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Antiguidades

Crônica:

Do quarto dos relógios

A estranha história de uma família de relojoeiros de Minas, ficcionalmente os Binelli que,

por apavorantes coincidências, acabaram por terem suas vidas e mortes cronometradas.

 

Por Fabiano Mauro Ribeiro*

Do Rio de Janeiro-RJ

para Via Fanzine

 

 O autor, Fabiano Mauro, ao lado de um dos relógios de sua coleção.

 

Luigi Binelli chegou ao Brasil vindo da região de Milão, Norte da Itália, em 1923, e se instalou perto do antigo distrito de Itaboca, no Sul de Minas. Casou-se com uma brasileira, com quem teve dois filhos, Antonio e José. Montou uma forja primitiva, para fazer peças de relógios de chão ou de parede. Levando-se em conta que a quantidade  de relógios que mais vinha para o Brasil, franceses  ou americanos ou alguns alemães ainda não era grande, Luigi, mesmo assim, criou os filhos, fez dinheiro e mudou-se para uma  cidadezinha, próximo a Barbacena.

 

Ali, em família, passou a fazer pêndulas de relógios em forma de lira, fornecendo para  São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Seu trabalho era conhecido de todo colecionador e relojoeiro do Brasil, pela alta perfeição.

 

Luigi morreu em agosto de 1954, numa terça-feira, às 15 horas. A mulher se foi logo depois, aos 21 de agosto de 1956, uma terça-feira às 15h10. Os filhos continuaram no ofício, só que Antonio e José, já casados, se puseram a colecionar relógios de madeira de todo tipo, enchendo todas as paredes do sobrado, que ficava logo na entrada da cidade.

 

Antonio, o mais, velho, certo dia, tomou conhecimento através de conversa com um viajante e freguês intelectual, da existência de um escritor, Hermann Broch. Segundo esse romancista, quase um filósofo, a função dos relógios é  enganosa. Eles nos são receptivos, devido à indução ao homem ocidental, de que vive na tridimensionalidade. Broch afirma que a tridimensionalidade é uma abstração, o que existe é a pluridimensionalidade, e assim sendo, a noção de tempo é infundada - o tempo não existe.

 

Se a humanidade soubesse disso há mais tempo, talvez nem se construíssem relógios, pois eles são um mero adorno, baseados nesse erro que conduz o homem a se pautar em moldes dentro da civilização industrial.

 

Não sei se Antonio Binelli, conseguiu entender a fundo essa teoria de Broch, mas seu comportamento se tornou muito estranho nos últimos anos de vida. A viúva conta que o marido reuniu todos os relógios, cerca de 600, num quarto em cima da garagem e fechou-o com uma fechadura arcaica, retirada na antiga reforma da sacristia da paróquia de São Matheus, na cidade vizinha. José, o mais moço, morreu em  1975, numa terça-feira às 15h15, e Antonio em 19 de abril de 1977, numa terça-feira às 15h20.

 

Antonio deixou um codicilo, registrado no Registro de Títulos e Documentos de Juiz de Fora, com ordem expressa para que jamais se abrisse o quarto de relógios. A viúva de Antonio, Romilda, tornou-se Testemunha de Jeová, e dizia ser uma das 144.000 pessoas escolhidas nos fins dos tempos, já próximos, conforme o capítulo 7  do Apocalipse, quando então, talvez, abrisse o quarto.

 

Romilda tinha uma sobrinha, Vera, filha de José. Esperta, moderna, leviana e iconoclasta, Verinha, como era conhecida, trabalhava numa fábrica de roupas íntimas na Região Serrana do Rio e administrava as coisas da tia.

 

Um dia conheceu um amante, homem de idade avançada, que a mantinha parcialmente e se propunha a colecionar relógios antigos. Como suposta herdeira do conteúdo do quarto, Vera com documentos falsos, negociou os direitos com o tal amante, Pedro Bartag. Três dias depois da transação, Bartag bateu com o carro no quilômetro 21 da antiga rodovia Rio-São Paulo, em 19 de abril de 88, terça-feira, às 15h30, e morreu.

 

Era o dia do aniversário da morte de Antonio Binelli, com diferença de horário de uma morte para a outra, de apenas 10 minutos.

 

* Fabiano Mauro Ribeiro é pesquisador, colaborador de várias publicações sobre História e Arte.

 

- Foto: Arquivo do autor.

 

- Produção: Pepe Chaves.

  © Copyright 2004-2010, Pepe Arte Viva Ltda.

 

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