HOME | ZINESFERA| BLOG ZINE| EDITORIAL| ESPORTES| ENTREVISTAS| ITAÚNA| J.A. FONSECA| PEPE MUSIC| UFOVIA| AEROVIA| ASTROVIA

 

 

Crônicas

 

Inesquecível:

História que meu pai contou um dia

Essa história enigmática chegou até meu pai, através de seu encontro

com o capataz de uma grande fazenda. Ele contou que o capataz

trabalhava para um rico fazendeiro do interior de Minas Gerais.

 

Por Pepe Chaves*

De Belo Horizonte-MG

Para Via Fanzine

18/12/2014 

A cascavel é uma serpente venenosa e típica do interior do Brasil.

Leia também:

Outros destaques de Via Fanzine

 

Esta é uma história verídica. Caminhoneiro por mais de 30 anos, em suas idas e vindas em solo brasileiro, meu pai viu muita coisa que não veria, se tivesse ficado a vida toda na pequena e poeirenta cidade de Itaúna das décadas de 1950, 1960 e 1970.

 

Em suas idas e vindas, conheceu pessoas, passou por apuros, socorreu e foi socorrido nas beiras de estrada, labutou muito, cumprindo com honradez a profissão tão querida por ele.

 

Muitas eram as histórias que contava para a família e amigos, durante os longos anos em que os pneus de seu Fenemê rasgavam as estradas do Brasil. E uma destas, eu não pude esquecer jamais, por conta de uma particular curiosidade, que arrebata não somente quem a ouve, mas, sobretudo, quem a vivenciou.

 

Essa história enigmática chegou até meu pai, Zezito Chaves, através de seu encontro num bar de estrada com um homem chamado Anjo, capataz de uma grande fazenda no Sul de Minas. Ele me contou que esse capataz trabalhava para um rico fazendeiro do interior de Minas Gerais, João da Cruz, dono de terras que sumiam de vista, onde praticava a pecuária e o plantio da cana de açúcar.

 

Com posses consideráveis e dezenas de empregados produzindo diariamente em sua fazenda, dois filhos de João foram estudar na Europa e o mais novo ficou com ele na lida. O fazendeiro, já idoso, era honesto e justo com seus trabalhadores e gostava de percorrer a pé as plantações, pastos, currais e conversar diretamente com seus empregados.

 

Mas, um dia os empregados notaram que João parou de percorrer os postos de trabalho de sua fazenda. Eles já haviam notado certo abatimento físico do patrão, que emagrecera muitos quilos nos últimos meses. Também passou a ser vistas, constantes entradas e saídas de médicos na sede da fazenda onde residia João, sua esposa e seu filho. Além de avistarem várias saídas do patrão em ambulâncias para a capital mineira.

 

Depois, souberam então pela família, que João da Cruz caíra numa cama e ali estava, já por um bom tempo, atrofiando-se, com uma doença desconhecida para a medicina. Seus filhos enviaram médicos europeus à fazenda, mas estes não conseguiram diagnosticar a doença de João, tampouco, indicar qualquer tratamento efetivo.

 

As juntas do corpo endureceram e o homem não conseguia mais se sustentar de pé nem mover os membros. Os seus músculos foram enrijecendo, enquanto ele perdia peso rapidamente e sentia-se cada vez mais fraco. Anjo, o capataz, contou ao meu pai que o visitou e o viu na cama, muito acabado, falando baixo e devagar, com certa dificuldade. Ele não tinha dúvida: o patrão estava minguando.

 

João da Cruz tomou tudo quanto era remédio de vanguarda, inclusive, do Velho Mundo; foi benzido por padres, curandeiros e ingeriu até "garrafadas", mas parecia que nada poderia mudar sua condição, já considerada pelo próprio, como a de um moribundo.

 

Mas, eis que um dia, enquanto João esticava obrigatoriamente o seu corpo na cama, bateu à porta um homem de chapéu preto, carregando nas costas um saco de aniagem cheio de pertences. O sujeito, barbado e aparentando estar limpo, era caladão e trazia um semblante humilde. Disse se chamar Zé, queria falar com João e pedir a ele um emprego na lavoura de cana.

 

A dona da casa o recebeu e o conduziu até o quarto de João, que ouviu a súplica de mais um trabalhador necessitando de labuta e dinheiro. Contou de onde veio e o que fazia antes, e como chegou até ali. João gostou de sua prosa e mandou chamar Anjo, dizendo a este para empregar Zé na plantação de cana e mostrá-lo onde ficava o casarão dos empregados. Combinaram o valor do salário e o seu trabalho começaria na manhã seguinte.

 

Antes de sair do quarto, Zé quis saber de João, o motivo que o levou a cair naquela cama. Com uma voz frágil, o fazendeiro contou pacientemente sobre a doença. Disse que seu mal era desconhecido, que tomou de tudo e foi medicado por dezenas de profissionais, sem qualquer um deles indicar algo que pudesse reverter ou pelo menos, estacionar a doença.

 

O forasteiro ouviu calado tudo o que João tinha a dizer sobre sua doença. Quando terminou de narrar, Zé falou com ele que conhecia algo que poderia curá-lo. No seu íntimo, João duvidou da cura naquele momento, uma vez que os maiores especialistas do mundo não conseguiram diagnosticar o seu mal, mas não custaria tentar algo mais, afinal, poderia ter somente mais alguns poucos dias de vida pela frente. O fazendeiro olhou para o desconhecido e disse: “então me diga”.

 

O estranho falou que era preciso conseguir óleo de cascavel, claro, que deveria ser extraído da própria serpente. Explicou como cortar a pele e retirar o óleo da cobra, fervendo os pedaços do bicho em banho-maria e separando a gordura extraída em vidros, onde esta talhava e ficava mais consistente ao esfriar. Zé disse a João para tomar uma colher cheia de manhã, à tarde e à noite, durante um mês. O forasteiro deixou claro que o “remédio” deveria ser tomado três vezes ao dia, em exatos 30 dias, nem um a mais ou a menos. João ouviu-o atentamente, juntamente com o capataz e sua esposa. Ao terminar suas explicações paramédicas, o forasteiro Zé então se calou. E já aparentando mais animado com a remota perspectiva, João então ordenou ao capataz Anjo que paralisasse os trabalhos da fazenda no dia seguinte e colocasse todos os empregados para caçar cascavéis na sua propriedade.

 

Quando o sol saiu na manhã seguinte, dezenas de trabalhadores deixavam seus diferentes postos de serviços e adentravam para as matas, entre serras, brejos e grotões da imensa fazenda, munidos de enxadas e foices, a procura de cascavéis. Zé foi com eles e no final do dia, a "força tarefa" conseguiu capturar seis robustas cobras que foram mortas e tiveram o seu óleo extraído, em quantidade suficiente para ser consumida em pelo menos 30 dias.

 

Naquela mesma noite, João tomava sua primeira colher do óleo de cascavel e assim foi tomando nos dias sucessivos, conforme ditou a prescrição do desconhecido. Nos dias seguintes, Zé continuava trabalhando com os demais empregados da plantação e não voltou mais a conversar com o patrão. Entre os empregados, o desconhecido mostrava-se um sujeito solícito, disposto e vocacionado a mexer com o plantio da cana. Calado e sempre na dele, Zé cultivou rapidamente um certo carisma e o mais alto respeito de todos os empregados de João.

 

Os dias foram passando e, por incrível que pareça, o óleo de cascavel foi restaurando a vitalidade do velho João da Cruz. Em uma semana a sua voz voltou ao tom normal e ele passou a se alimentar melhor, voltou a ganhar peso e a dor nas juntas diminuía dia a dia. Já podia esticar e fechar os cotovelos e joelhos sem sentir a terrível dor que o acompanhava por meses.

 

Quando completou 15 dias da primeira colher de óleo ingerida, João disse à esposa que se levantaria naquela manhã. Ela duvidou que conseguiria, mas ele se sentou bem devagar na beira da cama, calçou suas botinas, se levantou e caminhou lentamente, ainda com as pernas emperradas e cambaleantes. Disse à mulher que ia descer e procurar por Zé, pois desejaria recompensá-lo pela cura. Ele já se sentia curado. Tomou café com a esposa e o filho depois saiu sozinho em passos miúdos, rumo ao campo de trabalho.

 

Ao ser visto caminhando foi saudado pelos trabalhadores que se juntavam em torno dele, aplaudindo-o e comemorando a sua volta às atividades. Mas, naquele instante, seu olhar buscava apenas o forasteiro, por detrás de cada cara feliz que via à sua frente. Como não o viu, então, chamou o seu capataz e perguntou por Zé. O capataz então deu a desconcertante notícia de que não sabia do rapaz. Todos os empregados o viram pela última vez durante a noite passada, mas ninguém o viu pela manhã.

 

O velho João da Cruz ficou muito encafifado com o sumiço de Zé no décimo quinto dia, justamente quando ele pôde voltar a andar e gostaria de agradecê-lo. Estava preocupado, pois, durante os 15 dias de trabalho prestado, Zé não recebeu nem um tostão de adiantamento, somente usufruiu da comida que era distribuída aos trabalhadores da fazenda. Como poderia um homem sumir daquela maneira e por que razão?

 

Ordenou ao capataz que montasse uma junta de 12 cavaleiros e fizesse buscas em todas as regiões da fazenda até o anoitecer, na tentativa de encontrar Zé. Mas, o dia se passou e as várias buscas foram em vão, Zé nunca mais foi encontrado e ninguém sabia explicar o seu paradeiro.

 

Quando chegou o trigésimo dia de tomar o óleo, João rapou o resto do vidro, sorveu a última colher cheia e já se sentia completamente curado e ainda mais forte. Dizia aos amigos que nascera de novo, pois já se considerava morto naquela cama, até ser salvo de maneira surpreendente, seguindo o conselho de um estranho que bateu à sua porta.

 

O trigésimo dia caiu num domingo e João chamou o padre do povoado até a capela da fazenda, reuniu os empregados e vizinhos e mandou rezar uma missa para Zé - esteja ele vivo ou morto. Expressou assim,  o seu sentimento de eterna gratidão ao desprendido de um estranho que passou pela sua fazenda um dia, para lhe devolver à vida.

 

E faz mais de 30 anos, meu pai me contou esta história inesquecível, sobre o enigmático aparecimento e sumiço de um simples Zé que, agora, não ficará mais somente comigo.

 

* Pepe Chaves é editor de Via Fanzine e da ZINESFERA.

 

- Imagem: Divulgação.

 

Leia também:

Últimas postagens em Via Fanzine

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2014, Pepe Arte Viva Ltda.

Página inicial  HOME

 

 

 

 

 

 HOME | ZINESFERA| BLOG ZINE| EDITORIAL| ESPORTES| ENTREVISTAS| ITAÚNA| J.A. FONSECA| PEPE MUSIC| UFOVIA| AEROVIA| ASTROVIA

© Copyright 2004-2015, Pepe Arte Viva Ltda.
Motigo Webstats - Free web site statistics Personal homepage website counter