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Opiniões

 

Intervenção militar:

Rio, que venham outros janeiros

A preocupante situação de intervenção militar na cidade do

Rio de Janeiro e a responsabilidade de uma operação

onde militares serão inseridos na realidade das comunidades locais.

 

Por Pepe Chaves*

De S.T. das Letras-MG

Para Via Fanzine

17/02/2018

 

Se de fato as autoridades locais perderam o controle da situação, da ordem e da

estabilidade social, algo há de ser feito, mas que não se toque à população civil comum.

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“Estranho o teu Cristo, Rio, que olha tão longe, além... Com os braços sempre abertos, mas sem proteger ninguém... Eu vou forrar as paredes do meu quarto de miséria, com manchetes de jornais, pra ver que não é nada sério”. Quando escreveu estes versos no final da década de 1980 para a canção “Um trem pras estrelas” (Gilberto Gil/Cazuza), depois de comemorar a volta da democracia em meados daquela década, o compositor Cazuza jamais poderia imaginar que num futuro nem tanto distante, sua cidade estaria novamente tomada por forças militares.

 

A intervenção militar na cidade do Rio de Janeiro, anunciada pelo presidente Michel Temer na noite da sexta-feira, 16/02/2018, se torna um ato sem precedentes da mais alta responsabilidade por parte das forças operacionais executivas.

 

Se de fato as autoridades locais perderam o controle da situação, da ordem e da estabilidade social, algo há de ser feito, mas que não se toque à população civil comum.

 

O ato intervencionai vem dividir opiniões. Alguns apoiam, sobretudo, pelo pretexto de restabelecimento a ordem pública e da sanidade social;  enquanto outros repreendem à esta medida, seja por temores relativos aos possíveis derramamentos de sangue por parte de pessoas inocentes ou o assombro de uma “nova ditadura” por detrás de uma medida de caráter militar.

 

Se realmente tal situação se configura numa assombração dos anos de chumbo da ditadura brasileira, possivelmente esta irá mostrar para alguns “como era” o regime da gestão militar frente ao Estado - pelo menos no que se concerne à segurança pública. Lembrando que a verdadeira ditadura militar matou, mutilou, feriu e atingiu milhares de pessoas das mais diversas formas. Além disso, a ditadura militar brasileira calou à imprensa, censurou artistas, jornalistas e toda a sociedade civil, sob o terror das armas, da tortura e da perseguição.

 

À parte todas as nossas mazelas nacionais, fato é que o Brasil, como nação, já superou tudo isso, e portanto, esta situação envolvendo à cidade do Rio de Janeiro se mostra como mais um triste episódio da realidade brasileira contemporânea. Imagine, você ter sua cidade natal “temporariamente” entregue às mãos de militares porque “bandidos” (gangs e milícias) tomaram o controle da situação decretando o fim da ordem pública e criando um novo poder paralelo?

 

Tudo isso é muito triste, sobretudo, em uma cidade que é o cartão postal de todo um país. Uma cidade onde já residi por alguns meses, onde pude provar de sua cultura, de seu sangue, suor e glórias. Onde, particularmente, tenho dezenas de amigos e pessoas de meu estreito relacionamento.

 

Então, torna-se uma situação socialmente preocupante. E, não somente por poder se tornar um piloto ou modelo de ação que possa ser “politicamente usada” em outras plagas, ao bel prazer de determinadas autoridades nacionais, mas a intervenção no Rio torna-se motivo de tristeza para milhares de cidades brasileiras.

 

Contudo, resta-nos esperar que todas as ações agora impostas sejam calcadas na justiça, na responsabilidade e no verdadeiro desejo de restabelecer a ordem social naquela localidade. Que jamais este tipo de ação militar, tão delicada (ao colocar militares no seio das famílias em diversas comunidades) seja objeto de exploração política ou politiqueira, por parte daqueles que hoje detêm o controle federal das armas. Por sua vez, resida onde for, quem desejaria ver seus filhos, netos e irmãos ente homens armados e capazes de matar a qualquer momento? Julgar a realidade alheia é muito confortável para quem não sente na pele o medo e o terror.

 

Portanto, esta não é uma questão para dialética entre esquerda e direita, onde cada qual pega o seu naco da situação, visando se sobressair sobre a panfletagem digital barata. Não é tempo para politicagens ou políticas partidárias de siglas e coligações, quando urge combater um mal que aflige geral. E que, afinal, busca algo simples e básico: a normalidade.

 

Passamos por um momento preocupante, não somente na fuga do controle que assistimos hoje na cidade do Rio de Janeiro, mas por este ser apenas o mais substancioso reflexo nacional de toda uma melindrosa situação, onde a educação, a segurança e a saúde se encontram falidos a nível federal, traduzindo assim, esse atual caos nacional.

 

Assim como diria o mesmo Cazuza - felizmente - o tempo não para.

  

* Pepe Chaves é jornalista e editor dos portais Via Fanzine e ZINESFERA.

    16/02/2018

 

- Foto: Pepe Chaves.

 

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