http://bit.ly/2mNBVkh

 

* Informações de Warner Music Brasil.

   18/04/2017

 

- Fotos: Warner Music Brasil.

 

 
 

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