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Itaúna:

O Rio Sujão já foi São João

Era de costume o Baratinha chegar mais cedo à beira

do Rio todos os dias e por volta de 19 horas ele estava lá.

 

Por Afonso Silva

de Itaúna-MG

Via Fanzine

11/01/2012

 

Uma capivara pasta tranquilamente nas margens do rio São João, próximo à rodoviária de Itaúna.

 

Há muito tempo, bem antes do Dr. Guaracy de Castro Nogueira usar em seus famosos discursos, o bordão, “Barranqueiros do Rio São João Acima”, nessa época o rio era limpo e de tão limpo as águas eram transparentes e havia muitos peixes, hoje somos Barranqueiros do Rio Sujão, o Baratinha e muitos outros pescadores souberam como este rio deu peixe.

 

Vou contar a história de um pescador com o apelido de Baratinha, todo o dia ele pescava no Rio São João e ninguém conhecia as barrancas deste rio melhor do que ele. Baratinha gostava de pescar sozinho, iluminava seus pesqueiros com a luz de uma pequena lamparina e curtia o silêncio das noites fumando o seu cigarro de palha. Foram tantas as vezes que a sacola deste pescador chegava cheia de carás, bagres, piabas e traíras em sua casa e isto era motivo de muita alegria.

 

Era de costume o Baratinha chegar mais cedo à beira do Rio todos os dias e por volta de 19 horas ele estava lá. Certo dia, não sei o que aconteceu e por volta das 22 horas, ele não havia chegado à beira do Rio, como era de costume. Tenho certeza que até os peixes sentiram falta do pescador Baratinha e só por volta da meia-noite finalmente chegara. Ufa! Até que em fim o pescador chegou, acho que foi assim que os peixes comentaram e como de costume a pescaria foi boa.

 

Sei que o Baratinha ganhava a vida como Mágico e quando ele parava pra fazer suas mágicas, muita gente se aglomerava para ver suas proezas e eram mágicas de primeira categoria, esta era uma de suas virtudes, ser um bom mágico. Podem ter certeza, ele era o rei do ilusionismo, cheguei a conhecê-lo e o vi fazer muitas mágicas, na praça, escolas e bares, a criançada o adorava.

 

Rendo aqui as minhas homenagens ao mestre Baratinha, pescador e mágico de primeiríssima categoria, merece ser lembrado por nós, ou melhor, como diria o Dr. Guaracy, ser lembrado como “barranqueiro do Rio São João Acima”; um homem desta envergadura é de grande valia para nossas vidas e os nossos sonhos.

 

Quando o Rio São João começou a ser poluído ou virar Rio Sujão, o Baratinha ainda estava entre nós e mesmo assim pescava no Sujão; só que de lá para cá e, depois que ele se foi, o rio ficou mais poluído.

 

Itaúna tem lá os seus mais de 100 anos e o rio que emprestou as suas barrancas para formar a cidade de Itaúna já estava aí não sei há quantos anos e hoje se encontra totalmente poluído. O Dr. Guaracy que em seus discursos orgulhosamente enchia o peito para nos chamar de Barranqueiros do São João Acima, também já se foi. Alias, Dr. Guaracy e o Baratinha deixaram saudades e boas lembranças e o Rio Sujão, já foi São João e mesmo assim o Sujão corre no seu leito imundo. Quem sabe um dia este rio será salvo literalmente, quem sabe um dia o Sujão volte a ser São João.

 

Verso do poeta Osnofa em homenagem ao Rio São João: “O rio tinha uma curva, depois da curva, uma corredeira, como eu gostava de olhar as águas do rio passar, primeiro a curva, depois a corredeira”.

 

Quase me esqueço de um pequeno detalhe, antes de terminar este causo, mostrei o mesmo para o amigo Zé Faxineiro, que depois de ler e reler não sei contas vezes, me disse: tenho certeza que posso contribuir com alguma coisa para que este causo fique melhor, você está deixando pra trás um fato muito importante e o leitor vai querer saber onde o Baratinha estava na noite que chegou tarde a pescaria.

 

Naquela hora fiz de desentendido, mas perguntei para o Zé Faxineiro, o que estava ficando pra trás, e ele inteligentemente me respondeu: acrescenta aí, pede aos seus leitores que venham aqui no meu comércio comprar galinha, ovos caipira e verduras, que eu vou contar onde é que o barranqueiro, mágico e pescador Baratinha estava naquela noite que ele atrasou para a pescaria.

 

Sendo assim, vá até o comércio do Zé Faxineiro, ele vai te contar essa parte da história, que nem eu sei. O endereço do Zé Faxineiro é Avenida São João, próximo ao Pontilhão, em frente ao rio Sujão.

 

* Afonso Silva é cronista.

 

- Foto: reprodução/arquivo VF.

 

- Extra:

  Assista o clipe: 'Rio Sujão' com a banda Elfos

 
 
 
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