AEROVIA ARQUEOLOVIA ASTROVIA DORNAS DIGITAL ITAÚNA FANZINE J.A. FONSECA UFOVIA VIA FANZINE

          

Meio Ambiente

 

Descendo o Paraopeba:

Impressões dos três primeiros dias de viagem

Dulce, pescadora há mais de 15 anos nos mostrou as redes, que eram novas, tingidas de barro, coisa que, segundo ela, nunca havia acontecido. Relata que tem sentido cansaço e dor de cabeça.

 

Reportagem de Tulasi Resende Barcellos*

Do rio Paraopeba

27/03/2019

 

Ao longo do rio Paraopeba, redes de pesca já foram tingidas com a cor da lama espalhada pela mineradora em Brumadinho.

Leia também:

Outros destaques em Via Fanzine

 

Saímos de Belo Horizonte pela manhã do dia 24 de março e viajamos 260 km pela BR 040 e 15km de estrada de terra até a usina hidrelétrica de Retiro de Baixo, última barragem antes do Paraopeba chegar ao rio São Francisco.

 

Fomos recebidos pelo Léo, dono de um terreno à beira do lago da usina, ele cobra $10 dos pescadores que vem acampar. As pessoas entram com seus carros e armam as barracas em áreas apenas capinadas. Diz que planejava com a esposa, começar a construir em alguns meses e que está em dúvida se a represa e os peixes estão contaminados. Percebeu uma alteração na cor da água no dia 25 de fevereiro, um mês após rompimento no Córrego do Feijão, agrega que a frequência das chuvas também é um fator a ser observado. Mostra seu caderno de contas: A renda aos fins de semana, no mesmo período do ano passado era 5 vezes maior. Funcionários de uma empresa contratada pela Vale, utilizam sua propriedade para colocar o barco na represa e fazer as análises diárias na água, por causa das burocracias para sair de barco pela usina, ele lhes faz a gentileza.

 

Os pescados diminuíram, enquanto a turbidez da água aumenta.

 

Em Felixlândia, município com pouco mais de 14 mil habitantes, o Paraopeba já percorreu 300 quilômetros desde Brumadinho, até seu encontro com o Rio São Francisco. Perto da foz na localidade de Barra do Paraopeba, 15 km abaixo da usina, os moradores também não receberam orientação alguma. Estão inseguros e relatam sobre a anormalidade na cor turva da água, o desaparecimento dos peixes, que eram abundantes - acompanhamos seu Raimundo pescador, recolhendo a última rede que estava no rio há uma semana, sem nenhum peixe. Dulce, pescadora há mais de 15 anos nos mostrou as redes, que eram novas, tingidas de barro, coisa que, segundo ela, nunca havia acontecido. Relata que tem sentido cansaço e dor de cabeça. Seu freezer cheio de peixes que ninguém quer comprar e ela tampouco venderia, por medo de envenenar alguém "será que vou ter que jogar tudo fora?" Todos os que vivem do rio estão perdendo sua fonte de renda. Seja porque as pessoas já não vêm pescar, ocupar, campings e consumir nos comércios da cidade depois que saiu a notícia da contaminação, seja porque os frigoríficos começam a não aceitar os peixes daqui.

 

A redução na renda e as incertezas sobre o que virá são sobrepostas à possibilidade de os filtros da usina estarem se entupindo com o rejeito (um morador fotografou infiltrações) e a pressão subir além do suportado pela estrutura. Foram veiculadas notícias de que as comportas seriam fechadas e a usina reteria os rejeitos da Barragem do Córrego do Feijão, para que não chegasse ao São Francisco. Os moradores relatam que as atividades não foram interrompidas em nenhum momento.

 

Dulce: seu freezer cheio de peixes que ninguém quer comprar e ela tampouco venderia, por medo de envenenar alguém "será que vou ter que jogar tudo fora?".

 

A principal queixa é a desinformação e o descaso por parte da Vale, dos órgãos públicos e da mídia - uma pescadora enquanto assistia uma notícia sobre os dois meses do rompimento no MGTV, disse que "pra eles a gente nem existe". Passados dois meses do rompimento ainda não lhes foi repassado nenhum tipo de orientação sobre como agir ou algum esclarecimento. Funcionários das terceirizadas vem todos os dias para recolher amostras da água e passam sem conversar com os moradores, que se sentem negligenciados e desrespeitados.

 

A ONG SOS Mata Atlântica esteve na região recolhendo análises, entrevistando atingidos e publicou uma nota confirmando a chegada dos rejeitos ao Rio São Francisco na última semana. A ONG não fez nenhuma publicação ou entrou em contato com as pessoas que entrevistou para informar os resultados desses estudos, o que gera ainda mais dúvidas, inclusive sobre as razões para não divulgar tais resultados (procurem saber quem são os financiadores da SOS). No dia 26, presenciamos a chegada de técnicos da ANA (Agencia Nacional de Águas), juntamente com outra terceirizada: Clean Enviroment Brasil sediada em Valinhos, SP. Uma das especialidades da empresa é o monitoramento da qualidade da água em tempo real. Não quiseram conversar com a gente e ignoraram os moradores até que o seu Raimundo foi interpelá-los. Conseguiu a promessa de que os resultados seriam enviados para a prefeitura.

 

O comprometimento da bacia do Paraopeba poderá atingir a economia de muitos municípios ao longo de todo o trajeto do rio.

 

Às margens do rio há vários condomínios e empreendimentos de pesca e lazer. A região é o segundo maior polo de produção de tilápias do país. As pessoas estão com medo e alguns em choque pela possibilidade de não poderem usar mais o rio para viver - quando perguntados sobre o significado do rio a resposta é unânime: "significa vida pra gente, uai." É uma região com turismo já estabelecido e um acervo impecável de entardeceres e noites estreladas de renovar o fôlego.

 

Todos e todas as entrevistadas, até agora dizem que foi crime!

 

*Tulasi Resende Barcellos é fotógrafa e colaboradora de Via Fanzine.

 

- Imagens: Tulasi Resende Barcellos.

 

*  *  *

 

 

Ir para a página principal

 

AEROVIA ARQUEOLOVIA ASTROVIA DORNAS DIGITAL ITAÚNA FANZINE J.A. FONSECA UFOVIA VIA FANZINE

          

© Copyright, Pepe Arte Viva Ltda.

Motigo Webstats - Free web site statistics Personal homepage website counter