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Entrevista
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Exclusivo: Entrevista com José Oscar Júnior Administrador e ex-secretário de Saúde em Itaúna-MG.
Por Pepe Chaves Para Via Fanzine 26/04/2011 José Oscar Júnior
O administrador José Oscar Júnior, 37 anos, nasceu em Itaúna e atualmente reside fora da cidade. Ele desempenhou o cargo de secretário municipal da Saúde durante o governo do prefeito Eugênio Pinto (PT, depois expulso do partido pelo diretório local). Nessa entrevista Oscar nos fala um pouco de seu trabalho desenvolvido na Saúde de Itaúna e também das graves denúncias que ele e o médico Bruno Cauzin apresentaram e foram acatadas pelo Ministério Público de Minas Gerais contra a Administração Pinto e os quatro vereadores de sua base de apoio na Câmara, Delmo Dentista, Marcinho da Prefeitura, Lucinho de Santanense e Paulinho Morada Nova.
Via Fanzine - José Oscar, como o senhor chegou ao governo municipal de Eugênio Pinto, onde foi titular da pasta da Saúde? José Oscar Júnior – Em outubro de 2005 fui convidado a integrar a equipe da Secretaria Municipal de Saúde como Diretor da Vigilância Sanitária, na época o Secretário Municipal de Saúde era o agora Secretário de Finanças Sr. Adriano Machado Diniz. Exerci a função até 07/03/2006 quando fui novamente convidado a ser Secretário Municipal de Saúde.
VF – Durante a sua saída do governo pintista, ficou notório que houve desentendimentos entre o senhor e o prefeito. Em quais níveis se deram tais desentendimentos e em quais circunstâncias o senhor deixou a administração itaunense? José Oscar – Quando retornei a Itaúna, me coloquei num propósito de servir aos de minha terra, depois de mais de 15 anos de experiência na área de saúde, sempre atuei de forma técnica e profissional. Por conta da minha formação acadêmica, sempre tive comigo o interesse pela superação de objetivos, nunca me contentei com fazer o simples, a rotina, buscava sempre criar novos objetivos e metas para mim e para minha equipe, daí surgiram a Farmácia Popular, o Samu 192, o CAPS –AD Alcool e Drogas, os mutirões da limpeza contra a Dengue, a Fisioterapia nos domicílios, a mudança de horário de atendimentos da Odontologia, a abertura da rede de saúde para os campos de estágios, os novos processos da VISA com o combate de produtos irregulares como produtos sem licença, entre outras coisas que junto em equipe e seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde conseguimos avançar para a população. Sempre tive a visão que minha maneira despojada e determinada incomodava, mas fazia o que podia para exercer minha função da forma mais coercitiva possível. Durante esses anos que participei do governo municipal, novas pessoas foram se integrando ao processo de governabilidade da cidade, e por que muitas vezes, emiti minhas negativas por escolhas políticas e não por opções de forma humanizada e técnica, que realmente pra mim e meus colegas, espelhavam avanços para a melhoria do atendimento da população. Por consequência disso, essas influências, acredito, chegaram até o Prefeito, e ai se soma uma oposição direta, o fato de eu não ser um médico, nem tradicionalista, não vir de um meio da sociedade elitista, não ter e não querer apadrinhamento político, ter adquirido com muito esforço meus conhecimentos e conseguir através desses anos de conhecimento sólidos contatos no Ministério da Saúde e outros órgãos da saúde, foram pesando para que me tornasse uma pedra no sapato de muita gente.
VF – Então, o senhor acredita que a forma com que conduzia a pasta da Saúde desagradava a algumas pessoas desse governo? José Oscar - O que posso dizer é que, acredito, outras bases ligadas ao Prefeito foram somando pontos para pressionar meu desligamento do grupo de governo; desligamento que para mim, faria parte de um processo, se não fosse a forma e brutalidade com que foi feita. Um desligamento ou uma mudança geralmente é um processo direto entre seu superior e você, no meu caso foi quase uma assembléia, onde não tive uma oportunidade de ter uma conversa individual e pacífica com o prefeito, fui chamado, na presença de um grupo, claramente decidido a executar o serviço, e diante daquilo que foi dito e colocado, ficou claro que havia uma necessidade de minha saída do cargo de secretário. Ser secretário nunca foi uma questão de status, sempre levei a função como enorme seriedade e dedicação, extrapolando todos os horários e esforços, deixei por muitas e muitas vezes minha família de lado pelo interesse público; portanto sempre soube que meu tempo passaria, mas esperava mais respeito pela fidelidade e dedicação as pessoas, por tudo que me esforcei para proporcionar a cidade. Não bastasse isso, os critérios de tratamento adotados para com aqueles que integravam minha equipe, alguns foram excluídos e direcionado a mim essa culpa de exclusão, sendo que a visão da competência profissional estava sendo deixada de lado, e passando a ser um aglomerado de questões políticas e interesses pessoais. Coisa que fez perder muito da qualidade e tranquilidade de minha equipe de colegas da secretaria, uma coisa se tornava fato, a secretaria estava se tornando cada vez mais política e assistencialista, e perdendo sua condição humanizada e técnica-profissional. Um meio em que, quem não é político dificilmente poderia sobreviver, situação que me causou e me causa dor até hoje, perdi muita gente boa nesse processo, gente de compromisso, profissionais e de coração humano para atender a população.
VF – Nesse caso, o senhor diz que outros funcionários também foram lesados em medidas que na verdade eram aplicadas contra o senhor? José Oscar - Deixo claro que, eu não aceitava certa submissão cega a outro(a)s, as vezes por agir na legalidade para certas decisões, gerei um enfrentamento de um fato; fato que interna e muito particularmente criaram situações constrangedoras e humilhantes a mim e aos meus, mesmo tendo a razão e o bom senso a meu lado. Desta forma, não farei aqui apologia só aos outros, também erramos, mas procuramos sempre acertar no que era melhor para população e plausível, sem promessas; na pasta da saúde tudo é sempre imediato e inconstante, agir rápido é sempre necessário, mas difícil pelas poucas portas que se tem a disposição, e fazer escolhas na maioria das vezes deixava um sabor amargo. Mas nunca considerei de outra forma, as pessoas que atendia preferiam ouvir a verdade, por mais difícil que fosse, do que ser ludibriadas com promessas incertas e as promiscuamente políticas. Sempre tive a consciência que eu nunca fui secretário; eu estava secretário, e plenamente compreendi minha função ali, servidor público, e nunca quis agir diferente. Sempre tive clareza das escolhas pessoais no exercício da função; escolhi ser servidor, e isso é mais difícil e doloroso do que se imagina, uma escolha que não era mais compatível com aquilo que espera da proposta de governo e com o rumo das escolhas que se estava fazendo, por isso a minha exoneração se tornou cada vez mais necessária.
VF – O contrato da Prefeitura com a Oscip Face a Face Ação Solidária, no valor de R$ 4,49 milhões já era bastante criticado por muitos na cidade. Agora, ele acaba de ser denunciado por improbidade administrativa através de Ação Civil Pública (n.º 0028952-25.2011.8.13.0338) pelo Ministério Público Estadual, que ajuíza o prefeito Pinto e outros. Também foi recentemente ajuizada pelo MP a Ação Civil Pública de n.º 0008376.11.2011.8.13.0338, em face a Eugênio Pinto, a empresa Listen Local Information System Ltda e outros, pela prática de improbidade administrativa, num contrato de R$ 1,6 milhões, de acordo com o MP. Tendo participado da administração Pinto quando do vigor desse contrato, como o senhor vê estes fatos? José Oscar – Acredito que na administração pública brasileira não existe ainda um modelo fiel às realidades e necessidades para o bom atendimento dos anseios da população. Quando um administrador público faz escolhas deve conviver com os resultados dessas escolhas, mas que a prática dessas escolhas devem ser calçadas na base da legalidade. Que tudo seja esclarecido, cada um de nós arque com suas escolhas como tem de conviver com os resultados, na gestão pública não é diferente. Ao Ministério Público, órgãos competentes e principalmente a população não poder haver omissão e falta de transparência dos fatos, e se houve a necessidade de se julgar os atos, que assim seja, pois a sociedade é ímpar nesta questão e respeitá-la faz parte de nossa democracia.
VF – Quando o senhor era secretário de Saúde foi criado um impasse entre a administração do Hospital Manoel Gonçalves e a Administração Eugênio Pinto, já que esta reteve o repasse de verbas essenciais ao funcionamento da Saúde naquela instituição. Inclusive, o hospital chegou a contrair um empréstimo junto à CEF para sanear suas dívidas, mas o mesmo foi cancelado posteriormente. Para o senhor, esta situação já foi superada? Como o senhor analisa estes episódios atualmente? José Oscar – Muito se disse e opinou sobre toda essa situação, e claramente, são lados opostos de uma mesma moeda. Essa questão do empréstimo é uma situação que foi exaustivamente periciada pelos órgãos fiscalizadores e teve sua legalidade colocada a prova, para o que, nesta questão, se encerrou a discussão para mim. Sei que houve a abertura de um inquérito onde fui informado da seguinte conclusão, “Dessarte, inexistindo, por ora, indícios de dano ao patrimônio público e/ou improbidade administrativa, ARQUIVO estes autos e, em conformidade com a L.7347/85. art. 9, $1°, e com Lei Complementar n° 34/94 art. 70, submeto-os respeitosamente à revisão do Egrégio Conselho Superior do Ministério Público. Sendo assim, arquivados junto ao Inquérito onde figuraram como investigados: Eugênio Pinto e José Oscar Júnior, Prefeito e Secretário Municipal de Saúde de Itaúna – MG”. Depois de passar por tanta coisa, eu via com muita tranquilidade e transparência, o trabalho que estava sendo feito pela tríade administrativa formada pela Provedora Patrícia Nogueira, Dr. Délio Drummond e Sr. Édio. Até no momento de minha saída, vi avanços enormes com essas pessoas em muito mais do que ocorria no passado. Sempre tive minha opinião pessoal sobre as questões envolvendo a entidade, mas sempre agi tecnicamente. Como disse anteriormente, nunca foi o desejo de muitos, acredito que existe um caminho ainda muito grande a ser percorrido, mas que ainda não houve a grande mudança, a cidade está crescendo, um modelo mais ampliado de saúde deve ser formatado. A cidade tem tudo para, como sempre vislumbrei, ser um pólo de saúde por todas as condições que apresenta: uma universidade com visão responsável e social, com excepcional gestão tendo a frente Dr. Faiçal e um exemplar grupo de notáveis profissionais e itaunenses; uma rede de saúde em expansão e carente de novos profissionais de saúde; uma população receptiva e participativa quando respeitada; um grande número de profissionais de saúde com vontade de fazer o certo pelos pacientes e familiares. Mas, infelizmente, não houve ainda a integração para que todos os poderes fizessem pelo bem comum, falta mais ação política parceira e participativa. Estamos vendo outras cidades iniciando este processo e caminhando; espero que Itaúna, não se perca nessa escolha e tome sua decisão, pois o processo de crescimento em todas as áreas é muito maior do que se imagina, para a economia da cidade e para a população. E um hospital humanizado e independente é um ícone para isso.
VF – Como o senhor vê a saúde pública em Itaúna, antes e depois de sua gestão? José Oscar – A Saúde pública de Itaúna, sempre me pareceu povoada por interesses diversos, menos aqueles que manifestassem avanços reais à população. Foi diante disso que criamos um plano de trabalho que sempre tivemos em mente, que era a longo prazo, que precisávamos da iniciar um processo de libertação e evolução de novos caminhos para o atendimento à população. Foi o que fizemos, iniciamos um processo, compusemos e treinamos uma equipe, geramos o compromisso, e começamos a mudar alguns paradigmas. Mas sempre me deparei com frases como: “Isso não dar certo, porque a mentalidade colonialista é imperante!”; “Não sabemos se isso é possível em Itaúna”; “Tal classe de profissionais não aceita esse modelo de atendimento”; “Pra que mudar isso, se a população não precisa da melhoria disso?”. Essas e outras; ouvia muito disso e essa mentalidade foi combatida diretamente, fizemos de tudo para libertar a saúde pública e, certamente, enfrentamos resistências de interesses exclusos. Avançamos em muitas coisas, e em outras iniciamos o processo de melhoria, mas muito ainda se falta para fornecer à população itaunense uma saúde pública que ela merece, com respeito e humanização. Acredito que uma coisa importante foi termos quebrado alguns feudos que imperavam na cidade, é necessária uma abertura/alforria para melhorias e novos projetos.
VF – Qual foi o legado que o senhor destaca de sua gestão? José Oscar – Criamos uma base para que se gere novas perspectivas e avanços, e mudanças como essas não são fáceis, mais foi iniciada, e cabe agora à população continuar cobrando essas melhorias, porque a saúde é feita segundo as determinações do povo e seus representantes. No presente, percebo uma certa inércia, e isso é preocupante, pois espero que as filas estejam sendo combatidas e se aumente mês a mês o volume de serviços, exames, cirurgias. Qualquer descuido e poderemos retornar ao passado, quando pessoas dormiam na porta do hospital Dr. Ovídio e não possuíam nenhuma perspectiva de atendimento, uma evasão de médicos da cidade, e outras coisas que, espero, não retornem, a cidade não pode se distanciar do atendimento humanizado a população. Acredito que Itaúna pode ser um pólo de saúde, mas dependerá das escolhas que se fará nos próximos anos. Para isso, acho fundamental uma integração de projetos com a Universidade de Itaúna e seus alunos, uma divisão sanitária da cidade por zonas administráveis, uma ampliação dos serviços gratuitos à população, instituição de quatro clínicas especificas: Clínica do Coração, Clínica da Mulher, Clínica da Criança e Clínica da Terceira idade. Mas o futuro vai ter que ser constituído e a população é que vai definir isso. Rezo muito para isso, como itaunense.
VF – Na Ação Civil Pública que o MPE move contra o prefeito Eugênio Pinto e outros, há trechos de depoimentos em que o senhor e o médico Bruno Cauzin denunciam um suposto desvio de R$ 200 mil do setor de Hemodiálise da Saúde municipal, para supostamente beneficiar os quatro vereadores da base do prefeito na Câmara, para que estes não votassem a favor da cassação do mandato do chefe do Executivo. O senhor confirma estas denúncias? José Oscar – Fizemos nossas declarações, por perceber que estávamos sendo usados e tínhamos o direito de nos defender. Nossas declarações são claras e ao analisá-las o MP entendeu a veracidade de tudo, senão como as levaria a sério? Pelo que me consta já houve uma declaração de vereador, confirmando que realmente houve o saque dos R$ 200 mil, o que confirma nossas afirmações. E mais recentemente foi publicado num jornal outra declaração deste mesmo vereador dizendo que “um vereador estava bêbado e acabou contando tudo para nós”.
VF – Com base em que o senhor apresenta tais denúncias que, não resta dúvida, são das mais graves contra agentes do legislativo municipal em toda a nossa história política? José Oscar – Entregamos vasta documentação ao MP na autoridade da Dra. Sílvia Soares para que avaliasse e tomasse as providências que achasse necessárias, nos colocando inteiramente à disposição.
VF –Em sua análise, por que, quase totalidade da imprensa de Itaúna respaldou de maneira tão superficial ou mesmo omitiu o fato dessa grave denúncia sem precedentes, tanto no cotidiano, quanto na história municipal de Itaúna? José Oscar – Existem algumas pessoas com quem tenho respeito por sua postura sincera e direta como Elza Lopes, Adolfo Osório, Manoel Bernardes, Sérgio Cunha, Nascimento, vocês do Via Fanzine e outras pessoas. Mas, de outro lado, existem outros que, por si só, não merecem credibilidade e fazem jornalismo marrom, vivem pra criticar, fofocar e difamar os outros por interesse próprio ou de terceiros. Cada um sabe de si, cheguei a perguntar a um jornalista sobre o teor do que vocês publicaram no Via Fanzine e a resposta que obtive era que vocês não tinham credibilidade. Pelo o que vejo, credibilidade é uma questão de responsabilidade, e estamos vendo quem está sendo responsável e quem não está. Por isso, agradeço a oportunidade de expor minha versão dos fatos.
VF – Em reunião legislativa realizada na Câmara Municipal, o vereador Delmo Barbosa, seguido dos demais denunciados de terem supostamente recebido R$ 50 mil cada um (dos R$ 200 mil que teriam desaparecido de conta da hemodiálise), rebateram com veemência as acusações. Inclusive, chegaram a fazer ataques pessoais em público, ao senhor e ao médico Bruno Cauzin. O que o senhor tem a dizer sobre a reação desses vereadores? José Oscar – Não acredito que se fala a verdade no grito. A própria reação de todos deixou tudo sob mais suspeita, todas as acusações proferidas são pra mim, uma tentativa desesperada de reverter fatos, cada um que avalie por si só. Por que desse destempero? Por que dessas ameaças todas? Talvez, porque não tive medo de fazer o que é certo e fui ao MP e denunciei os fatos para uma apuração. Mas parece que a situação deles é desconfortável, imagina ficar defendendo toda essa situação diante de tudo que está sendo questionado pelo MP, pela população, pelos eleitores, sendo cobrado nas ruas? Mas vamos ver o desenrolar dos fatos.
VF – Inclusive, negando inocência, todos os quatro vereadores fizeram questão de frisar em suas falas na Câmara, que abririam todos os seus sigilos a quem desejasse. Via Fanzine requisitou formalmente, em ofício protocolado na secretaria da Câmara, o envio dos dados que os vereadores disseram que disponibilizariam, mas não recebemos nenhum retorno de nenhum deles. O senhor acredita que estes vereadores ainda poderão provar publicamente que não receberam mesmo nenhum dinheiro do erário para beneficiar o prefeito, conforme acusa agora o Ministério Público? José Oscar – Os atos de cada um falam por si. Quem não deve não teme. Diga com quem andas e direi quem tu és.
VF – O vereador Delmo Barbosa chegou a dizer em público que contratou com recursos próprios, um especialista em sonorização que teria emitido um laudo provando que o senhor teria mentido ao afirmar que ouvira a conversa dele com o prefeito a partir do local em que se encontrava, nas proximidades do gabinete. O que o senhor tem a declarar sobre isso? José Oscar – Cada um tem a liberdade de se apegar no que pode. Ele já confirmou que houve a reunião que declarei, a questão dos R$ 200 mil também foi comentada pelo mesmo. Mas, vocês mesmos, viram a maneira que fazem as coisas, ligam, como ligaram para vocês, fazendo “pedidos” sobre a exposição dos fatos e aí se viu. Mas ele está no seu papel de defender seus interesses e do seu protegido, se é importante assim fazer parte da base governista, se assim, no seu entendimento, é o que é o certo a fazer, é direito dele.
VF – O senhor mantinha algum vínculo com algum desses vereadores, da base do governo pintista, ou seja, Delmo Barbosa, Márcio Bernardes, Lucinho de Santanense e Paulinho Morada Nova, antes do suposto desvio de recursos da Saúde? José Oscar – Sempre os tratei com o respeito que sua posição como representantes do povo merece. E esperava o mesmo respeito deles, coisa que oportunamente podemos confrontar não lhes convém. Quando não se é mais útil para o interesse de alguns, somos descartados como papel velho. Vi algumas situações em que fui muito pressionado, por ter contato aberto com outros vereadores como Anselmo e Toinzinho, e isso não era aceito pela base de aliados. Mas nunca fui favorável a ter uma conduta de segregação, cheguei até a ser proibido de ir à Câmara, como fazia semanalmente anos antes, indo em cada gabinete de vereador conversar e tratar dos assuntos para focar os trabalhos e as cobranças da população. Eles sabem do que estou falando.
VF – Além das denúncias que notoriamente o senhor já apresentou, existe mais alguma coisa que o senhor gostaria de acrescentar ou revelar a respeito de sua passagem pela administração Eugênio Pinto? José Oscar – Me coloquei a disposição do MP, na pessoa da Dra. Silvia e Dr. Renato, em se fazendo necessário, prestarei os esclarecimentos pertinentes. Uma coisa que coloquei aos mesmos é questão de convênios que conseguimos junto ao Ministério da Saúde que nos preocupava e vejo que até o momento não foram feitos, sendo entre eles: um novo ultrassom; um novo raio X; um novo mamógrafo; o novo PSF para o Bairro de Garcias; a UPA - Unidade de Pronto Atendimento; ampliação do projeto de combate a dengue e do CAPS-AD Álcool e Drogas; a entrega dos medicamentos da Farmácia Básica direto nas residências; a ampliação da fisioterapia nas residências para os acamados. Esses projetos foram efetivados e seus valores foram disponibilizados alguns dias antes de minha saída, daí por diante era só fazer licitação/pregão para a compra e instalação, isso até agora não ocorreu, pelo que tenho conhecimento. São esforços que tivemos para colocar à disposição da população com um grande aumento dos atendimentos, e o melhor que é tudo de graça, mas pelo que sei, até agora, nada foi feito, seria triste perder esses recursos, sendo devolvidos por estarem parados nas contas. Por que ainda não foi feito nada, se os recursos estão nas contas para comprar os equipamentos? Não entendo.
VF – Como o senhor analisa as gestões de Eugênio Pinto no Executivo de Itaúna e, o número crescente de processos na Justiça envolvendo o prefeito e membros de sua administração, muitos dos quais, já exonerados da mesma? José Oscar – O melhor juiz de um governante e sua gestão é o povo e o voto, perante suas atitudes. Mas o que diferencia um gestor que tem uma gestão mais tranquila e outro que tem uma gestão atribulada? Quando aceitei o convite para ser secretário deixei bem claro ao chefe do executivo que eu iria fazer tudo a meu alcance para tentar melhorar as coisas no que diz respeito à saúde pública. Que faria gestão técnica em saúde e não politicagem na saúde, que ele tinha ciência disso e se era o que realmente queria naquele momento. Diante disso, iniciei minhas responsabilidades na secretaria de saúde. Acredito que tudo se resuma no líder, no comandante, é ele que define a rota e forma de comando, em alguns casos a diferença entre veneno e remédio é a dose; penso às vezes que, se essa não seria uma forma de pensar isso tudo.
VF – Temos visto em Itaúna, a cada ano, a receita e o orçamento aumentar substancialmente, mas a qualidade de vida diminui drasticamente. Se nada é feito de novo, sequer restaurado pelo governo municipal e se o pouco que já tem acaba por ser destruído inconsequentemente – vide teatro, praça, obra na Praínha, suposta transposição de linhas férreas, vários projetos emperrados etc. Como o senhor vê estas lamentáveis ocorrências e, por que a Justiça continuaria a permitir que notórias barbáries administrativas (mesmo que documentadas e comprovadas licitamente), continuem a ser perpetradas pelas mesmas pessoas há muito já denunciadas? José Oscar – Vejo como os demais cidadãos, mas não acredito que o deboche seja uma maneira eficiente de se cobrar resultados, que vai ficar pronto para a Copa do Mundo, que enterraram fulana ou ciclana lá... Resolve o que? O povo tem formas e o poder de fazer as coisas funcionarem, pena que se espera que alguém tome sempre frente a tudo. Devemos sim, cobrar de quem é pago para fiscalizar, tudo não deve ser de conhecimento público? E o que nos foi apresentado? Devemos também confiar na Justiça e em seus artifícios e protocolos, mesmo que burocráticos, mas isso é assim, pior é quando os bons não fazem nada.
VF – Para o senhor, de que forma este desmazelo pela coisa pública e essa esnobação pela impunidade podem ser combatidos? José Oscar – Primeiro com cobrança e fiscalização, segundo com o voto. Essa é a maior arma do cidadão na democracia, não basta também só reclamar e prometer; tem de ir e fazer mesmo. Acredito que o povo de Itaúna em breve vai reagir de uma forma que nunca se viu antes, pois é visível o nível de contentamento de todos.
VF – Diante às denúncias apresentadas e, porventura, outros aspectos do desconhecimento público, o senhor, mesmo atualmente se encontrando fora de Itaúna, se sente ameaçado de alguma maneira por conta de seu envolvimento com a administração Pinto? José Oscar – Sim. Isso tem acontecido. As pessoas que conviviam comigo na Secretaria e na Prefeitura me colocam que não podem manter contato comigo por medo de perseguição. Fui intimidado, humilhado, hoje vivo exilado e entendo e respeito o por que de as pessoas não poderem falar e ter contato comigo. Mas tudo passa, agora é uma questão de tempo.
VF – O senhor acredita em Justiça? José Oscar – Sim. Espero que se faça justiça de forma limpa e transparente. Aos justos a justiça. Que se demonstre que a verdade sempre vence, é assim que fomos criados e espero que não seja diferente, não podemos perder a esperança nela.
VF – Agradecemos pela entrevista e pedimos para nos deixar suas considerações finais. José Oscar – Primeiramente, gostaria de agradecer pelo convite e pela oportunidade de relatar minha versão dos fatos. Sou itaunense, e me orgulho disso, tentei contribuir da melhor forma que pude para trazer a população uma saúde pública mais humanizada e justa, espero que as contribuições que eu trouxe possam estar ajudando, mesmo que de forma mais simples, a vida dos que têm precisado. Iniciativas como o SAMU 192, foram fruto de um esforço muito maior do que se imagina, mas toda vez que fico sabendo de um idoso que é ajudado, uma criança que é resgatada, fico feliz de ter me empenhado, apesar do ceticismo de alguns. Existe um caminho muito difícil e grande a ser percorrido ainda, amadurecer é preciso. Mas os desafios sempre estarão á frente para serem enfrentados, e o povo de Itaúna não foge de uma meta. Agradeço a todos os itaunenses que demonstraram carinho comigo e minha família, e sinceramente, desejo sucesso em tudo que se propuserem para o bem da cidade e de seus cidadãos, mantenham a moral elevada, a esperança no futuro, pois ele começa hoje, em cada um de nós. Muito obrigado e meus sinceros respeitos a todos. Força e saúde, com dignidade e respeito.
- Foto: Arquivo VF.
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- Extra: Clique aqui para assistir na íntegra a reportagem do JN em Itaúna.
- Produção: Pepe Chaves |
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