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Saulo Andrade Chokito

 

 

Saulo de Castro Andrade, o Chokito, é o fundador da Cia. Uniarte e do Grupo Estudantil e Comunitário de Teatro Florescer. Iniciou sua carreira na arte, como palhaço nos picadeiros dos circos, nos quais participou. Teve uma curta passagem por grupos religiosos, como ator, em destaque o Ministério de Teatro Jeová Jiréh. Teve uma passagem de destaque, pelo Grupo de Teatro Luz, como ator, grupo no qual se considera filho - em Sapucaia/RJ. Reside em São Tomé das Letras onde desenvolve projetos teatrais voltado à comunidade.

 

 

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De além Paraíba a São Tomé:

Além do Destino: os passos de uma vida!

Todos nós temos uma história única, marcada por amores, desamores, paixões, ódios, aversões e toda uma gama de sentimentos terrenos, aos quais estamos aqui para experimentá-los, traduzindo-nos no que realmente somos e naquilo que influenciamos o mundo à nossa volta.

  

Receber a vida, nascer, também é a resposta por àqueles que te esperam, aguardam ansiosos, por sua chegada; meses que antecedem, com um programa de organização e expectativas.

 

Os caminhos traçados são instrumentos para a chegada no objetivo que a sua vida valerá. Todos temos um objetivo, todos nós, somos alvos de uma missão e de uma exclusividade.

 

O relógio de um hospital, no município de Além Paraíba/MG, determinara a hora de um nascimento. Nascer é ter a vida em formação, sentir pela primeira vez o mundo e os seus diversos caminhos - que anseiam por alguém que os trilhe. Receber a vida, nascer, também é a resposta por àqueles que te esperam, aguardam ansiosos, por sua chegada; meses que antecedem, com um programa de organização e expectativas - pais que antes dos filhos nascerem, já se sentem responsáveis pelo "projeto de vida" dos seus descendentes.

 

Fui o segundo filho na família de minha mãe e o primeiro de meu pai, vim naquilo que se chama Independência do Brasil - o que sempre encarei como presságio desta vida, seria necessário ter coragem e buscar a independência. Também fui recebido em minha família materna e criado por lá, Sapucaia, interior fluminense. Uma infância sendo doutrinado pelo Cristianismo Protestante, no qual, minha família professava e tinha a certeza, que eu era também escolhido para tal.

 

Minha infância foi típica de um menino crescido em lar conservador desajustado da classe média. Desajustado, por que? Vivíamos em uma casa à beira rio, com um lindo jardim. Era um complexo, na casa de baixo - vivia minha vó, minha tia e o meu irmão (esse era o primogênito de minha mãe, fruto de seu primeiro casamento); na casa do meio, era eu, minha mãe e o meu pai, tínhamos ainda um terraço.

 

O primeiro filho de minha mãe, por mais que fôssemos atendidos materialmente naquilo que queríamos, enfrentou suas pedras no caminho e revoltou-se. Convivi ao lado dele na infância, observando o caos da dependência química. Esse foi preso em 2005, por atentado violento ao pudor.

 

Nesse período, minha mãe era funcionária do Estado e meu pai, construtor empreiteiro, ambos tinham os dias corridos, mal estive presente no convívio com eles nesse período; por mais, que eles fossem materialmente presentes.

 

O material nunca deveria substituir o primordial, a atenção. Essa os filhos, carecem. Lembro-me bem de minhas cuidadoras, e destaca-se a minha vó e minha tia, que sempre zelaram por seus netos e sobrinhos, respectivamente. Foi nesse tempo, que saía portão à fora, com uma caixinha de som - para expressar a dança, a criação corporal e a poesia para os vizinhos que passavam em frente casa. Tudo ia, apesar da falta que a família sentia do meu irmão preso, era também um alívio.

 

Na véspera do Natal de 2006, quando eu e meus pais, íamos visitar minha vó paterna em Paraíba do Sul, recebemos a notícia que o meu vô - pai de minha mãe, tinha falecido vítima de um câncer na bexiga que o tomou por inteiro.

 

Após o sepultamento do vovô, o cadeado do destino rompeu-se, desencadeando tantas coisas intensas, que já me fizeram tristes e hoje, acredito que foram fundamentais para ser que eu sou atualmente.

 

Meu pai era tomado por um amor verdadeiramente intenso por minha mãe, uma paixão realmente avassaladora. Já minha mãe, após a morte do vovô, se desgostou um tanto quanto. A lealdade e o amor pelo meu pai, esfriou-se, o que abriu portas para uma traição.

 

Eu via meu pai pouco, era mais os fins de semana; meu pai, era explosivo, o que me dava medo de sua ignorância. Sempre fui apegado à figura feminina em minha família.

 

Quando minha mãe começou um caso com um funcionário da empresa de meu pai, eu fiquei ao lado dela. Sem pensar em tudo que estaria para acontecer.

 

O drama perdurou até o dia 02 de setembro de 2007, cinco dias antes do meu aniversário. Quando meu pai, sem se despedir, foi pelas estradas e eu espero o seu beijo de despedida até hoje. Jogou seu carro em direção à uma árvore e faleceu no local.

 

A família dele atestou suicídio. Enquanto a de minha mãe, culpou o veículo. Era tanta informação, não sabia aonde começar e nem consegui derramar lágrimas em seu sepultamento. Eu estava destinado a crescer sem um pai, e isso eu não havia concebido.

 

Pois bem, o caminho continuava no chamado para prosseguir; minha mãe se atormentou com a morte de meu pai, e até 2014, lidei inúmeras vezes com tentativas de suicídio dela, que na maioria tive que intervir.

 

Deparava-me sem um pai presente e sem os cuidados de uma mãe, os cuidados eram reversos. Senti a ausência dela, quando ela dava mais atenção aos seus companheiros. Senti vergonha, quando tinha que sair de uma brincadeira, para ir buscá-la na ponte, onde iria se jogar. Senti medo, quando ia buscá-la alterada em seu local trabalho. Não reclamava, com receio de machucá-la. Em silêncio permanecia! Lidando com sua falta e sua ausência.

 

As coisas não ficaram bem, quando o irmão preso, tornou-se foragido. A revolta o atingiu e a sua força perturbou sua família, que era agredida, roubada e extorquida. Família que procurava o juízo e depois se arrependia; soltava e prendia, com o vai e vem do vento e da água do mar. Nesse tempo tive um contato precoce com o Direito e as Leis.

 

Foi-se também, a infância de um menino que tivera que assumir suas responsabilidades cedo demais; e, contudo, a maturidade precoce o transformara em uma criança diferenciada.

 

Nesse tempo, durante cinco anos, participei como palhaço local dos circos que eram montados na minha cidade. Por iniciativa exclusivamente minha, solicitava trabalho e era atendido. Uma experiência que está registrada nas entranhas de minha alma até hoje.

 

Em 2012, abria mão disso tudo, para entregar-me ao batismo nas águas na Igreja Evangélica. Entreguei-me também, ao fanatismo que rapidamente fez com que crescesse no meio deles. Andava de terno e gravata, com bíblia no braço, em qualquer lugar que estivesse estava eu, levando a palavra que acreditava ser verdade. Rapidamente obtive destaque, fui pregador em diversas igrejas da região e no Estado, além de conduzir o programa na rádio. Em dois anos, fiz muita coisa, devido a dedicação que sempre dei àquilo que me submeti a fazer; trabalhei com arte na igreja também, com teatro e dança.

 

Em 2014, após dois anos de dedicação intensa, abri os meus olhos e cansei de tantas doutrinas que ferem o mandamento do amor; no coração, a discórdia pelas ideias retrógradas, preconceituosas e intolerantes, deram lugar à luz da busca do autoconhecimento, da satisfação e do amor.

 

Em 2014, saí oficialmente do Protestantismo; iniciei uma caminhada no Catolicismo, que não perdurou por muito tempo. As mudanças começaram um ano antes, quando me entreguei com amor e dedicação ao elenco do Teatro Luz. Fui ator do Teatro Luz, aluno de Dauton Costa - o qual considero meu pai dos palcos e o Teatro Luz a minha casa.

 

Em 2014, iniciei na Ordem DeMolay - ordem patrocinada pela Maçonaria, pautada em virtudes cardeais e nas liberdades intelectual, religiosa e filosófica. Em 2016, tomava posse como Mestre Conselheiro do capítulo que iniciei - o Kleber Alves Rayol. Ordem pela qual tenho o imenso carinho e respeito, sendo marco de conhecimento e maturidade em minha juventude.

 

Na saída da Igreja, experimentei coisas novas e muitas delas fizeram com que eu me conhecesse melhor, me permitindo. Encontrei-me, e assumidamente saí do armário, falando de minha Bissexualidade para a sociedade. O amor pelo teatro despertou-se nessa época.

 

Houve um tempo, onde era repleto de amigos. Coisa que sempre fui carinhoso, amoroso e prestativo. Tentando ser presentes de diversas formas, embora, sendo muitas vezes sugado. O caminho pelo qual trilhei, havia confundido um pouco minha cabeça; me sentia alguém mais velho que era, sentia em meus ombros uma responsabilidade maior que eu poderia aguentar.

 

Em 2016, por iniciativa minha, decidi propor serviços de estágio não remunerado para o Escritório de Advocacia Dr. Helton Fonseca; muito aprendi e muito pude colocar em prática, mas rapidamente me confundi. O ego e o orgulho, afastaram-me de minha essência, por mais que eu gostasse demais das companhias que tinha no mundo judiciário. Desde a figura do juiz da Comarca, que sempre tive um carinho e respeito, ao advogado para quem trabalhava.

 

Aos poucos uma depressão foi-se enraizando no meu coração, sem que eu e o meu próximo percebessem; perdi o sentido de muitas coisas, e afastei daquilo que me importava.

 

Me entreguei à mágoa nas amizades e colhi separações, na família, não havia coisas novas. O irmão continuava a atormentar a família, e por mais que não quisesse me envolver, tinha que lidar com minha mãe dizendo que se não ajudasse, seria o estopim para ela se matar.

 

Com tudo isso, percebi que meu tempo ali, em Sapucaia, havia se esgotado. Não era mais ali que deveria estar, firmei minha cabeça, com coragem e, sozinho, mudei-me em 2017, para Juiz de Fora/MG - inicialmente, desejando continuar trilhando o caminho pelo Direito. Esse Direito que eu tanto gostava, mas fez com que eu perdesse minha identidade, ser alguém que não era. Caminhei nesse tempo, no Espiritismo de Kardec e na Umbanda.

 

Em junho de 2017, comecei a escrever a dramaturgia do espetáculo "Além do Destino"; em agosto, entrei no elenco do Grupo Divulgação, que em dois meses pude reter grandes ensinamentos, conduzidos por Zé Luís Ribeiro e Marcinha Falabella.

 

Em setembro estreava o espetáculo Além do Destino - em Sapucaia, escrito por mim e baseado na minha vida; não aguentei, tentei um suicídio assim que as cortinas fecharam. Não morri, mas tive a viagem do chamado.

 

Retornei para Juiz de Fora, saindo do Grupo Divulgação, iniciei a fundação da Companhia Uniarte - na Casa de Cultura da UFJF.  Em 07 de novembro de 2017, formava a primeira turma, sob minha orientação e direção. Turma que reuniu 20 alunos, estreando o espetáculo "O Canto do Menino Deus", no mês de dezembro, em Juiz de Fora.

 

Após todo o trabalho, tive uma recaída, lembrei-me de tudo, toda a minha vida e tudo que havia feito. Racionalizei demais, cortei os pulsos no dia 23 de dezembro de 2017. Amanheci fraco, com a ligação de minha mãe, porém resisti e fui passar o Natal em Sapucaia, sem tocar muito no assunto. Quando retornei, decidi fazer um tratamento à base de Maconha, o que trouxe resultados extremamente positivos. Retornei ao trabalho da Cia. Uniarte.

 

Em março de 2018, o Intensivão Teatral, reuniu mais de 50 alunos, maioria que permaneceu no elenco da Cia. Uniarte, após às aulas. As produções permaneceram até agosto de 2018 em Juiz de Fora, quando recebi o chamado e mesmo sem nunca ter conhecido São Tomé das Letras, resolvi fazer minha mudança para cá e continuo me descobrindo.

 

Esse é um resumo que divido sobre os meus passos e minha história, não tenho objetivo de expor meus problemas familiares, mas auxiliar os que passam por tais, através da minha história.

 

A arte foi porto seguro, motivo de meu amor e a certeza para que estou aqui. Coragem tive que enfrentar, sabendo que temos dentro nós, esse fogo que não somente nos ilumina, mas ilumina quem está ao nosso lado.

 

Seja você, mas seja com um toque de amor. Ame a si, para amar o próximo. A revolta nunca é caminho pra nada, a compaixão sim, através dela que somos pacientes e teremos o melhor.

 

Busque conhecer a si, o que importa para você. Não deixe que o outro coloque sobre você, o que considera melhor. Somos individualidades, somos diferentes!

 

- Foto: Divulgação.

 

 

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