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Crônicas da Vida Real

 

Brumadinho:

Da cobiça à extinção de riquezas

Ali na Serra da Moeda, em meio aos terrenos de mineradoras, à sua volta havia um acanhado local paradisíaco voltado para filosofias espiritualistas, onde passei parte fundamental da minha vida e viria a conhecer pessoas que me somaria muito.

 

Por Pepe Chaves*

Para Via Fanzine

27/01/2019

Detalhe da Serra da Moeda em Brumadinho-MG.

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Ligação que me moldou

 

Conheci a bela região de Brumadinho ainda muito jovem, quando descobri uma comunidade alternativa chamada Mãe d’água encravada numa bela região natural que visitei no início da década de 1980, instalada numa das encostas da Serra da Moeda. Nesse local de extrema beleza havia uma pequena comunidade de pessoas que levavam uma vida alternativa, sem o consumo de carne, cigarros, bebidas ou drogas, viviam apenas do plantio da terra e da culinária vegetariana.

 

E ali na Serra da Moeda, em meio aos terrenos de mineradoras à sua volta estava um acanhado local paradisíaco voltado para filosofias espiritualistas, onde passei parte fundamental da minha vida, fazendo três visitas dos 17 aos 19 anos. Tomando um dos flancos da serra, o terreno desta comunidade tinha uma bela cachoeira e havia uma boa estrutura de alvenaria para abrigar os moradores – os fixos ou aqueles que estavam só de passagem. Havia vários dormitórios coletivos e individuais, área de cozinha, refeitório, banheiros, salas para meditação e ioga e etc. A água consumida descia da própria serra numa bica intensa que caia em um grande tanque, onde homens e mulheres tomavam banho diariamente ao entardecer.

 

Nas três visitas que fiz à Mãe d'água somente uma viajei sozinho. Na época, estiveram comigo lá alguns bons amigos de Itaúna, onde eu morava, como Fernando Chaves, Elimar Matos (Zé Mil) e o primeiro que lá chegou comigo: o saudoso Fábio Arcanjo. Lembro-me que Fábio Arcanjo e eu fomos de carona de Itaúna até lá (dissemos às nossas mães que iríamos acampar em um sítio em Itaúna). Lembro-me que Fábio e eu escrevemos um diário dessa viagem, contando detalhes das caronas que pegamos, dos lugares que passamos e tudo o que comemos até chegar em Mãe d'água. Infelizmente este diário foi perdido na viagem.

 

Nas demais visitas fui de ônibus até o pé da serra e peguei carona para subi-la. Lembro-me que na minha segunda visita ao local, Fernando e eu vivemos uma verdadeira aventura para chegar ao topo da serra, onde ficava a comunidade. O ônibus vindo de Belo Horizonte nos deixou na rodovia, mas havia vários quilômetros de uma subida violenta até atingir a comunidade. Então, tentamos carona com todos os veículos que subiam, mas somente um caminhão carregado de manilhas de concreto parou para nós. Não tivemos escolha e subimos na carroceria, cheia de manilhas enormes, com mais de um metro de diâmetro. Ficamos dentro de uma delas enquanto o caminhão subia aquela serra altíssima. E nos veio a paranóia de as manilhas se soltarem da carroceria e nós, ali dentro, rolássemos serra abaixo... Foi tenso. A gente entrou numa manilha que estava  encostada na cabine, ficamos agachados lá dentro e durante vários quilômetros podíamos ver só o que se passava dos lados. Não víamos o chão, mas somente os abismos e pirambeiras da serra, o que nos causava um intenso pavor daquelas manilhas desempilhar ali e rolar a serra co ma gente dentro... Quando o caminhão parou no topo da serra e nós descemos, sentimos que nascemos de novo...

 

Montes gêmeos na Serra da Moeda.

 

Feira Hippie e Sarva Ioga

 

A comunidade de Mãe d’água ali existiu por muitos anos e se sustentava do plantio de hortaliças e legumes vendidos nos finais de semana na conhecida Feira Hippie de Belo Horizonte. A comunidade possuía um veículo e seus membros levavam a produção para a capital onde sempre vendiam tudo em uma barraca montada na Feira Hippie da avenida Afonso Pena. Eram comercializados produtos vegetais orgânicos, além de pães integrais e quitutes naturais feitos na cozinha da comunidade.

 

Nas três ocasiões em que visitei a comunidade eu trabalhei na terra em troca da hospedagem e comida. Mas havia também a opção de se pagar uma taxa de hospedagem e ficar ali apenas para "curtir" o lugar. O que não era o meu caso, primeiro porquê o dinheiro era pouco, mas também porquê eu queria trabalhar com a terra, o que jamais havia feito até então. Assim, plantei cenouras, cuidei de tomates, hortaliças, conheci plantas, capinei canteiros, aprendi técnicas de plantio e a trabalhar com compostos orgânicos.

 

A comunidade Mãe d’água era adepta da sarva ioga, cujo mestre e criador era o chamado Sarvananda, um senhor, proprietário daquelas terras e mentor de todos. Diariamente às 18h, tudo parava e o Sarva comandava um ritual iogue a todos os presentes que se sentavam sobre tatames na sala de meditação, onde faziam orações e a entoação de cânticos e mantras, sob a queima de incensos indianos. O Sarva era um senhor idoso e franzino, de cabelos branquíssimos batendo nos ombros, nascido na então Tchecoslováquia, mas radicado no Brasil há vários anos.

 

Era uma figura singular que irradiava uma aura de sabedoria e uma exemplar disciplina. Sarva era um sujeito atencioso, dono de uma fala mansa, mas também se mostrava uma figura bastante enérgica e disciplinadora. Ao chegar no Brasil, ele comprou aquelas terras e ali vivia ao lado de sua esposa, uma senhora muito branca e corpulenta chamada Dara - que adorava comer o fruto da lobeira, típica planta do cerrado mineiro que, dizem, causar dor de cabeça se consumida.

 

Na comunidade conheci várias pessoas, vindas de toda parte do mundo que ali chegavam e se encontravam por algum motivo alheio à compreensão. Numa atmosfera de paz, conviviam ali em harmonia entre crenças e filosofias tão distintas, por dias, meses ou anos. No meu caso, em cada visita eu permanecia por lá em média de uma a duas semanas. Havia homens e mulheres, jovens e velhos, pessoas de todas as idades, alguns trazendo também os filhos pequenos. A comunidade tinha sua própria escola para alfabetização, dirigida por duas professoras que comandavam de 15 a 20 alunos. Havia em Mãe d'água muitos esotéricos diversos, hindus, magos, bruxas, hippies, iogues e outras figuras completamente desprendidas do sistema. E, acredite, havia também cachorros vegetarianos, muito bem cuidados por nós...

 

Acredito que cada um daqueles cidadãos do mundo não se encontrou com o outro por acaso em um mesmo tempo e espaço, naquelas terras, longe de onde nasceram. Mas ali estavam juntos por algum motivo, numa espécie de purgatório terrestre, onde cada qual trazia uma história singular pra compartilhar. Lembro-me de muitos fragmentos de minhas passagens por aquelas plagas... Havia um sujeito estranho do Rio Grande Sul, outro do Rio de Janeiro, um de São Paulo, outro da Itália, e um da Índia...

 

A região guarda importantes vestígios do período imperial: muros de pedras construídos por escravos no século 19.

 

Em busca da espiritualidade

 

Assim, ainda muito jovem, eu pude manter contatos interessantes e absorver da experiência de vida trazida até mim por aquelas pessoas que rodaram o mundo e tanto trabalhavam sua espiritualidade. Ali conheci o leal violeiro Tiagadassa - também compositor de músicas incríveis - e sua esposa Shanti, duas figuras bastante positivas na minha vida. Também pude conhecer os iogues Rina e o Baktidassa, com histórias de vida exemplares. Muito me somou suas experiências de caráter transcendental e espiritualista. Ainda lembro-me de uma forte experiência de "deja vu" que tive ao chegar no lugar e me recordar da cozinha do mesmo, a qual vi em um sonho que tive meses antes de estar lá. Reconheci até certos detalhes... Foi incrível.

 

Posso me recordar do saboroso pão integral doce produzido pelo Bakti. Aliás, não posso reclamar da comida vegetariana de lá, baseada em arroz, feijão, trigo e milho, tudo integral, incluindo também leite e ovos e muito chá (sem açúcar, claro) durante o dia todo. Mas o "doce" que eu mais gostava era coalhada com salada de frutas e açúcar mascavo. Comia-se também muitas frutas, a maioria, cultivada lá mesmo.

 

Enfim, através de todas estas experiências e esses contatos com essa gente diversa e das ações práticas vivenciadas naquele lugar, eu pude aprender muito do positivo que impactou diretamente na minha personalidade humana e humanista.

 

Ali em Brumadinho, eu vivi alguns bons dias da minha adolescência, na efervescência da minha formação humana e espiritual, absorvendo uma consistente carga de vida que viria a moldar o meu comportamento e, decerto, até o meu destino ao longo de toda a minha vida. Ali bebi de uma fonte autêntica, ouvindo músicas indianas, sob influências de uma filosofia vegetariana, mais disciplinada; da comida natural; do odor de incensos; das vibrações dos mantras, e os sons da natureza latente ao meu redor, traduzindo tudo em uma vivência mais sadia.

 

Tempo de grandes descobertas existencialistas, aplicadas aos ideais da religiosidade própria que eu já forjava desde aquela época. Então, tudo isso muito somou aos meus conhecimentos básicos, como os fundamentos da ioga que ali aprendi, os exercícios de do-in, as meditações ao entardecer e até as noções de quiromancia que incorporei naquele lugar. Dormíamos no máximo às 21h para estarmos de pé às 5h para tomar café e trabalhar. Era um outro mundo. Mas, fato é que tudo passa...

 

Depois de algum tempo que não a visitava, eu soube que a comunidade acabou sendo vendida a um particular que transformou tudo em seu sítio, e o Sarva se mudou da região, não se sabe para onde. Mas antes disso, o seu entorno, ali no alto da Serra da Moeda, já estava repleto de condomínios de luxo, alguns até clandestinos, derrubando matas em áreas de preservação permanente (APPs) e criando pavimentações e moradias de luxo. Hoje imagino que a exploração imobiliária esteja ainda maior num local de tão cobiçada beleza natural. Os crimes contra Brumadinho não se restringem somente às atividades irresponsáveis de algumas mineradoras, mas destacadamente à ganância imobiliária, por vezes, driblando a legislação e arrebatando áreas decretadas como de preservação.

 

Naquela serra, em um local ermo e distante da então capital mineira Villa Rica (Ouro Preto), os republicanos cunhavam moedas falsas, até serem descobertos e expulsos pelo Império. Ficou o nome: Serra da Moeda.

 

O turismo e a moeda

 

Facilitados por sua proximidade a Belo Horizonte, diversos pontos naturais de Brumadinho, especialmente a Serra da Moeda, têm recebido um número crescente de turistas. Muitas pousadas e hotéis-fazenda estão sendo abertos para receber os milhares de turistas que buscam aquelas paragens anualmente. A última vez que estive lá foi em 2015, visitando a Serra da Moeda, onde conheci alguns dos vestígios das épocas do império. Havia calçadas centenárias e muros de pedras feitos por escravos, tudo perdido em meio às matas. Em 2016 também estive na região, no município de Mário Campos onde há várias pousadas e belas paragens, localidade essa bastante atingida pelo atual rompimento da Barragem do Feijão.

 

Curiosamente, há ali na Serra da Moeda as ruínas perdidas de uma antiga ponte de pedra que teria sido explodida pelo Império. Próximo dali havia um covil dos republicanos, onde cunhavam falsas moedas. Conta-se, que a ponte fora explodida para impedir que os republicanos saíssem dali com o dinheiro falso. E daí vem o nome Serra da Moeda: porque ali havia forjas escondidas em um local usado para que os republicanos cunhassem moedas falsas (quase idênticas às autênticas) usadas então na luta em prol do seu ideal que viria a suprimir o Império - o que ocorreu mais tarde. Estes ativistas atuaram naquela região até serem descobertos pelo Império que atacou o local usando dinamites e desbaratou com a fabricação da falsa moeda, que acabou por nomear aquela conhecida serra de Brumadinho.

 

Pelo resumo aqui exposto, percebe-se que Brumadinho é um dos municípios que faz parte da minha história de vida e pelo qual tenho um carinho especial. Minhas curtas mas precisas passagens por aquelas terras não foram um mero acaso ou devaneio. Até hoje me parece ser aquela uma região particularmente familiar... E saber desta tragédia provocada por uma mineradora em Brumadinho é de cortar o meu já velho coração, ao imaginar que a lama tóxica sufocou pessoas, paisagens e animais por extensões quilométricas de um local de destacada beleza natural. É lamentável ver essa terra tão verde sangrar lama... É triste sentir a doçura de um passado ofuscada pelo amargo do presente. Salve, Brumadinho.

 

* Pepe Chaves é editor do diário digital Via Fanzine e da ZINESFERA.

 

- Fotos: Pepe Chaves/Arquivo VF.

 

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